Chapter 12
--Pouco tenho que te conte. D. Marianna appareceu no Rio, sem ninguem a esperar. Foi transportada n'uma rede ao seu leito. Soube-se que tu não vieras, e correu que tinhas morrido. Marianna não recebia visitas, nem os medicos. Pedi aos tios que me deixassem vêl-a, não o consegui. Um d'elles contou-me os teus desatinos, e disse-me que a infeliz era tão nobre que não pronunciava contra ti uma queixa. Precisava explicar a sua fuga, e o pouco que disse foi mais amplamente contado por cartas do ministro do Brazil na Austria. Levantou-se contra ti um brado de indignação. Contaram-se todos os teus infortunios de Lisboa. Á carga cerrada, os amigos de D. Marianna pediram que lhe fosse tirada a administração da casa de seus filhos, para que tu não viesses continuar a dilapidál-a. Tua virtuosa mulher pediu que a não mortificassem, visto que a sua morte viria breve emancipar os pobres filhos da sua indigna tutella. Empenharam-se todos em distrahil-a: o mais que conseguiram foi mudál-a para uma quinta no Bota-fogo, onde viveu vinte dias. Aqui tens bem simples a historia, e realmente te digo que é uma historia bem fertil de lances desgraçados... Déste um pontapé na fortuna, Luiz, e com esse pontapé arremeçaste tua mulher á sepultura...
--Pois sim... agora cala-te. As tuas reprehensões, além de inuteis, não me soam bem.
--Desculpa-me se te fallo com franqueza tão rasgada. O facto de seres meu credor não me humilha até ao silencio approvador dos teus crimes.
--Os meus crimes... não são meus.
--Pois de quem?!
--D'um demonio que me perde... E agora vejo que estou irremediavelmente perdido!...
--Comparativamente ao que perdeste... estás.
--E pobre...
--Quasi pobre. Tens apenas quatro contos de reis que te devo, e o pouco que tenho acima d'esse capital á tua disposição.
--Minha mulher fez testamento?
--Não. Tudo que tinha pertence aos filhos.
--Mas uma escriptura _causa mortis_ que fizemos?
--É nulla: foi logo annullada. D. Marianna não podia dispôr do que era dos filhos: podia apenas legar-te a terça; mas não testou. Aconselho-te que não vás ao Rio, muito menos se tentas questionar os direitos dos teus enteados. Não vás, que serás morto. O teu nome desperta odios n'aquelles mesmos que recebeste nos teus jantares. Tens um só amigo, que se condôa de ti. Sou eu.
--E qual será o meu futuro?
--O que podéres grangear pelo trabalho; mas, no Rio de Janeiro, não.
--Em que negocias?
--Negociei em escravos.
--Tens sido feliz?
--Muito pouco. Tenho repugnancia para esta mercadoria.
--Queres tentar comigo uma empreza d'essas?
--Não. Hoje o meu commercio é menos rendoso, mais pacifico, supposto que mais laborioso.
--Não sei o que são emprezas laboriosas...
--Tenta; póde ser que a fortuna te dê ainda outro abraço; mas as costas d'Africa estão coalhadas de negreiros.
--Que dinheiro dispensas?
--Oito contos de reis. Quatro que te devo, e quatro que te dou, ou te empresto... como quizeres.
--Posso fazer alguma cousa com esse dinheiro?
--Pódes, associando-te a algum negreiro, que farei teu conhecido. Apresento-te ao que tem maiores depositos na praia dos escravos em Guiné.....................................................................
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N'esse dia foi conduzido ao escriptorio do negreiro, em Buenos-Ayres, o adepto com a sua quota parte de oito contos de reis. Quando tratavam as condições da sociedade, estava presente um mulato bem trajado, com os dedos scintillantes de pedras, e uma grossa cadeia de ouro no pescoço. Ouvira, silencioso, o contracto, e seguira-o até á porta do hotel.
Pouco depois, Luiz da Cunha recebia um bilhete anonymo, que lhe pedia uma entrevista, a sós, atraz da igreja das Mercês, ao escurecer. Recommendava o bilhete um segredo inviolavel.
O temerario foi, sem consultar Proença, e encontrou o homem que vira em casa do negreiro.
--O senhor quer ser rico?--perguntou o mulato.
--Quero.
--Ninguem responde com mais concisão, nem mais depressa. Se quer ser rico, siga outro rumo. A escravatura deu em droga. Metade dos negros morrem no porão: os outros ninguem os quer a cem mil reis fortes por cabeça.
