A Morte Vence

Chapter 13

Chapter 133,747 wordsPublic domain

Comovida, Júlia fitava-o; e êle, para desviar o rumo da conversa, que o fazia sofrer, acudia:

--Então, hoje a passear?

-Com êste bom sol, não podíamos ficar fechados--dizia Nuno.

--Está de rosas, meu senhor, de rosas!...

Demoravam-se ainda a tagarelar por alguns instantes e depois; vagarosamente, regressavam a casa, na imensa paz que envolvia a natureza e que baixava sôbre árvores, lameiros, casais e selvas, como uma bênção. Voltavam joviais, traziam a alma dilatada de encanto. Como o inverno era lindo na aldeia! Na cidade, os grandes espectáculos naturais passavam-lhes despercebidos na agitação das atormentadas aglomerações humanas, nas atmosferas toldadas de fumo.

--Aquele Frederico, aquele doido!--bradava Nuno. Podia ter ficado aqui connosco, a fazer um severo exame de consciência, a rejuvenescer. Era uma companhia e purificava o sentimento que agora talvez traga pelos boeiros citadinos!...

--Jesus, Nuno! Que expressões tam duras!--repreendia Júlia.

--Sim! Pelos boeiros, pelas sargêtas. É assim mesmo. Hei de dizer-lho com esta ferocidade, numa carta terrível... Enquanto que aqui era a luz, era a pureza...

Lavavam-se, almoçavam com saborosas lentidões, conservavam-se à mesa por muito tempo, conversando. E à tarde, ainda tornavam a sair, atravessando pousios, congostas entre sebes, visitando a aldeia próxima, com um interêsse, uma curiosidade que nunca findava...

* * * * *

Um dia, logo ao romper da manhã, a ama foi tôda aflita bater à porta do quarto, chamando Júlia.

--Que quere?--perguntou, ela, de dentro.

--Era para contar à senhora uma coisa a respeito do menino, que não está bom.

--Que diz você, mulher?...--gritou Júlia, com voz angustiada. Tu ouves isto, Nuno?...

Saltou da cama, vestiu um roupão, calçou as chinelinhas de setim côr de rosa, bordadas a branco e ouro, que estavam sôbre o tapête, e correu logo, assustada, inquieta, enquanto o marido, alarmado, se levantava tambêm, vestindo-se atarantadamente.

--Que tem o menino?--perguntou Júlia, abrindo a porta da alcôva. Onde está êle, onde o deixou você?

--Deitado no berço... Está um pouco desassossegado...

Júlia dirigiu-se ao quarto da ama, que ficava ao lado do seu, entrou desvairadamente, fóra de si, sacudindo, com irritação nervosa, as madeixas do cabelo solto que lhe caíam sôbre a testa, ajoelhou junto do berço da criança que ergueu carinhosamente nos braços. Encostou-lhe a cabecinha inocente e desfalecida à sua face, amimou-a, passando-lhe levemente as pontas dos dedos pela carne tenra do rosto, murmurando com indizível ternura:

-- Está doentinho, o meu amor?... Está?!...

Afastava-o de si, amparando-o com as mãos amorosas, para melhor, mais demoradamente o observar, espreitando, comovida, os seus olhos amortecidos com um círculo arroxeado à volta, e achava-o, na verdade, mais pálido, mais abatido.

--Oh! minha Mãe Santíssima! Mas isto que será? Como notou você a doença do meu filho, ama?

--É que, durante a noite, tossiu algumas vezes, minha senhora.

--Tossiu?--perguntou Júlia, aflita. E a tosse era rouca?

--Pois era!...

--E porque nâo foi logo avisar-me?

--Pensei que não seria nada!...

Nuno, que tinha acudido tambêm, curvou-se sôbre o ombro de Júlia, envolveu o filho num olhar de inquietação e de meiguice, inquirindo:

--Afinal, o que tem? Parece-me tam tranqúilo!...

--De-pressa, Nuno! Manda já um criado a Guimarães, a procurar um automóvel fechado. Que vá a cavalo... E que se não descuide. Temos de partir imediatamente para o Pôrto.

--Um automóvel?... Partir imediatamente para o Pôrto?--interrogava Nuno, maquinalmente, Mas espera!... Dize...

-Depois te digo... O criado que vá sem pêrda de tempo... O nosso filho tem uma tosse rouca. Sabes o que é?... Não sabes? É a difteria, é talvez a morte...

