Part 12
—Menina, venho pedir-lhe um obsequio; tenho em minha casa a filha d’uma das minhas melhores amigas, que m’a confiou emquanto dura uma viagem que ella era obrigada a fazer; tenho os maiores cuidados com a Adelinasinha; mas este anjinho está n’este momento com sarampo e com uma febre ardentissima; a minha creada, que tem medo do sarampo, não tracta d’ella muito bem. Emfim, a menina fazia-me um grandissimo obsequio se quizesse vir passar esta noite á cabeceira da doentinha. Como sei que teve essa complacencia para com a sr.ª Proh, pensei que se não recusaria a fazer outro tanto por mim.
—Sim, minha senhora, responde Lisa suspirando sim, passei uma noite á cabeceira da filha da sr.ª Proh, mas deve saber que desgosto isso me occasionou; desappareceu n’essa noite uma colhér de prata, que não se achou mais; a sr.ª Proh bem sabe que não fui eu que lh’a tirei; mas, apesar d’isso, quem sabe! ha talvez ainda pessoas que suspeitam de mim.
—Este meu passo, deve provar-lhe que eu não sou d’essas pessoas; ao contrario, pedindo-lhe que vá ficar de noite em minha casa, pensei que isso poria termo a todos esses contos inconvenientes. A menina não se pode recusar...
—Mas, minha senhora...
—Não lhe peço que vá ás dez horas, desça um pouco antes da meia noite; depois, voltará cedo para sua casa. Bem vê que sua avó não terá tempo de dar pela sua ausencia...
—Minha senhora, não me atrevo a recusar; entretanto isto custa-me muito; tenho tanto desgosto pela noite que passei em casa da sr.ª Proh.
—Isso é uma creancice; em minha casa nada tem que recear. Até á noite, alli pela volta da meia noite... ou antes se quizer.
—Oh! prefiro ir tarde.
—Muito bem, está tractado; espero pela menina, porque quero eu mesma apresental-a no quarto da minha doentinha.
Ambrosina retira-se. Lisa deseja ardentemente ver Casimiro para lhe dar parte da sua nova contrariedade; o joven pintor não se faz esperar muito tempo. Ao saber o que a sr.ª Montémolly acaba de pedir a Lisa, fica bastante surprehendido, e parece não gostar de que esta tenha acceitado.
—Acaso fiz mal em acceder a ir ficar de noite em casa d’essa senhora? diz a donzella.
—A menina não se podia excusar, comprehendo, tendo-se já prestado a ir a casa da sr.ª Proh.
—E depois, aquella senhora é agora muito amavel commigo; bem vê que não dá credito aos aleives que se teem espalhado por causa d’aquella colhér perdida.
—Vejo; effectivamente, o procedimento d’essa senhora prova que ella faz-lhe justiça; e todavia custa-me a acreditar que ella lhe queira bem...
—Porque não?
—Ah! porque... emfim, vá esta noite velar a Adelinasinha, mas ámanhã, de manhã cedo, eu espreitarei a sua volta para casa.
—Oh! voltarei muito cedo.
É meia noite menos alguns minutos quando Lisa bate á porta da senhora do primeiro andar. É a gorda Adriana que vem abrir-lh’a e a introduz junto de sua ama, que recebe a donzella com um sorriso que não é talvez bem franco, mas que quer parecel-o. A sr.ª Montémolly apressa-se a conduzir Lisa para um lindo quarto onde dorme a doentinha, dizendo:
—Puz Adelina no quarto que reservo para a mãe d’ella, quando habita no campo e vem por acaso a Paris. Penso que a menina ficará aqui muito bem; por este corredor pode-se sair sem haver necessidade de acordar ninguem.
—Oh! minha senhora, eu não terei necessidade de sair esta noite, para quê?
—Ahi tem uma poltrona onde poderá repousar e mesmo dormir um pouco, se a doentinha estiver em socego. Aqui tem livros... Ah! quer cear?
