A Neta do Arcediago

Chapter 10

Chapter 103,798 wordsPublic domain

--Oh! que santa prophecia é essa!... V. ex.ª não me conhece... não se conhece...

--Não me conheço!... Que quer dizer?

--Nada, minha senhora.

--Diga... não me deixe dar uma má significação ás suas palavras.

--Pois sim, digo; mas que a não vá eu ferir... promette perdoar-me?

--Pois que me dirá que eu não deva perdoar-lhe?!

--Não se conhece; porque, se alguma mulher podia dar-me a mão, afastando de sobre mim a pedra sepulcral... Já me comprehendeu...

Marianna baixára os olhos, e estremecêra. Subira-lhe ás faces o calor do coração. Sentira em si uma confusão de ideias, uma embriaguez de felicidade e receio, uma tal perturbação que, n'aquelle momento, quizera antes não estar alli, supposto que em parte alguma podésse estar melhor.

Luiz da Cunha, encostando a face á mão direita, pozera a mão de modo que os olhos retorcidos não perdessem um movimento de Marianna.--É o que eu tinha previsto--disse elle a si proprio, sorrindo mentalmente. Passados alguns segundos dramaticamente taciturnos, Luiz, como de um rapto, sahiu do seu extasis, e perguntou com a mais artistica commoção:

--Offendi-a? Lembre-se que prometteu perdoar-me.

--Perdôo-lhe todo o mal que me faz...

--Vê como sou infeliz?

--Infeliz!... qual de nós é mais?

--Tão infeliz que faço mal a quem eu quizera dar todas as felicidades da terra, se tivesse a omnipotencia d'um Deus.

--O mal que me faz... poderia converter-se, se Deus o quizesse, em ventura de ambos...

--Poderia!... eu bem sei que podia... Snr.ª D. Marianna... eu devera têl-a encontrado no principio da minha juventude.... Eramos hoje tudo que o desejo póde imaginar de mais feliz, de mais invejavel... Segue-se que é mentira aproximarem-se os entes que o destino talhou para se unirem... Quando se encontram, já a desgraça os traz desfigurados; vêem-se, e não se conhecem; fallam-se, e não se comprehendem; abraçam-se, e sentem-se frios como a pedra de um tumulo, como dous cadaveres, que se levantam, a par, da mesma campa...

--E é o que nós somos um para o outro? Julga-me tão mal, senhor Luiz da Cunha!

O filho de Ricarda ergue-se impetuosamente, dá quatro passeios no tombadilho, afastando os cabellos da testa, e pára defronte da viuva, com attitude o mais ridiculamente sinistra que póde imaginar-se.

--Senhora D. Marianna!

Ella fixou-o, erguendo-se tambem assustada.

--Senhora D. Marianna! ouve uma voz celeste, que a manda salvar-me? É o instrumento sobrenatural do meu anjo de redempção? Responda...

--Que posso eu responder-lhe?

--Obedeça ao seu coração... Este momento póde marcar uma nova época na minha vida...

--Senhor Luiz da Cunha...

--Responda, Marianna... não receie ferir-me com uma palavra negativa... Eu preciso mesmo do ultimo desengano...

--Que hei de eu dizer-lhe... sem que me tenha dito...

--Que a amo?... Não o adivinhou ainda, Marianna?!

A viuva encostou-se á amurada do navio, e pousou a barba na palma da mão direita, cujo braço tremia em perceptivel convulsão. Um raio da lua reflectiu-se nas lagrimas d'ella. Luiz da Cunha teve um d'esses raros momentos de compaixão, que costumam assaltar o infame: devêra então maravilhar-se do magico prestigio da impudencia.

O capitão subia ao convez, e olhou com indifferença para os dous passageiros, que não eram suspeitos a ninguem. Marianna, dizendo-se influxada pelo ar da noite, desceu á camara, pedindo a Luiz da Cunha que se recolhesse tambem. Era do plano astucioso obedecer.

Desde o dia immediato, repararam alguns passageiros na frequente conversação da viuva com o homem mysterioso. O capitão, prevenido por elles, reparára tambem que os passeios na tolda eram certos todas as noites. O que elles todos notavam era uma sensivel differença nos estranhos costumes do companheiro. Já não era preciso instar com elle para assistir ao almoço. Acontecia muitas vezes encontrarem-no já com Marianna, conversando em tom que subia uma oitava acima quando entrava alguem. Viam-os, depois de almoço, ao pé da agulha, fugindo da ré onde se agrupavam os passageiros. Para admirarem o phenomeno magnetico do iman com o norte, achavam os criticos que era tempo de mais. Murmurou-se que havia namoro, e censuravam a leviandade de Marianna, que tanto chorára, e tão depressa esquecêra o marido. Mas não passava d'isto a murmuração.