Nuno, empalidecendo, abalou, enfiado, pelo corredor, desceu a quatro e quatro os degraus da escada, gritou:

--Manuel! Manuel!... Onde estás tu?

--Aqui, patrão!--respondeu o servo, saindo dum canto e trazendo nas mãos um pedaço de camurça com que estava limpando e polindo metais.

--Pousa o que estás a fazer, monta na égua e vai a Guimarães, onde procurarás um automóvel fechado, por todo o preço. Que venha a tôda a velocidade. É um caso urgente.

--Sim, meu senhor.

--Mas vai! Deixa-te de cumprimentos, de mesuras, que diabo! Se te estou a dizer que é urgente!...

O criado desapareceu de pronto, e Nuno, desorientado, ficou na cozinha, passeando agitadamente, a largos passos, sôbre os mosaicos. Justos céus! A difteria! O seu filho tinha a difteria. Êle havia de assistir, impotente, longe de todo o socorro da sciência, ao lento agonizar dum corpinho sem culpa em cujas veias corria o seu sangue, em cuja alma inocente se fundia tambêm a sua alma! Havia de vê-lo asfixiar, com o rosto congestionado, os olhos saltando fóra das órbitas, sacudido por convulsões horríveis e sem poder acudir-lhe! Era terrível, terrível! Do seu coração de pai subia urna grande, avassaladora cólera, contra tudo e contra todos. Que mal faria aquele pobre sêr de castidade e de luz que nem sequer conhecia a vida e que tam cedo começava a sofrer dos seus males inevitáveis para que fôsse submetido a uma tal tortura?... Esquecia-se de Júlia que em cima soluçava, andava dum lado para o outro, mudo, sombrio, puxando as barbas, arrepelando-se.

--Que foi, meu senhor? Que desgraça aconteceu?--perguntou a cozinheira, que o contemplava, assustada, encostando-se ao fogão ainda apagado.

--Um horror, Francisca. Um verdadeiro horror. O menino está muito doente.

--Santo Deus!--exclamou ela.

--E temos de ir já para o Pôrto, a senhora, o doente, a ama, eu e tu. O Manuel e as outras criadas ficam ainda a pôr tudo em ordem, e seguirão mais tarde. Arranja as coisas, despacha-te.

Subiu, novamente, a escada como um autómato, governado mais pelo instinto do que pela inteligência. O padecimento alheio sempre o tinha perturbado; mas agora o de seu filho era-lhe atroz... Sentada numa cadeira de braços, com a criança aconchegada ao peito, Júlia chorava silenciosamente. As lágrimas caíam-lhe fio a fio dos olhos. Perto dela, a ama repetia sem descanso:

--Uma destas, uma destas!...

Nuno parou diante da espôsa, revolvendo com as mãos chaves que tinha no bôlso, entalado, sem poder articular as palavras, sem saber como havia de consolar aquela dor inconsolável.

--Que desventura a nossa, que desventura!...--gaguejava Júlia.

--Mas tranqùiliza-te, por Deus! Pode ser que a doença não valha nada, que te enganes--acudiu êle, por fim.

--Tenho um pressentimento funesto! E olha que as mães nunca se enganam.

E voltando-se para a ama:

--Pegue no menino, mas com cuidado... Vou-me arranjar. E veste-te tambêm, Nuno, para estares pronto.

-Sim, menina!...

Uma hora depois, um automóvel parava, em baixo, junto do portão do jardim. Nuno chamou as criadas, deu-lhes ordens para elas transmitirem a Manuel, mandou que, depois de tudo arrumado, seguissem para a casa do Pôrto e entrou no carro com Júlia--que conduzia o filho ao colo, muito embrulhado, agasalhado em lãs quentes--com a ama e com a cozinheira, dizendo ao _chauffeur_ que, até Guimarães, largasse com a maior velocidade.

Estava uma cinzenta e fria manhã ameaçando chuva. Pelos altos montes, por vales tristes e planícies monótonas, a paìsagem azulava-se no ar baço. Um vento glacial sacudia os ramos das árvores. Nuno e Júlia nem sequer olhavam para fóra, através das portas de vidro do automóvel, concentrados como iam no seu sofrimento.

Em Guimarães, procuraram alvoroçadamente um médico, que logo os tranqùilizou, com um sorriso, acabando de observar o pequenino enfêrmo. Não era caso para sustos--afirmou.

--Oh! doutor! Quanta alegria nos dá!...--interrompeu Nuno, avançando para êle e apertando--lhe efusivamente a mão.

