Part 2
Trabalhava com zelo; nunca era multado, nem gazeteava. Andava taciturno. Os seus olhos azues, grandes como os da mãe, tinham uma expressão de descontentamento. Não comprou a espingarda nem foi á pesca; mas abandonou o caminho que seguiam os companheiros, frequentava cada vez menos as reuniões, e, embora continuasse a sahir ao domingo, voltava para casa em seu juizo. Pélagué observava-o sem dizer palavra e via o rosto moreno de Pavel tornar-se dia a dia mais magro, o olhar sempre mais grave e os labios cerrarem se com aspera severidade. Parecia soffrer de qualquer doença ou de qualquer colera misteriosa. Antigamente, os companheiros visitavam-no, mas como elle deixara de permanecer em casa, não voltavam. A mãe via com prazer que o filho não imitava os rapazes da fabrica; mas quando notou aquella obstinação em afastar-se da torrente obscura da vida monotona, a sua alma foi invadida por vaga inquietação.
Pavel trazia livros para casa; a principio, tentava lel-os a occultas. Por vezes, copiava alguns trechos n’um pedaço de papel.
--Não andas bem, meu filho? perguntou-lhe uma vez Pélagué.
--Vou bem, vou! respondeu.
--Estás tão magro! suspirou ella.
Ficou silencioso.
Falavam pouco, e apenas se viam. Pela manhã, o rapaz tomava em silencio o chá e ia para o trabalho; ao meio-dia vinha jantar; á meza não trocavam mais do que palavras insignificantes; depois desapparecia até á tarde. Findo o dia, lavava-se cuidadosamente, ceava e lia os seus livros. Ao domingo, sahia de manhãsinha e só voltava á noite. A mãe sabia que elle passeava na cidade, que ia ao theatro; mas da cidade ninguem vinha vêl-o. Parecia-lhe que, quantos mais dias passavam, menos o seu filho lhe dirigia a palavra; e ao mesmo tempo notava que dia a dia maior era o numero de termos novos, incomprehensiveis para ella, e que Pavel empregava em substituição das expressões grosseiras, outrora habituaes no seu falar.
Passára a ligar mais cuidado ao asseio do seu corpo e do seu fato; movia-se com mais ligeireza e facilidade; tornou-se mais simples na apparencia, mais docil; preoccupava-se de sua mãe. Tratava-a de uma maneira nova; ás vezes, varria o sobrado do quarto, fazia elle mesmo a sua cama, ao domingo; em geral, sem frases, sem ostentação, diligenciava auxiliar a mãe no trabalho caseiro. Ninguem fazia isto lá no bairro...
Um dia, trouxe comsigo um quadro que pendurou na parede e que representava trez personagens tendo impressas nas feições a resolução, a coragem.
--É o Christo ressuscitado dirigindo-se a Emmaús! explicou.
O quadro agradou a Pélagué; ella pensou porem:
--Respeitas o Christo e não vaes á egreja...
Depois vieram mais quadros adornar as paredes, o numero de livros augmentou na prateleira ali collocada por um marceneiro, companheiro de Pavel. O quarto ia tomando um aspecto agradavel.
O rapaz dizia a miudo «a sr.ᵃ» quando se dirigia á mãe, a quem tambem chamava «mamã». Era até mais prodigo em palavras, embora breves.
--Mãe, não fique em cuidado, peço-lhe; esta noite venho tarde.
E ao ouvil-o assim, ella sentia que se passava o que quer que fosse forte e serio, que lhe agradava.
Mas a sua anciedade augmentava dia a dia, e como não entrava em explicações com Pavel, adquiria o presentimento de alguma coisa extraordinaria que lhe apertava o coração. Pensava até:
--Os outros vivem como creaturas humanas, mas elle é como um frade... Tão grave!... Não é proprio da sua idade...
Perguntava a si mesma:
--Terá uma amiga?
