Part 9
—A menina não pode deixar a sua doente, permitta-me fazer-lhe este pequeno serviço, eu sei que é vinho de Malaga.
—Oh! sr. Casimiro... por quem é...
—Deixe-me por minha vez ser-lhe agradavel, a menina consente em me servir de modelo... estou tão contente! Corro a buscar o vinho, volto com elle n’um momento.
E sem attender mais á rapariga, Casimiro sae apressadamente; desce a escada a quatro e quatro, por pouco que não deita ao chão o menino Proh que procurava pôr-se a cavallo na balaustrada do patamar, passa como uma frecha por deante do porteiro, corre á botica mais proxima, pede vinho de Malaga quinado, compra tres garrafas, mette uma em cada um dos bolsos lateraes, esconde a terceira debaixo de paletot e volta a casa de Lisa com a mesma pressa com que de lá saíu.
—Valha-me Deus!... então o senhor traz tres garrafas! exclama a rapariga vendo Casimiro tiral-as dos bolsos.
—Sim, minha vizinha, terá assim para muito tempo sem se incommodar.
—Mas não era preciso, isto custa tres francos e dez soldos cada garrafa...
—Com duas sessões ficam as nossas contas saldadas.
—Ah! senhor, não é possivel!
—Perdão, minha vizinha, juro-lhe que a um modelo como a menina não se paga menos, e que lhe ficarei ainda muito obrigado. Mas tenha a bondade de me dizer a que hora quer que eu venha para a sessão.
—É sempre de manhã cedo que minha avó descança melhor e não tem precisão de mim; se o não contrariasse vir ás oito horas... mas é talvez cedo de mais para o senhor?
—Não! pelo contrario, essa hora convem-me muito, trabalharemos das oito ás dez, se me fizer esse obsequio, porque eu não a quero fatigar, e, duas horas, isso é talvez já demasiado para a menina...
—Oh! não, senhor! demais, o senhor disse-me que eu poderia coser ao mesmo tempo...
—Sim, sim, fará tudo quanto quizer; em eu podendo olhar para a menina, é quanto basta.
—Eu pensava que o modelo era tambem obrigado a olhar para o pintor!
—Algumas vezes, de certo, é isso melhor; mas nós temos tempo, e quando fôr absolutamente necessario, então a menina terá a bondade de levantar por um momento os olhos de cima do seu trabalho. Assim, está ajustado, ámanhã ás oito horas cá me tem a minha vizinha com toda a minha bagagem...
—Estarei prompta.
Casimiro retira-se, e Lisa approxima-se da velha doente, dizendo-lhe:
—Avósinha, aqui está o vinho quinado!
XII
A primeira sessão
Casimiro está encantado com o seu dia, e assim que sae de casa do seu novo modelo, dirige-se á morada de Ambrosina, á qual quer participar a venda do seu quadro. Não está bem certo se ella compartilhará da sua alegria, mas estima muito que saiba que elle pelo seu trabalho pode emfim prescindir dos soccorros de outrem.
Emquanto ao que acaba de obter de Lisa, terá o cuidado de não dizer uma unica palavra á sua amante, da qual conhece os excessivos zelos; bem pelo contrario, espera que ella ignorará as suas relações com a sua joven vizinha; por isso ficou muito contente quando esta lhe propoz dar-lhe sessão ás oito horas da manhã; das oito ás dez não receia receber a visita de Ambrosina, que se levanta habitualmente muito tarde, e se por acaso ella viesse a sua casa antes que elle tivesse descido do quinto andar, sempre poderia dizer que tinha ido almoçar ao café.
Ao sair de casa, Casimiro encontra-se com Rouflard; o inquilino da agua-furtada nota o ar alegre e triumphante do joven pintor, e exclama:
—Aposto que se arranjou a coisa!
—É verdade, Rouflard, sim, a menina Lisa consente em me deixar fazer o estudo da sua cabeça, ah! estou muito contente!
—Eu bem sabia que haviamos de acabar por isso, mas isto de mulheres, é preciso sempre que se façam rogar um pouco.
—Ámanhã pela manhã ás oito horas subo a casa d’ella, com a palheta e os pinceis, e temos a primeira sessão...
—Quando qualquer mulher dá uma sessão, dá ao depois tantas quantas se querem... isso vae mesmo por si, é como o primeiro passo.
—Mas, Rouflard, isto fica aqui entre nós; quando eu estiver trabalhando com o senhor em minha casa, se vier aquella senhora, bem sabe, aquella morena a quem trato simplesmente por Ambrosina... e que já aqui tem vindo muitas vezes...