Com trinta e cinco dias de viagem, chegaram ao seu destino. A bordo da galera vieram os parentes de Marianna. Luiz da Cunha, apresentado por ella a seus tios, como pessoa a quem devia muitas finezas, foi convidado para sua casa, e aceitou com arteira difficuldade, que as instancias convencionadas de Marianna venceram.

O filho de Ricarda recebeu a ordem dos seis contos de reis, fechada n'um envolucro em branco, qual o padre Madureira a entregara. Dentro d'esse envolucro, junta á ordem, estava uma carta designada a Luiz da Cunha. Abriu-a, e leu:

_Luiz da Cunha foi remido da ignominia, do degredo, da fome, e da morte por Assucena. Se esta certeza lhe não valer um arrependimento nobre, sirva-lhe ao menos de vergonha perante a sua consciencia._

A perplexidade do promettido esposo de Marianna durou poucos segundos. D'aquella alma já não era possivel arrancar vergonha nem remorso. O padre Madureira enganára-se. Queimando a carta, Luiz da Cunha entendeu que o segredo voava nas cinzas d'ella. Estabeleceu tranquillas conjecturas ácerca da riqueza de Assucena: d'onde lhe viriam perto de quarenta mil cruzados?

Occorreram-lhe hypotheses, quasi todas ignobeis, e sordidas. E, como nenhuma era mais provavel que as outras, Luiz da Cunha resolveu, um dia, embolsal-a d'esse emprestimo.

Hospedado em casa d'um tio de D. Marianna, a sua vida, posto que inactiva, era regular, e bem procedida. Não aceitou apresentações nas salas da boa roda, porque D. Marianna as não frequentava, como viuva. Visitava-a todos os dias em familia. Escrevia-lhe todas as manhãs, e recebia de tarde o menino, que era o pretexto para a entrega das cartas.

Viuva de onze mezes, D. Marianna, administradora da sua casa commercial, declarou, por delicadeza, aos parentes, que, passado o lucto, casava com Luiz da Cunha. Não se oppozeram estorvos, que seriam inuteis. O noivo era bemquisto: informações de Portugal era tarde para havel-as: o astuto soubera dirigir o plano de modo que se não pedissem a tempo.

Casaram.

No dia immediato espalhára-se no Rio que D. Marianna casara com um infame aventureiro, fugido de Portugal, depois que os seus crimes lá não cabiam.

Esta terrivel nova fôra levada pelo capitão da galera, que se informára em Lisboa, para saber se Luiz da Cunha seria o que parecia no primeiro dia de viagem, ou nos outros.

Era tarde. O mais que podiam os interessados na felicidade de Marianna era verem desmentida a calumnia, ou confirmado o boato pelo procedimento do marido.

XIII.

EXPLOSÃO DA INFAMIA REPRESADA.

Eram passados tres mezes. Não havia razão nenhuma para acreditar a fama, confirmada por ulteriores indagações. Luiz da Cunha não desmerecêra nada nas esperanças de Marianna, e vivia á mercê da vontade d'ella, que era a primeira a lembrar-lhe os bailes, o theatro, e os passeios, que o bom marido frequentava com ar de aborrecido.

Os que tinham como certos os escandalos de Luiz em Portugal, estavam com elle em suspeitosa guarda, não querendo acceitar como possivel a sua emenda. Andava aqui inveja da avultada riqueza que a fortuna da caprichosa lhe déra; o todo, porém, d'esses cabedaes, em terrenos e predios urbanos, não podia considerar-se propriedade alienavel da viuva, que era simples administradora de seus filhos. Ainda assim, a sua meação avaliavam-na em cem contos de reis.

Como quer que fosse, Luiz da Cunha estava rico. A administração economica da casa, em poucos annos, podia dobrar o que era legitimamente seu por mutua escriptura.

