A Morgadinha dos Cannaviaes (Chronica da aldeia)
Chapter 17
Ceia de Natal! abençoado banquete, ao qual todos se devem sentar nas mesmas disposições de animo em que ordenava Christo estivessem os que fôssem orar ao templo; ceia com tanto afan cozinhada, e com tão pouca vontade comida, falem embora contra ti os medicos e os gastronomos eméritos, condemnando uns a indigestibilidade dos teus cozinhados, outros o pouco delicado d'elles; reage contra as ideias novas, que veem da França e da Allemanha; cerra as fornalhas ás iguarias exoticas e furta-te ás mãos da extranha geração de Vateis, que aspiram a dominar pelos paladares o espirito nacional.
Modifiquem embora o caracter vernaculo de todas as outras refeições, mas respeitem esta, consagrada pelas memorias da familia, justificada pelo facto de que quasi não é feita para ser comida.
Assim succedia com a do Mosteiro. Apesar das instigações do conselheiro, das instancias de D. Victoria, das garantias de D. Dorothéa sobre a innocuidade dos guisados, os pratos corriam á roda da mesa quasi intactos e intactos voltavam á cozinha d'onde sairam.
Mas se se comia pouco--e de facto, á excepção de Henrique, do conselheiro e das creanças, quasi ninguem parecia haver-se sentado alli para ceiar--mas, diziamos nós, se se comia pouco, em compensação falava-se muito.
O conselheiro a todos dirigia a palavra, demonstrando uma iniciativa efficaz para baralhar e generalisar as conversas e assim conservar constante a animação. Tudo desafiava risos, o dito de uma creança, a anecdota contada por Henrique, as distracções de D. Victoria, as canduras de D. Dorothéa, os paradoxos sustentados pelo conselheiro, as allusões da morgadinha a Christina, a confusão d'esta, as maliciosas insinuações de Angelo.
Assim procedeu o repasto nocturno até á altura das saudações e dos _toasts_. N'esta parte, justo é confessar que Henrique e o conselheiro fôram menos abstinentes. Era difficil resistir á preciosidade dos vinhos.
Passados os reciprocos brindes entre os parentes, o conselheiro, voltando-se para Angelo, auctorisou-o a propôr tambem um brinde.
Angelo levantou-se então para brindar Augusto.
O conselheiro secundou-o, levando o copo aos labios.
--Ah! o sr. Augusto--disse Henrique, antes de beber e com certo tom de ironia.--Conheço; é uma ave rara d'estas immediações, que tem brios de cavalleiro errante sob umas apparencias de philosopho.
--Brios de cavalleiro?--disse Angelo, com vivacidade.--Inda isso não é tudo, sr. Henrique; pode accrescentar, e alma de heroe tambem.
--Pois dê-se-lhe tambem alma de heroe, e se fôr preciso até consciencia de santo. Vá á saude da phenix!
E bebeu.
Depois de pousar o copo, proseguiu com o mesmo tom anterior:
--O que vejo é que é perigoso falar com a mais ligeira irreverencia d'esta personagem; corre-se o risco de vêr voltar contra o impio, que tanto ousa, os poderes conspirados do céo e da terra. Bem; prometto acatar essa preciosidade.
--E creia--disse-lhe o conselheiro--que lhe é merecedor de toda a consideração. Augusto é um d'estes caracteres excepcionaes que vivem á sombra de uma modestia impenetravel e á sombra d'ella muitas vezes morrem. É necessario ter a vista muita exercitada n'estas explorações de almas modestas, para descobrir uma assim.
--Felizmente para os myopes como eu--proseguiu Henrique--ellas fazem ás vezes a fineza de se despojarem da sua timidez e de se mostrarem á luz. Não é verdade, prima Magdalena?
--Que admira;--respondeu Magdalena--bem occulto está o fogo na pederneira, primo Henrique, mas, percutindo-a, salta a faisca.
--Pobre rapaz;--notou a sr.^a de Alvapenha--aquillo nem parece d'este tempo. O que eu não sei, primo Manuel, é porque elle se não resolveu a tomar ordens. Recusar o legado da D. Rosa!
--Não seja isso a dúvida. Elle sabe que, adoptando essa ou outra qualquer carreira, não lhe faltarão recursos para seguil-a até o fim. Devo-lhe esse auxilio, assim elle o acceitasse; mas tem um genio singular aquelle rapaz!
