Part 3
Começa o praticante a aviar a receita da sr.ª Montémolly, quando se abre de novo a porta, e invade a pharmacia uma mistura de cheiros activissimos; é a senhora que tem medo do cholera, que torna a entrar e vae importunar o rapaz que está ao balcão, exclamando:
—Ah! senhor! não pode fazer idéa de como cheira mal a rua Meslée!...
—Sinto muito, mas que quer que lhe faça?
—Anda alguma coisa no ar, oh! certamente, o ar está máu n’este momento!...
—É talvez uma trovoada que se prepara!...
—Oh! o que se prepara é outra coisa. Quer ter a bondade de me desrolhar o meu frasco de agua de Melissa? Se me dá licença, vou esfregar o nariz e as fontes, e então poderei affrontar com menos susto os miasmas da rua.
—Faça o que quizer, minha senhora, aqui tem o seu frasco aberto; quer uma chicara?
—Bastará a ponta do meu lenço, vou embebel-a muito bem...
Effectivamente, esta senhora deita agua de Melissa no lenço, depois esfrega as fontes, lava o nariz, introduz tanto quanto pode o lenço molhado nas ventas, esfrega tambem a testa, deita agua de Melissa na palma da mão, depois aspira-a a ponto de espirrar oito vezes a fio. Emfim acabada esta ceremonia, torna a rolhar o frasco, mette-o na algibeira, vae-se, dizendo:
—D’esta vez, creio que estou bem preservada do máu ar!...
—Oh! sim, minha senhora, está bem preservada, exclama o aprendiz de boticario. Folgo de crer que tambem nós o estamos agora das suas visitas. Que fregueza!...
—Mas é ella que empesta a gente, diz Adriana; o que foi então que o senhor deu áquella senhora?
—Tudo o que ella quiz!...
—Qual é a doença d’ella?
—A doença é medo, que é o mal mais commum e que nos manda cá mais gente. Esta senhora tem medo do cholera; outras têem medo d’uma molestia de que não apresentam o mais pequeno symptoma mas de que se julgam ameaçadas... o medo não raciocina! Ninguem faz idéa de quantos freguezes elle nos arranja...
—Ai! com a bréca! exclama um dos praticantes, eil-a ahi outra vez de volta comnosco!...
—Quem?
—A senhora dos preservativos...
—Ora essa! nada, isso agora torna-se forte de mais. Que mais quererá ella lavar aqui? isto começa a dar-me cuidado.
A senhora, que recende fortemente, abre a porta e pára no limiar, dizendo:
—Perdão, meus senhores, uma pergunta, se me dão licença... Se eu tomasse tabaco?... É uma coisa que tambem deve preservar, penso eu?...
—Sim, minha senhora, de certo, tome tabaco... tome mesmo muito; não cheirará mais nada!...
—Então faça favor de me dar uma porção de tabaco...
—Nós não vendemos tabaco, minha senhora, no _boulevard_ encontra-o logo.
—Corro a compral-o. Cheirarei primeiramente, e depois talvez me arrisque a fumar um cigarrinho; as senhoras agora fumam, não é verdade?
—Sim, minha senhora. Oh! as senhoras fumam, fazem agora tudo o que fazem os homens; isso não as aformoseia, mas diverte-as...
—Oh! mas eu cá, não é com o fim de me aformosear, é para affrontar os máus ares. Vou comprar tabaco...
—Vá, minha senhora, vá! diz o joven pharmaceutico fechando-lhe a porta nas costas; cheire, fume, masque mesmo, se isso lhe dá prazer mas, por favor, deixe-nos socegados um instante! Tome, menina Adriana, aqui tem o remedio para sua ama...
—Obrigada; vou de corrida levar-lh’o... faz-me tanta pena vel-a soffrer!... Boa tarde, meus senhores...
A creada grave retira-se, e d’esta vez chega a casa sem ter tido outros encontros. Quando passa diz á porteira:
—Aqui me tem; cá trago o remedio; pensei que não acabavam de me aviar hoje; havia muita gente na botica...
—Pois olhe, não vale a pena apressar-se...
—Então porquê, sr.ª Bedou?
—Porque sua ama saíu de carruagem com a sua amiga, ha já bastante tempo...
—A senhora saíu! oh! isso era de esperar! vá lá uma pessoa estafar-se a correr para dar conta do seu recado! vá lá a gente privar-se de conversar com os seus conhecimentos! Ah! esta não me ha de esquecer...