—Sim, sim, a senhora primeira, a sultana favorita, percebo!
—Pois bem! escuso de advertir-lhe que é preciso não dizer palavra ácerca das minhas visitas a casa de Lisa e do retrato que vou fazer...
—Ora essa! como, meu artista! é a mim que o senhor diz isso, a mim, um veterano nas lides amorosas! parece-me todavia que não tenho ares de galucho! eu, que ficaria afflicto se causasse o menor dissabor á minha joven bemfeitora!
—Tem razão, eu devia louvar-me no senhor.
—Emquanto a Chausson, o meu antigo creado, elle não é de todo máu, se quer eu lhe falarei.
—Não, não é preciso, isso fica por minha conta...
—Ah! é antes dos Prohs que se deve desconfiar; são uns tagarellas, uns palradores, uns mexeriqueiros! que ficam encantados quando sabem o que se passa em casa dos vizinhos, e acham meio de fazer d’um argueiro um cavalleiro!
—Terei cuidado de que elles não saibam nada das minhas visitas a casa de Lisa, e vou tratar de acabar quanto antes o retrato da sr.ª Proh, para que ella não venha mais a minha casa.
—Ahi está um retrato que eu não queria ter nas minhas _inglezas_, a não ser como laxante...
—Rouflard, vendi a minha pequena paizagem, aqui tem, tome lá isto para se divertir, sou hoje feliz, quero que toda a gente esteja satisfeita.
—Isto é que é falar como Buckingam obrava, o senhor tinha nascido para semear perolas no seu caminho e eu para as apanhar.
Casimiro acha a sua amante acabando de arranjar-se e dispondo-se para ir a sua casa.
Até que emfim! é uma felicidade vel-o! exclama Ambrosina, o senhor vem cada vez mais tarde; d’aqui a pouco, sem duvida, deixa de vir de todo.
—Minha querida amiga, desculpe-me, tenho hoje tido muitas occupações.
—Esteve a trabalhar com o borrachão do seu modelo... como é interessante!...
—Não, hoje não trabalhei com Rouflard; recebi a visita do logista que me vende os quadros; dê-me os parabens, está vendida a minha paizagem.
Ambrosina franze o sobr’olho e morde os beiços, respondendo ao mesmo tempo:
—Ah! está vendida a sua paizagem...
—Sim, e muito bem vendida, por muito mais do que eu teria ousado pedir.
—O senhor é demasiadamente modesto, e faz mal em ser assim; nas artes, a modestia é uma tolice, porque é um merecimento que ninguem leva em conta ao artista, e que muitas vezes o impede de chegar á celebridade. Porquanto lhe pagaram o seu quadro?
—Quatrocentos e cincoenta francos.
—Ah! que miseria! e é isso que o senhor chama bem vendido! pensava que ia dizer-me dois ou tres mil francos.
—Ah! está zombando commigo! bem sabe que aquella pequena paizagem não valia isso; para uma estreia é um preço muito bonito; isto anima-me, e quero trabalhar de modo que possa vender mais caro os quadros que fizer.
—Ah! o senhor tenciona fazer outros quadros de _genero_; então renuncia ao retrato? Provavelmente não acabará o meu, pelo qual não mostrava nenhum enthusiasmo.
—Como é injusta! sou sempre eu que lhe peço para se pôr em attitude; mas a senhora, em estando em posição um quarto de hora enfada-se, já não pode estar quieta no mesmo sitio.
—Ah! é que me faz mal aos nervos! Vamos, a sem razão está da minha parte, convenho. D’aqui em deante serei mais razoavel, irei metter-me em sua casa logo pela manhã, e não arredarei pé do seu _atelier_, assim, poderá fazer-me estar em posição todo o tempo que quizer.
D’esta vez, é Casimiro que morde os labios e franze ligeiramente as sobrancelhas. É coisa para se notar que, n’um colloquio de duas pessoas, fazem-se muitissimas vezes d’estas mudanças physionomicas, que dizem o que a bocca não diz, ou que significam inteiramente o contrario do que ella diz. Porque, por mais que se queira dissimular o pensamento, ha sempre alguma coisa que transparece n’este semblante que a natureza nos deu, e que é por vezes rebelde ás transformações que lhe queremos impôr.
