Part 6
Estevão não perdeu tempo em circumloquios; foi entrando e entornando a alma toda, afflicta e consolada a um tempo, no seio do velho amigo e companheiro. A cada trecho da confissão plena que elle alli lhe fez, respondia um commento, ora serio, ora gracioso de Luiz Alves. Quando Estevão porém lhe deu noticia de que a familia da baroneza ia para a roça, Luiz Alves recolheu o meio-riso que lhe pousava nos labios desde começo, e com a mais subita e sincera admiração exclamou:
--Para a roça!
--Disse-o agora mesmo a baroneza.
--Mas...
Luiz Alves não acabou; olhou ainda meio duvidoso para Estevão, e ficou algum tempo calado, a coçar o queixo com a faca de marfim e a olhar para uma gravura que pendia na parede fronteira.
--Na situação em que estou, continuou Estevão, has de dizer que a viagem é uma felicidade para mim. Pois não é; não admitto a viagem. Se ella sair da côrte, eu saio também.
--Tu estás doudo!
--Talvez.
Luiz Alves saiu daquella natural indifferença com que o ouvia, e lhe falava sempre em tal assumpto. Falou-lhe carinhoso,--talvez pela primeira vez na vida. O que lhe disse foi apenas ume edição augmentada de que lhe havia dito em anteriores occasiões,--agora com maior fundamento, porque depois do formal desengano de Guiomar, não havia outro recurso mais que ir esquecel-a de todo.
--Oh! isso nunca! interrompeu Estevão. Demais, não sei, não estou certo se ella falava de coração naquella tarde...
A candidez com que Estevão disse isto era a fiel traducção de seu espirito, e a razão de taes palavras, não a procure o leitor em outra parte mais que não seja aquelle sorriso de ha pouco, ao pé do carro, sorriso que lhe bailava no cerebro, como raio de sol coado por entre nuvens negras de tempestade.
Luiz Alves sacudiu a cabeça e enfiou os olhos pelas folhas rabiscadas de uns autos que tinha diante, e que entrou a folhear vagarosamente. Subito, bateu uma pancadinha, com a mão espalmada sobre os papeis, e levantou a cabeça:
--Ha um meio talvez de saber tudo, disse elle, de saber se ella verdadeiramente te ama, ou... Posso tenta-lo, com uma condição.
--Qual?
--A condição de eliminares as tuas pretenções. Que diabo ganhas tu em nutrir uma paixão sem efficacia nem remedio?
Esta promessa era a mais dura que se podia arrancar de um coração, em que as gerações de esperanças se succediam quasi sem solução de continuidade; fel-a, todavia, Estevão, talvez com a secreta resolução de a trahir.
Luiz Alves ficou só dahi a alguns minutos. As ultimas palavras que disse ao collega foram duas ou tres pilherias de rapaz; mas apenas ficou só tornou-se serio, e inclinando o corpo para a frente, com os braços na secretaria, e a raspar as unhas com um canivete, alli esteve largo tempo, como a reflectir, longe de Estevão, que aliás já não ía perto, e ainda mais longe dos autos que tinha diante de si. Mas em que pensava elle, se não era em Estevão, nem nos autos, nem tambem, por agora, nas suas esperanças eleitoraes Paciencia, leitor; sabel-o-has daqui a nada. Contenta-te com a noticia de que, ao cabo de vinte minutos daquella abstracção, Luiz Alves volveu a si, proferindo em alta voz esta simples palavra:
--Não ha duvida; é uma ambiciosa.
E descativado daquella preoccupação, enterrou-se de todo na leitura dos autos.
XII
A viagem.
Mal recomeçára Luiz Alves a leitura dos autos, entrou no gabinete o criado apresentando-lhe um bilhete de visita.
--Que entre! disse o advogado lendo o nome do sobrinho da baroneza.
E logo se ouviu no corredor o passo medido e lento do mancebo, que d'ahi a nada assomava á porta do gabinete, fazendo uma cortezia, sisuda, mas graciosa.
--Venho incommoda-lo, doutor? perguntou Jorge.
--Pelo amor de Deus! exclamou o advogado erguendo-se e indo buscal-o á porta. Não me incommodaria em caso nenhum; agora, sobretudo, que a leitura de uns papeis me fatigou sobre maneira, a maior fortuna que eu poderia desejar é a presença de um homem de espirito.