III
Um rapaz manteúdo
O joven Casimiro Dernold occupa um lindo aposento de rapaz solteiro, n’um terceiro andar, n’uma bella casa da rua de Paradis-Poissonniére. Tem uma saleta, uma sala e um quarto de dormir. Tudo isto está no maior aceio, e bem adornado; a mobilia, sem ser d’uma extrema elegancia, é de bom gosto e ainda da moda. Emfim, tudo annuncia que quem occupa este pequeno aposento não deve ser, como se diz vulgarmente, um semsaborão.
E entretanto aquelle que alli habita, rapaz de vinte e seis annos, bonito de cara, bem feito de corpo, cujo porte é elegante e o trajo sempre apurado, passeia n’este momento na sala com um ar de muito máu humor, batendo algumas vezes nos moveis com uma chibatinha, ou amarrotando as luvas com colera, e falando alto, o que acontece amiude ás pessoas fortemente excitadas por um sentimento qualquer; porque parece que desafogamos dizendo o que nos afflige, mesmo quando ninguem mais nos pode ouvir.
—Nada! não!... isto não pode durar assim... é preciso acabarmos com isto! exclama o rapaz, que acaba de bater com a chibatinha n’uma poltrona fazendo sair d’ella uma nuvem de poeira, o que o detem na sua exclamação e lhe faz dizer: Se é assim que o meu porteiro me sacode a mobilia, não se deve cansar muito... Nada! estou cançado de ser escravo de Anbrosina, porque sou completamente seu escravo!... Não posso dar um passo, nem ir a parte alguma, sem que ella o saiba... Estou persuadido de que me manda espreitar; diz que é por amor; ella ama-me, sim, concordo n’isso, devo mesmo acredital-o... porque eu custo-lhe muito caro... Ella compra-me tudo o que eu desejo; paga-me o alfaiate, o sapateiro, emfim, todos os meus fornecedores... Aliás, como havia de eu pagar-lhes, eu que não faço nada, que não ganho nada, que para nada sirvo? Oh! mas, se não faço nada, ella é que tem a culpa! Todas as vezes que tenho querido procurar um emprego, ella tem-se opposto a isto. Quando me quero deitar de novo á pintura, porque eu principiava a ir menos mal na paizagem, tinha tambem conseguido fazer alguns retratos, tinha experimentado a mão com os amigos. Eu devia ter continuado, mas Ambrosina acha sempre meio de me impedir de trabalhar, levando-me para o campo, obrigando-me a acompanhal-a constantemente, a andar passeando com ella, a leval-a a alguma festa... Emfim, imagina sempre alguma coisa, tudo para fazer monopolio de mim, para me ter sempre na sua dependencia. Havia de affligir-se muito se eu ganhasse dinheiro, porque então poderia passar sem ella, escapar-me das suas garras! E eu, covarde, preguiçoso, comilão, gostando dos prazeres, da vida regalada, deixei-me enredar por esta mulher, por quem senti algum amor, no começo, e da qual depois não tive força para recusar os favores. E quando a gente se acha n’este declive, é muito difficil parar, sobretudo quando se é, como eu dizia, preguiçoso, comilão, e amigo das suas commodidades. Ah! os rapazes deviam tomar muito cuidado nas ligações que arranjam... essas ligações influem em todo o resto da existencia. Tenham duas, tres, doze amantes se se acham com forças para tanto, mas não se prendam com nenhuma... porque é essa que os fará commetter tolices e perder o futuro. Aquelles que passam por doudos e extravagantes, são portanto os que têem mais juizo; pelo menos não se deixam cair no laço e conservam o seu livre arbitrio. Nada, não, ha dois annos que sou o chichisbéo da sr.ª Montémolly, irra! já estou farto!
Casimiro dá nova chibatada n’uma das suas poltronas; levanta-se uma tal poeirada, que o rapaz fica quasi cego, e tem de, se refugiar na outra extremidade da sala, murmurando:
—Olhem o maroto do porteiro! não é possivel ter menos cuidado com os meus moveis! E diz elle que passa metade do dia a arranjar-me a casa. Ah! se Ambrosina soubesse que dou lições da desenho a uma menina do predio, como não ficaria furiosa! É todavia uma coisa bem innocente. A menina Angelina Proh é uma rapariga nem feia nem bonita; antes tola que espirituosa; mas creio que isso é de familia. Mora com o pae, com a mãe e com um irmãosinho, no mesmo patamar defronte de mim. Esta familia Proh é d’uma extrema polidez; a mãe, que ainda tem pretenções, dizia-me a cada passo:
«—O senhor é pintor, ah! eu estimaria muito ter o meu retrato, e, se o senhor não levasse muito caro, pedia-lhe que m’o tirasse, mas a oleo, com tintas porque eu detesto a photographia, acho que faz a gente feia consideravelmente.
