Part 7
Infelizmente, Jorge reduziu todos esses calculos a nada. Ella contava com o seu demasiado apego aos regalos da côrte, não contava com as suggestões de Mrs. Oswald, que percebera o plano, e torcera a primeira resolução de Jorge, que era ficar e esperar. O sacrificio da parte delle era compensado pela probabilidade da victoria, a qual não consistia só em haver por esposa uma moça bella e querida, mas ainda em tornar muito mais summarias as partilhas do que a baroneza deixaria por sua morte a ambos. Esta consideração, que não era a principal, tinha ainda assim seu peso no espirito de Jorge, e, sejamos justos, devia tel-o: possuir era o seu unico officio. Assim era que não só a moça deixava de obter um bem, mas cahia de um mal em outro maior; tel-o ao pé de si, onde as distracções seriam menos promptas e variadas, equivalia a adoecer de fastio e morrer de inanição.
Imagine-se por isso em que estado lhe ficou o espirito depois da declaração de Jorge. Não havia meio de fugir ao pretendente, era preciso tragal-o. Esta perspectiva abateu-lhe totalmente o animo. Uma confidente, em taes situações, é um presente do ceu; mas Guiomar não a tinha, e se alguma pessoa lhe merecesse tal confiança, é certo ou quasi certo que lhe não diria nada. Suas dores eram altivas, as tristezas de seu coração tinham pudor. Espiritos desta casta ignoram a consolação que ha, nas horas de crise, em se repartirem com outro; triste, mas feliz ignorancia que lhes poupa muita vez o contacto de uma consciência aleivosa e ruim.
No meio do longo reflectir, soaram-lhe na memoria as palavras de Luiz Alves; ella ouviu-as de novo, taes quaes elle as proferira, desde a phrase descortez até à expressão respeitosa. Uma era o commentario da outra, e ambas podiam explicar-lhe o caracter de Luiz Alves, se tivesse alguns elementos mais para conhece-lo; em todo o caso, era a ponta do veu levantada. Embora se lhe não podesse ler no fundo do espirito, via-se desde já qual era o seu methodo de acção.
Qualquel outro homem, depois do effeito produzido pela primeira declaração, não se atreveria ou não lhe importaria tentar mais nada para desfazer o projecto da viagem. Mas o espirito de Luiz Alves tinha a obstinação do dogue. Era-lhe necessario que a familia da baroneza não saisse da côrte; este objecto havia de alcança-lo a todo o trance. Elle espreitava as occasiões, aproveitava as circumstancias, tinha a habilidade de intercalar o pedido em qualquer retalho de conversação, onde menos apropriado pareceria a qualquer outro. Jorge applaudia-o com as forças todas de que podia dispor o seu interesse. A baroneza oppunha ás suggestões do advogado a resistencia molle e atada de quem deseja aquillo mesmo que recusa.
--O doutor é terrivel, dizia ella. Em se lhe mettendo uma cousa na cabeça, ninguem mais o tira dahi.
--Justamente, é uma ideia fixa. Sem ideia fixa não se faz nada bom neste mundo.
Guiomar sustentava a resolução da madrinha, posto não o fizesse a miudo, nem no mesmo tom secco e imperioso da primeira noite. Seu impulso era ser coherente; ao mesmo tempo não queria parecer aos olhos de Luiz Alves que lhe acceitava o concurso para obter o que aliás desejava de todo o coração; sería laval-o da primeira culpa.
O argumento que mais influia no animo de todos, o que devera ter affastado a ideia de semelhante viagem, era o perigo de affrontar o cholera-morbus que por aquelle tempo percorria alguns pontos do interior. Um dia de manhã soube-se que em Cantagallo havia apparecido o terrível inimigo. Desta vez Luiz Alves triumphou sem dizer palavra; a baroneza recuou deante daquelle facto brutal.
A viagem desfez-se pois, a contento de todos, salvo talvez de Mrs. Oswald, que receiava muito da mocidade casadeira da côrte, e dos bellos olhos castanhos de Guiomar. Mrs. Oswald temia ver surgir a cada passo um novo inimigo emboscado em algum theatro ou baile, ou quando menos na rua do Ouvidor, e não via que o inimigo novo podia ser que estivesse litteralmente ao pé da porta. A sagacidade da ingleza desta vez foi um tanto myope. A razão é que Luiz Alves, em todos aquelles seus preliminares, houve-se com habilidade; longe de procurar a moça, parecia nada haver alterado nos seus sentimentos, nem desejar mudar a especie de relações que até alli mantinha. Guiomar, entretanto, não podia deixar de comparar aquella especie de attenciosa indifferença que havia delle para ella, com as palavras que anteriormente lhe ouvira, e o resultado da comparação não lhe parecia muito claro.
