Part 8
Assim que o modelo se retira, Casimiro deixa a cabeça de Rouflard e deita-se á paizagem; trabalha com um ardor de que elle proprio se espanta, mas toma gosto pela sua obra, procura-lhe cuidadosamente os defeitos, aperfeiçôa-lhe muitas partes, e o tempo passa depressa quando a gente se entrega a um trabalho que agrada. Casimiro ouve dar quatro horas, e diz comsigo:
—Não é possivel que já seja tão tarde. Ah! Santo Deus! e eu que devia ir buscar Ambrosina ás tres horas, para ir passear com ella ao bosque! mais uma scena que terei de aturar! Porque deixei eu esta mulher dispôr assim do meu tempo? porque? Porque sou um preguiçoso, um cobarde, porque a menor occupação me mettia medo, e hoje tenho infinitamente mais prazer em trabalhar n’este quadro do que em ir passear ao bosque. Ah! é que penso n’essa menina Lisa que não procura nenhuma distracção, que trabalha constantemente n’um quarto onde não tem por companhia senão uma velha paralytica, e isto de ter assim vivido na inacção envergonha-me. Tenho ainda deante dos olhos a situação de Rouflard. Este homem, que foi tão festejado, tão amimado pelas mulheres, viveu á custa d’ellas e eu vejo onde isso conduz, o seu exemplo não será perdido para mim. A sr.ª Montémolly pode zangar-se quando quizer, mas de hoje em deante hei-de trabalhar; estou resolvido a isso, no entanto, como é preciso ser sempre delicado com as senhoras, vamos ter com ella, senão seria capaz de vir aqui para saber o que estou fazendo.
Casimiro dirige-se portanto a casa da formosa Ambrosina. Esta dama está de muito máu humor; acha-se vestida e prompta ha mais de uma hora, e não vê apparecer o amante. Passeava com impaciencia pela sala, olhava a cada instante para o relogio, chamava a creada e dizia-lhe que fosse perguntar que horas eram a qualquer parte, exclamando:
—Estou certa de que este relogio anda adeantado, deve regular mal; Adriana, vá saber que horas deram com exactidão.
Adriana vae informar-se ao quarto do porteiro, e volta dizendo:
—Minha senhora, o seu relogio não está adeantado, pelo contrario, anda atrazado seis minutos.
—Você é uma tola! exclama Ambrosina, rasgando as luvas com colera, de certo viu mal...
—Não, minha senhora, eu...
—Basta! não quero que sejam perto de cinco horas, é impossivel!...
—Ah! se a senhora quer que não seja mais de meio dia, isso para mim é o mesmo.
—Cale o bico! parece-me que tem a confiança de gracejar commigo! se diz mais uma palavra, ponho-a na rua!...
Adriana retira-se, dizendo comsigo:
—É que o gajo ferrou-lhe alguma peça! Ainda agora a procissão vae na praça, minha rica!
Chega finalmente Casimiro. Esperando uma scena de ralhos, vem revestido de toda a sua paciencia; demais, está decidido a persistir na resolução que tomou de mudar de vida.
—Ah! chegou emfim, diz Ambrosina mordendo os labios com despeito. Sabe que horas são?
—Cinco horas menos vinte minutos.
—E a que horas devia o senhor vir buscar-me?...
—Um pouco mais cedo, é verdade; mas puz-me a pintar e o tempo passou mais depressa do que eu imaginava.
—De certo que não presume que eu me satisfaço com similhantes razões; deveria, pelo menos, ter inventado outras, dizer-me ainda que estava á espera do seu amigo Miflaud, que foi elle que o demorou...
—Disse-lhe a verdade, minha senhora, não tem razão em não me acreditar. Estive trabalhando.
—Esteve trabalhando! e desde quando, se me faz favor, desde quando lhe veio esse bello amor pelo trabalho, que eu lhe não conhecia?
