Part 13
—Oh! não, não me deixarei dormir, para que durante o meu somno venham ainda tirar a colhér... Ah! se eu tivesse velado sempre, não teria acontecido isso; mas esta lampada allumia perfeitamente, posso bordar.
Casimiro entretanto dirigiu-se ao quarto que lhe foi indicado e que está apenas allumiado por uma lamparina. Encontra alli Ambrosina, que está sentada junto da porta de vidraça; toca um frio cumprimento com ella, dizendo-lhe:
—Agradeço-lhe, minha senhora, o não ter faltado aqui, para ter a prova da innocencia de Lisa...
—Desejo-o muito, porque eu não sou tão má como o senhor pensa; mas confesso-lhe que duvido que se consiga proval-a.
Põe termo a este colloquio a chegada da sr.ª Durmont, que colloco a lamparina muito longe da porta de vidraça, dizendo:
—D’esta maneira, é impossivel que do quarto da minha mana se veja que ha luz aqui, emquanto que nós, atravez d’esta ligeira cortina de cassa, podemos ver tudo o que alli se passa. Olhe, minha senhora, tenha a bondade de vêr...
—Ambrosina põe a cara á vidraça e murmura:
—Effectivamente, vejo muito bem, porque o quarto està muito illuminado... a rapariga trabalha...
—Sim, e agora é preciso termos paciencia, devemos esperar que ella adormeça.
—Mas se não adormecer?
—Oh! estou certa do contrario, graças a um ligeiro narcotico que misturei na chavena de chá que lhe fiz tomar, e creio que era isso necessario, porque ella estava muito decidida a não dormir. Mas aquella beberagem não fará talvez o seu effeito senão dentro de duas ou tres horas... d’aqui até lá, se a senhora quer encostar-se n’esta poltrona...
—Não, minha senhora, muito agradecida, não tenho vontade de dormir, porque estou com muita curiosidade de saber o que sairá de tudo isto.
Esta conversação era toda em voz baixa, o que augmentava o mysterio que esta noite devia descobrir. As tres pessoas alli reunidas teem-se sentado e guardam silencio, pondo os ouvidos á escuta do que se passa no quarto onde está Lisa. A irmã da sr.ª Durmont, que sabe bem o seu recado, pede de beber; a rapariga apressa-se a dar-lhe a tisana, e em seguida offerece-lhe uma colhér de xarope, que é logo acceita. Lisa torna a pôr a colhér em cima do meza, e senta-se ao lado. A supposta enferma adormece devéras, e a rapariga põe-se de novo ao seu trabalho.
Assim se passa uma hora, e depois outra. A anciedade de Casimiro augmenta; Ambrosina não diz palavra, mas não fecha os olhos. A sr.ª Durmont olha constantemente pela vidraça, murmurando:
—Mas a pequena não adormece... conseguiria ella vencer o narcotico!...
—Passam ainda alguns minutos, que parecem seculos; a final a sr.ª Durmont exclama:
—Ah! debalde pretende resistir, cae-lhe o trabalho das mãos, vae adormecer...
—Sim, sim, adormece, diz Casimiro; veja, lá inclinou a cabeça para traz. Oh! ella ahi está bem adormecida...
—E agora, diz Ambrosina olhando tambem pela vidraça, o que é que se vae passar?...
—Espere, minha senhora, espere que o somno seja bem profundo, agora podemos levantar de todo esta cortina sem receio de sermos vistos.
E’ levantada a cortina. As tres pessoas que espreitam estão com os olhos pregados em Lisa; esta, no fim de algum tempo, agita-se; o seu somno parece desassocegado e molesto.
—Coitada! parece-me bem afflicta, diz Casimiro, deve estar com algum sonho máu...
—Ah! ahi acorda ella... porque lá se levanta e abre os olhos, diz Ambrosina.
—Silencio, minha senhora, silencio, diz a sr.ª Durmont; ella continúa dormindo, não vê que é somnambula?
—Somnambula!
—Pois! escute... está falando...
Lisa, que continua a dormir, não obstante estar com os olhos muito abertos, levanta-se da cadeira, dizendo:
—Sim, avósinha, sim, vou fechar a sua colhér de prata... que a avósinha estima tanto, e que tem tanto medo que nos furtem. Oh! mas eu a esconderei bem, não tenha cuidado, sempre no mesmo sitio, a avósinha bem sabe, debaixo do meu colchão de crina...
