Part 3
A casa em que moravam era naturalmente modesta. Alli correu a infancia,--mas solitaria, o que é um pouco mais grave. A mãe, quando a via embebida nos jogos proprios da edade, infantilmente alegre,--mas de uma alegria que fazia mal a seus olhos de mãe, tão fundo lhe doia aquelle viver,--a mãe sentia ás vezes pularem-lhe as lagrimas dos olhos fora. A filha não as via, porque ella sabia escondel-as; mas advinhava-as atravez da tristeza que lhe ficava no rosto. Só não adivinhava o motivo, mas bastava que fossem maguas de sua mãe, para lhe descair tambem a alegria.
Com o tempo, avultou outra causa de tristeza para a pobre viuva, ainda mais dolorosa que a primeira. Na edade apenas de dez annos, tinha Guiomar uns desmaios de espirito, uns dias de concentração e mudez, uma seriedade, a principio intermittente e rara, depois frequente e prolongada, que desdiziam da meninice e faziam crer á mãe que eram prenuncios de que Deus a chamava para si. Hoje sabemos que não eram. Seria acaso effeito daquella vida solitaria e austera, que já lhe ia affeiçoando a alma e como que apurando as forças para as pugnas da vida?
A primeira vez que esta gravidade da menina se lhe tornou mais patente foi uma tarde, em que ella estivera a brincar no quintal da casa. O muro do fundo tinha uma larga fenda, por onde se via parte da chacara pertencente a uma casa da visinhança. A fenda era recente; e Guiomar acostumára-se a ir espairecer alli os olhos, já serios e pensativos. Naquella tarde, como estivesse olhando para as mangueiras, a cobiçar talvez as doces fructas amarellas que lhe pendiam dos ramos, viu repentinamente apparecer-lhe deante, a cinco ou seis passos do lugar em que estava, um rancho de moças, todas bonitas, que arrastavam por entre as arvores os seus vestidos, e faziam luzir aos ultimos raios do sol poente as joias que as enfeitavam. Ellas passaram alegres, descuidadas, felizes; uma ou outra lhe dispensou talvez algum affago; mas foram-se, e com ellas os olhos da interessante pequena, que alli ficou largo tempo absorta, alheia de si, vendo ainda na memoria o quadro que passára.
A noite veiu, a menina recolheu-se pensativa e melancolica, sem nada explicar á solicita curiosidade da mãe. Que explicaria ella, se mal podia comprehender a impressão que as cousas lhe deixavam? Mas, como a mãe entristecesse com aquillo, Guiomar domou o proprio espirito e fez-se tão jovial como nos melhores dias.
Esta era ainda outra feição da menina; tinha uma força de vontade superior aos seus annos. Com ella, e a viveza intellectual que Deus lhe dera, logrou aprender tudo o que a mãe lhe ensinara, e melhor ainda do que ella o sabia, desde que o tempo lhe permittiu desenvolver os primeiros elementos.
Aos trese annos ficou orphã; este fundo golpe em seu coração, foi o primeiro que ella verdadeiramente pode sentir, e o maior que a fortuna lhe desfechou. Já então a madrinha a fizera entrar para um collegio, onde aperfeiçoava o que sabia e onde lhe ensinavam muita cousa mais.
Vivia ainda então a filha de baroneza, uma interessante creança de trese annos, que era toda a alma e encanto de sua mãe. Guiomar visitava a casa da madrinha; a edade quasi egual das duas meninas, a affeição que as ligava a belleza e meiguice de Guiomar, a graciosa compostura de seus modos, tudo apertou entre a madrinha e a afilhada os laços puramente espirituaes que as uniam antes. Guiomar correspondia aos sentimentos daquella segunda mãe; havia talvez em seu affecto, aliás sincero, um tal encarecimento que podia parecer simulação. O affecto era espontaneo; o encarecimento é que seria voluntário.
Tinha a moça dezeseis annos quando passou para o collegio da tia de Estevão, onde pareceu á baroneza se lhe poderia dar mais apurada educação. Guiomar manifestára então o desejo de ser professora.
--Não ha outro recurso, disse ella á baroneza quando lhe confiou esta aspiração.
--Como assim? perguntou a madrinha.
