A Morgadinha De Val D Amores Entre A Flauta E A Viola Theatro C
Chapter 3
Se o casamento fizer a mudança! Ora essa! Pobre marido que não tem os focinhos direitos vinte e quatro horas! Eu cá por mim, snr. morgado, confesso que tive certos intentos matrimoniaes com ella; á vista, porém, das suas informações, declaro que desisto e renuncio, por que me não sinto com forças e habilidade para domesticar uma cobra-cascavel...
Pantaleão _(formalisado)_
Não consinto que o snr. Cosme chame cobra a minha filha!
Cosme
Isto é uma comparação rethorica, litterariamente fallando.
Macario
É rethorica... não se offenda V. Ex.ª;... talvez ignore que a rethorica é uma sciencia que permitte, a respeito de cobras cascaveis...
Pantaleão
Não quero saber de rethoricas: exijo que a filha do Pantaleão Cogominho de Encerrabodes seja respeitada! _(Volta as costas, e sáe bufando.)_
SCENA V
COSME E MACARIO
Cosme
Isto é uma familia de hotentotes! Cheiram ao sertão estes selvagens! Do que eu me escapei! Se caio nas mãos d'estes dois barbaros da edade media! Parece-me uma reliquia de ostrogodos esta gente! E vocemecê, snr. Macario, a dizer-me que esta fidalga tinha uma educação fina!
Macario
_Fina_, não disse: hade perdoar-me, snr. doutor Cosme; eu disse-lhe que ella era finoria; de fina p'ra finoria vae differença, phisicamente fallando.
Cosme
Perdão. Vocemecê disse-me que ella tivera fina educação.
Macario
Isso então foi rethorica...
Cosme
Eu não admitto rethoricas em objecto tão sério como é o casamento! Olhem que educação fina a d'este anjo! Trepa ás arvores, atira aos passaros, e joga o páo! Que predicados estes tão mimosos para augmentarem as graças virginaes d'uma menina! Não lhe falta senão vestir-se de homem, que é agora o trajar das senhoras innocentes das novellas e dos dramas. Uma menina que enfia os seus pezinhos n'umas botas de canhão, e rompe com elles por umas pantalonas dentro, fica a recender um aroma suave de amores que nem açafétida! E hade a gente persuadir-se que mora uma alma muito candida e muito pura dentro do peito que se albarda com um paletó de homem para arrotar francamente umas phrases de bomba real que nos fazem comichões nos miolos e arrepios na espinha! Arreda! olha o que me estava reservado para os quarenta e seis annos! Uma mulher assim paralisava-me as funcções do intellecto, e lá se me iam as minhas ovações parlamentares! Primeiro que tudo, sou do meu paiz, devo-me á regeneração da minha patria, sou homem publico; e um homem publico quando se casa deve fazel-o com dama que o não impeça nem apoquente. A femea natural do homem politico é a politica; a esposa, para os homens devotados aos interesses materiaes do seu circulo, significa tão sómente um supplemento vivo e util ás commodidades domesticas. Percebe vocemecê, snr. Macario?
Macario
Ora se percebo! A minha mulher cá para mim tambem é um supplemento ha muitos annos; e mais eu faço-a trabalhar na politica enchendo os bilhetes de votos na eleição. Diz V. Ex.ª muito bem, que nós os homens publicos não temos tempo para cuidar de mulheres... _(Reparando em Frederico)_ Ahi vem o atheu...
Cosme
Vou-me safando que não quero palestras com este safio. _(Sáe.)_
SCENA VI
MACARIO E FREDERICO
Frederico _(encarando o outro com a costumada careta)_
O douto pharmacopóla está irado contra mim por que fui causa a interromper-se o escandalo do auto...
Macario
Eu não me metto com o senhor... Tenha a bondade de não embarrar cá por mim.