E Lisa vae immediatamente buscar a colhér que está em cima da mesa, e, indo pôr-se de joelhos deante da cama, mette-a entre o leito e o colchão; depois ergue-se, dizendo:
—Oh! está bem escondida, ninguem dará com ella... não tenha medo agora, avósinha...
Lisa volta para o seu logar, torna a sentar-se e fecha os olhos. A’s tres pessoas que espreitam pela vidraça, não lhes escapou nada do que se passou. Casimiro está transportado de alegria.
—Justificada! exclama elle, está justificada, porque as outras colhéres devem estar escondidas no mesmo sitio, não é verdade, minha senhora?
—Certamente! responde a sr.ª Durmont, esta rapariga é somnambula, eis o que eu havia adivinhado; eis o que eu tinha a peito fazer-lhes ver: agora, venham, podemos entrar no quarto, que ella não acordará...
—Somnambula! diz Ambrosina, que custa a cair em si do seu espanto. Ah! estou com muita curiosidade de a examinar de perto.
Aberta a porta de vidraça, entram todos tres no quarto de dormir. Lisa está na poltrona, com a cabeça inclinada para traz, e, na agitação do seu somno, afastou completamente o lencinho que lhe cobria o pescoço; pode-se então ver uma pequena medalha presa a uma fita preta, que ella traz sempre escondida debaixo do vestido.
A sr.ª Montémolly, que duvida ainda do somno de Lisa, approxima-se d’ella e examina-a com muita attenção.
—Venha, minha senhora, diz-lhe Casimiro, venha, vamos a sua casa, a colhér deve estar egualmente escondida debaixo do leito da sua doentinha; é preciso que a senhora tenha pessoalmente a prova da innocencia de Lisa...
Mas Ambrosina parece estar attonita; acaba de ver a medalha que a rapariga traz ao pescoço; essa medalha, que tem uma fórma particular, é esmaltada toda em roda e artisticamente lavrada. Ambrosina não pode tirar d’ella os olhos, e responde apenas a Casimiro:
—Vá, senhor, vá com essa senhora... não precisam de mim; a minha creada está velando, com luz... demais, aqui teem a minha chave...
—Mas porque não vem a senhora comnosco?
—Porque não, alguma coisa muito mais importante me faz ficar ao pé de Lisa; logo saberão o que é... andem, vão...
Casimiro não insiste, porque demais está com pressa de ir procurar a outra colhér; a sr.ª Durmont não tem menos pressa, porque sente certo orgulho em ter conseguido descobrir o mysterio que envolvia as acções de Lisa. Na escada encontram Rouflard, o qual se puzera alli de sentinella.
—Justificada! diz-lhe logo Casimiro, Lisa é somnambula, e a dormir, pensando sempre na colhér da avó, esconde debaixo do colchão de crina quantas colhéres encontra á mão. Vamos procurar a que ella deve ter escondido assim em casa da sr.ª Montémolly.
—Ah! por favor, permittam-me que vá tambem, exclama Rouflard, gostarei muito de ver a cara que vae fazer a besbilhoteira da creada!...
—Venha, Rouflard, venha...
Entram em casa de Ambrosina, e acham a menina Adriana a dormir na sala em vez de estar velando á cabeceira da doentinha; mas Casimiro desperta-a dizendo-lhe:
—Venha comnosco, menina, conduza-nos ao quarto onde Lisa passou hontem a noite; vamos lá achar esse objecto perdido...
—A colhér? ah! isso agora é forte de mais; se eu procurei por toda a parte inutilmente!...
Mas não fazem caso do que diz a creada, e dirigem-se todos ao bonito quarto onde dorme a pequenita. Ahi, Casimiro corre á cama, busca debaixo do colchão de crina e não tarda a soltar um grito de jubilo, tirando para fóra a colhér e mostrando-a a toda a gente.
Então Rouflard pula de alegria, e diz a Adriana:
—Responda a isto, má lingua! parece que não tinha buscado por toda a parte!
—Oh! valha-me Deus! quem é que podia suspeitar que se fosse pôr uma colhér de prata n’este sitio; com que fim?
—Quando uma pessoa é somnambula faz coisas muito mais admiraveis!
—Somnambula?...
—Sim, eis todo o mysterio! Ah! subo a casa dos Proh, para lhes dizer onde teem a colhér...
—Mas elles estão a dormir, Rouflard!