--É uma phenix--insistiu Henrique, ironicamente.--Vejo que não é susceptivel de discussão, impõe-se á gente como um axioma. Eu tenho habitos de livre pensador, mas... forçar-me-hei a incluir no meu credo esse dogma.
--Perdão--replicou Angelo.--Um axioma não se demonstra, e a boa alma de Augusto está todos os dias a demonstrar-se por acções generosas.
--Por favor!! Dêem como não ditas as minhas palavras! Arrependo-me da minha irreverencia, e se elle aqui estivesse, principiaria a penitenciar-me na sua presença.
--E é certo que nos falta aqui Augusto. Como te não lembraste d'elle, Angelo?
--Não viria. N'esta noite não deixaria o tio Vicente.
--Ah, sim. Esquecia-me d'aquelle pobre Vicente.
--É do herbanario que falam?--perguntou Henrique.
--Justamente.
--Outra phenix; e quer-me parecer que tambem pertence ao numero dos inviolaveis; não é verdade, prima?
--Pertence ao numero dos infelizes, primo, o que é justo considerar-se uma especie de inviolabilidade.
A resposta collocou Henrique em mau terreno, e por isso apressou-se a desviar do ponto principal da questão, dizendo:
--Infeliz? Por que lhe chama infeliz? Os visionarios como elle teem em si os elementos da propria felicidade, e ninguem possue poder de perturbar-lh'a. Além de que o herbanario gosa aqui na terra de uma certa soberania, que deve lisonjeal-o.
--E olha que nem em Lisboa ha talvez quem saiba tanto como elle em coisas de doenças e de remedios, menino,--disse D. Dorothéa, que era uma das fervorosas apologistas da sciencia do herbanario.
--É na verdade um homem singular!--disse o conselheiro.--D'antes, na noite de Natal, e em todas as solemnidades de familia, tinhamol-o tambem por commensal, que ainda é parente arredado da casa. Ha annos porém deu em tomar a peito o meu procedimento politico e em prégar-me sermões e dirigir-me censuras, que eu fazia por escutar com a possivel resignação. Mas um dia foi mais amargo nas suas recriminações e eu achava-me com maior susceptibilidade; julgo que lhe respondi com bastante acrimonia, e o homem saiu de minha casa offendido e protestando não voltar mais a ella. Procurei-o, escrevi-lhe, tentei demovel-o do seu proposito. Não houve de quê. Havia-o ferido no seu orgulho, e é intolerante n'estas condições.
--Sei-o já por experiencia;--disse Henrique--que n'uma unica entrevista que tive com elle, e que durou minutos, deu-me occasião de lhe conhecer a irritabilidade.
--Vamos, primo Henrique; talvez possa haver quem supponha que n'essa entrevista não demonstrou o primo peor do que elle possuir as qualidades de que o accusa.
--Agora--continuou o conselheiro--vão consideravelmente exacerbar-se os despeites do herbanario contra mim.
--Porquê?--perguntou Magdalena.
--Porquê?... por causa do traçado que se adoptou para a estrada.
--Então?--disseram simultaneamente Angelo e Magdalena.
--A casa e o quintal do herbanario são os primeiros cortados.
--Não pode ser!--exclamou Magdalena, com evidente expressão de susto.
Angelo dirigiu ao pae um olhar tambem inquieto.
Christina não exprimiu menos apprehensiva tristeza.
--É inevitavel. Os dois primeiros traçados tinham certas durezas. O primeiro era uma luva lançada a uma influencia eleitoral, poderosissima; o brazileiro Seabra.
--Ah!--disse Magdalena, com certa amargura na expressão e no olhar.
O conselheiro reparou n'ella e em Angelo, em cuja physionomia se não lia menos intenso desgosto.
--Estou adivinhando que meus filhos votariam por que antes se arrostasse com os despeites d'esse influente. A logica do sentimentalismo tem d'essas exigencias absolutas.
Magdalena respondeu:
--Julguei que era a da consciencia, meu pae.
--A consciencia diz-me que ha interesses superiores ás contemplações com as singularidades de um velho honrado, mas... meio tonto. Na carreira politica ceder ao coração é morrer ou ser vencido. O sentimentalismo exaggerado, Lena, tem o inconveniente de dar tanto vulto ás vezes a um sacrificio individual, que, para o evitar, não duvida prejudicar maiores e mais geraes interesses e operar sacrificios mais custosos. É muito tocante na verdade o amor de um velho pelas suas arvores e pela sua casa; porém, mais respeitavel é o bem-estar e a conveniencia de uma localidade.
