A menina Lisa

Part 7

Chapter 74,006 wordsPublic domain

—Baixinho! tenha a bondade de falar baixo, porque minha avó está dormindo, e preciso não a acordar; esteve esta noite muito doente, muito inquieta, não socegou um instante...

Casimiro entra pé ante pé, e murmura approximando-se da rapariga:

—Menina, eu sou sem duvida muito indiscreto em vir segunda vez incommodal-a, mas não sei se lhe disse que era seu vizinho.

—Sim, senhor, disse-m’o, demais, eu já o sabia, tenho-o visto algumas vezes no predio.

—Tem-me visto, e eu não tinha dado pela menina. Onde tinha os olhos?...

—É que eu estava no cubiculo do porteiro, e depois occupo tão pouco espaço, é muito facil não me verem...

—Mas, quando alguem a vir uma vez é impossivel que não deseje tornar a vêl-a mais vezes...

Lisa não responde a isto, mas volta os olhos para o leito; Casimiro percebe que o momento é mal escolhido para lhe render finezas, e que, demais, não é para lhe fazer a côrte que elle quer travar conhecimento com a sua vizinha, mas no desejo de lhe ser util. É esse realmente o seu unico intuito? Eu por mim não respondo por isso; mas já é alguma coisa o ter boas intenções. O mancebo prosegue pois falando baixo e sentando-se n’uma cadeira que está perto d’elle:

—Perdão, minha vizinha, vou falar-lhe francamente, e espero que nas minhas palavras não verá nada que a possa offender. Soube pela pessoa que móra lá em cima, com que actividade a menina se entrega ao trabalho, para que sua avó não careça de coisa alguma; mas o trabalho d’uma mulher é quasi sempre mal retribuido, eu ter-me-hia por muito feliz se podesse offerecer-lhe o meio de ganhar mais, fatigando-se menos...

—Porque outro trabalho? eu não sei senão coser, bordar e fazer meia ou renda.

—Eu me explico: sou pintor; ensaiei alguns quadrosinhos _de genero_, mas ganha-se mais dinheiro a fazer retratos; n’isso ainda eu não sou muito forte, preciso estudar, trabalhar muito, emfim tenho necessidade sobretudo de pintar do natural, e para isso preciso de modelos. Notei que aquelle Rouflard tinha uma cabeça caracteristica, eis a razão por que fui esta manhã falar com elle. Propuz-lhe vir a minha casa servir-me de modelo; elle acceitou com alegria, e eu poderei occupal-o bastante tempo. Mas a minha sympathica vizinha, que tem uma cabeça encantadora, ah! perdôe-me este elogio, é como artista que lh’o faço, eu julgar-me-hia muito feliz se podesse reproduzir na tela as suas feições tão finas, tão suaves. Oh! estou certo de que havia de conseguir! trabalha-se tão bem quando se tem deante dos olhos um modelo que nos encanta... não lhe pedirei que venha servir-me de modelo senão quando não tiver nada urgente para fazer... acceitaria a sua hora... o seu tempo vago... e não julgaria nunca pagar bastante caro as sessões que houvesse por bem conceder-me; eis o motivo por que tomei a liberdade de abrir outra vez a sua porta e de me apresentar aqui de novo. Se a minha proposta lhe desagrada, espero, ao menos, que não verá n’isso da minha parte nenhuma intenção má.

A menina Lisa, que escutou Casimiro com muita attenção, responde-lhe logo:

—Não, senhor, não tomarei á má parte a sua proposta. Soube pelo Rouflard que trabalho para viver, para que nada falte á minha boa avó, e desejou ser-me util; não posso senão agradecer-lhe muito o interesse que se dignou tomar por mim. Mas não acceito a sua proposta; ser modelo de pintores não é a minha occupação, e tenho ouvido dizer... ao meu vizinho cá de cima, que as mulheres que consentiam em servir de modelos, não eram bem vistas na sociedade. Eu sou uma pobre rapariga, sem amparo, sem familia, não tenho pois por unica fortuna senão a minha reputação, e devo ter a peito conserval-a; tenho razão não é verdade?

Estas palavras tão simples, mas tão justas fazem viva impressão em Casimiro, que não está habituado a ouvir uma mulher falar tão discretamente. Tracta comtudo de convencer Lisa.

