Part 1
A MÃO
E
A LUVA
De
MACHADO DE ASSIS
da Academia Brasileira
Livraria Garnier
109, Rua do Ouvidor,109 RIO DE JANEIRO
6, Rue des Saints-Pères, 6 PARIS
COLLECÇÃO DOS AUTORES CELEBRES
DA
LITTERATURA
1919
ADVERTÊNCIA DE 1907
Os trinta e tantos annos decorridos do apparecimento desta novella á reimpressão que ora se faz parece que explicam as differenças de composição e de maneira do autor. Se este não lhe daria agora a mesma feição, é certo que lh'a deu outr'ora, e, ao cabo, tudo pode servir a definir a mesma pessoa.
Não existia, ha muito, no mercado. O autor acceitou o conselho de confiar a reimpressão ao editor dos outros livros seus. Não lhe alterou nada; apenas emendou erros typographicos, fez correcções de orthographia, e eliminou cerca de quinze linhas. Vae como saiu em 1874.
M. DE A.
ADVERTÊNCIA DE 1874
Ésta novella, sugeita ás urgências da publicação diaria, saiu das mãos do autor capitulo a capitulo, sendo natural que a narração e o estylo padecessem com esse methodo de composição, um pouco fóra dos hábitos do autor. Se a escrevêra em outras condições, dera-lhe desenvolvimento maior, e algum colorido mais aos caracteres, que ahi ficam esboçados. Convem dizer que o desenho de taes caracteres,--o de Guiomar, sobretudo,--foi o meu objecto principal, senão exclusivo, servindo-me a acção apenas de tela em que lancei os contornos dos perfis. Incompletos embora, terão elles saido naturaes e verdadeiros?
Mas talvez estou eu a dar proporções muito graves a uma cousa de tão pequeno tomo. O que ahi vae são umas poucas paginas que o leitor esgotará de um trago, se ellas lhe aguçarem a curiosidade ou se lhe sobrar alguma hora que absolutamente não possa empregar em outra cousa,--mais bella ou mais util.
Novembro de 1814.
M. DE A.
A MÃO E A LUVA
I
O fim da carta.
--Mas que pretendes fazer agora?
--Morrer.
--Morrer? Que ideia! Deixa-te disso, Estevão. Não se morre por tão pouco....
--Morre-se. Quem não padece estas dores não as póde avaliar. O golpe foi profundo, e o meu coração é pusillanime; por mais aborrecivel que pareça a ideia da morte, peior, muito, peior do que ella, é a de viver. Ah! tu não sabes o que isto é?
--Sei: um namoro gorado....
--Luiz!
--.... E se em cada caso de namoro gorado morresse um homem, tinha já diminuído muito o genero humano, e Malthus perderia o latim. Anda, sobe.
Estevão metteu a mão nos cabellos com um gesto de augustia; Luiz Alves sacudiu a cabeça e sorriu. Achavam-se os dous no corredor da casa de Luiz Alves, á rua da Constituição,--que então se chamava dos Ciganos;--então, isto é, em 1853, uma bagatella de vinte annos que lá vão, levando talvez comsigo as illusões do leitor, e deixando-lhe em troca (usurarios!) uma triste, crua e desconsolada experiencia.
Eram nove horas da noite; Luiz Alves recolhia-se para casa, justamente no occasião em que Estevão o ia procurar; encontraram-se á porta. Alli mesmo lhe confiou Estevão tudo o que havia, e que o leitor saberá daqui a pouco, caso não aborreça estas historias de amor, velhas como Adão, e eternas como o ceu. Os dous amigos demoraram-se ainda algum tempo no corredor, um a insistir com o outro para que subisse, o outro a teimar que queria ir morrer, tão tenazes ambos, que não haveria meio de os vencer, se a Luiz não occoresse uma transacção.
--Pois sim, disse elle, convenho em que deves morrer, mas ha de ser amanhã. Cede da tua parte, e vem passar a noite commigo. Nestas ultimas horas que tens de viver na terra dar-me-has uma lição de amor, que eu te pagarei com outra de philosophia.
Dizendo isto, Luiz Alves travou do braço de Estevão, que não resistiu dessa vez, ou porque a ideia da morte não se lhe houvesse entranhado deveras no cerebro, ou porque cedesse ao doloroso gosto de falar da mulher amada, ou, o que é mais provavel, por esses dous motivos juntos. Vamos nós com elles, escada acima, até a sala de visitas, onde Luiz foi beijar a mão de sua mãe.
