A Mao e A Luva

Part 2

Chapter 24,051 wordsPublic domain

O jardim ficava nos fundos da casa; era separado da chacara visinha por uma cerca. Relanceando os olhos pela chacara, viu Estevão que era plantada com esmero e arte, assaz vasta, recortada por muitas ruas curvas e duas grandes ruas rectas. Uma destas começava das escadas de pedra da casa e ia até o fim da chacara; a outra ia da cerca de Luiz Alves até á extremidade opposta, cortando a primeira no centro. Do lugar em que ficava Estevão só a segunda rua podia ser vista de ponta a ponta.

Sentou-se o bacharel em um banco que alli achou, recebeu a chicara de café, que o escravo lhe trouxe dahi a pouco, accendeu um charuto e abriu o livro. O livro era uma _Pratica Forense._ Demos-lhe razão ao despeito com que o fechou e atirou ao chão, contentando-se com o canto dos passaros e o cheiro das flores, e a sua imaginação tambem, que valia as flores e os passaros.

Deus sabe até onde iria ella, com as azas faceis que tinha, se um incidente lh'as não colhera e fizera descer á terra. Da casa visinha saíra um roupão,--elle não viu mais que um roupão,--e seguira pela rua que enfrentava com casa, a passo lento e meditativo. Estevão, que adorava todos os roupões, fossem ou não meditativos, deu as graças á Providencia, pela boa fortuna que lhe deparava, e afiou os olhos para contemplar aquella graciosa madrugadora. Graciosa, ainda elle não sabia se o era; mas assentou que devia de ser, justamente porque desejava que o fosse.

A deliciosa paisagem ia ter emfim uma alma; o elemento humano vinha coroar a natureza.

Ergueu-se Estevão, de toda a sua estatura elevada e gentil, para ver melhor,--e ser visto, digamos a verdade toda,--aquella desconhecida visinha, que devia ser por força a que Luiz Alves comprimentara no theatro. Acteon christão e modesto, não sorprehendia Diana no banho, mas ao sair delle; todavia, não palpitava menos de commoção e curiosidade.

O roupão ia andando.

III

Ao pé da cerca.

A primeira cousa que Estevão pôde descobrir é que a visinha era moça. Via-lhe o perfil, em cada aberta que deixavam as arvores, um perfil correcto e puro, como de esculptura antiga. Via-lhe a face côr de leite, sobre a qual se destacava a côr escura dos cabellos, não penteados de vez, mas frouxamente atados no alto da cabeça, com aquelle deleixo matinal que faz mais bellas as mulheres bellas. O roupão,--de musselina branca,--finamente bordado, não deixava ver toda a graça do talhe, que devia ser e era elegante, dessa elegancia que nasce com a creatura ou se apura com a educação, sem nada pedir, ou pedindo pouco á thesoura da costureira. Todo o collo ia coberto até o pescoço, onde o roupão era preso por um pequeno broche de saphira. Um botão, do mesmo mineral, fechava em cada pulso as mangas estreitas e lisas, que rematavam em folhos de renda.

Estevão, da distancia e na posição em que se achava, não podia ver todas estas minucias que aqui lhes aponto, em desempenho deste meu dever de contador de historias. O que elle viu, além do perfil, dos cabellos, e da tez branca, foi a estatura da moça, que era alta, talvez um pouco menos do que parecia com o vestido roçagante que levava. Pôde ver-lhe também um livrinho, aberto nas mãos, sobre o qual pousava os olhos, levantando-os de espaço a espaço, quando lhe era mister voltar a folha, e deixando-os cair outra vez para embeber-se na leitura.

Ia assim andando, sem cuidar que a visse alguem, tão serena e grave, como se atravesára um salão. Estevão, que não tirava os olhos della, mentalmente pedia ao ceu a fortuna de a ter mais proxima, e anciava por vel-a chegar á rua que lhe ficava diante. Comtudo, era difficil que lhe parecesse mais formosa do que era, vista assim de perfil, a escapar por entre as arvores. O jovem bacharel, par não perder o sestro dos primeiros tempos, avocava todas as suas reminiscencias litterarias; a desconhecida foi successivamente comparada a um seraphim de Klopstock, a uma fada de Shakespeare, a tudo quanto na memoria delle havia mais aereo, transparente, ideial.