Frederico
A sciencia é sempre orgulhosa. Façamos pazes e alliança, snr. Macario Mendes. Eu, com a minha sciencia das coisas espirituaes e o snr. com a sua sciencia do bazalicão e do oleo de mamona, podemos dominar este concelho, reunidas as duas forças n'uma aspiração unica. Por que me faz guerra inexoravel e crua, snr. Macario? Que lucra em impedir o meu consorcio com a Morgadinha? Por que anda o snr. servindo de alcaiote d'este alarve de Guimarães, que é o trompão grandioso das maiores asneiras civicas assopradas na charanga parlamentar? O officio do snr. Macario, n'este negocio, desacredita um pharmaceutico, que reune ao conhecimento do gamão, sciencia não vulgar da historia dos doze Pares de França, e tem orvalhado com lagrimas os fastos sanguinosos de _Roncesvalhes_.
Macario
Vá mangar com o diabo que o leve... Eu lhe mostrarei brevemente quem é Macario Mendes... _(Sâe.)_
SCENA VII
FREDERICO, JOÃO LOPES, E CABOS
_(As cantadeiras que no fim do 1.º acto acompanharam a morgada entram a cantar a moda com que se fechou o dito acto:)_
_D'onde vens, ó velha,_ _Eu venho da feira_, etc.
_(N'um intervalo da 1.ª á 2.ª trova João Lopes acerca-se de Frederico com disfarce)_
João Lopes
Olhe, se foge, que o snr. vae levar pancada de crear bicho. Estão-se a preparar os valentões. _(Frederico apita rijo. Apparecem de differentes sahidas 6 cabos de policia que escutam Frederico, em quanto se repete a cantilena. Finda a cantilena, ouve-se fóra o rumor da desordem, e o estalido dos varapáos. As cantadeiras fogem alvoroçadas a dar gritos.)_
SCENA VIII
FREDERICO, CABOS, UM DESCONHECIDO, E CAMPONIOS
Frederico _(com intimativa bellica)_
Formem em linha. Carregar armas!
Um cabo
Estão carregadas.
Frederico
Vamos ser atacados pelos desordeiros. Á voz de fogo, atirem. _(Vê-se atravessar a scena por entre o povo um Desconhecido de chapéo derrubado, o rosto coberto por um lenço, de caraça, polainas de briche nas pernas e pés, com um grosso páo de choupa. Proximos de Frederico os valentões param, com os páos cruzados nas pernas, gingando em attitude ameaçadora. Frederico, não se desvia dos cabos. De repente, rompem de fóra uns poucos varrendo o campo a pauladas.)_
Frederico
Cabos de policia, sentido! Preparar armas! _(Sáe perto da bocca da scena o Desconhecido. Encosta-se ao páo observando os movimentos dos valentões, os quaes vem já avançando, já recuando, crescendo sobre Frederico.)_
Frederico _(aos cabos)_
Aperrar armas! _(Uma paulada faz saltar a clavina das mãos d'um cabo. Os outros fogem. Frederico recúa, apitando rijamente. No maior aperto, o Desconhecido salta para a beira d'elle, descobre a choupa do páo, e arremette com os aggressores. Estes, forçados pela destreza, fogem, logo que o primeiro cáe d'uma paulada. A vozeria cresce no momento em que o palco está despejado. O Desconhecido trava do braço de Frederico, e o traz á bocca da scena.)_
Frederico
Quem é o valente homem a quem devo a vida?! quem é?
Morgadinha _(arrancando o lenço do rosto)_
Sou eu! salvei-te, Frederico!
Frederico
Ó morgadinha de Val-d'Amores! Tu!.. oh! tu!.. Como és ideal e angelica! _(Ajoelhando.)_
FIM DO SEGUNDO ACTO.
ACTO TERCEIRO
Salão da casa de Val-d'Amores. Mobilia antiga de couro de Moscovia. Reposteiros já envelhecidos com brazões. Alguns retractos. Um piano moderno.
SCENA I
PANTALEÃO E MACARIO
Pantaleão
Como eu lhe vinha contando, amigo e snr. Macario Mendes, minha filha, desde que começou a vestir-se á moda, e a tocar piano, está muito distrahida do troca-tintas do escrivão. Não anda por janellas, não sáe de casa, e gasta alegremente o seu tempo a tocar, a cantar e a vestir-se. Isto custa-me um dinheiro callado; mas dou-o por bem empregado.