—Estou admirado de que a senhora me diga isso, porque, desde algum tempo a esta parte, temos tido bastantes conversações a tal respeito. Sim, minha senhora, puz-me ao trabalho, e d’aqui em deante conto empregar assim uma parte do meu tempo, a minha resolução está tomada e é inquebrantavel, agora não mudarei. Estou envergonhado da vida que tenho levado até hoje, e é preciso que isto acabe. Bastantes vezes lhe tenho manifestado o desejo que sentia de achar um emprego. Em vez de me confirmar n’este designio, a senhora tem sempre procurado fazer-me esquecer do que a minha posição tinha de censuravel. Não lhe faço uma arguição. Deus me livre de tal! cada um ama a seu modo: uns sómente pelo prazer de amar; outros pela felicidade que experimentam em ouvir fazer o elogio do objecto da sua escolha. Eu possuo só um recurso, a pintura. Posso, á força de estudo, de trabalho, adquirir algum talento. É o que vou tractar de fazer; não ve o em que isso me poderia malquistar com a senhora, porque lhe asseguro que os prazeres parecem mais doces, quando vêm depois das horas de trabalho.
Casimiro disse tudo isto com um ar tão decidido, n’um tom tão firme, tão convencido, que a sr.ª Montémolly comprehende que d’esta vez não triumphará da nova resolução do seu amante. A colera desappareceu então como por encanto. É que ella conhece Casimiro sufficientemente para perceber que perderia muito no conceito d’elle, procurando ainda estorvar-lhe os projectos. Em vez d’isso, faz esforços para retomar o seu ar gracioso, e toma-lhe o braço, dizendo-lhe:
—Perdôe-me, meu amigo, eu não tinha razão; não o censurarei mais por trabalhar. Mas isso ha-de impedir-nos por ventura de irmos ainda passear algumas vezes?
—Ah! estou ás suas ordens e encantado de a achar tão razoavel...
—Pois bem! então, vamos dar um passeio até ao bosque, e á volta jantaremos no Ledoyen...
X
Ainda as creadas
São decorridos quinze dias. Casimiro trabalha com assiduidade no seu quadrosinho de cavallete e da cabeça de Rouflard; este conserva a posição muito regularmente, sobretudo desde que dá as sessões antes do almoço. Mas não conseguiu ainda vencer a resistencia de Lisa, que não quer deixar tirar o retrato. Isto penaliza o joven pintor, que subiu muitas vezes a casa da sua linda vizinha do quinto andar; mas não se demorou muito lá, porque ella parece sempre temer que a vista do rapaz contraríe sua avó, e é mostrando-se bem discreto que Casimiro espera captar a confiança de Lisa e triumphar da sua recusa.
O joven pintor continúa a dar lições de desenho á menina Proh, que não faz nenhum progresso e passa uma semana com a mesma orelha. Começou tambem o retrato da sr.ª Proh, mas pouco trabalha n’elle, e prefere muito mais a cabeça de Rouflard. Emfim, Casimiro acabou a sua pequena paizagem, e mandou-a para uma loja de quadros, deante da qual param de boamente os amadores, porque se expõem alli a miude bonitas coisas e raras vezes má pintura.
Deve-se bem suppôr que a ciumenta Ambrosina, não acceitou sem desgosto, sem receio, o novo modo de viver que o seu amante acaba de adoptar; mas comprehendeu que era preciso fazer algumas concessões para não perder inteiramente o seu imperio. Vê Casimiro muitas vezes; mas em vez de passar em casa d’ella uma parte das suas manhãs e das suas tardes, a conversar como costumava, o rapaz almoça agora em sua casa, e trabalha algumas vezes até ás cinco horas da tarde; quando se sente perfeitamente bem, quando está contente de si, custa-lhe muito largar os seus pinceis, e fica muito admirado de vêr com que rapidez se passa um dia todo consagrado ao trabalho, elle que outr’ora achava o tempo bem comprido e não sabia como empregal-o para evitar o aborrecimento.
Ambrosina, que quer certificar-se de que Casimiro não a engana, chega muitas vezes a casa d’elle sem o prevenir da sua visita. Acha-o trabalhando com o seu modelo, e não é Rouflard que pode inquietal-a; encontrou lá tambem uma vez a sr.ª Proh, que dava uma sessão ao seu vizinho, mas a esposa do antigo professor não podia despertar-lhe ciume. Não tinha pois nenhum motivo real para se affligir, e todavia não estava socegada; parecia-lhe que o amante não era já o mesmo com ella, que com o amor inteiramente novo que lhe viera pelo estudo, tinha perdido muito d’aquelle que n’outro tempo lhe dedicára. Não sabia bem o que se passava no coração de Casimiro, mas adivinhava que havia agora entre ambos alguma coisa que devia destruir a sua felicidade. As mulheres teem uma segunda vista, que lhes faz presentir tudo o que tem relação com o seu amor.