--Pois que rumo devo seguir?
--Primeiro; o senhor é capaz de nunca revelar o que eu lhe disser?
--Sou.
--Não o sendo, a sua existencia valerá menos que um preto asmatico. Segundo: tem coragem?
--Tenho, penso eu.
--Quer entrar comigo n'um commercio que é um pouco menos infame que o da escravatura? Quer ser pirata?
--Pirata! O senhor está a zombar comigo?
--Não tenho mais que fazer! Chamei-o mesmo de proposito para zombar com o senhor! Ora vamos, quer ou não?
--E o senhor assegura-me que se enriquece em pouco tempo?
--Asseguro-lhe que nos fazemos n'um momento proprietarios da propriedade que outros adquiriram em muitos annos.
--E os contratempos?
--Os do mar?
--Não digo isso: a defeza que póde ser mais poderosa que o ataque...
--Ah! o meu amigo raciocina assim? Já vejo que me não serve... Até á paz geral, meu caro senhor. Segredo, ouviu?
--Mas ouça, que eu não me deliberei ainda. Não me julgue algum miseravel poltrão. Quer o senhor entrar no meu quarto, e fallemos lá?
--Então, entre o senhor no meu, que é mais perto. Ceará comigo, e dormirá, se quizer, com a melhor das minhas escravas.
XV.
LOGICA DO INFORTUNIO.
Luiz da Cunha aceitára a proposta, a ceia, e a escrava. Com grande espanto de Proença, fizera a sua aposentadoria em casa do mulato, explicando esta nascente amizade por certo mysterio, que elle não dizia, porque não soubera inventál-o. Proença, suspeitando as intenções de Cunha, porque lhe não eram estranhos os boatos que corriam muito deshonrosos para o mulato, deu-se pressa em sahir de Buenos-Ayres com a sua carregação de cortumes para a Bahia.
Poucos dias depois, desappareceram Luiz da Cunha e o seu recente amigo. Das praias de S. Thiago del Estero, sobre o Athlantico, levantaram ferro dois navios com aspecto mercantil, içando a bandeira da republica argentina. Costearam a provincia do Rio-da-Prata até ao Paraguay. Ahi fizeram-se ao largo, e arrearam bandeiras.
Ao nono dia de roteiro indeterminado, reconheceram a bandeira hespanhola em dois navios de alto bordo que lhe passavam á prôa. A manobra foi rapida. As galeras auxiliadas pelas correntes procuravam a esteira dos navios, que lhes fugiam. Ao cahir da noite, a trombeta do pirata levou uma ameaça de morte aos hespanhoes. Responderam-lhe com uma bala que zumbiu nas gaveas.
Travou-se a lucta. Era tenebrosa a noite, e ao clarão da artilheria viam-se d'um lado e d'outro, como visões phantasticas, as faces enraivecidas de aggressores destemidos, e a coragem desesperada nas dos aggredidos resolutos á morte com bravura.
O mulato déra o tremendo signal da abordagem. A galera que se retirava da lucta, capitaneada por Luiz da Cunha, não obedecêra. É que uma bala lhe fizera á pôpa um rombo. Os bravos tinham descido ao porão a calafetarem inutilmente a fenda.
Os piratas recuavam, e os aggredidos accommetteram com o enthusiasmo da victoria. A galera do mulato vomitava lavaredas. Estava incendiada.
--Á abordagem!
Bradaram os hespanhoes. A maruja das galeras gritou que se entregava. Os netos de Cortez não admittiram a proposta. Saltaram entre miseraveis ajoelhados. Alguns venderam cara a vida. Outros foram poupados para puxarem o carro do triumpho. Entre esses estava Luiz da Cunha, que não tivera coragem de morrer borrifado do sangue dos contrarios, como o seu companheiro, e pedira de joelhos a vida. O extremo da ignominia encontra a covardia. Sem a força moral da honra, o musculo do infame ennerva-se, e a existencia, que devia ser-lhe um pêso, é-lhe ainda cara! Segredos.
Os prisioneiros foram levados ás Antilhas para serem garrotados. Alguns foram-n'o logo. Luiz da Cunha, que promettêra aos capitães o resgate da sua liberdade, pesando-se a ouro, foi posto a ferros em Porto-Rico.
Chegára a nova á Bahia, onde Proença negociava. Não se fallava em Luiz da Cunha; mas dizia-se que um portuguez ou brasileiro, que parecia de educação distincta, fôra prêso, e demorára com astuciosas promessas o seu processo.
