A menina Lisa

Part 6

Chapter 64,067 wordsPublic domain

—Se me tornas a chamar chimpanzé, levas uma sova de açoutes que te racho! Vá estudar a sua lição de grammatica, para m’a dizer logo.

—Ora! a grammatica aborrece-me; gosto mais de recortar estampas.

—Faça o que lhe ordeno, seu patife! e não resmungue. Angelina, quando acabares o teu desenho de orelhas, espero que te lembres das minhas piugas, que estão em muito máu estado, já me queixei d’isso a tua mãe, que creio que terá attendido a minha reclamação.

—As suas piugas! Ora! ainda lhes não toquei.

—Como! pois a senhora não manda concertar a roupa? na verdade, não sei em que pensa, ou antes sei-o demasiado. É nos seus adornos, nos seus enfeites, nos seus vestidos de cauda ou sem cauda, e a roupa fica n’um estado miseravel! os meus colletes de flanella não têem botões, as camisas estão todas rasgadas, as ceroulas estão cheias de buracos; mas a senhora, comtanto que tenha um vestido á moda, não quer saber de mais nada.

—Queria talvez que eu tivesse sempre as suas ceroulas no pensamento! Ah! credo! seria bem triste!...

—O que é triste, é achar a gente as camisas rôtas na occasião de as vestir.

—Socegue, a sua roupa ha de ser concertada; mas como n’esta casa ha trabalho de mais e como eu e minha filha não podemos chegar para tanto dei tudo isso a uma costureira.

—A uma costureira! mas está a senhora bem informada a respeito d’essa costureira? ha algumas que trocam os objectos que se lhes confiam.

—Oh! não imagine que ella lhe vae trocar as piugas, o senhor está sempre com medo de que o roubem, demais, é uma rapariga que mora no predio, no quinto andar, é a menina Lisa.

—A menina Lisa! não conheço. E trabalha bem, essa menina Lisa.

—Cose como uma fada; já lhe dei que fazer, e fiquei muito satisfeita com ella, tanto mais que não leva caro, dá-lhe a gente o que quer.

—Oh! então é preciso dar-lhe que fazer muitas vezes. E essa rapariga mora sózinha lá em cima?

—Não, está com a avó, uma boa velhinha, quasi paralytica, que já não se acha em estado de fazer nada; pois bem! é a menina Lisa que tem cuidado d’ella, que trabalha dia e noite para que não falte nada á pobre velha. Oh! esta rapariga porta-se muito bem... toda a gente no predio lhe faz elogios.

—Hum! desconfio d’essas pessoas a quem todo o mundo faz elogios, isso esconde ás vezes muitas coisas, essa sujeitinha tem sem duvida namorados...

—Oh! que idéa! não fale assim deante de sua filha.

—Minha filha aprende desenho, e quando uma menina quer desenhar de modelos de gesso e copiar estatuas antigas, creio que pode comprehender o que é um namorado. Demais, a tal menina Lisa é muito ajuizada, não tem nenhum! estimo bastante.

—Sim! sim! Lisa tem um namorado! exclama o joven Fonfonso; eu bem sei! eu conheço-o...

—O que está o menino a dizer! aonde foi aprender essas coisas?...

—Ora, ouvi dizer. Não é verdade mana, que a costureirinha do quinto andar tem um namorado?...

—Deixa-me, vaes fazer com que me engane na minha orelha.

—Menina, diz por sua vez a mamã, sou eu que a interrogo; deixe por um momento as suas orelhas e responda-me. A menina sabe que Lisa tem um namorado?

—Se derem credito ás tolices que diz o mano, estão bem aviados.

—Tu é que és uma tola; bem ouviste o borrachão que mora nas aguas-furtadas dizer o outro dia na escada: Viva Lisa! viva a minha namorada! E por signal tu disseste: Ora não ha! olhem que bello namorado que a Lisa tem!

—Isso não é verdade! eu não disse tal!

—Disseste, sim!

—Não, não, não!

—Sim, sim, sim!...

—Basta, basta! _satis! satis!_ grita por sua vez Castor Proh; estes irmãos fazem-me lembrar Cain e Abel, que eu não conheci, mas cujas questões tiveram consequencias bem terriveis!

—Desde o momento em que o bebedo das aguas-furtadas está mettido em tudo isto, diz Celeste, já o senhor vê que caso se pode fazer do que acaba de dizer seu filho.