--E é tão necessario para a felicidade d'esta terra o sacrificio a que se quer obrigar o herbanario?--perguntou Angelo, e Magdalena secundou com o olhar a pergunta do irmão.
--Eu te digo, Angelo--respondeu o conselheiro, levemente despeitado.--Eu tinha a vaidade de me suppôr ainda prestavel para esta gente, que me tem elegido tantas vezes. Dos nossos patricios, deixem-me dizel-o aqui em familia, não vejo ainda quem dê garantias de desempenhar o mandato, muito melhor do que eu. Chamasse eu contra mim a animadversão d'este povo, e elles, á falta de outros, acceitariam ámanhã qualquer nome inscripto na carteira do ministro; um homem que nunca tivessem visto, e que nem soubesse em que ponto da carta estava o circulo de que se propunha ser representante. Mas perdôa-me, Lena, talvez isto te esteja parecendo um censuravel excesso de vaidade.
--Não, meu pae, ninguem acredita mais do que eu no muito valor da sua influencia, mas... Ó meu Deus!... isso vae ser a morte do pobre tio Vicente! Imagine bem o que é n'aquellas idades e com aquelle genio, a grandeza do sacrificio que vão exigir d'elle?
--Custa-me ser obrigado a isso; porém...
--Valia mais esperar algum tempo. A vida d'elle não pode ser muito longa. Deixem-o morrer em paz, á sombra d'aquellas arvores a que elle quer tanto. Que importa passar mais alguns annos sem uma estrada?
--Poesia!--disse o conselheiro, sorrindo para Henrique, que lhe correspondeu.
--Perdão!--acudiu Magdalena, córando--é caridade.
--Ora vamos, Lena. Sê razoavel. Todos soffrem no mundo sacrificios maiores do que esse; eu mesmo, que me não tenho ainda assim por victima da sorte...
--E não haveria outro meio?--perguntou Angelo.--Acaso ha só esses dois logares para dirigir a estrada?
--Que antes nunca se fizesse!--exclamou Magdalena, apaixonadamente.
--Ahi temos como o sentimento me torna retrograda a minha Lena. Já clama contra as estradas como qualquer reaccionario convicto. Havia um outro traçado, mas esse ia destruir completamente os campos do Brejo.
--Ah! então esse, esse! São bens nossos!--exclamou Magdalena com vivacidade.
--São bens de Angelo, filha, e por ventura aquelles que um dia mais valiosos se tornarão para teu irmão.
--Os charcos?--disse Angelo, encolhendo os hombros--ora! Só para viveiro de rãs.
--Hoje pouco mais são do que isso, e como tal nol-os pagariam agora. Dentro, porém, de alguns annos, operados alli os trabalhos de esgoto, que eu projecto, verão em que se transforma aquillo. É exigir a um homem muita abnegação pretender d'elle que sacrifique assim os elementos da riqueza futura de seus filhos; quanto mais que as vantagens não seriam taes que...
--Não pediriamos esmola, meu pae--notou timidamente Angelo.
--Nem o Vicente a pedirá. Visto que estaes tão desprendidos de interesse, que não hesitaes em fazer-lhe sacrificio dos vossos bens, podeis ceder-lhe o sufficiente para o compensar da perda.
--Mas quem o compensará dos golpes nos seus affectos?--perguntou Magdalena.
--Tambem tu! São segredos do coração feminino essas compensações. Deixo-as á tua disposição.
--Meu pae! meu pae! se é ainda possivel atalhar-se!
--É impossivel.
--Meu tio!--secundou Christina.
--Mano! Primo!--disseram a um tempo as senhoras mais idosas.
--O que posso fazer é ir eu proprio falar com o Vicente, para o mover a consentir na expropriação amigavel, que farei que lhe seja o mais vantajosa possivel.
--E tem coração para lhe ir propôr isso?
--Dize antes se tenho coragem para arrostar com as iras do velho, e com as maldições que já sei vae sacudir sobre mim.
Lena calou-se, suspirando.
