A Neta do Arcediago

Chapter 13

Chapter 133,904 wordsPublic domain

--Eram horriveis as visagens d'aquelle infeliz!--continuou o padre.--Disse-lhe que viesse a minha casa; dei-lhe de comer... Sahi, deixando-o á mesa. Fui dar ordem n'uma hospedaria para que o sustentassem, e mandei-o para lá... Que é isto?--interrompeu-se impetuosamente Madureira, tomando Assucena nos braços--Minha filha...

Estava desmaiada.

Os haveres da neta do arcediago estavam reduzidos á quinta do Lumiar. Extremas economias permittiam-lhe pagar diariamente duas missas por alma dos seus bemfeitores, dar jantar a vinte pobres, e sustentar-se com muito pouco.

Assucena não aceitára nunca uma mealha de casa de seu padrasto, remira-se com o seu pouco, embora sua mãe esgotasse todos os subterfugios para melhorar-lhe as commodidades. Que poderia ella fazer em bem de Luiz da Cunha?

Padre Madureira tinha apenas o seu mesquinho ordenado do cabido, como beneficiado simples. Tambem não podia.

--Que faremos?--perguntou ella ao padre.

--Tenho pensado n'um meio; e não vejo outro.

--Qual? foi Deus que lh'o inspirou?

--Arranjarei quem empreste quatrocentos mil reis, com juros, e o pagamento a prazos, hypothecando esta quinta. Com este dinheiro alcançarei um emprego para Luiz da Cunha, longe de Lisboa.

--Sim, sim, longe de Lisboa.

--Dir-lhe-hei que é o mais que posso fazer-lhe.

--Sem dizer-lhe que eu concorri para isto...

--Farei a sua vontade. É conveniente que elle o ignore.

Dias depois, era despachado João Maria das Neves escrivão do Juizo ordinario do concelho de Ribeira de Pena, na Provincia de Traz-os-Montes.

João Maria das Neves equivalia a Luiz da Cunha e Faro. O requerente nunca subiu as escadas da secretaria. O seu agente foram os quatrocentos mil reis da neta do arcediago.

Na ante-vespera da sua sahida de Lisboa, Luiz da Cunha quiz saber o que era feito de Liberata.

Ao escurecer, porque não sahia de dia, foi á rua de S. Bento, e parou defronte da casa n.º 40. Viu as janellas occupadas por um rancho de senhoras, e deduziu que Liberata já não morava alli.

Accendeu um cigarro na vela do tendeiro, que morava defronte, e como por mera curiosidade perguntou quem morava defronte.

--É a familia d'um empregado.

--Aqui ha tres annos morava lá uma mulher...

--Era boa rolha! chamava-se Liberata.

--Justamente... Que é feito d'essa mulher?

--Eu lhe conto o que sei. Depois que aqui á minha porta deram umas facadas n'um tal Luiz da Cunha que morava no Campo Grande, e que lhe comia a ella a mesada que certo figurão lhe dava, a mulher metteu-se com um jogador que a trazia nas pontinhas. Chegou a ter duas seges a bebeda![1] Vai, se não quando, a mulher adoece, e o tal jogador nunca mais ahi veio. Esteve de cama onze mezes, vendeu tudo quanto tinha, os trastes até fui eu que lh'os penhorei por cento e cincoenta mil reis que me devia do grão para os cavallos, azeite, arroz, &c. &c. &c.

[1] Respeitemos a fidelidade.

--E morreu?

--Qual morrer! A mulher tem sete fôlegos como os gatos. D'alli foi para o hospital acabar de se tratar, e não ha muito que me disseram que a viram no Bairro Alto; mas mora á porta da rua, para não ter o trabalho de subir e descer as escadas. É no que veio parar a tal matrona das carruagens.

--Sabe em que sitio ella mora?

--Eu, graças a Deus, não ando por essas casas, mas quem me disse que a vira foi aquelle barbeiro que mora acolá! Se tem muito empenho em sabêl-o, isso é facil,

--Faz-me muito favor.

O tendeiro voltou, dizendo que Liberata morava na travessa da Agua da Flôr.

Luiz da Cunha agradeceu cordialmente a indagação, e subiu pela travessa Nova, mais absorvido que nunca na inconsequente trapalhada das cousas humanas.

Ao voltar na esquina da rua da Rosa das partilhas viu uma mulher de chale vermelho, saia branca, lenço atado na cabeça com as pontas em grande laço para as costas, sahindo d'uma taverna abraçada com um marujo.

