A Neta do Arcediago

Chapter 11

Chapter 113,749 wordsPublic domain

Acontece que um mau marido, repetidas vezes surprendido em flagrante por sua mulher, indignado contra a má fortuna dos planos, volta-se contra ella, por não poder vingar-se do demonio invisivel que lh'os frustra. Esse tal, em quanto uma ardilosa desculpa o póde justificar, transige com as lagrimas da esposa, e finge serenamente a contrição; mas, se a contumacia no crime, todas as vezes descoberto, lhe inutilisa as invenções refalsadas, e o exautora de prometter emendar-se, o que até alli eram brandas desculpas converte-se depois em odio ás algemas, em emancipação do jugo, em crime sem pretexto, nem escusas. É o cynismo que se desmascara. É a impostura que se revolta contra o clarão da verdade.

Para ser-se tal não importa ser menos perverso que o marido de Marianna. Luiz da Cunha, se n'aquelle instante devia odiar a imprudente Carlota que não evitára tal encontro, irritou-se contra as lagrimas de sua mulher, que não proferira uma só palavra offensiva, nem, sequer, queixosa.

--Vamos--disse elle com aspereza.

Marianna ergueu-se, quiz aceitar o braço de Luiz, e não pôde suster-se.

--Não posso.--E sentou-se.

--Se não pode, tornemos a entrar na gondola.

--Pois sim.... Não te zangues, Luiz, que não te fiz mal nenhum. Se é a minha presença que te impacienta... pouco tempo te enfadarei... Vamos...

Estas palavras, quasi ditas como um segredo, para que o gondoleiro as não escutasse, não commoveram Luiz. Pelo que no rosto se lhe via, era mais de crer que lhe exacerbassem a cólera. As contracções da testa, o morder dos beiços, o arfar das azas do nariz, os impetos das mãos aos cabellos e ao bigode, denunciavam a subita renascença de toda a perversidade do coração que lhe atirava golphadas de sangue negro á face.

D. Marianna como dias antes em Madrid, fugia de encontrar semelhante aspecto. Alguma cousa havia ahi que só póde vêr-se e imaginar na cara assignalada pela predestinação do patibulo!

Os frageis vinculos de respeito que prendiam marido e mulher estavam partidos. Desde esse dia, Luiz da Cunha seria escandaloso sem justificar-se; imporia silencio a Marianna; fruiria todos os direitos da infamia sem empecilhos, nem covardes explicações dos seus actos.

O programma d'esta nova phase vamos nós ouvir-lh'o no _Albergo di Italia_. D. Marianna está encostada ao peitoril d'uma janella, com a face apoiada na mão direita, com os olhos, brilhantes de lagrimas, fitos na lua que se levanta sobre o Lido, purpureada como os arreboes que bordam o horisonte das montanhas tyrobanas.

Está só. É meia noite, e seu marido não vem. Depois que a deixou no hotel, sahiu, e nem sequer lhe disse que voltava. Ha cinco horas que chora, e sente-se menos opprimida: não sabe ella dizer se deve este bem ás lagrimas, se ás orações. É que orou muito; e, depois, quando levantou da taboa os joelhos, raiou-lhe na sua escuridade uma luz, uma esperança, qualquer cousa divina que não era da terra.

E foi sentar-se, ás escuras, fitando o ceo, com a imaginação mais tranquilla, com as palpitações mais serenas, com a face aljofrada de lagrimas suavissimas. Mas a esperança qual seria? Não sabia ella dizêl-a.

Á uma hora entrou Luiz da Cunha.

--Ainda a pé?!--perguntou elle em tom suave.

--É um prazer contemplar este ceo--disse Marianna no mesmo tom.

--Que lindas noites se gozam em Veneza!

--Muito lindas.

--Gosto de te vêr assim, Marianna.

--Assim!... como?

--Sem as impaciencias terriveis do ciume.

--Ah!... Tambem eu gosto de me sentir assim.

--O ciume é cousa que não existe na boa roda. Em Veneza, e em Paris não ha ciume.

--E amor?

--Um pouco, em quanto dura. A civilisação é a liberdade das pessoas e das cousas: bole com tudo, toca em todos os sentimentos, entra nos juizos da cabeça, e enraiza-se nas aspirações da alma.

--Não te entendo, Luiz...