--Mamãe, disse elle, hade fazer-me o favor de mandar o chá ao meu quarto; o Estevão passa a noite commigo.
Estevão murmurou algumas palavras, a que tentou dar um ar de gracejo, mas que eram funebres como um cypreste. Luiz viu-lhe então, á luz das estearinas, alguma vermelhidão nos olhos, e adivinhou,--não era difficil,--que houvesse chorado. Pobre rapaz! suspirou elle mentalmente. D'alli foram os dous para o quarto, que era uma vasta sala, com tres camas, cadeiras de todos os feitios, duas estantes com livros e uma secretaria,--vindo a ser ao mesmo tempo, alcova e gabinette, de estudo.
O chá subiu dahi a pouco. Estevão, a muito rogo do hospede, bebeu dous goles; accendeu um cigarro e entrou a passear ao longo do aposento, em quanto Luiz Alves, preferindo um charuto e um sophá, accendeu o primeiro e estirou-se no segundo, cruzando beatificamente as mãos sobre o ventre e contemplando o bico das chinellas, com aquella placidez de um homem a quem se não gorou nenhum namoro. O silencio não era completo; ouvia-se o rodar de carros que passavam fóra; no aposento, porêm, o unico rumor era dos botins de Estevão na palhinha do chão.
Cursavam estes dous moços a academia de S. Paulo, estando Luiz Alves, no quarto anno e Estevão no terceiro. Conheceram-se na academia, e ficaram amigos intimos, tanto quanto podiam sel-o dous espiritos differentes, ou talvez por isso mesmo que o eram. Estevão, dotado de extrema sensibilidade, e não menor fraqueza de animo, affectuoso e bom, não daquella bondade varonil, que é apanagio de uma alma forte, mas dessa outra bondade molle e de cera, que vai á mercê de todas as circumstancias, tinha, além de tudo isso, o infortunio de trazer ainda sobre o nariz os oculos côr de rosa de suas virginaes illusões. Luiz Alves via bem com os olhos da cara. Não era mau rapaz, mas tinha o seu grão de egoismo, e se não era incapaz de affeições, sabia regel-as, moderal-as, e sobretudo guial-as ao seu proprio interesse. Entre estes dous homens travara-se amizade intima, nascida para um na sympathia, para outro no costume. Eram elles os naturaes confidentes um do outro, com a differença que Luiz Alves dava menos do que recebia, e, ainda assim, nem tudo o que dava exprimia grande confiança.
Estevão referira ao amigo, desde tempos, toda a historia do amor, agora mallogrado, suas esperanças, desalentos e glorias, e, emfim, o inesperado desfecho. O pobre rapaz, que folheava o capitulo mais delicioso do romance--no sentir delle--caiu de toda a altura das illusões na mais dura, prosaica e miseravel realidade.
A namorada de Estevão,--é tempo de dizer alguma cousa della,--era uma moça de 17 annos, e, por ora, simples alumna-professora no collegio de uma tia do nosso estudante, á rua dos Invalidos. Estevão tinha-a visto, pela primeira vez, seis mezes antes, e desde logo sentiu-se preso por ella, «até á morte», disse elle ao amigo, referindo-lhe o encontro, o que o fez sorrir de tão estirado prazo. Qualquer que elle fosse, porém, o prazo fatal daquelle captiveiro, a verdade é que Estevão no mesmo ponto em que a viu logo a amou, como se ama pela primeira vez na vida--amor um pouco estouvado e cego, mas sincero e puro. Amava-o ella? Estevão dizia que sim, e devia crel-o; alguns olhares ternos, meia duzia de apertos de mão significativos, embora a largos intervallos, davam a entender que o coração de Guiomar--chamava-se Guiomar--não era surdo á paixão do academico. Mas, fora disso, nada mais, ou pouco mais.
O pouco mais foi uma flor, não colhida do pé em toda a original frescura, mas já murcha e sem cheiro, e não dada, senão pedida.
--Faz-me um favor? disse um dia Estevão apontando para a flor que ella trazia nos cabellos; esta flor está murcha, e, naturalmente, vai deital-a fóra ao despentear-se; eu desejava que m'a désse.
Guiomar, sorrindo, tirou a flor do cabello, e deu-lh'a; Estevão recebeu-a com egual contentamento ao que teria se lhe antecipassem o seu quinhão do ceu. Além da flor, e para supprir as cartas, que não havia, nada mais obtivera. Estevão durante aquelles seis compridos mezes, a não serem os taes olhares, que afinal são olhares, e vão-se com os olhos donde vieram. Era aquillo amor, capricho, passatempo ou que outra cousa era?
Naquella tarde, a tarde fatal, estando ambos a sós, o que era raro e difficil, disse-lhe elle que em breve ia voltar para S. Paulo, levando comsigo a imagem della, e pedindo-lhe em cambio, que uma vez ao menos lhe escrevesse. Guiomar franziu a testa e fitou nelle o seu magnifico par de olhos castanhos, com tanta irritação e dignidade, que o pobre rapaz ficou attonito e perplexo. Imagina-se a augustia delle diante do silencio que reinou entre ambos por alguns segundos; o que se não imagina é a dor que o prostrou,--a dor e o espanto,--quando ella, erguendo-se da cadeira em que estava, lhe respondeu, saindo:
--Esqueça-se disso.
--Pois quanto a mim,--disse Luiz Alves ouvindo pela terceira vez a narração de tão cru desenlace; quanto a mim, obedecia-lhe pontualmente; esquecia-me disso e ia curar-me cima dos compendios; direito romano e philosophia, não conheço remedio melhor para taes achaques.
Estevão não ouvia as palavras do amigo; estava então assentado na cama, com os cotovellos fincados nas pernas, e a cabeça mettida nas mãos, parecendo que chorava. A principio chorou em silencio; mas não tardou que Luiz Alves o visse deitar-se na cama, estorcer-se convulsivamente, a soluçar, a abafar quanto podia os gritos que lhe saiam do peito, a puxar os cabellos, a pedir a morte, tudo entremeado com o nome de Guiomar, tão d'alma tudo aquillo, tão lastimosamente natural, que emfim o commoveu, e não houve remedio se não dizer-lhe algumas palavras de conforto. A consolação veiu a tempo; a dor, chegada ao paroxismo, declinou pouco a pouco, e as lagrimas estancaram, ao menos por algum tempo.
--Sei que tudo isto hade parecer-te ridículo, disse Estevão sentando-se na cama; mas que queres tu? Eu vivia na persuasão de que era amado, e era-o talvez. Por isso mesmo não entendo o que se passou hoje. Ou o que eu suppunha ser amor, não passava talvez de passatempo ou zombaria...
--Talvez, talvez, interrompeu Luiz Alves, comprehendendo que o melhor meio de o curar do amor era metter-lhe em brios o amor-proprio.
Estevão ficou alguns instantes pensativo.
--Não, não, é possível, contestou elle. Tu não a conheces. É uma grave e nobre creatura, incapaz de conceber um sentimento desses, que seria vulgar ou cruel.
--As mulheres...
--Já pensei se aquillo de hoje não seria uma maneira de experimentar-me, de ver até que ponto eu lhe queria... Escusas de rir-te, Luiz; eu nada affirmo; digo que pode ser. Não admira que ella fizesse esse calculo,--um bom calculo, nesse caso, todo filho do coração...
A imaginação de Estevão desceu por este declivio de floridas conjecturas, e Luiz Alves entendeu que era de bom aviso não espantar-lhe os cavallos. Ella foi, foi, foi por alli abaixo, redea frouxa e riso nos labios. Boa viagem! exclamou mentalmente o collega voltando a estirar-se no sophá. A viagem não foi longa, mas produziu effeito salutar no animo do namorado, adoçando-lhe as penas, circumstancia que Luiz Alves aproveitou para lhe falar de cem cousas alheias ao coração e divertil-o do pensamento que o absorvia. Conseguiu o seu intento durante meia hora, e conseguiu mais, por que fez com que o collega risse, a principio de um riso amargo e dubio, depois de um riso jovial e franco incompatível com intuitos tragicos. Mas, ai triste! a dor delle era uma especie de tosse moral, que aplacava e reapparecia, intensa ás vezes, ás vezes mais fraca, mas sempre infallivel. O rapaz acertara de abrir uma pagina de _Werther_; leu meia duzia de linhas, e o accesso voltou mais forte que nunca.