—Razão de mais, meu artista; isso ha de fazer-lhes mais effeito! quero que a justificação do meu anjo bom faça tanta bulha como as calumnias que lhe accusavam.
XVIII
Outra descoberta
Casimiro e a sr.ª Durmont voltam a ter com Ambrosina; acham-n’a ainda ao pé de Lisa, que não acordou, devorando com os olhos a medalha suspensa ao pescoço da donzella, mas não se atrevendo a tocar-lhe, com receio de a fazer sair do somno um pouco forçado em que a mergulhou o narcotico que lhe fizeram tomar.
—Minha senhora! minha senhora! aqui tem a sua colhér! exclama Casimiro mostrando a colhér de prata; estava escondida como aqui; graças a esta senhora, a pobre rapariga está plenamente justificada...
—Sim, senhor, sim; eu não duvidava d’isso; mas alguma coisa que não posso comprehender me detem ao pé de Lisa; esta medalha que ella traz, é exactamente como aquella que eu tinha posto ao pescoço de minha filha; a minha abria-se, e na parte anterior tinha eu mandado gravar duas letras: um A e um G, que eram as iniciaes do meu nome e do de seu pae; ardo em desejo de saber se esta medalha se pode abrir, mas não me atrevo a tocar-lhe com receio de acordar esta menina...
—Oh! não ha perigo! diz a sr.ª Durmont, o seu somno é profundo agora; espere... espere, vou tirar-lhe; ou antes desatar esta fita.
A inquilina do segundo andar faz esta operação com muito geito; desata a fita, tira a medalha, e apresenta-a a Ambrosina; esta pega n’ella com a mão tremula, busca, descobre a juntura; a medalha abre-se. Ambrosina dá um grande grito, acaba de reconhecer as duas letras, e mostra-as ás pessoas que a rodeiam, dizendo-lhes:
—Olhem! vejam... um A e um G... é exactamente a medalha que eu tinha posto ao pescoço de minha filha quando a entreguei á ama. Como é que ella se acha ao pescoço d’esta menina?
Entretanto o grito dado por Ambrosina acordou Lisa, que abre os olhos, põe-se a olhar para as pessoas que a cercam, e balbucia:
—Meu Deus! o que é que eu fiz ainda?...
—Não receie nada, minha menina, diz a sr.ª Durmont, a sua innocencia está reconhecida; tudo lhe será explicado...
—Mas n’este momento, diz Ambrosina, queira responder-me, esta medalha, que a menina trazia ao pescoço, e que eu tomei a liberdade de lhe tirar para a examinar de mais perto, d’onde lhe veiu? de quem a houve?
—De quem a houve? mas eu tenho-a tido sempre, foi minha mãe que m’a pôz ao pescoço quando me levou para casa da minha ama.
—Sua mãe? meu Deus!... como se chama ella?
—Eu nunca o soube, ella não dizia o seu nome quando vinha ver-me a casa da minha ama...
—Como! a menina não sabe? e tem comsigo sua avó... ella existe?...
—Ah! minha senhora, a pobre velha paralytica não é minha parenta; era mãe da minha boa ama, que tinha muito cuidado em mim, que me conservou comsigo, quando minha mãe me abandonou; eis a razão por que eu, quando a minha ama morreu, tive sempre cuidado em sua mãe...
—Meu Deus! tudo o que estou ouvindo... minha menina... por quem é... diga-me a terra onde foi educada...
—Em Pierrefitte, minha senhora...
—Pierrefitte... está bem, ah!... e o nome da sua ama...
—Catharina Vauger...
—Ah! não me resta duvida! és minha filha!...
Ambrosina aperta Lisa nos braços, e cobre-a de beijos, dizendo-lhe:
—Sim, és effectivamente minha filha, mas não creias que eu tivesse nunca o pensamento de te abandonar, eu, que era tão feliz em ter uma filha! Tu foste... fomos ambas indignamente enganadas; eu tinha uma tia que te detestava; durante uma viagem que fiz a Italia para restabelecer a minha saude, essa tia, a quem eu tinha recommendado muito que velasse por ti, annunciou-me que tinhas deixado de viver!...
—Oh! então, deve ter sido ella que escreveu á minha ama, remettendo-lhe uma quantia bastante avultada, para que viesse estabelecer-se em Paris, e não me chamasse mais senão Lisa em vez de Leontina, que era o nome que minha mãe me tinha dado...