—Menina, convenho que o mister de modelo não dá a qualquer mulher uma perfeita reputação de seriedade, posto que em todas as profissões se possa ter bom comportamente quando ha firme vontade de proceder bem. Mas tambem eu não vinha propôr-lhe que renunciasse ás suas occupações habituaes por esta nova profissão. Podia-lhe que me servisse de modelo sómente a mim, que me permittisse reproduzir as suas feições na tela, era um favor que eu solicitava e, para a menina, uma curta distracção aos seus trabalhos. E como lhe podia parecer pouco regular ir a minha casa servir de modelo, viria eu para aqui pintar, traria para cá a minha palheta e os meus pinceis; d’esta maneira, a menina não deixaria mesmo um instante a pessoa a quem prodigaliza todos os seus cuidados. Os modelos pagam-se muito caro, desculpe-me entremetter a questão de dinheiro em tudo isto; mas na vida não ha remedio senão attender a essa questão: ora, se eu occupasse um modelo durante umas dez sessões, dar-me-hia por muito feliz se elle se contentasse em receber cincoenta francos...

—Ih! Jesus! tanto dinheiro, só por servir de modelo!...

—Sim; e quanto mais bonito é o modelo, mais caro se faz pagar, isso comprehende-se. Por isso, para achar um como a menina, em primeiro logar seria muito difficil, depois teria de o pagar por um preço muito mais elevado, e as minhas posses não me permittem uma tão grande despeza. Já vê portanto que, satisfazendo ao meu pedido, era a mim que a menina obsequiava, era eu que lhe devia agradecimentos; mas isto desagrada-lhe, não pensemos mais em tal...

Lisa d’esta vez hesita para responder; a final murmura.

—Sinto não poder ser-lhe agradavel; parece-me entretanto que não deve ser difficil achar uma cara que valha bem a minha. Olhe, senhor, eu não conheço nada o mundo, mas creio que o céu me deu o segredo de ler no pensamento das outras pessoas: o senhor deseja ser-me util e tracta de me persuadir de que eu é que lhe prestaria serviço. Ah! isso é bem generoso da sua parte... confesse que adivinhei.

Casimiro está muito admirado da perspicacia da rapariga. Não pode deixar de sorrir, balbuciando:

—Confesso que me espanta, menina; a sua linguagem annuncia mais educação do que de ordinario se recebe na posição precaria em que a vejo. Não tem mais parentes senão essa pobre enferma, diz a menina; mas aquelles que perdeu occupavam então uma posição mais afortunada; perdão, sou talvez demasiadamente curioso?

—Oh! eu não tenho motivo para me rodear de mysterios! não conheci nunca meus paes; abandonaram-me muito cedo aos cuidados d’uma ama, depois esqueceram-se de mim completamente.

—É possivel! pobre creança! mas essa velhinha que ahi está?...

—Chamo-lhe avó, mas não me é nada; era mãe de minha ama. Essa chamava-se Catharina Vauger; queria-me muito, e o que mais receiava era o momento em que teria de separar-se de mim para me entregar á minha familia; ficou pois bem contente quando lhe enviaram uma forte quantia, dizendo-lhe: «Saia da sua aldeia, fique com a creança; em vez do nome que ella tem, chame-lhe _Lisa_ unicamente; mas vá para Paris, para a morada que aqui se lhe indica, estabeça-se, e arranje uma lojita, que alguem terá o cuidado de a indemnisar das despezas que fizer com a menina.» A minha ama acabava de perder o marido. Partiu para Paris, trazendo comsigo a mãe, que alli está, n’aquella cama. Durante algum tempo recebeu pelo correio certas quantias para mim, depois, de repente isso acabou, não se ouviu mais falar em coisa alguma!...

—Mas a sua ama sabia sem duvida o nome da pessoa que lhe escrevia?

—Não, as cartas não vinham assignadas; nunca mesmo lhe tinham dito o nome de minha mãe...

—É completamente um romance!...