Em quanto elle trabalhava o espirito nestas comparações poeticas, não descabidas, se quizerem, em tal lugar, e ao pé de tão graciosa creatura, ella seguia lentamente e chegara á encrusilhada das duas grandes ruas da chacara. Estevão esperava que voltasse á direita, isto é, que viesse para o lado delle, mas sobretudo receiava que seguisse pela mesma rua adiante e se perdesse no fundo da chacara. A moça escolheu um meio termo, voltou á esquerda, dando as costas ao seu curioso admirador e continuando no mesmo passo vagaroso e regular.

A chacara não era em demasia grande; e por mais lento que fosse o passo da madrugadora, não gastaria ella immenso tempo em percorrer até o fim aquella porção da rua em que entrára. Mas alli, ao pé daquelle coração juvenil e impaciente, cada minuto parecia, não direi um seculo,--seria abusar dos direitos do estylo,--mas uma hora, uma hora lhe parecia, com certeza.

A moça entretanto, chegando ao fim, parou alguns instantes, pousou a mão nas costas de um banco rustico que alli havia e enfrentava com outro, collocado na extremidade opposta. A outra mão descaira-lhe, e os olhos tambem, o que magoou o seu curioso observador. Seriam saudades de alguem? Estevão sentiu uma cousa, a que chamarei ciume antecipado, mas que na realidade eram invejas da alheia fortuna. A inveja é um sentimento mau; mas nelle, que nascera para amar, e que, além disso, tinha em si o contraste do nascimento com o instincto, um berço obscuro e umas aspirações á vida elegante,--nelle a inveja era quasi um sentimento desculpavel.

A moça voltou e veiu pela rua adiante. Emfim, disse comsigo Estevão, vou contemplal-a de mais perto. Ao mesmo tempo, receioso de que, descobrindo alli um extranho, guiasse os passos para casa, Estevão afastou-se do logar em que ficára, resoluto a apparecer, quando ella estivesse proxima á cerca do jardim. A moça vinha andando com o livro fechado, e os olhos ora no chão, ora nas andorinhas e camachilras que esvoaçavam na chacara. Se trazia saudades, não se lhe podiam ler no rosto, que era quieto e pensativo, sim, mas sem a menor sombra de pena ou de tristeza.

Estevão do logar onde estava podia examinar-lhe as feições, sem ser visto por ella; mas foi justamente do que não cuidou, desde que lh'as pôde distinguir. Valia a pena, entretanto, contemplar aquelles grandes olhos castanhos, meio velados pelas longas, finas e bastas pestanas, não maviosos nem quebrados, como elle os cuidara ver, mas de uma belleza severa, casta e fria. Valia a pena admirar como elles communicavam a todo o rosto e o toda a figura um ar de magestade tranquilla e senhora de si. Não era ella uma dessas bellezas que, ao mesmo tempo, que subjugam o coração, accendem os sentidos; falava á intelligencia primeiro do que ao coração, tanto a arte parecia haver collaborado com a natureza naquella creatura, meia estatua e meia mulher.

Tudo isto podia ver e considerar o nosso bacharel. A verdade, porém, é que a nenhuma destas cousas attendeu. Desde que distinguíra as feições de moça, ficou como tomado de assombro, com os olhos parados, a bocca entreaberta, fugindo-lhe a vida e o sangue todo para o coração.

A moça chegara á cerca; esteve de pé algum tempo, olhou em derredor e por fim sentou-se no banco que alli havia, dando as costas para o jardim de Luiz Alves. Abriu novamente o livro, e continuou a leitura do ponto em que a deixara tão só comsigo, tão embebida no livro que tinha deante, que não a despertou o rumor, aliás sumido, dos passos de Estevão nas folhas seccas do chão. Teria percorrido meia pagina, quando Estevão, reclinando-se sobre a cerca, e procurando abafar a voz para que só chegasse aos ouvidos della, proferiu este simples nome:

--Guiomar!

A moça soltou um grito de sorpreza e de susto, e voltou-se sobresaltada para o lado donde partira a voz. Ao mesmo tempo levantára-se. A impressão que lhe produzira, e não sei se tambem algum ar de colera que lhe notasse no rosto; e além de tudo, o remorso de não haver suffocado aquelle grito de seu coração, fez com que Estevão, quasi no mesmo instante murmurasse em tom de súpplica:

--Perdoe-me; foi uma scentelha do passado que estava debaixo da cinza: apagou-se de todo.

