Part 9
Mrs. Oswald viu-as dahi a pouco, risonhas e entendidas. Era facil concluir qual dos dous pretendentes vencera; Guiomar não receberia de tão boa cara o sobrinho da baroneza. Tudo estava acabado; e talvez que a sua propria pessoa padecêra naquelle lance ultimo. A baroneza pedira a Guiomar que lhe explicasse a que padecimentos alludíra, mas a moça preferiu não dizer nada, não só por não affligir a madrinha, como por não dar um aspecto de rivalidade á situação entre ella e Mrs. Oswald.
A escolha estava feita, o consentimento dado. A baroneza respondeu nessa mesma tarde ao pretendente feliz. Estevão teria manifestado ruidosamente toda a alegria que semelhante resposta lhe causára; sua alma apaixonada e exuberante contaria a Deus e aos homens aquella immensa fortuna; Luiz Alves encerrou o prazer, aliás grande, dentro de si; pensou na moça e no futuro alguns instantes, mas não falou delles a ninguém.
A baroneza escreveu nesse mesmo dia ao sobrinho, communicando-lhe a resposta de Guiomar. Os leitores não terão difficuldade de admittir que o coração de Jorge não sentiu o golpe profundamente, mas sentiu alguma cousa. Não foi nessa noite á casa da tia; não foi tembem na segunda; na terceira chegou a descer as escadas; na quarta embicou para Botafogo.
--Tudo está acabado, disse-lhe a tia verdadeiramente sentida.
--Acabado! suspirou Jorge.
--Agora, é preciso animo; espero que serás homem.
--Oh! serei homem! suspirou outra vez Jorge.
E dous suspiros, arrancados do peito de um homem tão grave, deviam ser por força dous suspiros gravissimos, como facilmente acredita o leitor.
Effectivamente a physionomia do moço não tinha abatimento nem afflicção; não a amarrotava o menor vestigio de noite mal dormida, menos ainda de lagrimas enxutas. Alegre não era, mas grave e austera, como elle a trazia sempre, a contrastar com o retezado do bigode.
A baroneza imaginou comtudo que a dor do sobrinho devia te-lo mortificado muito; apertou-lhe as mãos com ternura e disse-lhe ainda algumas palavras de animação.
Imagine-se o que seria o primeiro encontro de Jorge com Guiomar. A moça estava serena, talvez risonha e até compassiva. Se tivesse de casar com elle odiara-o de certo; agora já lhe perdoava o amor. Jorge pela sua parte não deixou de ficar um tanto abalado, em parte commoção, em parte constrangimento, sendo porém o constrangimento maior do que a commoção. Nos labios pairou-lhe um desses sorrisos em que o olhar penetrante do povo ou a sua imaginação pintoresca descobriu a côr amarella. Se outro fosse o aspecto, é provavel que ella lhe conservasse, ao menos, o respeito. Mas aquelle sorriso perdeu-o de todo no animo de Guiomar.
Na primeira occasião que se lhe offereceu, expandiu-se Jorge com Mrs. Oswald.
--Perdeu-se tudo... murmurou elle.
A ingleza não respondeu.
Jorge continuou ainda a falar, e a ingleza e ouvir, mas a ouvir só, e a querer divertil-o daquelle assumpto.
--Tudo se perdeu, disse emfim o sobrinho da baroneza, talvez por culpa sua.
--Minha? perguntou Mrs. Oswald.
--Sua.
--Mas...
Jorge hesitou um instante.
--Não mostrou calor sufficiente, disse elle emfim.
--Que quer? disse Mrs. Oswald. O coração não se pode dominar, nem ha meio de impor-lhe um sentimento. D. Guiomar é uma santa creatura, ama devéras ao seu rival; ha nada mais justo do que casa-los?
--De maneira que...
--De maneira que tudo era licito fazer na supposição de que ella não amava a outro, mas uma vez que ama...
Luiz Alves, na noite do dia em que recebeu a carta, foi á casa da baroneza, que o recebeu com o melhor de seus sorrisos. A felicidade de Guiomar fazia-a completamente feliz; nem iras, nem resentimentos, como annunciara Mrs. Oswald. Todo o castello de cartas caíra por terra, desde que a sinceridade da baroneza interveiu.
XIX
Conclusão.
Marcado o casamento para dous mezes depois, todo o tempo de intervallo foi despendido pelos noivos naquelle deleitoso viver, que já não é o colloquio furtivo do simples namoro, nem é ainda a intimidade conjugal, mas um estado intermedio e consentido, em que os corações podem entornar-se livremente um no outro. Aquelles não tinham nada do amor extatico e romanesco de Estevão, mas amavam sinceramente, ella ainda mais do que elle, e tão feliz um como outro.
A gente que os conhecia commentou de todos os modos e feitios aquelle caso inesperado, e a mais de um roeu a inveja do favor com que o ceu tratára a Luiz Alves. A gentileza e a elegancia da moça não encontravam objecção no espirito de ninguem; todos as confessavam e applaudiam, porque até o silencio mortificado de algumas bellezas rivaes, se porventura as havia,--era tambem applauso e do melhor. Quanto ao caracter de Guiomar, divergiam muito as apreciações; e um dia, em que Luiz Alves lhe contava uns trechos de conversa ouvidos a furto, e de que era objecto a noiva, ella pareceu reflectir longo tempo, e emfim respondeu:
--Não admira que haja tanta opinião differente; é natural, porque nunca vulgarisei o meu espirito. Entretanto, a opinião dos outros importa-me pouco; eu quizera saber a sua.
--A minha é que é um anjo.
Guiomar fez um gesto gracioso de enfado, como quem não esperava aquelle comprimento velho e commum, aliás eternamente, novo,--porque não ha outro mais prompto e mais bello nas nossas linguas christãs. O noivo sorriu, mas nada lhe disse, e todavia podia dizer-lhe alguma cousa,--aquillo, pelo menos, que o leitor lhe ouviu n'um dos capitulos anteriores.
--Se não sabe o que sou,--continuou Guiomar,--eu mesmo o direi, para que se não case commigo assim de emboscada, e não lhe aconteça unir-se a um demonio, suppondo que é um anjo...
--Um demonio! exclamou Luiz Alves rindo.
--Nem mais nem menos, retrucou ella rindo tambem. Saiba pois que sou muito senhora da minha vontade, mas pouco amiga de a exprimir; quero que me adivinhem e obedeçam; sou tambem um pouco altiva, ás vezes caprichosa, e por cima de tudo isto tenho um coração exigente. Veja se é possível encontrar tanto defeito junto.
Luiz Alves respondeu que eram tudo qualidades excellentes, e esteve quasi a dizer que lhe faltava mencionar ainda outra, que era a fundamental de todas; preferiu alludir a ella depois do casamento.
O casamento effectuou-se, no dia marcado, com as solemnidades do estylo. A manhã daquelle dia trajava um manto de neblina cerrada, que o nosso inverno lhe poz aos hombros, como para resguardal-a do rigor benigno da temperatura, manto que ella sacudiu dalli a nada, afim de se mostrar qual era, uma deliciosa e fresca manhã fluminense. Não tardou que o sol batesse de chapa nas aguas tranquillas e azues, e nessas collinas onde o verde natural ia alternado com a alvura das habitações humanas. Vento nenhum; apenas uma aragem, branda e fresca, que parecia o ultimo respirar da noite já remota, e que só a trechos agitava as folhas do arvoredo.
A chacara naquelle dia era a mesma que nos outros, mas Guiomar achou-lhe um aspecto novo e melhor, uma como expansão divina que animava as cousas em redor della. Toda a alma feliz é pantheista; parece-lhe que Deus lhe sorri de dentro da flor que desabrocha, do fundo da agua que serpeia murmurando, e até de envolta com o cipó humilde e rustico, ou no seixo bronco e despresado do chão. Era assim a alma de Guiomar naquella manhã. Nunca as arvores, as flores, a gramma rasteira lhe pareceram mais vecejantes; o sentimento interno hauria aquella vida exterior, do mesmo modo que o pulmão bebia o puro ar matinal.
De envolta com essas sensações communs a toda a alma, havia ainda as que eram della,--della, que via alli o seu ultimo sol de moça solteira e contemplava por antecipação a aurora nova, o dia longo e feliz de suas férvidas ambições. Neste ponto despia a sua fantazia as azas de folha agreste, com que andara a pairar no meio daquella vegetação, para envergar outras de seda e brocado, e voar sabe Deus a que sitios de grandeza humana.
O acaso quiz que naquella manhã vestisse o mesmo roupão com que Estevão a vira do outro lado da cerca, e trouxesse no collo e nos pulsos o mesmo broche e os mesmos botões de saphira. Não tinha o livro; mas, em falta desta circumstancia, havia outra, que era a mesma daquella celebre manhã, havia uns olhos que do outro lado do cerca a espreitavam namorados. Não eram, porém, os mesmos; eram os do noiva, com quem ella foi encontrar o seus;--e o mais doloroso de tudo é que nem a cerca, nem os demais accessorios, nada lhe lembrou o outro homem que morria por ella. A felicidade é isto mesmo; raro lhe sobra memoria para as dores alheias.
Não menos alegre do que ella parecia a baroneza naquelle dia. De longe em longe surgia-lhe na memoria a ideia do sobrinho, mas já não havia tristeza de não ter effectuado o casamento, como desejára; tão leve foi o golpe em Jorge e tão indifferente andava elle, que a boa senhora comprehendeu que o amor, se existira, não era grande, e sobretudo não perdurou; a ideia de que isto mesmo podia acontecer-lhe ao cabo de seis semanas de casado, fel-a dar graças a Deus do nenhum exito de seus planos.
Mrs. Oswald egualmente se mostrava feliz,--talvez ainda mais, porque era-o apparatosamente, como se quizesse resgatar as passadas culpas. Guiomar entendia a intenção latente das manifestações ruidosas com que ella andava a felicital-a e bajula-la; mas o dia não era de rancores nem de resentimentos, e ella recebia sorrindo as cortezanices da ingleza.
O casamento fez-se, emfim. As lagrimas que a baroneza derramou, quando viu Guiomar ligada para sempre, foram as mais bellas joias que lhe podia dar. Nenhuma mãe as verteu mais sinceras; e, seja dito em honra de Guiomar, nenhuma filha as recebeu mais dentro do coração.
Na noite do casamento, quem olhasse para o lado do mar, veria pouco distante dos grupos de curiosos, attrahidos pela festa de uma casa grande e rica, um vulto de homem sentado sobre uma lagea que acaso topára alli. Quem está affeito a ler romances, e leu esta narrativa desde o começo, suppõe logo que esse homem podia ser Estevão. Era elle. Talvez o leitor, em lance identico, fosse refugiar-se em sítio tão remoto, que mal podesse acompanhal-o a lembrança do passado. A alma de Estevão sentiu uma necessidade cruel e singular, o gosto de revolver o ferro na ferida, uma cousa a que chamaremos--voluptuosidade da dor, em falta de melhor donominação. E foi para alli, contemplar com os indifferentes e ociosos aquella casa onde reinava o goso e a vida, e naquella hora que lhe afundava o passado e o futuro de que vivera. Não o retinha a constancia do stoico; pela face emmagrecida e pallida lhe corriam as lagrimas derradeiras, e o coração, colhendo as forças que lhe restavam, batia-lhe forte na arca do peito.
Defronte delle refulgia de todas as suas luzes a mansão afortunada; detraz batia a onda lenta e melancolica, e via-se o fundo da enseada, escuro e triste. Esta disposição do logar servia ao plano que elle concebera, e era nada menos do que matar-se alli mesmo, quando já não pudesse soffrer a dor, especie de vingança ultima que queria tomar dos que o faziam padecer tanto, complicando-lhes a felicidade com um remorso.
Mas este plano não podia realisar-se, pela razão de que era mais um devaneio, que se lhe dissipou como os outros. A frouxidão do animo negou-lhe essa ultima ambição. Os olhos podiam fitar a morte, como podiam encarar a fortuna; mas faltavam-lhe os meios de caminhar a ella. Esteve alli, pois, até o fim; e em vez de mergulhar na agua e no nada, como delineára, regressou tristemente para casa, tropego como um ebrio, deixando alli a sua mocidade toda, porque a que levava era uma cousa descolorida e sêcca, esteril e morta. Os annos passaram depois, e á medida que vinham, ia-se Estevão afundando no mar vasto e escuro da multidão anonyma. O nome, que não passara da lembrança dos amigos, ahi mesmo morreu, quando a fortuna o distanceou delles. Se elle ainda vegeta em algum recanto da capital, ou se acabou em alguma villa do interior, ignora-se.
O destino não devia mentir nem mentiu á ambição de Luiz Alves. Guiomar acertara; era aquelle o homem forte. Um mez depois de casados, como elles estivessem a conversar do que conversam os recem-casados, que é de si mesmos, e a relembrar a curta campanha do namoro, Guiomar confessou ao marido que naquella occasião lhe conhecera todo o poder da sua vontade.
--Vi que você era homem resoluto, disse a moça a Luiz Alves, que, assentado, a escutava.
--Resoluto e ambicioso, ampliou Luiz Alves sorrindo; você deve ter percebido que sou uma e outra cousa.
--A ambição não é defeito.
--Pelo contrario, é virtude; eu sinto que a tenho, e que hei de faze-la vingar. Não me fio só na mocidade e na força moral; fio-me tambem em você, que ha de ser para mim uma força nova.
--Oh! sim! exclamou Guiomar.
E com um modo gracioso continuou:
--Mas que me dá você em paga? um logar na camara? uma pasta de ministro?
--O lustre do meu nome, respondeu elle.
Guiomar, que estava de pé defronte delle, com as mãos prezas nas suas, deixou-se cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas ambições trocaram o osculo fraternal. Ajustavam-se ambas, como se aquella luva tivesse sido feita para aquella mão.
FIM
INDICE
Advertência de 1907 Advertência de 1874
I.--O fim da carta II.--Um roupão III.--Ao pé da cerca IV.--Latet anguis V.--Meninice VI.--post-scriptum VII.--Um rival VIII.--Golpe IX.--Conspiração X.--A revelação XI.--Luiz Alves XII.--A viagem XIII.--Explicações XIV.--Ex-abrupto XV.--Embargos de terceiro XVI.--A confissão XVII.----A carta XVIII.--A escolha XIX.--Conclusão