O marido de Marianna chegou a acreditar na sua regeneração. Sabia das suas intimas confidencias que de todas as mulheres a que menos amava era a sua; mas tambem não sentia os imperiosos estimulos de procurar emoções nas outras. A paz, as commodidades, o luxo, a consideração, bem-estar que nunca experimentára, agradavam-lhe. Constavam-lhe as informações idas de Portugal, e queria, até por capricho, desmentil-as. Signal era de que a opinião publica alguma cousa valia já na sua. Este symptoma enganaria o mais sisudo physiologista do coração, quando o proprio Luiz da Cunha acreditava na estranha reforma das suas tendencias.

Basta dizer-vos que D. Marianna chamava-se feliz, e alardeava com soberba a sua boa escolha na presença dos que faziam côro com a maledicencia, mordendo a reputação de seu marido.

Deliciosos tres mezes!

Mas ao quarto.... Porque não morreu aquella pobre senhora no terceiro? Porque não se aplacou o inexoravel destino d'aquelle homem? Porque ha de ser tão brutal, tão despota a desgraça atirando abaixo das felizes illusões a victima a que deu trégoas d'alguns mezes?

Mas, ao quarto, Luiz da Cunha viu uma dançarina no theatro, e fixou-a com tal curiosidade, que o coração de Marianna palpitou dolorosamente. Quiz desviar-lhe a attenção da perigosa mulher, e não pôde. Quiz, no dia seguinte, com um subtil pretexto, sahir para os arrabaldes da capital, mas seu marido, com pretextos ainda mais subtís, adiou a sahida.

A dançarina era franceza. Tinha a seu favor todos os demonios alados da seducção. Era fresca como um ramalhete de camelias. Tinha os olhos mais maliciosos, mais voluptuosos, mais zombeteiros que podem descender de uma costella do homem, amputado no seu barro primitivo. As pernas tão expostas á avidez da analyse, não invejavam a correcção proverbial das de Diana caçadora. Nos braços, d'um setim transparente, destacava-se a rêde das veias azuladas, onde o sangue buliçoso vos deixaria suspeitar se eram aquelles os braços roubados á Venus de Milo. O pé, que nenhuma sevilhana teve nem mais pequeno nem mais arqueado, obedecia ao frenesi das evoluções, ou encontrava o dente da tarantula, cada vez que tocava o invejado pavimento do palco. Era a Paquita que Asmodeu inventára para Cleófas. Era a creatura de Lucifer em competencia com as creaturas de Deus.

Luiz da Cunha não experimentára ainda as paixões tempestuosas do theatro, a mordedura d'esses desejos enfurecidos pelo ciume de muitos concorrentes, essa garganta que sorve com o ouro as illusões nobres do coração; emfim, essa vertigem, que faz de um amor vendido um triumpho á custa do desdouro em publico, e das lagrimas no recinto domestico.

Era forçoso ao homem de todas as situações conhecer esta.

Marianna não precisava de mais provas; eram desnecessarios os avisos das suas amigas: uma boa esposa está muito perto do coração de seu marido; a sombra de uma ligeira infidelidade sente-se logo no escurecer da alegria tranquilla que se lhe irradia dos olhos enxutos. Vem logo as lagrimas accusarem o que os labios não accusam. Vem a pallida melancolia enturvar os sorrisos descuidados da dôce paz.

Era assim que ella se queixava de Luiz da Cunha, que parecia estranho a essas timidas manifestações de ciume. Se os labios deixavam passar um gemido, ninguem a consolava, porque não queria testemunhas. Luiz costumava enrugar a testa com fastiento gesto aos suspiros repetidos de sua mulher.

Entretanto, o allucinado empregava todos os processos conhecidos para satisfazer a ancia pertinaz. Fez grandes offertas de dinheiro, repellidas sempre. Cortejou a bailarina, valendo-se umas vezes da brandura hypocrita, outras da violencia natural. Nem de uma, nem da outra maneira. Ao lado da franceza estava um amante, francez tambem, caprichoso, ciumento, e espadachim. Luiz da Cunha fôra ameaçado por elle, e conteve-se em quanto as esperanças lhe não falliram.

Marianna já transigia com a infidelidade; mas não queria vêr-se sacrificada, no coração do esposo, ao amor sensual d'uma mulher sem alma. Os seus amigos lamentavam-na; os infamadores tenazes de Luiz da Cunha batiam as palmas. A infeliz tentou uma dolorosa lucta comsigo mesma. Advertiu seu marido do que se dizia; pediu-lhe que não désse aos seus inimigos o prazer de o apregoarem tal qual as informações de Lisboa o pintavam.

