A menina Lisa

Part 10

Chapter 104,034 wordsPublic domain

Ambrosina retira-se, e Rouflard acompanha-a até ao patamar; mas aqui encontram-se de cara com a sr.ª Proh e o filho, o joven Fonfonso, que teima em querer montar-se na balaustrada. A amante de Casimiro tinha encontrado duas vezes em casa d’elle esta senhora estando em sessão para o retrato, conhecem-se pois um pouco. Cumprimemtam-se e trocam algumas phrases banaes.

—Minha senhora, tenho a honra de a cumprimentar; a sua saude parece-me sempre perfeita?...

—É? optima, muito agradecida, minha senhora. Ia a casa do sr. Casimiro?

—Não, minha senhora, n’este momento não ia lá; vou comprar cabeça de vitella para meu marido, que não gosta d’outra coisa para o almoço. É um habito em que se pôz. Oh! meu marido é devéras insupportavel com a sua cabeça de vitella! A senhora vem de casa do meu vizinho, do sr. Casimiro?

—Sim, tencionava dar-lhe sessão para o meu retrato.

—O meu está acabado, perfeitamente acabado; estou muito satisfeita com elle, ainda que toda a gente sustenta que me pareço com a sr.ª Saqui, que Deus haja, nos seus bons tempos; parece que era uma bonita mulher. E a senhora já acabou a sua sessão?

—Hoje não poude ser, o sr. Casimiro não está em casa, isto contraria-me, porque tinha sido hoje mais madrugadora do que costumo ser.

—Ah! o meu vizinho já saiu...

—Não! não! não! não saiu. Oh! oh! oh! hi! hi! hi! grita o Fonfonsinho, pendurando-se da balaustrada.

—Fonfonso, não te balouces assim da balaustrada, que podes cair.

—Mas quero eu balouçar-me!

—Este pequeno é incorrigivel!

—Perdão, minha senhora, mas parece-me que seu filho disse que o sr. Casimiro não tinha saído.

—O pequeno sabe lá o que diz, minha senhora!

—Sim, sim, eu bem sei onde está o pintor, onde elle vae todas as manhãs...

—Aonde vae todas as manhãs, mas então, Fonfonso, bem vês que o sr. Casimiro saiu.

—Não, porque elle vae lá acima, a casa da menina Lisa, para onde levou o cavallete e as tintas para estar a pintar como em sua casa. Hi! hi! hi! oh! oh! oh!

Ambrosina muda de côr, e a sr.ª Proh escancara os olhos, exclamando:

—O quê! o meu vizinho vae pintar em casa da pequena do quinto andar! palavra de honra, é a primeira vez que tal sei; mas este pequeno é extraordinario, minha senhora, sabe tudo, vê tudo o que se passa, não lhe escapa nada!

—Quem será essa menina Lisa que recebe o sr. Casimiro?

—É uma rapariga que vive com sua avó; a pobre velha está doente, meio paralytica; Lisa trabalha para a sustentar. Oh! é uma donzella honesta, muito capaz... pelo menos assim o creio.

—É bonita?

—Hum? bem sabe que isso depende do gosto, uma carinha que não é de todo desengraçada...

—Não! não! não! Rouflard diz que a menina Lisa é um anjo. Oh! oh! oh! ah! ah! ah!

—Ah! o Rouflard conhece-a, perdão, minha senhora, mas como é absolutamente preciso que eu fale ao Casimiro, tomo a liberdade de o ir procurar a casa d’essa menina. Não me disse que é no quinto andar?

—Sim, a porta á direita...

—A chave está sempre na fechadura. Hu! hu! hu!...

Ambrosina não quer ouvir mais, e galga os andares como um valente soldado sobe ao assalto. Chega acima n’um instante; acha effectivamente a chave na porta á direita, abre de repente, e dá com a menina Lisa sentada defronte de Casimiro, com a sua costura na mão, mas sem trabalhar; pela sua parte, o joven pintor está ao seu cavallete, com a palheta e o pincel nas mãos, mas sem pintar. Á vista d’esta pessoa que abriu a porta e se conserva immovel á entrada do quarto, o artista e o seu modelo ficam espantados. Mas Casimiro é o mais impressionado, porque Lisa recobra logo a sua placidez e diz a Ambrosina:

—É sem duvida a mim que a senhora procura, e é para me dar alguma obra a fazer? tenha a bondade de entrar...