Ambrosina deseja ir passear ao campo. Casimiro accede a esse desejo com alegria; como trouxe comsigo o seu livro de lembranças, tomará notas, esboçará alguns pontos de vista.
—Se nós fossemos á Suissa? diz a bella morena; é lá que o meu amigo acharia vistas admiraveis, que poderia fazer ampla provisão de bosquejos para os seus quadros de _genero_.
Mas o joven pintor não está por forma alguma disposto a viajar.
—Sem ir tão longe, diz elle, ha nos arredores de Paris sitios lindos, vistas encantadoras; mas ninguem pensa em pintal-as, porque estão ás portas de Paris, e não se liga merecimento senão ao que está longe de nós. Eu, minha querida amiga, não vejo razão para se fazer pouco caso d’uma coisa que nós podemos arranjar sem incommodo e sem despeza. Assim, por exemplo, muito perto d’aqui, por detraz do forte de Romainville, n’aquelle sitio que era n’outro tempo o bosque, ha outeiros d’onde a vista é magnifica, tem a gente deante de si uma extensão immensa de terreno; podem os olhos abranger mais de doze leguas em redor. Em baixo fica Patim com os seus fornos de cal, que tornam a paizagem pittoresca; depois está o canal que corta o caminho, e um pouco mais adiante S. Diniz, Montmorency, Pierrefitte. Á esquerda vê-se Montmartre, o Monte Valeriano, e Saint-Cloud, que se desenha no horizonte. E tudo isto entremeado de bosquesinhos, de bonitas casas de campo, de fabricas. Affianço-lhe que é um panorama admiravel. Quer ir vel-o?
A sr.ª Montémolly deixa-se conduzir ao que era n’outro tempo o bosque de Romainville, e entretem-se a colher algumas flores campestres, emquanto Casimiro está sentado na relva esboçando á pressa algumas vistas; mas as flôres são raras no terreno barrento, que é bom para fabricar louça, mas não para fazer brotar as rosas. Demais, Ambrosina é sempre a mulher da moda, e portanto leva d’alli o seu companheiro dizendo-lhe:
—Meu riquinho, por mais que o senhor diga, as suas lindas vistas de Romainville não valem a cascata e o lago do Bosque de Bolonha.
—Para a senhora, comprehendo isso; perdõe-me pois, nunca mais a trarei para este lado, é preciso ser pintor para o apreciar.
—Meu amigo, é mister procurarmos a nossa _victoria_, que não poude seguir-nos n’estes caminhos cheios de barrancos, onde a gente a cada instante corre risco de cair n’um buraco, ou de se enterrar na areia! Vamos jantar ao _Ledoyen_ nos Campos-Elyseos, isso ha de mudar-nos completamente...
—Ahi está o que são as mulheres! e falava a senhora em ir á Suissa! lá é que ha caminhos escarpados, difficeis de trepar!
—Sim, mas está a gente na Suissa, inscreve o seu nome no registo das estalagens; e vê-se alli que os srs. Fulanos de tal passaram por aquelle sitio, e quizeram trepar o monte Righi.
Este dia passa mui lentamente para o joven pintor, que almeja pelo momento em que poderá fazer o retrato de Lisa. E, posto que faça todo o possivel para ser com Ambrosina tão amavel, tão alegre como de costume, tem por vezes momentos de preoccupação, ou de distracção, que não escapam á sua zelosa amante; esta diz-lhe então de subito:
—Em que é que está pensando?
—Eu... em nada... estou-a ouvindo.
—Está-me ouvindo? O que é que eu acabo de dizer?
—O que acaba de dizer-me? já não sei o que foi, era então alguma coisa muito interessante?
—Bem vê que não me estava ouvindo. Ah! olhe, Casimiro, eu não sei o que lhe aconteceu, mas, com toda a certeza, o senhor tem alguma coisa! anda pensativo, responde fóra de proposito ao que lhe digo. Oh! n’isto andam amoricos.
—É que vendi o meu quadro, e ando a pensar n’aquelle que hei de fazer agora, aqui está o que é.
—O senhor não fala verdade! não é n’isso que pensa. Oh! eu conheço bem o mundo! não me enganam assim!
—Tanto peior para a senhora, porque as pessoas mais felizes são aquellas que se deixam enganar mais facilmente.
—É possivel, mas não quero essa felicidade.
Emfim, passa-se o dia e a noite tambem; Casimiro levanta-se muito cedo, escolhe a téla, arranja a palheta, e prepara um cavallete que já lhe não servia e que elle tencionava deixar em casa da sua vizinha, para não ter o trabalho de o levar e trazer todos os dias. Olha a cada instante para o relogio, receia ser indiscreto chegando antes da hora que se ajustou.
Dão oito horas: Casimiro vae abrir a porta da escada, certifica-se de que não está ainda alli ninguem, depois vae buscar todos os objectos de que precisa, e sobe lentamente os dois andares.
A porta de Lisa tem a chave na fechadura; mas vem ella pessoalmente abril-a, porque ouviu subir e desconfiou logo que é a pessoa por quem espera.
—Oh! meu Deus! como o senhor vem carregado! exclama Lisa querendo desembaraçar Casimiro do seu cavallete.
—Tudo isto é muito leve, menina, não se incommode. Posso entrar?
—De certo; minha avó está a dormir, creio eu, mas, ainda mesmo que acordasse, eu disse-lhe hontem que o senhor havia de vir aqui fazer o meu retrato, e ella ficou muito contente. Disse-me assim: «Has de collocal-o deante de mim para que eu te veja sempre minha filha.» Ah! é que ella quer-me muito, a minha avósinha.
—Bem vê pois a minha querida vizinha que, consentindo em se deixar retratar, já fez duas pessoas felizes!
—É verdade. Se eu soubesse que era assim, teria accedido mais cedo. Creio que a avósinha está descançando; não faremos bulha.
—Eu não tenho necessidade nenhuma de fazer bulha quando trabalho. Olhe, aqui tem o cavallete armado, estou ás suas ordens.
—Mas o senhor é que manda; como quer que eu me colloque?
—Como costuma estar; sente-se e pegue no seu trabalho.
—O quê! devéras posso trabalhar!
—Sem duvida, principalmente durante a primeira sessão, em que eu não copio senão o conjuncto da cabeça.
—E não tenho precisão de olhar para o senhor?
—Sim, algumas vezes, mas não sempre.
Põem-se ambos ao trabalho. Lisa faz bainhas, o que não obriga a muita attenção. De vez em quando Casimiro diz-lhe:
—Olhe para mim...
O que ella se apressa a fazer; mas baixa bem depressa os olhos, porque encontra os do joven pintor que lhe diz então:
—Mas a menina não olha par mim bastante tempo, mal pude apanhar-lhe a _nuance_ dos olhos.
—É que o senhor encara-me tanto, que me intimida; isso perturba-me.
—É preciso que eu olhe para a menina com attenção para reproduzir as suas feições, isso não deve intinmidar-a; não veja em mim senão um artista, ou antes um operario que faz o seu officio, e isso não a perturbará.
—Ah! mas o senhor não é um operario!
—Ora adeus, minha vizinha, todos nós o somos, cada um no seu genero; pois quem trabalha para viver não é operario? Ha porém, dirá a menina, profissões que exigem mais estudos, mais intelligencia que outras; mas esteja persuadida de que o poeta ou o escriptor que trabalha com o seu pensamento, que tira do cerebro os seus materiaes, tem ás vezes muito mais fadiga, muito maior lida em fazer a sua obra do que o marceneiro em aplainar as suas tábuas. Olhe para mim por um pouco.
Lisa ergue os olhos, e d’esta vez torna a baixal-os menos depressa encontrando os de Casimiro. Este gosta de fazer conversar o seu modelo, o que não receiam fazer os pintores de grande talento, porque apanham melhor a expressão da nossa physionomia emquanto falamos, do que o fazem aquelles que nos prohibem de nos mexermos, o que nos dá então um ar aborrecido, ou contrafeito, ou affectado; eu poderia mesmo dizer apalermado.
Lisa estima bastante poder conversar; em vida da sua ama, quando esta tinha uma venda de leite e fazia muito bom negocio, levou tres vezes a pequena ao theatro, e esta lembra-se sempre d’isso, porque gostou muito do espectaculo. Este divertimento e a leitura são os unicos que ella deseja; a dansa, os passeios, as festas campestres teem para ella poucos attractivos. Antes de cair doente, a boa da avó queria que a sua Lisa procurasse estas distracções; mas, em vez de ir vêr esses bailes que ha no termo de Paris com o falso nome de campestres, Lisa levava a sua companheira para um passeio pouco frequentado, para uma vereda solitaria, coberta de sombra, e alli, sentando-se na relva, lia um romance que tinha alugado economizando alguns soldos na despeza do sustento. Lia em voz alta; a velha adormecia, mas Lisa continuava a lêr, e ambas estavam contentes.
—Se a minha vizinha gosta de lêr, diz Casimiro, posso emprestar-lhe alguns livros; tenho todos os romances de Alexandre Dumas, e estou bem certo de que lhe hão de agradar muito.
—Ah! agradeço a sua bondade; mas, desde que a avó caíu doente, não tenho já tempo de lêr, vale mais trabalhar.
—É mister todavia ter alguns instantes de repouso.
—O trabalho que eu faço não cansa.
Na primeira sessão, Casimiro não quer demorar muito tempo o seu modelo; levanta-se pois, dizendo:
—Basta por hoje; obrigado, minha vizinha.
—Ah! está acabado?
—Acabado por esta sessão; permitte-me que deixe aqui o cavallete?
—Oh! certamente. Ah! leva o quadro; mas o senhor não precisa d’elle sem mim!
—Perdão, ha coisas em que posso trabalhar sem ter o modelo á vista.
—Deixa-me ver?
—Ainda não, peço-lhe eu. Está muito pouco adeantado; em tres ou quatro sessões, poderá ver á sua vontade. São dez horas, vou almoçar.
—Já dez horas! é singular como o tempo passa depressa quando se está servindo de modelo. O senhor virá ámanhã?
—De certo, se isto não a contraria.
—Oh! de modo algum.
A pequena ia dizer: _pelo contrario_, mas parou fazendo-se muito córada, e limita-se a murmurar:
—Então, até ámanhã.
No dia seguinte, Casimiro não falta a dirigir-se a casa do seu encantador modelo, que o vê agora chegar com prazer, e, sem ser _coquette_, tem todavia mais esmero no seu penteado, no arranjo dos seus cabellos; o joven pintor repara n’isto, não diz nada, mas fica secretamente lisonjeado, porque ha uma multidão de pequenas coisas que fazem presagiar as grandes.
Trabalha-se, e conversa-se a meia voz; é quasi sempre de manhã que a avó descança melhor. Lisa levanta mais vezes os olhos para o seu pintor e sustenta um pouco melhor o fogo dos seus olhares; algumas vezes, comtudo, um vivo rubor lhe sobe á cara, emquanto Casimiro murmura:
—Ah! como a menina se colloca bem! que lindo retrato eu vou fazer, sim, ha de ficar muito parecido; tenho as suas feições tão bem gravadas na memoria!
—Então, já não é preciso que eu olhe para o senhor?
—Oh! sim! sim! eu nunca a vejo bastante.
—Que felicidade saber pintar!
—Sim, tambem acho isso agora, e ainda ha pouco tempo nem o suspeitava! Ah! minha vizinha, saiba que se eu chegar a adquirir algum talento, é á menina que o deverei.
—A mim! ora essa! não foi olhando para mim que o senhor fez essa linda paizagem que vendeu.
—Não, mas foi vendo-a trabalhar sem descanço, n’este modesto aposento, sabendo que achava meio de prover ás necessidades de sua velha avô paralytica, que eu tive vergonha da minha existencia, da minha preguiça, que comprehendi que havia de lamentar um dia o ter empregado tão mal a minha mocidade e emfim que tomei a resolução de mudar de vida. Bem vê pois que, se eu obtiver um dia talento, é á menina que o deverei.
Lisa não responde nada, porque está demasiadamente commovida, mas o seu olhar fita-se em Casimiro, e tem uma expressão tão terna, tão meiga, que d’esta vez é o pintor que deixa de trabalhar.
Estes colloquios confidenciaes renovam-se todos os dias e tornam mais intimas as relações que existem entre o pintor e o seu modelo. Pouco a pouco, uma affectuosa confiança substitue a fria polidez. Conversam mais, fazem as sessões maiores, separam-se a custo, porque teem sempre alguma coisa para se dizerem; acham-se tão bem juntos, que Lisa impacienta-se e abre a porta quando Casimiro tarda alguns minutos. E, comtudo, nunca uma palavra de amor foi pronunciada n’estas sessões de todas as manhãs; mas ha coisas que a gente não tem precisão de dizer para se fazer comprehender, e o amor é uma d’essas coisas.
O retrato adeantava-se; mas, como Casimiro queria fazer durar muito as sessões, achava sempre alguma coisa para pintar de novo, para retocar. Lisa não se queixava d’isso, pelo contrario, quando o seu pintor dizia: «Basta por hoje,» acontecia-lhe ás vezes exclamar:
—Já! ah! parece-me que não trabalhámos muito esta manhã!