Isto devia necessariamente produzir um augmento de crises nervosas, e a menina Adriana era muito a miude enviada á pharmacia que já tivemos o prazer de fazer conhecer aos nossos leitores.
Correndo alli um dia (sabemos já como Adriana corre, que pára a conversar com todos os conhecimentos que encontra,) a gorda creada acha-se outra vez cara a cara com a sua amiga, a menina Rosa, aquella que tem um tão bello commodo em casa d’um homem só, que lhe faz presentes, e que tomou um creado para que ella se não cance muito com o trabalho domestico.
—Bons dias, Adriana.
—Ah! és tu, Rosa! onde vaes d’esse modo?
—Vou alli á pastelaria encommendar umas empadas, que as fazem deliciosas!...
—Ah! bem sei, é tambem onde nós compramos, é a melhor do bairro.
—Ainda estás em casa da tal senhora nervosa?
—Oh! não me fales n’isso! desde algum tempo a esta parte, está constantemente de máu humor! anda furiosa! porque os amores já não correm muito bem! Eu bem vejo, o tal sujeito já apparece menos vezes, por mais que a senhora se apure no vestuario, por mais que se faça bonita, estou convencida de que elle tem vontade de a deixar.
—Ora! e ella arranja logo outro!
—Pensas que la em casa se faz isso com essa facilidade! Nós adoramos o nosso pintor, minha rica, seriamos capazes do nos deixarmos depennar por elle!
—Ah! é um pintor, algum pobre pintamonos?...
—Parece que desde certo tempo para cá vae adquiríndo talento, está para fazer o retrato da senhora, é ella que o quer, é preciso ver se elle me faz tambem o meu em quanto está de vez. E tu, Rosa, andas muito _chic_, pareces a mulher d’um ourives! Continúas em casa do tal homem só?
—Em casa do sr. Loursain, de certo minha rica; sou mais sua dama de companhia que sua creada; não faz nada sem me ouvir, hoje fui eu que appeteci as empadas, disse-me logo: «Vae encommendal-as...»
—Ah! elle tracta-te por tu!...
—Não... enganei-me... elle disse-me: «Vá, Rosa, encommende-as a seu gosto, e traga tambem pasteis de nata.»
—Caspité! és tractada como uma princeza!
—O senhor não faz nada sem me consultar. Quando os seus amigos me fazem zangar, digo-lhe a elle: «O seu amigo fulano deu-me hontem um beliscão em certo sitio...» Oh! o tal amigo fica pronto, é recebido de tal maneira que nunca mais volta.
—Oh! isso é bem armado, é um meio para te veres livre das pessoas que te aborrecem.
—É uma astucia velha que nunca erra o seu effeito. Mas imagina que me tinha vindo á idéa aquillo que me disseste o outro dia; uma d’estas tardes, depois de jantar, á sobremesa, digo ao patrão, que estava mais terno que de costume: «Senhor, se tem vontade de casar commigo, não se constranja, eu não desejo outra coisa.» A isto o patrão desata a rir, como um perdido! Fez-me zanga vel-o rir assim, e digo-lhe: «Então que motivo ha para rir do que lhe proponho?» Elle ri ainda mais, e depois responde-me: «Que diabo de idéa se te meteu na cabeça! e que tolice ires pensar no casamento.» «Mas, senhor, tornei eu, não acho que o casamento seja uma tolice.» «Pois olha que é, e bem grande; não, minha rica, não casarei comtigo, não farei similhante disparate! mas ainda mesmo que tivesse vontade de o fazer, não me seria isso possivel, pois que já sou casado.»
«Bem deves fazer idéa que fiquei embaçada ao ouvir isto «Como! pois o senhor é casado?» exclamei eu «e sua mulher está viva?» «Sim Rosa, minha mulher está viva, bem viva, e não creio que tenha vontade de morrer, porque é muito mais moça do que eu.» «E então porque não está o senhor com ella? para que vive sem mais nem mais como se fosse solteiro? É enganar a gente; isso dá ás raparigas solteiras certas idéas a seu respeito: póde a gente illudir-se com o senhor, pensando que é para bom fim, e depois era uma vez!... Isso é desagradavel...» O patrão fez então uma cara de mau humor, e respondeu-me:
«—Não tenho que lhe dar satisfações; se me separei de minha mulher, é porque provavelmente isso me conveiu, não é negocio da sua conta. De hoje para o futuro, ha de fazer favor de me não tornar mais a falar a tal respeito, porque isto desagrada-me.»
