A menina Lisa

Part 4

Chapter 44,035 wordsPublic domain

—De certo que não, minha senhora, terei até muita honra n’isso.

—Ah! lá me esqueciam as luvas...

Emquanto a sr.ª Montémolly vae ao fundo da sala buscar as luvas, diz Miflaud em voz baixa a Casimiro:

—Com ella não será a coisa tão divertida!

—Tu é que tens a culpa, imbecil! responde Casimiro; se tivesses entendido os meus signaes, ella teria acreditado no duello, e deixava-me sair comtigo.

—Mas... se eu não sou forte em mimica!

Ambrosina volta calçando as luvas e parte com os dois rapazes. Casimiro faz quanto pode para occultar o seu mau humor; a sua amante olha para elle, com ar meio ironico e meio de ameaça.

IV

Um almoço em intimidade

No dia seguinte, depois do meio dia, Casimiro está em casa da amante, sentado a uma mesa sobre a qual se acha servido um magnifico almoço, defronte da sr.ª Montémolly, com quem elle fez as pazes n’essa mesma noite do baile Mabille, que se passou sem nova scena de ciumes. Miflaud, como não podia deixar de entregar-se á sua paixão pela dansa, teve de largar o braço de Ambrosina, a qual, naturalmente, tomou o de Casimiro; mas este, que não tinha a menor propensão para o _cancan_, ainda o mais burguez, contentou-se em ver Miflaud fazer prodigios de destreza e de audacia, executando a _tulipa tempestuosa_ e outras dansas em voga nas quadrilhas excentricas; depois, enternecido emfim pelos suspiros que dá Ambrosina apertando-lhe o braço, pelos olhares ardentes que succederam aos que ella a principio lhe lançava, por estas palavras: «Então já me não amas?» que são pronunciadas com uma voz quasi supplicante, elle responde meigamente á pressão do braço, olha para ella sorrindo, e está feita a paz. Não é talvez uma paz bem solida, bem duravel, mas emfim é uma reconciliação.

A sr.ª Montémolly está com um lindo trajo caseiro de manhã, que dá muito realce aos seus contornos bem pronunciados; na cabeça não tem mais enfeites que os seus lindos cabellos, muito negros e espessos, que ella propria sabe arranjar de maneira que harmonisem com a sua physionomia, talento que nem sempre possuem os artistas cabelleireiros, que nos penteiam a seu modo, sem se importarem que o penteado fique bem ou mal á nossa cara.

Ambrosina é ainda uma mulher muito seductora e que muitos homens se julgariam felizes de conquistar; mas, n’este momento é ella que parece procurar agradar ao seu amante, prendel-o em novas cadeias, emfim captival-o ainda mais. Estão trocados os papeis: é a senhora quem faz a côrte, e o homem quem a recebe.

—Meu amiguinho, coma um bocadinho d’este _foie gras_, diz Ambrosina a Casimiro. Não o acha bom?

—Delicioso, optimo! mas já comi.

—Não importa. Então vae perdendo o appetite?

—Pelo contrario, tenho um appetite enorme, e parece-me que o mostro bem; faço honra ao seu almoço.

—Que tal acha este Chambertin?

—Excellente: sinto-me tentado a cantar aquella copla do _Novo senhor de aldeia_: _É um vinho dos mais excellentes!... tem dez tem doze annos!..._

—Tenho aqui um velho Madeira, de retorno da India, que o meu fornecedor de vinhos me recommendou; vae dizer-me o que pensa d’elle.

—Estou d’antemão persuadido de que pensarei muito bem; a senhora tem sempre vinhos deliciosos.

—É verdade, estou muito contente com o meu fornecedor. Coma d’esta lagosta em _mayonnaise_...

—É o que estou fazendo.

—Aqui tem azeitonas... e atum.

—Logo, logo, temos muito tempo; a senhora não tem que sahir hoje de manhã?

—Eu? ora essa! E aonde poderia eu ir quando estou com o senhor, quando o pussuo aqui, ao pé de mim, em minha casa? Ah! sou tão feliz então! queria estar sempre assim...

—Provemos uma gota d’este famoso Madeira de retorno da India. Hum! que linda côr... e como está _nif_....

—O que entende por _nif_, meu amiguinho?

—É um termo de camponio que quer dizer claro, puro. Hum! bello aroma, este não cheira a agua-ardente como todo o Madeira falsificado... Á sua saude, minha querida amiga...

