A Mao e A Luva

Part 8

Chapter 84,049 wordsPublic domain

Desta vez era Luiz Alves que passeava de um lado para outro. Em seu espirito despontava uma ideia, que elle examinava, a ver se a poria alli mesmo em execução. Era dizer-lhe tudo. Estevão viria a sabel-o mais tarde; melhor era que o soubesse logo e por elle. Ao mesmo tempo reflectia na exaltação dos sentimentos do rapaz; a dor certamente se lhe aggravaria, em sabendo que era elle o preferido de Guiomar. O coração, que perdoaria a um extranho, condemnaria ao amigo.

Estevão, assentado, com os olhos no tecto, parecia entregue ás suas reflexões, mas só parecia, por que elle não pensava, evocava antigas memorias, fazia surgir diante de seus olhos a figura gentil de Guiomar, sentia-lhe o imperio dos bellos olhos castanhos, ouvia-lhe a palavra doce e avelludada entornar-se-lhe no coração. Não evocava só, creava tambem, pintava com a imaginação a felicidade que lhe poderia dar a moça, se entre todos os homens o escolhera, se elles dous vinculassem os seus destinos. Elle via-a ao pé de si, cingia-lhe o braço em volta da cintura, enchia-lhe de beijos os cabellos, tudo isto em meio de uma paisagem unica na terra, porque a abundancia da natureza cresceria ao contacto daquelle sentimento puro, casto e eterno. Não falo eu, leitor; transcrevo apenas e fielmente as imaginações do namorado; fixo nesta folha de papel os vôos que elle abria por esse espaço fóra, unica ventura que lhe era permittida.

No meio dessas visões foi accordal-o Luiz Alves.

--Tens razão de sentir, disse este; mas não gastes o coração, que ha maiores sorpresas na vida... Em todo o caso, deixa-me dizer-te que nenhuma razão tens de censura...

--Censuro eu alguém?

--Ha no amor um germen de odio que póde vir a desenvolver-se depois. Talvez chegues a accusala de te não querer; nesse dia reflecte que os movimentos do coração não estão nas mãos da vontade. Ella não tem culpa se outro lhe despertou o amor.

--Ah! incumbiu-te da defesa!

Luiz Alves sorriu; elle contava com a recriminação.

--Não, não me incumbiu da defesa, disse elle; sou eu que a tomo por minhas mãos. Que defendo eu aqui se não a natureza, a razão, a logica dos sentimentos, dura e inflexivel como toda a outra logica? Ha no fundo das tuas palavras um sentimento de egoismo...

--O amor não é outra cousa, respondeu Estevão sorrindo por sua vez. Queres que inda em cima lhe agradeça este desespero? Queres que vá apertar a mão ao homem que a soube vencer?

Luiz Alves mordeu a ponta do labio e acercou-se da janella. Quando ia a voltar para dentro ouviu um rumor na janella ao pé, a primeira da casa da baroneza. Luiz Alves deu um passo mais. Não viu ninguem; viu apenas o resto de um vestido que fugia e um objecto que lhe caia aos pés. Inclinou-se a apanhal-o. Era uma grande folha de papel envolvendo, para lhe dar mais peso, outra folha pequena dobrada em quarto. Luiz Alves aproximou-se da luz, e leu rapidamente o que alli vinha escripto. Leu, metteu o papel na algibeira e encaminhou-se disfarçadamente para a janella. Ninguem; a casa da baroneza dormia.

Quando voltou para dentro, Estevão tinha-se levantado. Elle vira cair o papel, apanhal-o e lel-o Luiz Alves. Não entendeu nada do que se passara; mas seu olhar como que pedia uma explicação.

Luiz Alves foi direito ao fim.

