A menina dos olhos pardos

Chapter 2

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Leandro não reparava que isso mesmo era a conseqüência natural da situação esquerda em que se colocara depois de saber que o filho amava Helena.

Um homem apaixonado não repara em coisa nenhuma.

VI

Estavam as coisas neste pé quando Leandro recebeu uma carta de Valentim, dizendo-lhe que era obrigado a demorar-se mais um mês em S. Paulo.

Quando Helena soube disto ficou triste.

— Descansa, menina, dizia-lhe o médico, é só um mês; daqui a um mês ele cá está.

— E acha pouco? perguntava Helena.

— Nem muito nem pouco; é um mês.

— Deixa-te de explicações, interrompeu Morais; estas meninas são exigentes sempre com os namorados. Não é assim, Helena?

Helena sorriu arrufada.

— Eu explico tudo, disse Leandro; o que elas têm é medo de que alguma rival apareça pela frente.

— Oh! isso não! exclamou Helena.

— Bravo! que confiança! disse o capitão indo buscar o tabuleiro do gamão; Leandro, agradece em nome de teu filho.

Leandro já começava a abrir um sorriso para Helena quando viu o tabuleiro fatal; o sorriso converteu-se em suspiro.

— Confiança, tenho, disse Helena; ele não é capaz de enganar-me. Creio nele como em mim mesma.

O capitão tirara de um saco de chita as tábuas do gamão e começava a dispô-las no tabuleiro, quando vieram dizer que um homem de fora desejava falar-lhe.

Saiu para ir ver quem era.

Ficando só com Helena, o médico procurou tranqüilizá-la a respeito do filho; e ao mesmo tempo perguntava-lhe se, visto a confiança que lhe tinha, viesse Valentim a enganá-la, que resolução tomaria.

— Não sei, respondeu Helena; creio que a morte...

— A morte? perguntou Leandro; eu não creio na morte por amor... A menina consolava-se como outras se tem consolado. Esqueceria um ingrato nos braços de um homem que a amaria deveras.

— Não creio!

A conversa continuou; mas não deu de si nenhuma idéia nova.

No fim de vinte minutos voltou Morais.

Vinha um pouco acabrunhado. Leandro reparou nisso e perguntou-lhe que tinha. O capitão respondeu que nada; mas como continuasse triste, Leandro disse-lhe alegremente:

— Vamos ao gamão!

Nem isto arrancou o capitão à tristeza que o abatia. O sintoma era tão evidente, que Helena ficou convencida de que alguma coisa havia de gravidade naquele momento.

Interrogou-o com a ternura que sempre empregava em relação ao pai. Morais confessou que se tratava de um antigo credor que depois de alguns anos vinha exigir o pagamento de uma dívida avultada.

Helena ficou triste.

Depois de algum silêncio, Leandro disse para Morais:

— Homem, eu ainda tenho alguma coisa; se chegar é para pagar ao teu credor. Não te aflijas por coisas que não valem a pena. Creio que não pode ser muita coisa; e ainda que seja, eu tenho amigos. Vamos lá; alegra-te e deixa-te de tristezas...

— Não! não devo abusar!

— Qual abusar, nem meio abusar! É o que faltava! havia eu de ser teu amigo em dias de bonança, e voltar as costas nos dias da adversidade! Isso é bom para os amigos vulgares. Eu não...

Por honra de Leandro, devemos dizer que dizendo isto e fazendo esta oferta ao amigo, não se lembrara de Helena. Era sincero.

O capitão compreendeu o que havia de delicado na oferta do médico, e não recusou mais. A sua resposta foi apertar as mãos ao amigo.

— Logo me dirás quanto é, disse Leandro para terminar a conversa.

— Sim, respondeu Morais; vamos ao gamão.

O médico não contava com o desenlace; devia contar porque era a idéia dominante do capitão.

Helena antes que o médico tomasse lugar à mesa, apertou-lhe a mão, murmurando:

— Obrigado!

Leandro estremeceu sentindo o contacto e ouvindo a voz de Helena. Abriu-se-lhe nos lábios um sorriso, e foi jogar com o capitão, que já estava de copo em punho.

VII

Foi paga integralmente a dívida de Morais que não andava por grande coisa, posto assim o parecesse ao capitão, cujos haveres eram nenhuns.

Este fato estreitou mais, se era possível, a amizade dos dois pais.

Os dias correram lentos para Helena que esperava o amante. Mas justamente no fim do tempo apareceu outra carta de Valentim dizendo ao pai que ainda por lá se demoraria. De Helena não dizia palavra. No fim da carta perguntava-lhe, amigavelmente, se, tendo encontrado em S. Paulo uma moça que agradou, consentia o pai no casamento dele.

