A Mulher Portugueza

Chapter 2

Chapter 2600 wordsPublic domain

Abrem-se os salões para os grandes bailes; mas já não é o salão pombalino, é o salão com o estrangeirismo. Irrompe uma nova sociedade, começam as classes altas a descer e as classes baixas a subir, e a portuguezinha, pallida e luarenta, atravessa de olhos em alvo, por entre os homens terriveis, nos bailes do Manteigueiro, da Assembleia, da Regaleira, das Laranjeiras, do marquez de Vianna e do marquez de Penafiel, e nas reuniões litterarias da interessantissima D. Maria Krus, de cabecinha ao lado emmoldurada em bandós. Apesar d'este acesso febril, fortalecida com o exemplo de D. Maria II, conserva-se ainda a boa dona de casa e o namoro faz-se sob resguardo, emquanto não a surpreende o néo-romantismo, na passagem do reinado de D. Pedro V para o de D. Luiz, e ella desata a soluçar e a tomar amor á tisica. O Passeio Publico colma-se de namoricos, e a mulher, que tão bem soube usar da sua graça e da sua seducção na vida portugueza de 1830 a 1860, vae-se diminuindo pouco a pouco a si propria e só nos ultimos vinte annos, dentro d'um rasgado desafogo, torna a fulgir pela illustração com que se cultiva, pelo gosto que se lhe apura, pela intelligencia que se lhe desenvolve.

Tendo percorrido uma curva, por vezes extravagante, e acabando por investigar com desembaraço varios problemas psychologicos e por se integrar na vida social, apresenta-se-nos no seculo XX, ora ponto de interrogação, ora exclamação reveladora. Talvez não erre classificando a mulher de hoje--a mulher anciosa. É a anciedade o que a domina, anciedade de saber, anciedade de dirigir a sua vida, anciedade de inteira libertação, anciedade de attingir o ideal, que para si propria creou. E d'este conjuncto de aspirações resulta ser o nosso constante auxilio, a força da nossa força, a intelligencia da nossa intelligencia, o coração do nosso coração, o braço do nosso braço.

Eternamente governada pelo sentimento, com a ternura que nenhuma outra possue, meiga, affectuosa e soffredora, arte viva pela harmonia da formosura, pela melodia da voz e pela doçura do trato, religião sublime pela elevação do espirito, onde repercute a dôr eterna e brilha a esperança immortal, poema dos sentidos, de todo o amor e de todas as crenças, rosario, flôr, sol e luar, breviario e epopeia, bella, resignada e casta,--ó mulher portugueza, pelas evoluções que tendes percorrido, vós fostes, sois e haveis de continuar a ser o viço do nosso olhar, o paladar da nossa bôca, a musica dos nossos ouvidos, o verdadeiro corpo da nossa alma e acima de tudo a raiz de toda a nossa poesia e o alento da nossa patria. Conduzi-a, pois, sem o minimo desfallecimento, sempre vigilante, sempre terna, esteio da nossa fé, estandarte dos nossos triumphos, cantico das nossas glorias! Mulher-arte, mulher-religião, com a vossa influencia, com a agudeza do vosso espirito e com a generosidade dos vossos sentimentos, espalhae o amor entre nós todos! Dos vossos olhos, dos vossos labios, dos vossos corações lançae jorros de amor, porque de muito amor é que precisa a nossa linda e querida terra e outra fonte não temos aonde o vamos beber. Filippa de Vilhena, para restaurar Portugal do jugo castelhano, armou os seus dois filhos com duas espadas, e vós, mulheres de hoje, se quereis restaurar a patria do jugo das inimizades e malquerenças, abri o vosso peito e armae com o vosso coração os vossos entes mais queridos. Elles ficarão sendo os abençoados cavalleiros da concordia e do amor, e Portugal inteiro ajoelhará a vossos pés, exclamando, commovido:--Bemdita, mil vezes bemdita, ó mulher portugueza!

End of Project Gutenberg's A Mulher Portugueza, by Eduardo Shwalbach Lucci