«—Minha senhora, sinto muito, mas não me julgo ainda com forças bastantes para tirar um retrato do nutural.
«—Oh! isso é talvez demasiada modestia! Será preciso experimentar; nós somos visinhos, não virei senão quando o senhor tiver tempo de seu.
«Tempo de meu! tenho-o sempre, quando porém Ambrosina me dá liccença para o ter!... Depois o papá Proh, que é, creio eu, um antigo professor de grego e de latim, propoz-me o dar algumas lições de desenho á filha e ao filho, quando elle não fizer travessuras. Já se vê, aceitei. Vinte e cinco francos por mez não são grande coisa, mas eu não poderia dizer com que sentimento de alegria, de felicidade, recebo este dinheiro, que é adquirido pelo meu trabalho. Sinto-me deveras orgulhoso! Ah! estes vinte e cinco francos dão-me cem vezes mais prazer que o cartucho de moedas de ouro que Ambrosina me mette no bolso; tanto mais que ao depois é preciso que eu lhe dê uma conta exacta do emprego que fiz d’esse ouro...
«Hoje devia ir buscal-a ás oito horas para a levar a um café-concerto. Ella havia de escolher o que mais a tentasse. Mas como isso me não tentava nada a mim, e como desde muito tempo ardo em desejos de ir ao Mabille ver as damas que dansam com tanto _chic_, escrevi-lhe um bilhetinho dizendo que o meu amigo Miflaud tinha uma pendencia de honra para ámanhã pela manhã, que elle contava commigo para ser um dos padrinhos, e que era absolutamente preciso que eu lhe fosse falar esta noite, para me entender com elle e com o outro padrinho sobre as condições do duello e sobre o motivo da pendencia. Engulirá ella esta peta?... Hum! não é muito provavel; o importante é que Miflaud, que deve ir commigo ao Mabille, não me faça esperar muito tempo. Logo que eu me apanhe fóra de casa, tanto peor! se Ambrosina aqui mandar, não me encontrarão.
«Vejamos as horas que são: já oito horas! e este tolo de Miflaud devia cá estar ás sete e meia. Felizmente, mandei a minha carta a Ambrosina muito tarde; de certo não a recebeu antes das oito horas. Quem a ha de aturar ámanhã! Mas, em ella vendo que me zango devéras, oh! então, acalma-se logo; ella no fundo não é má, mas muito ciosa de mais! infinitamente ciosa; uma verdadeira andaluza. Graças a Deus não traz faca na liga. Ah! lá tocam a campainha, é Miflaud, finalmente...»
Casimiro corre a abrir a porta, mas, em vez do rapaz por quem esperava, acha-se com um menino de seis annos, que lhe diz:
—Sr. Casimiro, venho da parte da mamã saber se o senhor está em casa?
—Bem vê que estou, Affonsinho, e o que me quer a sua mamã, a sr.ª Proh?
—Acaba a costureira de lhe trazer um vestido novo muito bonito, de riscas verdes e encarnadas. A mamã vestiu-o, e queria que o senhor a visse com elle, para lhe dizer se a quer retratar assim.
—Mas meu menino, eu não vou agora fazer o retrato da sua mamã; terei muito tempo para ver o seu vestido.
—Sim, porém ella disse-me: Vae pedir ao nosso vizinho que entre cá um minuto; quero que elle me veja assim vestida...
—É que estou á espera d’uma pessoa. Ah! mas posso deixar a porta aberta. Ande lá adeante de mim, Affonsinho! Seu papá não está em casa?
—Não, senhor, saiu agora mesmo dizendo á mamã que ella parecia uma girafa com o seu vestido de riscas.
—Oh! com a breca! mas a sr.ª Proh não havia de ficar muito contente!
—Por isso respondeu ao papá: «Tu então não precisas estar vestido para pareceres um chimpanzé.» Sr. Casimiro, o que é um chimpanzé, com que o papá se parece?
—Meu caro amigo, é... ora... um chimpanzé é um homem dos bosques, um bonito homem dos bosques, emfim é um quadrumano.
—É o que é um quadrumano?
—É um homem que tem os pés com forma de mãos.