--Entendes, que tens muita intelligencia. E queres que te diga? Nenhuma mulher de fina educação póde ser feliz, como esposa, se não estiver possuida de certos sentimentos de tolerancia com as faltas do marido.

--Vou entendendo agora, e admiro a minha ignorancia de ha pouco... Ora diz, meu amigo, falla, que me encontras em hora de ouvir tudo... Mas olha, Luiz... Esta noite não te recorda aquella primeira noite, no mar, quando me dizias: _é mentira approximarem-se os entes que o destino talhou para se unirem: quando se encontram já a desgraça os traz desfigurados; vêem-se e não se conhecem; fallam-se e não se comprehendem_... Era uma noite assim formosa como esta... Se então nos não comprehendemos, Luiz, hoje comprehenderemo-nos melhor?...

--Eis-ahi um incidente bem romanesco, minha amiga! Vejo que em Veneza ha de necessariamente conversar-se em linguagem de romance!... A recordação das minhas palavras o mais que prova é que tens uma feliz memoria...

--Que tu não tens... bem se vê que as esqueceste... Creio que vens zombar comigo, Luiz.

--Não, Marianna; não venho zombar. Estou capitulando comtigo. Vamos combinar bases novas sobre que deve assentar a nossa felicidade. Todos os casamentos são felizes, quando entre marido e mulher se dá uma perfeita harmonia de vontades. Negas isto?

--Não.

--Da desharmonia resultam a desordem domestica, as contrariedades pequenas, as desavenças constantes, e tudo isto porque se não entendem, nem se combinam. Entenderem-se e combinarem-se é fazer uma alliança de se não importarem reciprocamente das suas acções.

--Não entendi, Luiz; ou entendi uma infamia de que te não considero capaz.

--Pois que entendeste, Marianna?

--Não ouso dizêl-o.

--Eu me explico, e bem vês que o faço com toda a serenidade. Serei muito teu amigo, não teremos nunca o menor desmancho no nosso bem-estar, se tu quizeres ser indifferente ao meu procedimento com as outras mulheres.

--Serei, Luiz; mas com uma condição...

--Qual?

--Conduz-me a minha casa, e depois torna para aqui, ou faz o que quizeres.

--E qual é o teu fim?

--Educar os meus filhos.

--Naturalmente, depois, lembravas-me que a tua casa não podia soccorrer as minhas dissipações...

--Esse receio fica-te bem; mas é vileza que ainda me não lembrou.

--E porque não queres tu ser feliz como eu posso sêl-o? Eu pago tolerancia com tolerancia....

--Isto não se crê, Luiz! Dar-se-ha caso que tu vens...

--Embriagado?

--Sim...

--Não venho embriagado, Marianna; e a prova de que o não estou, é que se fosses um homem, n'este momento, tinhas a cabeça partida nas lages da rua.

--Pois esquece-te que sou mulher, e faz-me essa esmola.

--Basta! não lhe soffro nem mais uma palavra, senhora! Recolha-se ao seu quarto!

Marianna ergueu-se. Tal era a placidez do seu semblante, que nem os gritos brutaes de Luiz lhe alteraram a pallidez. Passou por diante d'elle com os olhos no chão. Entrou no seu quarto, onde encontrou chorando a escrava que a creára, e lhe creára os filhos. Era uma amiga. Lançou-se nos braços d'ella, suffocando os soluços.

Luiz da Cunha sahira.

--Não se deixe morrer, minha senhora--disse a escrava.

--Deixava-me morrer, se não tivesse os meus filhos. Quero viver para elles e... é preciso fugirmos, Genoveva.

--Fugirmos!

--Sim, senão, este homem mata-me, ou eu morro de desesperação.

--Como ha de a gente fugir? Não conhecemos aqui ninguem...

--Pela manhã has de levar ao correio uma carta para o ministro do Brazil em Vienna. Vou escrevêl-a. Se vires entrar esse homem, avisa-me...

A carta para o ministro brazileiro seguira o seu destino. D. Marianna, se podésse rehavêl-a uma hora depois, sustaria o seu desesperado projecto de fuga. A infeliz illudira-se. O coração d'esta mulher não deixára sahir o amor pelas feridas das incessantes punhaladas. Luiz da Cunha, o homem de um anno antes, imaginára-o ella sob a influencia de algum diabolico prestigio da dançarina. Não podia conceber semelhante mudança! Não podia capacitar-se da ignominiosa tolerancia que elle lhe offerecêra! Amava-o ainda.

