A Morgadinha De Val D Amores Entre A Flauta E A Viola Theatro C
Chapter 5
Que escandalo! um homem! a empurrar a porta do quarto de uma senhora...
Guterres
Não se assuste. V. Ex.ª em guerra de paixões é paiz neutro. Esteja socegada. Durma. _(Engana-se novamente com a porta d'outra fidalga.)_
Voz
Quem bate? quem anda aqui, mana?
Guterres
Cá está outra inviolavel. Não é nada, minha senhora. A mana não teve perigo.
Aniceto _(sahindo com uma luz do seu quarto)_
Aqui está luz. Venha cá, snr. Miramolim.
Guterres
Miramar, se faz favor.
Aniceto
Que me diz á perseguição d'este facinora? O senhor não lhe disse que eu estava n'este quarto?
Guterres
Nada, eu não lhe disse coisa nenhuma. Eu bem vi que o senhor estava a espreitar pelos vidros; mas como elle disse «lá está o rosto amado» cuidei realmente que o rosto amado era o da sua pessoa. Não se afflija. O caso tem remedio. Trate a doença de sua filha pelo systema homoeopathico. _Similia similibus._ Sabe latim? _(Signal negativo)_ Quer dizer: cura-se a molestia com a mesma droga que a faz, percebe? quer dizer: a doença de sua filha é causada pelo tal sujeito, não é? _(Signal affirmativo)_ Pois _similia similibus_ arranje-lhe outro similhante.
Aniceto
Dois? tomára eu desfazer-me d'este.
Guterres
Outro marido, percebeu?
Aniceto
Percebi, sim, senhor; mas eu não acho que a minha filha tenha necessidade de casar com este nem com o outro.
Guterres _(com enfaze e rapidez)_
Snr. Aniceto, a natureza tem direitos inauferiveis. Ha periodos fataes no fluido nervoso que repellem toda a violencia, e a não soffrem sem que a especie seja deteriorada por transtornos contrapostos ás evoluções palyngenesicas da reproducção genesiaca, resultando d'ahi que as evoluções abafadas disparam em atrophia do sensorio e outras aberrações de graves consequencias: o senhor percebe, eim?
Aniceto
As aberrações curam-se com uma boa bengala, snr. Miramolim.
Guterres
Miramar, se faz favor. Vejo que V. S.ª não entendeu. Sua filha ha de dar-lhe grandes penas e trabalhos, se não tiver em quem empregar a actividade do seu coração: percebeu agora?
Aniceto
Muito bem. Aconselha-me então o senhor que lhe procure marido.
Guterres
E quanto antes.
Aniceto
O senhor é solteiro?
Guterres
Sou, sim senhor, porque?
Aniceto
Quer casar com minha filha?
Guterres _(com gravidade)_
A sua filha, snr. Aniceto, é uma imagem que me sorria nos meus sonhos antes de a conhecer. Eu amo-a com este coração de anjo que tenho; e, se eu já não fosse poeta, os olhos d'ella fariam de mim um Camões d'occasião. Mas a sua pergunta á queima-roupa é um choque tal de felicidade que me burrifica. Deixe-me tomar ar. Ha commoções de alegria que achatam os bofes e sacodem todas as visceras d'um homem.
Aniceto
Não ha tempo a perder. Quero livrar-me da perseguição d'este bandido da flauta. Se V. S.ª annue, vamos sahir immediatamente de Barcellos, e onde podermos parar em paz e socego trataremos do seu casamento com a minha Victorina. Eu vou chamar minha filha. Quero que ella o veja e ouça fallar.
Guterres
Não, senhor. Isto de casamento é um acto sério e solemne. Corações apanhados de surpreza não me servem. A mulher, que houver de ser minha, hei de conquistal-a palmo a palmo com as armas do sentimentalismo poetico. Logo que eu conhecer que consegui apaixonar sua filha, então a contemplarei como objecto matrimonial. Eu sobretudo, snr. Aniceto, sou poeta.
Aniceto
Então que é preciso?
Guterres
É preciso que ella me ame espiritualmente. Eu vou principiar os meus primeiros ensaios no coração de sua filha empregando os expedientes sentimentaes.
Aniceto
Que vae o senhor fazer n'esse caso?
Guterres
V. S.ª não me disse que sua filha se apaixonara pelo tal Pimenta em consequencia de elle tocar flauta?
Aniceto
Foi isso.
Guterres
Pois eu vou empregar tambem a musica. Póde ser que esta menina tenha a alma lyrica e philarmonica e que o seu coração só possa ser abalado instrumentalmente. Faz-me o snr. Aniceto o favor de recolher-se ao seu quarto, e esperar lá os phenomenos que se forem operando na sensibilidade de sua filha?
Aniceto
Sim senhor, eu cá vou esperar os phenomenos. _(Recolhe-se.)_
SCENA XIII
GUTERRES _(só)_
_(Guterres pega da viola, preludía, aproxima-se do quarto de Victorina e canta em postura de inspirado)_
Eu na Povoa descuidado Já não sentia disvelos; Eis que surges, luz brilhante, E eu te sigo até Barcellos.