Luiz da Cunha riu-se, dizendo com grosseira altivez, que os seus inimigos podiam ser atados em feixe com um chicote, e mandados de presente ao diabo.

As promessas redobraram, e a bailarina cahiu do pedestal do capricho, onde quizera ter-se como em pedestal de virtude.

Cedeu, e com tanto escandalo que na noite de proximo theatro, em pleno espectaculo, Luiz da Cunha recebeu do rival uma bofetada na face, á qual respondeu com chicotadas, que lhe deram a primazia na lucta. Tratou-se um duello, que Luiz da Cunha disse não aceitava, porque era filho de um dos mais nobres fidalgos de Portugal, e não media o seu florete com um troca-tintas da França. O francez, dias depois, abandonava o Rio para evitar um assedio de traiçoeiros punhaes, comprados por Luiz da Cunha.

A bailarina estava sob o exclusivo dominio do novo amante. O seu fausto centuplicou em grandeza. Prendas d'um valor enorme, arrancadas pela prodigalidade do ouro a especuladores astuciosos, eram o preço da escandalosa rival de Marianna.

Os amigos d'esta, finda a estação do theatro, expulsaram a dançarina, com artificiosa violencia, ou por dinheiro que Marianna deu como se o restabelecimento da sua ventura dependesse da ausencia da franceza.

Luiz da Cunha foi surprendido pela fuga da segunda Liberata que lhe tocára o coração. Disfarçou a affronta em publico; mas, de portas a dentro, desforçou-se do ultraje despresando Marianna. Esta mulher era sublime! Quiz convencer a sociedade de que era outra vez feliz, para readquirir o bom nome de seu marido.

Luiz da Cunha comprehendeu-a, deu ares de compadecido, fez sobre si um esforço, e convenceu-a do seu arrependimento. Vejamos porque.

Dois mezes depois, Marianna era outra vez ditosa. O detrimento que a sua casa soffrêra, estava remido. As dissipações com a mulher do theatro, posto que exorbitantes, não doiam no coração da nobre senhora. Esses calculos deixava-os ella á curiosidade dos mesquinhos louvados dos seus haveres. O que ella queria era o coração de seu marido, e esse capacitou-a elle de que fôra sempre seu, até mesmo na embriaguez vertiginosa d'essa fatal loucura com a franceza.

Chegou a primavera, e Luiz da Cunha projectou com sua mulher uma visita ás primeiras capitaes da Europa. Marianna desejava vêr Paris, Veneza, e Londres: não queria, porém, tornar a Portugal. O marido conveio da melhor vontade na excepção, e partiram.

Em Paris, mal se hospedaram, Luiz da Cunha sahiu a colher informações da dançarina _Carlota Gauthier_. Fôra escripturada para Madrid. Em breves dias viu com sua mulher os objectos menos notaveis de Paris. A impaciencia ralava-o. Inventou uma epidemia para retirar-se, e prometteu a Marianna voltar.

Em Madrid foi acolhido por Carlota, que não teve pejo de receber o abandonado amante, phantasiando a violencia com que fôra arrastada a bordo a uma embarcação.

Luiz propôz-lhe abandonar o theatro, a troco de doze contos de reis annuaes. O seu desenlace devia ser immediato: nem uma só vez appareceria no palco. Luiz da Cunha evitava assim que sua mulher visse a bailarina, e explicasse a viagem á Europa, e a sahida precipitada de Paris.

Carlota aceitou: rompeu as escripturas; e o amante pagou a condemnação.

Marianna não podia comprehender as sahidas frequentes de Luiz, deixando-a só n'uma hospedaria! Não se queixava para não ser, talvez, injusta com as abstracções de seu marido. Suspeitou um passageiro namoro com alguma madrilense d'entre tantas tão seductoras, e cujo garbo ella não podia invejar. Por necessidade de conviver, relacionou-se com uma familia portugueza, hospedada no mesmo hotel. Fugia de revelar os seus pezares; mas uma das senhoras portuguezas adivinhou-lh'os. O marido d'esta sabia quaes eram as distracções de Luiz da Cunha. O rompimento da escriptura era sabido de todos. O amante de Carlota era apontado. Só Marianna ignorava o que em Madrid era materia de ociosa analyse, até ao momento em que a senhora portugueza lhe aclarou o segredo das frequentes sahidas.