Vá á sua, meu brégeiro: mas sobretudo não me prégue petas como hontem.

—Ah! quer tornar á mesma? Afinal de contas, o crime não era grande. Toda a gente vae ao Mabille, e pode-se estar lá com muito juizo.

—Sim, mas não se deve dansar como o seu amigo Miflaud; aquelle rapaz tem os ossos deslocados!

—Então que quer? elle aspira a uma reputação no genero da do famoso Chicard!

—Felizmente o senhor não gosta de dansa...

—Ainda que gostasse, peço-lhe que acredite que não seria isso razão para eu me entregar a um _cancan_ tão descabellado.

—Meu amiguinho, aqui tem salmão grelhado que ha de ser muito bom com este môlho á genebriana.

—Diabo! ainda salmão; já tenho comido muito! Emfim, tanto peior! sacrifico-me...

—Então não bebe!

—Não faço outra coisa...

—Temos aqui Champagne _rosey_; gosta, creio eu?

—Oh! eu gosto de todos os vinhos quando são bons, é como as mulheres.

—Como, senhor! gosta de todas as mulheres?...

—Perdão! é quando ellas são boas, e asseguro-lhe que não me prende isso muito.

—Ah! mau! então acha as mulheres más?

—Sim, em geral, mas ha excepções.

—É uma felicidade! e eu sou uma excepção?

—Oh! a senhora abusa da minha situação, faz-me beber uma grande diversidade de vinhos... e depois faz-me perguntas insidiosas...

—Vamos, responda: eu sou boa?

—Ah! ah! ah!

—Não se ria! quero que me diga se sou boa.

—Só pela maneira de me perguntar isso, se poderia logo pensar o contrario! mas não, pode estar socegada, a senhora é boa, é um carneiro, um cordeirinho... nunca se zanga...

—Creio que está mangando commigo?

—Não, oh! francamente, julgo-a boa, quando não está debaixo do imperio d’uns zelos que lhe estragam ás vezes o genio.

—É minha a culpa? Eu não seria ciosa de certo se o amasse menos...

—Sim, isso diz-se sempre, mas eu não duvido dos seus sentimentos. Tem-me dado bastantes provas de affeição, tem-m’as dado até de mais... e como poderei eu pagar...

—Cale-se! agora vae dizer tolices, beba, que é melhor. O Champagne está á sua espera. Vamos, faça-me a razão... este é o meu vinho favorito...

—Á sua saude, querida Ambrosina; sim, bebo mas isso não me impedirá de lhe dizer que no fundo do coração não estou contente commigo. Não faço coisa alguma, não me falta nada, a senhora corre ao encontro de todos os meus desejos, paga a todos os meus fornecedores: é odioso, isto assim não pode durar!

—Na verdade, Casimiro, não sei o que tem hoje, mas está a dizer-me coisas muito desagradaveis. Como, porventura entre duas pessoas que se amam, não deve ser tudo commum, o prazer e o desgosto, a miseria e a riqueza? Se eu não tivesse um soldo de meu, se carecesse de tudo, pensa que me havia de envergonhar de lhe dever tudo, de partilhar da sua fortuna, de viver dos seus beneficios?...

—Oh! n’uma mulher, o caso é muito differente! uma mulher, é esse o seu papel, é a sua sorte; a mulher nasceu para ser protegida, soccorrida, sustentada pelo homem. As senhoras são feitas de uma das nossas costellas, por conseguinte são uma parte de nós mesmos. Mas o homem nasceu para trabalhar, para ganhar dinheiro, ou para o perder quando não é bem succedido nas suas emprezas. E quando elle passa todo o seu tempo a passear, a não fazer nada, senão divertir-se á custa da mulher, é o mundo ás avessas!

—Ah! como é cruel! E todos aquelles que nasceram com fortuna, com herdades, quintas... têem acaso necessidade de trabalhar?

—Não, mas tambem não têem necessidade de que os seus fornecedores sejam pagos pela dama a quem fazem a côrte.

—Mas, todos os dias se está vendo um homem que não tem nada casar com uma mulher que lhe leva um dote consideravel; e elle não se envergonha de acceitar esse dote. Bem vê que é a sua mulher que elle deverá o seu bem estar, a sua fortuna, que muitas vezes elle se apressará a dissipar com amantes. Por que razão se acha o senhor tão reprehensivel, emquanto que esse homem será bem visto na sociedade?