--Mas vejam a inevitavel fatalidade que me persegue!--continuou o conselheiro.--Eu, que tinha feito voto de não me entreter de negocios publicos esta noite! Ai, Lena, Lena, a culpada és tu!
--Eu?! Eu, que abomino a politica! que só ella podia fazer entrar uma crueldade no coração de meu pae!
--Ó tio, veja se faz com que a estrada vá por outro sitio!--implorou meigamente Christina.
--Tambem tu, Christe! tambem tu!
--Pudera, mano! Não, que uma coisa assim! Isso é até uma ingratidão para com um homem a quem esta aldeia tanto deve--disse D. Victoria.
--Pois não é! E logo um quintal onde cresciam tantas plantas de virtudes!--accrescentou D. Dorothéa.
--Vá vendo, sr. Henrique, como se conspiram todos contra mim. Veja como um sentimento insignificante organisa uma opposição.
--É uma lição que estou recebendo, sr. conselheiro.
--Meu pae,--insistiu Magdalena--eu espero ainda que, ouvindo o tio Vicente, se commoverá e trabalhará por alterar esse fatal plano que principia por arrancar arvores, mas que, pode estar certo, com ellas arrancará uma vida.
--Romances! Lena, romances! Os romances, lidos em plena aldeia, são perigosos. Falta aqui nos ares um certo scepticismo que, não sendo em dóses exaggeradas, tem a vantagem de não deixar vêr as coisas da vida através do prisma dos livros de imaginação. Mas basta de falar em politica. Ámanhã procurarei o herbanario. Espero uma recepção de gêlo, e vou preparado para uma ladainha de recriminações, mas irei. Nada esperes, porém, da entrevista, Lena; nem o mal, se mal é, se poderia já atalhar; nem o orgulho de Vicente lhe permittiria expansões á sensibilidade, que cheguem a commover-me. Conheço-o.
Magdalena não instou. Ficou, porém, pensativa e sem o menor vestigio da alegria, com que principiara o serão.
N'isto ouviu-se um toque de sino longinquo.
--Já toca para a missa do gallo! Ouvem?--disse D. Victoria.
--Vamos! Não ha tempo para demoras--exclamou o conselheiro, levantando-se.
Todos o imitaram, menos Magdalena.
--Não vens, Lena?--perguntou Christina.
--Não.
--São amúos, filha!--disse-lhe o conselheiro, indo por traz d'ella; e, tomando-lhe a cabeça entre as mãos, beijou-a na fronte.
--Não, meu pae, é uma dôr de cabeça tão violenta!
--A maldita politica é o que faz! Pois fica; fica, porque está fria a noite.
--Far-te-hei companhia, Lena, disse Christina.
--Não, não. Se insistes, obrigas-me a sair.
--Aviem-se!--dizia D. Dorothéa.--Henriquinho, vens?
Henrique, cujo ardor em ouvir a missa da meia noite esfriou desde que viu Magdalena ficar, respondeu:
--Ó tia... a falar verdade!... se me dispensassem!...
--Vem d'ahi, preguiçoso! anda!
--É que... para um homem doente...
--Ai, não; se te ha de ás vezes fazer mal, então não--apressou-se a dizer a precavida senhora.
E foi deferido por unanimidade o requerimento de Henrique, a quem cêdo depois Torquato foi ensinar. o caminho para o quarto onde devia pernoitar.
O conselheiro, D. Dorothéa, Christina e Angelo fôram para a missa do gallo.
D. Victoria, Magdalena e Henrique ficaram no Mosteiro.
XV
Fechando-se no quarto, que lhe deram para pernoitar, Henrique de Souzellas sentiu poucas disposições de dormir. Uma profunda excitação impedia-lhe o repouso; em parte era devida ás occorrencias d'aquella noite, tão fóra dos seus habitos de vida; em parte, digamol-o em verdade, á influencia dos vinhos, com que secundára os brindes do conselheiro, e com que elle proprio iniciára outros.
A imaginação, excitada como estava, cada vez, entre outras imagens, lhe representava mais bella a de Magdalena. A especie de hostilidade permanente, com que a morgadinha o tratava, ainda mais parecia seduzil-o.
Nos poucos dias que passára na aldeia, havia Henrique, com novos habitos, adquirido uma maneira de vêr e de julgar as coisas e as pessoas, differente da que lhe era habitual na cidade, no circulo de amigos, com quem convivia; assim foi que abjurou tacitamente, e sem dar por isso, certo scepticismo convencional, que uma antipathica escola conseguiu pôr muito na moda.
Graças a estas melhoras moraes, tão verdadeiras n'elle como as physicas, as quaes até o constante pensamento das doenças lhe haviam dissipado, pudéra elle considerar Magdalena como uma mulher superior ao typo, pelo qual a mencionada escola costuma modelar o sexo: e acceitou sem má prevenção a aberta sinceridade d'aquelle caracter sympathico, que descrevia com enthusiasmo nas suas cartas a um dos seus mais intimos amigos de Lisboa.
Taes estados de convalescença são porém sujeitos a recaídas.
N'este dia, vespera de Natal, recebera elle a resposta áquellas cartas, e sob as impressões com que ficou da leitura, tinha vindo para o Mosteiro.
O amigo ria-se, com todo o elegante scepticismo de um homem da moda, da candura e da ingenuidade de Henrique. Dizia-se sinceramente penalisado á vista dos profundos estragos que alguns dias de provincia tinham operado n'elle. Via-o disposto a idealisar a mulher, a mais perigosa e mofina monomania que, dizia o tal, pode transtornar o cerebro de qualquer homem.
Com aquella ausencia de escrupulos, com que todos os dias caracteres, aliás não pervertidos, levianamente calumniam ou ferem de suspeitas reputações de todo o genero, elle fazia irreverentes allusões á morgadinha e zombava de Henrique, que ainda tomava a sério as isenções de uma rapariga de vinte e tres annos. Acabava por o aconselhar a que indagasse de algum primo timido e modesto, ainda que menos ingenuo de certo do que elle Henrique se estava mostrando.
Esta carta fez mal a Henrique. Exacerbou-lhe a doença, que estava em via de cura. Um espirito mephistophelico parecia havel-a dictado. Henrique transportou-se pela imaginação, depois de lel-a, a um dos circulos que habitualmente frequentava em Lisboa; suppoz-se a fazer alli a narração da sua vida na aldeia, e parecia-lhe estar vendo os sorrisos com que o escutariam, e elle proprio construia os epigrammas, com que lhe seria por certo commentada a narração. E então uma vergonha de má indole, vergonha do homem que põe um preceito de elegancia acima de um dictame de moral, fazia-o córar, apesar de a sós comsigo mesmo. Voltava a ler a carta, que lhe parecia dictada pela experiencia e pelo bom senso, emquanto que a ingenuidade das suas crenças se lhe figurava ridicula e desarrazoada.
Quem ha que não tenha tido momentos d'estes? Quem se pode gabar de não ter perguntado um dia aos seus escrupulos mais nobres se não são meros preconceitos, que ficaram de uma educação acanhada? Quem não poz um momento em dúvida as sublimes verdades que a mãe lhe ensinou em creança? Henrique estava passando por um d'esses accessos de scepticismo. Magdalena era já para elle uma astuciosa, que muito se deveria ter rido da sua simplicidade; e tanto o incommodava esta ideia, que promettia a si proprio ser d'ahi por deante mais arrojado. Esta ordem de reflexões estavam acudindo outra vez a Henrique e recebiam da excitação, que se apoderára d'elle aquella noite, uma tenacidade maior. Sentindo a cabeça em fogo, Henrique levantou-se, apagou a luz, e abrindo a janella do quarto, saiu á varanda que deitava para a quinta, a respirar o ar livre.
A noite era sem luar e sem nevoas. Descobriam-se muitas estrellas no céo, que com forte scintillação parecia illuminarem a terra de um tenue crepusculo, que mal deixava distinguir os objectos.
O ar frio da noite estava produzindo em Henrique um prazer, que elle procurava prolongar.
Não havia passado muito tempo, depois que assim se encostára á varanda do quarto, quando lhe attrahiu a attenção certo vulto alvacento, que furtivamente se movia n'uma das ruas da quinta.
Pareceu-lhe uma figura de mulher.
Justamente n'aquella occasião tinha Henrique na memoria o periodo final da carta do seu amigo.
Por isso occorreu-lhe uma ideia satanica.
--Ah!... Querem vêr que... A dôr de cabeça subita... A insistencia em ficar só... Percebo... Um primo timido e modesto...
E murmurando estas palavras, um sorriso maligno encrespava os labios de Henrique.