--Estevão, disse elle, vás saber a verdade toda; não poderia occultar-te o que se ha passado, nem conviria talvez que tu a soubesses por boca de outro. Guiomar podia amar-te, eras digno della, e ella digna de ti; mas a natureza não os fez um para o outro. São duas almas excellentes que seriam infelizes unidas. Quem ha aqui que censurar? Mas se a natureza explica o sentimento della, egualmente explica o de um terceiro, que sou eu. Tu confiaste-me as dores e as esperanças de teu coração; era conhecer toda a minha amisade e a profunda estima que sempre te consagrei. Mas nem tu nem eu contavamos commigo; por que tambem eu tenho coração, e os prestigios da belleza tambem falam á minha alma. Não a pude ver a frio. A paixão obscureceu-me. Nesta minha felicidade de amar e ser amado, acredita que sou alguma cousa infeliz, por que ha lagrimas tuas, ha o teu padecer longo e cruel, que eu imagino e deploro. A confissão é franca; não te falo em arrependimento, porque são actos do coração e não da consciência, que essa é pura e honrada. E depois desta exposição fiel, cuido que lastimarás commigo o encontro em que o acaso ou a má sorte nos reuniu a todos tres; mas não me accusarás nem me recusarás a tua velha estima. Falo só da estima; a amisade, creio que não poderá ser a mesma. Mas presarás o meu caracter. Pela minha parte, nem uma nem outra cousa perece; sei o que vales. Não sei aonde nos lançará a onda do destino amanhã. Pela ultima vez, porém, espero que apertarás a mão do teu amigo.

Luiz Alves concluíra estendo-lhe a mão. Estevão olhou para elle, mas não disse uma só palavra, não fez um gesto unico: caminhou para a porta e saiu.

--Estevão! gritou Luiz Alves.

Mas só lhe respondeu o rumor dos pés que desciam, e pouco depois o do tilbury que rolava surdamente na terra humida da praia.

Luiz Alves levantou seccamente os hombros; chegou-se á luz e releu o escripto.

XVII

A carta.

Não era preciso reler o papel para entendel-o; mas olhos amantes deliciam-se com letras namoradas. O papel continha uma palavra unica:--_Peça-me_,--escripta no centro da folha, com uma lettra fina, elegante, feminina. Luiz Alves olhou algum tempo para o bilhete, primeiramente como namorado, depois como simples observador. A lettra não era tremula, mas parecia ter sido lançada ao papel em hora de commoção.

Desta observação passou Luiz Alves a uma reflexão muito natural. Aquelle bilhete, pouco conveniente em quaesquer outras circumstancias, estava justificado pela declaração que elle proprio fizera á moça alguns dias antes, quando lhe pediu que o conhecesse primeiro, e que no dia em que o julgasse digno de o tomar por esposo, elle a ouviria e acompanharia. Mas se isto era assim em relação ao bilhete, não o era em relação á hora. Que motivo obrigaria a moça a deitar-lhe da janella, á meia noite, aquelle papel decisivo, eloquente na mesma sobriedade com que o escrevêra?

Luiz Alves concluiu que havia alguma razão urgente, e portanto, que era preciso acudir á situação com os meios da situação. Quanto á razão em si, não a pôde descobrir. Occorreu-lhe o facto, aliás patente, da côrte que o sobrinho da baroneza fazia a Guiomar, mas ignorava as circumtancias que lhe eram relativas, e não pôde passar além.

Não direi que Luiz Alves gastasse a noite a cavar fundo no terreno das conjecturas vagas. Não era homem que perdesse tempo em cousas inuteis; e nada mais inútil naquella occasião do que tentar explicar o que nenhuma explicação podia ter para elle. O que resolveu foi obedecer ao recado da moça; pedi-la sem hesitação nem preambulo. Mas se o caso lhe não produziu insomnia, não deixou de lhe estender a vigilia, além da hora usual, como era de geito naquella occasião solemne, sobretudo, tratando-se de creatura que por aquelles tempos era a inveja e a cobiça de muitos olhos. Luiz Alves não era, como Estevão, um adoravel scismador, não se nutria de imaginações e devaneios, alimento que funde pouco ou nada, mas scismou algum tempo, embebeu-se uma hora na contemplação ideial da mulher que elle soubera escolher. O somno chegou, e o devaneio confundiu-se com o sonho.

Guiomar dormiria tão repousadamente como elle? Dormia; a noite, porém, fora-lhe muito mais agitada e amarga, como era natural depois da declaração de Jorge e das insinuações da madrinha.

A moça recolhera-se ao quarto, logo depois da declaração. As pessoas da casa nada puderam ler-lhe no rosto, salvo a pallidez repentina e o rubor que se lhe seguiu: mas, logo que ella se achou só, deu toda a expansão aos sentimentos que até alli pudera conter.