Macario
E quem é que ensina a snr.ª morgadinha a tocar?
Pantaleão
É a mulher d'um sujeito que se estabeleceu ha pouco em Santo Thirso com loja de fazendas brancas...
Macario
Bem sei, bem sei.
Pantaleão
Foram lá as primas de Ruivães que fizeram a descoberta; mas o que tem muita graça é que o homem da mestra é tão ciumento que só a deixa ir a casas onde não ha homens...
Macario
Que tal pezêta é ella!..
Pantaleão
E para vir aqui, pôz por condição que a mulher só viria á noitinha acompanhada pelo marido que a deixa á porta, e vem por ella duas horas depois. Eu estive quasi a não aceitar tal professora por saber que o escrivão de fazenda estava muitas vezes na loja do marido; e receei que ella fosse medianeira d'alguma carta...
Macario
E tem rasão, snr. morgado... Veja lá!.. olhe que o mundo é um covil de marotos!
Pantaleão
Não ha receio; que eu tratei de me informar, e soube que o logista pôz fóra da loja o velhaco do Frederico, por desconfiar que elle lhe trazia d'ôlho a consorte.
Macario
Não que sem licença d'elle não ha maior desmoralisação n'este mundo! Aquillo tem mesmo idêas de Sardanapalo! Ainda bem que lhe está por um fio a ladroeira da repartição...
Pantaleão
Conte lá isso então. Em que termos está a bernarda? Rebenta hoje ou ámanhã?
Macario
Hoje. Está tudo alevantado quando fôr nove horas. Os sinos hão-de tocar a rebate nas quatro freguezias mais chegadas, e o povo cáe todo sobre Santo Thyrso, e faz cêrco para que o escrivão não possa escapulir-se; que elle é leve como uma penna, e quando a gente mal se precatar, vê-o fazer vispre, zêpe-zêpe _(expressão sibilante para imitar a rapidez da corrida.)_
Pantaleão
Se elle fugir, amigo Macario, deixal-o ir. Nada de o agarrar, que não vão os meus creados escadeiral-o e eu ter de o pagar por bom. O que eu desejo é que elle não appareça mais em Santo Thirso. Lá a respeito da papellada isso é queimal-a toda; que depois o governo como não tem cadernos para a cobrança dos impostos, não o manda para cá a elle nem a outro.
Macario
Grande idêa é essa, snr. morgado! E o governo faz uma economia bem boa. Se a gente fosse dando cabo dos empregados, ajudava o governo a fazer economias, porque depois não havia quem quizesse servir os empregos. O sytema é um bocado violento para os empregados, mas eu não vejo outro meio de os ir acabando...
Pantaleão
Não acho isso humanitario!
Macario
Meu caro amigo e snr. morgado, eu sou homem politico ha trinta annos, leio jornaes, e tenho feito muita somma de deputados; conheço por dentro e por fóra o paiz e as suas necessidades. Fique certo d'isto; em quanto se não der fim a uma casa a que os jornaes chamam _burrocracia_, não se indireita a patria.
Pantaleão
Como se chama isso?
Macario
_Burrocracia_, que pelos modos é palavra de idioma francez, que vem a dizer empregado publico.
Pantaleão
Snr. Macario, vá indo cá com as minhas idêas moderadas. O melhor systema de se acabar com os escrivães de fazenda é queimar os cartorios. Eu lhe ponho uma comparação. Se eu queimar a palha que tenho, e não comprar outra, que me acontece á minha parelha de machos? Morrem de fome, não é verdade?
Macario
Isso é.
Pantaleão
Pois ahi tem: os escrivães, em se lhe queimando os papeis, não tem que roer.
Macario _(duvidoso)_
Nada; a comparação dos machos não me convence, queira V. Ex.ª perdoar. _(Com energia)_ Matal-os, matal-os, é o grande _desideratum_.
Pantaleão
E os papeis? deixam-se ficar?
Macario
Os papeis queimam-se, queimam-se as casas, queimam-se os escrivães! Nada de cataplasmas emolientes; o paiz o que precisa é causticos e ventosas.
Pantaleão
Ora vocemecê, snr. Macario Mendes, sabe que no cartorio do tal pulha está o processo da execução que a fazenda nacional me move...
Macario
Por seis contos d'uma fiança dos bens dos frades, sei muito bem... Esteja descançado, que não ha de lá ficar papel em que se amortalhe um cigarro.
Pantaleão
Quem é o chefe da revolução?
Macario
Á falta d'homens por hora sou eu; mas não sei a que os commandantes das freguezias decidirão. Já ouvi rosnar que elles querem acclamar V. Ex.ª general em chefe.
Pantaleão
Homem, tire isso da cabeça ás freguezias. Vocemecê bem sabe que eu ando muito adoentado dos intestinos, e não posso deixar de tomar o meu banho de canôa á noute. Dinheiro, sendo preciso, algum darei para a revolução; mas entrar nella em pessoa não posso por causa d'esta molestia dos reins que me não deixa cavalgar; e vocemecê bem entende que um general em chefe a pé não tem geito, nem pode vêr de longe o inimigo, se nos fôr necessario entrar em batalha com o exercito. Dispensem-me por tanto de tamanha honra.
Macario
Farei as diligencias; mas receio que...
SCENA II
OS MESMOS E A MORGADINHA
_(A morgadinha traja na ultima moda, mas exageradamente. Vestido muito curto, sem alguma roda, apanhando-se-lhe cingido ás pernas; grande laço na cintura posteriormente; sapatos de salto dourado; cabelleira com estupendos tufos encaracolados.)_
Pantaleão
Vens para o piano, Joanninha?
Morgadinha _(pondo luneta d'oiro)_
Sim, papá, vou estudar a minha lição de escala. _(Senta-se ao piano.)_
Macario _(á parte, benzendo-se espantado do trajar da morgada)_
Que desmoralisação! Isto é o peccado em carne e ôsso!
Pantaleão
Está vocemecê admirado d'estas modas, amigo Macario!
Macario _(ironico)_
São bonitas... _(Grave)_ Mas não acho isto decente para a observancia dos bons costumes.
Morgadinha
Que quer? é moda; andam assim todas as senhoras do tom.
Macario
Do tom? Sem tom nem som. As minhas filhas assim não hão de vestir, se Deus quizer.
Morgadinha _(voltando o rosto com aborrecimento)_
Então as suas filhas são senhoras?
Macario
D'aquella massa se fazem, snr.ª morgada...
Morgadinha _(dedilha nervosamente nas teclas)_
Adeus, adeus. Temos historia!
Pantaleão _(a meia voz)_
Não a zangue... Deixe-a lá... Tomára eu que ella se entretivesse com os vestidos...
Macario
A cabeça... está feito, mas as pernas a vêr-se-lhe, snr.ª morgada! Assim não se podem observar os bons costumes... _(A Morgadinha canta acompanhando a escala, e desafina quando guincha as notas das oitavas altas. Macario Mendes, offendido pela desharmonia, faz caretas.)_
Pantaleão
Ainda não sabes cantar modinha nenhuma, menina?
Morgadinha
A mestra não quer que eu cante modinhas; aprendo a escala que é o essencial. _(Repete a escala, e quando principia a desafinar, Macario despede-se, apertando a mão a Pantaleão.)_
Pantaleão
Veja lá os meus papeis, snr. Macario.
SCENA III
OS MESMOS E JOÃO LOPES
João Lopes _(trazendo castiçaes com luzes)_
Está na sala de espera a snr.ª mestra pianista e mais o marido.
Morgadinha
Está! Papá, é preciso sahir, tenha paciencia. Bem sabe que ella, se vir homem aqui, não entra.
Pantaleão
Está bom pedaço d'asno o marido! Então elle não sabe que eu sou um homem sério!