Mas elle não a deixava muito tempo illudida. O seu proceder parecia um proposito para desenganal-a. Indifferença, desprêso, e até abandono de dias inteiros, seguiram-se ao ultimo dialogo que lhe ouvimos. Já não rebuçava a affronta, nem pretextava sahidas. Á hora do dia, embalava-se com Carlota nas gondolas de Rialto, e mostrava-se com soberba impudencia, ao lado d'ella, ao fim da tarde, na Ponte dos Suspiros.

Marianna já não ignorava nada. A preta dedicada para apressar a fuga, como taboa de salvação para sua ama, espreitava Luiz, ou pagava a quem lhe espionasse os passos, que não careciam de espionagem. Cahira extenuada de soffrimento no leito, ao pé do qual seu marido passava o tempo necessario para calçar umas luvas, quando sahia de manhã para vir, se vinha, jantar á noite. Luiz da Cunha aconselhava-lhe os passeios, e para isso lhe vestira um jokei que a acompanhasse, e lhe déra plena liberdade de gosar, na sua ausencia, não só os prazeres do lympido ceo, mas os da terra que valiam bem a pena de sahir dos amúos que a molestavam.

Uma ironia por consolação! Um escarro nas faces cadavericas da infeliz!

Uma tarde, quinze dias depois que D. Marianna escrevêra ao ministro brazileiro, chegou a Veneza o primeiro addido d'aquella embaixada, e procurou no hotel uma senhora brazileira.

Marianna ergueu-se para recebêl-o, e soube que era elle o encarregado de dispor a sua sahida para o Brazil. O addido, em poucas horas, colhêra ácerca de Luiz da Cunha as precisas informações: assim lh'o ordenára o ministro para não annuir imprudentemente ao capricho de uma senhora casada. As informações eram muito peores do que a ultrajada esposa fizera saber ao ministro, velho amigo de seu pae, e de seus tios.

Um navio estava prestes a fazer-se á vela para o Rio de Janeiro. Marianna apenas tinha tres dias para preparar-se. Na sua situação, tres horas seriam de sobejo. O addido devia retirar-se de Veneza, quando o navio tivesse sahido. Marianna não hesitou, nem pediu delongas.

Acabava de sahir o addido, quando Luiz da Cunha entrou. A brazileira estava chorando.

--Minha amiga--disse Luiz--tinha tenção de jantar comtigo; mas, se me dás môlho de lagrimas, retiro-me.

--Eu é que não aceito o teu convite. Retira-te, se queres, que eu não janto hoje.

--N'esse caso, não jantarei só... Como estás?

--Boa.

--Optimo. Mas essas lagrimas não se esgotam...

--São lagrimas de alegria.

--Ainda bem. Vê se te reanimas para irmos a Milão, na semana proxima.

--Estou reanimada.

--Melhor. E depois vamos a Turim, a Berlim, a Napoles, _et cetera_.

--Iremos. Estas viagens regalam-me o coração.

--Estou gostando do teu joco-sério! Vaes-me sahindo uma _pretenciosa_ falladora.

--Estarei calada, Luiz!

--É melhor.

--Mas, se me não levas a mal, sempre te farei uma pergunta...

--Não ha pergunta sem resposta... Venha de lá isso.

--Como se póde ser homem tão cruel?

--Como se póde ser mulher tão impertinente?--respondo, perguntando.

--Não tenho mais que te diga.

--Falla, se tens lá mais alguma pergunta de algibeira.

--Não tenho nenhuma; comtudo... se tens paciencia, has-de ouvir-me. Eu tenho filhos, de cujo patrimonio sou administradora.

--Já sei.

--Os meus filhos podem pedir-me contas d'esta administração.

--Não digas mais nada, que eu já te matei a charada no ar. Queres dizer que eu gasto mais do que os rendimentos da tua meação. Dir-te-hei que não consinto que me lances em rosto a minha dependencia da tua fortuna. Isso é vil.

--Sou vil, é o que se segue; mas repara, Luiz, que te não lancei em rosto a tua dependencia.

--A cousa bem traduzida lá vai dar. Queres despedir-me do commercio de bens?

--Não: o peor é se te despedem...

--Quem?! Que quer isso dizer?...--replicou elle, colerico.

--Nada...