Proença não tinha animo para encarar o suspeito Cunha n'esse ultimo grau da infamia. Apressou-lhe quanto pôde soccorros, e, calando o nome do prêso, solicitava a sua liberdade.
Entretanto, Luiz da Cunha tramava a fuga. Todos os seus ardis foram descobertos. Parte das authoridades hespanholas quizeram desfazer-se d'elle, pendurando-o n'um triangulo. Mas o governador não consentira, sem primeiro ouvir esse homem mysterioso. Ouvindo-o, admirou-lhe a eloquencia astuciosa; arrancou-lhe o segredo de alguns dos precedentes que mais deviam tocar-lhe o espirito um pouco romanesco. Luiz da Cunha soubera dar-se prestigio, porque adivinhára a indole da authoridade.
Foi processado e condemnado a tres annos de prisão em Porto-Rico. Tres annos! Mil e noventa e cinco dias e outras tantas noites de ferros para esse homem, desamparado de todos, forçado a pedir esmola, como um ladrão, pela grade da enxovia! Não terá elle, ao menos, a coragem do suicidio?!
Não tinha.
O governador mandava-lhe umas sôpas, e umas calças velhas. Uma senhora desconhecida esmolava-lhe um jantar todos os domingos, e mudava-lhe os lençoes da pobre enxerga. O carcereiro, apiedado com a apparente resignação do pirata, arranjava-lhe livros, e dava-lhe para de noite uma candeia.
Quatro mezes d'este viver! Eis alli o amante de Assucena! o marido de Marianna! Aquelle homem que tira de uma tigella de barro com um garfo de ferro umas couves, é o mesmo que pagava dançarinas a cinco mil francos por mez; é o mesmo que vira fugir-lhe por entre os dedos cem contos de reis. E, comtudo, não tem ainda trinta annos! Que futuro!
Proença vem a Porto-Rico, ao quarto mez de prisão de Cunha. Procura o governador, com valiosas cartas de recommendação, e historia-lhe vagarosamente a vida do prêso. O governador espanta-se de tanto crime, e crê na magica influencia de Satanaz sobre o desgraçado. Uma das circumstancias que mais o pungem é o illustre nascimento de Luiz da Cunha e Faro! Era fidalgo, sentia a dôr collectiva da raça: o vexame e a condolencia de uma sympathica compaixão. Vencido pelas instantes lamurias de Proença, quiz ser arbitro na liberdade do prêso, assim como o tinha sido no immediato garrote que os outros soffreram. Luiz da Cunha, com cinco mezes de carcere, é solto. Respira o ar da liberdade, é senhor seu; mas a liberdade que lhe importa sem dinheiro, sem soccorro, sem incentivo algum ás forças que lhe sobejam ainda para commetter difficultosas emprezas? Que perversidade nova lhe resta a explorar? A que reservatorio do inferno irá elle invocar um outro genio?
Que lhe falta?
Luiz da Cunha fôra chamado, apenas solto, a casa do governador. Entrou n'uma sala particular, onde encontrou Proença. Não córou: a commoção forte que um facil apreciador julgaria vergonha, era o contentamento de encontrar um homem que, de certo, não viera alli para o deixar sem dinheiro.
O expatriado é que não podia soster as lagrimas. Sentia o vilipendio de Cunha, como se tirasse dos hombros do infame para os seus o pêso da ignominia.
--Vieste salvar-me?--disse serenamente o pirata infeliz.
--Já ninguem te salva... Vim alcançar a tua liberdade para experimentares uma nova posição social. Cahiste muito no fundo. Já não ha braço que te levante.
--Parece-me que não. Venho de estudar na solidão da masmorra. Philosophei o melhor que se póde com os meus principios experimentaes. Conclui que sou uma machina. Não tenho vontade, nem acção. Quero vêr onde chega isto! Desejava poder calcular approximadamente, pelos dados da vida, que morte será a minha. Tenho trinta annos. Proença! como se póde ser tudo o que eu tenho sido em quatorze annos!
--E que serás tu?!
--Eu sei!... o mais natural na minha situação é pedir uma esmola.
--E és capaz de pedil-a?
--Que duvida! Morrer de fome é escolher de todas as mortes a mais indecente.
--E gracejas!
--Pois tu queres que eu receba seriamente a infernal omnipotencia que me reduziu a isto?! Zombemos com ella.
--Mas não ha outro recurso contra a fome senão pedir esmola?
--Ou roubar.
--E o trabalho?