O primeiro delles era o despeito; Guiomar sentia-se humilhada com aquella declaração, assim feita, de emboscada e sobresalto, para arrancar-se-lhe um consentimento que o coração e a indole repelliam. Nenhuma consulta, nenhuma autorisação prévia; parecia-lhe que a tratavam como ente absolutamente passivo, sem vontade nem eleição propria, destinado a satisfazer caprichos alheios. As palavras da madrinha desmentiam esta supposição; mas, a noticia que ella tinha da resolução da baroneza, neste negocio, diminuia muito o valor de taes palavras. Se era uma campanha, como dissera Mrs. Oswald, queriam constrangel-a com apparencias de moderação, e o tempo que lhe deixavam para reflectir era-o realmente para considerar, sosinha comsigo, na necessidade de pagar os benefícios que recebêra.

Não a accusem de ter feito estas reflexões, logo que entrou no quarto, com os olhos scintillantes e os labios frios de colera. Eram naturaes; primeiramente porque suppunha que o seu casamento com Jorge estava deliberado e se realisaria, quaesquer que fossem as circumstancias; depois, porque a alma della era melindrosa; não esquecia os beneficios recebidos, mas quizera que lh'os não lembrassem por meio de uma violencia: fazel-o, era o mesmo que lançar-lh'os em rosto.

--Não! murmurava emfim a moça, forçar-me, reduzir-me á condição de simples serva, nunca!

Mas esta colera apaziguou-se, e o coração venceu o coração. Guiomar recordou a constante ternura da baroneza para com ella, a sollicitude com que lhe satisfazia os seus menores desejos, que eram alli ordens, e não combinava tamanho amor com a supposta violencia que lhe queria fazer. Não tardou em arrepender-se das palavras incoherentes que lhe haviam fugido, e dos sentimentos maus que attribuíra ao coração da baroneza. Cruzou as mãos no peito e ergueu o pensamento ao ceu, como a pedir-lhe perdão. Guiomar, em meio das seducções da vida, que tantas eram para ella e de todo lhe levavam os olhos, não perdera o sentimento religioso, nem esquecera o que lhe havia ensinado a fé ingenua e pura de sua mãe.

A cólera acabára, mas veiu depois a luta entre a gratidão e o amor,--entre o noivo que lhe propunha a affeição da madrinha e o que o seu proprio coração escolhera. Ella nem ousava tirar as esperanças á baroneza, nem immolar as suas proprias,--e uma de duas cousas era preciso que fizesse naquella solemne occasião. O que sentiu e pensou foi longo e cruel; mas se tal duello podia travar-se-lhe na alma, não era duvidoso o resultado. O resultado devia ser um. A vontade e a ambição, quando verdadeiramente dominam, podem lutar com outros sentimentos, mas hão de sempre vencer, porque ellas são as armas do forte, e a victoria é dos fortes. Guiomar tinha de decidir por um dos dous homens que lhe propunha o seu destino; elegeu o que lhe falava ao coração.

A resposta, porém, não podia a moça demoral-a nem esquival-a, não convinha, talvez, prolongar a luta e a duvida. Quando isto pensou, veiu-lhe ao espirito uma ideia decisiva, a de confessar tudo á madrinha. Hesitou, porém, entre fazel-o ella propria ou por boca de Luiz Alves, cujas palavras, apontadas acima trazia escriptas na memoria. Preferia este meio; mas não lhe bastava preferil-o, era mister realisal-o, e para isso só dous modos tinha, escrever-lhe ou falar-lhe. O segundo podia não ser tão prompto, e talvez falhasse occasião apropriada; adoptou o primeiro, e recuou logo. A carta seria mandada por um famulo, mas o espirito de Guiomar era a tal ponto sobre si que repelliu semelhante intervenção. A janella estava aberta; dalli viu luz na sala de Luiz Alves e a sombra do moço, que passeava de um lado para outro. Occorreu-lhe então a ideia que poz por obra, conforme ficou dito no capitulo anterior.

Tal é a historia daquella palavra escripta rapidamente n'uma folha de papel. Apesar da declaração de Luiz Alves e das circumstancias em que a moça se achou, o leitor facilmente comprehenderá que ella não a escreveu sem pelejar comsigo mesma, sem vacillar muito entre a repugnancia e a necessidade. Afinal foram vencidos os escropulos, que é tanta vez o seu destino delles, e força é dizer que não os vencem nunca de graça, porque elles falam, arrazoam, obstam o mais que podem, mas é vulgar passarem-lhes por cima. A moça entretanto, apenas lançara a carta, arrependeu-se; a dignidade teve remorsos; a consciência quasi a accusava de uma acção vil. Era tarde; a carta chegára a seu destino.