Na noite do mesmo dia em que ficou assentado defferir a viagem para melhores tempos, achavam-se em casa da baroneza algumas pessoas de fóra; Guiomar, sentada ao piano, acabava de tocar, a pedido da madrinha, um trecho de opera da moda.
--Muito obrigada, disse ella a Luiz Alves que se approximára para dirigir-lhe um comprimento. Está alegre! Parece que é a satisfação de me haver mallogrado o maior desejo que eu tinha nesta occasião.
--Não fui eu, disse elle, foi a epidemia.
--Sua alliada, parece.
--Tudo é alliado do homem que sabe querer, respondeu o advogado dando a esta phrase um tanto emphatica o maior tom de simplicidade que lhe podia sair dos labios.
Guiomar curvou a cabeça e esteve alguns instantes a perpassar os dedos pelas teclas, em quanto Luiz Alves, tirando de cima do piano outra musica, dizia-lhe:
--Podia dar-nos este pedaço de Bellini, se quizesse.
Guiomar pegou machinalmente na musica e abriu-a na estante.
--Era então vontade sua? perguntou ella continuando o assumpto interropido do dialogo.
--Vontade certamente, porque era necessidade.
--Necessidade,--tornou ella começando a tocar, menos por tocar que por encobrir a voz; mas necessidade por que?
--Por uma razão muito simples, porque a amo.
A musica estacou. Guiomar erguera-se de um salto. Mas nem o gesto da moça, nem a sorpresa das outras pessoas, perturbou o advogado; Luiz Alves inclinou-se para o mocho, como a concertal-o, e voltando-se para Guiomar, disse-lhe graciosamente:
--Pode sentar-se-agora; está seguro.
Guiomar sentou-se outra vez muda, despeitada, a bater-lhe o coração como nunca lhe batera em nenhuma outra occasião da vida, nem de susto, nem de colera, nem... de amor, ia eu a dizer, sem que ella o houvesse sentido jamais. Não se demorou muito tempo alli; com a mão tremula folheou a musica que estava aberta na estante, deixou-a logo e levantou-se.
Nestes derradeiros movimentos ninguem reparou; e se alguem pudesse reparar em alguma cousa, a moça tomara a peito desvanecer todas as suspeitas. A primeira impressão fora profunda, mas Guiomar tinha força bastante para dominar-se e fechar todo o sentimento no coração.
O que se passou depois, quando, livre de olhos estranhos, pôde entregar-se a si mesma, isso ninguem soube, a não serem as paredes mudas do quarto, ou o raio de lua coado pelo tecido raro das cortinas das janellas, como a espreitar aquella alma faminta de luz. Soube-o, talvez, o seu espelho, quando no dia seguinte lhe reflectiu o rosto desfeito e os olhos quebrados. Se foi a meditação nocturna que os amolleceu e apagou, não o perguntou elle, naturalmente porque o sabia; mas talvez advertiu comsigo que se eram assim mais bellos, pediam outro rosto em que caissem melhor. O de Guiomar queria-os como elles eram, severos, firmes e brilhantes.
A baroneza tambem não deixou de ver que a afilhada não accordara com o mesmo ar do costume; achou-a taciturna e distrahida.
--Eu, madrinha? perguntou Guiomar simulando um sorriso de admiração.
--Será engano de meus olhos.
--Não é outra cousa; estou como sempre, como hontem, como amanhã. Passei a noite um pouco mal, é verdade; mas o que tive desapareceu inteiramente. A prova...
Guiomar parou neste ponto, chegou-se á madrinha e deu-lhe um beijo.
--A prova, continuou ella, é que ainda hoje me acha bonita, não é?
--Creança! respondeu a baroneza, dando-lhe uma pancadinha na face.
A tranquillidade da moça era simulada; apenas a madrinha voltou as costas, cobriu-se-lhe o rosto com o mesmo veu. Ella aprendera desde creança a disfarçar as suas preoccupações.