—Leontina... ah! é isso mesmo... tua mãe... mas sou eu... querida filha, sou eu mesma... acaso não terás por mim alguma affeição... não me perdoarás... o mal que te tenho feito?...
—Oh! minha senhora... minha mãe... já me não lembro d’isso!
As testemunhas d’esta scena tomam parte na alegria, no enternecimento d’estas duas mulheres, uma das quaes torna a encontrar a filha que tinha por morta ha muito tempo, emquanto que a outra, que quasi todos accusavam, que suspeitavam culpada d’uma acção deshonrosa, se vê agora abraçada, coberta de caricias e de lagrimas por uma bella senhora que é sua mãe. Lisa, no auge da sua alegria, extende as mãos a Casimiro, exclamando:
—Ah! o senhor é que nunca me julgou criminosa!
Depois agradece á sr.ª Durmont dizendo-lhe:
—E’ pois á senhora que eu devo o ter recuperado a estima do mundo, como é que se houve então para provar a minha innocencia?
—Minha querida menina, depois de tudo o que se passára, eu tinha adivinhado que a menina era somnambula, e não me enganava.
—O quê! eu sou somnambula!...
—Sim, sem duvida, quando está a dormir, sempre preoccupada com a colhér de prata que deu á sua velha companheira, e receando que lh’a furtem, a menina pega na que tem perto de si, pensando que é a sua, e esconde-a. Oh! isso não tem nada de muito extraordinario; tenho visto fazer a somnabulos coisas muito mais de espantar!...
—Mas, quando estou acordada, devia lembrar-me do que fiz estando a dormir!...
—Não, minha filha, os somnambulos não se recordam nunca do que fizeram emquanto estiveram entregues a esse somno em acção, e é isso o que ha de mais singular n’essa doença, porque é effectivamente uma doença, mas que passa com a mocidade, e desapparece inteiramente quando a edade tem acalmado as nossas paixões e o calor do nosso sangue.
—Agora, diz Ambrosina, não incommodemos mais tempo esta senhora, a quem eu devo tambem a minha felicidade, pois que é, graças á idéa que ella teve de te ver adormecida, que eu pude examinar essa medalha e tornar a achar minha filha. Vem, minha querida Lisa, vem para casa de tua mãe, a quem não deixarás mais d’aqui em deante.
Lisa está perplexa e confusa, sorri-se para sua mãe, e balbucia:
—E a pobre velha de quem nunca me tenho separado... acaso quereria que eu a abandonasse?
—Não, não querida filha, comprehendo o teu coração, não quero causar-te nenhum desgosto; a mãe da tua ama não se ha de separar de ti, tomal-a-hei para a nossa companhia, a minha casa é bastante grande para que eu possa dar-lhe um quarto. D’este modo nada lhe faltará, e tu velarás sempre por ella...
—Ah! minha senhora... minha mãe... é tambem muito bondosa!
—E, agora que vem rompendo a aurora, vou subir comtigo a esse pobre quarto que habitavas; participaremos á boa velha que já não és orphã e que tua mãe nunca te tinha abandonado; eu te mostrarei a carta de minha tia, em que ella me annunciava que tinha perdido minha filha; tenho conservado sempre essa carta...
—E eu, minha mãe, hei de mostrar-lhe a carta que a minha ama recebeu juntamente com uma quantia, e na qual se lhe ordenava que não me chamasse mais senão Lisa e que viesse estabelecer-se em Paris.
—Oh! sim, e estou certa que hei de reconhecer a letra de minha tia.
Ambrosina está contentissima; estende a mão a Casimiro, dizendo-lhe:
—De hoje em deante somos amigos, e espero que não veja mais em mim senão a mãe de Lisa, que lhe agradece de todo o coração o interesse, a amizade que o senhor tinha por sua filha e que nunca se opporá ao que podér fazer a sua felicidade.
Casimiro aperta de bom grado esta mão, que ê agora a d’uma pessoa amiga.
Despedem-se todos da sr.ª Durmont, reiterando-lhe os seus agradecimentos, que tão bem merecidos eram. Lisa sobe ao seu quarto acompanhada por sua mãe, que não quer deixar mais a filha que um tão grande acaso acaba de lhe restituir. Na escada encontram ainda Rouflard, que sae de casa dos Proh, gritando:
—Elles lá teem a colhér, que nunca lhes tinha saído de casa. Mas, apre! tive um trabalhão immenso! não me queriam abrir a porta!