—A minha boa ama pouco se inquietou com isso; tinha emprehendido um negociosinho de leite e de queijos que corria bem. Assim que fiz seis annos, mandou-me á escola; depois, um pouco mais tarde, a um collegio semi-interna, porque ella não queria nunca separar-se de mim mais de meio dia. Querida e boa ama! queria-me mais que uma mãe! visto que a minha me abandonára. Vivemos assim muito felizes durante alguns annos; mas, ha quatro annos, a boa Catharina caíu doente, e, apezar de todos os meus desvelos, morreu; tinha eu apenas quatorze annos, e comtudo a minha ama recommendou-me sua velha mãe, porque ella conhecia-me, sabia que eu tinha coragem, e a firme vontade de reconhecer pelo meu trabalho tudo o que tinham feito por mim. Durante os primeiros tempos, para vivermos, minha avó e eu, fomos obrigadas a trespassar o estabelecimento da minha ama. Eu procurava trabalho, mas não o podia obter, achavam-me muito nova para m’o confiarem, e quando minha avó o pedia, achavam-n’a muito velha. A final, a Providencia veiu em nosso auxilio, e eu pude ganhar a nossa vida. Mas, ha um anno, a minha pobre companheira ficou meia paralytica, já o senhor vê que tenho razão para trabalhar sem descanço e para velar constantemente pela pobre velha que não tem mais ninguem para a tractar.

—O que me acaba de dizer, não tem feito mais que augmentar o interesse que me inspirava, e perdôe, se torno ainda a falar n’isto, o desejo que sinto de lhe ser util. Pobre pequena, abandonada pelos paes, que vivem talvez na abastança e podem ter todos os gozos que a riqueza proporciona, emquanto que a menina...

—Asseguro-lhe que nunca penso em tal, não choro senão a minha ama, a minha unica mãe! e que me queria tanto! Não tenho resentimentos contra meus paes por me haverem deixado com ella. Nem minha mãe nem meu pae me teriam de certo tractado melhor.

—A menina tem muita philosophia, dou-lhe por isso os meus parabens: outras, no seu logar, forjariam mil chimeras.

—Oh! eu não! não penso senão no meu trabalho.

—E sempre me recusa o favor que lhe peço de me deixar tirar o seu retrato, vindo eu aqui?

—Certamente; d’essa maneira, é muito mais decoroso; mas não importa, não quero servir de modelo.

Casimiro suspira e levanta-se dizendo:

—Vamos, vejo perfeitamente que nada pode vencer a sua repugnancia. Não devo por insistir mais; mas, no emtanto, se por acaso mudar de parecer, eu estarei sempre prompto com a palheta e os pinceis, e a menina não tem senão uma palavra a dizer, para me ver aqui immediatamente.

—Muito agradecida.

—Demais, se me dá licença, virei eu proprio saber da saude da sua doente, a menina permitte-me, não é verdade?

A menina Lisa faz-se córada, hesita, mas este pedido era-lhe feito com uma voz tão meiga, este rapaz tem mostrado por ella tanto interesse, mostra-se tão respeitoso, tão delicado, e depois não é um estranho qualquer, mora no mesmo predio, e o porteiro nunca disse d’elle senão bem; tudo isto decide, a rapariga a pronunciar um sim, que enche de alegria o seu vizinho.

Casimiro então torna a agradecer a Lisa a permissão que ella acaba de lhe conceder, depois despede-se e retira-se em bicos dos pés, sem fazer bulha, de modo que a doente não accorda.

O nosso mancebo, ao entrar em sua casa, sente-se cheio de ardor para o trabalho; dispõe a sua tela, e prepara a palheta e os pinceis. Os bons exemplos fazem muito mais effeito que os bons conselhos, no que ha a differença da practica á theoria; escuta-se muitas vezes com indifferença, e esquece-se mesmo o que se ouviu; mas nunca se olvida o que se viu. Tem razão o proverbio que diz: Um olho vale mais que dez ouvidos:

O joven pintor aguarda impaciente a chegada de Rouflard para se pôr ao trabalho; mas passa-se o tempo e o modelo não apparece. Casimiro começa a pensar que fez mal em pagar adiantado ao inquilino da agua-furtada, que é capaz de gastar tudo quanto recebeu, antes de pensar em cumprir a sua promessa.

Mas não tarda que se ouça um grande arruido de vozes; grita-se, ralha-se no patamar, e a voz de Rouflard cobre muitas vezes todas as outras. Casimiro quer saber o que se passa, corre a abrir a porta e vê no seu patamar a familia Proh á briga com o seu futuro modelo.

O sr. Proh e sua mulher parecem muito exaltados; Rouflard está apenas um pouco «electrizado...»

—Sim, senhor, grita o sr. Proh, que tem effectivamente alguma similhança com um chimpanzé; eu tinha direito para o chamar a uma policia correccional pelo que o senhor escreveu por cima da minha porta...

—Ah! ah! ah! o senhor faz-me rir com a sua policia correccional, faça-me ir ao tribunal, isso ha de divertir-me...