—Oh! minha querida amiga, é que ha ahi uma grande differença: esse homem veiu a ser marido da senhora rica, ella julgou-o digno de o unir a si por laços indissoluveis, emfim tem o nome d’elle. O marido torna-se dono da casa, o que é muito differente! Então pode mandar, pode pôr e dispôr d’uma fortuna que passou a ser sua...

A sr.ª Montémolly não responde nada; escutou com attenção as ultimas palavras do seu amante, e isso carrega-lhe de sombras a physionomia, emquanto que Casimiro, enche um copo de Champagne, que em seguida bebe aos golinhos, achando que é infinitamente mais agradavel beber assim o vinho do que ingurgital-o, e nós somos completamente da seu parecer; não vemos que vantagem pode haver em fazer da bocca jogo do tonel.

Entretanto, espantado do silencio que guarda a sua amante, e do ar pensativo que substituiu o prazer que lhe animava os olhos, depois de ter acabado de beber o Champagne, Casimiro diz-lhe:

—Minha boa amiga, o que é que tem? vejo-a com um ar tão triste! está incommodada?

—Não, meu amigo, não, não é isso...

—Então temos outra coisa? Aind’agora parecia-me, tão alegre...

—Ah! Casimiro! foi o que o senhor acaba de dizer que me estragou a minha felicidade...

—O que foi então que eu disse para produzir esse effeito?

—Tudo coisas muito justas; mas eu comprehendi-o perfeitamente, e além d’isso, o que me quiz fazer perceber é naturalissimo.

—O que é que eu quiz fazer-lhe perceber? Affianço-lhe que não entendo!

—Finge que me não comprehende! O senhor, falando-me das mulheres que enriquecem um homem casando com elle, quiz dizer-me: Por que não faz a senhora outro tanto, se tem muito a peito ver-me gosar da sua fortuna sem remorsos?...

—Eu? nunca tive similhante pensamento. Oh! juro-lhe que se engana. É verdade que disse isso, mas foi sem a intenção que suppõe.

—Oh! meu amigo, ainda que fosse com essa intenção, onde estaria ahi o mal? Pensa que não tenho dito commigo desde muito tempo: Ah! como eu me daria por feliz em ser sua mulher, como me sentiria ufana de usar do nome d’elle! E se fosse possivel isso, não lhe teria eu já pedido que se ligasse a mim por laços indissoluveis?... Se o não tenho feito, ai! é por que é impossivel! Olhe, meu amigo, não quero ter segredos para o senhor... Disse-lhe que era viuva, e não é verdade! sou casada, casada realmente, e meu marido ainda está vivo!

—Ah! será possivel. Espere! espere! então vou beber mais Champagne... o sr. Montémolly está vivo?

—Esse nome não é o de meu marido; ao separar-me d’um homem, que eu nunca tinha amado, com o qual me era impossivel viver, apressei-me a abandonar o nome d’elle, para tractar de esquecer que era ainda sua mulher.

—Tinha para isso todo o direito. E o que faz esse senhor? Oh! se a contraría falar mais em seu marido, fiquemos por ahi. Por quem é, não se embarace, fiquemos por ahi!

—Não, visto que principiei, estimo muito agora contar-lhe como este casamento se fez, e por que se rompeu.

—Fale; o seu Champagne é delicioso; sou todo ouvidos.

—Vou confessar-lhe coisas... que não tenho dito a ninguem! mas não quero ter nenhum segredo mais para com o senhor.

—Não me diga senão o que lhe apraz que eu saiba: eu não lhe pergunto nada!

—É justamente por isso que lhe quero dizer tudo. Eu, aos dezoito annos, era muito bonita!

—Creio bem que sim, pois que ainda o é, e ha-de sel-o sempre...

—Cale-se! Não tinha outros parentes senão uma tia mui pouco amavel, que ralhava commigo constantemente, mas que vigiava bastante mal. Um rapaz viu-me á janella, e namorou-se de mim. Comprou a minha creada grave, que o introduzia em nossa casa quando minha tia saía. Elle era um rapaz muito bonito... em summa...

—Muito bem, o resto adivinha-se, passemos os pormenores.

—Mas o rapaz era militar, teve de partir, de se ir reunir ao exercito. Estava-se então em guerra. Quando elle partiu, a minha falta havia tido consequencias...

—Diabo! diabo! o negocio complica-se.