«Ora, bem deves suppôr que não foi preciso dizer-m’o duas vezes; vi que tinha ido longe de mais, e desde então não tenho falado mais em tal. Mas é o mesmo, desejava bem conhecer a mulher do sr. Loursain, e saber o motivo por que elle a deixou.
—Ora! tem muito que saber! é que lhe fez falcatrua, e esse senhor não gostou; ha homens tão ridiculos. Valha-me Deus! e eu sem ir buscar o remedio á botica! Adeus, Rosa, até mais ver.
—E o teu moço de quem gostavas tanto?
—Ah! isso já acabou! agora é outro! eu nunca me prendo, gosto da variedade.
Quando a menina Adriana volta á presença de sua ama, esta ralha muito com ella por se ter demorado tanto tempo fóra; a creadinha porém não falta a responder-lhe:
—Não foi por minha culpa, minha senhora, é que encontrei uma amiga, uma patricia, que não via ha muito tempo, então estivemos a conversar, perguntei-lhe pela familia...
—Sempre desejava saber que interesse podia ter n’isso...
—É que a Rosa tem um irmão que esteve quasi á morte por minha causa.
—Por amor?
—Não, minha senhora; mas querendo levar-me muito longe nos braços, á força de pulso, ficou corcovado.
—E o que faz a sua amiga?
—Oh! tem um bello commodo, em casa d’um homem só, onde ella faz tudo quanto quer; manda fazer empadas quando lhe dá na vontade... e pasteis de nata, emfim, grandes banquetes.
—É então rico, esse senhor?
—Sim, minha senhora. Oh! parece que o sr. Loursain é riquissimo!
Ao nome de Loursain, Ambrosina sente uma viva commoção; apressa-se porém a dominal-a replicando:
—Como se chama esse senhor em casa de quem está a sua amiga?
—Loursain. A senhora conhece-o?
—Não, parecia-me ter ouvido outro nome. E esse sujeito é... viuvo?
—Quer dizer, vive como se o fosse; mas na realidade não o é. Tem ainda a mulher viva. Eu soube tudo isto pela Rosa, de quem elle está loucamente namorado, e com quem estimaria muito casar; mas elle disse-lhe em confidencia: «Eu não posso casar comtigo, Rosa, e tenho muita pena d’isso, porque sou casado e minha mulher ainda é viva, infelizmente; mas, se ella morrer, podes estar descançada, tens a certeza de occupar o seu logar... o teu futuro está seguro.» O que é pena, é que parece que a tal senhora é muito mais moça que o marido; mas, emfim, em todas as edades se morre, não é verdade, minha senhora?
—Certamente. E o amo da sua amiga mora perto d’aqui?
—Sim, minha senhora, na rua Béranger, aquella que faz continuação á nossa. Parece que aquelle senhor tem uma bella casa, n’um segundo andar, do lado da rua, e mobilada no grande _chic_. O quarto da Rosa é no mesmo pavimento, o que é muito commodo, porque... a senhora bem entende... a Rosa não m’o quiz confessar, mas é como se m’o tivesse dito, demais, ella descuidou-se commigo... o amo trata-a por tu, e...
—Basta, basta, não quero saber dos negocios da menina Rosa; mas, para a outra vez, tracte de conversar menos tempo quando eu a mandar a algum recado.
Deixada só, Ambrosina fica por largo espaço engolphada nas suas reflexões, das quaes sae por fim, dizendo de si para si:
—Loursain mora perto de mim, e eu não desejo encontral-o, é preciso mudar-me.
XI
O vinho quinado
Um dia de manhã, Casimiro fica agradavelmente surprehendido ao receber a visita do lojista em casa de quem expôz o seu quadrosinho, e que se approxima d’elle dizendo:
—Temos comprador para o seu quadro por quatrocentos e cincoenta francos, quer dal-o?
O joven pintor receia ter ouvido mal, abre muito os olhos para se certificar de que é effectivamente o seu negociante de quadros que está deante d’elle, e exclama:
—Quatrocentos e cincoenta francos, diz o senhor? é pela minha vista de Bougival que lhe offerecem esse dinheiro?
—Sim, se lhe convem, é negocio feito, e pode logo passar por minha casa para receber o dinheiro.
—Se me convem! isso deixa-me encantado, enche-me de alegria, nunca teria ousado pedir tanto.