--Mas não é a difteria?--perguntou Júlia, ainda duvidosa. Êle tem tosse rouca!

Não! Não era a difteria--asseverou o clínico, já vélho e ageitando os óculos de aro de ouro sôbre o nariz. Uma simples bronquite sem complicações que a tornassem de mau carácter. Curava-se com resguardo, num compartimento em que não houvesse oscilações de temperatura, e com a aplicação de revulsivos externos.

--Vês, Júlia?--disse Nuno. Não é nada de cuidado. Eu bem o dizia.

--O alarme desculpa-se nas mães... É tam natural!--exclamou o médico.

--E até podíamos voltar para trás, continuarmos a nossa estada na aldeia.

--Não!--replicou Júlia com firmeza. Para trás, não voltaremos. Já que estamos aqui, seguiremos para o Pôrto. Não ficaria sossegada.

-Pois, como quiseres...

O médico receitou, deu instruções; Nuno pagou a consulta generosamente. Despediram-se e reentraram, mais calmos, no automóvel, continuando a viagem--através de estradas, de campos melancólicos, de bosques que rugiam à ventania--para o Pôrto, onde chegaram de tarde e já com uma chuva desabrida fustigando as casarias, alagando, encharcando as ruas negras duma lama viscosa, quáse líquida. Moravam em Costa Cabral, numa vélha casa apalaçada de dois andares feita no gôsto arquitectural das antigas vivendas portuguesas, e que todo o verão estivera fechada. Foi um reboliço na habitação deserta e cheia de treva. O automóvel largara velozmente, e, enquanto Júlia, com o filho nos braços, procurava, no átrio imerso em escuridão, uma cadeira para sentar-se, Nuno, a ama e a cozinheira, abriam portas e janelas com alarido, para que a luz diurna entrasse e desse vida e alegria ao casarão ermo.

Outros médicos vieram e receitaram, nesse mesmo dia, serenando temores sem motivo. A pouco e pouco renasceu a confiança na alma de Júlia e de Nuno que, todo ocupado com a sua reinstalação inesperada no palacete da cidade, não saía, lidando activamente, dando ordens, substituindo na vivenda a espôsa que não deixava, ainda atribulada, o leito da criança. E agora, outra vez no Pôrto, outra vez na sua morada citadina, sentia-se bem, entre mobiliários que conhecia e que considerava como amigos vélhos, entre paredes a que se afeiçoara, no meio dum ambiente de quietação em que vivera desde a infância, em que morara, a que tantas recordações inolvidáveis andavam presas. Novamente a felicidade entrava na sua alma, na alma de Júlia, que assistia amorosa e risonha à convalescença do filho. A nuvem agoureira passara, dissipara-se inteiramente. Já se encontravam outra vez reconciliados com a vida que, por momentos, os amargurara.

--É verdade, Júlia--dizia uma noite Nuno. Sabes de quem me lembrei agora, repentínamente? Foi de Frederico! Ainda nem sequer apareceu!

--Pois tu não tens saído, nem sequer lhe escreveste! De-certo que ignora o nosso regresso. Ninguêm o sabe, alêm dos vizinhos... E pode ser até que não esteja no Pôrto...

--Ah! não! Não deixaria a cidade sem me avisar... E estou zangado com êle--concluiu Nuno, risonhamente. O coração dum verdadeiro amigo devia adivinhar. Serei duro, quando o aviste. Há de ouvi-las bonitas...

Fóra, na rua, os candeeiros de iluminação pública chamejavam ao vento, sob um céu acarvoado. A patrulha da guarda deslizava como uma sombra, sem ruído. A aglomeração das casarias ia adormecendo no silêncio nocturno...