Pela voz, de certo era ella, cantarolando um landum que outro marujo arpejava na guitarra. Acabando a cantiga, o marujo phylarmonico, fazendo um bordo largo de encontro a Luiz da Cunha, grunhiu:

--Ponha-se á capa, quando não vai a pique, sû paralta!

Luiz da Cunha recuou.

--Canta Liberata... se não queres levar com a banza nos rizes!--tornou o marujo, perfilando-se com o grupo.

E Liberata cantou outra copla das privilegiadas da travessa da Agua da Flôr.

Ella e os marujos sentaram-se na escaleira d'uma porta.--Vieram depois outros marujos e mulheres em saia branca batendo as palmas, e saltando ás costas dos marinheiros, que as indemnisavam dos carinhos com amaveis pontapés.

O escrivão do juiz ordinario permaneceu encostado á esquina da rua da Rosa, até ás dez horas. Os marujos debandaram, e Liberata recolheu-se sósinha.

Luiz bateu á porta.

--Quem nos honra?--perguntou ella.

--Abre.

--Quem és?

--Abre sem receio.

--Não conheço flamengos. Diz lá o teu nome... Se és o patavina d'hontem, vai-te com o diabo.

--Abre, Liberata.

--Eu conheço esta voz...--murmurou ella.

Abrindo a porta, recuou, exclamando:

--És tu, Luiz?!

--Em que estado te encontro!

--Que queres? tornei ao que fui... Nada de lamurias. Como tu me conhecestes, isso é que eu admiro! Pois vês em mim algum signal da mulher de ha tres annos?!

--Apenas te conheço a voz, e os olhos. Que é isso que tens na cara? parece que te queimaram com vitriolo?

--Estas nódoas vermelhas?

--Sim.

--Eu sei cá o que isto é? Está bom... não fallemos em mais nada, senão mêtto uma faca no peito. Eu já fujo de abrir a porta a ociosos que me vem fallar na minha formosura, e nas minhas carruagens! Acabou... Nem carruagens, nem formosura. O diabo o deu, o diabo o levou. Tu tambem estás acabado! Disseram-me que estavas rico, é verdade?

--Não: apenas tenho um bocado de pão para cada dia.

--Não te faças pobre que eu não te peço nada.

--Pois, Liberata, eu venho pagar-te uma divida do pouco que posso, assim como a contrahi do muito que podias. Depois d'amanhã vou empregado para a provincia, queres vir comigo?

--Pois tu querias-me lá assim?

--Quero... serei o teu enfermeiro.

--Olha lá o que dizes!

--Não me desdigo.

--Eu tenho este vestido que vês.

--Comprar-te-hei o que fôr da primeira necessidade.

--Pois tu ainda gostas de mim n'este infeliz estado em que me vês?!

--Gosto. Ha uma unica pessoa que se parece comigo n'este momento pela desgraça. És tu. Quero viver comtigo. Quero vêr se a rehabilitação é possivel para ambos nós.

--Agora creio que é. Olha, Luiz, toda a minha philosophia desappareceu. Eu não t'o dizia que sem dinheiro não ha philosophia? Sabes tu que tudo isto me parece um sonho!... Ha mais d'um anno que me embriago todos os dias para me esquecer... Hei de contar-te a minha vida... Eu não esperava vêr-te mais; mas vê tu o que é o presentimento... Ainda não ha quatro horas que eu dizia:--«Que impressão faria eu n'este estado a Luiz da Cunha!» O que são as cousas d'esta vida!... Até parece que recuperei o som da palavra, fallando com o meu amante dos tempos felizes! Ai! quem me déra ser bella para te agradar ainda! Diz-me cá: esta machina não terá concerto?

--Veremos.

--Eu era ainda bella se me tirassem da cara estas manchas vermelhas. Sinto ainda a robustez dos trinta annos; o que me falta é o fogo da alma... Vê se fazes de mim outra mulher, que eu prometto de fazer a tua felicidade... Não me vês a chorar? Isto é galante! Cuidei que chorara pela ultima vez quando entrei, no hospital, pobre, e abandonada do infame que me reduziu a este estado...

--Não chores, Liberata... Vamos vêr o que é o futuro. Até ámanhã.

--Pois deixas-me?! Vou comtigo já.

--Não. Preciso illudir alguem.

Luiz da Cunha deixara alguns cruzados novos sobre uma banqueta de pinho, e sahiu.