—Não, responde Ambrosina com um tom arrogante, não é a menina quem eu procuro, não é pela menina que estou aqui, é este senhor quem venho procurar, este senhor que já não tem um momento para me dedicar, que não acaba o meu retrato, porque está fazendo o da menina. Aqui está então a causa de todas as suas mentiras, da sua mudança de procedimento; eu bem sabia que n’isto andavam amoricos! é para estar com esta menina que já não tem tempo de me ir vêr. Ah! como os homens são falsos!

A voz da mulher ciumenta torna-se estrepitosa, os seus olhares lançam chispas. Lisa está toda a tremer, grossas lagrimas lhe obscurecem os olhos, depois uma voz tremula e quebrada sae do leito, e diz:

—Lisa! o que é isso? pareceu-me ouvir gritar; estás altercando com alguem?

—Não, avósinha, não, não é nada...

E a donzella deita para Ambrosina uns olhares supplicantes, como para lhe dizer:

—Por quem é, não fale tão alto!

Mas já Casimiro se tem levantado, pegando na palheta, no quadro e nos pinceis, e dirige-se para a porta dizendo á sr.ª Montémolly:

—Faça favor de sair commigo, minha senhora, para pouparmos a esta menina uma bulha e uma scena pouco decorosa, faço isto, não pela senhora, mas em attenção a ella. Menina Lisa, desculpe-me de ter sido a causa d’este barulho, que acordou a sua avó, e pode ficar certa de que não tornará a acontecer similhante coisa.

Casimiro sae immediatamente para o patamar; Ambrosina, furiosa de ciumes, hesita em saír, e olha para Lisa, que parece sempre pedir-lhe que se cale, mostrando-lhe o leito da enferma. A zelosa dama decide-se emfim, sae do quarto, depois de ter lançado sobre a rapariga um olhar ameaçador, depois desce atraz de Casimiro, que entra para sua casa. Ella entra tambem, e deita um olhar furioso sobre Rouflard, que se afasta encolhendo os hombros e olha para o pintor como para lhe dizer:

—Não é culpa minha; o senhor é que não teve a prudencia necessaria.

Ambrosina entra no _atelier_, e atira comsigo para uma poltrona, exclamando:

—Ha muito tempo que duram estes amores, senhor, e que esta rapariga é sua amante?

Casimiro, que recobrou todo o seu socego, põe-se a trabalhar na sua obrasinha, e responde:

—Minha senhora, o ciume cega-a e faz-lhe dizer coisas indignas d’uma mulher que se preza. Estou fazendo o retrato d’uma menina que mora no meu predio; parece-me que isto é uma coisa que me é permittida, pois que o meu officio é tirar retratos. Achei alli uma cabeça encantadora, senti o desejo de a reproduzir na tela, tudo isto é muito natural. Propuz á menina Lisa que me servisse de modelo; ella a principio recusou-se por muito tempo, porque não quer deixar a avó um unico instante. Eu disse-lhe que iria trabalhar em sua casa, e ella recusava-se ainda; mas ganha apenas com que prover á sua existencia, e a doença de sua avó exige por vezes gastos inesperados; fiz comprehender a esta menina que, consentindo em me servir de modelo melhoraria a sua situação, e ella finalmente cedeu. A senhora pergunta-me desde quando sou amante d’essa pobre menina. Ah! se a conhecesse, não teria similhante pensamento! ella é recatada, honesta, não pensa senão no seu trabalho, em alliviar e consolar a sua velha doente, e eu, deante d’um procedimento tão digno, tão puro, ter-me-hia envergonhado de lhe dirigir uma unica palavra de amor.

A sr.ª Montémolly, que tem escutado tudo isto com impaciencia batendo muitas vezes com o pé no sobrado, assim que Casimiro acabou de falar, exclama:

—O senhor pensa que vou dar credito ás suas historias, aos seus contos! ao que parece, tem-me por tola! O senhor não tem dito uma palavra de amor a essa rapariga? O que estava então a fazer quando eu entrei? não estavam em atitude de quem trabalha, nem o senhor nem o seu modelo, olhavam um para o outro muito attentos, como se quizessem comer-se com os olhos; não ha necessidade de se falar de amor, quando se olha assim para alguem; os olhos dizem o bastante! e se o senhor não tivesse pensado em vir a ser amante d’essa rapariga, acaso teria feito um mysterio d’esse retrato, das suas idas ao quinto andar? E que tenciona então fazer do retrato d’essa menina?

—É um estudo, pol-o-hei no meu _atelier_.

