A Mao e A Luva

Part 4

Chapter 43,995 wordsPublic domain

Ao cabo de duas semanas a situação de Estevão podia dízer-se menos má; na opinião delle era excellente. A baroneza soube quem elle era; Guiomar contara-lhe tudo; mas a ingleza, não menos que a observação propria, lhe mostrou que nenhum perigo corria Guiomar, e excluido o perigo, restavam as boas qualidades do bacharel, que de todo lhe caiu em graça. Mrs. Oswald navegou nas mesmas aguas mansas. O proprio Jorge, naturalmente por que confiava em si, não temeu do rival, e pouco tardou que lhe abrisse os cancellos da sua gravidade. Que admira, pois, que a mesma Guiomar afrouxasse um pouco da primeira rigidez?

Aquelle bom rapaz tinha a salutar crendice da esperança, em que muita vez se resumem todas as bençãos da vida. Pedia muito, como alma sequiosa que era, mas bem pouco bastava a contental-o. A imaginação multiplicava os zeros; com um grão de areia construiria um mundo. A affabilidade de uns e a cortezia de outros, tanto bastou para que elle se julgasse quasi no termo de suas aspirações; e posto não lhe désse Guiomar uma só das animações de outro tempo,--que aliás tão frageis eram, ainda assim acreditou elle piamente que o amor nascia, ou renascia, naquelle rebelde coração.

Guiomar, no meio das affeições que a cercavam, sabia manter-se superior ás esperanças de uns e ás suspeitas de outros. Egualmente cortez, mas egualmente impassível para todos, movia os olhos com a serenidade da isenção, não namorados, nem sequer namoradores. Ella teria, se quizesse, a arte de Armida; saberia refrear ou aguilhoar os corações, conforme elles fossem impacientes ou tibios; faltava-lhe porém o gosto,--ou melhor, sobrava-lhe o sentimento do que ella achava que era a sua dignidade pessoal.

VIII

Golpe.

Um dia de manhã accordou Estevão com a resolução feita de dar o golpe decisivo. Os corações frouxos tem destas energias subitas, e é proprio da pusilanimidade illudir-se a si mesma. Elle confessava que nada havia feito, e que a situação exigia alguma cousa mais.

--Nunca as circumstancias foram mais propicias do que hoje, pensava o rapaz; Guiomar trata me com affabilidade de bom agouro. Demais, ha nella espirito elevado; ha de reconhecer que um sentimento discreto e respeitoso, como este meu, vale um pouco mais do que lisonjarias de sala.

A resolução estava essentada; restava o meio de a tornar affectiva. Estevão hesitou largo tempo entre dizer de viva voz o que sentia ou transmittil-o por via do papel. Qualquer dos modos tinha para elle mais perigos que vantagens. Elle receiava ser frio na declaração escripta ou incompleto na confissão oral. Irresoluto e vacillante, ambos os meios adoptou e repelliu, a curtos intervallos; emfim, deferiu a escolha para outra occasião.

O acaso suppriu a resolução, e o premeditado cedeu o passo ao fortuito.

Uma tarde, havendo algumas pessoas a jantar em casa da baroneza, foram passear á chacara. Estevão que, como Luiz Alves, era dos convivas, affastou-se gradualmente dos outros grupos, e approximou-se daquella cerca historica onde, após dous annos de ausencia e esquecimento, vira, ja transformada, a formosa Guiomar. Era a primeira vez que elle punha os olhos nesse sitio, depois da conversa, que ahi tivera com ella. A commoção que sentiu foi naturalmente grande; resurgia-lhe o quadro ante os olhos, a hora, o ceu brilhante, o doce alento da manhã, e por fim a figura da moça, que alli appareceu, como a alma do quadro, trazendo-lhe recordações, que elle julgava mortas, esperanças que suppunha impossiveis.

Estevão curvou a cabeça ao doce peso daquellas memorias, a alma bebeu, a largos haustos, a vida toda que a imaginação lhe creava e talvez a noite o tomasse na mesma attitude, se a voz maviosa de Guiomar, lhe não dissesse a poucos passos de distancia:

--Sr. doutor, perdeu alguma cousa?

O rapaz volveu rapidamente a cabeça, e viu a moça, que atravessava uma das calhes proximas, a olhar e a sorrir para elle. Estevão sorriu tambem, e com uma presença de espirito assaz rara em namorados, sobretudo em namorados como elle era, promptamente respondeu:

--Não perdi nada, mas achei uma cousa.

--Vejamos o que foi.

E Guiomar approximou-se, a passo firme e seguro, e Estevão, sem muito vacillar, alli mesmo forjou uma reflexão philosophica a respeito de um insecto que casualmente passava por cima de uma folha secca. A reflexão não valia muito, e tinha o defeito de vir um pouco forçada e de acarreto; a moça sorriu, entretanto, e ia continuar o seu caminho, quando elle, colhendo as forças todas, a fez deter com estas palavras:

--E se eu tivesse achado outra cousa?

--Ainda mais! exclamou ella voltando-se risonha.

Estevão deu dous passos para Guiomar, desta vez commovido e resoluto. A moça fez-se seria e dispoz-se a ouvil-o.

--Se eu tivesse achado neste logar, continuou elle, longos dias de esperança e de saudade, um passado que eu julgára não reviver mais, uma dor occulta e medrosa, vivida na solidão, nutrida e consolada de minhas próprias lagrimas? Se eu tivesse achado aqui a pagina rota de uma historia começada e interrompida, não por culpa de ninguem na terra, mas da estrella sinistra da minha vida, que um anjo mau accendeu no ceu, e que, talvez, talvez ninguem nunca apagará?

Estevão calou-se e ficou a olhar fixamente para Guiomar.

Aquella declaração repentina e rosto a rosto estava tão longe do temperamento do rapaz, que ella gastou alguns segundos longos primeiro que voltasse a si do assombro. Elle proprio admirava-se do atrevimento que tivera; e emquanto pendia dos labios da moca, repassava na memoria, aliás confusamente, o que tão a frouxo lhe saira do peito naquella hora de abençoada temeridade.

--Se tivesse achado tudo isso, respondeu Guiomar sorrindo, é natural que preferisse achar outra cousa menos melancolica. Entretanto, parece que nada mais achou do que esta occasião de falar, com a viva imaginação que Deus lhe deu; n'um ou n'outro caso, porém, posso de certo lastimal-o ou admiral-o, mas não me é dado ouvil-o.

E Guiomar ia de novo affastar-se, quando Estevão, receiando perder a occasião que a fortuna lhe offerecia, disse de longe com voz triste e supplice:

--Attenda-me um só munito!

--Não um, mas dez--respondeu a moça estacando o passo e voltando o rosto para elle--e serão provavelmente os ultimos em que falaremos a sós. Cedo á commiseração que me inspira o seu estado; e pois que rompeu o longo e expressivo silencio em que se tem conservado até hoje, concedo-lhe que diga tudo, para me ouvir uma só palavra.

A moça falára n'um tom secco e imperioso, em que mais dominava a impaciencia do que a commiseração a que vinha de alludir. O coração de Estevão batia-lhe como nunca,--como o coração costuma bater nas crises de uma angustia suprema. Todo aquelle castello de vento, laboriosamente construido nos seus dias de illusão, todo elle se esboroava e desfazia, como vento que era. Estevão arrependera-se do impulso que o levára a violar ainda uma vez o segredo dos seus sentimentos intimos, a abrir mão de tantas esperanças, alimentadas com o melhor do seu sangue juvenil.

Alguns instantes decorreram em que nem um nem outro falou; ambos pareciam medir-se, ella serena e quieta, elle tremulo e gelado.

--Uma só palavra, repetiu Estevão, e essa adivinho que será de desengano. Embora! Pois que me atrevi a dizer-lhe alguma cousa, força é que lhe diga tudo,--feliz, se me restar, ao menos, a maior fortuna a que já agora posso aspirar,--o seu remorso.

Guiomar ouvira-o tranquillamente; a ultima palavra fel-a estremecer. Sorriu, entretanto, de um sorriso um pouco voluntario e esperou.

A narração foi longa, tanto quanto o permittiam a occasião, o logar e a pessoa; durou apenas dez minutos. Estevão nada lhe escondeu, nem o amor que lhe tivera out'rora, nem o que agora lhe renascia, mais violento que o primeiro; disse-lhe as dores que curtira, as esperanças que afinal lhe enfloravam a alma, tudo quanto emprehendêra para ler a ventura de a contemplar de perto, de gozar naquelle escasso ponto da terra a maior de todas as bem aventuranças.

Tal é a transcripção, não litteral, mas fiel, do que disse Estevão durante esse dez minutos. As palavras caíam-lhe tremulas e a voz saía-lhe sumida, em parte por que elle forcejava em a abafar, afim de que o não ouvissem, em parte porque a commoção lhe comprimia a garganta. A dor era visivelmente sincera; a eloquência vinha do coração.

Guiomar não ouvira tudo com a mesma expressão; a principio um meio riso parecia desabrochar-lhe os labios, mas não tardou que pelo rosto abaixo lhe caísse um veu mais compassivo e humano. Havia nella impaciencia e anciedade de acabar, de sair dalli; era, sem duvida, o receio de que a ausência se prolongasse de maneira que inspirasse suspeitas. Mas havia também commiseração e piedade.

--Nenhuma culpa lhe pode caber do mal que tenho padecido, disse Estevão concluindo; sobretudo agora, só eu, só a minha cabeça é a causa unica de tudo. Parecia-me ver o contrario do que existia; cheguei a suppor que havia em seu coração alguma cousa que não era a total indifferença; vejo que foi tudo illusão.

O tom em que elle falára era o mesmo das palavras que ahi ficam, todas humildes e resignadas, sem o menor laivo de queixa ou de reproche. Uma submissão assim devia por força commover a uma mulher amada. Guiomar falou-lhe sem azedume:

--Era illusão, disse ella. O sentimento que me acaba de revellar inteiro, ninguem o recebe ou nutre de vontade; a natureza o infunde ou nega. Posso eu ter culpa disso?

--Nenhuma.

--Nem o senhor tambem, e espero que esta mutua justiça avigore o sentimento de estima devemos ter um para com o outro. Mas estima apenas, não póde haver outra cousa,--da minha parte ao menos. É pouco, de certo...

--Não é pouco, é cousa differente, interrompeu Estevão.

--Mas não espere nada mais, concluiu Guiomar sem ouvir a interrupção.

Estevão abriu a bocca para falar, mas não achou palavra que lhe dissesse o que sentia; levou a mão ao coração, que batia fortemente, e ficou a olhar para ella com os olhos seccos e parados, a voz extincta, como se a alma lhe fugira toda. Era claro, depois daquelle desengano, que lhe cumpria não voltar alli mais, pelo menos com a assiduidade da esperança; e assim era que a unica e amarga satisfação de a ver, nem essa já agora se lhe consentia.

--Dou-lhe um conselho, disse Guiomar depois de alguns segundos de pausa, seja homem, vença-se a si proprio; seu grande defeito é ter ficado com a alma creança.

--Talvez, respondeu o moço suspirando.

--E adeus. Falamos a sós, mais do que convinha; não sei se outra consentiria nisto. Mas eu não só reconheço os seus sentimentos de respeito, como desejo que estas poucas palavras trocadas agora ponham termo a aspirações impossiveis.

Guiomar estendeu-lhe a mão, em que elle tocou levemente.

A baroneza appareceu, entretanto, a algumas braças de distancia; vinha encostada ao braço do sobrinho, que lhe falava, mas a quem ella já não ouvia. Tinha os olhos cravados nos dous interlocutores de ha pouco. A moça apenas vira de longe a madrinha, deu affoutamente o braço a Estevão, e seguiram ambos a encontrar-se com ella; o rosto de Guiomar não revelava nada; o de Estevão vinha perturbado e abatido. A baroneza franziu a testa:

--Jorge, disse ella em voz baixa, precisamos conversar.

IX

Conspiração.

A baroneza, quando se lhe approximaram os dous interlocutores da cerca, mais receiosa ficou e mais perplexa. Guiomar vinha risonha e até gracejadora; mas o abatimento de Estevão era tão mal disfarçado, que de duas uma,--ou ella acabava de lhe dar o ultimo desengano,--ou aquillo era apenas um arrufo serio, que o moço não podia ou não queria esconder de olhos extranhos. Isto é o que a baroneza pensou. O que ella concluiu foi que, em todo caso, urgia tentar alguma cousa em favor do maior,--do unico senho da sua velhice.

Jorge não percebeu a verdadeira razão porque a tia lhe dissera ser necessário conversar com ella; imaginou que se trataria de Guiomar e Estevão,--mas estava longe de suppor todo o alcance da entrevista.