—Pelo menos ha de ir á presença do juiz de paz! diz Celeste Proh, porque o senhor insultou-me, chamando-me sr.ª _Profanée_!...

—Insultei-a! com a breca! a senhora é difficil de contentar! comparo-a com uma flor. Quando uma flor está meio murcha, diz-se que está _fanée_... concedo-lhe que é uma rosa _fanée_... e zanga-se com isso... eu podia-lhe ter posto: a sr.ª _Probléme_... a sr.ª _Profile_... um reles algodão...

—Cale a bocca, insolente! meu vizinho, faço-o juiz d’esta questão: o senhor leu sem duvida o que este homem tinha escripto com giz por cima da nossa porta?...

—Não, minha senhora, não reparei...

O rapazito põe-se a gritar:

—Era: A menina _Pronobis_, a sr.ª _Profanée_...

—Cale-se, Affonsinho, não é preciso repetir essas coisas feias, visto que o nosso vizinho não as leu...

—O sr. _Professe_! eu sou o menino _Propice_...

—Cale a bocca. Fonfonso!... vá já para casa...

—Não quero...

—E porque é que me pôz a mim o sr. _Professe_?... O que entende por esta locução? exclama o falso chimpanzé muito zangado.

—O que entendo? oh! essa é boa! Pois não é difficil de adivinhar! É verdade que talvez isso lhe não aconteça já!

—Senhor, hei de ter uma satisfação de todas essas offensas!...

—Quer que eu lhe dê uma satisfação? Estou prompto, um duello! agrada-me a proposta; logo cá lhe mandarei o meu creado, para o senhor ajustar com elle as condições do combate, acceitarei a arma que escolher, isso para mim é indifferente! bato-me com tudo quanto se quer, mas o florete é a arma das pessoas de distincção...

—O que é que diz? um duello! este homem propõe-me um duello, creio eu... que desaforo! atrever-se a suppôr que iria medir-me com elle! tem graça!...

—Medir-se, meu caro amigo! oh! não com um metro! o senhor é uma grande vara, e eu não tenho senão tres pollegadas e meia, a vantagem seria toda sua! mas Chausson, o meu antigo _groom_, nos emprestará duas espadas de guarda nacional, ou dois páus de vassoura, á sua escolha. Convem-lhe isto, sr. _Pro... rata_?

—Sr. Casimiro, peço-lhe que diga a este homem que se cale, aliás não respondo pelo que acontecerá...

—Não te faças fanfarrão, _Professeur_! olha que te vou á figura...

—Sr. Rouflard, vê-se perfeitamente que almoçou bem de mais, não é isso que me tinha promettido. Esquece-se de que tem de vir a minha casa servir-me de modêlo, e que estou á sua espera?...

—Ah! é verdade, tem razão, desculpe, meu pintor, eu ia a sua casa, para que me tomou esta gente o caminho?...

—Sr. Proh, e minha senhora, peço-lhes que não tomem a sério os gracejos de máu gosto que este homem se atreveu a proferir, elle bebe de mais algumas vezes para esquecer a sua miseria, devemos ser indulgentes com os desgraçados, prometto-lhes que não tornará mais!...

—Ah! sr. Casimiro, é só em attenção ao senhor!

—Vamos, Rouflard, vamos para o nosso trabalho...

—Já vou, meu Miguel Angelo, meu Raphael. Familia Proh... tornaremos a ver-nos...

—Venha, Rouflard, venha d’ahi...

—Vamos lá fazer de modelo _Pro Deo e pro patria_!... É bonito isto! _Pro-deo_...

Casimiro faz entrar o modelo em sua casa, e a familia Proh retira-se tambem do patamar, depois de ter tido o cuidado de apagar o que restava de giz por cima da porta.

IX

Uma colhér de prata

Não é sem custo que o joven artista consegue do seu modelo que se deixe pôr em posição, e principalmente que se não mecha depois de adoptada emfim a sua attitude. A final Rouflard aquieta-se; demais, Casimiro permitte-lhe conversar e elle usa da permissão. O antigo seductor tem-se feito muito loquaz com a edade; gosta de falar dos seus triumphos passados e enfeita as suas recordações de reflexões que são ás vezes picantes. Rouflard não é falto de espirito; este homem possuia tudo o que é preciso para fazer caminho no mundo, e foram todas as suas vantagens que o perderam.