Jorge agradeceu este comprimento um pouco emphatico, e retribuiu-o com outra lisonjaria muito mais extensa e de maior alcance. Quer dizer que elle vinha pedir alguma cousa. Effectivamente, passados os minutos de introito e desfiadas as generalidades, Jorge impertigou-se mais do que até alli estivera e desfechou esta pergunta abrupta:
--Sabe que venho pedir-lhe uma cousa grave?
Luiz Alves inclinou-se.
--Grave e simples ao mesmo tempo, continuou o sobrinho da baroneza; mas antes disso precisava saber se é tão amigo da nossa familia, como ella o é do senhor.
--Oh! de certo!
--O senhor é o menos assiduo, talvez, das pessoas que lá vão, apezar de visinho; só agora o vejo alli mais a miudo; entretanto é como flor que se trahe pelo aroma; minha tia tem a seu respeito a melhor opinião do mundo; acha-lhe uma gravidade, e eu tambem a sinto, e nem comprehendo que um homem possa ser outra cousa. Os taes espiritos futeis...
--São insupportaveis, concluiu Luiz Alves ancioso por chegar ao objecto da visita.
O objecto era a viagem da baroneza. Um commendador, amigo do finado barão, e fazendeiro em Cantagallo, tinha promessa da viuva, havia dous annos, de ir lá passar algum tempo. A baroneza esquivara-se sempre a cumprir a palavra dada; agora porém, tal fora a insistencia, que se resolvera a ir. Ora, o que Jorge vinha propor era--, expressões delle,--uma conjuração de amigos para dissuadir a tia daquelle projecto. Affiançava ao advogado que, ainda descoberta a conjuração, teria elle a vida sã e salva.
Luiz Alves suppoz a principio que aquillo era um simples pretexto; mas, tendo observado que a bella Guiomar não era indifferente ao rapaz, comprehendeu que este tinha na conjuração proposta, um interesse inteiramente pessoal. Emfim, Jorge chegou a confessar que, se a tia insistisse em sair da côrte, elle não tinha remedio senão acompanha-la.
O accôrdo não foi difficil; ficou assentado que fariam todos os esforços para dissuadir a baroneza. Jorge quiz sair logo; reteve-o Luiz Alves algum tempo mais, com expressões de louvor habilmente tecidas e mais habilmente encastoadas na conversação; e tambem deixando-se ir á feição do espirito delle, acceitando-lhe as ideias e os preconceitos, e applaudindo-os discretamente,--serio, quando elles o eram ou pareciam ser,--chocarreiro quando vinham com ar de graça,--respondendo emfim a todos os gestos e meneios do outro, como faz o espelho por officio e obrigação:--toda a arte em summa de tratar os homens, de os attrahir e de os namorar, que elle aprendera cedo e que lhe devia aproveitar mais tarde na vida publica.
De noite foi Luiz Alves á casa da baronesa, onde poucas pessoas havia, todas de intimidade. A dona da casa, sentada na poltrona do costume, tinha ao pé de si uma senhora da mesma edade que ella, egualmente viuva, e defronte as suiças brancas e aposentadas de um ex-funccionario publico. N'um sophá, viam-se Mrs. Oswald e Jorge a conversarem em voz, ora muito baixa, ora um pouco mais elevada. Adiante, dous moços contavam a duas senhoras o enredo da ultima peça do Gymnasio. Mais longe, uma moça da visinhança gabava a outra a tesoura de Mme. Bragaldi, que pedia meças, dizia ella, ao pincel do scenographo, seu marido. Emfim, junto a uma das janellas via-se uma mocinha, viva e bonita, a dizer mil ninharias graciosas a outra pessoa, que era nada menos que a nossa conhecida Guiomar. A conversa, assim dividida, tornava-se ás vezes geral, para recair logo no particularismo anterior; os grupos modificavam-se tambem de quando em quando, do mesmo modo que o assumpto, e assim se iam matando agradavelmente as horas, que não resistiam, coitadas, nem apressavam o passo um minuto sequer.
Luiz Alves aggregara-se ao grupo da baroneza, ao qual não tardou juntar-se Jorge. O advogado teve a discrição de esperar que o assumpto viesse de si, se viesse, ou de o introduzir na conversa, quando lhe parecesse de feição. Mas Jorge, que estava impaciente, arrastou o assumpto ao debate. Luiz Alves, mostrou-se fiel á palavra dada; declarou amavelmente que se oppunha á viagem, como visinho e amigo, que reclamaria em ultimo caso o auxilio de força publica; que era um erro e um crime deixar aquella casa viuva da benevolencia e da graça e do gosto e de todas as mais qualidades excellentes que alli iam achar os felizes que a frequentavam; que, emfim, o mal era tamanho, que não deixaria de ser peccado, posto não viesse apontado nos cathecismos, e como peccado, seria de força punido, com amargas penas, no outro seculo, pelo que, e o mais dos autos, era sua decisão que a baroneza devia ficar.
Todas estas razões foram ditas como deviam de ser, de um modo galante e folgazão, a que a baroneza respondia egualmente, e que não daria nada mais de si, se Luiz Alves, mudando de estylo, não fosse pôr o assumpto em differente terreno.
--Digamos a verdade, Sra. baroneza, a viagem ha de ser-lhe immensamente incommoda, se for so isso; suas forças não são de certo eguaes ás de seus primeiros annos; sua saude é melindrosa e não poderá soffrer tanta fadiga. Confesso que falo em nome de certo interesse pessoal de amigo e de visinho; mas a principal razão não é essa. Se houvesse um motivo urgente, bem; mas tratando-se apenas de uma promessa feita ha tanto tempo, seria crueldade da minha parte não insistir que ficasse.
A baroneza defendia-se, e Luiz Alves não tardou em reconhecer de si para si que ella não se defendia com o vigor de uma resolução original e propria. A conversa, entretanto, tornára-se mais geral; de todos os lados partiam votos de opposição.
Guiomar havia já alguns minutos que não attendia á interlocutora; tinha o ouvido afiado e assestado sobre o grupo da madrinha. Ninguem a observava; mas é privilegio do romancista e do leitor ver no rosto de uma personagem aquillo que as outras não veem ou não podem ver. No rosto de Guiomar podemos nós ler, não só o tedio que lhe causava aquella opinião unanime contra o projecto da baroneza, mas ainda a expressão de um genio imperioso e voluntario.
--Estamos de accordo, creio eu? perguntou Luiz Alves olhando alternadamente para a baroneza e as outras pessoas.
--Não é possível, doutor, respondia a boa senhora.
--De certo que não é possível, interveiu Guiomar do lugar onde estava. A viagem não offerece risco, nem minha madrinha está invalida. Demais, é uma promessa feita; não se pode deixar de cumprir.
Esta opinião, dita em tom sêcco e firme, ainda que a voz nada perdesse do seu natural avelludado, equivaleu a um pouco de agua fria lançada na fervura triumphante dos animos.
--Guiomar tem razão, disse a baroneza; já agora é preciso ir; são apenas tres ou quatro mezes.
Luiz Alves olhou longamente para Guiomar, como a procurar ver-lhe no rosto todas antecedencias da resolução da baroneza. A opposição afrouxara; Jorge chamou em vão o advogado em seu auxilio. A resolução da tia, se alguma vez fora abalada, tornara-se outra vez firme.
Guiomar, entretanto, erguera-se e chegara ao grupo da madrinha. Jorge fitou-a com uma expressão de vaidade e cobiça. Luiz Alves, que se achava de pé, recuou um pouco para deixal-a passar. Os olhos com que a contemplou não eram de cobiça nem de vaidade; a leitora, que ainda lembrará da confissão por elle mesmo feita a Estevão, supporá talvez que eram de amor. Talvez,--quem sabe?--amor um pouco socegado, não louco e cego como o de Estevão, não pueril e lascivo, como o de Jorge, um meio termo entre um e outro,--como podia havel-o no coração de um ambicioso.
--O Dr. Luiz Alves defende causas más, disse Guiomar sorrindo para elle; não se trata de uma cousa impossivel. Quanto a mim, Cantagallo só tem um inconveniente; sera menos divertido que a côrte; mas o tempo passa depressa...
--Nesse caso, disse Jorge suspirando eu tambem dispenso theatros e bailes; sacrifico-me á familia.
--Queres ir comnosco? perguntou a baroneza alegremente.
--Que duvida!
Guiomar mordeu o labio inferior, com uma expressão de despeito, que pôde conter e abafar, sem que ninguem a percebesse, ninguem, excepto Luiz Alves. Um sorriso tranquillo e perspicaz roçou os labios do advogado, em quanto a moça, para esconder a impressão que lhe ficara, de novo se dirigiu á janella, onde esteve alguns momentos sósinha, meia voltada para fóra e meia guardada pela sombra que alli fazia a cortina. Um rumor de passos fel-a voltar-se para dentro. Era Luiz Alves.
--Ah! disse ella fingindo-se tranquilla; agradeço-lhe não haver insistido mais nos seus conselhos.
--A intenção era boa, respondeu Luiz Alves em voz baixa; mas será agora excellente; nem tudo está perdido: eu me incumbo de salvar o resto.
Guiomar franziu a testa com o mais vivo e natural espanto; tal espanto que parecia havel-a feito esquecer outro sentimento, igualmente natural:--o do despeito que lhe causaria aquella singular familiaridade. Mas o assombro dominou tudo; Guiomar sentiu que elle lera nella a razão da insistencia e o desgosto do resultado.
A ruga desfez se a pouco e pouco, mas a moça não retirou logo os olhos. Havia nelles uma interrogação imperiosa, que a alma não se atrevia a transmittir aos lábios. Se ha nos do leitor alguma interrogação, esperemos o capitulo seguinte.
XIII
Explicações.
Luiz Alves comprehendera toda a expressão dos olhos de Guiomar; era, porém, homem frio resoluto. Inclinou o busto com toda a graça correcta e de bom tom, e disse-lhe na voz mais branda que lhe permittia o seu orgão forte e severo:
--Parece-lhe que fui um pouco audaz, não é? Fui apenas sincero; e ainda que a sua delicadeza me condemne, estou certo de que ha em seu coração misericordia de sobra...
Guiomar tinha readquirido toda a posse de si mesma.
--Está enganado, disse ella, não o condemno, pela simples razão de que o não entendi.
--Tanto melhor, redarguiu Luiz Alves sem pestanejar; o meu delicto nesse caso não passou da esphera da intenção.
--Mas... referia-se á viagem?
--Referia-me; perguntava quando iam.
Esta presença de espirito de Luiz Alves ia muito com o genio de Guiomar; era um laço de sympathia. A moça respondeu que o commendador viria buscal-as dahi a quinze ou vinte dias.
--Tres mezes apenas? perguntou o advogado.
--Tres ou quatro.
--Quatro mezes não é a eternidade, mas Cantagallo, para uma carioca da gemma, hade ser um degredo, ou quasí... Oxalá,--continuou Luiz Alves, concluindo mais depressa do que queria, ao ver que Jorge se approximava da janella,--oxalá não lhe faça esse exilio esquecer o que solemnemente lhe digo neste momento: que a senhora tem uma alma grande e nobre, e que eu a admiro!
Jorge chegára; a conversa tinha de acabar ou tomar differente rumo.
As ultimas palavras de Luiz Alves eram singularmente dispostas para deixar sulco profundo na memoria da moça. Não era uma declaração de amor, nem uma cortezania de sala cousas todas que ella ouvira muita vez, que podiam lisongea-la, e de certo a lisongeavam; era mais que um comprimento e não chegava a ser uma declaração. Commoção, não a havia na voz do advogado; firmeza, sim, e um ar de convicção profunda. Guiomar olhou para elle quasi sem dar pela presença de Jorge; mas Luiz Alves voltara-se para o recem-chegado e falava-lhe em tom jovial, bem differente daquelle que empregára pouco antes.
Se esse contraste era premeditado,--não sei se o era,--não podia vir mais de feição ao espirito de Guiomar. De quantos homens a moça tratára até alli, era o primeiro que lhe inspirava curiosidade, e tambem, naquella occasião, a primeira pessoa que só compadecia della. Veja o leitor:--curiosidade e gratidão;--veja se ha duas azas mais proprias para arrojar uma alma no seio de outra alma,--ou de um abysmo, que é ás vezes a mesma cousa.
Eu disse--compadecia--e esta só palavra, desacompanhada de outra cousa, póde fazer crer ao leitor que, durante aquelles dias em que a perdemos de vista, tornara-se Guiomar uma creatura desditosa. Nada disso; a situação era a mesma, não a mesma anteriormente á carta de Jorge, mas a mesma da noite em que ella a recebeu, situação, de certo, assaz sombria e carregada para um coração que receia ser constrangido, mas não desesperada nem angustiosa.
A baroneza, se soubera dos factos, ou se pudera ler na alma da moça, seria a primeira a dar-lhe todas as consolações. Mas não sabia. Seu desejo,--ou antes o sonho da velhice, como ella dizia n'um dos anteriores capitulos,--era deixar felizes a afilhada e o sobrinho, e entendia que o melhor meio de os deixar felizes era casal-os um com o outro. A noticia que tinha do coração da moça, a este respeito, era incompleta ou inexacta; pintavam-lhe como frieza o que era repugnancia. Mrs. Oswald dava-lhe sempre esperanças de exilo feliz e proximo, as coleras da moça não lh'as contava nunca. Da carta de Jorge não soube, nem da scena havida na alcova. O casamento continuava a apparecer-lhe com todas as probabilidades de uma esperança realizavel.
Dirá a leitora que o sobrinho não merecia tanto zelo nem tão pertinaz esperança, e terá razão; mas os olhos da baroneza não são os da leitora; ella só lhe via o lado bom,--que era realmente bom,--ainda que de uma bondade relativa; mas não via o lado mau, não via nem podia ver-lhe a frivolidade grave do espirito, nem o genero de affecto que se lhe gerava no coração.
Jorge era o seu unico parente de sangue,--filho de um irmã que vivêra infeliz e mais infelizmente morrêra, não repudiada, mas aborrecida do marido, circumstancia que lhe tornava caro aquelle moço. Mais do que a afilhada, não; nem tanto, de certo; o coração não chegaria para dividir-se egualmente em tão grandes porções; queria-lhe, porém, muito, quanto bastava para desejal-o feliz, e trabalhar por fazel-o. Accrescentemos que o destino da irmã sempre lhe estava presente ao espirito, e que ella receiava egual sorte a Guiomar; em Jorge parecia-lhe ver todos os dotes necessarios para tomal-a venturosa.
Infelizmente, Mrs. Oswald, sabedora daquelles secretos desejos e mais ou menos confidente dos sentimentos de Jorge, achara azada occasíão esta para patentear toda a gratidão de que estava possuida e a profunda amizade que a ligava á familia da baroneza. Interpoz-se para servir aos outros, e mais ainda a si propria. Viu a difficuldade, mas não desanimou; era preciso armar ao reconhecimento da baroneza. Por isso não hesitou em confiar a Guiomar o desejo da madrinha, exagerando-o, entretanto,--por que nunca a baroneza dissera que «tal casamento era a sua campanha,» e Mrs. Oswald attribuiu-lhe esta phrase mortal para todas as esperanças e sonhos da moça. Mas, se falava demasiado ao pé de uma, era muito mais sobria de palavras com a outra, e da exageração ou da attenuação da verdade resultara aquelle perenne estado de luta abafada, de receios, de indecisão e de amarguras secretas. Convém dizer, para dar o ultimo traço ao perfil, que esta Mrs. Oswald não seguia só a voz do seu interesse pessoal, mas também o impulso do proprio genio, amigo de pôr á prova a natural sagacidade, de tentar e levar a cabo uma destas operações delicadas e difficeis, de maneira que, se houvesse uma diplomacia domestica,--ou se se creassem cargos para ella, Mrs. Oswald podia contar com um lugar de embaixatriz.
Vindo agora á narração dos successos da historia, cumpre que o leitor saiba, que a carta de Jorge não teve resposta escripta nem verbal. No dia seguinte ao da entrega foi elle jantar a Botafogo; mas Guiomar não saíra do quarto, a pretexto de uma dor de cabeça; a baroneza passou o dia com ella; Jorge apenas conseguiu saber, quando de lá saiu, que a moça ia melhor. Nos subsequentes dias nenhuma resposta foi ás mãos do pretendente, nem elle conseguiu haver uns cinco minutos de conversa solitaria com a moça; Guiomar esquivava-se sempre, com aquella arte summa da mulher que aborrece, e que é nem mais nem menos egual á da mulher que ama.