--Ah! sim... não me lembrava o trabalho!... mas que trabalho? Eu não sirvo para nada, não tenho força nem vocação.
--Adquire-a, Luiz. Tu não me conheceste em outro tempo? Imaginaria alguem, ha oito annos, que eu viria a ser um amanuense de advogado, e mais tarde um negociante de cortumes? Eu tive fome, Luiz. Deitei-me algumas vezes em jejum, e levantei-me sem a certeza do almoço. Não pedi esmola, pedi trabalho. Olha as minhas mãos... não vês estas durezas? Estão calejadas, mas nunca senti aqui o contacto de uma moeda de cobre como esmola. Trabalha, Luiz.
--Diz-me lá em que...
--Vives comigo: tomas uma pequena parte nas minhas occupações, e recebes uma parte grande dos meus interesses.
--Não te sirvo de nada, Proença. O que fazes é dar-me uma esmola. Emprestas-me algum dinheiro?
--Que farás com esse dinheiro?
--Vou para Portugal. Tenho um palpite de que vou ser feliz...
--Feliz! Quem fará a tua felicidade em Portugal?
--Uma mulher.
--Como Marianna?
--Não me falles em Marianna. Tenho tido horas de inferno pensando n'essa infeliz... Eu não sou de bronze, Proença. Vi-me tão afflicto uma noite na cadeia, que me puz de joelhos a pedir-lhe perdão, cuidando que a via. Era febre; mas olha que a vi tal qual ella devia ser a expirar... Palavra de honra! não me falles n'ella... Bastam-me os meus remorsos...
--Tu não tens remorsos, Cunha... Não fallemos n'ella; concordo... O nome d'essa infeliz sôa mal nos teus ouvidos... e é uma profanação na tua bôca... Queres então ir a Portugal procurar uma mulher que te ha de fazer feliz... Vejo que a desgraça tem comtigo momentos de zombaria... Vai. Dou-te o dinheiro necessario para a passagem, e para a subsistencia de alguns mezes.
--És um perfeito cavalheiro. Espero ainda embolsar-te do ultimo real que me emprestas... Ris-te? É porque não sabes os meus planos.
--Os teus planos... O que me faz rir é a facilidade com que te illudes, a inexperiencia do que és, a intimativa com que te confias a uma esperança imaginaria. Que mulher de Lisboa descerá até Luiz da Cunha com a sua riqueza? Estou fóra de Portugal ha oito annos, e conheço a tua vida dia a dia; conhecem-na todos no Rio de Janeiro. Quem te não conhecerá em Lisboa? Eu vi uma carta d'um tal visconde, escripta ao ministro portuguez no Brazil, que te apresentava um prodigio de immoralidades.
--Esse visconde era precisamente o visconde de Bacellar.
--De Bacellar, justamente.
--Isso é um miseravel a quem puni com um chicote nos Paulistas.
--Não sei se é um miseravel que puniste com um chicote; mas de certo não é calumniador. Todas as informações confirmam as d'elle. O que será feito d'uma menina que fugiu das Commendadeiras, e abandonaste no primeiro mez, trocando-a pelos amores da celebre Liberata?
--Não fallemos n'isso... Rapaziadas!... Talvez tu não creias que a mulher que me ha de fazer feliz é justamente a que fugiu das Commendadeiras?
--Vejo que é grata aos teus beneficios... Deve morrer de saudades por ti... Estará ella anciosa da tua chegada como Marianna?
--Estás impertinente, Proença!... Que diabo lucras tu em apoquentar-me?! Marianna morreu; não posso dar-lhe vida; se podésse, dava-lh'a... Que mais queres?
--Nada, Luiz... Que hei de eu querer? É que não acho natural a tua felicidade proveniente de uma mulher que perdeste.
--E, se eu te disser que essa mulher me deu obra de quarenta mil cruzados, depois que a abandonei?
--Se é verdade o que dizes, espanta-me que o digas sem cahires n'esse chão fulminado de vergonha!
--Vergonha... de que?
--Ha em ti um defeito de organisação, Luiz!... Tu não és o homem moral. Falta-te a consciencia, o senso-intimo do bem, o caracter da sociabilidade. Não te posso responsabilisar pelos teus crimes. O tigre tem a ferocidade nativa. Tu és uma aberração, Cunha. Digo-te, com as lagrimas nos olhos, que estás perdido, perdido para sempre... Receio muito que encontres um cadafalso no teu caminho.
--Estás funebre! Que diabo de prophecia! O meu furor todo é desmentil-a... Hei de rehabilitar-me! Desafio todos os demonios para que me combatam.