—Oh! não, minha senhora, eu nunca ceio.
—Em todo o caso, se tiver fome, aqui tem bolos, biscoitos e vinho. Isto é tisana para a pequena; n’esta garrafinha está um calmante. E então, aquella tola da Adriana não poz aqui uma colhér! Adriana! Adriana!...
A creada acode esfregando os olhos.
—Adriana, traga para aqui uma colhér grande e algumas pequenas; se esta menina quizer tomar vinho com assucar, não se ha de servir da mesma colhér que empregar para a tisana.
A creada sae, e volta logo em seguida com uma colhér grande e duas pequenas, que ella põe em cima da mesa de cabeceira, dizendo:
—Isto faz uma colhér grande e tres pequenas... porque já cá estava uma.
—Está bem, Adriana, está bem! ninguem lhe pergunta a conta.
—Mas eu desejo muito fazer ver isto á senhora.
—Vá-se deitar.
—Isso e o que eu quero é a mesma coisa.
—Agora, menina Lisa, vou tambem descançar... a menina tem o que lhe é preciso; não deseja mais nada?
—Não, minha senhora, muito agradecida.
—Quando a pequenita acordar, é preciso fazel-a beber; depois, se tossir, deve-lhe dar o calmante.
—Pode ir socegada, minha senhora.
—Boa noite, até ámanhã. Virei cedo saber noticias da minha Adelina.
Lisa fica só. Põe-se a admirar o quarto onde se acha; a mobilia é toda nova e d’um gosto lindo.
—Que felicidade não é viver n’um aposento tão bonito, diz ella comsigo; mas a final de contas, tambem aqui se pode estar muito doente, e ter tanto desgosto como n’um modesto quarto de qualquer agua-furtada; eis aqui uns livros, mas não lerei nenhum, trouxe o meu trabalho, vou trabalhar.
Lisa deita-se ao bordado. D’ahi a pouco a Adelinasinha acorda, e ella dá-lhe de beber; um pouco mais tarde a creança tosse, e ella faz-lhe tomar uma colhér do calmante. Assim se passa uma parte da noite. Pela volta das tres horas, o somno apodera-se de Lisa, que procura em vão resistir-lhe porque n’ella a necessidade de dormir era tão imperiosa que não a podia vencer. Mas, como a sua doentinha dorme mui socegadamente, a joven enfermeira não tarda a fazer outro tanto.
Cerca das sete horas da manhã, Lisa acorda, e quasi no mesmo instante, abre-se uma porta e aparece a sr.ª Montémolly embrulhada n’um lindo roupão. Approxima-se da cama dizendo:
—Então, como vae a pequenita? passou bem a noite?
—Sim, minha senhora, muito bem; a menina tossiu pouco e dormiu optimamente; eu mesma cedi um pouco ao somno esta madrugada.
—Não ha mal nenhum n’isso, visto que a pequena não precisava de nada. Ah! ahi acorda ella. Bons dias, Adelina, como te sentes esta manhã?
A pequenita responde que se sente melhor, mas põe-se a tossir; Ambrosina exclama logo:
—Dê-me uma colhér do calmante, para eu lh’o fazer tomar; isso ha de aplacar-lhe a tosse.
Lisa corre á mesa onde estava o frasquinho e a colhér.
—Então, dê-me esse calmante, torna Ambrosina, bem ouve a creança estar a tossir...
—Sim, minha senhora, sim... mas é que... não acho a colhér...
—É que a pôz n’outro sitio... faça favor de a procurar...
—Valha-me Deus! é o que eu estou fazendo, minha senhora; mas não percebo isto... não a vejo...
—Mas a menina sabe muito bem que lhe ficou aqui uma, não é verdade?
—De certo, minha senhora, pois que me servi d’ella duas vezes esta noite...