Liberata não provou somno. As lagrimas incessantes eram-lhe d'um sabor novo. Nunca ella fôra tão infeliz como n'essa noite. Havia no seu soffrimento alguma cousa que disputaria á alma do cynico um momento de compaixão. N'aquella degradação não diremos que as lagrimas regeneram; mas por isso mesmo que são inuteis, como o orvalho sobre a flôr arrancada e sêcca, a mulher que as chora, é bem que nos apiedemos d'ella, mostrando-a como exemplo, mas que a infeliz não veja que é mostrada com escarneo!

XVII.

AS PRIMEIRAS E ULTIMAS LAGRIMAS DE LUIZ DA CUNHA.

E dez dias depois, João Maria das Neves tomava posse do cartorio d'escrivão do juizo ordinario no concelho de Ribeira de Pena. É escusado dizer-vos que Liberata o acompanhára, e, ao decimo dia de convivencia com Luiz da Cunha, eram visiveis os melhoramentos n'aquella physionomia macerada. Passado um mez, raiavam-lhe da tez, ainda mosqueada de betas côr de açafrão, uns longes da descomposta formosura. Luiz tinha soberba de poder tanto no espirito d'aquella mulher, unica no mundo para elle, unica pessoa que o não repellira, que se confiára á sua vontade, entregando-se-lhe sem condições.

O homem abandonado, só, desatado de todos os liames sociaes, revoca as potencias da sua alma para consubstanciar-se no coração da unica pessoa que o não abomina. Ha exemplos de affeições ferventes do salteador de estrada para a mulher que o recebe nos braços; do que aguarda na enxovia o dia do patibulo, do assassino por officio para a mulher que a chorar lhe dá esperanças de perdão. O instincto do sangue não adultera o da sociabilidade. A ancia d'uma affeição recresce, quando o opprobrio vem de todas as bôcas pedir o exilio do execrado de entre os homens.

Assim se explica o enlace de Luiz com Liberata. Não ha hypocrisia no afan com que a procura, em todas as horas vagas do trabalho. Succedem-se os dias sem um vislumbre de fastio. Vem as longas noites do inverno, sem outra convivencia, encontral-os sentados ao fogão, contando-se mutuamente lances de duas biographias, que muitas vezes são saudadas com estrepitosas gargalhadas. Feitos para se encontrarem no mesmo atoleiro, é necessario que ahi se amem, que ahi se reconheçam, ahi se centralisem na mesma aspiração, e não tenham de que se envergonhar, um ante o outro, de infamias passadas.

Reconheceram-se, e amaram-se.

Pois não seria amor a soffreguidão d'aquelles beijos? Não seria amor a anciedade de Liberata, procurando-o, se lhe tardava vinte minutos mais, nos paços do concelho? Não seria amor o orgulho com que Luiz da Cunha fallava de sua esposa aos cavalheiros da terra?

Devia acontecer que Luiz da Cunha ignorasse os mais triviaes rudimentos dos processos judiciarios. Valêra-se d'um velho amanuense que tomára sobre si a administração do cartorio. Entretanto, o proprietario não curava de estudar, e cedia ao regente uma boa parte dos seus proventos, que eram poucos.

Luiz da Cunha conhecêra um contrabandista de Chaves, que lhe picára o desejo de tentar fortuna pelo contrabando. Liberata não se oppunha ao arbitrio do seu amante. As tentativas foram prosperas, e o audacioso contrabandista aventurára os seus capitaes, e outros contrahidos de emprestimo em arrojadas emprezas.

--Se a fortuna não encravar a roda--dizia elle a Liberata--em dous annos, iremos viver em Paris.

E, com effeito, a roda da fortuna girava com a velocidade dos seus caprichos. O escrivão não curava do officio, e raras vezes pedia contas ao regente. As suas continuadas excursões tornaram-se suspeitas; mas, no concelho, ninguem zelava os interesses do fisco, e Luiz da Cunha sortia das melhores sêdas os arredores por preços modicos, e enviava para o Porto e Braga valiosas carregações. No fim de dous annos, o contrabandista celebrava os annos de Liberata com um rico adereço comprado em Madrid, e adiava a sua sahida de Portugal por mais um anno, visto que não achava doze contos dinheiro sufficiente para de Paris metter, em grande, o contrabando em Portugal.