Quanto a Luiz Alves, posto houvesse contado com o seu methodo cru e abrupto, saiu dalli sem plena certeza do resultado. Esta incerteza abalou-o mais do que elle suppunha; e foi, sem duvida, a primeira occasião em que sentiu que a amava devéras, ainda que o seu amor fosse como elle mesmo: placido e senhor de si. No dia seguinte, Estevão interrogou-o a respeito de Guiomar.
--Creio, disse elle depois de reflectir alguns instantes,--creio que por ora não deves perder as esperanças todas.
XV
Embargos de terceiro.
Durante tres dias deixou Luiz Alves de ir á casa da baroneza, estando aliás a morrer por isso. Entrava porém no plano esta ausencia; era das instrucções que elle mesmo dera ao seu coração; não havia remedio senão observal-as.
No quarto dia recebeu um bilhete da baroneza que o comprimentava pela eleição. A mala do norte chegára, e com ella a noticia da victoria eleitoral. Estava Luiz Alves deputado; ia emfim dar a sua demão no fabricos das leis. Estevão foi o primeiro que o felicitou; era o antigo companheiro dos bancos da academia; tanto ou mais do que os outros devia applaudir aquella boa fortuna. Não lhe escondeu, entretanto a inveja que ella lhe mettia:
--Deputado! suspirou elle. Oh! eu tambem podia ser deputado.
Estevão dizia isto, como a creança deseja o dixe que vê no collo de outra creança,--nada mais. Eram os seus sonhos de outr'ora, que renasciam taes quaes eram, inconsistentes, vagos, prestes a dissiparem-se com o primeiro raio da manhã.
Luiz Alves apressou-se a ir agradecer á baroneza a felicitação. Guiomar teve um leve estremecimento quando o viu, mas recebeu-o tranquilla e risonha, quasi indifferente. O advogado era habil; não a perseguiu com os olhos; sobre accordar a attenção das demais pessoas, era seguir o methodo commun. Elle não queria parecer-se com os outros.
Guiomar, entretanto, observava-o a espaços, de revez, como a querer sorprehendel-o; a pouco e pouco, porém, o seu olhar foi sendo mais direito e firme. O de Luiz Alves era natural e egual como antes era, como era ainda agora com todos.
Ao sair, junto á porta de uma sala, onde acaso a topou, Luiz Alves teve occasião de lhe dizer esta simples palavra:
--Perdoou-me?
A moça retirou a mão, que elle tinha presa na sua, e furtou o corpo, ao mesmo tempo que lhe caiam as palpebras.
--Perdoou-me? repetiu-elle.
Guiomar retirou-se sem dizer palavra. Luiz Alves esperou que ella desapparecesse e saiu. A moça, entretanto, ficou irritada por nada lhe ter respondido, sendo verdade que nada achou nem acharia talvez que lhe responder; mas arrependeu-se e pensou longo tempo naquillo.
Quer dizer que o amava? Quer dizer que estava prestes a isso. A arraiada branqueava o ceu, tingiria depois o cimo dos montes, entornar-se-hia emfim pela encosta abaixo, até apparecer o sol,--o sol contemporaneo de Adão, e do ultimo homem que hade vir.
Dalli a dias, entrando Luiz Alves em casa da baroneza, teve a boa fortuna de encontrar a moça sosinha, na sala do trabalho, d'onde a baroneza se ausentára cinco minutos antes. Mrs. Oswald achava-se fóra. Era a hora da tardinha; o dia estava prestes a afogar-se no seio da noite.
Guiomar, mollemente sentada n'uma cadeira baixa, tinha um livro aberto sobre os joelhos e os olhos no ar. Luiz Alves sorprehendeu-a nessa attitude meditativa, mais bella do que nunca, porque assim, e áquella hora, e com o vestido meio escuro que lhe realçava a côr de leite da face, tinha um quê de gracioso e severo, ao mesmo tempo, que parecia buscado de proposito para recebe-lo.
--Minha madrinha já vem, disse Guiomar logo depois de lhe estender a mão, que elle apertou e sentiu um pouco tremula.
--Talvez daqui a cinco minutos, disse elle; é bastante para decidir o meu destino. Duas vezes lhe perguntei se me perdoara; pela terceira lhe peço que me responda; custa pouco uma unica palavra; custa menos ainda, um unico gesto.