Guiomar,--sabemos agora que era este o seu nome,--olhou séria e quieta para o seu mal aventurado interruptor, dous longos e mortaes minutos. Estevão, confuso e vexado, tinha os olhos em terra; o coração palpitava-lhe com força, como a despedir-se da vida. A situação ora em demasia afflictiva e embaraçosa para que se podesse prolongar mais. Estevão ia corteja-la e despedir-se; mas a moça, com um sorriso de mais piedade que affecto, murmurou:

--Está perdoado.

Caminhou para a cerca e estendeu-lhe a mão, que elle apertou,--apertou não é bem dito,--em que elle tocou apenas, o mais ceremoniosamente que podia e devia naquella situação.

E depois ficaram a olhar um para o outro, sem se atreverem a dizer nada, nem a sair dalli, a verem ambos o espectro do passado, aquelle tão amargo passado para um delles. Guiomar foi a primeira que rompeu o silencio, fazendo a Estevão uma pergunta natural, como não podia deixar de ser naquellas circumstancias mas ainda assim, ou por isso mesmo, a mais acerba que elle podia ouvir:

--Ha dous annos que nos não vemos, creio eu?

--Ha dous annos, murmurou Estevão abafando um suspiro.

--Já está formado, não? Lembra-me ter lido o seu nome....

--Estou formado. Sabe que era o desejo maior de minha tía...

--Não a vejo ha muito tempo, interrompeu Guiomar; eu saí do collegio, logo depois que o senhor seguiu para S. Paulo. Saí a convite da baroneza, minha madrinha, que lá foi buscar-me um dia, allegando que eu já não tinha que aprender, e que me não convinha ensinar.

--De certo, assentiu Estevão.--Minha tia é que não deixou nem podia deixar de ensinar; acabou no officio.

--Acabou?

--Morreu.

--Ah!

--Morreu ha cerca de um anno.

--Era uma boa creatura, continuou Guiomar, depois de alguns instantes de silencio, muito carinhosa e muito prendada. Devo-lhe o que aprendi..., Está admirando esta flor?

Estevão, apanhado em flagrante delicto de admiração, não da flor mas da mão que a sustinha,--uma deliciosa mão, que devia ser por força a que se perdeu da Venus de Milo, Estevão balbuciou:

--Com effeito, é linda!

--Ha muita flor bonita aqui na chacara. A baroneza tem immenso gesto a estas cousas, e o nosso jardineiro é homem que sabe do seu officio.

Aquelle natural acanhamento da primeira occasião foi desapparecendo aos poucos, e a conversa veiu a ser, não tão familiar, como outr'ora, mas em todo o caso menos fria do que a principio estivera. Havia, comtudo, uma differença entre os dous: elle, sem embargo do desembaraço, sentia-se abalado e commovido; ella, porém, vencido o sobresalto do principio, mostrava-se tranquilla e fria, sempre polida e grave, risonha ás vezes, mas de um risonho á flor do rosto, que não lhe alterava a serenidade e compostura.

O sitio e a hora eram mais proprios de um idylio, que de uma fria e descolorida pratica. Um ceu claro e limpido, um ar puro, o sol a coar por entre as folhas uma luz ainda frouxa e tepida, a vegetação em derredor, todo aquelle reviver das cousas parecia estar pedindo uma egual aurora nas almas. Estas é que deviam falar alli a sua lingua dellas, amorosa e candida, em vez da outra, cortez, elegante e rigida, que a nenhum delles desprazia, de certo, mas que era muito menos volontaria nos labios de Estevão.

Guiomar falava com certa graça, um pouco hirta e pausada, sem viveza, nem calor.

Estevão, que a maior parte do tempo ficara a ouvil-a, observava entre si que as maneiras da moça não lhe eram desnaturaes, ainda que podiam ser calculadas naquella situação. A Guiomar que elle conhecera e amara era o embryão da Guiomar de hoje, o esboço do painel agora perfeito; faltava-lhe outr'ora o colorido, mas já se lhe viam as linhas do desenho.

A conversa durou cerca de tres quartos de hora, uma migalha de tempo para elle, que desejara muito mais. Mas era preciso acabar; ella foi a primeira a dizer-lh'o.