Morgadinha
Que quer o papá! Já lhe tenho dito que póde entrar segura de que não ouve palavra que a offenda; ella bem o sabe; mas o marido, se souber que a mestra fallou com um homem, seja elle quem fôr, não a deixa voltar.
Pantaleão
Com certos individuos tem elle rasão; mas nem todos são como o devasso escrivão de fazenda, que lhe andava a fazer a côrte á mulher, e por isso foi posto de lá para fóra. Acho justo que elle se acautele dos tratantes; mas de mim... parece-me bestialidade! Emfim cá vou. _(Sáe.)_
SCENA IV
MORGADINHA, JOÃO LOPES E DEPOIS FREDERICO
Morgadinha
Póde entrar a snr.ª D. Thomazia.
João Lopes _(para dentro, levantando o reposteiro)_
Póde entrar a snr.ª D. Thomazia. _(João Lopes sáe, assim que entra a supposta mestra. Frederico vestido de mulher, o rosto coberto de véo espesso, e cachos. Chapéu antiquado de orelhas, que lhe ajudem a cobrir a cara. Vae direito ao piano. Vê-se a cabeça de Pantaleão que espreita por uma fimbria do reposteiro. João Lopes tosse.)_
Morgadinha _(alto)_
Passou bem, snr.ª D. Thomazia!.. _(Baixo)_ Não me falles que meu pae está espreitando, em quanto João Lopes tossir... _(Tocam e cantam a escala, Frederico canta em falsete a duo. Desharmonia nas vozes.)_
João Lopes
O snr. morgado já está no pateo a conversar com o marido do snr. Frederico; estejam á vontade que eu vou para o postigo da escada. Quando eu tossir, vejam lá...
Frederico _(levanta o véo, abraçando o velho)_
Este João Lopes é um prodigio de dedicação! é o typo genuino do antigo creado portuguez! Se eu realisar os meus sonhos, João Lopes, você ha de progredir na escala das importancias sociaes... Eu hei de arranjar-lhe a você um habito de Christo!
Morgadinha
Deixa-o ir, deixa-o ir... _(João Lopes sáe.)_
Frederico _(tomando-lhe as mãos calorosamente)_
E os nossos sonhos vão realisar-se, minha fada! Oh! _(contemplando-a absorto)_ que deslumbrante! que eclipse estás fazendo nos anjos do céo! Não és só uma bellesa! és um milagre! uma gloria! uma divinisação! Não ouso beijar-te as mãos... Os pés, os pés! Estes pés requerem tapetes de labios e almofadas de corações! Consente que t'os beije, houri!
Morgadinha _(desviando-se)_
Não sejas tôlo! Gostas de me vêr assim?
Frederico
Se gosto!.. Sinto delicias que atormentam, amor que me rescalda as fibras intimas do peito! Luz, luz que me cégas, faz-te lavareda, e... devora-me!
Morgadinha
Vamos ao caso... Como estão os negocios?
Frederico
Optimos. Logo que chegarmos a Lisboa, tenho a certeza de que será consagrado nos altares o nosso amor. Poderiamos evitar a fugida, requerendo tu a tua emancipação, visto que já contas vinte e seis annos; mas, como receias que eu seja assassinado logo que requeiras ao juiz, cumpra-se a tua vontade. _(João Lopes tosse. Vão sentar-se rapidamente ao piano, tocando e cantando a escala. Depois, a Morgadinha vae espreitar, em quanto Frederico toca uma valsa voluptuosa que obriga a Morgadinha a fazer alguns passos de dança. Frederico, arrebatado do donaire gracioso d'ella, ergue-se de mãos postas fazendo tregeitos de enlevado.)_
João Lopes _(mettendo a cabeça)_
Podem conversar, que elle passou para a tulha.
Frederico _(com transporte)_
És divinamente grande nas minimas bagatellas da humanidade! Se lanças o pé quebradiço e chinez em attitude dançante, sacodes e impelles brazas á minha alma. O pavimento arde debaixo dos teus pés lindissimos. Tudo que fazes mata e aviventa. Como não serás esbelta, nos salões de Lisboa, princeza dos bailes, a rodopiar vertiginosamente nas valsas, nos cotillons, nos lanceiros, na doidice sublime em que ha um espadanar de felicidade por todos os póros! Ó Joaninha, deixa-me sonhar! _(Fixa os olhos espantados no tecto da platêa. Musica surda)_ A minha vida vae ser uma etherisação de todas as potencias espirituaes. Embriagado nas taças nectáreas do céo, viverei enlevado nos arrobos da minha embriaguez... Esse rosto em que se espelham as formosuras não vistas de Angelos nem de Raphaeis, será o meu Al-korão, porque o summo artifice escreveu ahi a suprema estrophe do seu poema. Quando os teus olhos se abrirem ao diluculo da manhã, vêr-me-has de joelhos a beijar os teus cabellos; quando os fechares, cansados de serem beijados, e as sedosas palpebras se cerrarem como conchas ciosas de suas perolas, eu me quedarei a teus pés velando que os sylphos amorosos da noite não ousem perturbar o teu dormir. Oh! Joanna, Joanna! _(Ajoelha-se-lhe aos pés. João Lopes tosse com maior força. A morgadinha adverte em vão Frederico que continúa no seu arrebatamento:)_ Abre-me aqui já o sepulchro, se em alguma hora hei de sentir-me orphão dos teus carinhos... _(Pantaleão ao fundo, erguendo o reposteiro.)_
Morgadinha
Ah!
Frederico _(sobresaltado)_
O diabo! _(Desce o véo. Canta qualquer aria conhecida no acto de ajoelhar, e cantando, diz perceptivelmente á Morgadinha:)_
Diz a teu pai que a mestra Para melhor te ensinar, Te está cantando uma ária Das que se usa cantar No Theatro de Lisbôa: Prega-lhe a pêta, que é bôa; E se esta nos não salva, Nada nos póde salvar.
SCENA V
OS MESMOS E PANTALEÃO
Pantaleão _(ao fundo)_
Então que é isso?
Morgadinha
É a minha mestra que me está ensinando uma ária das que se cantam no theatro de Lisbôa.
Pantaleão
Ella tem a voz tão grossa! Não parece voz feminina!
Morgadinha
Ella canta na voz que quer.... Então o papá já se esqueceu que o marido d'ella...
Pantaleão
Está bom, está bom; eu vou-me embora. Lá estive conversando com o marido da senhora, e lhe disse que não tivesse ciumes que eu sou um velho!... Aquelle seu marido parece-me um doudo!.. _(Rindo)_ Ora andem lá, andem lá. _(Sáe.)_
SCENA VI
FREDERICO, MORGADINHA E JOÃO LOPES A INTERVALOS
Frederico
Salvei-te ou não? Tu salvaste-me com a força, na romaria; e eu aqui, salvei-te com o genio! Vês como o amor me deu espirito n'um trance difficil? Fazes maravilhas de perspicacia e finura, tu, com a magia dos teus olhos, ó formosa! _(Ouve-se toque a rebate de sinos, que sôa de diversas longitudes. Rumôr longiquo de vozes.)_
Morgadinha
Que será isto!? Ó João Lopes!
João Lopes _(dentro)_
Que quer, snr.ª morgadinha?
Morgadinha
Sabes a que tocam os sinos? é fogo?
João Lopes _(dentro)_
Fogo não me parece. Acho que é bernarda. Estou cá á janella a vêr se entendo a gritaria.
Morgadinha
Diz que é bernarda...
Frederico _(alvoroçado)_
Horrivel! oh! horrivel! Isso bole sériamente comigo, comtigo, comnosco, com o nosso futuro, Joanna!
João Lopes _(dentro)_
É revolução.
Morgadinha
Revolução!
Frederico
Não ouves a fatalidade que esbraveja? Terei eu de perder-te, archanjo?
Morgadinha
Qual perder-me! Importa-me cá a mim a bernarda! Hei de ser tua! Não temas, Frederico, que eu sou forte!..