Mas para ser amado pelas pequenas, é preciso dinheiro, e elle entregava-lhe quasi toda a feria.
Assim se passaram semanas, mezes, quasi dois annos, n’uma vida extravagante, cheia de pesares, de vagos receios cada vez maiores.
IV
Uma noite, á ceia, Pavel, tendo fechado as cortinas das janellas, assentou-se a um canto e pôz-se a lêr, depois de ter pendurado na parede, por cima da cabeça, uma lampada de metal.
A mãe tinha acabado o serviço da cozinha; approximou-se d’elle. Pavel ergueu a fronte e fixou-a com olhar interrogador.
--Não é nada... mesmo nada! disse ella rapidamente.
E afastou-se, pestanejando, a modos confuza. Mas depois de ter ficado immovel por um instante, no meio da cozinha, lavou as mãos e voltou, pensativa, preoccupada.
--Olha: queria perguntar-te o que andas sempre a lêr... declarou com simpleza.
Elle pôz o livro nos joelhos.
--Assenta-te, mamã.
Pélagué sentou-se pesadamente ao seu lado, apurou o ouvido, na espectativa de alguma coisa grave.
Sem olhar para ella, a meia voz, muito rudemente, Pavel falou.
--Leio livros prohibidos. Prohibem a sua leitura porque dizem a verdade da nossa vida, da vida do povo. São impressos ás escondidas, e se os encontrassem em minha casa, eu seria prezo... prezo por ter querido saber a verdade. Percebeste?
Ella sentiu de subito a respiração oppressa, e fixou o olhar esgazeado no filho, que lhe pareceu outro, um estranho. Tinha outra voz, mais grossa, mais cava, mais sonora. Com os dedos adelgaçados torcia as sedosas guias do bigode e para ella descia o olhar enigmatico. Pélagué teve medo, por elle.
--Para que é isso, Pavel?
Elle ergueu a cabeça, observou-a e respondeu tranquillamente:
--Quero saber a verdade.
A sua voz era em tom baixo, mas firme; brilhava-lhe no olhar um desejo obstinado. Pélagué comprehendeu que o filho se consagrára para sempre ao que quer que fôsse misterioso e terrivel. Tudo lhe parecera sempre inevitavel; estava acostumada a submetter-se sem reflectir; por isto começou de chorar baixinho, sem encontrar palavras no seu coração confrangido pela angustia e pela dôr.
--Não chores! disse-lhe Pavel, carinhosamente--e á mãe parecia que elle lhe dizia um adeus--reflecte! Que vida a nossa! Tu tens quarenta annos, e, francamente, podes dizer que tenhas vivido? O pae batia-te... compreendo agora que era o seu pezar da vida o que elle desabafava assim nas pancadas que te dava... o pezar da vida que o opprimia, e que elle nem mesmo sabia d’onde lhe vinha. Trabalhou durante trinta annos; começou quando o edificio da fabrica não tinha mais do que dois predios, e hoje tem sete! As fabricas desenvolvem-se e nós morremos trabalhando para ellas...
Pélagué ouvia-o, com receio e ao mesmo tempo com avidez. Os bellos olhos azues do rapaz luziam; com o peito apoiado á mesa, approximou-se da mãe, e tocando quasi no seu rosto banhado de lagrimas, dizia-lhe o seu primeiro discurso sobre a verdade, tal como elle a compreendia. Com a ingenuidade da juventude e com o ardor d’um collegial orgulhoso dos seus conhecimentos e sinceramente convicto de importancia d’elles, falava de tudo que lhe parecia tão evidente, falava tanto para se avaliar a si mesmo como para convencer sua mãe. Detinha-se por vezes quando lhe faltavam as palavras, e então via o rosto inquieto no qual brilhavam aquelles bons olhos velados pelas lagrimas, cheios de terror, de preplexidade. Apiedou-se de sua mãe e novamente falou d’ella.