—Escrevi ao meu amante participando-lhe o meu estado; elle respondeu-me que assim que voltasse se apressaria a reparar a minha falta, casando commigo. Mas, pobre de mim! não devia voltar! foi morto na primeira acção...

—Pobre rapaz! ahi fica a senhora sem saber o que ha de fazer. E a tia?

—Era-me impossivel occultar-lhe o meu estado; ella gritou muito. Mas, como a fortuna que eu possuia me vinha de minha mãe, como eu era mais rica de que ella, e como, se eu a deixasse, ella teria de levar uma vida mais modesta, apaziguou-se. Fui para o campo; alugámos uma casinha nos arredores de Montmorency; foi lá que dei á luz uma menina, que confiei a uma mulher de Pierrefite.

—Em tudo isso não vejo seu marido...

—Espere; ha de vel-o bem depressa. De volta a Paris, ia eu frequentes vezes a Pierrefite vêr minha filha. Isto desagradava a minha tia, que me repetia sem cessar que eu me compromettia, que não acharia com quem casar, se não procedesse com mais prudencia. Eu não lhe dava ouvidos e continuava a ir vêr minha filha, que era fraquinha e delicada, mas gosava de boa saude. Infelizmente, a mim não me acontecia o mesmo: ia-me definhando de dia para dia, de fórma que os medicos receitaram-me uma viagem á Italia, ou pelo menos uma longa estada em Nice. Parti com minha tia, depois de ter bem recommendado minha filha á ama. Fiquei alguns mezes em Nice; não me restabelecia. Aconselharam-me que fosse passar uma temporada em Napoles. Fui para lá, mas minha tia, tendo que fazer em Paris, deixou-me por algum tempo. Tinha-lhe recommendado muito que fosse vêr minha filha, que se certificasse de que não lhe faltava nada.

«Quando minha tia voltou a ter commigo, disse-me que minha filha tinha morrido, e que a camponeza a quem eu a dera a crear, muito afflicta com essa desgraça, tinha saído de Pierrefite sem dizer em que sitio ia habitar. Fiquei muito mortificada com a perda da minha filhinha. Tinha-me sentido tão feliz por ter uma filha! fundava sobre ella toda a minha felicidade futura! Minha tia fez quanto poude para me distrahir. Andámos muito tempo a viajar; visitei a Italia toda, depois uma parte da Suissa. Finalmente tinha-me restabelecido, e voltámos a residir em Paris. Aqui, um sujeito rico, bastante amavel, ao menos fazia então todo o possivel para o ser, veiu fazer-me a côrte; era um antigo amigo de minha tia, e tenho motivos para crer que, desde muito tempo, ella lhe havia promettido fazer quanto pudesse para me levar a consentir em casar com elle. Este sujeito era muito mais velho do que eu; minha tia porém affirmava-me que assim ainda eu seria mais feliz; que um marido joven abandonava em casa a mulher para andar mettido com amantes, emquanto que um esposo, homem de juizo, andava sempre com a mulher nas palminhas das mãos. Que lhe direi? eu pensava não amar nunca mais... tinha perdido minha filha... Deixei-me casar para estar emfim em minha casa e não viver mais com minha tia, a quem o homem que me desposava tinha feito presente de uma linda casinha nos arredores de Paris.

«Mas não tardei a perceber que fizera uma asneira, e que me tinha ligado a um homem que de nenhum modo me convinha. Meu marido era ciumento, curioso, esmiuçador, intromettendo-se em tudo; pelo lado da fortuna, como eu possuia a minha, não tinha precisão de recorrer a elle. Isso contrariava-o, queria saber como eu gastava o meu dinheiro; convidei-o a que se não mettesse nos meus negocios; foi o começo das nossas questões. Mas aquelle senhor, que tudo queria saber, tinha o atrevimento de esquadrinhar tudo por toda a parte quando eu sahia, e creio mesmo que possuia segundas chaves de todos os meus moveis. O que é certo, é que um dia achou n’um cofresinho, no fundo da minha papeleira, as cartas que me escrevia aquelle pobre Augusto quando estava no exercito, e nas quaes falava da nossa filhinha. O meu amigo acreditará que meu marido deu por páus e por pedras, dizendo-me que eu o enganára indignamente deixando-o crer que era... _Joanna d’Arc!_ Respondi-lhe que ainda se devia dar por muito feliz em eu ter consentido em ser sua mulher, mas que eu não viveria mais com um homem que remexia nos meus moveis e tinha a confiança de ler as cartas que eu recebêra antes de usar do seu nome. No outro dia executei a minha ameaça; aluguei uma casa, e mandei levar para lá tudo o que me pertencia. Meu marido quiz oppôr-se á minha saida; mas eu mostrei-lhe um rewólver que tinha comprado, e disse-lhe: Não só o deixo, mas prohibo-o, ouça-me bem, prohibo-o de se apresentar em minha casa... A lei auctorisa-o a isso, bem sei, porque não estamos separados judicialmente, o que faremos ámanhã, se quizer; mas, como pelo nosso contracto já estamos separados de bens, creio que podemos dispensar essa formalidade. Comtudo, repito, não tenha o atrevimento de ir nunca a minha casa, senão... é com este rewólver que o hei de receber. Meu marido é muito medroso... desde esse dia nunca mais ouvi falar n’elle.