O primeiro movimento de Leandro foi de alegria; o tal casamento vinha perfeitamente a propósito. Casado o rapaz, ficava o campo livre. Mas Leandro refletiu depois e lembrou-se de que, sendo ele senhor do segredo dos dois, por confidência de Helena, cumpria-lhe fazer algum esforço, ainda que aparente, para desfazer o projeto de casamento em S. Paulo.

Não quis porém fazê-lo sem comunicar a Helena o conteúdo da carta do filho.

— Que diz ele? perguntou Helena a Leandro quando este disse ter recebido carta de Valentim. Quando volta?

— Não sei, respondeu Leandro.

— Pois ele não lhe fala nisso? perguntou Helena cada vez mais ansiosa.

— Não; nem fala em ti. Isto de rapazes, são os mesmos; aquele é meu filho e eu não deixo de acusá-lo porque merece. O que eu creio é que o pequeno achou por lá alguma coisa que o distraiu... algum namoro...

— Isso, não! respondeu Helena.

— No entanto, é possível... Os rapazes não são seguros; dois olhos fazem esquecer outros dois com a mesma facilidade com que o dia de hoje faz esquecer o de ontem, e o de amanhã fará esquecer o de hoje.

— A mim, o que me espanta é não marcar dia da chegada. Dar-se-á que venha sem ser esperado?

Leandro abanou a cabeça.

Helena fitou o médico; depois faiscaram os olhos como se alguma idéia surgisse; sorriu alegremente e disse:

— Adivinhei!

— O quê?

— Valentim já chegou.

— Quando?

— Hoje.

— Hoje, não; nem amanhã, nem sei quando...

— O doutor quer enganar-me; ele está aí... Mostre-me a carta dele. Só vendo acreditarei.

Leandro tirou a carta do bolso e entregou-a à moça; foi esquecimento ou propósito o de dar a carta em que Valentim falava de um casamento? Não estou informado a este respeito; mas o certo é que entregou a carta.

Helena abriu-a, e leu as primeiras linhas.

— É isso, é, respondeu ela tristemente.

E ia dobrando a carta para restituí-la ao médico, quando os olhos caíram por acaso numa frase que indicava o casamento. Abriu outra vez a carta, leu-a com febril agitação, deu um grito e caiu.

Acudiu a preta que a servia, e o pai que se achava na sala de jantar.

Conduzida para o quarto, Helena recebeu os primeiros cuidados médicos de Leandro, que nessa noite não dormiu e achou conveniente velar pela doente.

O capitão acompanhou-o nesse ato.

Só no dia seguinte é que Helena voltou a si; Leandro não a achava ainda fora de perigo; começou um tratamento rigorosíssimo.

VIII

Poucos dias depois, começara a convalescença de Helena, quando Leandro recebeu uma carta da tia de Valentim, dizendo-lhe que não compreendia o rapaz — porque passava os dias a chorar e não se queria ir embora.

Será alguma paixão? perguntava a tia.

Leandro releu a carta sem compreender; por que motivo Valentim deixara a corte nas vésperas do casamento e ia chorar na província deixando a felicidade cá?

Não podia atinar com o mistério.

No entanto, resolveu escrever ao filho, ordenando-lhe que viesse imediatamente para a corte.

A carta partiu de manhã.

A noite, estando no gabinete a pensar no mistério de Valentim, pegou no retrato de Helena.

Lembrou-lhe repentinamente o grito que ouvira quando uma noite estava na mesma posição contemplando a efígie da moça.

Compreendeu tudo.

Num só momento a alma de Leandro sofreu uma revolução; envergonhou-se de ter obstado assim à felicidade do filho; envergonhou-se do sacrifício espontâneo de Valentim; e todo o amor que sentia pela filha do capitão converteu-se em afetos paternais.

Leandro esperou ansiosamente o filho. No entanto, tratou de tranqüilizar a moça, dizendo-lhe que a história do casamento era uma invenção para pôr à prova o amor dela.

— Não precisava isso, disse Helena.

Helena foi-se restabelecendo.

Dez dias depois chegou Valentim.

— Aqui estou! disse ele depois dos primeiros abraços. Que me quer meu pai?

— Quero que te cases com Helena que está à tua espera.

— Mas eu falei-lhe noutro amor...

— Eu mando!

Valentim olhou espantado para Leandro. Compreenderia? Não sei: o que todos sabem é que dois meses depois estavam casados e um ano depois Leandro e Morais esqueciam o gamão para brincar com o primeiro neto.

O qual neto não foi o último.

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