Na manhã seguinte, a baroneza acordou mais alegre que de costume. Cuidara ver em Guiomar, na noite anterior, alguma cousa que só lhe pareceu enleio natural da situação. Guiomar erguera-se tarde; a manhã estava chuvosa e a madrinha não deu o seu passeio. A moça foi beijar-lhe a mão e a face, como costumava, e receber della o osculo materno. O rosto parecia cançado mas um veu de affectada alegria disfarçava-lhe a expressão natural, á semelhança das posturas de toucador, de maneira que a baroneza, pouco ledora de physionomias, não discerniu naquella a verdade da impostura. Impostura, digo eu, devendo entender-se que é honesta e recta, porque a intenção da moça não era mais do que não amargurar a madrinha, e tirar-lhe motivo a qualquer afflicção antecipada.

--Dormiu bem a minha rainha de Inglaterra? perguntou Mrs. Oswald, pondo-lhe familiarmente as mãos nos hombros.

--A sua rainha de Inglaterra não tem coroa, respondeu Guiomar comum sorriso contrafeito.

Pela volta do meio dia, recebeu a baroneza uma carta de Luiz Alves. Abriu-a e leu-a. O advogado pedia-lhe a mão de Guiomar. Poucas linhas, cortezes, simplices, naturaes, feitas por quem parecia senhor da situação.

--Mrs. Oswald, disse a baroneza á sua dama de companhia que se achava na mesma sala, leia isto.

A ingleza obedeceu.

--Isto não quer dizer nada, observou ella depois de alguns instantes. É um pretendente mais; devemos crer, porém, que são muitos, e que se os outros não lhe escrevem cartas destas, é por que são menos affoutos. A Sra. baroneza pensa que os olhos de sua afilhada são innocentes? continuou a ingleza sorrindo. Eu cuido que devem estar carregados de crimes, e que ha mortos...

--Mas não vê, Mrs. Oswald, interrompeu a baroneza, que esse homem parece estar autorisado?

Mrs. Oswald calou-se como quem reflectia. Logo depois expoz uma serie de argumentos e considerações, se não graves em substancia, pelo menos nas roupas com que ella os vestia, umas roupas seriamente britannicas, como as não talharia melhor a melhor tesoura da camara dos communs. Toda ella dava ares de um argumento vivo e sem réplica. Havia em seus cabellos, entre louro e branco, toda a rigidez de um syllogismo; cada narina parecia uma ponta de um dilemma. A conclusão de tudo é que nada estava perdido, e que a felicidade de Jorge era cousa não só possivel, mas até provavel, uma vez que a baroneza mostrasse,--era o essencial,--certa resolução de animo muito util e até indispensavel naquella occasião. Mrs. Oswald offerecia-se para ir chamar a moça immediatamente.

--Pois vá, vá, disse a baroneza.

A ingleza saiu d'alli e foi ter com Guiomar. Quando a viu de longe compoz um sorriso, e Guiomar, vendo-a sorrir, sentiu como que um movimento interno de repulsa.

--Venho buscal-a, disse Mrs. Oswald, para uma cousa que a senhora está longe de imaginar.

Guiomar interrogou-a com olhos.

--Para casar!

--Casar! exclamou Guiomar sem comprehender a intenção da mensageira.

--Nada menos, respondeu esta. Admira-se, não? Tambem eu; e sua madrinha egualmente. Mas ha quem tenha o mau gosto de apaixonar-se por seus bellos olhos, e a affronta de a vir pedir, como se se podissem as estrellas do ceu...

Guiomar comprehendeu de que se tratava. Olhou desdenhosamente para a ingleza, e disse em tom secco e breve:

--Mas, conclua, Mrs. Oswald.

--A senhora baroneza manda chamal-a.

Guiomar dispoz-se a ir ter com a madrinha; Mrs. Oswald fel-a parar um instante, e com a mais meliflua voz que possuia na escala da garganta, disse:

--Toda a felicidade desta casa está em suas mãos.

XVIII

A escolha.

Mrs. Oswald tinha falado de mais. A baroneza não a incumbira de dizer á afilhada a razão porque a mandava chamar. Aconteceu, porém, que aquella indisçrição não foi a unica. Mrs. Oswald, em vez de esquivar-se e deixar que entre Guiomar e a baroneza fosse tratado o assumpto que as ia reunir, cedeu á curiosidade, e acompanhou a moça.