—Pois saiba que o hei-de de fazer em tiras! E esse miseravel Rouflard, a quem o senhor tinha ensinado o recado, e que me disse que tinha ido ao Louvre! Estavam todos combinados para zombarem de mim!...

—Eu não ensinei recado nenhum a Rouflard, elle disse-lhe o que quiz.

—Bom! basta! para que não torne mais a acontecer similhante coisa, o senhor vai já deixar esta casa e não terá o capricho de subir todas as manhãs ao quinto andar; venha commigo é um momento emquanto lhe arranjo uma casa decente; mandarei buscar os seus moveis.

Casimiro encolhe os hombros, e continua a pintar dizendo:

—A senhora está doida!

—Como é que o senhor disse?

—Que a senhora não tem senso commum! e que eu não desejo mudar-me...

—Não quer mudar-se para não deixar a rapariga da agua-furtada?

—A rapariga da agua-furtada não entra para nada na minha resolução; não quero deixar esta casa, porque não quero fazer as suas vontades, porque estou cansado de ser escravo, e porque é tempo que isto acabe.

—Ah! ahi está aonde o senhor queria chegar; é um rompimento que me propõe!...

—Será um rompimento se a senhora quizer, mas repito-lhe que não me quero submetter mais a todos os seus caprichos, e que me não mudarei.

—Casimiro! tome cuidado, se fica n’esta casa, não lh’o perdoarei...

—Hei de ficar.

—E é a essa delambida que o senhor me sacrifica! Oh! é indigno! é infame!

—Nada de palavrões, minha senhora, bem sabe que commigo perdem o seu effeito; eu não a sacrifico a ninguem. Digo-lhe que não quero ser mais seu escravo, que quero ser senhor de mim, se isto lhe não convem, tanto peior!

—É porque já me não ama que o senhor me fala assim!

—Olhe, Ambrosina, seja franca, se eu fizesse o que me ordena, havia de desprezar-me e teria razão.

—Oh! o senhor é um traidor, tem zombado commigo, mas não quero continuar a ser enganada! depois de tudo quanto eu tenho feito por sua causa...

—Ah! eu estava á espera d’essa phrase! teria faltado á situação! Effectivamente a senhora tem feito muito por mim, eu não me esqueço, permitta-me sómente dizer-lhe que era sempre contra a minha vontade; que ha muito tempo que eu me queria dar ao trabalho e que a senhora incessantemente me impedia de o fazer, porque queria ter-me constantemente nas suas rêdes, impedir-me de ser livre emfim e de poder tomar qualquer resolução sem a consultar. Se a fortuna um dia me fôr favoravel, creia, minha senhora, que terei muito prazer em pagar tudo quanto lhe devo!

—Casimiro, esqueça-se do que eu acabo de dizer, o ciume faz-me perder a cabeça, vamos, ceda-me ainda por esta vez, peço-lhe eu, venha commigo, deixe esta casa... e não lhe falarei mais n’essa menina da agua-furtada...

—As suas instancias são inuteis, a minha resolução é inabalavel, não saio d’aqui.

Ambrosina ergue-se furiosa, dá alguns passos pelo quarto, pára deante de Casimiro, e exclama:

—Então, senhor, está tudo acabado entre nós!

—Como a senhora quizer.

—Sim, senhor, nunca mais na minha vida o tornarei a vêr!...

Depois de haver dito estas palavras, Ambrosina sae arrebatadamente, fechando a porta com estrondo, desce a escada sem parar, depois atravessa o pateo, passa por deante do porteiro que lhe varre para cima, e dá alguns passos na rua. Mas alli, pára, volta-se, olha para a casa d’onde acaba de sair, e vê um rotulo pendurado por cima da porta. Entra immediatamente na casa e diz ao porteiro, que está ainda no pateo:

—Tem cá alguns quartos para arrendar? vi um rotulo.

—Sim, minha senhora, um magnifico primeiro andar, com sete casas, todo forrado de novo, e uma bella adega!

—Quando está desoccupado?

—D’aqui a dez dias, minha senhora...

—Fica por minha conta...

—O preço é de dois mil e duzentos francos.

—Muito bem, arrendo-o eu.

—Mas a senhora não o viu, se quer subir, os inquilinos saíram agora mesmo...

—Não é preciso, repito-lhe que eu arrendo a casa. Tome, aqui tem o signal...

E Ambrosina mette uma moeda de vinte francos na mão de Chausson, accrescentando:

—Tome; mas ficar-lhe-hei muito agradecida se não disser ao sr. Casimiro que fui eu que arrendei a casa, aqui tem a minha morada e o meu nome... se quizer ir tirar informações...