A apparição da sr.ª Proh vem pôr termo ás perguntas do filho. Esta senhora vem até á porta da escada ao encontro do seu vizinho. Celeste Proh é uma mulher de quarenta e sete annos, loura, deslavada, com olhos azues muito desmaiados, e sem rasto de sobrancelhas; é obrigada a fazel-as com um pincel, que ella molha n’uma composição, cuja côr nem sempre é a que se esperava, o que faz com que esta senhora tenha por cima dos olhos um arco, ora preto, ora côr de castanha, ora avermelhado; ella porém acha que isso lhe dá mais graça á physionomia; tem-se por muito bonita e julga parecer mais nova que sua filha, que tem dezeseis annos. Repete muito amiude na conversação que não comprehende seu marido, que nunca mostrou empenho em possuir o retrato de sua mulher, com o qual elle deveria ter adornado todos os seus aposentos.
A sr.ª Proh tem effectivamente um vestido novo de riscas largas d’um encarnado muito vivo e d’um verde claro, o que lhe dá quasi o ar d’uma mouta florida e attrahe a vista a cincoenta passos. Avança sorrindo para o vizinho.
—Mil perdões, sr. Casimiro, fui indiscreta, mandei-lhe lá o Fonfonso; é que eu queria saber a sua opinião a respeito d’este vestido; como o acha?
—Acho-o muito bonito, é original e faz sobre-tudo muito effeito; emfim, vê-se de longe.
—Eu gosto d’isto, gosto do que dá nas vistas. Acha que me fica bem?
—Admiravelmente! assenta-lhe que nem uma luva!
—Gosto muito do vestido bem justo ao corpo. Demais, creia que não me tolhe por modo algum os movimentos. Então está dito, ha-de retratar-me com este vestido, não é verdade?
—Então sempre quer que lhe tire o retrato?
—De certo que sim.
—Mas eu já lhe disse que me não julgo com forças de tirar um retrato do natural.
—Mas o senhor pintou o retrato da gata do porteiro, já lh’o vi lá em baixo no cubiculo.
—Aquillo foi um ensaio, para me distrahir.
—Pois bem! fará tambem o meu para se distrahir. O sr. Casimiro é demasiadamente modesto, desconfia muito do seu talento; a gata do porteiro parece que está viva, e todavia ella não esteve muito tempo em posição deante do senhor?
—Não esteve tempo nenhum, pintei-a de memoria.
—Eu estarei o tempo que o senhor quizer. O meu Proh queria fazer-me photographar, mas eu não quiz; detesto a photographia, desfeia e envelhece a gente, mas não custa caro, e por isso toda a gente se serve d’ella. Falem-me da pintura! isso é que tem vida, expressão, côr...
—Sou inteiramente do seu parecer, minha senhora.
—Entre e descance um pouco...
—Muito obrigado, mas espero uma pessoa, e é preciso que eu esteja em casa.
—Então como este vestido lhe agrada, poderá retratar-me com elle?
—Estou prompto a retratal-a com o trajo de que a senhora mais goste, mesmo de Diana caçadora, se quizer.
—Oh! mas é uma bella idéa essa. Diana caçadora! oh! isso é que seria de bom gosto...
—Boa tarde, minha senhora, e fico ás suas ordens.
—Mas, vizinho, onde poderei encontrar o trajo d’essa deusa da caça?
—Casimiro não responde mais á vizinha, porque fechou já a porta, dizendo comsigo:
—Esta sr.ª Proh é massadora! Se não fosse o interesse que tenho em lhe dar lições aos filhos, já a teria mandado para o diabo com o seu retrato! E este Miflaud sem apparecer! São quasi oito horas e meia, estou capaz de me ir embora sem elle. Mas ir sósinho ao Mabille não é nada divertido!
Passam ainda cinco minutos quando finalmente tocam a campainha com violencia; o rapaz corre a abrir a porta, mas é a sr.ª Montémolly, que entra com um ar decidido, furibundo, toda esbaforida e a escorrer em suor, porque subiu a escada a toda a pressa. Os leitores já sabem pela menina Adriana que sua ama, que quer passar por ter trinta e quatro annos, deve andar perto dos trinta e oito. Para completar o retrato, accrescentaremos que é uma mulher alta e bonita, que tem uma certa graça nas maneiras, uma certa perfeição nas fórmas, e que veste muito bem. É uma mulher trigueira, cujos olhos bem rasgados nem sempre são meigos, e cuja bocca, um pouco mettida para dentro, é muitas vezes desdenhosa e altiva; mas, quando ella quer ser amavel, é uma bonita mulher, um verdadeiro typo andaluz; para ser uma perfeita hespanhola, não lhe falta senão o pente muito alto debaixo do véu preto e umas castanholas nas mãos.
Esta senhora entra sem se demorar um instante, sem mesmo dizer uma palavra áquelle que lhe abre a porta; atravessa immediatamente a saleta de entrada, a sala, vae passar revista ao quarto da cama, esquadrinha todos os cantos á casa para vêr se está por alli alguem escondido; só depois de ter acabado esta inspecção é que volta á sala, e atira comsigo para cima d’uma poltrona exclamando:
—Ah! não era a mim que o senhor esperava, não é verdade?
—De certo! responde Casimiro sentando-se com o ar d’uma pessoa que acaba de levar com uma telha na cabeça; e é devéras um acaso o ter-me encontrado aqui. Já teria sahido para ir a casa de Miflaud, se elle me não tivesse escripto novamente dizendo-me que viria elle mesmo cá, que antes queria isso, porque em sua casa, como mora com a mãe, receava que ella suspeitasse do duello e então...
—Sr. Casimiro, quando faz tenção de acabar com essas mentirolas? Pensa porventura que acredito todas essas patranhas que me conta, e mesmo muito mal.
—Mas, minha senhora, não ha aqui patranha nenhuma. Que espanto é que um meu amigo tenha uma pendencia de honra? é uma coisa que acontece todos os dias. Elle pede-me que seja seu padrinho, e isto não se recusa...
—Em primeiro logar, ha muito tempo que o senhor me não falava no seu amigo Miflaud; parece-me que tinha deixado de andar com elle.
—Deixado... porque, estando sempre com a senhora, não posso andar com elle, mas não estavamos desavindos.
—O senhor devia passar o serão commigo.
—Isso nada tem de notavel, porque os passo todos!
—Então com quem queria passal-os? O senhor escreve-me: «Não espere por mim esta noite.» Como é amavel!...
—Visto que era para obsequiar Miflaud. Mas tanto peor para elle; não estou para o esperar mais tempo. Venha, vamos passear.
—Ah! agora tem pressa de sair, está com medo não chegue essa pessoa. Isto esconde uma perfidia; não é Miflaud que o senhor espera!
—É sim, é elle. Mas, visto que a senhora se deu ao incommodo de cá vir, que o leve o diabo. Vamos, Ambrosina, estou ás suas ordens. Hein? isto é que é ser amavel! Vamos embora...
—Oh! que pressa que tem de sair! isto não é natural, o senhor está-me a atraiçoar!
Cazimiro levanta-se encolerizado, e põe-se a passear pelo quarto dizendo:
—Isto é demais! o demonio leve as mulheres com o seu genio infernal! Quer a gente sair sem ellas, gritam; quer estar com ellas, gritam do mesmo modo! Emfim, faça-se o que se fizer, gritam sempre! Ah! não estou para aturar mais scenas d’estas! Adeus, minha senhora, faça o que quizer, eu cá vou-me embora!
E já o rapaz tem dado alguns passos para a porta; mas Ambrosina corre para elle com a rapidez d’uma corça, segura-o, enlaça-o nos braços, olha para elle amorosamente, e diz-lhe com ternura:
—Aonde vaes, ingrato? queres abandonar-me? bem sabes porém que não posso viver sem ti, que és a minha felicidade, a minha alma, a minha vida! Reputas um crime o eu ter vindo aqui? não era muito natural que eu me quizesse certificar de que não recebias aqui outra mulher, ou de que não ias ter com ella a alguma parte?...
—Bem vê que não escondo aqui mulher alguma; o que me havia de ser difficil! a senhora esquadrinhou todos os cantos á casa.
—Não, mas estás talvez á espera d’ella!
—Outra vez! ah! a senhora é terrivel!
—Não! não! não tenho razão, meu amigo, sou injusta, não o serei mais...
—Bom! ainda bem! vamos passear.
Casimiro está com pressa de sair, porque receia agora que a chegada do seu amigo Miflaud ponha a descoberto as suas mentiras. Mas, sempre promettendo não tornar a ser ciosa, Ambrosina, que continua a ter suspeitas, acha meios para não sair tão depressa: é o seu chapéu que não está bem posto, depois é a cuia que não está muito segura, e é preciso que ella arranje tudo isto; o seu amante está sobre brazas; já pôz o chapéu na cabeça, tem a bengala na mão, e a sua amante tem sempre alfinetes a pregar em alguma parte. Succede alfim o que elle receava, batem á porta.
O rapaz não dá mais que um pulo da sala á porta de entrada, afim de tratar de prevenir o seu amigo; mas, por mais prompto que tenha sido, Ambrosina chega lá ao mesmo tempo que elle, depois de ter atirado ao chão os alfinetes que estava a pregar.
É effectivamente Miflaud, joven corrector de commercio, da edade de Casimiro, que não é bonito, mas que tem uma cara bastante original, que gosta de _grisettes_, de dança, de vinho branco e de camarões; não foi muito favorecido pela natureza emquanto ao espirito, mas está sempre prompto para se divertir, para rir, emfim para brincar, comtanto que não seja encarregado de inventar as brincadeiras.
—Boa noite, Miflaud, vens por causa do teu duello... pois que te bates ámanhã, e eu devo servir-te de padrinho. Mas sinto muito, meu amigo; procura outro... Tenho que fazer ámanhã.
Tudo isto foi dito por Casimiro d’um só jacto, sem tomara respiração. Um outro que não fosse Miflaud, um d’estes farçantes como ha tantos, teria comprehendido a situação, sobretudo vendo os signaes que o seu amigo tratava de lhe fazer; mas Miflaud não era esperto, e emquanto que a sr.ª Montémolly o mira com anciedade, elle toma um ar muito espantado respondendo:
—Eu! bato-me em duello! Essa é muito boa! Mas não percebo nada, isso é uma brincadeira!
—Vamos Miflaud, não vale a pena occultal-o... esta senhora tudo sabe, eu contei-lhe tudo; não se dirá nada a tua mãe. Boa noite... vamos sair...
—Mas eu estimaria bem saber o que tu queres dizer com o teu duello...
—Este senhor fez todavia tudo quanto é possivel para que o senhor comprehendesse! diz Ambrozina lançando sobre Casimiro um olhar fulminante; elle quiz immediatamente pôl-o ao facto de tudo, para que o senhor não desmentisse as patranhas que elle me contou... mas perdeu o tempo e o trabalho; não me deixo enganar tão facilmente! Vamos, sr. Miflaud, não esteja a quebrar a cabeça, não se cance a querer adivinhar o que significam os signaes que o seu amigo lhe faz... O senhor não tem nenhum duello, não se bate ámanhã, e estimo muito que assim seja.
—Muito obrigado pela sua bondade, minha senhora; é certo que não tenho nenhuma tenção de me bater ámanhã, nem mesmo depois de ámanhã...
—E vinha buscar este senhor para ir com elle... a algum baile de tasca, sem duvida?
—Oh! minha senhora!... ora essa!... um baile de tasca!... eu vinha... nós deviamos ir... Casimiro, dize lá onde é que estavamos para ir...
Casimiro encolhe os hombros, e atira comsigo para uma cadeira exclamando:
—Oh! não te embaraces... pois que com esta senhora não ha meio de dar um passo, de ir a um divertimento sem sua licença... Pois bem! é verdade, iamos, ou pelo menos deviamos ir ao Mabille passar uma hora. Isto não é crime! mas a senhora é tão ridicula, tão ciosa, que em tudo vê maldade! e obriga-me a mentir para evitar as scenas de ciume; mas com a senhora não se evitam nunca!
—Ao Mabille! quer ir ao Mabille! que horror! um logar de perdição! Bem se sabe o que os homens vão lá procurar!...
—Mas, minha senhora, engana-se, diz Miflaud; o Mabille é um jardim frequentado pela boa sociedade, pelos estrangeiros mais distinctos, por lindas mulheres...
—Por _cocottes_! diga o termo.
—Mas lá não ha só _cocottes_; e ao menos as que lá vão, apresentam-se vestidas no rigor da moda, e algumas que dançam com uma graça, uma desenvoltura. Asseguro-lhe que é muito curioso vêr aquillo.
—Oh! desconfio bem que não é só para vêr que os senhores lá vão...
—Mas, como Casimiro parece estar agora occupado com a senhora, penso que não iremos, e portanto vou...
—Nada! nada! vamos lá, eu quero ir por força! exclama Casimiro levantando-se arrebatadamente. Não se ha de dizer que nunca faço o que me dá na vontade. Vem, Miflaud, vamos tomar uma carruagem.
—Ah! querem por força ir ao Mabille, diz Ambrosina correndo a buscar o chale; pois bem! vou tambem com os senhores. Penso que o sr. Miflaud não se recusará a dar-me o braço...