Luiz Alves acudiu-lhe com as pastilhas da consolação; o accesso passou; nova palestra, novo riso, novo desespero, e assim se foram escoando as horas da noite, que o relogio da sala de jantar batia secca e regularmente, como a lembrar aos dous amigos que as nossas paixões não acceleram nem moderam o passo do tempo.
A aurora para os dous academicos coincidiu com as badaladas do meio dia, o que não admira, pois só adormeceram quando ella começava a apagar as estrellas. Estevão passou a noite,--a manhã, quero dizer,--muito socegado e livre de sonhos maus. Quando abriu os olhos extranhou o aposento e os objectos que o rodeavam. Logo que os reconheceu, despertou-se-lhe, com a memoria, o coração, onde já não havia aquella dor aguda da vespera. Os successos, embora recentes, começavam a envolver-se na sombra crepuscular do passado.
A natureza tem suas leis imperiosas; e o homem, ser complexo, vive não só do que ama, mas também (fôrça é dizel-o) do que come. Sirva isto de excusa ao nosso estudante, que almoçou nesse dia, como nos anteriores, bastando dizer em seu abono que, se o não fez com lagrimas, também o não fez alegre. Mas o certo é que a tempestade serenara; o que havia era uma ressaca, ainda forte, mas que diminuiria com o tempo. Luiz Alves evitou falar-lhe de Guiomar; Estevão foi o primeiro a recordar-se della.
--Dá tempo ao tempo, respondeu Luiz Alves, e ainda te has de rir dos teus planos de hontem. Sobretudo, agradece ao destino o haveres escapado tão depressa. E queres um conselho?
--Dize.
--O amor é uma carta, mais ou menos longa, escripta em papel velino, córte-dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabens quando se lê, carta de pezames quando se acabou de ler. Tu que chegaste ao fim, põe a epistola no fundo da gaveta, e não te lembres de ir ver se ella tem um «post-scriptum»...
Estavão applaudiu a metaphora com um sorriso de bom agouro.
Duas vezes viu elle a formosa Guiomar, antes de seguir para S. Paulo. Da primeira sentiu-se ainda abalado, por que a ferida não cicatrisara de todo; da segunda, pôde encaral-a sem perturbação. Era melhor,--mais romantico pelo menos, que eu o puzesse a caminho da academia, com o desespero no coração, lavado em lagrimas, ou a bebel-as em silencio, como lhe pedia a sua dignidade de homem. Mas que lhe hei de eu fazer? Elle foi daqui com os olhos enxutos, distrahindo-se dos tedios da viagem com alguma pilheria de rapaz,--rapaz outra vez, como dantes.
II
Um roupão.
Um mez depois de chegar Estevão a S. Paulo, achava-se a sua paixão definitivamente morta e enterrada, cantando elle mesmo um responso, a vozes alternadas, com duas ou tres moças da capital,--todas ellas, por passatempo. Claro é que dous annos depois, quando tomou o grão de bacharel, nenhuma ideia lhe restava do namoro da rua dos Invalidos. Demais, a bella Guiomar desde muito tempo deixara o collegio e fora morar com a madrinha. Já elle a não vira da primeira vez que veiu á corte. Agora voltava graduado em sciencias juridicas e sociaes, como fica dito, mais desejoso de devassar o futuro que de reler o passado.
A corte divertia-se, como sempre se divertiu, mais ou menos, e para os que transpuzeram a linha dos Cincoenta divertia-se mais do que hoje, eterno reparo dos que já não dão á vida toda a flor dos seus primeiros annos. Para os varões maduros, nunca a mocidade folga como no tempo delles, o que é natural dizer, porque cada homem vê as cousas com os olhos da sua edade. Os recreios da juventude não são de certo egualmenle nobres, nem egualmente frivolos, em todos os tempos; mas a culpa ou o merecimento não é della,--a pobre juventude,--é sim do tempo que lhe cae em sorte.
A corte divertia-se, apesar dos recentes estragos do cholera--; bailava-se, cantava-se, passeava-se, ia-se ao theatro. O Cassino abria os seus salões, como os abria o Club, como os abria o Congresso, todos tres fluminenses no nome e na alma. Eram os tempos homericos do theatro lyrico, a quadra memoravel daquellas lutas e rivalidades renovadas em cada semestre, talvez por um excesso de ardor e enthusiasmo, que o tempo diminuiu, ou transferiu,--Deus lhe perdôe,--a cousas de menor tomo. Quem se não lembra,--ou quem não ouviu falar das batalhas feridas naquella classica plateia do Campo da Acclamação, entre a legião casalonica e a phalange chartonica, mas sobretudo entre esta e o regimento lagruista? Eram batalhas campaes, com tropas frescas,--e maduras tambem,--apercebidas de flores, de versos, de coroas, e até de estalinhos. Uma noite a acção travou-se entre o campo lagruista e o campo chartonista, com tal violencia, que parecia uma pagina da _Illiada._ Desta vez, a Venus da situação saiu ferida do combate; um estalo rebentára no rosto da Charton. O furor, o delirio, a confusão foram indescriptiveis; o applauso e a pateada deram-se as mãos,--e os pés. A peleja passou aos jornaes. «Vergonha eterna (dizia um) aos cavalheiros que cuspiram na face de uma dama!»--«Si for mister (replicava outro) daremos os nomes dos aristarchos que no saguão do theatro juraram desfeitear Mlle. Lagrua.)»--«Patuleia desenfreada!»--«Fidalguice balofa!»
Os que escaparam daquellas guerras de alecrim e mangerona hão de sentir hoje, após dezoito annos, que despenderam excessivo enthusiasmo em cousas que pediam repouso de espirito e lição de gosto.
Estevão é uma das relíquias daquella Troya, e foi um dos mais fervorosos lagruistas, antes e depois do grão. A causa principal das suas preferencias, era de certo o talento da cantora; mas a que elle costumava dar, nas horas de bom humor, que eram todas as vinte e quatro do dia, tirantes as do somno, essa causa que mais que tudo o ligava aos «arraiaes do bom gosto» dizia elle, era,--imaginem lá,--era o buço de Mlle. Lagrua. Talvez não fosse elle o unico amador do buço; mas outro mais férvido duvido que houvesse nesta boa cidade. Um chartonista machiavelico, aliás escriptor elegante, elevava o tal buço á cathegoria de bigode, comprehendendo sagazmente que, se o buço era graça, o bigode era excrescencia; e elle nem ao labio da Lagrua queria perdoar.
--Oh! aquelle buço! exclamava Estevão nos intervallos de uma opera, aquelle delicioso buço hade ser a perdição da gente de bem! Quem me dera ir encaracolado por alli acima, até ficar mais proximo do ceu, quero dizer dos seus olhos, e ser visto por ella, que me não descobre na turba innumeravel dos seus adoradores! Querem saber uma cousa? Alli é que ella hade ter a alma, e eu quizera entreter-me com a alma della, e dizer-lhe muita cousinha que tenho cá dentro á espera de um buço que as queira ouvir.
Estevão era mais ou menos o mesmo homem de dous annos antes. Vinha cheirando ainda aos cueiros da Academia, meio estudante e meio doutor, alliando em si, como em edade de transição, o estouvamento de um com a dignidade do outro. As mesmas chimeras tinha, e a mesmas simplesa de coração; só não as mostrára nos versos que imprimiu em jornaes academicos, os quaes eram todos repassados do mais puro byronismo, moda muito do tempo. Nelles confessava o rapaz á cidade e ao mundo a profunda incredulidade do seu espirito, e o seu fastio puramente litterario. A collação de grão interrompeu, ou talvez acabou, aquella vocação poetica; o ultimo suspiro desse genero que lhe saiu do peito foram umas sextilhas á sua _juventude perdida._ Felizmente, que só a perdeu em verso; na prosa e na realidade era rapaz como poucos.
Posto fizesse boa figura na academia, mais presava do que amava a sciencia do direito. Suas preferencias intellectuaes dividiam-se, ou antes abrangiam a polilica e a litteratura, e ainda assim, a politica só lhe acenava com o que podia haver litterario nella. Tinha leitura de uma e outra cousa, mas leitura veloz e á flor das paginas. Estevão não comprehendería nunca este axioma de lord Macaulay--que mais aproveita digerir uma lauda que devorar um volume. Não digeria nada; e dahi vinha o seu nenhum apego ás sciencias que estudara. Venceu a repugnancia por amor proprio; mas, uma, vez dobrado o cabo das Tormentas disciplinares, deixou a outros o cuidado de aproar á India.