Tentára uma arriscadissima entrada de sêdas, quando os guardas-fiscaes, logrados sempre, velavam as fronteiras desde Monção a Verim. Encravou-se a roda da fortuna. As cargas foram tomadas, e o contrabandista prêso. Luiz da Cunha para remir-se gastou tudo que possuia. Liberata foi a Chaves com o precioso peculio a salvar o amante. Choraram, abraçando-se no carcere? Não. A antiga amante do conselheiro dizia a Luiz, sorrindo:

--Vamos para Paris? Parece-me que fez neste mez seis anos que eu te fui buscar ao Limoeiro. É fado meu! O pior é não termos um conselheiro, que nos dê a sege... O mais tudo vai bem. Temos feijões em casa, e muito amor para prato de meio.

As authoridades queixaram-se ao governo, allegando que o funccionario publico João Maria das Neves era o primeiro contrabandista. Os jornaes de Lisboa reproduziram a accusação. Ia ser demittido, quando o ministro se achou coacto por um dos seus amigos que lhe citou uma historia d'uns quatrocentos mil reis...

O escrivão continuou funcionando. Vendeu o adereço de Liberata, e tentou novas aventuras em pequena escala. A sorte sorriu-lhe outra vez, com quanto as denuncias o rodeassem de perigos. Liberata acompanhava-o galhardamente nas emprezas. Montava com varonil perfeição. Grudava um bigode com gracioso arreganho; vestia um casaco de peles: cruzava com a perna em brunida bota d'agua um bacamarte, e lançava com um piparote para a nuca o chapéo sevilhano.

--Era esta a mulher que eu devia ter encontrado aos quinze annos!--dizia o filho de Ricarda.

Em 1845 o escrivão estava remido do preço com que comprára a liberdade dois anos antes. Resolvêra dar o ultimo assalto á vigilancia dos guardas. Eram doze cargas de panos d'alto preço, que podiam augmentar seis mil cruzados ao seu peculio. Deviam entrar por Almeida.

Luiz da Cunha apresentou-se ahi com a corajosa Liberata. As cargas pisaram algumas milhas de territorio portuguez, quando os guardas a cavalo, a toda a brida, lhe vinham no alcance. Os almocreves aperraram os bacamartes, com o contrabandista à frente. Liberata não se afastára de ao pé do seu amante. Travou-se um vivo tiroteio. Augmentaram os guardas. As cargas foram tomadas; dous almocreves morreram. Luiz da Cunha fugiu, e a destemida cavalleira, com a clavina despejada, esporeava ao lado d'elle.

--Estás salvo--disse ella--mas eu estou ferida.

--Ferida! aonde?

--No peito... e creio que morrerei!

--Não digas tal... Apeia-te.

--Não, que ouço ainda o tropel de cavallos. Quero que te salves... Se eu cahir, não me levantes, que me não dás vida.

Galoparam alguns minutos. Pararam. Já se não ouvia o ruido dos cavallos nas extensas veigas de Pinhel.

--Apeemos--disse Luiz.

--Pois sim... Estou quasi morta, Luiz... Desaperta-me este collete... Vês?

--Vejo sangue...

--É no coração que eu sinto a bala. Isto não tem remedio...

--Vamos a Pinhel... Torna a montar, minha filha.

--Não posso, nem me importa morrer aqui ou em Pinhel.

--Isto é atroz!... Não te posso salvar!...

--Salvaste-me, Luiz. Morro contente assim... Agora é que as nossas contas estão saldadas. Tu tiraste-me da morte da alma, e eu quiz defender-te da morte do corpo. É um bom fim o meu! As mulheres virtuosas... raras são as que assim morrem... Se me não encontrasses perdida de todo, não poderias nada sobre mim... Fogem-me os sentidos, Luiz... É a vida... Deixa-me expirar bem perto do teu coração... Como é bom morrer-se com o perfeito juizo para se conhecer a pessoa que se deixa... com tanta saudade.. Que dôr!... o peor é deixar-te pobre... e... só... no mundo.

Liberata expirou.

As primeiras e ultimas lagrimas de Luiz da Cunha cahiram sobre as faces mortas d'essa mulher......

São quatro horas da madrugada.

Bateram á porta do parocho da matriz de Pinhel. O padre vem á janella e vê um vulto disforme na escuridão.

--Quem é?

--Um passageiro que pede a v. s.ª licença para poder enterrar o cadaver d'um seu companheiro de jornada, morto de repente.

--Eu não concedo que se enterre ninguem sem ordem da authoridade civil. Não conheço o senhor, e não sei se se trata de esconder algum crime debaixo das telhas sagradas. Espere que seja dia para se lavrar auto, e depois fallaremos.

O compassivo pastor deu-lhe com a janella na cara, e retirou-se instado por uma voz roufenha de mulher que lhe recommendava carinhosamente que se não constipasse, que estava suado.

Era saber muito!

Luiz da Cunha pousou o cadaver na parede do adro. Ouviu passos. Eram jornaleiros que sahiam para o trabalho. Chamou dous com promessa de boa paga. Mandou-os abrir uma sepultura no adro. Desceu a depositar o cadaver. Beijou-o na face. Assistiu ao attêrro. Pagou aos operarios, e montou o cavallo de Liberata, que farejava o sangue de sua dona.

--Ainda me não venceste, demonio!--Hei de vingar-me da sociedade que me quebrou o ultimo amparo! Hei de vingar-te, Liberata!

Era um como rugido facinoroso esta exclamação.

XVIII.

A LUZ DO AMOR NAS TREVAS DA DEMENCIA.

Desde agosto de 1842, época da apparição de Luiz da Cunha em Lisboa, Assucena cahiu n'uma tristeza inconsolavel, n'um ancioso desejo de morte que, continuamente, pedia a Deus, apesar dos seus principios de resignação, e abandono á vontade divina.

Nem Rosa Guilhermina, nem o padre Madureira podiam nada contra a misanthropia da neta do arcediago. Receavam-lhe a demencia, porque, muitas vezes, eram desconnexas as suas ideias, e incompativeis até com a sua religiosidade. Tentaram sahir com ella, por consentimento do visconde condoido, a uma distracção em viagem. Assucena recusava-se, e rejeitava com enfado as opportunas instancias de sua mãe.

Queriam adivinhal-a, e não achavam vereda que os guiasse. Sabiam que a sua devoção era cada vez mais fervente, e descobriram os cilicios com que cingia a cintura, e as disciplinas que lhe arrancavam gemidos alta noite.

As admoestações não aproveitavam nada. Esperavam todos os dias encontral-a douda, e o que de certo lhe faltava, para que assim a julgassem, era alguma acção peccaminosa, que desmentisse a rigidez do seu ascetismo.

Nunca perguntou por Luiz da Cunha, mas pedia sempre á Virgem Mãe que fosse a protectora d'elle, e o remisse da condemnação eterna, descontando-lhe os sofrimentos d'este mundo.

E seguiram-se assim, sem alteração para Assucena, os dias de seis annos. Em 1848 morreu a filha do arcediago quasi repentinamente: mas desde muito que o seu testamento estava feito. Assucena era herdeira d'uma quinta no Minho, unica disposição que a mulher de José Bento podia legar.

Este golpe confirmou as conjecturas do padre Madureira. Assucena teve passageiros accessos de demencia. Convalescida, ordenou ao padre que lhe trouxesse um tabellião. Á solemnidade e bom tino da supplica, não resistiu o padre desconfiado.

Assucena dava o uso-fructo da sua quinta ao beneficiado Madureira, em quanto vivo, com a condição de elle fazer cumprir o legado de tres missas diarias: uma por alma do conego Bernabé Trigoso; outra por alma de D. Perpetua Trigoso; e outra por D. Rosa Guilhermina, sua mãe. Por morte do padre, a quinta passaria á Santa Casa da Misericordia com as mesmas condições para sempre.

Madureira, sabendo nas vesperas da partida, que Assucena se retirava para a sua quinta de Caldellas, na provincia do Minho, admoestou, supplicou, mas não conseguiu demovêl-a do proposito.

--A minha sahida d'esta casa--dizia ella--é o maior sacrificio que eu posso fazer. Deus m'o acceitará, porque no serviço de Deus me sacrifico. Preciso ser grata aos bemfeitores mortos, e ao vivo: os suffragios para os mortos, e a posse d'esta quinta, meu purgatorio e paraizo, para o meu bemfeitor.

--E deixa o seu bemfeitor com tamanha presença d'espirito, senhora D. Assucena!

--Deixo-o com a mais violenta dôr de coração. É o cilicio com que martyriso o meu espirito. Deus me levará em conta esta renuncia da convivencia com o meu bom amigo.

Madureira não podia constrangêl-a, receando abreviar uma loucura irremediavel.

Acompanhou-a ao Minho, na primavera de 1849. Estiveram alguns dias no Senhor do Monte, onde a melancolia de Assucena parecia desopprimil-a, alargando-lhe o coração pela amplitude do céo, que, n'aquelle local, convida a um scismar suavissimo, a uma santa saudade d'outra existencia, que deve ter precedido a das dôres terrenas.