A moça olhou algum tempo para o livro que tinha diante de si. A manhã, porem, era já alta no coração de Guiomar, a claridade intensa, o sol quente e vivo, por que ella não olhou muito tempo para o livro, nem hesitou mais do que era natural e exigivel naquella occasião. Dous minutos depois fez o gesto, um gesto só, mas ainda mais eloquente do que se ella falasse,--estendeu-lhe a mão.
Luiz Alves apertou-lh'a entre as suas.
A commoção era natural em ambos; alli estiveram alguns instantes calados, elle com os olhos fitos nella, ella com os seus no chão. As mãos tocavam-se e os corações palpitavam unisonos. Decorreram assim cinco breves minutos. Ella foi a primeira que rompeu o silencio.
--Um gesto, um só gesto, e é o meu destino que lhe entrego com elle, disse Guiomar olhando em cheio para o moço.
--Ainda não. Se os nossos destinos se ligarem, estou convencido de que o meu amor, pelo menos, terá a virtude de a tornar feliz. Mas nada está feito ainda, e se eu fui breve e apressado na confissão, não o desejo ser na consagração que lhe peço.
Luiz Alves calara-se; a moça olhava para elle como buscando entende-lo.
--Sim, continuou elle; melhor é que não ceda a um instante de enthusiasmo. Minha vida é sua; todo o meu destino está nas suas mãos... Comtudo, não quero sorprehender-lhe o coração neste momento; no dia em que me julgar verdadeiramente digno de ser seu esposo, ouvi-la-hei e seguila-hei.
A resposta da moça foi apertar-lhe as mãos, sorrir, e embeber os seus olhos nos delle. O passo da baroneza interrompeu esta contemplação.
Guiomar amava deveras. Mas até que ponto era involuntario aquelle sentimento? Era-o até o ponto de lhe não desbotar á nossa heroina a castidade do coração, de lhe não diminuirmos a força de suas faculdades affectivas. Até ahi só; dahi por diante entrava a fria eleição do espirito. Eu não a quero dar como uma alma que a paixão desatina e cega, nem faze-la morrer de um amor silencioso e timido. Nada disso era, nem faria. Sua natureza exigia e amava essas flores do coração, mas não havia esperar que as fosse colher em sitios agrestes e nus, nem nos ramos do arbusto modesto plantado em frente de janella rustica. Ella queria-as bellas e viçosas, mas em vaso de Sèvres, posto sobre movel raro, entre duas janellas urbanas, flanqueado o dito vaso e as ditas flores pelas cortinas de cachemira, que deviam arrastar as pontas na alcatifa do chão.
Podia dar-lhe Luiz Alves este genero de amor? Podia; ella sentiu que podia. As duas ambições tinham-se adivinhado, desde que a intimidade as reuniu. O proceder de Luiz Alves, sobrio, directo, resoluto, sem desfallecimentos, nem demasias ociosas, fazia perceber á moça que elle nascera para vencer, e que a sua ambição tinha verdadeiramente azas, ao mesmo tempo, que as tinha ou parecia tel-as o coração. Demais, o primeiro passo do homem publico estava dado; elle ia entrar em cheio na estrada que leva os fortes á gloria. Em torno delle ia fazer-se aquella luz, que era a ambição da moça, a atmosphera, que ella almejava respirar. Estevão dera-lhe a vida sentimental,--Jorge a vida vegetativa; em Luiz Alves via ella combinadas as affeições domesticas com o ruido exterior.
Uma vez entendidos, é difficil que dous corações se encubram, pelo menos aos olhos mais sagazes. Os de Mrs. Oswald eram dos mais finos. A ingleza percebeu dentro de pouco tempo que entre elles havia alguma cousa. Interrogar a moça era inutil, sobre perigoso; seria ir, de coração leve, em busca de odio, talvez. Todavia se ainda fosse possivel salvar tudo? Guiomar resistiria difficilmente a um desejo de madrinha; era possível vencel-a por esse lado.
Mrs. Oswald concebeu então um projecto insensato, que lhe pareceu aliás excellente e de bom aviso. O desejo de servir a baroneza e levar uma ideia ao fim tapou-lhe os olhos de razão. Ella foi directamente a Jorge.
--Sabe o que me está parecendo? disse ella. Parece-me que ha mouro na costa.
--Mouro na costa! exclamou Jorge com uma tal expressão de desgosto, que era facil comprehender o fundo de suspeita já existente em seu espirito.
--Nada menos, disse a ingleza; mas um mouro que se póde capturar.
E a ingleza expoz um plano completo que o sobrinho da baroneza ouviu um tanto perplexo. O plano consistia em ir Jorge pedir a moça á baroneza, em presença della propria. A baroneza, que nutria o desejo de os ver casados, não deixaria de fazer pezar o seu voto na balança, e era muito difficil que a gratidão de Guiomar não decidisse am favor de Jorge.
--A gratidão... e o interesse, continuou ella; Devemos contar tambem com o interesse, que é um grande conselheiro intimo. Ella não ha de querer sacrificar a affeição da madrinha, que para ella vale...
--Oh! que triste lembrança! interrompeu Jorge, recuando diante da ideia de Mrs. Oswald.
A ingleza sorriu,--e deixou por mão aquelle argumento; firmou-se porém no da affeição. Guiomar não se opporia a um desejo da madrinha; era urgente dar-lhe o golpe. Jorge não se atrevia a sorprehender por esse meio a acquiescencia da moça; mas acreditava na efficacia delle, e sobretudo receiava perder a causa. Uma vez que a vencesse, tudo podia confiar do tempo e do seu amor.
O conselho foi seguido pontualmente. De noite, em presença da baroneza á hora da despedida,--porque elle hesitara a maior parte do tempo,--praticou Jorge aquelle acto insensato de declarar á moça que a amava e de lhe pedir a mão. A tia sorriu de contentamento, mas teve a prudencia de não proferir nada emquanto Guiomar, empallidecendo, nada dizia, porque nada achava que dizer.
O silencio durou cerca de tres e quatro minutos, um silencio acanhado a vexado, em que nenhum delles se atrevia a reatar a conversação. A baroneza, pela sua parte, imaginava que os dous estavam emfim entendidos, e que a declaração era autorisada pela moça. O enleio de Guiomar não era dos que podessem dar cabimento a esta supposição; mas a boa senhora via com os olhos dos seus bons desejos.
--Pela minha parte, declarou emfim a baroneza, não me opponho; estimaria muito que acabassem por ahi. Mas é negocio do coração; devo esperar a resposta de Guiomar.
E voltando-sa para a afilhada:
--Pensa e resolve, minha filha, disse ella; e se fores feliz, sel-o-hei ainda mais do que tu.
Duas vezes pairou a negativa nos labios da moça; mas a lingua não se atrevia a repellir a palavra do coração. No fim de alguns instantes:
--Reflectirei, respondeu ella beijando a mão a madrinha; e continuou voltando-se para Jorge:--Boa noite! Até amanhã.
XVI
A confissão.
Na mesma noite em que Jorge, cedendo ás suggestões de Mrs. Oswald, tentava o ultimo recurso que no intender da ingleza havia, achava-se Luiz Alves em casa, commodamente sentado n'uma poltrona de couro, defronte da janella com os olhos no mar e o pensamento nas suas duas candidaturas vencidas. Meia noite estava a pingar; uma pessoa descia de um tibury e batia-lhe á porta.
Era Estevão.
Luiz Alves naturalmente admirou-se de o ver alli áquella hora; mas Estevão explicou-lhe tudo.
--Venho passar meia hora comtigo, ou a noite toda se quizeres. Estava em casa aborrecido, a pensar... bem sabes em que...
--Nella? interrompeu Luiz Alves.
--Agora e sempre.
Luiz Alves torceu o bigode, e olhou tres ou quatro vezes para o collega, em quanto este tirava o chapeu e dispunha-se a ir buscar uma cadeira para sentar-se ao pé do outro.
--Estevão, disse Luiz Alves depois de algums instantes de reflexão, e voltando a poltrona para dentro, ouve-me primeiro e resolverás depois se ficas a noite ou se te vás embora immediatamente. Talvez escolhas este ultimo alvitre.
--Vás falar-me de Guiomar?
--Justamente.
Estevão sentou-se defronte de Luiz Alves. Seu coração batia appressado; dissera-se que toda a sua vida pendia dos labios do amigo. Houve um instante de silencio.