--Que alegrias tens tu conhecido? perguntou. Que tiveste no passado que fosse bom?
Ella meneou a cabeça tristemente; invadia-a um sentimento novo, desconhecido ainda, doloroso e alegre ao mesmo tempo, que lhe acariciava deliciosamente o coração dolorido. Pela primeira vez, falavam-lhe d’ella e da sua propria existencia; vagos pensares, adormecidos havia muito, despertavam no seu ser, reanimavam os sentimentos extinctos com um vago descontentamento, as recordações, as saudades da sua mocidade longinqua.
Falou da sua vida, dos seus amigos, de todo o passado; mas, como os outros, não sabia mais do que lamentar-se; ninguem explicava o motivo da sua vida tão penosa e ardua. E agora, com o filho sentado a seu lado, tudo quanto os olhos de Pavel, o seu rosto, as suas palavras lhe diziam, tudo lhe falava captivantemente ao coração, enchendo-a de altivez: era o seu filho quem compreendera a vida da mãe e quem lhe apresentava a verdade sobre os soffrimentos, quem a lamentava.
Em geral, não ha quem lamente as mães.
Ella bem o sabia. Não compreendia que Pavel não falava d’ella só, mas tudo o que elle dissera da vida feminina era a verdade, verdade nua e crua. Eis porque lhe parecia que no seu peito se agitava um sem-numero de sensações que a aqueciam como desconhecida caricia.
--O que queres tu fazer? perguntou-lhe, interrompendo-a.
--Aprender e depois ensinar aos outros. Devemos aprender, sim, devemos saber, devemos compreender a razão porque a vida nos é tão penosa.
Era consolador para a mãe ver os olhos azues do seu filho, sempre serio e severo, brilharem ternamente, illuminando n’elle o que quer que fosse raro. Um sorriso de satisfação pairou nos labios de Pélagué, embora houvesse ainda lagrimas nas rugas das suas faces.
Um duplo sentimento dividiu o seu ser: era uma irmã do filho que queria a felicidade de todos os homens, que os lastimava a todos e que via a dôr da vida; e ao mesmo tempo não podia esquecer que elle era um rapaz, que não falava como os seus companheiros, que resolvera entrar sósinho em lucta contra a vida rotineira que ella e os outros tinham.
Sentiu desejos de dizer-lhe:
--Meu querido! o que podes tu fazer? Esmagar-te-ão. E morrerás!
Mas temeu deixar de admirar o rapaz que de subito se lhe revelara, tão intelligente, tão transformado...
Pavel via o sorriso nos labios da mãe, a attenção que ella lhe prestava, o amor expandindo-se-lhe no olhar; julgou ter-lhe feito compreender a verdade que elle tinha descoberto, e o juvenil orgulho da força da sua palavra exhaltava a sua mesma fé. Cheio d’excitação, falava sempre, ora rindo, ora franzindo o sobrolho; por momentos o odio transparecia na sua voz, e quando Pélagué lhe ouvia estes tons rudes, meneava timidamente a cabeça, perguntando baixinho:
--E tens a certeza de que isso é assim?
--Tenho! respondia elle com a voz forte e firme.
E falava-lhe dos que queriam o bem do povo, dos que semeavam a verdade e que por isto eram perseguidos como feras, mettidos em prisões, exilados para o degredo pelos inimigos da vida.
--Tenho visto d’estas creaturas! exclamava com ardor. São as melhores almas deste mundo!
Estes seres excitavam o terror da mãe, que tinha vontade de perguntar ainda:
--E tens a certeza de que isso é assim?
Mas não se atrevia, preferindo ouvir exhaltar creaturas que ella não compreendia e que tinham ensinado ao seu filho uma maneira de pensar e de falar tão perigosa para elle.
--Pouco falta para nascer o dia. Se tu te deitasses, se dormisses... É preciso ires para o trabalho ámanhã.
--Vou deitar-me, vou, concordou.
E abeirando-se d’ella, perguntou-lhe:
--Compreendeste-me?
--Sim! suspirou a mãe.
De novo lhe rebentáram as lagrimas, e acrescentou entre soluços:
--Morrerás!...
Elle ergueu-se e entrou de passear pelo quarto.
--Bem! Sabes agora o que faço, aonde vou! Disse-te tudo! Supplico-te, mãe, que se me amas, não me detenhas!
--Meu querido filho! exclamou ella. Teria sido melhor nada me haveres dito!
Pavel pegou-lhe na mão, apertando-a fortemente entre as suas.
Ella ficára impressionada por aquella palavra «mãe» pronunciada com ardor juvenil, e por aquelle aperto de mão tão novo e raro.
--Nada farei para te contrariar, disse em tom saccudido. Recommendo-te apenas: toma cuidado! toma cuidado!
E sem bem saber em que elle devia tomar cuidado, accrescentou tristemente:
--Estás cada vez mais magro.
E envolvendo n’um olhar caricioso o corpo robusto e harmonico do filho, disse em voz baixa:
--Que Deus esteja comtigo! Vive como quizeres, não te impedirei! Só te peço uma coisa: não fales levianamente. É conveniente desconfiar dos mais, que mutuamente se odeiam! Vivem d’avidez, vivem d’inveja! Todos se sentem felizes quando fazem mal. Quando quizeres accusal-os, julgal-os, odiar-te-ão, levar-te-ão á morte!
De pé, no limiar da porta, Pavel ouvia estas palavras dolorosas, ás quaes respondeu sorrindo:
--O proximo é mao, sim. Mas quando aprendi que havia na terra uma verdade, o proximo pareceu-me melhor.
Sorriu ainda e continuou:
--Eu mesmo nem sei como isto me veio. Na minha infancia, tinha medo de todos e de tudo... Quando cresci, comecei a odiar, a uns pela sua covardia; a outros... nem sei porquê. Mas agora já não acontece o mesmo: creio que tenho piedade d’elles. Não comprehendo como, mas o meu coração tornou-se mais terno quando soube que havia uma verdade para os homens e que elles não são todos culpados da ignominia da sua vida.
Calou-se por um instante, como para escutar o que quer que fosse dentro d’elle, e depois concluiu pensativo:
--É assim que a verdade transpira!
Ella, tendo-lhe lançado um olhar rapido, murmurou:
--Transformaste-te d’uma maneira perigosa! Meu Deus!
Quando elle adormeceu, Pélagué levantou-se cautelosamente e approximou-se-lhe do leito. O rosto moreno, de feições severas e obstinadas desenhava-se distinctamente sobre o travesseiro branco. Com as mãos juntas no peito, com os pés descalços, em camisa, a mãe permanecia immovel; os seus labios moviam-se em silencio, e de seus olhos desciam lentamente fartas e tôrvas lagrimas.
V
A vida recomeçou para elles; novamente se encontravam proximos e afastados.
Uma vez, n’um dia santo, no meio da semana, Pavel disse á mãe, quando ia sahir:
--No sabbado ha de vir gente cá a casa.
--Que gente?
--Gente d’aqui... e gente da cidade.
--Da cidade...? repetiu a mãe, meneando a cabeça. E desatou a chorar.
--Porque choras, mamã?! exclamou Pavel contrariado. Porquê?
Respondeu com froixa voz, limpando as lagrimas:
--Não sei... Porque sim.
Elle deu alguns passos pelo quarto, e parando deante d’ella:
--Tens medo?
--Tenho! confessou. Essa gente da cidade... sabe-se lá quem é!
Inclinou-se para ella e disse com a voz irritada, como o pae:
--É por causa d’esse medo que todos nós morremos! E os que mandam em nós aproveitam-se d’esse medo e ainda mais nos amedrontam. Comprehenda de uma vez para sempre: emquanto houver medo, apodreceremos como as bétulas nos pantanos.
Afastou-se, exclamando:
--Deixal-o! Nós nos reuniremos cá em casa...
A mãe atalhou, chorando:
--Não me queiras mal! Como não hei de eu ter medo? Passei entre sustos toda a minha vida... tenho a alma cheia d’elles.
Pavel retorquiu a meia voz, mas brandamente:
--Desculpe. Não tenho outro meio ao meu alcance. E sahiu.
Durante trez dias, Pélagué tremia: o coração parecia-lhe parar quando pensava em que gente extranha entraria em sua casa. Não podia fantasial-os, mas afiguravam se-lhe terriveis. Eram elles quem apontaram ao seu filho o caminho que elle seguia agora...
No sabbado á tarde, Pavel voltou da fabrica, lavou-se, mudou de fato e saíu, dizendo sem olhar para a mãe:
--Se alguem vier, dize que não me demoro, que me esperem. E não tenhas medo, se fazes favor... São pessoas como as outras.
Ella deixou-se cahir sobre o banco. O filho contemplou-a franzindo o sobrolho, e propoz--Talvez seja melhor saíres; an?
Ella offendeu-se. Disse que não com a cabeça, murmurando:
--Seria o mesmo. Para que sairia eu?
Estava-se no fim de novembro. Durante o dia tinha caído na terra gelada um nevão fino e secco, que Pavel triturava sob seus passos. Ás vidraças apegavam-se espessas trevas. A mãe, desalentada, ia esperando, com os olhos fixos na porta.
Parecia-lhe que, na obscuridade, creaturas silenciosas, de trajos não vulgares, se dirigiam para a casa, vindos de pontos varios, que se adiantavam occultando-se, corcovados, e olhando para um e outro lado. Junto da porta, encostado á parede, havia já alguem.
Ouviu-se um assobio que vibrou no silencio como um fio, melodioso e triste; errava no deserto da noite, approximava-se... De subito, calou-se mesmo junto á janella, como se tivesse penetrado atravez da parede.
Soou o ruido de passos; Pélagué ergueu-se trémula, com os olhos dilatados.
Abriu-se a porta. Appareceu primeiro uma cabeçôrra com um boné de pelles, depois um corpo acurvado que se esgueirou lentamente, que se endireitou, que levantou o braço direito vagarosamente, arrancando do peito em suspiro ruidoso:
--Boa noite.
Pélagué cumprimentou em silencio.
--O Pavel ainda não veio?
O homem tirou com vagar um casaco de pelles, levantou um pé, saccudiu com o boné a neve que lhe cobria as botas, atirou depois com o boné para um canto e entrou no quarto bamboleando-se nas suas altas pernas. Approximou-se d’uma cadeira, examinou-a como, para certificar-se de que era sólida, assentou-se por fim e pôz-se a bocejar, tapando a bôca com a mão. Tinha a cabeça redonda e o cabello cortado á escovinha, a barba feita, e grosso bigode de guias compridas e pendentes. Depois de ter examinado o quarto com os grandes olhos bojudos e acinzentados, cruzou as pernas e perguntou balouçando-se na cadeira:
--O casebre pertence-lhes ou é alugado?
Pélagué, sentada em frente delle, respondeu:
--Alugamol-o.
--Não é grande coisa! observou o homem.
--O Pavel não se demora; queira esperar, disse froixamente.
--É o que estou fazendo! replicou tranquillamente.
A sua tranquillidade, a sua voz suave, a simpleza da sua fisionomia deram coragem a Pélagué. Elle contemplava-a com olhar franco, com um ar bondoso; no fundo dos seus olhos transparentes luzia um brilho alegre, e havia um tanto de divertido e de simpatico n’aquella creatura angulosa e acurvada como n’um poleiro feito das proprias pernas. Trazia vestidas calças pretas, cujas extremidades estavam mettidas quasi dentro das botas; em vez de casaco, bluza azul. Pélagué tinha vontade de perguntar-lhe quem elle era, d’onde vinha, se conhecia o seu filho de ha muito tempo, quando, de chofre, elle moveu-se e perguntou:
--Ó tiasinha, quem foi que lhe abriu essa brécha na testa?