Casimiro ouve o seu modelo contar-lhe os seus triumphos com as damas, mas em breve conduz a conversação a um assumpto que o interessa mais. É da menina do quinto andar que elle gosta muito de ouvir falar!

—Mora ha muito tempo n’este predio sr. Rouflard?

—O senhor é muito delicado em dizer morar, meu Raphael; estar empoleirado é que devia dizer. Emfim não importa; ha seis mezes que o occupo, aquelle buraco, e confesso que nunca lá tive vontade de cantar: «Como se está bem n’uma agua-furtada aos vinte annos!...» É verdade que já não tenho vinte annos; mas, ainda que os tivesse, não seria nunca da opinião de Béranger. Mas isto de poetas, em o pensamento sendo original é o sufficiente! Bem se importam elles com a verdade!

—E quando o senhor veiu morar cá para cima, já a menina Lisa aqui habitava com a avó?

—Sim, já cá estava, mas havia pouco tempo, pelo que tenho ouvido dizer.

—O senhor está no caso de saber quando ella recebe as suas visitas.

—Visitas! em casa da Lisa! oh! nunca! que eu saiba, nunca a nossa visinha recebeu ninguem de fóra. Só a sr.ª Proh é que lá subiu uma ou duas vezes com o filho, para levar trabalho. O garoto não cessava de gritar: que feio que é isto aqui! e, como queria ralar a paciencia á pobre da avó, Lisa pôl-o fóra de casa. Emquanto á senhora _Pro-tocole_, essa não se fartava de dizer á rapariga: «Eu não poso pagar isto por doze soldos, é muito caro, não dou senão dez.» E tantas vezes o repetiu, que Lisa respondeu-lhe: «Dê a senhora o que quizer...» Pobre pequena! regatear por dois soldos, a quem trabalha dia e noite para sustentar a avó! é uma acção digna da sr.ª _Pro-fanée_!...

—Volte a cabeça um pouco mais para a esquerda. Muito bem, faça por conservar essa posição...

—Está satisfeito commigo?

—Sim, senhor, não se põe mal... isto hade ir...

—O senhor está pintando o meu retrato para o mandar á exposição?

—Talvez, se me sair bom.

—Em todo o caso, ha-de-m’o dizer, não é verdade? porque eu não desgostaria de me ir contemplar.

—Sim, sim, mas ainda lá não chegámos. Sabe o sr. Rouflard quem eu estimaria bastante ter por modelo?

—Ora! aposto que adivinho? é a menina Lisa que o senhor quereria retratar!

—Exactamente, teria grande prazer em reproduzir na tela as bonitas feições d’essa interessante rapariga!

—Pois bem! quem é que lh’o impede!

—Perguntei á nossa visinha se consentiria em me deixar tirar-lhe o retrato, e ella recusou-se!

—Ah! recusou! Aposto que foi para não deixar a avó sósinha tanto tempo?

—Mas, como eu tinha comprehendido isso, propuz-lhe ir eu a sua casa com os pinceis e a palheta, de modo que poderia ella servir-me de modelo sem se afastar um momento da sua pobre doente...

—Oh! isso era bonito da sua parte! E ella ainda recusou?

—Sim, recusou sempre. Tenho dobrada pena com essa recusa, porque a menina Lisa trabalha muito e ganha pouco...

—Acredito! sobre tudo se trabalha para a sr. Proh...!

—Emquanto que consentindo em me servir de modelo teria ganho muito mais, e mesmo sem que isso lhe fizesse largar o seu trabalho habitual. Ter-lhe-ia proporcionado alguns regalos, poderia comprar para a sua doente coisas que ella por falta de dinheiro não lhe pode agora offerecer. Pois eu não tinha razão, Rouflard?

—Tinha cem vezes, mil vezes razão! e não sei por que ella recusou!

—É que tem medo de se comprometter; tem ouvido dizer que as mulheres que servem de modelo aos pintores não gozam de boa reputação.

—De ordinario não são nenhumas vestaes! mas quem necessita de trabalhar para viver, não se deve prender com isso! A susceptibilidade de Lisa é exagerada! Esteja descançado, meu pintor, o senhor só tem boas intenções, só quer fazer bem á pequena, fazendo ao mesmo tempo um bonito estudo; indo pintar em casa d’ella deante da avó, tira todo o pretexto á maledicencia. Farei comprehender isso á minha boa vizinha, estou convencido de que a hei-de resolver a deixar-se retratar!