Acorda, menina, Não durmas agora, Em quanto se fina De dôr quem te adora.
Victorina, escuta os hymnos, Que te canta o meu amor; Escuta os versos divinos, De Guterres, trovador!
Acorda menina, Não durmas agora, Em quanto se fina De dôr quem te adora.
_(Escutando declama:)_
Ella não se bole. Parece-me que a ouço resonar. É a belleza que ronca nos seus sonhos innocentes. _(Reparando em José Pimenta que vem entrando)_ Temos chinfrim.
SCENA XIV
JOSÉ PIMENTA, GUTERRES, VICTORINA, NO QUARTO E DEPOIS NA SCENA, ANICETO MAIS TARDE, E O CREADO
_(José Pimenta entra embuçado, medindo os passos á tragica. Chega ao meio da scena, arroja o chapéo, deixa cahir a capa, cruza os braços, relançando um olhar sinistro. Depois tira da algibeira interior d'uma jaqueta de pelle os canudos d'uma flauta, liga-os, dá dois passos á frente, e com a maior solemnidade toca a aria da Sombra de Nino, da Semiramis. Guterres tem passado com a viola para o outro lado, e faz menção de se defender com uma cadeira, em quanto o outro não toca. Victorina, assim que José Pimenta tem tocado a primeira parte da aria, começa aos empurrões á porta.)_
Victorina _(dentro)_
Josésinho, Josésinho, eu estou aqui. Acode-me, salva-me! Arromba esta porta! _(Aniceto rompe do quarto com os braços no ar, a tempo que Victorina faz saltar a fechadura e corre aos braços de José Pimenta, exclamando:)_ José, José, quero morrer nos teus braços. Ai! _(Desmaia nos braços d'elle.)_
Aniceto _(ao creado que tem entrado com a luz)_
Você faz favor de me ir chamar o regedor? chame-me as auctoridades todas. Ah grande facinora, cuidavas tu que em Barcellos não ha justiça que vingue um pae?
Guterres
Snr. Aniceto, não mande chamar as auctoridades. Nada de escandalos inuteis. Agora conheço que a chaga da sua filha só póde ser curada com o pêllo do mesmo... do mesmo José Pimenta. Não ha duvida que o coração d'esta menina está magnetisado pela musica; mas o que é certo é que a propensão d'ella não é a viola. A alma d'esta senhora inclina-se para instrumento de sopro. Não é assim, snr.ª D. Victorina? Faça favor de voltar a si para responder, e desmaie depois se quizer. _(Ella abre os olhos)_ É verdade ou não?
Victorina
Ai! _(Aniceto cáe prostrado n'uma cadeira á boca da scena.)_
Guterres _(a Pimenta)_
O senhor não tem habilidade senão para a flauta. Aproveite a occasião e vá com a pequena ajoelhar-se aos pés do velho. Andem para diante. _(Empurrando-os)_ Parece que nunca estiveram no theatro!
Pimenta e Victorina _(ajoelhando)_
Meu pae! piedade!
Aniceto _(erguendo-se de impeto)_
Oh! _(Grito rouco e prolongado; com os braços affasta tragicamente da vista o espectaculo dos dois que se ajoelharam.)_
Guterres
Snr. Aniceto, deixemo-nos de attitudes. Abençôe a união d'essas creaturas. Deixe-os casar; alegre-se com a esperança de que ha de ainda vêr meia duzia de netos a tocarem flauta; e meia duzia de netas, com o genio de sua mãe, amando uma orchestra de sujeitos distinctos desde a trompa até á corneta de chaves. Vamos, volte o seu semblante misericordioso para os propagadores da sua individualidade tipica.
Aniceto
Levantem-se d'ahi! _(Erguem-se submissos.)_
Guterres
Bem; estão os senhores absolvidos. Parabens. Ó snr. Pimenta, eu creio que algum serviço lhe fiz, provocando com esta viola o poder fascinador da sua flauta. Em recompensa, faça-me o senhor o favor de dizer se foi realmente com a aria da Sombra de Nino que enfeitiçou esta sympathica joven?
Pimenta
Esta aria era a senha com que os nossos corações se entendiam.
Guterres
Ah! sim? Eu quero tocar isso no violão; vou experimentar o effeito d'essa aria no coração de certas pessoas que costumam arrebatar-se fascinadas pela minha voz de tenor. _(Tange na viola o acompanhamento da Sombra de Nino, e canta:)_
Pobre poeta, ninguem te preza, Pobre poeta, ninguem te quer; Nem co'a viola tu conseguiste Mover o peito d'uma mulher.
_(No intervalo de uma quadra á outra. A José Pimenta)_
Isto vae bem? _(Faz na viola escalas sobre os bordões.)_
Mas não importa; vença a flauta A sympathia das fracas almas; Que eu antes quero, meus bons amigos, O vosso affecto e as vossas palmas.
FIM.
Os direitos de representação das duas comedias que formam este volume pertencem ao auctor.
Porto, 3 de Fevereiro de 1871.
CAMILLO CASTELLO BRANCO.