Um dia, porém, não houve meio de fugir; e Jorge, que não tinha nenhuma commoção na voz, porque não tinha muita no coração, olhou para ella com olhos direitos e francamente lhe pediu uma palavra de esperança ou de desengano. A moça hesitou alguns segundos; contudo era preciso responder. Venceu a repugnância dizendo-lhe com um frio sorriso:
--Nem uma nem outra cousa.
--Nem desengano? perguntou Jorge alvoroçado.
--Ninguem pode dar nem uma cousa nem outra, disse ella; costumamos acceital-as do nosso destino.
Não era responder, como vê o leitor; Jorge ia pedir uma decisão mais transparente, mas a moça aproveitara-se da primeira impressão e esquivara-se. Quando elle recobrou a voz não viu mais que a fimbria do vestido, que se perdia na volta de uma porta.
Guiomar encurtou as redeas á familiaridade que existia entre ella e Jorge; mas, se o tratava com mais reserva, não o fazia com sequidão nem frieza, nem deixava de ser polida e affavel. A dignidade natural que havia em toda a sua pessoa servia-lhe, além disso, como de uma torre de marfim, onde ella se acastellava e mantinha em respeito o pretendente.
Dos dous homens que lhe queriam, nenhum lhe falava á alma; ella sentia que Estevão pertencia á phalange dos tibios, Jorge á tribu dos incapazes, duas classes de homens que não tinham com ella nenhuma affinidade electiva. Não egualava, de certo, os dous pretendentes; um era simplesmente trivial, outro sentimental apenas; mas nenhum delles capaz de crear por si só o seu destino. Se os não egualava, tambem os não via com os mesmos olhos; Jorge causava-lhe tedio, era um Diogenes de especie nova; atravez da capa rota da sua importancia, via-se-lhe palpitar a triste vulgaridade. Estevão inspirava-lhe mais algum respeito; era uma alma ardente e frouxa, nascida para desejar, não para vencer, uma especie de condor, capaz de fitar o sol, mas sem azas para voar até lá. O sentimento de Guiomar em relação a Estevão não podia nunca chegar ao amor; tinha muito de superioridade e perdão.
Com outra indole, aspirações differentes e vivida em diversa esphera, ama-lo-hia com certeza, do mesmo modo que elle a amava. Mas a natureza e a sociedade deram-se as mãos para a desviar dos gozos puramente intimos. Pedia amor, mas não o quizera fruir na vida obscura; a maior das felicidades da terra seria para ella o maximo dos infortunios, se lh'a puzessem n'um ermo. Creança, iam-lhe os olhos com as sedas e as joias das mulheres que via na chacara contigua ao pobre quintal de sua mãe; moça, iam-lhe do mesmo modo com o espectaculo brilhante das grandezas sociaes. Ella queria um homem que, ao pé de um coração juvenil e capaz de amar, sentisse dentro em si a força bastante para subil-a aonde a vissem todos os olhos. Voluntariamente, só uma vez acceitara a obscuridade e a mediania; foi quando se propoz a seguir o officio de ensinar; mas é preciso dizer que ella contava com a ternura da baroneza.
XIV
Ex abrupto.
Já o leitor ficou entendendo que a viagem a Cantagallo era obra quasi exclusiva de Guiomar. A baroneza relutara a principio, como das outras vezes fizera, e o commendador pouca esperança tinha já de a ver na fazenda. Mas o voto de Guiomar foi decisivo. Ella fortaleceu, com as suas, as razões do commendador, allegando não só a obrigação em que a madrinha estava de desempenhar a palavra dada, mas ainda a vantagem que lhe podiam trazer aquelles tres mezes de vida roceira, longe das agitações da côrte; emfim, invocou o seu proprio desejo de ver uma fazenda e conhecer os habitos do interior.
Não havia tal desejo, nem cousa que se parecesse com isso; mas Guiomar sabia que na balança das resoluções da madrinha era de grande peso a satisfação de um gosto seu. O sacrificio duraria tres ou quatro mezes; ella afrontaria, porém, dez ou doze se tantos fossem necessarios, para fugir algum tempo ás pretenções de Jorge, sem embargo de lhe repugnar todo o viver que não fosse a vida fastosa e agitada da côrte. Eu, que sou o Plutarcho desta dama illustre, não deixarei de notar, que, neste lance, havia nella um pouco de Alcibiades,--aquelle gamenho e delicioso homem de Estado, a quem o despeito tambem deu forças um dia para supportar a frugalidade spartana.