IX

Frederico sentia-se cada vez mais esgotado de energias, mais fraco de vontade, à medida que se gastava nos delírios da paixão carnal, nos desvairamentos duma existência que nem sequer procurava já equilibrar, porque a vida, para êle, perdera todo o interêsse. À sua excitação física, de dia para dia mais intensa, correspondia um desfalecimento moral que constantemente se agravava, debilitando-lhe o carácter, secando-lhe as fontes criadoras de sensibilidade. Convencido da sua própria impotência, trazendo no peito um coração árido, invadido por uma dolorosa melancolia que só os acessos da sensualidade, em horas letais de luxúria, conseguiam dissipar por momentos, levava uma existência desregrada de prazeres de tôda a sorte, em que a luz da sua própria inteligência, tam lúcida outrora, principiava a vacilar. Contudo, conservava-se no seu sentimento alguma coisa que não queria morrer, que era vivaz, persistente, que se obstinava em persegui-lo, empurrando-o violentamente para as maiores loucuras:--o seu amor por Júlia. Era uma obcecação, uma ideia fixa que o aguilhoava sem repouso, por mais que pretendesse esquecê-la. Temendo que o isolamento, a solitude, exacerbassem essa adoração perversa e abominável, que o enxovalhava sempre que espreitava, espavorido, a própria consciência, freqùentava os teatros e o jôgo assíduamente e perdia grossas quantias com absoluta indiferença, porque apenas desejava aturdir-se: arranchava a comesainas tumultuosas com os amigos e ía depois, exaltado pelo alcool, passar a noite com Branca, que definitivamente se apossara dêle e que Frederico considerava como um mal necessário ao apaziguamento da sua tortura, como uma ilusão mentirosa de que derivava, para a sua inquietação permanente, um pouco de tranqùilidade. Os seus nervos enfermos careciam daquela mulher, como certos doentes carecem de venenos para adormecer uma dor fulgurante que os angustia. Consagrava-lhe por isso reconhecimento em vez de ódio. A casa em que a tinha instalado, com riqueza e luxo, era para êle, nas horas de maior atribulação, o logar que uma graça consoladora habitava. Nestes momentos devastadores, submisso como um crente, pousava sôbre a fronte doce e pálida de Branca um beijo quáse religioso, que ela lhe agradecia com um sorriso inexpressivo.

Em certos instantes mais calmos, porêm, quando podia observar-se com lucidez, julgava-se serenamente, acusava-se de se estar aviltando e praticando uma infâmia, procurando apagar com a febre duma lascívia brutal a recordação dum amor puríssimo. Alarmado, cheio de remorsos, entregava-se a longas cogitações, tentando encontrar uma explicação para aquela anormalidade. Que natureza vulgar ou grosseira era a sua que, em vez de ter uma origem de inspirações divinas na paixão amorosa mais elevada que até aí o fizera vibrar, tinha nela, afinal, só um estímulo que o impelia para as abjecções deprimentes? Como é que o amor por Júlia não iluminava a cegueira da sua alma, o não sublimava de tôdas as imperfeições terrestres? E seria, na verdade, amor o que por ela sentia ou apenas um desejo bestial:--o desejo do seu corpo tam perfeito, da sua carne esplêndida, da sua beleza perturbante? Duvidava da sua sinceridade, e sofria mais amargamente por esta dúvida.

O entusiasmo que a ideia duma demorada viagem pelo estrangeiro nêle despertara, em breve arrefeceu. Não manifestava curiosidade por nada: a alegria de viver havia fugido do seu espírito: e pensava, com terror, na perspectiva de sair de sua casa, do seu país, para meter-se, com um monte de malas, em combóios que rolassem monótonamente por terras desconhecidas, para viver na barafunda dos hoteis, entre multidões indiferentes e egoístas. Que enorme alteração tudo isto representaria para os seus hábitos rotineiros, que fadiga mesclaria ao seu cansaço e que tédio juntaria ao seu aborrecimento! E, afinal, para quê? Que lucro positivo tiraria êle duma vagabundagem a outras nacionalidades habitadas por povos diversos do seu? Não lucraria nada! De resto, só se deve viajar em absoluta serenidade espiritual, em pleno contentamento de alma: e Frederico não possuia nem essa serenidade nem êsse contentamento essencial. Não! Não abandonaria o Pôrto. Neste burgo se iria definhando, consumindo, aniquilando!...

Às vezes, Branca, abraçando-o, amimando-o, com carícias em que se não escondia o frio, a secura, o desinterêsse, relembrava-lhe a promessa que Frederico lhe fizera de a levar ao estrangeiro. Gostava tanto de ir a Paris! Ai! Paris era a sua ambição! E, para o convencer, apontava-lhe exemplos de rapazes com dinheiro que tinham ido com as amantes, numa jovial jornada, por essa Europa fóra.

--O Gusmão, por exemplo! Levou a Adriana.

--O Gusmão?--inquiria Frederico. Quem é êsse Gusmão?

--Ora! Tu conheces!... Um trigueiro, de grandes bigodes, que tem um lindo automóvel e que vive aí para os lados de S. Roque. Há quantos anos êle pôs a Adriana por conta! É como se fôssem casados. Aquela sim. Está de grande!...--terminava Branca, fazendo beicinho.