--Nenhuma.... nenhuma esperança então? murmurou Estevão.
--Disseste a fatal palavra! exclamou Luiz Alves. Sim, não tens nenhuma esperança.
--Mas.... como sabes?
--Não me interrogues; eu não poderia dizer-te tudo o que ha. Poupa-me, ao menos, esse triste dever.
Estevão sentiu arrasarem-se-lhe os olhos d'agua. Quiz falar, mas as palavras iam-lhe saindo envoltas em soluços.
Luiz Alves fumava tranquillamente, acompanhando com os olhos os rolinhos de fumo que lhe fugiam da ponta do charuto. Este silencio durou cerca de dez minutos. O mar batia compassadamente na praia. A voz da onda e o latido de um cão ao longe eram os unicos sons que vinham quebrar a mudez daquella hora solemne para um desses dous homens que ia perder até o repouso da esperança.
Estevão foi o primeiro que falou:
--Ama a outro, não é? perguntou elle com a voz tremula.
--Ama, respondeu surdamente Luiz Alves.
Estevão ergueu-se e deu alguns passos na sala, sem dizer palavra, a morder a ponta do bigode, parando ás vezes, outras traduzindo com um gesto desordenado os sentimentos que lhe tumultuavam no coração. A dor devia ser grande, mas a manifestação já não era a mesma que o leitor lhe viu, dous annos antes, quando elle foi confiar ao amigo o primeiro desengano de Guiomar.
--Parece-me que eu adivinhava isto mesmo, disse elle, emfim, parando em frente de Luiz Alves. Este desejo que me accometteu de vir aqui, a este hora, sem certeza de encontrar-te, era mais um beneficio do meu destino. Devia esperal-o. Que vida tem sido a minha, Luiz! Agarrei-me, nem sei por que, á esperança de ser amado por ella, de a vencer pela piedade, ou pelo remorso, ou por qualquer outro motivo que fosse,--o motivo importava pouco... O essencial é que ella me pagasse em ternura e amor todas as dores que curti, as lagrimas todas que tenho devorado em silencio... E era so essa esperança que ainda me dava forças... que me fazia crer feliz, como pode sel-o um desgraçado, como podia sel-o eu, que nasci debaixo de ruim estrella.... Oh! se tu souberas... Não, não sabes, nem ella tambem, ninguem sabe nem saberá nunca tudo quanto tenho padecido, tudo quanto....
Interrompeu-se. Duas lagrimas, espremidas do fundo do coração, saltaram-lhe dos olhos e desceram-lhe rapidas a perder-se entre os cabellos raros e finos da barba. Elle sentiu que outras podiam vir, e foi sentar-se n'um sophá, meio voltado de costas para Luiz Alves. As outras vieram, porque o coração ainda as tinha para as dôres supremas; mas correram-lhe silenciosas, sem um soluço, sem uma queixa unica.
Luiz Alves lavantara-se e chegara á janella. Seu espirito, apezar de frio e quieto, parecia agora um pouco alvoroçado. Não era dor; e não sei se lhe podia chamar remorso. Mau-estar apenas, e commiseração. O coração era capaz de affeições; mas, como ficou dito no primeiro capitulo, elle sabia rege-las, modera-las e guia-las ao seu proprio interesse. Não era corrupto nem perverso; tambem não se póde dizer que fosse dedicado nem cavalheresco; era, ao cabo de tudo, um homem friamente ambicioso.
Estevão levantara-se outra vez e pegara no chapeu.
--Vem cá, disse Luiz Alves entrando e indo ter com elle; vejo que estás mais homem do que antes. Resta o que sejas completamente; varre da memoria e do coração tudo o que possa referir-se...
--Que remedio! interrompeu Estevão sorrindo amargamente; que remedio tenho eu se não esquece-la! Mas quando?
--Mais breve talvez do que suppões...
Luiz Alves não acabou; Estevão olhara para elle com um gesto de espanto e fora sentar-se outra vez.
--Mais breve do que supponho! exclamou elle. Tu não tens coração: não tens sequer observação nem memoria. Não vês, não sentes que esta paixão é o sangue do meu sangue, a vida da minha vida? Esquece-la! Era bom se eu a pudesse esquecer; mas a minha má sina até essa esperança me arranca, porque este padecer intimo, constante, ha de ir commigo até á morte...