—Então é que procura mal. Adriana! Adriana!... ah! é capaz de estar ainda a dormir... Adriana!...
Chega emfim a creada, esfregando os olhos:
—O que é, minha senhora?
—É que esta menina não acha a colhér que estava aqui hontem á noite...
—Ah! bem me lembro, havia uma grande e tres pequenas...
—As tres pequenas aqui estão, diz Lisa, mas não comprehendo como a grande não está aqui tambem...
—Ora! exclama a menina Adriana, olhem que admiração! terá ido juntar-se com a da sr.ª Proh...
—Oh! menina, é indigno isso que está dizendo! Minha senhora, acaso vae tambem pensar que tenho eu a sua colhér?
—Menina, o que quer que eu lhe diga... quando os factos falam... é preciso render-se a gente á evidencia; a menina mesma concorda em que tinha aqui uma colhér de prata...
—Sim, minha senhora, sim convenho n’isso; repito-lhe que me servi d’ella esta noite para dar o calmante á menina...
—Pois bem! vossemecê ficou sósinha aqui esta noite... e esta manhã esse objecto desappareceu. Que outra pessoa, por consequencia, pode tel-a tirado?
—Oh! minha senhora, reviste-me, faça favor... verá que o não tenho...
—É inutil, quando alguem tira uma coisa não a esconde em si.
—Oh! é o mesmo, exclama Adriana, vou revistal-a eu; porque, emfim, não quero que se perca prata nenhuma na casa onde eu estou a servir.
A creada corre ás algibeiras de Lisa, e vira-as inteiramente; depois apalpa a rapariga de alto a baixo, e termina a sua inspecção exclamando:
—Nada! oh! affianço que não tem a colhér em si.
—Então, minha senhora, bem vê, diz Lisa.
—Vejo que a não escondeu em si; mas, se não a acharmos, é que a menina a terá levado para outra parte.
—Mas para onde, minha senhora, se não saí d’este quarto?
—Quem me prova isso? por este corredor pode-se sair perfeitamente sem acordar ninguem...
—Oh! minha senhora, é horrivel pensar isso. Meu Deus meu Deus! sou bem desgraçada!...
Lisa rompe em soluços. Adriana tem-se posto de gatas e esquadrinha debaixo de todos os moveis; mae em vão se procura por toda a parte, a colhér não se acha. Ambrosina approxima-se da pobre Lisa, que se afflige muito, e diz-lhe:
—Socegue, não darei seguimento a este negocio, o que outrem talvez faria, vá, não a demoro mais. Tomarei unicamente a liberdade de dizer ao sr. Casimiro que não é feliz na escolha dos seus novos conhecimentos.
Lisa não escuta mais nada; tarda-lhe sair d’aquelle quarto, que ella achou tão bonito na vespera. Caminha, mal podendo suster-se, e chega assim até á escada. Mas, no segundo andar, encontra Casimiro, que a estava esperando, e que exclama, vendo-a lavada em lagrimas:
—O que foi? que succedeu? o que tem a menina ainda? o que é que lhe fizeram para chorar assim?
Lisa conta a Casimiro o que se acaba de passar, e refere-lhe as palavras de Ambrosina, que lhe disse que ella teria podido sair sem acordar ninguem.
—Mas então, diz Casimiro, podia-se tambem chegar até junto da menina sem ser ouvido. A menina dormiu durante a noite?
—Ai! sim, pelas tres horas não pude resistir ao somno, é mais forte do que eu.
—Ah! que fatalidade, porque durante o seu somno poude alguem entrar n’esse quarto..
—Não me parece porque teria acordado.,.
—Suppôr que a menina tenha tirado essa colhér, isso não tem senso commum, depois do que aconteceu em casa da sr.ª Proh... que lhe causou tão grande degosto!
—É justamente por isso que me accusam ainda, a creada d’essa senhora disse-me: «A colhér foi-se juntar cem a da sr.ª Proh.»