Ouvindo tocar a sua campainha no meio da noite, a familia Proh julgára primeiro inutil responder; mas, como o repique não cessava, tinha perguntado:
—Quem está ahi?
—Sou eu, gritára Rouflard, que venho fazer-lhe achar a sua colhér!
Ao reconhecer a voz de Rouflard, o professor respondera:
—O senhor é um maroto, quer perturbar o nosso somno com esse ignobil gracejo, ámanhã hei de mettel-o em processo.
Ao que Rouflard, replicára:
—Eu não gracejo, é o senhor e todos os seus que são uma familia de pepinos! Eu tenho a peito fazer-lhes reconhecer a innocencia de Lisa, que é somnambula, e vou fazer-lhes achar a sua colhér! tocarei a campainha até ámanhã se fôr necessario.
A sr.ª Proh decide-se emfim a abrir. Então Rouflard diz:
—Venham todos commigo ao quarto onde Lisa passou a noite; ella escondeu a colhér debaixo do colchão de crina...
—Não é possivel, diz Angelina, eu teria dado por isso!
—E de que modo, se a menina estava a dormir?... Vamos lá sempre.
Dirigem-se todos ao quarto da donzella. O rapazinho que se tem tambem levantado e ouve tudo, exclama:
—Eu vou procurar debaixo do colchão...
—Não, não, tu não tens o braço bastante comprido, diz Rouflard, que busque o illustre professor, se isso lhe é agradavel...
—Eu! prestar-me a essa nova mangação, para o senhor fazer chacota de mim!...não conte com isso...
Mas, durante esta altercação, a sr.ª Proh, que está muito impaciente, tem-se já posto de joelhos deante da cama; mette o braço debaixo do colchão, e em seguida tira de lá para fóra a colhér, dizendo:
—Pois é verdade, ella cá está!
—Então, professor, é mentira o que eu lhe dizia? Que diz a isto?
—Direi o que isso prova: que as nossas mulheres, filhas ou creadas que teem a seu cargo o arranjo da casa, não se dão ao trabalho de levantar os colchões quando fazem as camas!...
—Ora, senhor! exclama a sr.ª Proh, as mulheres teem já tantas coisas que levantar!
Ambrosina acompanha a filha até á agua-furtada; acham a avó acordada, contam-lhe os acontecimentos da noite, e a boa da velha, á força de olhar para Ambrosina, de a examinar bem, exclama:
—Sim... é verdade... reconheço-a agora... foi a senhora que nos trouxe a pequena... e que voltou a vel-a muitas vezer a Pierrefitte.
Depois Lisa mostra a carta que a sua ama tinha recebido; Ambrosina reconhece a letra de sua tia, e, se ella tivesse ainda alguma duvida sobre a identidade de sua filha, esta ultima prova não podia deixar-lhe mais nenhuma. Pela sua parte, mostra tambem a Lisa a carta de sua tia que lhe annunciava a morte da filha, porque tem a peito provar a Lisa que nunca tivera a idéa de a abandonar.
No dia immediato a esta noite tão fecunda em acontecimentos, faz-se na casa uma grande mudança: como Florentina viera buscar a filha, Ambrosina dá a Lisa o lindo quarto azul onde estivera a pequenita; depois arranja-se um outro quarto para a velha paralytica, que é trazida da sua agua-furtada para o primeiro andar, e que fica muito satisfeita ao saber que, apezar da sua mudança de fortuna, a Lisinha, que ella considera como filha, não se quer separar d’ella.
Casimiro ficou muito espantado, e assim a modo triste, quando se descobriu o segredo do nascimento de Lisa; teve mesmo por um momento o coração opprimido, como quem receia perder a pessoa que ama. Mas em breve adquire a prova de que o amor maternal extinguiu em Ambrosina qualquer outro sentimento, e que para esta mulher, tão feliz por ter achado sua filha, o passado não é mais do que um sonho, de que ella nem mesmo quer conservar a recordação. O joven pintor pode pois agora ver Lisa em casa de sua mãe. Mas durante os primeiros mezes que se seguem a este acontecimento, põe n’isso certa discreção, porque comprehende que ha situações que precisam de tempo para se consolidarem. Demais, Casimiro trabalha agora muito; o bom acolhimento que os seus quadros obteem, redobra o seu enthusiasmo, o seu amor pela pintura; em todas as artes, não é preciso muitas vezes mais que um bom exito para tirar um homem da mediocridade, para fazer d’elle uma celebridade, e por falta d’esse bom exito quantos talentos não teem morrido, sem terem desenfardado as suas mercadorias, como diz Montaigne.