--Se eu pudésse averiguar isto... Mas ella corre com uma ligeireza que, antes que eu ache meio de sair para a quinta... já a levará bem longe.
O meio porém não era difficil de encontrar. Da varanda em que estava Henrique passava-se com grande facilidade para outra immediata, na qual havia uma escada de communicação para a quinta.
Reconhecendo esta disposição do terreno, Henrique operou n'um momento a descida, e pouco depois procurava através da quinta os vestigios da mulher que tinha perdido de vista.
N'esta operação esforçava-se por combinar com a maxima ligeireza a possivel precaução, para não ser por causa alguma frustrada a sua pesquiza.
A quinta do Mosteiro era extensa e cerrada toda em volta por um solido muro de alvenaria. Aqui e alli abriam-se n'elle differentes portas que deitavam para os diversos logares da aldeia. N'este vasto recinto havia pomares, lameiros, vinhedos e hortas, por onde Henrique errava á tôa, já desanimado de ser bem succedido no empenho.
De repente julgou ouvir, a pouca distancia, o rodar de uma chave na fechadura. Parou por precaução e ficou-se a escutar. Logo depois ouviu o bater de uma porta e mais nada.
Então adeantou-se rapidamente; n'um momento deu com a porta, que ainda se conservava aberta.
Saiu por ella para a rua, mas achou-a deserta.
Dirigiu-se á esquina que d'alli avistava; dobrou-a, mas nada viu; as ruas eram solitarias, e uma só casa terrea que havia ao lado de um quintal estava discretamente fechada e silenciosa.
Desistindo de proseguir na infructuosa pesquiza, Henrique voltou para a porta.
--Esperemos aqui por esta donzella destemida que assim anda de noite a correr aventuras. Ha de ser curioso observar como ella fica, quando me encontrar por guarda portão. Veremos se ainda depois d'isto durarão aquelles ares de soberania, com que me trata. Um primo timido e modesto!...
E, sorrindo á lembrança da scena que se preparava, Henrique fechou a porta por dentro, e accendendo um charuto, poz-se a passeiar, aguardando o regresso da morgadinha.
Para não perdermos muito tempo á espera tambem, aproveital-o-hemos a inquirir de coisas e de pessoas, cujo conhecimento é util á continuação da nossa historia.
A pouca distancia do extremo da quinta do Mosteiro e n'um sitio a que a abundancia de vegetação e a suavidade de perspectiva davam o mais pittoresco aspecto, estava a casa e o quintal do herbanario, casa e quintal já condemnados pelos lapis e tira-linhas dos engenheiros e offerecidos em sacrificio aos melhoramentos municipaes e concelhios.
Acharia justificado o quasi terror, com que Magdalena e Angelo escutaram a nova d'esta expropriação, quem conhecesse a vivenda rustica do herbanario e soubesse do amor que elle votava a cada objecto d'ella, assim como da vida que, havia tantos annos, alli vivia escondido e obscuro.
Para o quintal, que a abundancia das arvores de espinho fazia sempre verde, abriam-se as janellas da pequena e humilde saleta, onde o herbanario se entregava ás suas leituras e lucubrações scientificas. Logo ao pé da porta se estendiam o jardim, em parte de recreio, pelas flores que o adornavam, em parte de utilidade, pelas simplices medicinaes, de virtudes mais ou menos problematicas, que o velho n'elle cultivava.
Vicente tinha entranhada a paixão vegetal, deixem-me assim chamar-lhe. Adorava as plantas pelas suas flores, pelos seus fructos e pelos poderes curativos que lhes attribuia. E como se ellas possuissem a responsabilidade dos effeitos produzidos, assim lhes queria e as amimava, quando salutares; assim as aborrecia e maltratava, quando nocivas. A vida isolada e o genio do velho, que sempre fôra dado a singularidades, augmentaram estas disposicões, que tinham o que quer que era de pantheistico; e não era raro surprehenderem-o conversando com ellas, como se convencido de que o estavam comprehendendo.
A borragem, a salva, a fumaria, a herva terrestre, a herva moura, os trevos, os geranios, as papoulas, as violetas, tão boa camaradagem lhe faziam, que nem lhe deixavam sentir a solidão.
O herbanario não tinha pessoa alguma ao seu serviço. Elle proprio cozinhava e por suas mãos fazia todos os mesteres domesticos.