Falava meigamente e sorria com o olhar. Mas a pergunta irritou-a. Mordeu os labios, e apóz curto silencio, perguntou com fria delicadeza:
--E o que tem o tiosinho com isso?
Elle voltou-se de todo.
--Ah! não se zangue. Se lhe fiz esta pergunta, foi porque a minha mãe adoptiva tinha tambem uma brécha na testa, exactamente como a sr.ᵃ. Uma sova que lhe deu o marido, com uma fôrma de botas. Era sapateiro. Ella era lavadeira. Tinha-me adoptado já, quando, por sua desgraça, encontrou aquelle bêbedo não sei onde. O patife batia-lhe; digo-lhe só isto! Eu tinha tanto medo d’elle, que a pelle estalava-me.
Pélagué sentiu-se desarmada perante aquella franqueza, e pensou de si para si que talvez Pavel não ficasse contente, se ella fosse menos delicada para com aquelle original. Por isso disse com um sorriso envergonhado:
--Eu não me zango... O sr. é que me deixou surpreza com a pergunta. Foi um presente do meu marido, que Deus tenha! O sr. não é tartaro?
O homem mexeu as pernas, e teve um sorriso tão aberto, que até as orelhas pareciam chegar-lhe á nuca. Depois disse gravemente:
--Ainda não... ainda não sou tartaro.
--É que não fala exactamente como um russo! explicou ella sorrindo, porque lhe compreendera o gracejo.
--A minha lingua vale mais do que o russo! exclamou com um meneio importante. Sou russo-menor, da cidade de Kanief.
--E ha muito tempo que está por cá?
--Vivi na cidade, perto de um anno, e ha um mez que vim aqui para a fabrica. Travei conhecimento com excellentes pessôas... o seu filho... e mais alguns... não muitos. Quero fixar-me por cá, accrescentou, torcendo o bigode.
Estava agradando a Pélagué que, para agradecer o elogio feito ao filho, lhe perguntou:
--Quer chá?
--O quê? sósinho? observou, encolhendo os hombros. Faça o offerecimento quando estivermos todos juntos.
Ouviram-se passos outra vez, a porta abriu-se de chofre; Pélagué levantou-se. Com grande espanto seu, quem entrou na cosinha foi uma rapariga, de vestido leve e pobre, baixa, com cara de camponeza. A recemchegada, cujos cabellos eram loiros e espessos, perguntou:
--Ainda venho a tempo?
--Ah! vem! respondeu o russo-menor, que permanecia no quarto. Veio a pé?
--Podera! A sr.ᵃ é a mãe do Pavel Mikhaílovitch? Bôa noite! Eu chamo-me Natacha.
--E o seu pae? perguntou Pélagué.
--Vassilievna. E a sr.ᵃ?
--Pélagué Milovna.
--Bello! Estamos apresentados!
--Sim, estamos... concordou Pélagué, com um ligeiro suspiro.
E sorrindo observou a rapariga.
O russo-menor perguntou:
--Faz frio?
--Se faz! e muito, lá pelos campos; uma ventania!...
Tinha a voz pastosa, clara; a bôca era pequena e redonda; e toda ella era gorducha e cheia de frescura. Depois de tirar a capa, esfregou energicamente as faces coradas com as mãosinhas avermelhadas pelo frio; e, passeando pelo quarto com passos rapidos, batia no sobrado com os tacões.
--Não tem galochas de borracha! pensou Pélagué.
--Que frio! E arrastando muito as palavras: Estou entorpecida! gelada!
--Vou já, já, preparar o samovar! disse rapidamente a dona da casa.
E saíu para a cozinha.
Dir-se-ia que conhecia aquella rapariga de ha muito tempo e que a estimava como sua filha. Estava satisfeita por vêl-a; vindo-lhe á ideia os olhos pardos e piscos do russo-menor, sorriu satisfeita tambem; prestou attenção á conversa.
--Porque está triste, André? perguntou a rapariga.
--Porque sim! A viuva tem um olhar bondoso e lembra-me que talvez seja como o da minha mãe... Penso muito na minha mãe, sabe? Parece-me sempre que ella vive.
--Ouvi-lhe dizer que ella tinha morrido...
--Não! Falava da minha mãe adoptiva, e agora falo da minha verdadeira mãe. Imagino que ella pede esmola, algures, em Kief e que bebe aguardente...
--Porquê?
--Sei lá! E que quando está embriagada, os policias a esbofeteiam.
--Pobre homem! pensou Pélagué, suspirando.
Natacha passou a falar rapidamente, a meia-voz. Depois, tornou a ouvir-se a voz sonora do russo-menor:
--É ainda nova! não tem experiencia! Todos teem mãe, e apesar d’isso quantas creaturas más!... É difficil dar á luz, mas é muito mais difficil ensinar o bem ao homem.
--Isso! isso! exclamou lá de dentro Pélagué.
Desejava poder responder que ella, por exemplo, se consideraria feliz ensinando o bem a seu filho, mas que não sabia d’essas coisas; a porta porem abriu-se vagarosamente dando entrada a Vessoftchikof, filho do velho ladrão Danilo, o misantropo celebre em todo o bairro. Mantinha-se sempre afastado dos outros, que por este facto chasqueavam d’elle. Pélagué perguntou admirada:
--O que é que tu queres?
Fitou n’ella os olhos pardos, limpou com a palma da mão a cara bexigosa e de maçãs salientes, e, sem responder ao cumprimento de Pélagué, perguntou em tom cavo.
--O Pavel está em casa?
--Não.
Relanceou a vista pelo quarto e entrou, dizendo:
--Boa noite, companheiros.
--Tambem este!... Será possivel? pensou ella hostilmente.
E mais se admirou vendo Natacha estender a mão ao recemchegado com modo alegre e amigavel.
Vieram em seguida dois rapazes, duas creanças quasi. A dona da casa conhecia um d’elles: era o sobrinho de Fédor Sizof, velho operario da fabrica; tinha feições d’arguto, fronte elevada e cabellos encaracolados. O outro, de cabello corredio, era-lhe desconhecido, mas não a assustava, parecia modesto.
Afinal Pavel chegou, acompanhado de dois amigos, que ella reconheceu logo: eram dois operarios tambem da fabrica.
Amavelmente, o filho disse-lhe:
--Preparaste o chá? obrigado!
--Queres que vá comprar aguardente? perguntou, não sabendo como exprimir-lhe o seu reconhecimento pelo que quer que fosse que ella ainda não compreendia.
--Não. Não é preciso! respondeu, tirando a capa, e sorrindo bondosamente para a mãe.
De subito, veio-lhe á idéa de que o filho tinha exagerado propositadamente o perigo da reunião para brincar com ella.
--É então esta a tal gente perigosa?
--Esta mesma! disse Pavel entrando no quarto.
--Ah! e seguiu-o com o olhar caricioso.
Mas, no seu intimo:
--E elle é a mesma creança!...
VI
Quando a agua do samovar entrou em ebolição levou-o para o quarto. As visitas estavam sentadas em de redor da meza; Natacha tinha nas mãos um livro e ficára n’uma quina da mesa sob a luz da candeia.
--Para compreender por que as creaturas vivem tão mal... dizia Natacha
--... e porque são tão más... interveio o russo-menor.
--... é preciso ver primeiro como começaram a viver...
--Então, meus filhos, então!... murmurou Pélagué, preparando o chá.
Calaram-se todos.