--Minha querida senhora, para não irmos adiante, fiquemos aqui... Até ámanhã...

--Até ámanhã, Luiz.

No dia seguinte, o conviva de Carlota Gauthier não veio a casa. A escrava soube que o marido de sua ama sahira para Peschiera com a franceza, que disse, no hotel, voltaria passados tres dias.

O immediato era o dia aprazado para a sahida do navio.

O addido conduzia de madrugada D. Marianna, e sua escrava, a bordo. Genoveva levou sempre sua ama desfallecida nos braços. Dizia-se a bordo que a pobre passageira parecia morta, e não desmaiada.

XIV.

CAVAR PARA OS OUTROS A SEPULTURA, E PARA SI O INFERNO.

Luiz da Cunha passeava com Carlota nas margens do lago de Garda, ao pé do pittoresco Mincio. Deliciavam-se em meigos brinquedos, como duas creanças, embebidos um no outro, ao que pareciam, suspirando juntos como a brisa tépida que os arremedava no bulicio da ramagem.

Escurecia, quando divisaram tres vultos. O barqueiro que, a distancia, os tinha já prevenido contra os perigos do local, ao vêr os vultos teimou que entrassem no barco. Luiz, instado por Carlota, olhou com saudade para as deleitosas testemunhas de seus prazeres, e foi, como arrastado, na direcção do barco.

Mas os vultos acceleravam o passo. Carlota e o barqueiro diziam a Luiz que fugisse.

--Fugir a que? São tres, e eu só fujo a trinta.

--Foge Luiz, que eu suspeito...

--Que suspeitas?

--Que algum d'elles é...

--O troca-tintas teu patricio? Deixa-me reconhecêl-o.

Luiz da Cunha esperou-os com as pistolas engatilhadas. Os vultos marchavam para elle tão serenos como se tivessem ouvido o tinnir do gatilho..

--Parem, quando não mato-os!--exclamou Luiz.

--Pois atira, miseravel!--disse um dos tres.

Os gatilhos bateram duas pancadas surdas. Luiz recuou, aperrando-os de novo. As pancadas produziram o mesmo som abafado.

--Estou desarmado, covardes!--gritou elle, quando as primeiras pauladas de «cacetes» curtos lhe estalavam na cabeça, nos braços e no peito.

--Chama os teus sicarios do Brazil!--dizia o antigo amante de Carlota, sovando-lhe a cara de pontapés, quando elle, já em terra, coberto de sangue, perdêra o accôrdo.

A dançarina presenceava o espectaculo de dentro do barco, que se fizera ao largo, graças á prudencia do barqueiro.

Os francezes retiraram-se a passo moroso, conversando na mais tranquilla pacatez de tres socios do instituto de bellas-letras, que viessem de descobrir nas margens do Mincio o esqueleto d'um ichtyosaurus.

Carlota, contra a vontade do barqueiro, chegou-se a terra. Não vendo os vultos, saltou, e viu em terra o amante, que gemia a cada esforço inutil que punha para erguer-se sobre os braços macerados. O barqueiro veio em auxilio da consternada moça. Tomaram-no entre os braços, deitaram-no na prôa do barco, e lavaram-lhe a face arregoada de sangue.

Luiz da Cunha foi curado em Peschiera, e, logo que as forças lh'o consentiram, quiz convalescer em Veneza. Carlota seguia-o, indemnisando-o com extremosos cuidados do desgosto d'uma perigosa sova, por causa d'ella.

Em Veneza, Luiz da Cunha que não déra, durante quinze dias, noticias suas a Marianna, com quanto se não doesse muito de tal falta, achou que era prudente procural-a, que não fosse ella, desesperada, sustar no Brazil a remessa d'uma importante quantia que elle exigira.

No hotel disseram-lhe que sua senhora com a escrava tinham sahido n'uma madrugada, havia treze dias, e não voltaram.

Entregaram-lhe as chaves dos seus quartos. Luiz da Cunha encontrou tudo, menos os bahús d'ella. Nem uma carta sobre as mesas! cousa nenhuma que o esclarecesse! Chamou o criado, que ficára com as chaves, esperando que lh'as recebessem:

--Com quem sahiu a senhora?

--Com um cavalheiro.

--Seria de Veneza?

--Não, senhor: vi-o aqui entrar uma só vez, antes d'ella sahir com elle.

--E os bahús, quem os transportou?