—Isso é indigno!... mas socegue, Lisa, ha em tudo isto um mysterio que eu conseguirei descobrir, não descançarei emquanto a sua innocencia não estiver completamente reconhecida.
O joven pintor consegue acalmar um pouco a magua de Lisa, acompanha-a até á sua porta, e deixa-a promettendo-lhe mais uma vez que ha-de obrigar toda a gente a fazer-lhe justiça. Mas Casimiro promettia o que elle proprio não sabia como cumprir, porque debalde dava tratos á imaginação para adivinhar como era que as colhéres de prata desappareciam dos quartos onde Lisa passava a noite.
Depois de ter entrado um momento em sua casa, Casimiro sae, decidido a ir ter com Ambrosina, para saber se ella crê devéras que a rapariga seja criminosa. Mas já a aventura da noite é sabida em todo o predio; porque o primeiro cuidado de Adriana foi ir dizer ao porteiro que a menina Lisa deu em casa de sua ama segunda representação da noite em que ficara em casa da sr.ª Proh. Chausson, que sente certa sympathia pela inquilina do quinto andar, tem muita pena de ser obrigado a julgal-a criminosa, mas Rouflard, que escutou a creada de Ambrosina, diz-lhe:
—A menina é uma tola em ter má lingua! é mister ser imbecil, depois das historias da colhér perdida em casa da sr.ª Proh, para suppôr que uma rapariga que quizesse commetter um furto repetisse exactamente a mesma historia dois andares mais abaixo...
—Pois bem! então onde está a colhér?
—Que sei eu? debaixo das suas saias talvez....
—O senhor insulta-me, eu sou uma rapariga honrada, toda a gente o sabe, e tenho orgulho n’isso.
—Quem é honrada, não se gaba de o ser, não faz mais que o seu dever....
—Fica-lhe bem falar assim, o senhor que bebe o _rhum_ que lhe mandam comprar. Ah! eu sei essa historia; o porteiro tem-me contado as suas proezas.
—Contou-lhe tambem as d’elle, quando era meu creado?
—O senhor teve um creado? oh! é boa pilheria...
—Pouco me importa que o acredite ou não, não é de mim que se tracta, é da menina Lisa, que eu lhe prohibo accusar de furto.
—O senhor prohibe-me! Ah! eu não faço caso das suas prohibições, sim, a menina Lisa furtou uma cochér, ou duas, para melhor dizer...
Adriana dizia isto gritando com todas as suas forças; Rouflard está furioso. Ao barulho que se faz no patamar do primeiro andar, quasi todos os inquilinos do predio teem saído de suas casas, e Casimiro chega alli no momento em que Ambrosina vinha tambem á escada para ordenar á sua creada que se callasse.
XVII
O que era
Casimiro pára deante de Ambrosina, dizendo-lhe.
—E a senhora tambem acredita que aquella menina lhe tenha tirado essa colhér de prata que lhe falta?
Ambrosina tracta de dominar a impressão que lhe causa a vista de Casimiro, com quem ella se não tinha encontrado desde a altercação que dera em resultado o rompimento das suas relações, e responde-lhe com um tom levemente ironico:
—Na verdade, sinto muito o que acontece, sobretudo por sua causa; lamento que seja a sua protegida aquella a quem o senhor sacrificou uma antiga amizade, que se tenha tornado culpada d’uma acção tão reprehensivel, mas é forçoso reconhecer o que é, o que não se pode negar...
—Mas, minha senhora, essa menina tem sido sempre um modelo de honestidade, de bom comportamento. A senhora sabe como ella trabalha para que a sua velha paralytica não sinta falta de coisa alguma...
—Tudo o que quizer, senhor, mas então ache-me a colhér...
—Podia ter entrado alguem em sua casa emquanto Lisa dormia, porque ella dormiu.
—Quem queria o senhor que entrasse... ladrões? mas o porteiro havia de saber se entraram alguns no predio, e o senhor não suppõe, presumo eu, que seja alguem da minha casa que tenha entrado no quarto onde a menina Lisa estava velando a Adelinasinha... Ella dormiu, diz o senhor, dil-o ella, mal quem o prova?
—Ora! demais, exclama a sr.ª Proh, que desceu do terceiro andar para se metter na conversação; não se dirá que em minha casa poude alguem entrar até junto da enfermeira; depois, ha em tudo isto alguma coisa que deve fazer condemnar Lisa, é o amor, a paixão da avó pelas colhéres de prata, a sua menina comprou-lhe uma ultimamente, que ella se apressou a mostrar-me. E’ provavel que a velha tenha querido ter outras...
—A senhora está a calumniar pessoas honradas, não o consentirei!...
—Eu não calumnio, digo o que é e custa pouco a dizer: Ella está innocente! está innocente! então onde estão as nossas colhéres?
Uma senhora que mora por cima de Ambrosina, que tem cincoenta annos, o ar muito distincto, o aspecto frio, severo mesmo, e não fala a ninguem no predio, mas que, attrahida pelo barulho que se faz na escada, ouviu tudo o que se acaba de dizer no patamar do primeiro andar, desce tambem ahi por sua vez, e diz a Casimiro:
—O senhor não crê a menina Lisa culpada, nem eu tão pouco; mas ha em tudo isto um mysterio que é preciso descobrir, estou persuadida de que o hei de conseguir eu...
—Ah! minha senhora! restituirá a vida a essa pobre Lisa, porque ella morrerá de desgosto se a sua innocencia não fôr por todos reconhecida... fale, o que tenciona fazer?...
—Senhor, para isso é preciso que essa menina consinta em vir passar esta noite em minha casa, dir-lhe-hei que minha irmã, que vive commigo, está doente, e que é preciso que alguem a fique velando...
—Ah! minha senhora, Lisa não quererá; depois do que lhe aconteceu duas vezes, como quer a senhora que ella consinta ainda em velar alguem?
—Consentirá se o senhor se encarregar de lhe pedir, se lhe disser que é para ficar certa da sua innocencia que lhe pede este ultimo sacrificio d’uma noite...
—Oh! minha senhora, se assim é, eu a decidirei a ficar velando esta noite em sua casa.
—Pois bem! então, mande-a vir á meia noite. Pedirei a estas senhoras que estejam em minha casa um pouco antes.
—Para quê? pergunta a sr.ª Proh.
—Para serem testemunhas do que lá se ha de passar, e, como espero, reconhecerem a innocencia de Lisa.
—Oh! a mim é-me impossivel estar de véla, isso constipa-me...
—Eu não faltarei, diz Ambrosina, antes da meia noite terei a honra de a ir visitar.
—Muito bem, com o sr. Casimiro e commigo, será o sufficiente. O senhor terá a extrema bondade de vir durante o dia dizer-me se Lisa consente em vir ficar de véla em minha casa?...
—Vou immediatamente lá acima, minha senhora, e em breve terá a sua resposta.
—Muito bem. Minhas senhoras, tenho a honra de as cumprimentar.
A sr.ª Durmont, é este o nome da inquilina do segundo andar, sobe para sua casa, deixando cada vizinha a fazer os seus commentarios.
—Eu não creio nada que esta senhora descubra o mysterio, diz a sr.ª Proh.
—Ficará tambem sem uma colhér, murmura Adriana.
A sr.ª Montémolly manda calar a creada, e entra com ella para casa.
—Ahi está uma senhora respeitavel, exclama Rouflard olhando para o segundo andar; aquella não é de continhos, diz lá comsigo: A pequena não tirou as colhéres, mas ha n’isso um mysterio, logo é preciso descobril-o...
—E como se haverá ella para isso? diz o porteiro.
—Isso está acima da sua capacidade...
—E da sua tambem...
—Vossê esquece-se da sua posição, meu ex-_frontinio_!...
—Qual _frontinio_!... eu sou guarda-portão...
—Então, varra melhor o pateo.
Casimiro não perde um instante; sobe a casa de Lisa, que elle acha sempre na mesma tristeza, e diz-lhe:
—Tenho boas noticias a annunciar-lhe. A sr.ª Durmont, esta senhora que mora no segundo andar, interessa-se pela menina e não duvida da sua innocencia...
—Ah! agradeço-lhe muito; com effeito, essa senhora sempre olhou para mim com bondade...
—Mas não é só isso; ella quer que a verdade seja conhecida de todos, que se descubra o que é feito das duas colhéres que desappareceram.
—Ah! como serei feliz se ella consegue fazer isso; é a vida, porque é a honra que essa senhora me restituirá. E o que fará ella para isso?
—Oh! vae parecer-lhe singular; mas é preciso que esta noite a menina consinta ainda em ir velar em casa d’ella, ao pé de sua irmã, que está doente.
—Velar, passar a noite longe de minha avó? oh! não, não, bem sabe que é uma coisa que sempre me traz desgraça.
—Mas d’esta vez é pelo contrario para a justificar que se lhe pede isso. O que pode recear? aquella senhora interessa-se pela menina, ceda pois, peço-lhe eu, consinta mais esta vez; tenho confiança na sr.ª Durmont, ella descobrirá de certo o mysterio que reina n’essas duas noites inexplicaveis...
—E’ essa a sua vontade? pois bem! farei o que o senhor quer; mas em casa d’essa senhora terei o cuidado de não adormecer.
—Sim, é isso; d’esse modo verá o que se passar. A’ meia noite virei buscal-a, e eu mesmo a levarei a casa d’essa senhora.
—Terá essa bondade?
—Ah! Lisa, tracta-se da sua felicidade, da sua reputação; pois a menina acredita que alguem tome n’isso mais interesse do que eu? Então, está ajustado; á meia noite estará prompta?
—Oh! sim, a essa hora já minha avó está a dormir.
—Eu virei buscal-a.
E, deixando Lisa, Casimiro dirige-se immediatamente a casa da vizinha do segundo andar, e diz-lhe:
—Lisa consentiu; á meia noite eu lh’a trarei.
—Muito bem.
—Prometteu não se deixar dormir, e eu incitei-a tambem a isso, para que ella veja se alguem vem ter com ella durante a noite.
—Oh! o senhor fez muito mal, pelo contrario, é preciso que Lisa durma, é indispensavel; é com isso que eu conto...
—Não a comprehendo, minha senhora.
—Ha de comprehender-me esta noite; demais, vou preparar uma bebida ligeiramente soporifica, e pedir-lhe-hei que a faça beber o senhor mesmo a essa menina, dizendo-lhe que é para se conservar bem esperta.
—Mas, minha senhora...
—Senhor, se Lisa não dormir, não saberemos nada, e esta experiencia será completamente inutil.
—Oh! n’esse caso obedecerei, porque tenho confiança na senhora.
—Folgo de crer que se não arrependerá. Venha, senhor, acompanhe-me, vou leval-o ao quarto onde Lisa ha de ficar velando esta noite; é onde dorme minha mana, que goza de perfeita saude, mas que fingirá estar doente, e pela noite adeante pedirá de beber duas ou tres vezes quando a sua enfermeira não estiver a dormir.
A sr.ª Durmont faz entrar o rapaz n’um bello quarto de dormir, que tem duas portas: uma, que é de vidraça, dá para outro quarto; ahi estão os vidros apenas cobertos por uma ligeira cortina de cassa. A senhora leva Casimiro a este quarto, e diz-lhe:
—Não acha, senhor, que detraz d’esta vidraça se pode ver tudo quanto se faz no quarto onde Lisa ha de ficar?