--O senhor fez-me perder muito tempo. Ha talvez uma hora que estamos aqui a conversar. Era natural, depois de dous annos. Dous annos! Mas o que não era natural, continuou ella mudando de tom, era atrever-me a falar com un estranho neste _déshabillé_ tão pouco elegante...

--Elegantissimo, pelo contrario.

--O senhor tem sempre um comprimento de reserva: vejo que não perdeu o tempo na academia. Vou-me embora. São horas da baroneza dar o seu passeio pela chacara.

--Será aquella senhora que alli está no alto da escada? perguntou Estevão.

--É ella mesma, respondeu Guiomar. Está á espera que lhe vá dar o braço.

E com um gesto friamente fidalgo, estendeu a mão a Estevão, dizendo:

--Passe bem, senhor doutor, estimei vêl-o.

Estevão tocou-lhe levemente na mão, fina e macia, e inclinou-se respeitoso. A moça caminhou para casa. Elle acompanhou-a com os olhos, admirando a gentileza com que ella, desta vez a passo accelerado, resvalava por entre as arvores até subir as escadas da casa. Viu-a dar o braço á madrinha, descerem e seguirem vagarosamente pelo mesmo caminho por onde Guiomar seguira da primeira vez.

Estevão ainda ficou algum tempo encostado á cerca, na esperança de que ella olhasse ou dirigisse os passos para aquelle lado; ella porém, passou indifferente, como se nem da existencia delle soubera. Estevão retirou-se dalli cabisbaixo e triste, batido de contrários sentimentos, cheio de uma tristeza e de uma alegria que mal se combinavam, e por cima de tudo isso o éco vago e surdo desta interrogação:

--Entro num drama ou saio de uma comedia?

IV

Latet anguis.

O passeio da baroneza durou pouco mais de meia hora. O sol começava a aquecer, e apesar de ser bastante sombreada a chacara, o calor aconselhava á boa senhora que se recolhesse. Guiomar deu-lhe o braço, e ambas, seguindo pelo mesmo caminho, guiaram para casa.

--Parece muito tarde, Guiomar, disse a baroneza ao cabo de alguns segundos.

--E é, madrinha. Demorei-me hoje mais do que costumo, por causa de um encontro que tive aqui na chacara.

--Um encontro?

--Um homem.

--Algum ladrão? perguntou a madrinha parando.

--Não, senhora, respondeu Guiomar sorrindo, não era ladrão. A minha mestra de collegio... sabe que morreu?

--Quem disse isso?

--O sobrinho, o tal sugeito que encontrei aqui hoje.

--Você está zombando commigo! Um homem na chacara?

--Não era bem na chacara, mas no jardim do Dr. Luiz Alves. Estava encostado á cerca; trocámos algumas palavras.

A baroneza olhou para ella alguns segundos.

--Mas, menina, isso não é bonito. Que diriam se os vissem?... Eu não diria nada, porque conheço o que você vale, e sei a discrição que Deus lhe deu.--Mas as apparencias....Que qualidade de homem é esse sobrinho?

Interrompeu-as uma mulher de quarenta e quatro a quarenta e cinco annos, alta e magra, cabello entre louro e branco, olhos azues, aceiadamente vestida, a Sra. Oswald,--ou mais britannicamente, Mrs. Oswald,--dama de companhia da baroneza, desde alguns annos. Mrs. Oswald conhecêra a baroneza em 1846; viuva e sem familia, acceitou as prospostas que esta lhe fez. Era mulher intelligente e sagaz, dotada de boa indole e serviçal. Antes da ida de Guiomar para a companhia da madrinha, era Mrs. Oswald a alma da casa; a presença de Guiomar, que a baroneza amava extremosamente, alterou um pouco a situação.

--São nove horas! disse de longe a ingleza; pensei que hoje não queriam voltar para casa. O calor está forte; e a senhora baroneza sabe que não é conveniente expor-se aos ardores do sol, sobretudo neste tempo de epidemias.

--Tem razão, Mrs. Oswald; mas Guiomar tardou hoje tanto em ir buscar-me, que o passeio começou tarde.

--Porque me não mandou chamar?

--Estava talvez a dormir, ou entretida com o seu Walter Scott...

--Milton, emendou gravemente a ingleza; esta manhã foi dedicada a Milton. Que immenso poeta, D. Guiomar!

--Tamanho como este calor, observou Guiomar sorrindo. Apertemos o passo e lá dentro a ouviremos com melhor disposição.

