Part 15
--Porque dizes isso? perguntou a mãe, angustiada.
--Porque assim é preciso! Pois haviam os teus cabellos de embranquecer em vão e o teu coração de soffrer inutilmente?... Tu ainda não morreste, não é verdade?... Trouxeste livros?
A mãe lançou-lhe furtivo olhar e confirmou apóz um silencio:
--Trago.
--Ora ainda bem! disse Rybine, dando uma palmada na mesa. Percebi-o logo mal te vi. E para que terias tu vindo, a não ser para isso? Vejam lá vocês, o filho desappareceu-nos das fileiras, e ahi temos a mãe no logar d’elle!
Ergueu-se e poz-se a gritar com voz cava e gestos ameaçadores:
--Essa canalha não sabe o que anda a semear por ahi, ás cegas! Hão de ver, quando nós estivermos mais fortes, quando entrarmos a ceifar n’essas hervas malditas! Hão de ver!
A estas palavras, toda se assustou Pélagué; olhou para Rybine, achou-o muito mudado, muito magro; já não tinha a barba cuidada como d’antes, mas emaranhada; distinguiam-se-lhe perfeitamente as saliencias dos malares. No branco azulado dos olhos corriam-lhe laivos sanguineos, como de quem anda mal dormido. O nariz afilára-se-lhe, mais carlaginoso e adunco, qual bico de ave de rapina. Pelo cós da camisa, desabotoado, d’antes sempre sujo de tintas e alcatrão, viam-se-lhe as claviculas mirradas e o denso velo do peito. Toda a pessoa d’este homem respirava alguma coisa mais soturna e melancólica do que o fôra até então. O brilho dos exaltados olhos illuminava-lhe o rosto sombreado por uma expressão de soffrimento e de rancor, que relampejava em purpureos clarões.
--No outro dia, continuou elle, o governador do districto manda-me chamar e pergunta-me:
«--Que fôste tu dizer ao padre, grande garoto?--E porque é que eu sou garoto? Ganho o meu sustento com o meu trabalho, não faço mal a ninguem,» respondi-lhe eu. Pôz-se logo a berrar e deu-me um murro em cheio na cara... e mandou-me para o calaboiço por trez dias. Ah! assim é que vocês sabem falar ao povo? Está bem! Mas não esperem pelo perdão, excommungados! Se não fôr eu, outro ha de lavar a injuria, em vocês ou nos filhos de vocês... lembrem-se bem! Andaram a lavrar no peito do povo com as garras de ferro da avidez e da cubiça e n’elle semearam a maldade... Pois seremos sem piedade, malditos! Ahi tem!
Espumava de furor; na voz tinha impetuosidades que amedrontavam Pélagué.
--E afinal que tinha eu dito ao padre? proseguiu mais calmo. Á saída d’uma reunião, estava elle na rua n’um grupo de camponeos e dizia-lhes que os homens eram um rebanho e que precisavam sempre d’um pastor... ahi está! E eu disse-lhe por brincadeira: «Se fizessem a raposa chefe da floresta, pennas havia de haver muitas, mas passaros, nem um!» O padre olhou-me de revez e entrou a dizer que o povo devia soffrer, resignar-se e orar a Deus com mais frequencia, para que elle lhe desse forças para tudo supportar. E eu respondi-lhe: «O povo reza muito; provavelmente Deus é que não tem tempo para escutal-o. Se nem o ouve!» Ora ahi está! Elle então perguntou-me quaes eram as minhas orações. E eu respondi-lhe: «Não aprendi senão uma só na minha vida; é a do povo inteiro:» Deus, ensina-me a trabalhar para os nossos senhores, a comer pedras, a escarrar sangue! O padre não me deixou acabar... A senhora é da nobreza, ao que vejo? perguntou bruscamente Rybine, interrompendo a narrativa e voltando-se para Sophia.
--Porque julga isso? disse ella com um sobresalto de surpreza.