—Oh! minha senhora, eu bem vejo que não é preciso, quando se tem maneiras como a senhora; demais, a senhora é conhecida do sr. Casimiro!

—Tome; aqui tem mais vinte francos, seja discreto, que não ficarei sómente n’isto...

—Estarei ás ordens da senhora tanto de dia como de noite, sempre prompto!...

Ambrosina retira-se, e Chausson admira as duas moedas de vinte francos, dizendo comsigo:

—Isto é que é a nata das inquilinas! logo eu estava indo tirar informações!...

XIV

A senhora do primeiro andar

Dez minutos depois da saída de Ambrosina, subia Casimiro ao quinto andar e entrava em casa da sua joven vizinha.

Lisa está trabalhando, mas grossas lagrimas lhe rebentam dos olhos e por momentos caem sobre a sua costura. O seu lindo rosto parece ainda mais seductor sob esta nuvem de tristeza espalhada por todas as suas feições. Ao vêr Casimiro, o seu primeiro movimento é limpar os olhos e esforçar-se por sorrir.

Mas o rapaz, que já lhe viu as lagrimas, apressa-se a correr para ella, exclamando:

—Lisa, está chorando, e sou eu a causa da sua tristeza. Ah! perdôe-me, se soubesse quanto estou afflicto pelo que succedeu.

—Oh! eu não lhe quero mal, não chorava...

—Chorava, sim, em vão procura occultar-m’o.

—É sómente, porque sinto haver sido a causa de que aquella senhora ralhasse com o sr. Casimiro; ella parecia muito encolerisada, disse que o senhor já não cuida do seu retrato e que é por culpa minha. Bem vê que fiz mal em consentir que fizesse o meu; mas está tudo acabado; não lhe servirei mais de modelo; poderá assim retratar aquella senhora; não lhe farei mais perder o seu tempo...

—Não diga isso, Lisa, continuarei a retratal-a como de costume...

—Oh! não, aquella senhora não quer; se ella voltasse e o encontrasse aqui, teriamos nova scena, isto assusta minha avó, e eu não quero...

—Aquella senhora não voltará aqui; demais, não tem o direito de me impedir de fazer o que me agrada; conheço-a ha muito tempo, ella estava habituada a dar-me conselhos e eu ouvia-a como se ouve um antigo conhecimento...

—Aquella senhora é mais velha que o sr. Casimiro?...

—Sim, é por isso que eu lhe mostrava uma certa deferencia. Mas não é razão para que ella me tracte como uma creança...

—E é bem bonita, aquella senhora, mas deitava-me uns olhos cheios de odio, que me faziam muita pena...

—Não pense mais n’ella, não tornará a vel-a.

—Parece-me que teria muito gosto em a ver, se ella me não tivesse deitado uns olhos tão terriveis. Sr. Casimiro, é preciso levar o seu cavallete e não vir mais aqui pintar...

—Minha querida vizinha, espero que terá a bondade de me dar ainda as sessões de que necessito, não ha de querer que eu deixe um trabalho imperfeito; a sua cabeça é um estudo que me fará muita honra, assim o espero; permitta-me acabal-o com cuidado e satisfazer-lhe o que lhe devo por todas as sessões que me tem dado...

—Mas o senhor não me deve nada, comprou-me o vinho quinado...

—Oh! isso pagava apenas tres sessões! depois tivemos mais dez pelo menos, que eu pago bem mesquinhamente dando-lhe esta remuneração.

Casimiro põe trinta francos em cima da mesa, volta a pegar na mão da rapariga, e aperta-a ternamente nas suas, dizendo-lhe:

—Não chorará mais, esquecerá a scena d’esta manhã, e dar-me-ha ainda algumas sessões, não é verdade?

Lisa sorri-se, e responde:

—Far-lhe-hei a vontade, visto que assim o quer!

Casimiro retira-se muito satisfeito.

No dia seguinte, Rouflard, que entra todas as manhãs em casa de Casimiro para saber se elle tem algum recado para lhe dar, diz ao joven pintor:

—Acabo de vêr o meu bom anjo, a menina Lisa, que está feliz como uma rainha, e isto graças ao sr. Casimiro!

—Graças a mim! como é isso, Rouflard?