Foram as tres andando, subiram a escada e entraram na sala de jantar, que era vasta, com seis janellas para a chacara. Dalli seguiram para uma saleta, onde a baroneza sentou-se na sua poltrona, a esperar a hora do almoço. Guiomar saiu para ir cuidar da _toilette_; e a baroneza que desde alguns minutos estivera cabisbaixa e pensativa, olhou fixamente para Mrs. Oswald, sem dizer palavra.

Era ella uma senhora de cincoenta annos, refeita, vestida com esse alinho e esmero da velhice, que é um resto da elegancia da mocidade. Os cabellos, côr de prata fosca, emmolduravam-lhe o rosto sereno, algum tanto arrugado, não por desgostos, que os não tivera, mas pelos annos. Os olhos luziam de muita vida, e eram a parte mais juvenil do rosto.

Tendo casado cedo, coube-lhe a boa fortuna de ser egualemente feliz desde o dia do noivado até o da viuvez. A viuvez custara-lhe muito; mas já lá iam alguns annos, e da crua dor que tivera ficara-lhe agora a consolação da saudade.

--Chegue-se mais perto; preciso falar-lhe a sós, disse ella á ingleza, que se achava a alguns passos de distancia.

Mrs. Oswald foi ate a porta espreitar se viria alguém e voltou a sentar-se ao pé da baroneza. A baroneza estava outra vez pensativa, com as mãos crusadas no regaço e os olhos no chão.

Estiveram as duas alli silenciosas alguns dous ou tres minutos. A baroneza despertou emfim das reflexões, e voltou-se para a ingleza:

--Mrs. Oswald, disse ella, parece estar escripto que não serei completamente feliz. Nenhum sonho me falhou nunca; este, porém, não passará de sonho, e era o mais bello de minha velhice.

--Mas porque desespera? disse a ingleza. Tenha animo, e tudo se hade arranjar. Pela minha parte, oxalá pudesse contribuir para a completa felicidade desta familia, a quem devo tantos e tamanhos benefícios.

--Benefícios!

--E que outra cousa são os seus carinhos, a protecção que me tem dado, a confiança...

--Está bom, está bom, interrompeu affectuasamente a baroneza; falemos de outra cousa.

--Della, não é? Diz-me o coração que com alguma paciencia tudo se alcançará. Todos os meios se hão de tentar; e todos elles são bons se se trata de fazer a felicidade sua e della. Bem está o que bem acaba, disse um poeta nosso, homem de juizo. Por em quanto só vejo um obstaculo: a pouca disposição...

--Só esse?

--Que outro mais?

--Talvez outro, disse a baroneza abaixando a voz; póde ser que não, mas tão infeliz sou neste meu desejo, que hade vir a ser obstaculo, talvez.

--Mas que é?

--Um homem, um moço, não sei quem, sobrinho da mestra que foi de Guiomar... Ella mesma contou-me tudo ha pouco.

--Tudo o que?

--Não sei se tudo; mas emfim disse-me que, estando a passear na chacara, vira o tal sobrinho da mestra, junto á cerca do Dr. Luiz Alves, e ficara a conversar com elle. Que será isto, Mrs. Oswald? Algum amor que continua ou recomeça agora,--agora, que ella já não é a simples herdeira da pobreza de seus pais, mas a minha filha, a filha do meu coração.

A commoção da baroneza ao proferir estas palavras era tal, que Mrs. Oswald pegou-lhe affectuosamente das mãos e procurou conforta-la com outras palavras de esperança e confiança. Disse-lhe, além disso, que o simples conversar com esse homem, que aliás nenhuma delias conhecia, não era razão para suppor uma paixão anterior.

--Emfim, concluiu a ingleza, custa-me crer que ella ame a alguem neste mundo. Por em quanto estou que não gosta de ninguém, e a nossa vantagem não é outra senão essa. Sua afilhada tem uma alma singular; passa facilmente do enthusiasmo á frieza, e da confiança ao retrahimento. Ha de vir a amar, mas não creio que tenha grandes paixões, ao menos duradouras. Em todo o caso, posso responder-lhe actualmente pelo seu coração, como se tivesse a chave na minha algibeira.

A baroneza abanou a cabeça.

--Quanto a esse homem, continuou Mrs. Oswald, saberemos quem é elle, e que relações de affecto houve no passado.