--Ora, porquê... disse Rybine. É sorte sua, nasceu assim, ahi está! A senhora imagina que póde disfarçar o seu peccado de fidalguia só porque tapou a cabeça com um lenço de chita? O padre conhece-se bem, mesmo quando não traz corôa... Agora acaba a senhora de pôr o cotovello na mesa, que estava molhada e a senhora fez uma carêta... E olhe que tem as costas muito aprumadas para uma operaria...
Receando que elle offendesse Sofia com aquella maneira de falar, aquelles ditos e aquella graça pesada, Pélagué interveio com viveza e severamente:
--É minha amiga esta senhora. É uma excellente mulher... Foi a trabalhar por nós e pela nossa causa que fez os cabellos brancos... Não sejas tão desabrido com ella...
Rybine soltou um suspiro mal contido.
--Então eu disse-lhe alguma coisa injuriosa?
Sofia olhou para elle e perguntou seccamente:
--Tinha alguma coisa a communicar-me?
--Eu? Ah, sim! Ahi tem: nós temos cá um homem que chegou ha dias; é primo do Jacob, está doente, está tisico, mas é esperto e percebe muita coisa. Posso mandar chamal-o?
--Porque não? retorquiu Sofia.
Rybine fitou-a franzindo as palpebras e ordenou em voz baixa:
--Jéfim, vae a casa do homem... diz-lhe que venha cá á noite.
Jéfim dirigiu-se á choupana, poz o boné e sem uma palavra, sem mesmo olhar para quem estava, sumiu-se pelo bosque, a passo socegado. Rybine meneou a cabeça e, apontando para elle, disse surdamente:
--Soffre muito!... É teimoso... Dentro em pouco vae ser soldado... E o Jacob tambem... O Jacob diz que não póde, que não vae para o regimento. O Jéfim tambem não póde, mas diz que quer ir, custe o que custar... Teve uma idéa... Lembrou-se que poderá levar aos soldados pruridos de liberdade... Eu cá, a minha opinião é que não se póde arrombar uma parede dando-lhe com a cabeça. E elles, mettem-lhes uma espingarda na mão e abalam por ahi fóra. Para onde vão? Não percebem que marcham contra si mesmos... Anda a soffrer, o Jéfim. E o Ignaty ainda mais lhe revolve o punhal na ferida. Parece-me inutil...
--Qual historia! replicou Ignaty com indignação, sem fitar o seu contendor. Lá no regimento se encarregam de o converter, e ha de acabar por fazer fogo, como os outros!
--Não, não creio! replicou o outro, pensativo. Mas, seja como fôr, mais vale evitar isso... A Russia é grande... Como podem elles descobrir um homem? É preciso arranjar um passaporte e fugir de aldeia em aldeia.
--São essas as minhas tenções! declarou Ignaty, batendo na perna com uma acha. Uma vez que está resolvido combater-se, é preciso marchar sem hesitação.
A conversa cessou. Voltavam pelo ar, atarefadas, as abelhas e as vespas, esmaltando o silencio com os seus zunidos. Os passarinhos chilreavam; de longe, vinha uma canção n’uma toada que vagueava por sobre os campos. Depois de curto silencio, proseguiu Rybine:
--É preciso trabalhar, companheiros... Ou talvez prefiram descançar... Lá dentro da choupana ha camas a lastro. Ó Jacob, vae-lhes arranjar folhas bem sêccas... E tu, dá cá os livros, tiasinha! Onde estão?
Sofia e Pélagué abriram os alforges. Rybine inclinou-se a espreitar e disse, satisfeito:
--Ahi está... Mas que grande quantidade trouxeram! Ora venham vêr! Ha muito tempo que trabalha n’este negocio, a senhora? acrescentou, falando com Sofia.
--Ha doze annos.
--Então, como se chama?
--Chamo-me Anna Ivanovna. Porquê?
--Cá por coisas. E já esteve presa provavelmente?