Seis mezes depois d’estes acontecimentos, morre o sr. Loursain, em consequencia d’uma indigestão. Ambrosina sabe que está viuva, e, o que a surprehende muito mais, é que recebe uma carta d’um tabellião, que lhe participa que seu marido lhe deixou toda a sua fortuna, que anda por perto de trezentos mil francos. A menina Rosa, a creada tão janota e presumida, que seu amo tratava por tu, teve apenas em legado uma quantia de seiscentos francos, e o retrato do corpo inteiro do sr. Loursain. A creadinha, na força da sua colera, manda accrescentar no retrato um par de chifres e vende-o para servir de taboleta a um salsicheiro, que manda escrever por baixo: _O boi da moda_.
Ambrosina, que tencionava entregar á filha uma parte dos seus haveres, dá-lhe primeiro em dote a fortuna que lhe deixa o sr. Loursain, comprando ella para si uma bonita casa nos suburbios de Paris, onde faz tenção de ir viver quando Lisa casar com Casimiro.
Essa união pouco tarda a fazer-se, porque Lisa confessou a sua mãe que ama o rapaz que lhe fez o retrato. Ambrosina estabelece os jovens noivos n’uma linda habitação, e retira-se para a casa de campo, onde agora quer viver sempre; Lisa, porém, se deixou sua mãe, não quiz, posto que casada separar-se d’aquella de quem cuidava tão carinhosamente na sua pobre agua-furtada, da boa velha a quem ella chamava avó, e Casimiro, lá de si para si, estima cem vezes mais que ella tenha na sua companhia esta do que a outra.
Desde que em casa dos Proh se achou a colhér de prata, o Fonfonsinho não cessa de gritar por toda a parte:
—Lisa é funanbula! e quando uma pessoa é funanbula esconde tudo quanto quer:
Debalde a sr.ª Proh diz ao filho:
—Não é funambula, somnambula é que essa menina era...
—Qual é a differença?
—A differença, meu filho, é que os somnambulos andam a dormir e os funambulos andam n’uma corda e até dansam, estando acordados.
—Pois bem! eu antes quero ser somnambulo!
—Para quê, filho? o somnambulismo é uma enfermidade, emquanto que o funambulismo é um talento!
—Sim, mas quando eu fôr somnambulo hei de esconder todos os covilhetes de doce.
—Nada ganharias com isso, Affonso, pois que, em acordando, ninguem se lembra mais do que fez no estado de somnambulismo.
—Ah! pois não! então eu sou tolo! não serei somnambulo senão d’um olho!...
O sr. Proh bate com a mão na testa, exclamando:
—Este rapazinho ha de ir longe!
Graças ao trabalho que Casimiro lhe arranja Rouflard pode viver; poderia mesmo ter um quarto um pouco melhor, mas elle não quer mudar-se, dizendo que está habituado a morar alli, assim como a chamar ao porteiro seu creado; como o pintor já não mora no predio, Chausson deixa algumas vezes o seu antigo amo dormir na rua, porque este continúa a embriagar-se do mesmo modo. Em vão Casimiro lhe diz:
—É preciso corrigir-se d’esse ruim defeito, Rouflard; quando um homem quer devéras, de tudo se emenda! veja o exemplo em mim, eu era um preguiçoso, hoje gosto do trabalho.
—Isso é muito bonito, responde Rouflard, mas eu preciso de consolações; morava por baixo de mim um anjo, o senhor levou-o para longe! quando estou bebedo, affigura-se-me que o tenho ainda ao pé de mim, e é por isso que bebo!
FIM DA «A MENINA LISA»
OBRAS COMPLETAS DE PAULO DE KOCK
_Estão publicados 23 volumes_
A seguir:
O homem dos tres calções (2 vol.)
INDICE
Pag.
Palavreado para servir de prefacio 5
I—Uma creada que sae a recados 11
II—Na botica 22
III—Um rapaz manteúdo 36
IV—Um almoço em intimidade 48
V—O lindo Rouflard 62
VI—A familia Proh 72
VII—A menina Lisa 79
VIII—Travam conhecimento 88
IX—Uma colhér de prata 97
X—Ainda as creadas 105
XI—O vinho quinado 111
XII—A primeira sessão 117
XIII—Um rapazito endiabrado 128
XIV—A senhora do primeiro andar 137