--Pois tambêm tu hás de ir ver a Europa, sossega. Mas mais tarde... Por enquanto, não posso. Preciso primeiro de deixar umas coisas em ordem--afirmava êle, sentando-a nos joelhos e passando-lhe um braço à volta de pescoço.

--Sim, sim! Bem acredito eu nisso!...

--Não acreditas!... Olha para mim... Mas olha bem de frente. Dize lá. Eu tenho cara de quem mente?...

--Não quero dizer que mentes...

--Então, que queres dizer?...

Ela não respondia, fazia-se mais amável entre os seus braços, pousava-lhe a cabeça no ombro, muito terna, muito quebrada, com geitos estudados e pieguices; e Frederico, perturbado, beijava-a furiosamente, exclamando:

--De resto, para sermos felizes, não precisamos de sair daqui...

Uma noite, de volta do teatro Sá da Bandeira, onde fôra ver uma revista deplorável, sem vivacidade, sem espírito, sem arte, maculada por ditos e situações lúbricas, encontrou na rua o jovial Paiva que passava, muito embuçado, rente às paredes.

--Pára aí, criatura--bradou Frederico. Há quanto tempo te não vejo!...

--Oh! menino! Pois és tu?--respondeu Paiva.

Cumprimentaram-se, trocando um demorado apêrto de mão.

--Para onde diabo vais, a esta hora e com tanto mistério, Paiva magnífico?

--Vou para o namôro.

--Para o namôro?...

--Sim! Um caso de sentimento, uma inclinação irresistivel, com diálogos de janela, noite alta--porque o pai é austero--com estrêlas que se contemplam tristemente, com suspiros. Coisa muito séria.

--Oh! Paiva! Tambêm tu?

--É verdade, grande Frederico. Tambêm eu! Que queres? Assim acabam todos os românticos. E adeus, filho. Não posso demorar-me. Já vou tarde. A pequena espera-me... Olha! Aparece qualquer dia, para conversarmos. Depois te direi tudo.

--Vai! Sê pontual como Romeu. Não faças sofrer com a tua ausência os corações ingénuos.

Partiram cada um para o seu lado, em sentido oposto; mas, apenas Frederico tinha dado alguns passos, Paiva, voltando-se de repente, chamou-o aproximando-se novamente dêle:

--Ouve lá, ó Frederico... Ia-me esquecendo... Tu sabes quem está no Pôrto, chegado há seis ou sete dias?

--Não sei. No Pôrto está tanta gente!

--Pois, é Nuno, o teu amigo Nuno.

--O quê?--bradou Frederico, sobressaltado. Nuno? Não pode ser.

--E porque não pode ser? Se eu te estou a dizer que está! Vi-o esta manhã na Praça da Batalha. Vinha do correio... Parámos um momento a palestrar. Até êle me perguntou por ti.

--Essa agora! Nuno no Pôrto! E sem me dizer nada!

--Como não te disse nada? Tu é que lhe foges, ao que parece. Já te procurou em casa e não te encontrou. Deixou-te uma carta urgente e não lhe respondeste! Foi o que êle me asseverou, e até um pouco ressentido... Aparece-lhe! Escreve-lhe... E adeus!

Com efeito, havia uma semana que Frederico não ia a casa. Branca retinha-o, no seu leito de amante, uma parte da noite e uma parte do dia, porque só muito tarde, às vezes de madrugada, lhe batia à porta, de regresso das estúrdias ou das bancas de tavolagem com a roupa em desalinho, o olhar vago e ardendo dum brilho especial, numa secreta e áspera revolta contra si próprio. Ficava tôda a manhã deitado, dormindo com as mãos fechadas junto da cara, a pele humedecida por uma transpiração álgida, agitado de sonhos pavorosos. Quando o sol ia já muito alto, entrando no quarto em feixes de raios difusos e rutilantes e inundando móveis, cortinados e tapêtes com a sua dourada cabelugem que faíscava, lampejava nos espelhos, Branca acordava-o, sacudindo-o com fôrça, chamando-lhe dorminhoco, tirando a roupa da cama, entre gargalhadas. Frederico espreguiçava-se, bocejava. Ela, de _robe-de-chambre_ de sêda, cabelos soltos e despenteados caindo-lhe pelas costas, um ar petulante e vicioso que punha uma desagradável mácula na sua meiguice mas que a tornava mais picante, aninhava-se nas tapeçarias que alcatifavam o soalho, rolava a cabeça na beira do leito com lentidões de gata amimada, ria-se da moleza de Frederico, fazendo-lhe momices que êle repelia, enfastiado. Sempre que despertava dos seus desvairos sensuais, sentia um desgôsto muito fundo pela miséria moral em que ia resvalando rápidamente, sem coragem para romper com torpezas o reentrar numa existência honesta. Branca amuava, dizia-lhe que êle já a não amava, que estava morto por desfazer-se dela, falava em morrer.