—Eu tinha pedido quinhentos francos, e estou certo de que, se o senhor quizesse esperar, acabariamos por achar quem os desse.
—Nada, não, não quero esperar, parece-me que fica muito bem pago, demais, visto que se acha valor aos meus quadros, pintarei outros.
—E fará muito bem. Trabalhe, sr. Casimiro, dê-se antes áquelle genero que a outro qualquer. Creio que lhe será isso muito mais rendoso que o retrato. O senhor é colorista, o que é um dom da natureza; conheço pintores de talento que não teem o menor sentimento da côr; teem uma figura para fazer, empregam a primeira coisa que acham no pincel; está perfeitamente desenhada, é espirituosa de attitude, de maneira, de idéas. Reina porém em tudo aquillo um tom pardo-escuro que tira ao quadro toda a graça que deveria ter. A esses, não peçam nunca luz, claridade, sol; é-lhes impossivel metterem d’isso nos seus quadros. Trabalhe, que nós o auxiliaremos.
Assim que o lojista se retira, Casimiro põe-se a pular e a dansar no quarto. Não é a idéa de que vae receber quatrocentos e cincoenta francos que o torna tão alegre; graças á generosidade da sua amante, tem tido muitas vezes quantias maiores á sua disposição; mas é o pensamento de que esse dinheiro é o fructo do seu trabalho, que elle soube ganhar por si mesmo, e que quando o receber, poderá mettel-o na algibeira sem córar.
—Nada faltaria agora á sua felicidade, se a sua vizinha do quinto andar consentisse em deixal-o fazer-lhe o retrato; não conseguiu ainda vencer a sua resistencia, e comtudo Rouflard disse-lhe no dia anterior:
—Está-me parecendo que a menina Lisa não tardará a deixar-se retratar, porque o medico que tracta da sua velha doente tem vindo vel-as estes dias; receitou uma nova beberagem, creio que é vinho quinado. Seria preciso que a boa da velha o tomasse todos os dias, e, com a breca! aquelle vinho é caro; as garrafas são muito pequenas despejam-se em dois goles. A pequena levanta-se ainda mais cedo, véla ainda até mais tarde para arranjar o vinho quinado; mas creio que lhe custa a chegar. Não faria ella cem vezes melhor em se deixar tomar por modelo? Ainda hontem lh’o disse. Suba lá o senhor, é agora a occasião, eu conheço as mulheres, tanto quanto a gente as pode conhecer; mas olhe, com ellas, o que é preciso é aproveitar a occasião.
Casimiro tracta logo de pôr em practica o conselho de Rouflard, e sobe de novo a casa da menina Lisa. Todas as vezes que se dirige alli, sente uma viva commoção e o seu coração bate mais apressado. Comtudo, tem dito muitas vezes a si proprio que não devia pensar em fazer a côrte a Lisa; que aquella pequena era honesta, e que da parte d’elle seria muito mal feito procurar seduzil-a, perturbar-lhe o socego e fazer-lhe deixar a verêda da honra, na qual, como diz o poeta: é difficil entrar uma vez que se esteja fóra.
Casimiro disse comsigo tudo isto e muitas outras coisas, o que não impede que, ao olharem para a linda cara d’aquella menina, os seus olhos não tenham uma expressão que não é de modo algum a da indifferença, e que a sua voz se não faça mais suave e mais insinuante.
Pela sua parte, Lisa sente-se inteiramente outra desde que travou conhecimento com o seu vizinho do terceiro andar. Tem-se mostrado para com ella tão delicado, e sobretudo tão respeitoso, que a rapariga pergunta a si mesma por que receia conceder-lhe o favor que elle solicita. Mas pergunta isto muitas vezes de mais; pensa em Casimiro todo o dia, não pode já reprimir-se de o fazer, e, apezar de toda a sua innocencia, uma donzella de dezoito annos adivinha perfeitamente que é muito perigoso estar sempre a pensar n’um rapaz, occupar-se constantemente d’elle; e, ainda que esse rapaz lhe não tenha dito uma unica palavra de amor, ainda que não a veja senão deante de sua avó, a donzella deve conservar-se acautelada contra o sentimento que se lhe introduz na alma, e sobretudo não se expôr a amar alguem que não pensa n’ella senão para lhe tirar o retrato.
É com receio de tomar demasiado gosto em se achar só com o seu joven vizinho, que Lisa recusa sempre deixar-se retratar por elle.