--Não ha, repetiu Guiomar. Não duvido, nem posso negar o amor que a senhora me tem; mas a cada qual cabe uma obrigação, que se deve cumprir. A minha é... é ganhar o pão.
Estas ultimas palavras passaram-lhe pelos lábios como que á força. O rubor subiu-lhe ás faces; dissera-se que a alma cobria o rosto de vergonha.
--Guiomar! exclamou a baroneza.
--Peço-lhe uma cousa honrosa para mim, respondeu Guiomar com simplicidade.
A madrinha sorriu e approvou-a com um beijo,--assentimento de boca, a que já o coração não respondia, e que o destino devia mudar.
Pouco tempo depois padeceu a baroneza o golpe quasi mortal a que alludiu no capitulo anterior. A filha morreu de repente, e o inopinado do desastre quasi levou a mãe á sepultura.
A affeição de Guiomar não se desmentiu nessa dolorosa situação. Ninguém mostrou sentir mais do que ella a morte de Henriqueta, ninguém consolou tão dedicadamente a infeliz que lhe sobrevivia. Eram ainda verdes os seus annos; todavia revellou ella a posse de uma alma egualmente terna e energica, affectuosa e resoluta. Guiomar foi durante alguns dias a verdadeira dona da casa; a catastrophe abatera a propria Mrs. Oswald.
O coração da pobre mãe ficára tão vasio, e a vida lhe pareceu tão agra e deserta sem a filha, que ella morreria talvez de saudade, se não fora a presença de Guiomar. Nenhuma outra creatura poderia preencher, como esta, o logar de Henriqueta. Guiomar era já meia filha da baroneza as circumstancias, não menos que o coração, tinham-n'as destinado uma para a outra. Um dia, em que a afilhada fora visitar a madrinha, esta lhe disse que a iria em breve buscar para sua casa.
--Você será a filha que eu perdi; elle não me amou mais, nem eu já agora teria outra consolação.
--Oh! madrinha! exclamou Guiomar beijando-lhe as mãos.
A baroneza estava assentada; Guiomar ajoelhou-se-lhe aos pés e poz-lhe a cabeça no regaço. A boa mãe curvou-se e beijou-lh'a ternamente, com os olhos naquella filha que os successos lhe haviam dado, e o pensamento no ceu, onde devia estar a outra, que Deus lhe dera e levou para si.
* * * * *
Pouco depois estabeleceu-se Guiomar definitivamente em casa da madrinha, onde a alegria reviveu, gradualmente, graças á nova moradora, em quem havia um tino e sagacidade raros. Tendo presenciado, durante algum tempo, e não breve, o modo de viver entre a madrinha e Henriqueta, Guiomar poz todo o seu esforço em reproduzir pelo mesmo teor os habitos de outro tempo, de maneira que a baroneza mal pudesse sentir a ausencia da filha. Nenhum dos cuidados da outra lhe esqueceu, e se em algum ponto os alterou foi para augmentar-lhe novos. Esta intenção não escapou ao espirito da baroneza, e é superfluo dizer que deste modo os vinculos do affecto mais se apertaram entre ambas.
Ao mesmo tempo que ia provando os sentimentos de seu coração, revelava a moça, não menos, a plena harmonia de seus instinctos com a sociedade em que entrára. A educação, que nos últimos tempos recebera, fez muito, mas não fez tudo. A natureza incumbira-se de completar a obra,--melhor diremos, começal-a. Ninguem adivinharia nas maneiras finamente elegantes daquella moça, a origem mediana que ella tivera; a borboleta fazia esquecer a chrysalida.
VI
O post-scriptum.
Aquelle conselho de Luiz Alves, na fatal noite de dous annos antes, não ha duvida que era judicioso e devera ter ficado no espirito de Estevão. Não convinha reler a carta, sob pena de lhe achar um _post-scriptum._ Estevão era curioso de epistolas; não pode ter-se que não abrisse aquella. O _post-scriptum_ lá estava no fim.
Vindo á linguagem natural, Estevão saiu do jardim de Luiz Alves com o coração meio inclinado a amar de novo a mulher que tanto o fizera padecer um dia. Daqui concluirá alguem que elle verdadeiramente não deixára de a amar Póde ser; havia talvez debaixo da cinza uma faisca, uma só, e essa bastava a repetir o incendio. Mas fosse de um ou de outro modo, o certo é que Estevão saiu dalli com o príncipio do amor no coração.
Todo aquelle dia foi de alvoroço e agitação para elle, que não se resignou logo, antes buscou reagir contra a entrada da paixão nova. A tentativa era sincera; as forças é que eram escassas. Elle desviava de si a imagem da moça; ella, porém perseguia-o, tenaz, como se fora um remorso, fatal como a voz de seu destino.
Estevão nada disse a Luiz Alves do encontro e da conversa qui tivera com a moça no jardim; e não lh'o escondeu por desconfiança, mas por vergonha. Que lhe diria porém elle que o não tivesse visto e percebido Luiz Alves? Da janella de seu quarto, que dava para o jardim, enfiando os olhos pela fresta das cortinas pôde observa-los durantes aquelles tres quartos de hora de innocente palestra. O espectaculo não o divertiu muito; Luiz Alves achou um pouco atrevida a escolha do logar.
A circumstancia de os ver juntos chamou-lhe a attenção para a coincidencia do nome da visinha com o da antiga namorada do collega; era naturalmente a mesma pessoa.
--Vai contar-me tudo, pensou Luiz Alves quando viu o collega affastar-se da cerca e dirigir os passos para casa.
Estevão, como disse, foi discreto. Vinha preocupado, muito outro do que entrára na vespera, a ler-se-lhe no rosto alguma cousa mais séria do que elle proprio costumava ser.
Tinha Estevão contra si o passado e o futuro. O presente, sim, defendia-o; elle sentia que alguma cousa o distanciava de Guiomar. Mas o passado falava-lhe de todas as doces recordações,--as menos amargas,--e a memoria quasi não sabe de outras quando relembra o que foi. O futuro acenava-lhe com as suas esperanças todas, e basta dizer que eram infinitas. Além disso, a Guiomar que elle via agora, surgia-lhe no meio de outra atmosphera,--a mesma que o seu espirito almejava respirar; e apparecia-lhe para fugir logo. Sobre tudo isto o obstaculo, aquella porta fechada, que bem podia ser a da _cittá dolente_, mas que em todo o caso elle quizera ver franqueada ás suas ambições.
Os dias correram alternados de confiança e desanimo, tecidos de ouro e fio negro, um lutar de todas as horas, que acabou como era de prever e devia acabar. O coração levou Estevão atraz de si.
Nenhum meio, dos que tinha á mão, lhe esqueceu para ver Guiomar. As janellas da casa estavam quasi sempre desertas. Duas ou tres vezes aconteceu vel-a de longe; ao approximar-se-lhe, sumira-se o vulto na sombra do salão Não perdia theatro; mas só duas vezes teve o gosto de a ver: uma no Lyrico, onde se cantava _Somnambula_, outra no Gymnasio, onde se representavam os _Parisienses_, sem que elle ouvisse uma nota da opera, nem uma palavra da comedia. Todo elle, olhos e pensamento, estava no camarote de Guiomar. No Lyrico foi baldada essa comtemplação; a moça não deu por elle. No Gymnasio, sim; o theatro era pequeno; comtudo, antes não fôra visto, tão tenazmente deviou ella os olhos do logar em que elle ficára.
Nem por isso deixou Estavão de ir esperal-a á saida, collocar-se francamente no seu caminho, sollicitar-lhe audazmente os olhos e attenção. A familia desceu da 2a ordem pela escada do lado de S. Francisco; a estreiteza do logar era excellente. Dava o braço á baroneza um moço de vinte e cinco annos, figura elegante, ainda que um tanto affectada. Desceram todos tres e ficaram á espera do carro alguns minutos. Na meia sombra que alli havia destacava-se o rosto marmoreo de Guiomar e a gentileza de seu talhe. Seus grandes olhos vagavam pela multidão, mas não fitavam ninguem. Ella possuia, como nenhuma outra, a arte de gozar, sem as ver, as homenagens da admiração publica.
Irritado com a indifferença da moça, vagou Estevão toda aquella noite, a sós com o seu despeito e o seu amor, tecendo e destecendo mil planos, todos mais absurdos uns que outros. A taça enchera de todo; era mister entornal-a no seio de um amigo, de um amigo que houvesse nas suas mãos o unico remedio que elle nessa occasião pedia;--a chave daquella porta. Luiz Alves era esse homem.