—Porque, com o dinheiro que o senhor lhe deu hontem, comprou ella uma colhér, de prata á avó, uma bella colhér effectivamente, que lhe custou vinte e dois francos. A velha doente está encantada, era a sua mania, isto restituir-lhe-ha uma parte das forças.

—Estimo immenso ter podido melhorar um pouco a posição de Lisa, que se mata com trabalho. E o sr. Rouflard tem ido a casa do pintor a quem eu o recommendei?

—Sim, senhor, mas não para fazer de romano, é para fazer de saltimbanco. É verdade que isso para mim é indifferente! servir de modelo para um heroe ou para um salteador, é sempre servir de modelo.

Decorrem alguns dias; Casimiro não deixa passar um unico dia sem subir a casa de Lisa, que lhe mostra a colhér de prata, dizendo-lhe:

—Estou muito contente! mas acreditará o senhor que sonho todas as noites que m’a roubam? Isto faz-me pesadelos.

—Isso ha de passar, minha vizinha, a gente habitua-se a tudo, mesmo aos talheres de prata.

Casimiro não tornou a casa da sr.ª Montémolly, e, com grande surpreza sua, não ouviu falar mais d’ella desde o seu rompimento. Applaude-se por emfim quebrado um grilhão que já não podia supportar, e entrega-se com ardor ao trabalho, porque quer poder passar sem o socorro alheio. O seu quadrosinho de _genero_ vae saindo muito bom; o negociante de quadros que veiu vel-o, ficou muito satisfeito, e offereceu-lhe mesmo algum dinheiro adeantado, se elle o precisasse.

Mas, nas suas idas e vindas a casa, Rouflard, que conversa amiude com o porteiro, repara, no penultimo dia do arrendamento, que emquanto o inquilino do primeiro andar faz a sua mudança, Chausson esfrega as mãos, apressa quanto pode essa mudança, depois, assim que vê a casa despejada, põe-se a encerar o patamar do primeiro andar, a varrer cuidadosamente os quartos desoccupados, e a observar se tudo está aceiado e se ha têas de aranha n’algum recanto.

—Com a breca! como se afadiga com o seu primeiro andar! diz Rouflard ao porteiro, nunca esfregou tanto em minha casa, nos meus bons tempos!

—É que mesmo nos seus bons tempos nunca teve uns aposentos tão esplendidos!

—Está então arrendado o seu primeiro andar?

—Sim, de certo, está arrendado, e magnificamente arrendado; presumo que se muda para cá ámanhã o novo inquilino, por isso fiz saír o outro hoje, para ter tempo de arranjar tudo. Ah! ah! quero que ao entrar aqui se veja tudo reluzente...

—É algum dentista que vem para a casa?

—Não... não é um dentista! é uma senhora... e mesmo uma bonita senhora...

—Ah! entendo, é uma _cocotte_ de primeira ordem!

—Não, senhor, pois eu arrendo lá a casa a _cocottes_! porventura o predio não está bem habitado, não contando com o senhor?...

—Chausson, não me insulte; difficilmente acharia um homem tão fino como eu para morar na sua agua-furtada.

—Sim, quando não está bebedo, tem ainda uma boa presença.

—A tal senhora bonita tem marido?

—Não; pelo menos, creio que não. A final de contas, como ella vem ámanhã, posso dizer ao senhor quem é.

—Então eu conheço-a?

—Deve tel-a visto em casa do sr. Casimiro, é aquella senhora que o vinha visitar tantas vezes, antigamente, porque não tem aqui voltado desde que arrendou o primeiro andar.

—Como! seria a sr.ª Montémolly que arrendou o quarto do primeiro andar?

—Exactamente, a sr.ª Montémolly, é o nome que está no seu bilhete.

—Oh! com mil diabos!...

Rouflard apressa-se a subir a casa do pintor, e diz-lhe:

—Venho dar-lhe uma noticia! o quarto do primeiro andar foi arrendado pela sr.ª Montémolly, que se muda para cá ámanhã.

Casimiro fica aterrado; julgava-se para sempre livre de Ambrosina, e ella vem morar para o seu predio; não duvida que não seja para espreitar o seu procedimento e saber que relações existem entre elle e a menina do quinto andar. Estas relações são muito innocentes, mas aos olhos do mundo, que procura por toda a parte o mal e nunca o bem hão de parecer criminosas. O que Casimiro receia sobretudo, é que as frequentes visitas que elle faz a Lisa lhe tragam ainda alguma scena desagradavel. Está a ponto de subir a casa da sua vizinha para a prevenir do que acontece, mas diz comsigo: Não devo assustal-a antes de tempo. Aguardemos. Ambrosina não arrendou talvez a casa para si, é tambem possivel que se não mude ainda ámanhã.