João Lopes _(na scena)_
Já intendi o que elles dizem... Dão morras aos papeis, e que se queime o escrivão da fazenda... E trazem musica... Ouvem?... _(Ouve-se distinctamente, mas ainda longe, o hymno da «Maria da Fonte», á mistura com os «môrra!»)_
João Lopes
O snr. morgado está na torre a ouvir. Agora bom será que o snr. Frederico se escape, senão desconfio que o matem, sendo aqui pilhado... _(Frederico apanha as saias na cintura para poder fugir. A Morgadinha agarra-o.)_
Morgadinha
Não te deixo sahir agora, que é perigoso.
Frederico _(muito inquieto)_
Morrer aqui, seria uma morte ingloria, Joanninha! Dá-me armas que eu quero defender-me com uma bravura digna de ti! Armas! armas! um revolver de doze tiros! Quero armar-me até aos dentes, e combater, e morrer gloriosamente ao teu lado!
Morgadinha
Frederico, tu estás maluco!.. Olha que elles não vem cá... Não percas o juizo!
Frederico _(muito á tragica, alludindo ao estrondo da gritaria)_
Não vem? Vem! Escuta! escuta! Não ouves o bramido do tigre popular? Olha... é o leão que ruge, partidos os grilhões de respeito á lei! É a Libia e a Hircania a vomitarem féras! Olha o lago sujo como se levanta em vagalhões e como elles roncam!
Morgadinha
Vem então esconder-te, vem esconder-te!
Frederico
Não! Um homem não se esconde quando olhos como os teus são testemunhas de tamanha covardia! É mister ser heroe!.. Mas eu estou vestido ignobilmente! _(Arranca os vestidos mulheris: fica de quinzena; mas conserva o chapéo e os boucles)_ Agora, armas! armas! _(A morgada ri-se apontando-lhe para a cabeça.)_ Por que ris tu, mulher forte! porque ris tu, se fazes favor?!
Morgadinha
Tira a cartola e os cachos, meu amor.
Vozes _(que sobrelevam o estrondo dos figles)_
Morra o escrivão de fazenda! morra! _(Grande catharro de João Lopes.)_
Frederico
É chegada a hora! Dá-me um abraço, querida! Um abraço! e até ao reino eterno! As nossas nupcias são no céo!.. _(Aponta para o tecto e fica como extactico; em quanto a Morgadinha vae rapidamente dentro, e sáe com dous bacamartes de bocca de sino.)_
Morgadinha
Aqui tens um bacamarte; defende-te, que eu te defenderei tambem! _(Ella aperra o bacamarte.)_
SCENA VII
OS MESMOS, PANTALEÃO E JOÃO LOPES
Pantaleão _(estupefacto)_
Que vejo? que é isto? como entrou este homem aqui?
Frederico _(atirando ao chão o bacamarte)_
Venho offerecer-me á vingança de V. Ex.ª
Morgadinha
Meu papá, o snr. Frederico vem pedir-lhe a minha mão de esposa!
Pantaleão
Das duas uma: ou o senhor foge, ou é espatifado pelo povo!
Frederico
Não sei fugir: sei morrer.
Pantaleão
Mas vá morrer a casa do diabo; não quero que o matem aqui.
João Lopes
V. Ex.ª tem rasão; matal-o aqui é máo: o melhor é eu ir escondêl-o no meu quarto; por que, se o povo o achasse aqui a estas horas, os creditos da menina não ficavam com muita saude.
Pantaleão
Pois vae escondêl-o... some-o no inferno!
Morgadinha
Meu pae, se Frederico fugir, fujo eu; se elle morrer, morre sua filha, sua filha unica, a sua Joanninha, a luz dos seus olhos! Meu papá _(ajoelha-lhe)_ eu já não posso deixar de ser esposa de Frederico, e juro que sou d'elle na vida e na morte! _(Ergue-se: conduz Frederico pela mão, e ajoelha com elle)_ Dê-nos a sua benção, querido papá!
Pantaleão