—Bravo! oh! a senhora é uma mulher decidida! E juntou-se com a sua tia?

—Com minha tia! oh! nunca! não queria nada com minha tia, que foi quem me fez aquelle odioso casamento. Ficámos mal uma com a outra; pois não pretendia ella fazer-me voltar para meu marido! mas eu respondi-lhe n’um tom que lhe fez vêr que eu não era já a menina submissa ás suas vontades. Demais, ella morreu pouco tempo depois d’aquella separação; uma doença repentina a levou á sepultura em poucos dias; havia-me escripto para que a fosse vêr; tinha, affirmava, uma coisa importante para me communicar. Hesitei, dizendo commigo: Vae ainda pedir-me para que volte para meu marido. Emfim, resolvi-me a ir; mas, quando cheguei á sua quinta, já não era tempo, tinha ella morrido! Aqui tem, meu caro Casimiro, todos os acontecimentos da minha vida, agora já sabe porque, com grande pezar meu, lhe não posso offerecer que case commigo.

—Oh! minha querida Ambrosina! pela parte que me toca, devo confessar-lhe francamente que nunca pensei em tal, o casamento não me tenta, assusta-me, bem sabe que ha quem affirme que o casamento é o tumulo do amor.

—Oh! nem sempre... mas é certo... não me acha talvez bastante joven para ser sua mulher?

—Eu! pois eu penso lá em similhante coisa... não, eu penso... em fazer alguma coisa... em trabalhar...

—Trabalhar... Para quê? com que fim?

—Para ganhar dinheiro...

—Não sou eu a sua thesoureira?...

—É justamente porque eu preferiria ser o meu proprio thesoureiro. Ia menos mal na pintura a oleo, fiz tambem alguns retratos bastante parecidos...

—Fazer retratos! lembra-se d’isso! para ter modelos, olhar muito para mulheres, estudar-lhes o sorriso, os olhares! Não quero que faça retratos, ouve? prohibo-lh’o expressamente.

—E a paizagem? oh! a paizagem é uma coisa bem innocente!

—Com os pintores não ha nada innocente; para a paizagem, é mister ir ao campo procurar pontos de vista, ou carneiros e pastoras que os guardam.

—E são lindas as pastoras dos arredores de Paris! e graciosas! como as mulheres que alugam cadeiras.

—Deixe-me em socego com a sua pintura.

—Prefere que eu escreva para o theatro? Ah! deve ser uma grande felicidade ver a gente representar as suas peças, ouvir-se applaudir...

—Fazer comedias! que horror! um auctor passa a vida nos theatros, nos bastidores, com as actrizes, faz a côrte a todas, e, promettendo-lhes papeis, faz com que lhe dêem attenção; o senhor não saíria mais dos bastidores, passaria alli a sua vida. Ah! peço-lhe por tudo quanto ha, não pense em fazer peças de theatro.

—Pois bem! então, se eu escrevesse um romance? Ah! isto não exige passeios nem sahidas; escreve a gente com todo o socego no seu gabinete. Eu tenho ás vezes idéas bastante originaes, talvez faça um romance divertido, um romance de costumes...

—Um romance! um romance! tenho ouvido dizer cem vezes que, para fazer um romance, era preciso ter visto muito, que era preciso ter corrido, ter estado nos sitios que se pretende descrever, sobretudo para fazer um romance de costumes; ah! se o senhor faz um romance extraordinario, inverosimil, então pode inventar...

—Não, eu prefiro o ordinario ao extraordinario.