XVI.
TENHO FOME! ESTOU HA TRES DIAS SEM PÃO!
Em uma tarde de Agosto de 1842, Assucena passeava sósinha entre os renques de loureiros e amoreiras da sua quinta do Lumiar. Abria e fechava com apparente distracção um livro, e, se lia, poucas linhas a fatigavam.
Veste ainda de lucto pelos seus bemfeitores, ha tres annos mortos. Sobre o lenço de gorgorão que lhe cobre o pescoço, traz pendente um collar de contas de azeviche com uma pequena cruz de pau preto, embutida de lavores de madre-perola. Este adorno está em harmonia com o livro em que lê, e profundamente medita: é o thesouro de Kempis, a Imitação de Christo.
Sentára-se, lendo mentalmente estas linhas:
«Crê-te indigno da consolação divina; mas sim merecedor de muitas tribulações. Quanto mais se compunge o homem, mais amarga lhe é a sociedade. O bom não depara ahi senão incentivo para lagrimas. Ou pense em si ou nos outros, reconhece que sem amarguras ninguem vive aqui. E tanto mais angustiado se vê, mais dos outros se compadece. As compunções intimas, e a nutrição das dôres merecidas, são filhas dos nossos vicios e peccados; deslumbrado por elles, não temos vista para contemplar o ceo. Se mais vezes pensares na morte, que na vida, fervorosa será a tua emenda. Se scismares nas penas do inferno e do purgatorio, e do coração as temeres, ser-te-hão leves os trabalhos da vida, e não tremerás de susto.» Fechára o livro, erguêra para o ceo os olhos lacrimosos, e murmurára:
--E serei eu grande peccadora, meu Deus? Não terei eu seguido a vossa santa lei? Terei deixado cahir a minha cruz, seguindo-vos?
Parára uma carruagem.
--É minha mãe!--disse alvoroçada Assucena, sahindo-lhe ao encontro.
Rosa Guilhermina vinha triste.
--Estranho hoje a sua physionomia, minha querida mãe! Que é? teve algum desgosto com o padrasto?
--Não, filha... Como estás?
--Bem vê que estou boa.
--Com lagrimas nos olhos...
--Foi de lêr o meu querido livro... Faz-me sempre este bem.
--Que fizeste hontem, filha?
--O que faço todos os dias. Assisti ás tres missas na capella; dei ao meio dia o jantar aos pobres; de tarde rezei a via-sacra; depois, passei um bocadinho aqui com o padre Madureira; tomamos chá á noite; rezei a corôa de Nossa Senhora, e deitei-me. Hoje fiz o mesmo; esperava minha mãe, e o padre...
--Minha filha, eu entendo que és muito excessiva nas tuas devoções. Padre Madureira já me disse que te fazia mal tanta religião. Tu queres comprehender o incomprehensivel, e prejudicas o teu espirito... e a tua saude.
--Não, mãe. Eu não acho nada incomprehensivel na religião de Jesus Christo. Leio muitos livros mysticos, porque não tenho outro recreio, nem o quero; rezo muito, porque não devo ser ingrata aos beneficios que Deus me faz, e peço á sua divina vontade continue a fazer-m'os. Com isto não sou pesada a ninguem...
--Mas tudo que é de mais...
--Servir a Deus é sempre de menos, minha mãe.
--Mas ha cousas que denunciam fraqueza de razão.
--Em mim?
--Sim. Sei que vaes de noite acompanhar o viatico aos enfermos.
--E será isso fraqueza de razão?
--É uma demasia de virtude que não fica bem a uma senhora de vinte e dois annos.
--Porque?... Todos me tratam com tanto respeito...
--Mas... não fazes bem: póde-se servir a Deus com suavidade.
--Isto não me custa; mas, se a mãe não quer, não tornarei.
--E que invenção é essa de trazer as contas por fóra do lenço?
--Pensei que não importava trazêl-as assim, ou de outro modo.
--De certo, não importa; mas poderá alguem chamar-te visioneira.
--Alguem! Eu não conheço ninguem. O padre Madureira não me diz nada; a mãe de certo se não ri de mim; os outros, ainda que me vissem, não me envergonhavam com a sua zombaria... A mãe não acaba de crêr que me não importa nada o mundo?
--Nem queres que te fallem em cousas do mundo?
--Se me affligem, não... Queria dizer-me alguma cousa?... Vejo-a triste, e quer desabafar comigo... Diga o que tem...
--Uma afflicção que tu não imaginas... e não devo dizer-t'a...
--Se não deve dizer-m'a, terrivel cousa é! Então, não posso eu consolál-a...
--Se eu soubesse que te não affligias...
--Isso não prometto, mãe; mas, ainda que me afflija, quero soffrer comsigo.
--E se fôr cousa que tenha mais relação comtigo de que comigo?
--Se tiver remedio, remedeia-se com o auxilio de Deus; se não tiver, paciencia. O Senhor ha de dar-me forças e resignação... Mas que póde ser? Alguma calumnia?
--Ninguem ousa manchar a tua reputação, minha filha.
--A minha reputação!... Ai! minha querida mãe, se soubesse o mal que me faz quando pronuncia essa palavra...
--Pois porque não hei de pronunciál-a?
--Pelo amor de Deus, calemo-nos... Diga o que é...
--Tens animo, filha?
--Jesus que me aterra!
--Sabes que Luiz da Cunha está em Lisboa?
--Se o sei?... quem m'o havia dizer!...
--Tu descóras, filha.
--Deus dá-me animo... Não é nada, minha mãe... É isso só que me queria dizer?... Deixál-o estar... Não tenho nada com elle... É feliz?...
--Muito infeliz... Vem pobre...
--Eu não pergunto se vem rico... Será virtuoso? terá temor de Deus?
--Vem cheio de crimes. Dizem-se em Lisboa cousas horriveis d'este homem. Casou muito rico...
--Isso já eu sabia, que m'o disse o padre Madureira.
--Mas abandonou a mulher...
--Coitadinha!...
--E morreu atormentada.
--Compadeceu-se d'ella o Altissimo... Foi feliz... Rezemos-lhe pela alma, minha mãe.
Assucena ergueu as mãos, murmurando o _padre-nosso_. A viscondessa reparou na exaltação religiosa de sua filha, e capacitou-se das suspeitas do padre Madureira. Estas exaltações eram uma ameaça de algum grande desmancho intellectual.
Assucena obedecia ás mais extravagantes preoccupações religiosas: abraçava todos os prejuizos populares: desauthorisava a razão, calando-a com fanaticos receios. Déra-se na sociedade, como incentivo de risos, se fosse possivel sustentar a vehemencia das suas crenças em publico.
Depois da oração, Assucena pediu silencio a sua mãe, que se retirou maravilhada da impassibilidade da filha; mas segura de que as astucias de Luiz da Cunha não poderiam nada contra ella. E era essa a sua afflicção.
Padre Madureira viera á hora do chá. A neta do arcediago não dissera uma palavra do dialogo com a viscondessa. Porém o padre, com grandes rodeios, ia dar-lhe, dizia elle, uma espantosa novidade. Assucena atalhou, dizendo:
--Já sei. Não fallemos em tal cousa.
--Já sabe!! mas não sabe tudo, minha senhora.
--Sei tudo. Vem desgraçado...
--E tão desgraçado que lhe pede uma esmola.
--A mim?!... Santo Deus! Como sabe elle que eu...
--Perdão, senhora D. Assucena. Attenda-me. Eu tive uma imprudencia; mas o meu fim era justo e nobre. Quiz punir Luiz da Cunha para que a dôr da culpa lhe despertasse no coração sentimentos de honra. Fiz que elle soubesse no Brazil, por uma carta minha, quem o salvára da ignominia e do degredo, rehabilitando-o para o futuro com os meios necessarios para experimentar uma nova estrada.
--Deus lhe perdôe... senhor padre Madureira... o mal que fez! Eu perdôo-lhe, e Deus Nosso Senhor me receba estas lagrimas em desconto dos meus peccados.
--Luiz da Cunha--proseguiu o padre--depois de mil revezes, apparece em Portugal, e encontra-se comigo, quando eu sahia do côro. Pergunta-me se v. exc.ª ainda vive. Vacillo na resposta. Quero até fingir que não conheço tal homem. Insta comigo para que lhe responda. Digo-lhe que Assucena vive; mas não para o mundo. «Quero vêl-a--exclama elle--quero pedir-lhe perdão!» É impossivel--disse-lhe eu.
--Sim, sim, é impossivel!...--atalhou Assucena sobresaltada.
--Quer lançar-se-me aos pés... eu tento fugir-lhe... segura-me pela mão, e exclama com desespêro: «tenho fome! estou ha tres dias sem pão! dê-me uma esmola!»
--Oh meu Deus!--bradou Assucena, escondendo o rosto nas mãos.