Mas no meio de tudo isto, chegou aquella receita de quina em vinho de Malaga. Os malditos medicos não se importam com as posses dos seus doentes; receitam o que é favoravel ao restabelecimento da saude, e tanto peior para o enfermo se não pode comprar o remedio; elles cumpriram a sua missão.
Lisa havia comprado uma garrafinha do vinho receitado; fizera-o beber á sua velha doente, a quem isso havia dado grandes melhoras. Mas essa garrafinha fôra bebida em sete dias, e ainda se não tinha comprado outra.
Este maldito vinho quinado preoccupava agora Lisa quasi tanto como Casimiro, e, como na vida todas as coisas têm o seu ricochete, ella não podia deixar de dizer de si para para si:
—Se eu me resolvesse a servir de modelo, bem depressa teria vinho quinado.
Rouflard não se enganara pois nas suas conjecturas, e, com effeito, ao vêr entrar Casimiro no seu aposente, Lisa experimenta um vivo sentimento de prazer que ella dissimula o melhor que pode, cumprimentando o seu vizinho com ar amavel e indicando-lhe uma cadeira, porque não pode largar a obra que está a acabar.
—Bons dias, minha vizinha, diz Casimiro; aqui tem um homem extremamente feliz.
—Realmente, estimo muito; o que lhe succedeu então para lhe causar tanta alegria?
O que me acconteceu? Ah! a menina não o comprehende talvez bem, porque é preciso ser artista para conhecer estas alegrias! Imagine um auctor que obtem o seu primeiro triumpho no theatro, o compositor que ouve cantar na rua a musica que fez publicar, emfim o pintor que vende o seu primeiro quadro, eis os homens mais felizes da terra! pois bem! eu sou d’esse numero... acabo de vender o meu primeiro quadro.
—O seu primeiro? como, pois ainda não tinha feito nenhum?
Esta reflexão tão natural de Lisa faz córar Casimiro, que comprehende que a sua joven vizinha deve perguntar lá de si para si em que tem elle empregado o seu tempo, para não ter feito, na sua edade, senão um quadro. O rapaz tracta de sair do embaraço, respondendo:
—Não menina, é verdade; comecei muito tarde a pintar a paizagem, eu preferi o retrato, agradava-me isso mais.
—E agora renuncia o retrato para se dar á paizagem?
—Oh! não! renunciar ao retrato! nunca! uma coisa não impede a outra! Mas eu estava tão contente esta manhã com a venda do meu quadro, que não pude resistir ao desejo de lhe dar parte do meu bom succedimento... e depois, quando se está em maré de felicidade, dizem que sempre nos chegam muitas; então, disse commigo: Vamos vêr a minha linda vizinha; quem sabe se ella hoje quererá tambem consentir em deixar-se retratar, se não abrandarei a sua resistencia!...
—Isso fazia-o então ainda muito feliz, se eu lhe deixasse fazer o meu retrato?
—Ah! seria o auge da minha felicidade? Empregaria todos os meus cuidados, todo o meu talento n’esse trabalho! e estou bem certo de que havia de ser bem succedido, que faria uma cabeça lindissima.
—Mas esse retrato... vendia-o depois?
—Vender o seu retrato! oh! nunca, minha vizinha, nunca! conserval-o-hia toda a minha vida... mas faria uma copia para lh’a offerecer, ou, se a menina o preferisse, dar-lhe-hia o original e ficaria eu só com a copia.
—Mas o que fará o senhor do meu retrato em sua casa! ha de incommodal-o...
—Incommodar-me! pelo contrario, será o mais bello ornato do meu _atelier_, olharei para elle todos os dias, não me cansarei nunca de o contemplar. Ah! minha vizinha, consinta, por obsequio, diga que consente.
Lisa ainda hesitava, porque os olhos de Casimiro tinham tomado uma expressão que lhe causava uma commoção vivissima; mas n’este momento a enferma, que estava adormecida, accorda, dizendo:
—Lisa, dá-me uma gota d’esse vinho que me faz tanto bem.
—Sim, avósinha, d’aqui a um instante, já o não ha em casa, eu o vou buscar...
Depois, voltando-se para Casimiro, Lisa diz-lhe em voz baixa:
—Pois bem! consinto, começaremos ámanhã.
—Oh! como a menina é cheia de bondade! e quão feliz eu sou! Corro então á pharmacia a comprar-lhe o vinho quinado.
—Não, isso não, irei eu mesma.