Suas aspirações políticas deviam naturalmente morrer em germen, não só porque lhe minguava o apoio necessario para as arvorecer e fructificar, mas ainda por que elle não tinha em si a força indispensavel a todo o homem que põe a mira acima do estado em que nasceu. Eram aspirações vagas, intermittentes, vaporosas, umas visões legislativas e ministeriaes, que tão depressa lhe namoravam a imaginação, como logo se esvaeciam, ao resvalar dos primeiros olhos bonitos, que esses, sim, amava-os elle deveras. Opiniões não as tinha; alguns escriptos que publicara durante a quadra academica eram um complexo de doutrinas de toda a casta, que lhe fluctuavam no espirito, sem se fixarem nunca, indo e vindo, alçando-se ou descendo, conforme a recente leitura ou a actual disposição de espirito.
Por agora militava nas fileiras do lagruismo, com ardor, dedicação e fidelidade de bom apostolo. Não era abastado para pagar o luxo de uma opinião lyrica; nascera pobre e não tinha parente em boa posição. Alguns poucos recursos possuia, provenientes do seu officio de advogado, que exercia com o amigo Luiz Alves.
Uma noite assistira á representação de _Othello_, palmeando até romper as luvas, acclamando até cansar-lhe a voz, mas acabando a noite satisfeito dos seus e de si. Terminado o expectaculo, foi elle, segundo costumava, assistir á saida das senhoras, uma procissão de rendas, e sedas, e leques, e veus, e diamantes, e olhos de todas as cores e linguagens. Estevão era pontual nessas occasiões de espera, e raro deixava de ser o ultimo que saía. Tinha agora os olhos pregados em outros olhos, não pardos como os delle, mas azues, de um azul-ferrete, infelizmente uns olhos casados, quando sentiu alguem bater-lhe no hombro, e dizer-lhe baixinho estas palavras:
--Larga o pinto, que é das almas.
Estevão voltou-se.
--Ah! és tu! disse elle vendo Luiz Alves. Quando chegaste?
--Hoje mesmo, respondeu o collega; venho sequioso de musica. Vassouras não tem Lagrua nem _Othello_...
--Vieste lavar a alma da poeira do caminho, disse Estevão, que, ainda falando em prosa, cultivava as suas metaphoras poeticas. Fizeste bem; não te perdoaria se preferisses a outra, a lambisgoia, que aqui nos querem impingir por grande cousa, e que não chega aos calcanhares do buço...
Interrompeu-se. Luiz Alves acabava de comprimentar ceremoniosamente alguem que passava; Estevão volveu a cabeça para ver quem era. Era uma moça, que elle não chegou a ver, porque já descia as escadas; mas tão elegante e gentil que os olhos lhe fuzilaram de admiração.
--Algum namoro? perguntou ao amigo.
--Não; uma visinha.
A desfilada acabou; sairam os dous e foram dalli cear a um hotel, seguindo depois para Botafogo, onde morava Luiz Alves, desde que perdera a mãe, alguns mezes antes.
A casa de Luiz Alves ficava quasi no fim da praia de Botafogo, tendo ao lado direito outra casa, muito maior e de apparencia rica. A noite estava bella, como as mais bellas noites daquelle arrabalde. Havia luar, ceu limpido, infinidade de estrellas e a vaga a bater mollemente na praia, todo o material, em summa, de uma boa composição poetica, em vinte estrophes pelo menos, obrigada a rima rica, com alguns exdruxulos rebuscados nos diccionarios. Estevão poetou, mas poetou em prosa, com um enthusiasmo legitimo e sincero. Luiz Alves, menos propenso ás cousas bellas, preferia a mais util de todas naquella occasião, que era ir dormir. Não o conseguiu sem ouvir ao hospede tudo quanto elle pensava ácerca daquelle «pinto, que era das almas,» aquelles olhos azues, « profundos como o ceu,» exclamava Estevão.
Afinal dormiram ambos; mas, ou fosse porque os taes olhos o perseguissem, ainda em sonhos, ou porque extranhasse a cama, ou por que o destino assim o resolvera, a verdade é que Estevão dormiu pouco, e, cousa rara, accordou logo depois de apparecer a arraiada.
A manhã estava fresca e serena; era tudo silencio, mal quebrado pelo bater do mar e pelo chilrear dos passarinhos nas chacaras da visinhança. Estevão, amuado por não poder conciliar o somno, resolvera-se a ir ver a manhã, de mais perto. Ergueu-se de manso, lavou-se, vestiu-se, e pediu que lhe levassem café ao jardim, para onde foi sobraçando um livro que acaso topou ao pé da cama.