--Já estive.
--Bem vês! disse Pélagué, baixo e em tom de censura. E tu que a trataste mal...
Ficou calado um momento. Depois, tomando um pacote de livros, respondeu:
--Não se zangue! Campónio e fidalgo são como o alcatrão e a agua, não ha maneira de os misturar, não se dão...
--Não sou fidalga; sou uma creatura que pensa, que soffre e geme! contestou Sofia.
--É possivel! disse Rybine. Vou esconder tudo isto.
Ignaty e Jacob approximaram-se d’elle, de mãos estendidas.
--Dá-nos alguns! disse Ignaty.
--São todos iguaes? perguntou Rybine a Sofia.
--Nem todos. Vem tambem um jornal...
--Ah!
Os tres homens precipitaram-se para a cabana.
--É exaltado, este rapaz! observou Pélagué, baixando a voz e seguindo-os com olhar pensativo.
--É verdade, disse Sofia no mesmo tom. Nunca vi uma cara como aquella... Dir-se-ia um martyr heroico!... Vamos lá tambem; estou curiosa por ver o effeito do jornal.
--Mas não se zangue com elle... supplicou brandamente a outra.
--Que bom coração é o seu, Pélagué!
Ao ver surgir as duas mulheres á porta da choupana, Ignaty levantou a cabeça e lançou-lhes rapido olhar; depois, enterrando os dedos pelos cabellos annelados, curvou-se de novo sobre o jornal, que desdobrára nos joelhos. Rybine, de pé, apresentava o periodico á luz d’uma restea, que penetrava na choupana por uma greta do tecto; ia deslocando pouco a pouco o jornal sob o feixe de luz, á medida que ia lendo e lia por bocca pequena. Jacob, ajoelhado, firmava o peito de encontro á borda d’uma cama e lia tambem.
Pélagué viu que a Sofia não passava despercebido o enthusiasmo dos trez por aquellas palavras de verdade. O rosto illuminou-se-lhe n’um sorriso. Devagarinho, foi para um canto da choça e sentou-se. Sofia, em silencio, passou-lhe o braço pelos hombros.
--Tio Mikhaíl! Olhe que nos insultam, n’este papel, a nós, camponezes! proferiu Jacob a meia voz, sem se mexer. Rybine voltou-se para elle e disse, risonho:
--É porque nos estimam. Aquelles que nos amam podem dizer-nos tudo o que quizerem sem que nos irritemos.
Ignaty respirou ruidosamente, ergueu a cabeça e poz-se a rir; em seguida, fechou os olhos, dizendo:
--Está aqui escripto: «O homem dos campos deixou de ser uma creatura humana.» E é bem verdade; já o não é!
Perpassou pelo seu rosto ingenuo e franco uma expressão de aviltamento.
--Este sabio das duzias! continuou, referindo-se ao articulista. Eu queria vêr-te na minha pelle! Fizesses-te tu fino! Então é que se havia de vêr o que tu eras!
--Vou descansar um bocado, disse Pélagué a Sofia. Sinto-me um pouco fatigada e este cheiro do alcatrão faz-me dôres de cabeça. Vem?
--Ainda não.
Pélagué estendeu-se na cama e d’ahi a pouco dormitava. Sofia, sentada á cabeceira, continuava observando os leitores, ao passo que ia enxotando com sollicitude os zangãos e as vespas que vinham adejar em volta do rosto da companheira. Pélagué, com os olhos meio cerrados, percebia-o e taes attenções impressionavam-na.
Rybine approximou-se, perguntou:
--Está a dormir?
--Está.
Elle calou-se um pedaço, attentou no sereno rosto da anciã e com um suspiro proseguiu baixinho:
--É talvez esta a primeira que tenha seguido o filho pelo mesmo caminho!... a primeira!
--Vamo-nos embora, não a incommodemos, propoz Sofia.
--Temos de ir trabalhar. Eu preferia ficar a conversar comsigo, mas é forçoso deixar isso para a noite. Vamos, camaradas!
Saíram os trez homens, deixando Sofia na choupana. Pélagué pensava:
--Deus seja louvado! fizeram as pazes!... Entendem-se um com o outro!...
E adormeceu socegadamente, aspirando o ar perfumado da floresta.
VI
Á noitinha, voltaram os quatro operarios, satisfeitos por verem terminado o seu dia. Ao ruido das vozes, Pélagué, accordou, veio á porta da cabana, risonha, bocejando.
--Vocês a trabalharem e eu a dormir como uma fidalga! disse, fitando-os affectuosamente a todos.
--Não faz mal, nós perdoamos-te, disse Rybine.
Mostrava-se mais socegado do que ao jantar; o cansaço dissipára o seu excesso de agitação.
--Ignaty! ordenou. Arranja a ceia. Cada um trata da casa, por sua vez. Hoje é ao Ignaty que compete dar-nos de comer e de beber... Ora ahi está!
--De bom grado cedia hoje a minha vez a outro qualquer, declarou Ignaty. E, emquanto procurava distinguir a conversa, começou a apanhar aparas, afim de accender o lume.
--As visitas são sempre interessantes para toda a gente! confirmou Jéfim, sentando-se ao lado de Sofia.
--Eu te ajudo, Ignaty! disse Jacob.
Penetrou na choça e de lá trouxe um pão redondo. Partiu-o em fatias.
--Schiu! murmurou Jéfim, oiço tossir...
Rybine apurou o ouvido e disse:
--É elle que chega.
E, voltado para Sofia, explicou:
--Vae ouvir uma testemunha. A minha vontade era poder leval-o a essas cidades, pôl-o em exposição por essas praças, e o povo que fôsse ouvil-o... Diz sempre o mesmo, mas é digno de ser ouvido!...
Silencio e escuridão tornavam-se mais profundos; as vozes ecoavam com mais suavidade. Sofia e Pélagué seguiam com o olhar os camponezes a moverem-se pesadamente, mas de vagar, com singular prudencia.
Do bosque surgiu um homem corcovado, de alta estatura, caminhando apoiado com todo o seu peso a uma bengala. Ouvia-se-lhe o ruido da respiração rouca.
--Ahi vem o Savely! exclamou Jacob.
--Aqui me têm! disse o homem, parando, saccudido por um accesso de tosse.
Vestia um sobretudo usado que lhe cahia até aos pés; de sob o chapeu redondo e muito velho, saíam-lhe em madeixas ténues uns cabellos amarellentos e asperos. Cobria-lhe o rosto ossudo e pallido uma barba loira; a bocca aberta, os olhos com um brilho de febre, nas orbitas profundamente cavadas, como no fundo de sombrias cavernas.
Apresentado a Sofia, perguntou:
--Segundo parece, trouxe livros para o povo lêr?
--Sim, senhor.
--Agradeço-lh’o... pelo povo. O povo não pode ainda compreender o livro da verdade... ainda não póde agradecer-lhe como merece; mas eu que o compreendi já, agradeço-lhe em nome do povo.
Respirava com avidez, absorvendo o ar em pequenas golfadas repetidas. Falava a espaços.
Os dedos descarnados das diafanas mãos, perpassava-os pelo peito, tentando abotoar o sobretudo.
--Póde ser-lhe doentio, para si, este passeio tão tarde, pela floresta... Ha muita humidade e suffoca-se, ali! fez notar Sofia.
--Para mim já nada ha salubre ou doentio! respondeu, offegante. Só a morte será bemvinda.
Era doloroso ouvir falar aquelle homem, tanto mais que toda a sua pessoa provocava dó, uma compaixão infinita mas improficua. Agachou-se sobre uma barrica, dobrando os joelhos com precaução, como se receasse que se quebrassem; depois, enxugou a fronte, coberta de suor. Tinha os cabellos seccos e sem viço.