A baroneza estava sentada, entre duas janellas, com a carta aberta nas mãos, tão attenta em relel-a, que não ouviu o rumor dos pés de Guiomar e de Mrs. Oswald.

--Madrinha chamou-me? perguntou Guiomar parando em frente della.

A baroneza ergueu a cabeça.

--Ah! É verdade; sim; chamei-te. Senta-te aqui.

Guiomar arrastou a cadeira que ficava mais proxima e sentou-se ao pé da baroneza. Esta, entretanto, havia dobrado lentamente a carta, e tinha os olhos no chão, como a procurar por onde começaria. Quando os levantou deu com a ingleza. Ia já a falar, mas estacou. A affeição que lhe tinha não impediu que achasse demasiada familiaridade a presença de Mrs. Oswald em semelhante occasião. Esperou alguns instantes; mas como a ingleza parecesse inteiramente distrahida:

--Mrs. Oswald, disse a baroneza, vá ver se ja deram de comer aos passarinhos.

A ingleza percebeu que estes passarinhos, naquelle caso, eram uma pura metaphora, e que a baroneza nada mais fazia do que pedir-lhe delicadamente que se fôsse embora. Todavia, não se deu por achada.

--Parece-me que não, disse ella; vou já saber disso.

--Olhe, disse a baroneza quando ella já ia a meio caminho; encoste-me essas portas, e dê ordem para que ninguem nos interrompa.

A ingleza obedeceu e saiu. A careta que fez ao sair ninguem lh'a pôde ver, e não se perdeu nada.

As duas ficaram sós.

--Senta-te aqui, Guiomar, disse a baroneza indicando um banquinho que lhe ficava aos pés.

Guiomar deixou a cadeira e foi sentar-se no banquinho, pousando amorosamente os braços nos joelhos da madrinha. Esta cingiu-lhe a cabeça com as mãos, e assim esteve longo tempo sem falar, mas eloquente naquella mudez, em que a palavra pertencia ao coração. Ambas estavam commovidas; e Guiomar, de envolta com um suspiro, murmurou este unico e doce nome:

--Mamãe!

Era a primeira vez que ella lhe dava este nome, e tão fundo lhe calou na alma á baroneza que a resposta foi cobril-a de beijos.

--Sim, tua mãe, disse a madrinha; a que te deu o ser não te amaria mais do que eu. Tens a alma e a ternura da filha que o ceu me levou, e se todas as mães que perdem filhos podessem substituil-os do mesmo modo, desapparecia do mundo a maior e mais cruel dor que ha nelle...

A resposta de Guiomar foi apertar-lhe as mãos e beijar lh'as. Seguiu-se uma pausa, em que a commoção a pouco e pouco desappareceu, e a baroneza olhou para a carta de Luiz Alves, amarrotada pelo gesto de Guiomar.

--Guiomar, disse ella emfim, já reflectiste no pedido de hontem á noite?

A moça esperava que a madrinha lhe falasse no pedido de Luiz Alves; a pergunta da baroneza desnorteou-a um pouco. Sua intelligencia, porém, era clara e sagaz; a resposta foi outra pergunta:

--Uma noite será bastante para decidir de todo o resto da vida? disse ella sorrindo.

--Tens razão, minha filha; mas a pergunta era natural da parte de quem quer ver realizado um desejo. Jorge pediu-te em casamento. Sabes que é um excellente caracter?

--Excellente, respondeu a moça.

--Uma boa alma, continuou a baroneza, e um moço distincto. Parece gostar muito de ti, segundo disse hontem, não? É natural; só me admira que não te amem muitos mais.

A baroneza parou; Guiomar brincava com as franjas da manga sem se atrever a levantar os olhos.

--Deves saber, continuou a baroneza,--que eu estimaria ver que este casamento se effectuasse; estou convencida de que te faria feliz, e a elle também, pelo menos tanto quanto é possivel julgar das cousas presentes... Que diz o teu coração?

E como Guiomar não respondesse logo:

--Ah! esquecia-me do que me disseste ha pouco. Uma noite não é bastante para decidir de todo o resto da vida. Bem; ouvir-me-has mais duas cousas. A primeira é que... Lê tu mesma esta carta.