--Outra vez caido! exclamou elle rindo quando Estevão lhe contou tudo. Eu já o havia percebido. Isto de mulheres... Queres então que te leve lá?
--Quero.
Luiz Alves reflectiu alguns intantes.
--E uma viagem, não te seria bom fazer uma viagem? Já sei o que me vás dizer; mas tambem não te proponho uma viagem de recreio, á Europa. Olha, arranjo-te, se queres, um logar de juiz municipal...
A proposta era sincera; Estevão cuidou ver-lhe uma ponta de zombaria e ergueu os hombros com enfado. A proposta, entretanto, merecia ser examinada; era uma carreira, e vinha de um homem que estava a entrar na vida politica, que esperava dahi a algumas semanas o resultado de uma eleição, com a certeza, ou quasi, de haver triumphado. Era influencia que nascia, e de força viria a crescer. Mas para Estevão, naquella occasião, toda a carreira publica, influencia, futuro, leis, tudo estava nos olhos castanhos de Guiomar.
--Eu amo-a, disse elle emfim, isto para mim é tudo. Póde bem ser que tenhas razão; talvez me espere algum grande desgosto; mas são reflexões, e eu não reflicto agora, eu sinto...
--Em todo o caso, acudiu Luiz Alves, desempenho o meu dever de amigo; digo-te que vocês não nasceram um para outro; que, se ella te não amou naquelle tempo, muito menos te amará hoje, e que emfim...
Luiz Alves estacou.
--Emfim? perguntou Estevão.
--Emfim pedes-me um sacrificio, concluiu rindo o advogado, por que também eu já a namorisquei... Não é preciso carregares o sobr'olho; foi namoro de visinho, tentativa que durou pouco mais de vinte e quatro horas. Com vergonha o digo, ella não me prestou uma migalha de attenção sequer, e eu voltei aos meus autos.
--Então... gostas della? perguntou Estevão.
--Acho-a bonita e nada mais. Aquillo foi um lançar barro á parede; se acceitasse, casava-me; não acceitou...
--Já vês que somos differentes.
--Queres, então?...
--Um serviço de amigo.
--Bem, disse por fim Luiz Alves, faça-se a tua vontade. A baroneza vai cuidar agora de um processo e mandou-me falar. Eu passo-te a prebenda; entrarás alli, como advogado, o que de alguma maneira me tira um peso da consciência.
Estevão, que só pedia um pretexto, acceitou a offerta com ambas as mãos, e agradeceu-lh'a com tão expansiva ternura, que fez sorrir o outro.
A promessa cumpriu-se pontualmente. Luiz Alves apresentou Estevão á baroneza, na seguinte noite, como seu companheiro e amigo, como advogado capaz de zelar os interesses da illustre cliente. A recepção, foi geralmente boa, salvo por parte de Guiomar, que pareceu aborrecida de o ver naquella casa. Quando Estevão a saudou, como quem a conhecia de longo tempo, ella mal pode retribuir-lhe o cumprimento; em todo o resto da noite não lhe deu palavra. Daquella parte o acolhimento não podia ser peior; mas Estevão sentia-se feliz, desde que vel-a, respirar o mesmo ar, nada mais pedindo por ora, e deixando o resto á fortuna.
De todas as pessoas de casa da baroneza, a primeira que reparou na indifferença com que Guiomar tratára Estevão, foi Mrs. Oswald. A sagaz ingleza afivellou a mascara mais impassivel que trouxera das ilhas britannicas e não os perdeu de vista. Nem da primeira nem da segunda vez viu nada mais que os olhos delle, que sollicitavam os della, e os della que pareciam surdos. Havia de certo uma paixão, solitaria e desattendida.
--Sabe que descobri um namorado seu? perguntou ella alguns dias depois a Guiomar.
Guiomar fez um gesto de estranheza.
--Entendamo-nos, observou a ingleza; não digo que a senhora o namore também; digo que é elle quem anda apaixonado. Não adivinha?
--Talvez.
--O Dr. Estevão.
Guiomar fez um gesto de desdem.
--Vejo que tinha adivinhado, disse Mrs. Oswald; também não era difficil. Quem tem alguma pratica destas cousas fareja uma paixão a cem legoas de distancia, por mais que ella busque recatar-se dos olhos estranhos. Os namorados geralmente suppõem que ninguem os vê; é uma lastima. Olhe, da senhora posso eu jurar que não está namorada de pessoa nenhuma.