Marianna adoeceu. Luiz suspeitou a inutilidade dos seus cuidados em esconder de sua mulher o escandalo, que dava a todo o mundo, galardoando-se d'elle, e guardando-se apenas d'ella.

Na incerteza, convidou carinhosamente Marianna a continuarem a sua viagem. A desgraçada, apegando-se ao derradeiro fio da esperança, imaginou que a dançarina ficaria em Madrid.

A ancia de sahir restabeleceu-a, e partiram; mas, ao dar o ultimo adeus á dama portugueza, disse-lhe esta ao ouvido:

--Se vão para Paris, saiba minha amiga, que a dançarina já para lá partiu ha dous dias.

..........................................................................

--Não vamos para Paris...--dizia, depois, Marianna a seu marido.

--Porque, minha filha?

--Porque receio a epidemia.

--Sou informado de que já não ha peste em Paris.

--Ha, ha...

--Como sabes que ha?!

--Não é só a peste, é tambem a morte para esta desgraçada mulher, que trazes pelos cabellos a ser testemunha das tuas infidelidades... dos teus desprêsos...

--Isso é uma calumnia, Marianna.

--Não vamos para Paris, meu querido amigo... não vamos, não? Já vi tudo.... não quero vêr mais nada de lá. Vamos para a Italia... sim?

--Iremos; mas é necessario fazer escala por Paris.

--Tenho entendido... hei de ser morta por essa mulher!...

--Que mulher?!

--Carlota...

--Ora adeus! quem zombou assim da tua credulidade? Eu não sei d'essa mulher.

--Desde que te despediste d'ella em Madrid?

--Tem juizo minha creança... Tu já sabes que a parte que tens em minha alma não póde ser substituida por ninguem, e muito menos por comicas...

--Desgraçadamente tenho a certeza do contrario... Queres dar-me uma prova de estima? Fazes-me um favor que eu te agradecerei de joelhos?

--Que é, Marianna?

--Vamos para nossa casa.... Vamos ser felizes como temos sido... Eu esqueço-me de tudo; nunca te fallarei d'esta mulher; mas vamos já...

--Não tem geito nenhum esse contra-senso. É um disparate que faria rir os nossos conhecidos!

--Pois que riam elles, e não chore a tua amiga. Vamos, Luiz?... fazes-me a vontade?

--Não posso.

--Não pódes?! Que maneira é essa de responder-me?! Lançaste-me um olhar que nunca te vi! Santo Deus, que coméço a ter mêdo do teu aspecto! Será possivel que tu sejas o homem que se disse?

--Não sei o que sou: fica n'aquillo que te parecer.

--Pois bem, Luiz, manda-me para os meus filhos, e fica tu em Paris.

--Não irás, Marianna. Has de ir comigo.

--Hei de ir já para minha casa... Tenho um presentimento que morrerei longe dos meus filhos... Desliga-te de mim, faz o que quizeres; mas não sejas tão mau, que me obrigues a acompanhar-te nos teus desatinos.

Esta afflictiva scena passava-se n'uma estação onde parára a diligencia para os passageiros almoçarem. Luiz da Cunha deixára sua mulher, quasi de joelhos, e viera para uma janella trautear uma aria. Depois, irritado pelo imperioso _hei de ir já!_ voltou-se para dentro com arremesso, crusou os braços, fez um gesto affirmativo de cabeça, e deu uma d'estas risadas cortadas que significam desprêso e ameaça.

Marianna sentiu-se cahir desamparada, desvalida, na convicção de que seu marido era um malvado. Vendo-se sósinha, tremeu da sua situação. Forte em todos os sentimentos, tal terror se lhe incutiu, que receou pela vida. Como a avesinha, escondendo a cabeça sob a aza para não vêr o assassino que lhe mede com a pontaria o coração, Marianna escondeu a face entre as mãos, cambaleou um momento, e recuou sobre um canapé, onde cahiu desfallecida.

Luiz da Cunha, vendo de um lance de olhos todos os resultados d'um possivel divorcio, ou mais ainda, da morte de sua mulher, reprehendeu-se da inconveniente aspereza, intentou reconciliar-se com Marianna, e começou o seu novo plano, rapidamente concebido, tomando-a nos braços, chamando-a com ternura, e cobrindo-a de beijos.