A quinta de Caldellas é um eden. As aguas prateadas do rio Homem banham-lhe as orlas verdejantes. Por entre as franças das acacias, enastradas no salgueiro, suspira a viração rescendente do perfume das flores maninhas. Em antigos tempos, o genio bucolico de um possuidor creára alli tudo que a invenção póde realisar de mais viçoso, de mais lympida frescura, de mais poetico devaneio.

O edificio é antigo, d'essa pittoresca architectura, sem escóla, respigada em todos os modêlos, e acizelada pela phantasia do que ahi quizera eternizar debaixo d'esse formoso céo os prazeres innocentes d'outras eras, d'outros idilios que raros corações concebem hoje.

Aos lados da magestosa entrada, erguem-se os cyprestes seculares, outr'ora confidentes de segredos que a mão do amor lhes entalhára na casca, perecedoura como tudo em que o homem quer perpetuar-se.

É essa a herança da neta do arcediago. Ahi fugiram tres mezes em deliciosos instantes a padre Madureira.

Chamavam-no a Lisboa as suas obrigações clericaes, e o quasi abandono em que deixára a quinta do Lumiar. Fôra, promettendo á lacrimosa Assucena, vir ahi passar todos os estios. Deixára-a acariciada pela velha serva que já o fôra do conego Trigoso. Dispôz o arrendamento da quinta para evitar á nova possuidora canceiras d'administração. Afflictivo fôra aquelle adeus! Assucena dos braços d'elle corrêra a lançar-se aos pés da cruz.

E, depois, o oratorio, a capella, as devoções eram a sua vida. Ninguem a encontrava fóra dos muros da quinta. Os proprios caseiros viam-na apenas atravéz de um véo negro, no côro da capella em dias santificados.

Os symptomas d'um transtorno intellectual eram sensiveis cada vez mais, não para ella que, toda absorta em Deus, não tinha ensejo de comparar-se com os moradores da terra; mas para a consternada velha que, de perto, lhe observava os gestos, os temores pueris, as visões beatificas, e até a imaginaria convicção de que o conego, em fórma de cherubim, a visitava em sonhos.

E, se acontecia descer, á tarde, ás margens do rio, sentia refrigerar-se no coração, respirava alto, sorria-se aos gratos risos da natureza, punha a mão no seio que se agitava em estranhas commoções d'um sentimento incognito, de uma saudade inexprimivel. E, de repente, ao riso succediam as lagrimas; á instantanea frescura das rosas da face a pallidez do susto. Assucena fugia, dizendo que offendêra o Senhor com pensamentos mundanos. Fechava-se no seu quarto, soluçando a cada vergoada que se abria no corpo com as disciplinas.

Em 1850, padre Madureira veio ao Minho, e viu que a molestia progredia. Empregou uma religiosa severidade para arrancál-a á mystica exaltação; mas era tarde. O disparate principiava nas devoções de Assucena. Não queria entrar na capella, sem aspergil-a com agua-benta, por isso que vira erguer-se um homem amortalhado sobre o carneiro onde dormia o somno de duzentos annos o fundador d'aquella casa.

Um habil confessor não podéra aclarar o espirito enturbado da mysteriosa senhora. Imaginando-a em lucta com alguma paixão desditosa, franqueava-lhe as portas do mundo para que se não perdesse na região das chimeras. Assucena respondia com lagrimas ao confessor, e, apertada pela explicação das lagrimas e do silencio, gritava pela misericordia divina.

Madureira, despedindo-se d'ella no outomno de 1850, foi seguro de que não tornaria a vêl-a senão douda.

Previra bem.

Quando, em 1851, voltou, foi recebido com uma gargalhada. Assucena estava vestida com o seu chambre de cassa branca, e sapatos de duraque em fitas cruzadas nas pernas. Eram trastes dos dezoito annos, conservados ainda nos seus bahús de educanda. O padre respondeu com o pasmo e com as lagrimas á gargalhada.

--Porque chora?--disse ella, com tristeza.

--Porque choro? Oh minha filha!... não me pergunte porque choro...

--Tambem eu chorei, meu amigo, quando me disseram que o desgraçado tinha fome...

--Quem?

--Pois, quem!? Luiz da Cunha, esse verme que todos pizam, desde que me mordeu no coração. Se eu lhe perdoei, para que o perseguem? Deixem o infeliz! A deshonrada, a infamada, a martyr, fui eu... Não quero que ninguem me vingue...

--Assucena!...