Mas no dia seguinte não é já possivel a duvida: faz-se a mudança para o primeiro andar, e é effectivamente a sua antiga amante que Casimiro vê chegar; ouve já na escada a voz estrondosa da creada Adriana, que está muito contrariada por ter saído da casa da rua Meslée, que dava sobre o _boulevard_, para virem morar na rua Paradis-Poissonniére e tomarem uma casa onde o quarto da creada está debaixo da mesma chave que a dos amos.

Então o joven pintor decide-se a subir a casa de Lisa. Pelo seu ar perturbado, commovido, a rapariga adivinha que succedeu algum caso desagradavel, e diz:

—O senhor tem alguma coisa; aquella senhora voltou a vel-o; virá ella aqui, porventura.

—Não, não é isso, Lisa, entretanto, é alguma coisa que a vae contrariar, tenho a certeza.

—Então, fale!

—Aquella senhora, porque effectivamente é d’ella que se tracta... o primeiro andar estava sem inquilino para este semestre... a menina sabe isto sem duvida.

—Eu! não! pois eu occupo-me lá do que se passa no predio? E então, o primeiro andar?...

—Está arrendado... por... por essa senhora...

—Que veiu aqui.

—Sim.

—Ah! meu Deus! e virá para cá brevemente?

—Muda-se hoje...

—Ella está aqui! no predio. Ah! vá-se embora, sr. Casimiro, vá-se embora, muito depressa, se ella subisse e o encontrasse... tenho medo d’essa senhora.

—Socegue, ella não virá mais a sua casa, estou persuadido d’isso; que motivo teria para cá voltar?

—Virá procural-o...

—Não, eu disse-lhe que já não a via. Estamos indifferentes, e se ella me quizesse falar, é a minha casa e não á sua que viria ter commigo...

—Ah! o senhor diz isso para me socegar; d’aqui em deante não me atreverei muis a descer a escada; felizmento, não a desço muito! uma vez sómente, de madrugada, para ir fazer as minhas compras; mas não importa, sr. Casimiro, o meu retrato está acabado, como o senhor hontem confessou; portanto é mister que não venha mais visitar-me...

—Ah! Lisa, então já não sou seu amigo? não quer receber-me em sua casa?

—Não digo isso, mas não quero que essa senhora aqui o encontre.

—Serei prudente, eu conheço os habitos d’essa senhora, e depois espreitarei as occasiões em que ella sair, incumbirei isso a Rouflard, posso contar n’elle.

—Oh! é um excellente homem, esse Rouflard; é pena embriagar-se; meu Deus! parece-me que ouço subir!...

—Não... é no quarto andar que abrem a porta...

—Sr. Casimiro, leve d’aqui o seu cavallete... vendo-o em minha casa, dirão: «Então elle continúa a ir pintar lá?» e é preciso que se não possa dizer isto...

—Pois sim, levarei o cavallete; mas isso não me impedirá de a vir ver todos os dias, é para mim um habito tão agradavel... não poderia mais trabalhar em todo o dia se não a visse pela manhã; outro tanto não acontece á menina...

Lisa não responde, mas suspira olhando para Casimiro, e o seu olhar vale a melhor resposta. O joven pintor aperta-lhe a mão, e decide-se emfim a levar o cavallete.

XV

A menina Proh doente

Durante todo este dia Casimiro teve uma especie de febre; ficou em casa, mas deixou entreaberta a porta da entrada para ouvir o que se passa na escada; não ouviu senão o joven Fonfonso cantar com a musica do carrilhão de Dunkerque:

Uma esgalgada girafa Rima certo com garrafa; Mas chimpanzé pelladinho Rima bem com coitadinho!

—Quem é que te ensinou essa infame cantiga? diz de repente a sr.ª Proh, saíndo ao patamar.

—Foi Rouflard, que a canta muitas vezes quando desce da agua-furtada.

—Que monstro que é esse borrachão do Rouflard! não comprehendo que o meu vizinho Casimiro empregue similhante homem; e tu, Fonfonso, se tornas a cantar essa cantiga, levas uma roda de açoutes e ponho-te a pão secco.

—Sim? pois se me dás pão secco, direi que hontem, com a força d’um espirro, deixaste cair os dentes postiços.

—Cala-te, Lucifer! Ó céus! e dizer que ha pessoas que desejam ter filhos!