--Parece-lhe possivel?

--Naturalmente!

A ingleza proferiu esta unica palavra com a segurança necessaria para serenar o animo da boa senhora, que ficou algum tempo a olhar pasmada para ella, como quem reflectia.

--Ha occasiões, disse emfim a baroneza ao cabo de alguns segundos de silencio, ha occasiões em que eu quasi chego a sentir remorsos do amor que tenho a Guiomar. Ella veiu preencher na minha vida o vacuo deixado por aquella pobre Henriqueta, a filha das minhas entranhas, que a morte levou comsigno, para mal de sua mãe. Se havia de ser infeliz, melhor é que a chore morta, com a esperança de a ir encontrar no ceu. Mas não lhe quiz mais, nem talvez tanto, como a esta criança, que levei á pia, e de quem Deus me fez mãe...

A baroneza calou-se; ouvira passos no corredor.

Guiomar, embora tivesse ido vestir-se e aprimorar-se, com tão singellos meios o fizera, que não desdizia daquelle matinal desalinho em que o leitor a viu no capitulo anterior. O penteado era um capricho seu, expressamente inventado para realçar a um tempo a abundancia dos cabellos e a senhoril belleza da testa. As pontas bordadas de um collarinho de cambraia dobravam-se faceiramente sobre o azul do vestido de _glacé_, talhado e ornado com uma simplicidade artistica. Isto, e pouco mais, era toda a moldura do painel,--um dos mais bellos paineis que havia por aquelles tempos em toda a praia de Botafogo.

--Viva a minha rainha de Inglaterra! exclamou Mrs. Oswald quando a viu assomar á porta da saleta.

E Guiomar sorriu com tanta, satisfação e gôzo ao ouvir-lhe esta saudação familiar, que um observador attento hesitaria em dizer se era aquillo simples vaidade de moça, ou se alguma cousa mais.

A baroneza poz os olhos na afilhada, uns olhos amorosos e tristes, em que a moça reparou, e que a tornaram séria durante alguns rapidos segundos. Mas sorriu depois; e pegando das mãos da madrinha deu-lhe dous beijos no rosto, com tanta ternura e tão sincera, que a boa senhora sorriu de contentamento.

--Não precisa falar, disse Guiomar, já sei que me acha bonita. É o que me diz todos os dias, com risco de me perder, porque se eu acabo vaidosa, adeus, minhas encommendas, ninguem mais poderá commigo.

Guiomar disse isto com tanta graça e singeleza, que a madrinha não pôde deixar de rir, e a melancolia acabou de todo. A sineta do almoço chamou-as a outros cuidados, e a nós tambem, amigo leitor. Em quanto as tres almoçam, relanceemos os olhos ao passado, e vejamos quem era esta Guiomar, tão gentil, tão buscada e tão singular, como dizia Mrs. Oswald.

V

Meninice.

Guiomar tivera humilde nascimento; era filha de um empregado subalterno não sei de que repartição do Estado, homem probo, que morreu quando ella contava apenas sete annos, legando á viuva o cuidado de a educar e manter. A viuva era mulher energica e resoluta, enxugou as lagrimas com a manga do modesto vestido, olhou de frente para a situação e determinou-se á luta e á victoria.

A madrinha de Guiomar não lhe faltou naquelle duro transe, e olhou por ellas, como entendia que era seu dever. A solicitude, porém, não foi tão constante a principio como veiu a ser depois; outros cuidados de familia lhe chamavam a attenção.

Guiomar annunciava desde pequena as graças que o tempo lhe desabrochou e perfez. Era uma creaturinha galante e delicada, assaz intelligente e viva, um pouco travêssa, de certo, mas muito menos do que é usual na infancia. Sua mãe, depois que lhe morrera o marido, não tinha outro cuidado na terra, nem outra ambição mais, que a de ve-la prendada e feliz. Ella mesma lhe ensinou a ler mal, como ella sabia,--e a coser e bordar, e o pouco mais que possuia de seu officio de mulher. Guiomar não tinha difficuldade nenhuma em reter o que a mãe lhe ensinava, e com tal affinco lidava por aprender, que a viuva,--ao menos nessa parte,--sentia-se venturosa. Has-de ser a minha doutora, dizia-lhe muita vez; e esta simples expressão de ternura alegrava a menina e lhe servia de incentivo á applicação.