Chapter 2
Além do curioso contraste consigo mesma, a criança branca não sente nada à primeira vez que vê um homem de cor. Curiosidade é seu único sentimento. A função da cor na linha da cor é algo muito simples e secundário. Isto simplesmente anuncia os objetos a sofrer opressão, insulto e perseguição. Isto não é uma bebida alcoólica que enlouquece, mas as letras pretas na tabuleta que dizem ao mundo onde isto pode ser alcançado. Não é o Quaker que é odiado, mas seu aba larga e vestes simples. Não se odeia a Caim, mas ao sinal que o torna reconhecido. A cor é inocente demais, mas as coisas com as quais a ela se acoplam a tornam odiosa. Escravidão, ignorância, estupidez, servilismo, pobreza, dependência, são condições indesejáveis. Quando estas coisas deixam de ser acopladas à cor, não haverá nenhuma linha da cor desenhada. Isto pode ajudar no sentido de observar algumas das inconsistências do sentimento da linha da cor, pois isto não é nem uniforme no seu funcionamento nem consistente em seus princípios. Suas contradições em relação a este último ponto seriam até divertidas se o sentimento em si não fosse tão merecedor do absoluto repúdio. Nossos irmãos da Califórnia, descendentes da Irlanda, odeiam os chineses, e os matam, e quando perguntados por quê fazem isso, sua resposta é a de que o chinês é muito laborioso e irá fazer todo o trabalho, podendo viver com salários que fariam outras pessoas morrerem de fome. Quando essas mesmas pessoas e outras são perguntadas por que odeiam as pessoas de cor, a resposta será porque eles são preguiçosas e depravadas, e não podem cuidar de si mesmas. Os políticos do Sul irão lhe dizer que o negro é muito ignorante e estúpido para exercer o voto livre, e já agora vemos que a sua maior ofensa é que agem como se fossem o único partido inteligente o bastante aos olhos da nação para legislar ao país. De um só fôlego nos dizem que o negro é tão fraco no intelecto, e portanto destituídos de humanidade, que ele é apenas um eco do astuto homem branco, e ainda em outro [fôlego] eles irão virtualmente afirmar que o negro é tão claro na sua percepção moral, tão firme nos propósitos, que não podem ser persuadidos por argumentos ou intimidados por ameaças, e que nada além de uma arma de fogo os poderá impedir de votarem nos homens e medidas que eles aprovam. Eles recuam com horror ao contato com o negro como um homem e como um cavalheiro, mas o aceita bem como barbeiro, garçom, cocheiro ou cozinheiro. Como um escravo, ele podia andar por toda parte, lado a lado com o seu senhor branco, mas como um homem livre ele deve ser empurrado para o vagão esfumaçado. Como escravo, ele podia ir para a primeira cabine; como homem livre ele não tem permissão para seguir em melhor posição. Antigamente se dizia que ele era incapaz de aprender, e ao mesmo tempo que era um crime contra o Estado se qualquer homem o ensinasse a ler. Atualmente, diz-se que ele é original e permanentemente inferior à raça branca, e ainda expressam uma selvagem apreensão de que seis milhões de pessoas desta raça inferior, de uma forma ou outra, iriam conseguir dominar mais de trinta e cinco milhões da raça superior. Se a inconsistência pode provar a falsidade de alguma coisa, certamente o vazio desta pretensão de que a cor não tem nenhum receio é facilmente exibido. O problema é que a maioria dos homens, e especialmente os homens maldosos, querem ter algo sob si. O homem rico teria o pobre, o branco teria o preto, o irlandês teria o negro, e o negro teria um cão, se ele não puder obter nada mais elevado na escala de inteligência para dominar. Esse sentimento é uma das vaidades que o esclarecimento dissipará. Um abolicionista bom, mas simplório, disse-me que não tinha vergonha de caminhar comigo pela Broadway de braços dados, à luz do dia, e evidentemente achava que ele estava a dizer algo que seria muito agradável à minha autoestima, mas me ocorreu, naquele momento, que aquele homem jamais sonharia que houvesse qualquer motivo para que eu sentisse vergonha de andar lado a lado com ele pela Broadway à luz do dia. Montado numa carruagem saindo de Concord, em New Hampshire, rumo a Vergennes, Vermont, há muitos anos, me achei nas condições bem agradáveis como todos os demais passageiros durante a noite, mas a luz da manhã veio sobre mim como faz com as estrelas; eu era como a descrição do Dr. Beecher ao descrever o primeiro incêndio que ele testemunhou, quando um balde de água fria foi derramado em suas costas — "o fogo não foi apagado, mas ele foi". O fato é que, quanto mais um homem de cor sobe na escala social, menos preconceito ele encontra.
O autor se encontrou e se misturou livremente com os grandes homens que lideravam em seu tempo, — em sua terra ou no estrangeiro, em salões públicos ou em casas particulares, no palco ou junto à lareira, — e não se recorda de nenhum caso quando entre tais homens ele foi levado a se sentir como objeto de aversão. Os homens que são verdadeiramente grandes são grandes demais para serem pequenos. Isto foi gloriosamente verdadeiro com os falecidos Abraham Lincoln, William H. Seward, Salmon P. Chase, Henry Wilson, John P. Hale, Lewis Tappan, Edmund Quincy, Joshua R. Giddings, Gerrit Smith e Charles Sumner, e muitos outros dentre os que já morreram. O bom tom não me permite falar agora dos vivos, exceto para dizer que o número daqueles que se erguem superiores ao preconceito é grande e crescente. Aqueles que desejam ver como será o futuro dos Estados Unidos, frequentem, como eu já frequentei durante a administração do presidente Hayes, às grandes recepções diplomáticas na mansão executiva, e veja lá, como eu já vi, em seu esplêndido Salão Leste, a riqueza, a cultura, o refinamento e a beleza da nação reunida, e com ela os representantes de outras nações, — o turco moreno com o seu "fez", o inglês brilhando em seu ouro, o alemão, o francês, o espanhol, o japonês, o chinês, o caucasiano, o mongol, o ilhéu de Sandwich, e o negro, — todos se movendo livremente, cada qual a respeitar os direitos e a dignidade do outro, sem receber ou fazer nenhuma ofensa.
"Então oremos para o que vier, Como isto vier será por sobre tudo isso, Esse o sentido e o que vale a pena, sobre toda a terra, Suportar a posição social, e tudo mais; "Esse homem para o homem, noutro mundo, Serão irmãos, por sobre todas as coisas."
Notas e referências
Categoria:Artigos Categoria:Frederick Douglass en:The Color Line