--Dous homens que tinham vindo com o tal cavalheiro: pareciam marinheiros.

Luiz da Cunha informou-se. Justamente na madrugada d'esse dia sahira um navio com carregação de vidros para o Rio de Janeiro.

A sua situação pareceu-lhe embaraçosa! A primeira ideia foi seguir quanto antes sua mulher. Consultou Carlota, e a carinhosa respondeu ternamente que o não acompanhava, porque não tornava ao Brazil. Ainda assim, renunciando generosamente o amante á esposa, a bailarina aconselhava-o que a seguisse, embora ella ficasse devorada de saudades.

Esta sublime abnegação impressionou Luiz, a ponto de olvidar, surdo aos gritos do presentimento, as consequencias da apparição de Marianna, sósinha, aos seus parentes.

Contando com a sua astucia, deferiu a viagem para mais tarde, visto que ainda lhe restava uma ordem de dez contos, e entretanto Marianna, forçada pela saudade, poderia de lá chamal-o, pedindo-lhe perdão.

Proseguiu nas suas viagens com Carlota. Saboreou o ouro e a liberdade, não azedada pelas lagrimas importunas de sua mulher. Gastou francamente como se uma nova remessa devesse chegar do Brazil, antes de escoar a ultima libra dos dez contos. Fez, durante quatro mezes, pontuaes pagamentos á bailarina, de cinco mil francos cada mez. Contava-lhe com ingenua candura a sua vida, os seus haveres, e até desceu á pueril pieguice de lhe dizer que era necessario fazerem economias, em quanto lhe não chegava uma ordem para saccar em Londres um cabedal mais duradouro.

Carlota, á palavra «economias» sentiu que o coração lhe fazia no peito uma pirueta, e ficava de costas voltadas para o economico amante.

Á maneira do coração, a dançarina resolveu fazer tambem uma pirueta na primeira occasião.

A occasião veio-lhe ao encontro dos desejos. Um conde austriaco hospedára-se no mesmo hotel em Roma. O locandeiro tinha poderes discricionarios para convencer a moça. A proposta foi aceita, estipuladas as condições, e Carlota desappareceu com o conde na estrada que devia conduzil-a a Paris.

Luiz da Cunha--diga-se a verdade--não sentiu muito a ausencia da sua companheira de quarto. A paixão diminuira na razão directa das libras. A sensualidade ia-lhe arrefecendo á maneira que o espirito se lhe occupava em meditações sobre o futuro. O mais que fez foi estudar os pontos de contacto entre Carlota e Liberata, e viu que eram bustos do mesmo molde. Teve a imprudencia de chamar Assucena e Marianna a esta galeria, e concordou, o mais racionalmente que pôde, que aquellas duas eram d'um estofo muito superior ás outras.

O peor era a pobreza que o ameaçava!

Os dez contos de reis em oito mezes, com quanto economisados, tinham cahido na voragem dos brilhantes de Ricarda, dos bens livres de João da Cunha, dos quarenta mil cruzados de Assucena, do incalculavel numerario com que sahira do Brazil. Restavam-lhe algumas duzias de libras, e nenhum amigo, nenhum credito, nenhuma esperança que lhe não deixasse antever o futuro pela face da indigencia. Angustiado no dilemma, resolveu abandonar a Europa, que tão cara lhe era, e vestir uma mascara de bronze, como se precisasse de encobrir a vergonha, para lançar-se aos pés de sua mulher, se é que ella lhe não correria aos braços, banhada em lagrimas de alegria. O projecto dependia de uma execução immediata, porque as ultimas libras urgiam.

Luiz da Cunha, protestando vencer, ainda uma vez, a força diabolica que o empurrava para o abysmo da miseria, refez-se de coragem, confiou-se á prodigiosa omnipotencia da sua impostura, e embarcou em Civitta-Vechia n'um navio de escala para Buenos-Ayres.

N'esta viagem, não ha memoria d'alguma aventura digna de menção na biographia do filho de Ricarda. Contaram, porém, os seus companheiros de viagem, que tal homem se fizera repulsivo a todos pelo desprêso com que a todos repellia. Era intratavel, e tinha accessos de frenesi assustadores. Corria as cortinas do seu beliche durante o dia, e passeava toda a noite na tolda. Se em noites calmosas os passageiros tambem subiam a respirar, Luiz da Cunha descia com arremesso a isolar-se na sua camara.

Vê-se que o cynico não tinha o riso despejado da escola. Soffria; mas não era a suave melancolia do solitario sem os remorsos: era o assomo colerico, o concentrado rancor do algoz que não póde estalar os grilhões que o condemnam a morrer no desespêro da immobilidade.

Pois a hora do remorso não soára para este homem?! Ainda não. Talvez nunca. O remorso é o triumpho do anjo bom. Luiz da Cunha pactuára uma alliança insoluvel com o demonio, cuja existencia não é para mim uma fabula, quando me vejo impellido ao mal, e cêdo com pesar ao impulso, encarando o bem por que suspiro. A lucta entre as duas potencias existe no coração humano, em quanto a consciencia sabe estremar o crime da virtude. Mas, perdidas as noções do dever, raspada de sobre o coração a palavra «honra» a lucta já não existe, o anjo bom fugiu espavorido, o remorso é impossivel.

E era-o para Luiz da Cunha.

Esse fugir da sociedade, odiando os homens, era o encovar-se do tigre, sequioso de prêsas, raivando de fome, e espreitando com olho abrazado a victima desprevenida.

Luiz contava os dias de viagem com frenetica anciedade. Só, imaginára todas as hypotheses terriveis do seu futuro. Dava-se como possivel a vingança de Marianna, privando-se não só da tutella dos enteados para diminuir os redditos, mas negando-lhe a elle uso-fructo da sua propria meação. Verificar esta horrivel conjectura era o seu desejo: vingar-se de qualquer modo era a sua tenção, se uma bem estudada impostura o não reconciliasse com Marianna.

Chegou a Buenos-Ayres, e na lista dos estrangeiros que pernoitavam no mesmo hotel viu o nome de Francisco José de Proença. Saibamos de passagem que Proença era um official do exercito portuguez, que seguira as bandeiras de D. Miguel. Em 1833 expatriara-se para o Brazil. Filho d'um brigadeiro, visitava-se com João da Cunha, e fôra da roda de Luiz.

O marido de Marianna encontrára-o no Rio de Janeiro, luctando com a adversidade, pobre, sem emprego, vivendo do trabalho esteril de amanuense d'um advogado. Soccorreu-o com um emprestimo de dinheiro para tentar o trafico da escravatura, pensamento dominante de Proença.

O portuguez fôra bem acolhido por Marianna, em respeito a seu marido. Civil, bem morigerado, e prudente, colhêra muito na escola da desgraça. Fez-se bemquisto, adquiriu proveitosas relações, alcançou aura de honrado, apesar do seu plano de mercadejar com pretos. Este trafico não deshonrava ninguem. Era como qualquer outro, um ramo de commercio, que germinou illustres vergonteas, as quaes transplantadas depois em Portugal, bracejaram copadas sombras onde se acoitam em torpel as mercês, e os sacerdotes da apotheose.

Tal era o protegido de Luiz da Cunha em Setembro de 1840, quando o seu protector, sahindo do Rio para a Europa, o recommendava aos tios de sua mulher.

Foi, pois, bem natural o sobresalto de Luiz da Cunha quando viu na lista o nome _Francisco José de Proença_. Guiaram-no ao quarto d'elle. Proença, com o coração alvoroçado da surpresa, abraçou Luiz.

--Tu aqui!...--exclamou elle.

--Não imaginei encontrar-te fóra do Rio!

--Vens de lá? Já vejo que não.

--Venho da Europa. Ha que tempo sahiste do Rio?

--Ha tres mezes. Tu ignoras tudo, pelo que vejo.

--Se ignoro tudo!... Sei que Marianna está lá...

--Sabes que ella está lá? E sabes como ella está?

--Doente, talvez...

--Doente, não... morta.

--Homem! isso é extraordinario! Tu não mentes?

--A brincadeira seria de mau gosto. Não minto, Cunha. Pensei até que o saberias.

--Isso é incrivel! Pois Marianna está morta?!

--E sepultada ha cinco mezes.

--Que infernal vida a minha!

As bagas de suor frio innundavam-lhe a testa. A commoção não se differençava nada d'uma boa alma surprendida por uma nova terrivel.

--Infernal vida a tua! tambem eu digo, Cunha... Mataste aquella senhora...

--Matei...

--Tardio remorso!...

--Conta-me tudo.