A baroneza deu a carta a Guiomar, que a abriu e leu o pedido que Luiz Alves fazia de sua mão. Em quanto ella percorria com os olhos as poucas linhas escriptas, a madrinha parecia observa-la fixamente, como a tentar ler-lhe no rosto a impressão que o pedido lhe fazia, se espanto, se satisfação. Não houve espanto nem satisfação apparente; Guiomar leu a carta e entregou-a á madrinha.

--Leste? É a primeira cousa que eu queria dizer-te. O Dr. Luiz Alves pede-te em casamento; tens de escolher entre elle e Jorge. A segunda cousa é que dos dous pretendentes Jorge é o que meu coração prefere; mas não sou eu que me caso, és tu; escolhe com plena liberdade aquelle que te falar ao coração.

Guiomar erigiu o busto e olhou direitamente para a madrinha, com taes signaes de espanto no rosto, que esta não poude deixar de lhe perguntar:

--Que tens?

A moça não respondeu; quero dizer não lhe respondeu com os labios; travou-lhe da mão e apertou-a entre as suas, e ficou a olhar para ella como a reflectir. A expressão de seu rosto passara do espanto á satisfação e desta a uma cousa que parecia a um tempo indignação e asco.

--Oh! madrinha! exclamou Guiomar, porque se não entenderam logo os nossos corações? Não havia mister pôr de permeio um espirito importuno e desconsolador. Se eu advinhara essas palavras que acabou de dizer, não teria padecido metade do que me fazem padecer ha longos dias...

--Padecer?

--Padecer; nada menos. Mas deixemos isso. Foi o seu coração que falou e o meu que ouviu; posso agora dizer-lhe francamente o que sinto, sem receio de a affligir.

Não precisava dizer mais nada; a escolha que ella ia fazer estava já indicada pelo menos. Entendeu-o a baroneza, que fechou o rosto e suspirou. A afilhada ouviu-lhe o suspiro, e percebeu a tristeza subita; arrependeu-se de ter ido tão longe.

--Percebo, respondeu a baroneza, queres dizer que dos dous pretendentes escolhes o Dr. Luiz Alves?

A moça conservou-se calada; a madrinha olhava para ella com uma expressão de anciedade que a affligiu.

--Fala, repetiu a baroneza.

--Escolho... o Sr. Jorge, suspirou Guiomar depois de alguns instantes.

A baroneza estremeceu.

--Falas serio? Não creio; não é esse o sentimento do teu coração. Vê-se que não é. Queres illudir-me e a ti também. Percebo que o não amas; não o amaste nunca. Mas amas ao outro, não é? Que tem isso? Não me dá o prazer que eu teria se... Que importa, se fores feliz? A tua felicidade está acima das minhas preferencias. Era um sonho meu; desejava-o com todas as forças; faria o que pudesse para alcançal-o; mas não se violenta o coração,--um coração, sobretudo, como o teu! Escolhes o outro? Pois casarás com elle.

Vê o leitor que a palavra esperada, a palavra que a moça sentia vir-lhe do coração aos labios e querer rompel-os, não foi ella quem a proferiu, foi a madrinha; e se leu attento o que precede verá que era isso mesmo o que ella desejava. Mas porque o nome de Jorge lhe roçou os lábios? A moça não queria illudir a baroneza, mas traduzir-lhe infielmente a voz de seu coração, para que a madrinha conferisse, por si mesma, a traducção com o original. Havia nisto um pouco de meio indirecto, de tactica, de affectação, estou quasi a dizer de hipocrisia, se não tomassem á má parte o vocabulo. Havia, mas isto mesmo lhes dirá que esta Guiomar, sem perder as excellencias de seu coração, era do barro commum de que Deus fez a nossa pouco sincera humanidade; e lhes dirá tambem que, apezar de seus verdes annos, ella comprehendia já que as apparencias de um sacrificio valem mais, muita vez, do que o proprio sacrificio.

A baroneza acabára de falar. A alegria do rosto de Guiomar confirmou a sua primeira impressão, e se a escolha era contraria ao que ella desejava, a satisfação da afilhada pagou-lhe tudo quanto ella ira perder. Era assim aquella alma de mãe; boa, dedicada e generosa.

--Oh! madrinha! obrigada! exclamou a moça. Não me fica odiando?

--Oh! exclamou a baroneza com um tom de reprehensão.

E puxou-a para si, e abraçou-a com amor. Guiomar correspondeu ao movimento, e as duas confundiram as suas alegrias intimas e affeições sinceras.