A entrevista não pode ser logo nesse dia; as visitas ficaram alli até tarde, e a noite foi a mais agradavel e distrahida de todas as noites; Guiomar, sobretudo, esteve como nunca, jovial e interessante. A serenidade parecia morar-lhe na alma e reflectir-se-lhe no rosto,--tantas vezes pensativo, mas agora tão frio e tão nú.

Não será preciso dizer a um leitor arguto e de boa vontade... Oh! sobretudo de boa vontade, porque é mister havel-a, e muita, para vir até aqui, e seguir até o fim, uma historia, como esta, em que o autor mais se occupa de desenhar um ou dous caracteres, e de expor alguns sentimentos humanos, que de outra qualquer cousa, por que outra cousa não se animaria a fazer;--não será preciso declarar ao leitor, dizia eu, que toda aquella jovialidade de Guiomar eram punhaes que se lhe cravavam no peito ao nosso Estevão. Elle não podia suppol-a abatida; mas penalisada, ao menos, um pouco respeitosa para com a dor que havia nelle, isto, sim, imaginava que sería. Mas nada disso foi, e o pobre rapaz saiu dalli mais cedo do que pensára e quizera sair.

Na alcova, se elle podesse vel-a mais tarde na alcova, solitaria e toda comsigo, sentada na poltrona rasa ao lado da cama, com os cabellos desfeitos, os pésinhos mettidos nas chinellas de setim preto, as mãos no regaço e os olhos vagando de objecto em objecto, como se reproduzissem fóra as attitudes interiores do pensamento, alli não só elle a adoraria de joelhos, mas até poderia suppor que alguma preoccupação lhe tirava o somno e que essa era nem mais nem menos elle proprio.

Talvez fosse; em parte ao menos seria elle. Guiomar não tinha um coração tão mau, que lhe não doessem as maguas de um homem que acertara ou desacertara de a amar. Mas fosse uma, ou fossem muitas as causas daquella preoccupação, a verdade é que ella durou muito tempo. Guiomar passou da poltrona á janella, que abriu toda, para contemplar a noite,--o luar que batia nas aguas, o ceu sereno e eterno. Eterno, sim, eterno, leitora minha, que é a mais dasconsoladora lição que nos poderia dar Deus, no meio das nossas agitações, lutas, ancias, paixões insaciáveis, dores de um dia, gozos de um instante, que se acabam e passam comnosco, debaixo daquella azul eternidade, impassivel e muda como a morte.

Pensaria nisto Guiomar? Não, não pensou nisto um minuto sequer; ella era toda da vida e do mundo, desabrochava agora o coração, vivia em plena aurora. Que lhe importava,--ou quem lhe chegara a fazer comprehender esta philosophia secca e arida? Ella vivia do presente e do futuro e,--tamanho era o seu futuro, quero dizer as ambições que lh'o enchiam,--tamanho, que bastava a occupar-lhe o pensamento, ainda que o presente nada mais lhe dera. Do passado nada queria saber; provavelmente havia-o esquecido.

A madrugada achou-a dormindo; mas os primeiros raios do sol vieram accordal-a, na fórma do costume, para o matinal passeio com a madrinha. Guiomar sacrificava tudo á dedicação filial de que ja dera tantas provas. A baroneza, entretanto, estava preoccupada; o passeio foi differente do dos outros dias.

Ao meio-dia metteu-se Guiomar no carro, com Mrs. Oswald, e sairam a uma visita. A baroneza ficou só; Jorge não a deixou ficar só por muito tempo, porque chegou dahi a pouco.

A baroneza não perdeu tempo em circunloquios. Apenas viu o sobrinho interpellou-o directamente:

--Disseram-me, foi Mrs. Oswald quem me disse que tu gostas de Guiomar.

Jorge não contava muito com semelhante interrogação; todavia, não era tão ingenuo que corasse, nem tão apaixonado que lhe tremesse a voz. Puchou gravemente os punhos da camisa, concertou a gravata, e respondeu singellamente:

--Não me atrevia a falar-lhe destas cousas...

--Porque não?--interrompeu a baroneza; são assumptos que se podem tratar entre mim e ti, sem desar para nemhum de nós. É então verdade o que me disse Mrs. Oswald?

--É.

--Amas deveras, ou...

--Deveras. Recuaria, se visse que uma alliança entre nós ficava mal ao lustre de nossa familia; mas, posto que ella seja...

--Guiomar é minha filha, apressou-se a dizer a baroneza.

--Justamente; não pode haver melhor titulo.

--Tem ainda outro, continuou a baroneza; é uma alma angélica e pura. Henriqueta não teve melhor coração nem mais amor aos seus. Além disso, a natureza deu-lhe um espirito superior, de maneira que a fortuna não fez mais do que emendar o equivoco do nascimento. Finalmente é de uma belleza pouco commum...

--Rara, titia, póde dizer que é de uma belleza rara, acudiu Jorge, e pela primeira vez lhe luziu nos olhos alguma cousa, que não era a gravidade de costume.

--Já vês, proseguiu a baroneza, que ella possue todos os direitos ao amor e á mão de um homem, como tu.

A baroneza tinha um coração ingenuo e lizo, sem desvios nem astucias; comtudo, ha occasiões em que o mais recto espirito emprega, como por instincto, finuras diplomaticas. A boa senhora tinha tanto a peito aquella união do sobrinho com a afilhada, que não confiava só do amor; procurava interessar-lhe tambem o amor proprio.

Jorge curvou-se com affectada modestia.

--Um homem, como eu,--disse elle--vale pouco por si mesmo; o valor que tenho, e esse é muito, vem do nome de meus pais e do seu, titia, e das santas qualidades que a adornam...

--Só uma, Jorge, só uma qualidade santissima: é a de amal-os, a ti e a ella. Por isso foi immenso o gôsto que senti quando Mrs. Oswald me disse que gostavas de Guiomar. Acredita que se eu tivesse a fortuna de ver a vocês unidos e felizes, morreria contente.

--Oh! isso! disse Jorge com ar de duvida.

--Julgas impossivel o casamento?

--Impossivel, não; impossivel, nada ha. Mas... mas supponho que a vontade della é indispensavel, tão indispensavel como duvidosa.

--Duvidosa! Estás certo disso?

Jorge tinha-se levantado e dera alguns passos, não agitado de todo, mas um pouco fóra da impassibilidade usual. A ideia do casamento apparecia-lhe agora um pouco mais possivel e exequivel, desde que a tia francamente lhe propuzesse alliança.

--Estás certo disso? repetiu a baroneza.

--Certo não; mas ha toda a razão para a duvida. Guiomar sabe que eu gósto della; e comtudo não me dá o menor signal de corresponder aos meus sentimentos.

Jorge expos longamente todas as razões que tinha para crer que a vontade de Guiomar não correspondia á delle; referiu-lhe, com a maior exacção e fidelidade, uns tres on quatro episodios que lhe pareciam boa prova daquillo que dizia. A baroneza não ouvia tudo com egual attenção. Quando elle acabou:

--Guiomar será muito vexada,--disse ella--e ás vezes, e por isso mesmo, tem essas apparencias frias. Nada impede, porém, a que venha a amar-te, se é que ja te não ama. Ha nella certa altivez natural, que póde explicar também essa frieza; parece-me que lhe seria penoso receber o amor de alguem que julgasse levantal-a até si.

--Isso, talvez...

--Mas esse sentimento, que póde ser e é honroso, não é de certo invencivel.

Todas estas palavras da baroneza lisonjeavam o sobrinho, em cujos labios pairava agora um sorriso de íntima satisfação. De quando em quando não ouvia elle nada do que lhe dizia a tia; seus ouvidos voltavam-se para dentro; elle escutava-se a si proprio. O amor de Guiomar começava a parecer-lhe possivel; tudo quanto a baroneza lhe dizia era razoavel, com a vantagem de lhe esclarecer as faces obscuras da situação. Demais, até que ponto a baroneza conjecturava ou revelava? Bem podia ser que ella tivesse lido mais fundo no coração da moça.

Estas reflexões fel-as Jorge, em quanto a baroneza continuava a falar e a desenvolver a ideia que ultimamente indicara. Até aquelle dia havia elle limitado toda a sua acção a alguns olhares, e raras palavras de comprimento; a entrevista com a tia dera-lhe animação; pareceu-lhe chegado o ensejo de sair daquella paz armada.

Guiomar chegou d'ahi a pouco e achou-os na «saleta de trabalho,» euphemismo elegante, que queria dizer litteralmente--saleta de conversação entremeada de _crochet._ Mrs. Oswald vinha com ella; ambas riam alegremente de não sei que episodio visto no caminho. Jorge erguera-se, pausado mas risonho, apertou a mão de Guiomar,--apertou-a deveras, mais do que era usual e cortez. Guiomar não pareceu afligir-se; perguntou-lhe pela saude, transmittiu á madrinha as lembranças que lhe mandavam e dispoz-se a sair.

Durante esse tempo, Jorge olhava para ella, enlevado deveras na contemplação de toda aquella nobre figura, agora mais bella que d'antes, desde que se lhe tornara possivel a alliança ha muito sonhada. Havia nos olhos de Jorge uns taes ou quaes vestigios lubricos, donde se podia colher que, se elle fosse poeta, e poeta arcadico, editaria pela millionesima vez a comparação da Venus e dos seus seus infalliveis amorinhos; comparação detestavel, sobretudo, porque a casta belleza de moça, se alguma cousa pagã lhe podia ser chamada, seria antes Diana convertida ao Evangelho.

Jorge saiu dalli singularmente agitado; a conversa da baroneza dera-lhe nervo e resolução, e o quadro do casamento começou a desenhar-se-lhe no espirito, como o relogio que o menino tem de usar pela primeira vez. Até alli deixara-se elle ir á feição das aguas; agora via a necessidade e a possibilidade de abicar á riba feliz do matrimonio.

As duvidas de Estevão não lhe saltearam o espirito; apenas chegou a casa travou da penna, e lançou na folha branca e lustrosa de seu papel uma confissão elegante e polida, que todavia refundiu duas ou tres vezes, primeiro que a désse por prompta. Acabada a redacção final, transcreveu aquella prosa do coração na mais nitida folha que havia em casa,--dobrou o metteu-o na algibeira.

De noite foi á casa da tia. Achou as senhoras á volta de uma meza; Guiomar lia, para a madrinha ouvir, um romance francez, recentemente publicado em Paris e trazido pelo ultimo paquete. Mrs. Oswald lia tambem, mas para si, um grosso volume de Sir Walter Scott, edição Constable, de Edimburgo.

Jorge veiu interrompel-as um pouco, mas só interromper, porque a leitura continuou logo depois, ajudando elle proprio a Guiomar naquella filial tarefa. Veiu o chá, veiu depois a hora de recolher, e a baroneza deu por findo o serão, ainda que o livro estava quasi findo.

--Um capitulo mais, aventurou Jorge com o livro aberto nas mãos.

A baroneza sorriu e voltou os olhos para Guiomar, a cuja conta lançou aquella dedicação do sobrinho; recusou comtudo, por estar a cair de somno.

--Eu é que não me deito sem saber o resto, declarou Guiomar; levo o livro commigo.

--Ah! disse Jorge com um gesto de satisfação.

E emquanto Guiomar se dispunha a acompanhar a madrinha até á porta do quarto, e Mrs. Oswald marcava a pagina e fechava o seu livro, Jorge egualmente fechava o outro, mas com tal demora e cuidado, que deu muito que entender á ingleza. Se ella chegou entender, vel-o-hemos depois; o certo é que o livro foi emfim entregue a Guiomar, tendo a pagina marcada, não com a fita que lá estava pendente, mas com um pedacinho de papel.

O pedacinho de papel era a carta; apenas uns poucos centímetros de altura; mas por mais exiguas que tivesse as dimensões, bem podia ser que levasse alli dentro nada menos que uma tempestade próxima.

X

A revelação.

Meia hora depois, indo a abrir o livro para continuar a leitura, viu Guiomar a cartinha de Jorge. Não tinha sobrecarta; era um simples papelinho dobrado, rescendendo a amores. O espirito de Guiomar estava tão longe d'aquillo que não suspeitou nada e distrahidamente o abriu. A primeira palavra escripta era o seu nome; a ultima era o de Jorge.

O primeiro gesto de Guiomar foi de colera. Se elle pudesse espreita-la pelo buraco da fechadura, e ver-lhe a expressão do rosto, é mui provavel que se lhe convertesse em aborrecimento todo o amor que até agora nutria. Mas elle não estava alli, a moça podia traduzir fielmente no rosto os movimentos do coração.

--Mais um, pensou ella; este porém...

E desta vez o gesto não foi de colera, foi de alguma cousa mais, metade fastio, metade lastima, mescla difficil e rara.