--Mas, vê lá! Se me queres deixar, confessa-o francamente!--acrescentava.

Frederico irritava-se, chamava-lhe douda, saltava do leito, tomava banho, vestia-se, reconciliando-se com Branca; e, então, volvidas horas de repouso que êle aproveitava para ler os jornais, para folhear revistas estrangeiras ilustradas, almoçavam muito juntos na pequenina sala de jantar que as jarras de flores aromatizavam, o papel claro das paredes alegrava e a que os mobiliários caros davam confôrto, elegância e beleza ornamental. Pelos aparadores scintilavam pratas e reluziam porcelanas; de grandes pratos cheios de fruta madura exalavam-se arômas aperitivos; os cristais irisavam-se à luz; e Frederico achava então um certo enlêvo naquela vida comum, parecia-lhe que tinha um lar, uma companheira solícita, que possuia no mundo uma alma para quem a sua personalidade não era estranha. Muitas vezes, jantava mesmo com Branca, saindo à noite para as suas vadiagens, que se prolongavam até horas mortas. Seis dias seguidos assim foram deslizando, sem que êle se lembrasse, sequer, de ir a sua casa. E por isso Nuno o não encontrara, por isso não tivera, mais cedo, notícias do imprevisto regresso do amigo ao Pôrto--regresso de que só por acaso havia sido informado...

Enquanto caminhava pelas ruas já desertas e cheias de sombra, perdia-se em suposições. Nuno dissera-lhe que passaria o inverno na aldeia, quando se separaram, e voltara a afirmar-lhe, em carta, êsse propósito. Que facto, grave certamente, o teria feito mudar de tenções? Aborrecimento da monotonia rural, da solidão rústica? Saudades da animação, da sociabilidade citadinas? Não! Nuno não era mundano, abominava as exibições, os convívios banais. Taciturno, misantropo, já na sua mocidade só estava bem com uma ou duas amizades mais íntimas à sua roda. Depois que se casara, meteu-se dentro da sua vivenda e da sua felicidade, sequestrou-se de todo, gostosamente, às curiosidades indiscretas da rua e das salas. Que razão forte, que motivo imperioso, o teriam, pois, desalojado da solitude campestre, obrígando-o a refugiar-se no Pôrto?

--E se Júlia adoeceu?--monologou Frederico, invadido por um sobressalto repentino.

Uma comoção dolorosa apoderou-se de todo o seu ser; sentia um fundo mal-estar interior, uma angústia que o atordoava, que lhe apertava o coração, que o constrangia. Com efeito, aí estava a explicação da volta de Nuno ao Pôrto. Não podia ser outra! Naquele momento, a mulher que êle amava com infinita doçura, sofreria, queimada pela febre, ir-se-ia fanando na sua beleza viçosa, na gentileza do seu encanto supremo, enquanto Nuno, apreensivo, assistindo transido a uma dor que não podia sarar, nem ao menos tinha ao seu lado alguêm que o confortasse, que lhe desse esperança.

--Com certeza que Júlia está doente!--pensava Frederico.

Um relógio dava, ao longe, duas horas. Era-lhe impossível correr a casa de Nuno, bater-lhe à porta, alarmar tôda a vivenda, para saber o que havia; mas êle tinha-lhe escrito e, naturalmente, nessa carta, contava-lhe tudo. Então, dominou-o, espicaçou-o o desejo de chegar de-pressa à sua habitação, que ficava ainda distante. Acelerou o passo. Ao dobrar duma esquina, um vulto de mulher sumido dentro do chaile cruzado no seio, saindo repentinamente da sombra, disse-lhe em voz baixa e ofegante qualquer coisa que não entendeu. Tirou do bôlso uma moeda de prata e meteu-a numa lívida e magra mão que para êle se estendia com um gesto rapace de garra. Mais adiante, um polícia embuçado no seu capote fumava encostado a um candeeiro. Sôbre as casarias pairava uma ligeira névoa. A cidade dormia profundamente...