Marianna viu com espanto a doçura dos olhos de Luiz, e por pouco não cede ao impulso de abraçal-o. A que, momentos antes, tremêra de mêdo diante do malvado, eil-a agora, quasi perdoando, arrependida do criminoso susto que tivera! Quantas mulheres assim! Quantas transfigurações da martyr que pena, para o anjo que perdôa! Quantas lagrimas o homem enxuga com um falso sorriso!

--Não me tenhas odio, Marianna...--dizia elle, inclinando-a sobre o braço esquerdo, e anediando-lhe os cabellos.

--Odio... não tenho; mas queres que eu não soffra?!

--Quero... farei o que tu quizeres... Não queres que vamos a Paris? Não iremos. Vamos para a Italia, sim?

--E de lá para nossa casa?

--Iremos, filha... tornaremos para Madrid; vamos a Cadiz, e de lá embarcaremos para a Italia... queres?

--Sim, sim, agradeço-te de todo o meu coração o sacrificio...

--Sacrificio! nenhum, Marianna! Tu não crês que és para mim a primeira mulher, que não tens uma rival que possa mais que a tua vontade?

--Queria acreditar; mas tu...

--Eu que? Sou fraco... sou um miseravel ludibrio do destino; mas tu vences esse destino, quando queres... És hoje para mim o que eras ha um anno sobre o mar...

--Oh!... se eu fosse!...

--És, filha. Não me vês arrependido? Queres-me de joelhos a teus pés?

E o farcista fez menção de ajoelhar, quando Marianna se lhe lançou ao pescoço, beijando-o, banhando-lhe de lagrimas a face, soluçando, comprimindo-o com a vehemencia de toda a sua paixão acrisolada pelo ciume, e expansiva pelo prazer do triumpho sobre a rival.

Em Madrid, Luiz da Cunha foi tão caricioso, que Marianna recordava os primeiros dias do seu noivado, e não os achava mais gratos, mais ligeiros nas suas rapidas horas do delicioso arrobamento.

Furtando-se poucos instantes á companhia d'ella, Luiz da Cunha escrevêra a Carlota ordenando-lhe que o esperasse em Veneza, mas desconhecida, com um pseudonimo, porque assim convinha á tranquillidade de ambos.

Quando, pois, D. Marianna, cheia de jubilo, sahia para Cadiz, a dançarina, nomeando-se _Julia Lamotte_, chegava a Veneza, e isolava-se n'um hotel, sacrificando a publicidade, que tão grata lhe era, á prestação annual de sessenta mil francos, dos quaes apenas recebêra em Madrid cinco mil.

Em Veneza, um dos primeiros homens que Luiz da Cunha encontrou, fixando-o com ar provocador, foi o francez, que fugira aos sicarios escravos do amante de Carlota. O brigão que partira a cabeça ao visconde de Bacellar, e acutilára o mestre de esgrima, tinha tanta maldade como bravura. Não se apavorou do gesto ameaçador do francez, rodeado de francezes. Caminhou para elles, com duas pistolas engatilhadas, na presença de sua mulher, que permanecêra estupefacta sem atinar com a causa nem com o desenlace d'este estranho encontro. O grupo dos francezes, os homens mais delicados do mundo, respondêra com um sorriso á arrogancia de Luiz. Um d'elles, approximou-se de Marianna, com o chapéo na mão, e disse-lhe com affectuosa urbanidade:

--Sabemos respeital-a mais que seu marido. Não receie consequencias tristes. Os aggredidos são cavalheiros.

Luiz da Cunha, depois da ridicula provocação, metteu as pistolas nas algibeiras, deu o braço a sua mulher, e saltaram na gondola que os esperava.

Marianna pedira inutilmente a explicação d'aquelle successo. O marido evadia-se ás perguntas, dizendo que detestava os francezes, e imaginára que um d'aquelles o escarnecêra.

Deu-se um encontro que respondeu ás apprehensões da brazileira.

A gondola ia abicar na ilha de S. Lazaro, ao mesmo tempo que desatracava outra gondola com uma dama, e um jokei. A perturbação de Luiz não foi visivel para sua mulher, que não desviava os olhos pasmados da face da dama, que se approximava na direcção da sua gondola. Já perto, Marianna fez-se livida, convulsa, encostou-se, quasi esvahida, ao braço do gondoleiro, repellindo o de seu marido, e, ajudada a saltar ao caes, sentou-se, murmurando:

--Como eu sou desgraçada, meu Deus!