—Então meu amigo, bem vê que não podia trabalhar socegadamente no seu gabinete; teria de andar, de ir algumas vezes a sitios muito arriscados, a esses bailes onde se dançam todas as danças possiveis; sob pretexto de ver como se trabalha n’um _atelier_, iria a casa das floristas, das modistas, das costureiras, isso não acabaria; seria para estudar os costumes das diversas classes da sociedade. Deus sabe quanto se vê quando se quer estudar os costumes! Não, siga o meu conselho, não faça romance nenhum! Demais, não creio que seja essa a sua vocação.

—Ah! se eu podesse descobrir ou inventar alguma coisa boa, util, alguma coisa que me cobrisse de gloria e fizesse a minha fortuna.

—Tem todo o direito de procurar isso...

—Que pena que a batata seja conhecida! talvez eu a tivesse descoberto!...

—Sim, mas a batata é perfeitamente conhecida, não quebre pois a cabeça a procurar invental-a.

—Repito, quero occupar-me n’alguma coisa.

—Pois bem! se o quer absolutamente, eu lhe procurarei um emprego.

—A senhora? E então onde?

—N’uma secretaria; vae-se para a repartição não muito cedo, sae-se de lá não muito tarde; á noite está-se livre, isto não dá muito trabalho.

—Ah! isso havia de agradar-me muito! Mas como espera a senhora arranjar-me esse emprego?

—Eu verei, falarei aos meus conhecimentos; parece-me que o caso não é urgente. Espere, Florentina tem um primo, que é chefe d’uma repartição; farei com que ella fale ao primo. Aquella pobre Florentina! como a gente é ingrata! quando se ama muito alguem, quando não se pensa senão n’essa pessoa, esquecem-se todas as outras! Mas o senhor faz-me andar a cabeça á roda, tira-me o juizo!...

—Que mais temos então?

—Temos que hontem á noite, quando recebi a sua carta, acabava Florentina de entrar; vinha offerecer-me o seu camarote na Opera; mas depois de haver lido o seu negregado bilhete em que o senhor me annunciava que não iria lá, tive um ataque de nervos terrivel; aquella pobre Florentina dispensou-me todos os cuidados, mas não sabia o que me havia de dar, mandou a minha creada buscar o remedio que costumo tomar quando tenho d’aquelles ataques; mas a creada não voltava, eu tornei a mim, e sem esperar pelo remedio, disse a Florentina: «Anda commigo, quero ir a casa d’elle; mandei vir uma carruagem, e Florentina teve a complacencia de me acompanhar até á sua porta, queria mesmo ficar á minha espera, sacrificando por mim a Opera e o prazer que esperava ter lá; mas eu não quiz consentir, mandei-a embora. Então! ha de convir que é uma verdadeira amiga, e que tenho muita razão em ter por ella uma affeição sincera...

—Sim, sim, não digo o contrario, ella é-lhe muito affeiçoada, mas tambem é horrivelmente feia!...

—Ah! ahi está o que são os homens!... Que importa que seja feia, se possue todas as qualidades do coração! Mas os senhores não apreciam senão a belleza!

—E as senhoras não descobrem todas as qualidades do coração n’uma mulher, senão quando ella não é bonita. Oh! em o sendo, acham-lhe logo todos os defeitos, mas não falam nunca das suas boas qualidades.

—Oh! cale-se! porque é que diz isso?

—É que as suas amigas intimas são todas feias como os peccados mortaes.

—Queria talvez que eu, para lhe ser agradavel, chamasse a minha casa algumas bellezas raras, afim de que o senhor lhes fizesse a côrte mesmo á minha vista!

—Não, eu não lhe peço bellezas raras; a senhora é que prefere as fealdades raras! Oh! mas faça o que entender! a final de contas, isso é-me completamente indifferente.

Ambrosina reprime a grande custo um movimento de impaciencia, depois toca a campainha a chamar a creada grave, que apparece immediatamente.

—Adriana, o café está prompto?

—Está sim, minha senhora.

—Então sirva-o.

—E que venha bem quente, quasi a ferver, diz Casimiro. Ouve, menina? se o posso tomar, não o tomo.

Adriana sae a rir; Ambrosina exclama:

—Não gosto que se graceje com os creados; isso torna-os familiares.

—Porventura gracejei com a sua creada?

—Sem duvida; faz trocadilhos a respeito do café...

—Minha querida amiga, com a senhora nunca a gente sabe como ha de falar a uma mulher; em tudo vê maldade, espero que não pense que arrasto a aza á sua creada...