—Sim, senhora, esse bebedo, esse tal Rouflard, porque é assim que elle se chama, creio eu, esse maroto, preguiçoso, borrachão que devia ser expulso do predio. Chausson, o porteiro, tinha-m’o recommendado, pedindo-me que lhe désse alguma coisa que fazer, e dizendo-me que era um homem bem educado, que tivera desastres na sua vida. Eu accedi a occupal-o, ainda que desconfio sempre d’essas pessoas que tiveram desastres. Eu tinha justamente precisão de _rhum_ da Jamaica, a senhora não gosta, prefere o licor de herva doce, mas gosto eu. Era um dia em que a senhora jantava fora com os pequenos. Dou dinheiro ao tal Rouflard, ordenando-lhe que fosse aos _Americanos_, que é onde ha certeza de o achar bom. O homem sae d’aqui perto das quatro horas da tarde. Era preciso quando muito uma hora para fazer o recado, e ás seis horas ainda não tinha voltado. Vou-me queixar ao porteiro, receioso de que tivesse acontecido algum desastre ao seu protegido. Dão sete horas, dão oito, finalmente, ás dez horas, vejo chegar o nosso homem, borracho, bebedo, mal podendo suster-se nas pernas, e que me apresenta uma garrafa quasi despejada, dizendo com ar chocarreiro: «Aqui tem a sua garrafa de _rhum_... entornou-se um pouco pelo caminho... é que provavelmente não trazia a rolha bem apertada.» «Como! lhe dige eu, atreve-se a affirmar que a garrafa se entornou! porém ella devia estar perfeitamente lacrada! para que teve a confiança de a abrir?... foi para beber o meu _rhum_... você é um maroto!... um patife!...» Em vez de se desculpar, de me pedir perdão, o tal Rouflard diz-me a modo de injuria: «Se não está contente, vou beber o resto!...» Effectivamente, deixei-lhe o resto; mas dei os meus agradecimentos ao porteiro, e, repito, um tal bebedo não devia continuar a viver no predio.

—Ora adeus! o Rouflard não tem medo de vossemecê, papá Chimpanzé, não, Chimpanzé não... papá Castor...

—Então o menino conversa com esse homem? Fonfonso, prohibo-o que lhe fale, não quero que aprenda máus costumes.

—Não sou eu que lhe falo, elle é que me diz sempre tolices quando passa.

—Não lhe responda, encerre-se no seu foro intimo.

—Não entendo, papá.

—Quero dizer que não dê attenção ao que lhe diz esse bebedo.

—Ora! mas diverte-me, faz-me rir, hontem pela manhã disse-me: Porque é que teu pae não põe o seu nome por cima da porta? é uma coisa que sempre se faz para os artistas.

—O que, Fonfonso! esse homem tem a petulancia de te tractar por tu! Que insolencia!

—Eu não lhe posso obstar...

—Deves-lhe dizer: Olhe que eu nunca guardei perús com o senhor.

—E elle responder-me-ha: Mas já os guardaste com o teu pae.

—Ah! esse tal Rouflard queria que eu puzesse o meu nome por cima da porta!

—Sim, senhor; até me disse: Fica descançado, pequeno, hei de eu lá pôl-o e mais o de toda a familia, é preciso que todos saibam onde hão de procurar a familia Proh...

—Elle disse-te isso! mera brincadeira, talvez...

—Ah! exclama Angelina, isto faz-me lembrar que vi hontem esse homem subir a escada com um grande pedaço de giz na mão.

—Teria elle porventura a petulancia de fazer caricaturas ridiculas por cima da minha porta!...

—Vá sempre vêr, sr. Proh, n’um bebedo tudo se deve esperar, nós ainda hoje não saímos, poderia elle ter effectuado hontem as suas ameaças sem que nós o soubessemos.

O sr. Proh sae da sala e dirige-se ao patamar. D’ahi a poucos instantes ouve-se um grito de indignação; toda a familia corre immediatamente para a escada, com grande curiosidade de saber o que pode estar escripto por cima da porta.

—Venha, senhora, venha! exclama Castor, venham todos, e vejam o que o tal Rouflard teve a pouca vergonha e a audacia de escrever por cima da nossa porta. Oh! ha para toda a gente...

Com effeito, por cima da porta tinham escripto a giz, e em grandes lettras:

A sr.ª _Pro-fanée_.

A menina, _Pro-nobis_.

O sr. _Pro-fesse_.

O menino _Pro-pice_.