--Que sabe disso? perguntou Guiomar deitando os olhos para o espelho de seu guarda vestidos. Pois estou, mas de mim mesma.
Mrs. Oswald desatou a rir, de um riso grave e pausado. Ella sabia que a moça tinha orgulho de suas graças; era bom caminho affagar-lhe o sentimento. Disse-lhe muita cousa bonita, que não vem para aqui, e concluiu pondo-lhe as mãos nos hombros, encarando-a fito a fito, a emfim rompendo nestas palavras, meias suspiradas:
--A senhora é a flor desta sua terra. Quem a colherá? Alguem sei eu que a merece...
Guiomar ficou séria, e desviou brandamente as mãos da ingleza, murmurando:
--Mrs. Oswald, falemos de outra cousa.
VII
Um rival.
Não era a primeira vez que Mrs. Oswald alludia a alguma cousa que desagradava a Guiomar, nem a primeira que esta lhe respondia com a sequidão que e leitor viu no fim do capitulo anterior. A boa ingleza ficou séria e calada alguns dous ou tres minutos, a olhar para Guiomar, apparentemente buscando interrogar-lhe o pensamento, mas na realidade sem saber como sair de situação. A moça rompeu o silencio:
--Está bom, disse ella sorrindo, não vejo razao para que se zangue commigo.
--Não estou zangada, acudiu promptamente Mrs. Oswald. Zangada porque? Pêza-me, de certo, que a natureza me não dê razão, e que uma alliança tão conveniente, para ambos, seja repellida pela senhora; mas se isto é motivo de desgosto, não pode sel-o de zanga....
--Desgosto?
--Para mim.... e naturalmente para elle.
Guiomar respondeu com um simples sacudir de hombros, sêcco e rápido, como quem se lhe não dava do mal ou não acreditava nelle. Mrs. Oswald não atinou qual destas impressões seria, e concluiu que fossem ambas. A moça, entretanto, pareceu arrepender-se daquelle movimento; travou das mãos da ingleza, e com uma voz ainda mais doce e macia que de costume, lhe disse:
--Veja o que é ser creança! Não parece que ainda em cima me zango com a senhora?
--Parece.
--Pois não é exacto. Isto são caprichos de menina mal educada. Dei para não gostar que me adorem... Minto; disso gósto eu; mas quizera que me adorassem somente, não lhe parece?
E Guiomar acompanhou estas palavras com uma risadinha mimosa e uns gestos de creança travêssa, que destoavam inteiramente da sua gravidade habitual.
--Já sei, gosta de uma adoração como a do Dr. Estevão, silenciosa e resignada, uma adoração..
E Mrs. Oswald, que, como boa protestante que era, tinha a Escriptura na ponta dos dedos, continuou por este modo, accentuando as palavras:
Uma adoração como a que devia inspirar José, filho de Jacob, que era bello como a senhora: «por elle as moças andavam por cima da cerca...»
--Da cerca? perguntou Guiomar tornando-se séria.
--Do muro, diz a Escriptura, mas eu digo da cerca porque... nem eu sei porque. Não core! Olhe que se denuncia.
Guiomar corára deveras; mas era a altivez e o pundonor offendido que lhe falavam no rosto. Olhou fria e longamente para a ingleza, com um desses olhares, que são, por assim dizer, um gesto da alma indignada. O que a irritava não era a allusão, que não valia muito, era a pessoa que a fazia,--inferior e mercenaria. Mrs. Oswald percebeu isto mesmo; mordeu a ponta do labio, mas transigiu com a moça.
--Meu Deus! disse ella. Parece que se zangou por uma bricadeira á toa. Bem sabe que eu não podia querer aggraval-a; suppol-o é offender-me a mim,--a mim, que também lhe tenho affecto de mãe....