O lume começava a atear-se. Ao clarão das chammas tudo se deslocou; as sombras, lambidas pelas labaredas, fugiam assustadas pela floresta. Por cima do brazeiro appareceu por instantes a cara redonda d’Ignaty, a soprar. Depois, apagado o lume, ficou persistente o cheiro do fumo, e o silencio e as trevas apoderaram-se de novo da clareira, como se viessem apurar o ouvido para o falar rouco do doente.
--Mas ainda posso ser util ao povo... Sim, como o testemunho d’um enorme crime! Olhem para mim! Tenho vinte e oito annos e ando a morrer... Ha dez annos, levantava nos hombros, sem me custar, até duzentos kilos... Pensava eu então que com uma saude d’aquellas, havia de levar setenta annos para chegar á cova, direito e sem tropeçar... E afinal vivi dez... e não posso ir mais longe.
--Ahi têm a canção d’este homem! disse Rybine com voz rancorosa.
Reaccendeu-se mais viva a fogueira; de novo as sombras debandaram, para se sumirem nas chammas, agitando-se em torno do brazeiro n’uma dansa silenciosa e hostil. Sob a mordedura do lume, os velhos troncos estralejavam e gemiam. A folhagem susurrava em segredo, agitada por uma corrente d’ar quente. Vivas e folgazãs, as linguas de fogo purpureas e doiradas brincavam, abraçavam-se, erguiam-se, despedindo faíscas. Voou uma folha em braza. No ceu, as estrellas sorriam para as scentelhas, attraíndo-as a si.
--Não é só minha esta canção; ha milhares de creaturas que tambem a cantam, mas só para si! E cantam-na só para si porque não compreendem que as suas miseraveis existencias são uma lição salutar para o povo... Quantos seres minados ou estropiados pelo trabalho e pela cadeia, não morrem para ahi de fome, sem um queixume!... É preciso gritar bem alto, companheiros, é preciso gritar!
E Savely entrou a tossir, todo curvado e tremulo.
Jacob poz na mesa uma caneca de _koass_[2] e atirou para o lado um molho de cebolas, e disse ao enfermo:
--Anda, Savely, trouxe leite para ti.
O outro abanou negativamente a cabeça; mas Jacob agarrou-o por debaixo dos braços e fêl-o sentar á mesa.
--Oiçam, disse Sofia a Rybine, em voz baixa e em tom de censura, para que o obrigaram a vir? Póde morrer d’um momento para o outro.
--É certo, replicou Rybine. Mas mais vale morrer rodeado de amigos; ser-lhe-á menos doloroso do que na solidão. Tem soffrido muito na sua vida; pois que soffra ainda mais um pouco para servir de aviso aos homens... Que lhe póde fazer isso? Ali está!
--Chega a parecer que se desinteressa d’elle com horror pelos seus soffrimentos, exclamou Sofia.
Rybine lançou-lhe rapido olhar e respondeu com modos sombrios:
--Só os fidalgos é que se recreiam com o espectaculo do Christo a gemer na sua cruz; mas nós outros, nós queremos estudar os homens ao vivo e gostavamos que a senhora tambem apprendesse a conhecel-os...
O enfermo retomou a palavra:
--Destroe-se um homem com o trabalho, dá-se cabo d’elle com a prisão... e porquê? O nosso patrão--era na fabrica Nefédof que eu trabalhava á doida--o nosso patrão deu a uma cançonetista uma grande bacia de mãos e mais uma bacia de cama tudo de oiro... E foi em tal vaso que ficaram as nossas forças, as nossas vidas... as minhas e as de milhares d’outros. Ahi têem para que ellas serviram!
--O homem foi creado á imagem e semelhança de Deus! disse Jéfim, sorrindo--e ahi está o emprego que lhe dão... não vae mal!
--É necessario gritar isso! exclamou Rybine com violenta palmada na mesa.
--Não devemos supportal-o! accrescentou Jacob mais baixo.
Ignaty limitou-se a sorrir.
Notava a velha que os trez operarios falavam pouco, mas escutavam com uma attenção insaciavel d’almas sequiosas. De cada vez que Rybine abria a bocca, fitavam-no, copiavam-lhe os menores movimentos. As frases de Savely, porém, provocavam-lhes singulares tregeitos de enfado. Dir-se-ia não sentirem dó algum do enfermo.
E Pélagué inclinando-se ao ouvido de Sofia, perguntou baixinho:
--É certo o que elle conta?
Sofia respondeu em voz muito alta:
--É certo, sim senhora! Os jornaes falaram do caso; foi em Moscou que isso se deu.
--E esse homem não foi castigado! disse Rybine com ódio. Devia ter sido punido; precisava que o levassem a uma praça publica e ali cortal-o aos bocados, atirando aos caes essa carne immunda! Grandes castigos se hão de vêr, quando o povo se levantar!
--Que frio que faz! disse o tisico.
Ajudou-o Jacob a levantar e a chegar-se para o lume.
A fogueira ardia em clarão uniforme e vivo. Sombras imprecisas erravam em torno, contemplando surprezas o brinquedo das labaredas. Savely, sentou-se n’um cepo e offereceu ao calor as mãos seccas e transparentes. Rybine designou-o com um gesto do mento, e disse para Sofia:
--Sabe mais do que um livro! Eu é que o conheço... Quando uma máquina arranca um braço ou mata um homem, compreende-se; é sempre do homem a culpa. Mas sugar o sangue d’um homem e atira-lo depois á margem como uma coisa pôdre, isso é que não se explica.
--Sim... pronunciou com lentidão Ignaty, não se explica... Um chefe de districto conheci eu, que obrigava a gente do campo a cumprimentar-lhe o cavallo, quando o levavam a passeio pela aldeia, e que punha a ferros quem desobedecesse. Para que lhe servia aquillo?... É o que tambem não se explica!
Depois de comerem, fizeram roda junto á fogueira. Diante d’elles o lume ardia, devorando rapidamente a lenha; por detraz, ceu e floresta envolviam-se na treva. O estropiado fixava no lume os olhos esgazeados, tossia sem descanso, com grandes arrepios. Parecia que do peito lhe saíam pedaços da propria vida, solertes em abandonar aquelle corpo esqualido. Dansavam-lhe no rosto reflexos do fogo sem que lhe colorissem a pelle fenecida. Só os olhos scintillavam n’uma coruscação azulada, bruxuleante.
--Talvez preferisses abrigar-te na cabana, an, Savely? lembrou Jacob, inclinando-se-lhe no hombro.
--Para quê? respondeu esforçadamente. Quero ficar aqui. Já não tenho muito tempo a viver entre os homens... Não, não tenho para muito tempo.
Vagueiou o olhar em volta, ficou um bocado calado e proseguiu, com um sorriso palido:
--Sinto-me bem entre vocês. Estou-os vendo e estou a pensar que talvez sejam vocês que hão de vingar todos os que foram maltratados... o povo inteiro!
Ninguem lhe respondeu. E d’ahi a pouco, a cabeça pendia-lhe para o peito e entrou a dormitar. Rybine considerou-o demoradamente e disse meio em segredo:
--É sempre assim quando vem visitar-nos; senta-se para ahi e conta sempre a mesma coisa.
--Aborrece ouvil-o repetir-se! murmurou Ignaty. Bastava ouvir uma vez essa historia para não a esquecer e elle sempre a moêl-a!
--É que para elle, n’essa historia, tudo se resume, a sua vida inteira, compreende-o bem! justificou Rybine, soturno. E da mesma sorte a vida de toda uma legião de seres. Ouvi-lhe essa historia dezenas de vezes já, e, ainda assim, acontece-me ter certas dúvidas. Ha horas de bondade em que a gente se recusa a crêr na vilania do homem, ou na sua loucura, e em que se sente compaixão por todos, ricos e pobres... porque o rico tambem é um transviado do bom caminho. A um cega-o a fome, ao outro, o dinheiro... E então, a gente pensa:
«Homens, meus irmãos! Desentorpeçam esses raciocinios, reflictam com lealdade, reflictam bem».
O doente oscilou estremunhado, abriu os olhos e deitou-se sobre a terra. Sem ruido, Jacob levantou-se, foi á cabana buscar um pequeno agasalho de pelles, e estendeu-lho por cima. Depois, retomou o seu logar ao lado de Sofia.
Ás vozes dos homens misturavam-se o surdo crepitar da lenha e o murmurio das labaredas; e aquelle lume, qual rosto rubicundo, parecia sorrir-se com malicia para os sombrios vultos que lhe faziam circulo.
Falou então Sofia da lucta dos povos em prol do direito á vida e á liberdade, dos remotos combates dos rusticos da Allemanha, dos infortunios dos irlandezes, dos feitos do operariado francez.
Sob a floresta, revestida de veludos, na pequena rotunda limitada pelos majestaticos arvoredos, sob a abobada do negro firmamento, perante a risonha lareira, em meio d’aquelle grupo de sombras hostis e assombradas, ressuscitavam os acontecimentos que haviam revolucionado o mundo dos saciados, dos entes tresloucados pela cubiça; desfilavam uns após outros, os povos da terra, sangrentos, esgottados em mil combates; celebravam-se os nomes dos heroes da liberdade e da justiça...
Aquella debil voz de mulher ecoava mansamente, como se viesse do passado; instigava esperanças, inspirava confianças. O auditorio escutava religiosamente aquella melopeia, a vasta historia dos seus irmãos espirituaes. Todos fitavam o rosto pálido e magro da narradora, correspondiam com sorrisos ao sorrir dos olhos cinzentos. E com mais viva luz brilhava para elles a sagrada causa da humanidade; nos seus peitos medrava mais e mais o sentimento do parentesco moral com os seus irmãos do mundo inteiro; um novo coração nascia para elles na propria terra e ardiam no desejo de tudo compreenderem, de tudo resumirem n’elle.
--Ha de chegar o dia em que os povos todos levantarão cabeça, bradando: «Basta! não queremos continuar n’esta vida!» proclamou Sofia com voz sonora, e então ha de desabar o ficticio poder d’aquelles que só na avidez encontram a sua força, a terra fugir-lhes-á debaixo dos pés e ficarão sem saber em que apoiar-se.
--É o que ha de acontecer! affirmou Rybine, de cabeça baixa. Que ninguem poupe as suas forças e tudo vae de vencida!
Pélagué escutava, arregalando muito as sobrancelhas e com um sorriso de surpreza nervosa. Estava a ver que tudo o que nas maneiras de Sofia lhe parecia insolito, a sua audacia, a sua extrema vivacidade, tudo desapparecera, como submerso no fluxo regular e entusiástico das suas palavras. A noite silenciosa, o revolutear do lume, a fisionomia da joven oradora, interessavam-na; mas o que a deleitava principalmente era a absorta attenção dos campónios. Permaneciam immoveis, esforçando-se por não perturbarem fôsse com o que fôsse o desenvolvimento sereno do discurso; dir-se-ia n’elles um receio de quebrarem o fio luminoso que os ligava ao mundo. De tempos a tempos, um d’elles collocava com precaução uma nova acha no lume; e dispersava com a mão as faúlhas e o fumo, para que não incommodassem Sofia.
Ao romper da aurora, Sofia calou-se, fatigada, e attentou, sorrindo, nos rostos pensativos e tranquilisados que a cercavam.
--É tempo de partirmos, disse a velha.
--Vamos! respondeu Sofia com expressão de cansaço.
Um dos operarios suspirou ruidosamente.