VII

A menina Lisa

Depois do seu dia tão bem empregado, Casimiro não passou uma noite tão agradavel: dormiu pouco; não se lhe tira da idéa a historia d’aquelle pobre diabo que estava deitado na rua e que chama seu creado ao porteiro; obriga-o a fazer reflexões que não são côr de rosa; o rapaz, sem todavia se collocar no mesmo nivel que o tal Rouflard, diz comsigo que um homem é infinitivamente despresivel quando vive á custa d’uma mulher.

O resultado d’estas reflexões é uma resolução, firmissima d’esta vez, de se entregar ao trabalho, e, como a pintura é a unica habilidade que possue e que pode utilizar, promette a si mesmo tornar a pegar nos lapis e nos pinceis e tractar de adquirir, trabalhando, o que ainda lhe falta para se arrojar a fazer um retrato do natural; demais, jura tambem não dizer nada a Ambrosina das suas novas intenções.

O que é indispensavel a um pintor de retratos, é um modelo. Bem sabe Casimiro que a sr.ª Proh estimaria bastante prestar-lhe esse serviço; mas o rapaz, antes de fazer o retrato d’esta senhora, quereria exercitar-se com outro modelo. Lembra-se do que lhe disse o porteiro a respeito de Rouflard, e por isso, logo depois de haver tomado a chicara de café que o Chausson lhe traz todas as manhãs, Casimiro sobe a escada para se dirigir a casa de Rouflard.

A escada era alta. Chegava ao quinto andar, onde não ha senão quartos occupados em grande parte pelas creadas do predio, Casimiro pára a fim de tomar folego, e olha depois em torno de si. Acaba alli a escada; o porteiro porém disse-lhe que o seu antigo amo habitava n’uma agua-furtada, no sexto andar, e elle não vê o minimo rasto de escada.

N’isto ouve-se uma voz de mulher, muito suave, muito juvenil, cantando como se embalasse uma creança. O quarto d’onde sae a voz tem a chave na porta. Casimiro decide-se a entreabrir essa porta para perguntar por onde se sobe ao sexto andar.

Vê uma casa modestamente mobilada, poderia mesmo dizer-se mobilada pobremente; no fundo está um leito bastante confortavel, com uns grandes cortinados de sarja, e quasi ao lado uma caminha, sem cortinas, que apenas se compõe d’um enxergão e d’um colchão muito pobre, de lã; depois ha uma commoda de nogueira, uma meza, algumas cadeiras, um pequeno espelho sobre a chaminé, tudo o que é indispensavel, o strictamente necessario e mais nada; mas isto tudo está arranjado com um cuidado e um aceio que dessimulam em parte a pobreza.

No leito está uma velha deitada; mas ao pé da meza ha uma rapariga sentada a coser. Casimiro fica pasmado á vista d’esta joven, cujo trajo é bem simples, bem modesto, mas cujo semblante agrada logo pela expressão meiga e engraçada dos seus lindos olhos, pelo encanto do seu sorriso, emfim por essa sensação, difficil de analysar, que experimentamos á vista d’uma pessoa que nos é desconhecida, mas que nós voltamos para vêr ainda muito tempo quando o acaso nol-a faz encontrar.

—Perdão, menina, diz Casimiro conservando-se junto da porta que acaba de abrir. Sou indiscreto. Incommodo-a talvez. Mas, se bem que morando n’este predio ha já muitos mezes, conheço pouco as localidás. Procuro um individuo que mora no sexto andar, pelo que me disse o porteiro, mas esse sexto andar não dou com elle... não sei por onde se sobe para lá...

A rapariga sorri-se respondendo:

—Effectivamente, quando se não conhece bem este patamar, é difficil dar com a escada que vae para cima... Mas, olhe, alem ao fundo a parede faz uma quina, é de traz d’essa quina que o senhor achará uma escada muito estreita, que vae ter ao sexto andar, é tão estreita que, se o senhor fosse gordo, não caberia por ella!...

—Provavelmente o senhorio não quer que os inquilinos carreguem a casa demais, responde Casimiro rindo.

—Oh! não ha senão um inquilino... um homem que está muito mal lá em cima!...

—Como parece que está sempre embriagado, pode tomar a agua-furtada por um palacio.

—Acha que sim? Pobre Rouflard! mas elle não está sempre embriagado, felizmente está mais alegre quando se acha em jejum do que quando tem bebido... Ah! perdão, senhor, minha avó está-se voltando na cama... Creio que quer alguma coisa... perdão...