—Sim, minha senhora, effectivamente, não ha nada mais facil; como a cortina está d’este lado, pode-se facilmente affastar.
—Tanto mais que, pela maneira porque ha de estar allumiado o quarto de minha mana, esta porta de vidraça ficará completamente na obscuridade. Pois bem, senhor, é aqui, de traz d’esta vidraça e sem que a pequena o saiba, que nós passaremos a noite, o senhor, a vizinha do primeiro andar e eu; parece-lhe que poderemos assim vêr tudo o que Lisa fizer?
—Certamente, minha senhora; mas, não comprehendo...
—Espere, espere, e estou certa de que ha de comprehender esta noite. O senhor terá a bondade de me trazer a menina Lisa, e fingirá que vae para sua casa, mas voltará aqui por est’outro lado; não se esquecerá do caminho?
—Fique descançada, minha senhora, não me esquecerei de coisa alguma...
—Até á noite, senhor.
Casimiro deixa esta senhora, procurando em vão adivinhar o que ella espera. Emcontra Rouflard e communica-lhe as suas inquietações. O ex-janota abana a cabeça, dizendo:
—Eu tambem não adivinho nada em tudo isso; mas em todo o caso, affianço-lhe que passarei a noite na escada deante da porta d’essa senhora, e que se algum larapio de colhéres tentar introduzir-se na casa, começarei pelo desancar.
Assim que dá meia noite, Casimiro dirige-se a casa da sua vizinha. Acha-a muito triste, a tremer, mas prompta a seguil-o, porque sua avó está a dormir. A rapariga apressa-se a pegar no seu trabalho, e, sem dizer palavra, vae acceitar o braço que lhe offerece Casimiro. Descem assim alguns degraus.
—A menina está a tremer, diz-lhe o seu braceiro, tem frio?
—Não, pelo contrario, tenho muito calor; mas estou a tremer, porque adivinho ainda uma desgraça...
—Mas, ao contrario, são os seus desgostos que vão acabar, socegue, esta senhora quer que a sua innocencia brilhe aos olhos de toda a gente.
—E como se haverá para isso?...
—E’ segredo d’ella... tenha confiança.
Chegam ao segundo andar. A sr.ª Durmont vem pessoalmente ao seu encontro, e leva-os para o quarto onde a irmã está deitada ha muito tempo.
—E’ aqui que a menina ficará velando, diz ella á sua joven vizinha; tome uma chavena de chá, que lhe ha de fazer bem e conserval-a acordada.
—Agradecida, minha senhora, não preciso de nada.
—Lisa, diz Casimiro, tome o que esta senhora lhe offerece, peço-lhe eu, isso ha-de socegal-a.
—Se o senhor o deseja...
E a rapariga bebe o conteúdo da chavena que lhe apresentam.
—Agora, boa noite, diz Casimiro, vou para minha casa... até ámanhã...
—Sim, até ámanhã.
O joven pintor retira-se. A sr.ª Durmont diz então a Lisa:
—Minha menina, aqui tem tudo quanto lhe é preciso; tisana para quando minha irmã pedir de beber... uma colhér d’este xarope quando ella tossir.
—Uma colhér, ah! sim... ahi temos outra; mas podia-se passar sem ella, minha senhora.
—Não... pelo contrario, é indispensavel; precisa mais alguma coisa?
—Oh! não, minha senhora, de nada absolutamente.
—N’esse caso, vou deixal-a; minha irmã parece menos afflicta esta noite, creio que lhe dará pouco que fazer, aqui tem uma grande poltrona onde estará á sua vontade para repousar. Porque, se minha irmã dormir, tambem a menina pode descançar um pouco.
—Oh! não, minha senhora, não quero... velarei sempre...
—Boa noite, menina, até ámanhã.
Assim que a sr.ª Durmont se retira, Lisa senta-se n’uma cadeira e pega no seu trabalho, dizendo comsigo: