Part 5
A moça ficou algum tempo quieta, a olhar para o papel, sem o querer ler, como a hesitar entre queimal-o ou restitui-lo intacto a seu autor. Mas a curiosidade venceu por fim; Guiomar abriu o papel e leu estas linhas:
«Guiomar! Perdoe-me se lhe chamo assim; as convenções sociaes condemnam-me de certo, mas o coração approva, que digo? elle mesmo escreve estas letras. Não é a minha penna, não são os meus labios que lhe falam deste modo, são todas as forças vivas da minha existencia, que em alta voz proclamam o immenso e profundo amor que lhe tenho.
«Antes de o ler neste papel, já a senhora o hade ter visto, pelo menos adivinhado nos meus olhos, na doce embriaguez que em mim produz a presença dos seus. Persuado-me de que todo o meu esforço em recalcar este affecto é vão; por mais que eu sinceramente deseje esquecel-a, não o alcançarei nunca; não alcançarei mais que uma afflição nova. O remorso de o tentar virá coroar os demais infortunios.
«Porque razão rompo hoje o silencio em que me tenho conservado, medroso e respeitoso silencio que, se me não abre a caminho da gloria, ao menos conserva-me a palma da esperança? Nem eu mesmo saberia responder-lhe; falo, porque uma força interior me manda falar, como trasborda o rio, como se derrama a luz; falo porque morreria talvez se me calasse, do mesmo modo que morrerei de desespero, se além do perdão que lhe peço, ma não der uma esperança mais segura do que esta, que me faz viver e consumir.--Jorge.»
Guiomar leu esta carta duas vezes, uma leitura de curiosidade, outra de analyse e reflexão, e ao cabo da segunda achava-se tão fria como antes da primeira. Olhou algum tempo para o papel e mentalmente para o homem que o havia escripto; emfim, poz a carta de lado, abriu o livro e continuou o romance.
Mas o espirito, que não ficara tão indifferente como o coração, entrou a fugir-lhe do romance para a vida com tal tenacidade que não houve remedio senão irem os olhos atraz delle, e a moça de novo mergulhou nas reflexões que lhe suggeria o caso da paixão de Jorge.
Paixão não era,--não o seria ao menos no sentido inteiro do vocabulo; mas alguma cousa menos, ou parecida com ella, e ainda assim verdadeira, via bem Guiomar que o poderia ser. Até que ponto chegaria entretanto, o seu adorador, se ella o desattendesse logo; e, dado o amor que a baroneza tinha ao sobrinho, até que ponto a recusa iria magoal-a? Guiomar varreu do espirito os receios que lhe nasciam de taes interrogações; mas sentiu-os primeiro, pezou-os antes de os arredar de si, o que revelará ao leitor em que proporção estavam nella combinados o sentimento e a razão, as tendencias da alma e os calculos da vida.
Excluido o receio, voltou-lhe o riso, aquelle riso interior, que é o mais involuntario e cruel, e tambem o menos arriscado que a gente póde dar ás fatuidades humanas. Não podia ser tão despresivel assim o amor de um homem, cuja ridiculez compensavam algumas qualidades boas, e que emfim era tambem distincto, ainda que a sua distincção primasse antes por um estylo rendilhado e complicado, que não é o melhor. Guiomar via tudo isso, e por outro lado, não podia obstar que elle a amasse; nem por isso achava menos temeraria aquella confissão.
A moça reflectia tambem na posição especial que tinha naquella casa o sobrinho da baroneza; via-se obrigada á presença delle, e talvez á luta, porque o pretendente não recuaria do primeiro golpe. Não havia taes receios da parte de Estevão; ella reconhecia que a paixão deste era ardente e profunda, e por isso mais capaz de desatinos; mas comparava as indoles dos dous homens, e se ambos lhe pareciam de fraca compleixão moral, nem por isso desconhecia que ao bacharel faltava certa presumpção que distinguia o outro, e com a qual teria talvez de pelejar.
Quando ella fez esta comparação entre os dous homens, ficaram-lhe os olhos um pouco mais molles e quebrados, obra de tres minutos apenas, mas tres minutos que, se Estevão soubera delles, trocaria por elles o resto de toda a vida. E comtudo, não era amor nem saudade; alguma sympathia, sim, ainda que leve e sem consequencia; mas sobretudo era pena de o não poder amar,--ou ainda melhor--era lastima de que tal coração não fora casado a outro espirito.
Guiomar reflectiu ainda muito e muito, e não reflectiu só, devaneou também, soltando o panno todo a essa veleira escuna da imaginação, em que todos navegamos alguma vez na vida, quando nos cança a terra firme e dura, e chama-nos o mar vasto e sem praias. A imaginação della porém não era doentia, nem romantica, nem piegas, nem lhe dava para ir colher flores em regiões selvaticas ou adormecer á beira de lagos azues. Nada disso era nem fazia; e por mais longe que velejasse levaria entranhadas na alma as lembranças da terra.
Volveu emfim e olhos cairam-lhe na carta. A realidade presente não se lhe podia mostrar de peor modo. Guiomar ergueu-se irritada, lançou mão do papel e machucou-o febrilmente; ia talvez rasgal-o, quando ouviu bater de manso á porta.
--Quem é? perguntou.
--Sou eu, respondeu a voz de Mrs. Oswald.
A moça foi abrir a porta; a ingleza entrou, trajada de dormir, e um vivo espanto nos olhos, que pareceu tirar-lhe a voz durante alguns segundos. Guiomar assustada perguntou:
--Que é? aconteceu alguma cousa a minha madrinha?
--Longe vá o agouro! exclamou a ingleza. Não lhe aconteceu nada; a senhora baroneza dorme naturalmente a somno solto. Venho porque do meu quarto pareceu-me ouvir rumor de passos aqui, e depois vi luz. Pensei que tivesse algum incommodo. Mas, pelo que vejo, continuou a ingleza deitando os olhos para a mezinha em que pousava o livro aberto,--pelo que vejo ainda não acabou de ler o seu romance...
--Não li ainda uma linha, depois que me recolhi, respondeu Guiomar cravando os olhos no rosto da ingleza, como tomada de um pensamento subito.
--Deveras!
--Li outra cousa, continuou a moça; li este papel.
Mrs. Oswald inclinou-se para ler também o papel, que aliás adivinhou qual fosse; Guiomar atirou-o sobre a mesa.
--Não precisa, disse ella; é uma declaração amorosa.
--De quem? perguntou a ingleza abrindo uns olhos espantados e obedientes.
--Leia o nome.
Mrs. Oswald leu a assignatura da carta, que a moça do novo lhe apresentava.
--Naturalmente, continuou Guiomar, ha nisto obra sua...
--Minha! interrompeu a outra um pouco mais rispidamente do que costumava falar.
Guiomar tinha ido sentar-se; o pésinho impaciente batia no tapete, com um movimento rapido e regular; cruzára os braços sobre o peito, fitando a ingleza com uns olhos em que se podia ler a viva exacerbação do espirito. Seguiu-se curto silencio; Mrs. Oswald puxou outra cadeira e sentou-se perto da moça.
--Por que ha de ser injusta commigo? disse ella dando á voz um tom mellifluo e supplicante; porque não ha de ver as cousas, como ellas naturalmente são? O que ha nisto é uma coincidencia curiosa, mas nada mais. Se lhe falei em semelhante cousa algumas vezes, foi porque eu mesma percebi o amor que lhe tem o Sr. Jorge; é cousa que todos veem. Imaginei que o casamento, neste caso, seria agradavel á Sra. baroneza a quem sou grata. Posso ter feito mal...
--Muito mal, interrompeu Guiomar; são cousas de familia em que a senhora nada tem que ver.
Guiomar levantou-se outra vez, deu alguns, passos, e voltou a sentar-se. Com o movimento desprenderam-se-lhe os cabellos e cairam-lhe sobre os hombros. Mrs. Oswald approximou-se della para os colher e atar, mas a moça seccamente a repelliu:
--Deixe, deixe...
E ella mesma os recompoz com as suas mãosinhas finas, e ficou depois a olhar para o chão, a morder o labio, a respirar fortemente, como se contivera a palavra que forcejava por sair impetuosa e colerica. Mrs. Oswald não disse nada durante alguns minutos; esperou que passasse o periodo agudo da irritação. Quando lhe pareceu que ella afrouxava, rompeu emfim o silencio.
--Fiz mal, fiz não ha duvida, mas a intenção não podia ser melhor. Talvez não me creia; paciencia! O que lhe peço,--nem lhe peço,--o que eu acredito piamente é que não me hade attribuir algum interesse de ordem...
Mrs. Oswald fez uma pausa para dar aberta ao protesto de Guiomar, mas Guiomar não protestou, quero dizer não protestou de viva voz; fez apenas um gesto negativo, bastante a satisfazer os melindres da ingleza. A moça foi sincera; não attribuia realmente a nenhum interesse vil,--pecuniario,--a acção de Mrs. Oswald. Nem por isso a absolvia,--não só porque ella viria concorrer talvez para uma crise penosa, mas também,--bom é notal-o outra vez,--porque a condição da ingleza naquella casa era relativamente inferior.
A ingleza continuou a falar em defeza propria, a justificar miudamente os bons sentimentos do coração, e a prometter que deixava por mão todo aquelle negocio, a seu juizo, o melhor que a moça podia fazer.
--A experiencia da vida, concluiu ella, devia ter-me convencido de que o melhor de todos os sentimentos é um egoismo quieto e calado.
Em quanto ella falava assim, Guiomar parecia volver a tranquilidade habitual. A mudança foi,--não súbita,--mas um pouco mais rapida do que devera ser, tratando-se de um espirito, como o della, em que as impressões não eram superficiaes nem momentaneas. Havia até uns toques de affabilidade no rosto e na voz, quando ella começou, a falar, o que revelaria talvez ser aquella mudança muito voluntaria e meditada.
--Está bom, Mrs. Oswald, o que passou, passou. Sinto que as cousas chegassem a este ponto, e que elle se lembrasse de escrever semelhante carta, confessando uma paixão que acredito sincera, mas a que o meu coração não póde corresponder. Amores não se encommendam como vestidos: sobretudo não se fingem, ou não se devem fingir nunca.
--Oh! decerto!
--Eu gosto delle, como parente que é de minha madrinha, e também por que ella lhe tem affeição de mãe, como a mim; somos uma especie de irmãos, nada mais.
--Tem muita razão, assentiu Mrs. Oswald. A senhora pensa e fala como um doutor. Que se lhe ha de fazer? Quem não ama não ama. Delle é que eu tenho pena!
--Gosta muito de mim, não? perguntou Guiomar fitando os olhos na ingleza.
--Oh! parece que sim! A senhora deve sabel-o tanto como eu; eu sei o que tenho visto, e creio que é muito.
--Eu nunca vi nada, respondeu seccamente Guiomar.
A resposta de Mrs. Oswald foi um sorriso de incredulidade, que a outra não viu ou não quiz ver. Houve uma pausa; Guiomar continuou nestes termos:
--Mas seja como for, a minha resposta é negativa. Estou que elle não me fará a injuria de querer casar commigo, sem que eu o ame...
Guiomar parou, como a esperar, que a outra lhe dissesse alguma cousa. Desta vez coube a Mrs. Oswald não responder nada, nem com a voz nem com o gesto. A moça inclinou o corpo poz os braços sobre os joelhos, com os dedos cruzados, e entre um riso amavel e um olhar affectuoso, continuou:
--A senhora podia, se acaso elle alguma vez lhe falou nisso ou vier a falar-lhe, podia dissuadi-lo de taes ideias, dizendo-lhe simplesmente, a verdade e dando-lhe conselhos, os conselhos que a senhora hade saber dar, e que elle aceitará de certo, porque é um bom coração, um caracter estimavel...
--Oh! excellente! um moço excellente!
E as duas ficaram a olhar uma para a outra, Guiomar a sorrir, mas de um sorriso, que era uma contracção voluntaria dos musculos, e a ingleza a fazer um rosto de piedade, e adoração, e pena, e muita cousa junta, que a moça só começou a comprehender, quando ella rompeu o silencio deste modo:
--Estou a duvidar se devo dizer-lhe o resto.
--O resto? perguntou Guiomar admirada. Pois que ha mais?
A ingleza approximou a cadeira. Guiomar endireitou o busto e esperou anciosa a revelação,--se revelação era,--que lhe ia fazer Mrs. Oswald. Esta não falou logo; era razoavel hesitar um pouco, lutar comsigo mesma, antes de dizer alguma cousa. Emfim, com um movimento de quem ajunta as forças todas e as emprega em cousa superior á coragem usual:
--D. Guiomar, disse ella, pegando-lhe nas mãos, ninguem póde exigir que se case sem amar o noivo; seria na verdade uma affronta. Mas o que lhe digo é que o amor que não existe por ora, póde vir mais tarde, e se vier, e se viesse seria uma grande fortuna...
--Mas acabe, acabe, interrompeu a moça com impaciencia.
--Seria uma grande fortuna para a senhora, para elle, ouso dizer que para mim, que os estimo e adoro, mas sobretudo para a Sra. baroneza.
--Como assim? disse Guiomar.
--Oh! para elle seria a maior fortuna da vida, porque é hoje o seu mais entranhado e vivo desejo, o seu desejo verdadeiramente da alma. A senhora...
--Está certa disso?
--Certissima.
--Não creio, não vejo nada que...
--Creia, deve crer. Se me promette nada dizer desta nossa conversa, nem fazer suspeitar por nenhum modo o que lhe estou contando...
--Fale.
--Pois bem,--continuou Mrs. Oswald abaixando a voz, como se alguem podesse ouvil-a na solidão daquella alcova, e no silencio, profundo daquella casa, que toda dormia,--pois bem, eu lhe direi que por ella mesma tive noticia deste seu desejo. Quando eu percebi a paixão do Sr. Jorge, falei nisso a sua madrinha, gracejando na intimidade que ella me permitte, e a senhora baroneza em vez de sorrir, como eu esperava que fizesse, ficou algum tempo pensativa e séria, até que rompeu nestas palavras: «Oh! se Guiomar gostasse delle e viessem a casar-se, eu seria completamente feliz. Não tenho hoje outra ambição na terra. Ha de ser a minha campanha.»
--Minha madrinha disse isso? perguntou Guiomar.
--Tal qual. A resposta que lhe dei foi que o casamento não era impossivel, e que nada mais natural do que virem a amar-se duas pessoas a principio indifferentes. O amor nasce muita vez do costume.
Guiomar já mal ouvia o que lhe estava dizendo a ingleza; se ainda olhava para ella, era com os olhos indecisos e empanados, de quem vae toda absorvida em pensamentos intimos.
--Foi desde esse dia, continuou Mrs. Oswald, que me pareceu conveniente falar-lhe algumas vezes nisso, sondar-lhe o coração, ver se elle favorecia o sonho de sua madrinha, tornando feliz toda esta casa... Fiz mal, convenho; mas a intenção era a mais respeitavel e santa deste mundo.
--De certo, murmurou Guiomar.
Mrs. Oswald pegou-lhe n'uma das mãos e beijou-a affectuosamente. Guiomar não a repelliu nem sequer pareceu dar-se-lhe da ternura da ingleza. As duas olharam-se uns breves minutos, sem dizer nada, como a lerem na alma uma da outra.
Guiomar não tinha a experiencia nem a edade da ingleza, que podia ser sua mãe; mas a experiencia e a edade eram substituidas, como sabe o leitor, por um grande tino e sagacidade naturaes. Ha creaturas que chegam aos cincoenta annos sem nunca passar dos quinze, tão simplices, tão cegas, tão verdes as compõe a natureza; para essas o crepusculo é o prolongamento da aurora. Outras não; amadurecem na sazão das flores; vem ao mundo com a ruga da reflexão no espirito,--embora, sem prejuiso do sentimento, que nellas vive e influe, mas não domina. Nestas o coração nasce enfreiado; trota largo, vae a passo ou galopa, como coração que é, mas não dispara nunca, não se perde nem perde o cavalleiro.
O que a afilhada da baroneza buscava ler no rosto de Mrs. Oswald era se effectivamente a madrinha nutria aquelle desejo, ou se tal revelação não era mais do que um embuste. O leitor sabe que era verdadeira; mas admittirá, sem duvida, que a moça só depois de muito interrogar e examinar lhe désse fé. Creu emfim; creu, porque era verosimil, creu porque a ingleza não se arriscaria a qualquer indiscrição da parle della, que de todo a desmascararia.
--Parece-me, disse Mrs. Oswald, que não fiz mal em lhe dizer tudo o que sabia. Conselhos não lhe dou nenhuns; o melhor delles não vale a voz do proprio coração. O seu é puro e recto; consulte-o de boa vontade, e verá se ha nelle indifferenca, ou se alguma faisca...
--Eu sei! interrompeu Guiomar. Não me lembrou consultal-o nunca.
--Faz mal, elle é o relogio da vida. Quem o não consulta, anda naturalmente fóra do tempo. Mas que vejo! continuou Mrs. Oswald deitando os olhos para o reloginho de Guiomar. Naquelle outro relogio faltam dez minutos para uma hora! Uma hora! Que diria a Sra. baroneza se soubesse que ainda estamos aqui de conversa! Retiro-me; Deus lhe dê um somno socegado, e sobretudo a faça feliz, como merece. Não lhe recommendo juizo, porque o tem de sobra. Adeus, até amanhã.
E Mrs. Oswald sahiu pé ante pé em direcção ao seu quarto.
Guiomar ficou só, alli sentada ao pé da cama, a ouvir o passo surdo, e cautelloso da ingleza. Quando o som morreu de todo, e o silencio da noite volveu ao que era, profundo e sepulchral, a moça deixou cair os braços na cama, e a cabeça nas mãos, e um suspiro desentranhou-se-lhe do peito, longo, ruidoso, magoado,--o primeiro que o leitor lhe ouve desde que a conhece--e emfim estas palavras arrancadas da alma, tão doloridas,--ia dizer tão lacrimosas,--vinham ellas:
--Oh meus sonhos! meus sonhos!
Não chorou; a alma della era das que não tem lagrimas, em quanto lhe restam forças. Os olhos estavam seccos e firmes quando ella os ergueu das mãos; o resto tinha vestigios do abalo, mas não havia nelle desanimo, menos ainda desespero.
XI
Luiz Alves.
Durante uma inteira e comprida semana, deixou Estevão de apparecer no escriptorio onde trabalhava com Luiz Alves; não appareceu tambem em Botafogo. Ninguem o viu em todo esse tempo nos logares onde elle era mais ou menos assiduo. Foram seis dias, não digo de reclusão absoluta, mas de completa solidão, porque ainda nas poucas vezes que saiu, fel-o sempre a horas ou em direcções que a ninguem via, e de ninguem era visto.
Mas não fôra essa crua e malfadada crise, e é quasi certo que elle metteria uma lança na Africa daquelles dias, que era um ponto muito serio e grave, a questão magna da rua do Ouvidor e da casa do José Thomaz, a ponderosa, crespa e complicada questão de saber se a Stephanoni estrearia no _Ernani._ Esta questão, de que o leitor se ri hoje, como se hão de rir os seus sobrinhos de outras analogas puerilidades, esta pretenção a que se oppunha a Lagrua, allegando que o _Ernani_ era seu, pretenção que fazia gemer as almas e os prelos daquelle tempo, era cousa muito propria a espertar os brios do nosso Estevão, tão marechal nas cousas minimas, como recruta nas cousas maximas.
Infelizmente elle não apparecia, não sabia sequer do conflicto e do debate, occupado como estava em travar o aspero e sangrento duelo do homem contra si mesmo, quando lhe falta o apoio, ou a consolação dos outros homens. Todo elle era Guiomar; Guiomar era o primeiro e o ultimo pensamento de cada dia. A sombra da moça vivia ao pé delle e dentro delle, no livro em que lia, na rua solitaria onde acaso transitava, nos sonhos da noite, nas estrellas do ceu, nas poucas flores de seu inculto jardim.
Um leitor perspicaz, como eu supponho que hade ser o leitor deste livro, dispensa que eu lhe conte os muitos planos que elle teceu, diversos e contradictorios, como é de razão em analogas situações. Apenas direi por alto que elle pensou tres vezes em morrer, duas em fugir á cidade, quatro em ir affogar a sua dor mortal naquelle ainda mais mortal pantano de corrupção em que apodrece e morre tantas vezes a flor da mocidade. Em tudo isto era o seu espirito apenas um joguete de sensações continuas e variadas. A força, a permanencia do affecto não lhe bastava a dar seguimento e realidade ás concepções vagas de seu cerebro,--enfermo, ainda quando estava de saude.
A ideia do suicidio fincou-se-lhe mais a dentro no espirito, certa tarde em que elle saiu a espairecer, e viu um enterro que passava, caminho do Cajú. O prestito era triste,--ainda mais triste pela indifferença que se lia no rosto dos que iam piedosamente acompanhando o morto. Estevão descobriu-se e sinceramente desejou ir alli dentro, mettido naquellas estreitas tabuas de pinho, com todas as suas dores, paixões e esperanças.
--Não tenho outro recurso, pensou elle; é necessario que morra. É uma dôr só, e é a liberdade.
Ao voltar para casa, uma creança que brincava na rua, em camisa, com os pés na agua barrenta da sargeta, fel-o parar alguns instantes, invejoso daquella boa fortuna da infancia, que ri com os pés no charco. Mas a inveja da morte e a inveja da innocencia foram ainda substituidas pela inveja da felicidade, quando ao recolher-se viu as janellas abertas de uma casa visinha, e a sala illuminada, e uma noiva coroada de flores de laranjeira, a sorrir para o noivo, que sorria igualmente para ella, ambos com o sorriso indefinivel e unico da occasião.
Os cinco dias correram-lhe assim, travados de enojo, de desespero, de lagrimas, de reflexões amargas, de suspiros inuteis, até que raiou a aurora do sexto dia, e com ella,--ou pouco depois della, uma carta de Botafogo. Estevão quando viu o creado da baroneza, á porta da saia, com uma carta na mão, sentiu tamanho alvorôço, que não ouviu nada do que elle lhe disse. Supporia que a carta era de Guiomar? Talvez; mas a illusão durou os poucos instantes que elle gastou em romper a sobrecarta e desdobrar a folha de papel que vinha dentro.
A carta era da baroneza.
A baroneza perguntava-lhe graciosamente se elle havia morrido, e pedia que fosse falar-lhe ácerca da demanda que ella trazia. Estevão chegara já ao estado de só esperar um pretexto para transigir comsigo mesmo; não podia havel-o melhor. Escreveu rapidamente duas linhas de resposta, e á uma hora da tarde apeava-se de um tilbury á porta da funesta e deliciosa casa, onde havia passado as melhores e as peores horas da vida.
--Sabe porque razão lhe dei este incommodo, além do prazer que tinha em vel-o? perguntou a baroneza logo depois dos primeiros comprimentos.
--Disse-me que era por causa da demanda...
--Sim, precisamos assentar algumas cousas, antes da nossa partida.
--V. Ex. sae da côrte?
--Vamos para o roça.
Estevão empallideceu. Na situação delle, aquella viagem era a melhor cousa que lhe podia acontecer; comtudo, fez-lhe mal a noticia. A conversa que se seguiu foi toda sobre o assumpto forense, e durou uma longa hora, sem que apparecesse Guiomar. Ao despedir-se atreveu-se Estevão a perguntar por ella.
--Anda passeando, respondeu a baroneza.
Estevão despediu-se da constituinte, que o acompanhou até á porta da sala, repetindo-lhe algumas recommendações, que o advogado mal pôde ouvir e absolutamente lhe não ficaram de memoria.
A esperança de ver a moça levara-o, mais que tudo, áquella casa; saía sem ter o gosto de a contemplar ainda uma vez; mais do que isso, ameaçado de a não ver tão cedo, ou quem sabe se nunca mais. Ia elle a reflectir nisto e a approximar-se da porta, onde parava ao mesmo tempo um carro. Estevão estremeceu naturalmente, ante de ver quem ia apear-se; grudou-se ao portal, com os olhos fitos na portinhola, que um lacaio abria apressadamente.
A primeira figura que desceu foi a nossa conhecida Mrs. Oswald, que o fez, sem dar tempo a que Estevão lhe offerecesse a mão. O bacharel, desde que a vira, approximara-se rapidamente da portinhola.
Guiomar desceu logo depois. A mão apertada na luva côr de perola pousou levemente na mão de Estevão que estremeceu todo. A moça fez-lhe um comprimento risonho, murmurou um agradecimento e recolheu-se com a ingleza. Era pouco; mas esse pouco alvoroçou o bacharel, que enfiou d'alli para a cidade, em direcção ao escriptorio.
Luiz Alves admirou-se de o ver; não foi com um espanto de seis dias, como devera ser, mas de quarenta e oito horas, quando muito. Que admira? A preocupação de Luiz Alves por aquelles dias era a candidatura eleitoral; a boa nova devia chegar-lhe na primeira mala do norte. Ora, em boa razão, um homem que está prestes a ser inscripto nas tabuas do parlamento, não póde cogitar muito dos amores de um rapaz, ainda que o rapaz seja amigo e os amores verdadeiros.