Então Casimiro sorria-se, e continuavam a conversar. A rapariga examinára o retrato, e pulára de prazer vendo-se tão bonita. Tinha exclamado:
—Ah! o senhor lisonjeia-me; eu não sou assim!...
Não se atrevera a dizer: «Tão bonita!» Mas as mulheres param muitas vezes no momento de dizerem o verdadeiro fundo do seu pensamento.
XIII
Um rapazito endiabrado
O retrato de Lisa fazia muitas vezes descuidar o de Ambrosina, e não era só em pintura que esta dama notava que se descuidavam d’ella. Casimiro ia a sua casa cada dia mais tarde, e, quando ella lhe lançava isso em rosto, elle achava por desculpa a nova paizagem que estava fazendo, as sessões que dava á sr.ª Proh ou a Rouflard e Ambrosina exclamava:
—Mas não é possivel que o senhor não tenha acabado essas cabeças! E quando eu lhe peço para termos sessão, diz-me que não me quer fatigar. O senhor tem alguns amoricos, alguma nova ligação que arranjou; mas tome cuidado! eu o saberei.
Um dia pela manhã, a sr.ª Montémolly, sem ter prevenido o amante da sua visita, levanta-se muito mais cedo do que costuma, faz-se vestir á pressa por Adriana, e chega a casa de Casimiro pelas dez horas. Perguntou ao porteiro se o rapaz tinha saído; Chausson respondeu que o não vira descer. Ella sobe os tres andares, vê a chave na porta da habitação do pintor, e entra sem bater, sem tocar a campainha, dizendo comsigo:
—Vou surprehendel-o e saber emfim em que trabalha tão assiduamente.
Ambrosina entra na saleta que serve de _atelier_ a Casimiro, e não acha alli senão Rouflard, que está ensaiando posições deante d’um espelho.
—O sr. Casimiro não está aqui? diz Ambrosina, correndo os olhos pelo _atelier_.
Rouflard, que reconheceu a dama e adivinha a situação, apressa-se a cortejar profundamente, respondendo:
—Não, minha senhora, o sr. Dernold saíu.
Apezar d’esta resposta, Ambrosina vae vêr ao quarto da cama, depois volta, dizendo:
—É verdade, não está, effectivamente.
—A senhora verificou que eu não menti, murmura Rouflard com um sorriso ligeiramente ironico.
—Mas onde está? voltará breve?
—Oh! não creio, minha senhora; o sr. Dernold disse: «Vou almoçar, e depois irei dar uma volta pelo Louvre, onde tenho que fazer uns estudos.»
—É singular, o porteiro disse-me que Casimiro não tinha saído.
—Oh! minha senhora! esse miseravel Chausson nunca vê o que se passa; fazia-me muitas d’essas quando era meu creado. Eu dizia-lhe: «Põe-te de sentinella, não deixes entrar os meus crédores, não quero receber senão senhoras...» e o imbecil fazia exactamente o contrario.
—Mas o que faz o senhor aqui?
—Eu, minha senhora, tinha vindo agradecer ao meu artista, que teve a bondade de se occupar de mim, e de me arranjar collocação em casa d’um pintor seu amigo, um pintor de historia; devo fazer um romano. E o sr. Casimiro disse-me: «Arranje um penteado á romana, ponha-se deante do espelho, ate uma fita vermelha á roda da cabeça, eu lhe direi depois se tem um falso ar de Romulo...» porque parece que é um Romulo que devo representar.
Ambrosina não parece dar muito credito a esta historia romana. Passeia pelo _atelier_, pára por momentos, parece reflectir, e diz:
—Não sei se devo esperar por elle.
—A senhora tem para isso todo o direito, certamente; mas temo que espere por muito tempo. Quando um pintor vae ao Louvre, nunca se sabe quando de lá sairá.
—O sr. Rouflard vem aqui muito amiude?
—Sim, minha senhora, estou sempre ás ordens do meu artista quando elle tem precisão de mim.
—E vê vir aqui muitas mulheres? não me engane...
—Minha senhora, posso affiançar-lhe que nunca vi aqui senão a senhora e a vizinha alli defronte; mas áquella não chamo eu uma mulher, o marido alcunhou-a de girafa, e fez muito bem.
—Vamos, acredito no senhor, e vou-me embora, terá a bondade de lhe dizer que vim aqui... e que o espero em minha casa, não é verdade?
—Executarei as suas ordens, minha senhora.