A ultima palavra aquietou, o animo de Guiomar; ella tinha cedido ao impulso do seu caracter altivo, mas a razão veiu depois, e o coração tambem, que não era mau. A ingleza, que possuía longa pratica da vida e sabia ceder a tempo, uniu o gesto á palavra e chamou-a com os braços para si. Guiomar deixou-se ir, um pouco de má vontade, e a conversa teria acabado alli, se Mrs. Oswald não lhe dissesse com a mais doce voz que daquella garganta podia sair:
--Convença-se de que eu sou importuna e indiscreta por affeição, e que a felicidade desta familia é toda a ambição da minha alma. Não pode haver intenção melhor do que esta. Um conselho ultimo,--ultimo se me não consentir mais falar-lhe nisto;--eu creio que a senhora sonha talvez de mais. Sonhará uns amores de romance, quasi ímpossiveis? digo-lhe que faz mal, que é melhor, muito melhor contentar-se com a realidade; se ella não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir.
Guiomar cravara desta vez os olhos no chão, com a expressão vaga e morta de quem os apagou para as cousas externas. As palavras de Mrs. Oswald responder-lhe-hiam acaso a alguma voz intima? A ingleza proseguiu na mesma ordem de ideias, sem que ella a interrompesse ou desse signal de si. Quando ella acabou, Guiomar estremeceu, como se acordasse; levantou a cabeça, e lenta, e commovida, proferiu esta unica resposta:
--Talvez tenha razão, Mrs. Oswald, mas em todo o caso os sonhos são tão bons!
Mrs. Oswald abanou a cabeça e saiu; Guiomar acompanhou-a com os olhos, a sorrir, satisfeita de si mesma, e a murmurar tão baixo que mal a ouvia o seu proprio coração:
--Sonhos, não, realidade pura.
Supponho, que o leitor estará curioso de saber quem era o feliz ou infeliz mortal, de quem as duas trataram no dialogo que precede, se é que já não suspeitou que esse era nem mais nem menos o sobrinho da baroneza,--aquelle moço que apenas de passagem lhe apontei nas escadas do Gymnasio.
Era um rapaz de vinte e cinco a vinte e seis annos. Jorge chamava-se elle; não era feio, mas a arte estragava um pouco a obra da natureza. O muito mimo empece a planta, disse o poeta, e esta maxima não é só applicavel à poesia, mas tambem ao homem. Jorge tinha um lindo bigode castanho, untado e retesado com excessivo esmero. Os olhos, claros e vivos, seriam mais bellos, se elle não os movesse com affectação, ás vezes feminina. O mesmo direi dos modos, que seriam faceis e naturaes, se os não tornasse tão alinhados e medidos. As palavras saíam-lhe lentas e contadas, como a fazer sentir toda a munificencia do autor. Não as proferia como as demais pessoas; cada syllaba era por assim dizer espremida, sendo facil ver ao cabo de alguns minutos, que elle fazia consistir toda a belleza da elocução nesse alongar do vocabulo. As ideias orçavam pelo modo de as exprimir; eram chochas por dentro, mas traziam uma codea de gravidade pesadona, que dava vontade de ir espairecer o ouvido em cousas leves e folgazãs.
Taes eram os defeitos apparentes de Jorge. Outros havia, e desses, o maior era um peccado mortal, o setimo. O nome que lhe deixara o pae, e a influencia da tia podiam servir-lhe nas mãos para fazer carreira em alguma cousa publica; elle, porém, preferia vegetar á toa, vivendo do peculio que dos paes herdára e das esperanças que tinha na affeição de baroneza. Não se lhe conhecia outra occupação.
Não obstante os defeitos apontados, havia nelle qualidades boas: sabia dedicar-se, era generoso, incapaz de malfazer, e tinha sincero amor á velha parenta. A baroneza, pela sua parte, queria-lhe muito. Guiomar e elle eram as suas duas affeições principaes, quasi exclusivas.
Tal era a pessoa cujos interesses defendia Mrs. Oswald, por amor da baroneza, e não menos de si propria. A baroneza tambem tinha os seus sonhos, como ella mesma disse, e esses eram deixar felizes aquellas duas crianças. Jorge pela sua parte estava dispóto a estender o collo ao sacrificio; e, bem examinadas as cousas, talvez amasse sinceramente a moça. A differença entre elle e Estevão é que o seu amor era tão medido como os seus gestos, e tão superficial como as suas outras impressões.
Do que ahi fica dito, facilmente comprehenderá o leitor que, dos dous namorados, só um percebeu logo o sentimento do outro. A alma de Estevão andava-lhe nos olhos, enchendo-os de maneira que elle não podia ver nada mais além de Guiomar.