—Devéras! acha que vencerá a sua resistencia?

—Com toda a certeza! tenho vencido outras mais fortes. Triumphar das mulheres era a minha profissão! É verdade que empregava para isso meios de que não usarei com a menina Lisa; resta-me, porém, a minha eloquencia, e o desejo que tambem tenho de ser util áquella que nunca me recusou um boccado de pão. Será talvez a primeira vez que prestarei serviço a uma mulher, isso ha de fazer-me mudar.

Para primeira sessão, Casimiro não quer fatigar muito o seu modelo, e ao cabo de duas horas, conhecendo que Rouflard começa a sentir formigueiros nas pernas, diz-lhe:

—Basta por hoje.

—Devéras! põe-me em liberdade! Pois bem! gosto d’isso, porque principiava a sentir uma especie de caimbras nas pernas, falta de habito, já se vê mas hei-de-me costumar. Será preciso vir ámanhã outra vez?

—De certo; assusta-o isso, por ventura?

—Nada, pelo contrario, creio até que tomarei gosto pela coisa. Ganhar dinheiro assim não custa nada. Oh! é preciso que a nossa vizinha se preste tambem a isto, tanto mais que poderia assim dar grande prazer á avó, estou mesmo espantado de que ella não tenha pensado em tal.

—Como é isso? explique-se melhor, Rouflard; em que é que a menina Lisa daria grande prazer á sua pobre paralytica?

—Vae immediatamente perceber. Conversando algumas vezes commigo, porque eu gosto muito de conversar, sobretudo com as raparigas bonitas, é um resto da minha juventude... _desinit in piscem_... oh! eu tambem sabia latim! mas, com as mulheres, esquecia-me d’elle, ellas não gostam de linguas mortas!

—Voltemos a Lisa.

—Tem razão, eu poderia ter sido um bello advogado, porque trato os pormenores com muito cuidado. Ora, ia eu dizendo: conversando, a minha vizinha tem-me dito algumas vezes: «Ah! se eu podesse ajuntar algumas economias. Ha uma coisa que daria grande prazer a minha avó, e que eu estimaria muito poder-lhe offerecer, mas não o posso conseguir!» «O que é então, lhe disse eu, que a sua avó deseja tanto?» «É, me respondeu ella, uma colhér de prata; porque ella teve uma muito bonita n’outro tempo, em vida da minha ama, porém depois da sua morte, quando estive muito tempo sem achar trabalho, foi-nos preciso pouco a pouco vender o que possuiamos, e a colhér de prata levou esse destino. Hoje conseguimos viver, mas não posso ajuntar dinheiro para comprar outra; e ainda menos agora, que o medico receita algumas vezes remedios que são muito caros! Mas a saude está primeiro que tudo, vale mais que uma colhér de prata!...»

—Tem razão, Rouflard, essa menina, servindo-me de modelo, teria ganho em breve com que comprar o que deseja offerecer á avó.

—A não ser que o medico receite ainda algum remedio ruinoso; então, lá se ia embora todo o dinheiro! porque Lisa não regateia quando se tracta de dar allivio á pobre enferma. Mas é o mesmo, eu lhe falarei. A sessão ámanhã é á mesma hora?

—Mais cedo, ás dez horas em ponto.

—Á hora que quizer; eu sou livre como o besouro! Ah! permitte-me que veja o que o senhor fez?

—Sim, pode vêr.

—Espere, isto já não está mau, eu não sei pintar, mas tive a reputação de entender de quadros e, no tempo das minhas fortunas, comprei por vezes alguns quadrosinhos _de genero_... e ganhei sempre n’elles.

—Pois então, olhe para essa vistasinha de Bougival, que ainda não acabei...

—Vejamos; oh! é bonita, é aprazivel, tem vida! O senhor é colorista, o que nem todos os pintores são, mesmo alguns que teem entretanto muito talento. Isto que lhe digo, não é para lhe fazer um elogio banal, o senhor tem o sentimente da côr... tracte bem este quadrosinho. Olhe, eu n’outro tempo teria pago isto por trezentos francos, e ainda havia de ganhar...

—Bom, visto que esta paizagem não lhe parece de todo má, vou acabal-a. Eu faria talvez melhor o quadro _de genero_ que o retrato, não importa, tentarei as duas coisas. Até ámanhã, Rouflard.

—Sim, senhor, e não almoçarei senão depois da sessão, para me collocar em posição com mais dignidade.