A rapariga faz-lhe uma mesura. Casimiro comprehende que deve retirar-se; agradece outra vez á sua formosa visinha e torna a fechar a porta, dizendo comsigo:

—Como! pois eu tinha uma visinha tão encantadora, e nem suspeitava de tal coisa! Em Paris mora a gente annos n’uma casa e não conhece as pessoas que habitam na mesma escada, não as encontra nunca! É que esta rapariga é deveras encantadora; feições finas e suaves ao mesmo tempo, bonitos olhos, cabello preto como ebano, uma boquinha amavel; que delicioso modelo que isto faria! Vive com a avó; ellas não parecem ser muito ricas... é preciso que me informe. Vamos, procuremos a escada por onde se sobe a casa de Rouflard. Ah! creio que achei... effectivamente é muito estreita! é uma escada de moinho! uma saia de balão não cabia por aqui.

Casimiro, conforme pode, sobe a escada, que não tem corrimão, mas segura-se a gente á parede dos dois lados. Chega a uma especie de patamar que tem tres portas; duas estão abertas de par em par, a do centro está fechada, mas simplesmente com o trinco. É necessariamente alli que deve morar o sujeito que na vespera se tinha deitado na rua. Casimiro levanta o trinco, abre a porta, e fica muito espantado do quadro que se lhe apresenta deante dos olhos; mas d’esta vez não é enlevo o que a sua physionomia exprime.

N’uma agua-furtada que tem doze pés quadrados, e que recebe a luz de uma trapeira construida no tecto, está um homem estendido em cima d’um montão de palha que sustenta uma especie de colchão feito de aparas; um cobertor de algodão, negro de immundicie e esburacado em muitos sitios, é tudo o que tem para se cobrir; ausencia total de lençoes; serve-lhe de travesseiro uma acha redonda, que, para ser menos dura, está coberta de velhos cartazes de espectaculos, que provavelmente foram arrancados das esquinas. O homem que dorme alli não deve nunca despir-se completamente; mas como se está no verão, tirou o paletot e o collete. Tem na cabeça uma velha cassarola de lata sem cabo, a qual lhe serve de barrete de dormir.

Junto d’esta miseravel cama está uma cadeira côxa servindo de meza de cabeceira, em cima da qual se vê uma terrina de porcelana rachada e quebrada em muitos sitios. Aquella terrina, que talvez outr’ora teve dentro saborosas sopas, está reduzida a um emprego bem humilhante! _Sic transit gloria mundi!_ Ha fato espalhado pelo meio do chão. Sobre uma tábua pregada no tabique estão alguns boiões de pomada, um pente, um cangirão, uma garrafa, um cachimbo e um pedacinho de espelho.

Quando o rapaz abre a porta, o sujeito que estava deitado dorme, tem a cara voltada para a parede, e a chegada de Casimiro não parece tel-o accordado; por isso este ultimo pode muito á vontade examinar o sitio em que se acha, e é o que elle faz, porque para um pintor _de genero_ havia alli assumpto d’um quadro original e curioso.

Mas, depois de ter visto e revisto tudo, o que não podia levar muito tempo, Casimiro decide-se a levantar a voz para despertar o dorminhoco:

—Olá!... ó senhor!... sr. visinho! não se lhe poderia dar uma palavra?

Rouflard volta meio corpo, resmungando:

—O que é? que me querem? não estou cá! vão para o diabo! não pode um homem dormir socegado n’este cochicholo!...

—Perdão, sr. Rouflard, pelo ter accordado, mas são mais de dez horas, pensava encontral-o já levantado.

—Eu levanto-me tarde, porque gosto de estar deitado, e nada tenho de melhor a fazer do que dormir. Ah! se o senhor me paga o almoço, isso é differente...

—Talvez que sim; e se lhe não offereço d’almoçar, posso dar-lhe com que possa arranjar um almoço muito decente.

A estas palavras, Rouflard volta-se de todo, senta-se na cama, tira a cassarola que lhe serve de barrete de dormir, esfrega os olhos, e exclama:

—Oh! mas então o caso é differente; isso é que são palavras bem pensadas; espere, eu creio que o estou reconhecendo, é o sr. Casimiro Dernold, mora cá no predio, no terceiro andar...

—Exactamente, ah! o senhor sabe o meu nome!...

—Foi o meu criado que me deu estas informações. Chausson, o nosso porteiro, que foi n’outro tempo meu servo, e que queria hontem á noite deixar-me dormir na rua; porque, agora me lembro muito bem, se não fosse o meu nobre visinho, era a soleira da porta da rua que me serviria de cama! Aquelle tratante do Chausson!...

—Se me dá licença, não foi hontem á noite, foi esta madrugada que tudo isso aconteceu, porque era muito mais de duas horas quando eu vim para casa...

—Pois bem! ainda que fossem quatro! Por ventura as pessoas finas, as pessoas da boa sociedade deitam-se como as gallinhas! Já não tenho com que ir cear á _Maison d’Or_, é verdade, mas posso sempre passear no _boulevard_ dos Italianos emquanto isso me der prazer! e Chausson é um maroto! vinga-se dos sôcos que lhe dei n’outro tempo. Ahi está o que são os homens! para conhecer os seus defeitos dêem-lhes a riqueza. Creio que foi Larochefoucauld que disse isto, ou alguma coisa equivalente.

—O senhor tem instrucção, sr. Rouflard, como é que não tem achado em que se empregar convenientemente?

—Empregar-me! empregar-me. Ah! o vizinho tem graça! é por não ter querido nunca empregar-me que durmo hoje em cima d’uma pouca de palha! Mas não façamos recriminações! o senhor ficou em me dar com que almoçar, isso cahiria do céu, porque não tenho um soldo, e em compensação tenho grande appetite; a tudo isto accresce que não tenho já credito em parte nenhuma!...

—Mas, se o senhor não quer empregar-se, vae talvez rejeitar a minha proposta?...

—Conforme! se é coisa que não dê muito trabalho...

—Oh! não dá trabalho nenhum; tractava-se de vir a minha casa servir-me de modelo, quatro ou cinco horas por dia.

—Servir de modelo... para a cabeça?

—Naturalmente, oh! eu não quero senão o seu busto, a cabeça e as mãos.

—Bravo! isso convem-me, oh! convem-me muito! quando quer principiar?

—Hoje mesmo, esta manhã, se o senhor poder?

—Eu posso sempre... todavia...

—Todavia precisa almoçar, comprehendo isso! Tome, aqui tem dez francos adeantados sobre o seu trabalho; vá almoçar, depois venha a minha casa, que eu vou preparar a palheta.

Rouflard levanta-se muito expedito, recebe os dez francos com uma cara radiante, e enfia logo o collete e o paletot, dizendo:

—Ha muito tempo que não tenho um despertar tão bonito. Vamos entrar na extravagancia de comprar uma pouca de pomada de baunilha, para fazer honra ao nosso pintor...

—Não faça despezas de toucador por minha causa, acho-o muito bem assim como está.

—Que bondade a sua. Ah! se me houvesse conhecido outr’ora, nos meus bons tempos! então é que o meu retrato e a minha pessoa eram disputados; mas outros tempos, outros cuidados!

—Perdão, sr. Rouflard, uma outra pergunta, que vae talvez parecer-lhe indiscreta.

—Pergunte á vontade, não faça ceremonias.

—O senhor disse ahi ha pouco que não tinha nem um soldo, e que não queriam já dar-lhe nada fiado. Se não tivesse recebido a minha visita esta manhã, como é que havia de almoçar?...

—Como? ah! sim, comprehendo que isso lhe pareça difficil de resolver! é que o senhor ignora que ha um anjo n’esta casa...

—Um anjo?

—Sim, senhor.

—No predio?

—Sim, n’esta mesma escada, não falo da que vem ter a esta agua-furtada, mas cá por baixo, no quinto andar, n’um quarto muito modesto, mas que parece um palacio em comparação d’este chiqueiro, mora uma rapariga que pode ter dezoito annos, creio, e uma velha a quem ella chama sua avó. A rapariga chama-se Lisa, a menina Lisa, como toda a gente a conhece; é baixinha, é verdade, mas tão bem feita, tão graciosa... e uma cara!... linda a mais não poder ser! Oh! nos meus bons tempos vi bastantes mulheres bonitas! e mulheres que faziam furor, que viam a seus pés tudo o que havia de melhor no _turf_. Pois bem, digo-o francamente, a menina Lisa vale mais que todas ellas...

—Vi ha pouco essa rapariga, foi a ella que me dirigi para dar com a sua escada, pareceu-me, com effeito, muito interessante.

—Interessante! oh! isso é pouco; ella é mais que interessante! e depois um coração! uma bondade! quando estou completamente á divina, como eu lhe dizia ainda agora, é ella que me soccorre. Um dia, havia eu parado deante da sua porta, que estava aberta, tinha fome, e arrisquei-me a dizer-lhe: «Minha vizinha, não terá por ahi um boccado de pão que me dê? não tenho migalha em casa.» «Tem fome!...» exclamou ella, e correu logo ao armario a buscar-me pão e um pedacito de queijo, que me offereceu, dizendo-me: «Tome, não lhe posso dar mais nada, não tenho vinho...» «Oh! isto é bastante, lhe disse eu, e a menina é um anjo de bondade!» ella accrescentou: «Quando lhe faltar pão, venha pedir-m’o, não se constranja, é-nos preciso tão pouco a mim e a minha avó, que sempre tenho de sobra.» Aqui tem o senhor por que eu chamo a essa rapariga um anjo; vê que tenho razão, faço por não abusar da sua bondade, mas algumas vezes, mesmo muito amiude, vejo-me obrigado a recorrer a ella... então que quer o senhor? parece que estava no meu destino o ser sustentado pelas mulheres; por isso chamo á menina Lisa a minha namorada. Mas d’esta vez é honestamente! respeito essa pequena, tanto quanto a estimo; faço mais, escuto os seus conselhos, ella ralha commigo ás vezes, quando venho para casa bebedo...

—Mas não segue esses conselhos?

—Não sigo, é verdade; ainda hontem me emborrachei... que quer! a força do habito. Tambem, quando estou bebedo, não ha perigo que eu pare para conversar com Lisa; pobre pequena! a sua bondade para commigo é tanto mais meritoria, que ella trabalha sem descanço para sustentar sua avó, que está paralytica, algumas vezes á meia noite, á uma hora, sinto-a a trabalhar ainda... e então grito-lhe: «Vizinha! isso é de mais, velar até tão tarde, vá descançar, olhe que pode adoecer com tanto trabalho!» Ella responde-me alegremente: «Não, não! o meu divertimento é coser; depois, não tenho somno.» É realmente extraordinario que n’uma rapariguita haja ás vezes mais coragem para o trabalho do que em cinco ou seis homens robustos com eu!

Casimiro tem escutado mui attentamente tudo o que Rouflard lhe tem dito da menina Lisa. Isso ainda lhe dá que reflectir. Mas Rouflard, que acabou de vestir-se, faz tinir os dez francos que tem na mão, e diz-lhe:

—Perdão, meu caro vizinho, mas a fome aperta commigo, eu não o ponho fóra... o senhor pode ficar aqui se se diverte com isso, eu porém peço licença para me ir confortar.

E, sem aguardar a resposta do rapaz, Rouflard sae pela porta fóra e desce rapidamente a escada, escutando apenas a Casimiro, que lhe grita:

—D’aqui a uma hora... em minha casa!... não se esqueça!...

VIII

Travam conhecimento

Casimiro desce a escada muito devagar atraz do inquilino da agua-furtada, não porque tenha receio de cair, mas porque está muito preoccupado com o que Rouflard lhe contou ácerca da rapariga que mora no quinto andar, que trabalha toda a noite para sustentar a avó, e acha ainda meio de ser util aos que carecem de pão.

Chegado ao patamar do quinto andar, o nosso mancebo pára deante da porta da menina Lisa; estimaria bastante que aquella porta estivesse aberta, mas não acontece assim; é verdade porém que a chave está ainda na fechadura, o que annuncia que se não receia vísita importuna. Casimiro está morto por tornar a vêr a rapariga de quem se lhe fez tão grande elogio, diz de si para si que ha pouco não lhe agradeceu bastante a indicação que ella lhe dera, accrescenta ainda que entre visinhos não deve haver muita cerimonia, que de mais esta menina não tem muito trabalho para ganhar dinheiro pela sua agulha, e que se elle podesse ser-lhe util arranjando-lhe que fazer, n’isso lhe prestaria um grande serviço. Emfim dá a si mesmo uma infinidade de razões para ter o direito de abrir a porta, e é o que faz.

Lisa continuava trabalhando, mas já não cantava; tinha o parecer triste, e dirigia especialmente a vista para o leito, onde a velha estava deitada, depois dava um profundo suspiro. Ao vêr entrar de novo Casimiro em sua casa, as suas feições exprimem a sua surpreza; mas, quando o rapaz vae para falar, ella põe um dedo na bocca, e diz-lhe a meia voz: