A Lenda da Meia-Noite

Chapter 9

Chapter 93,949 wordsPublic domain

«Eu sentia correr um indizivel murmurio pelo prado. O vento, acamando a relva e as florinhas, perguntava-lhes, no seu dialecto incomprehensivel, que vós não entendeis, mas que para todas nós é clarissimo, quem era a recem-chegada. E os bichinhos pequeninos que arfavam debaixo de mim, respondiam que era o Hymalaia, e os insectos zumbidores respondiam que era uma grande flôr verde com estames de oiro.

«O que é certo é que eu consubstanciava-me de todo com a relva que me cercava. Egualmente verde, não transtornava em nada a unidade do tapete, e as minhas borlas de oiro matizavam-n'o agradavelmente.

«Assim estava n'aquelle _dolce farniente_, e confesso que, apesar de me lembrar de vez em quando dos donos que me eram tão affeiçoados, e de quem me tinha separado, as saudades que sentia eram attenuadas pelo prazer completamente novo que me embriagava.

«Mas aquelle ocio não podia durar sempre. O Tytiro, que me apanhára, não estava muito disposto a repousar _sub tegmine fagi_, mais do que convinha á sua indole vagabunda, e depois de ter saboreado, por espaço de dez minutos, quando muito, as delicias da posição horisontal succedendo á rapidez da corrida, levantou-se, dirigiu-se á fonte, encheu de agua a palma da mão, disposta para esse fim, levou-a á bocca, bebeu, repetiu duas ou tres vezes esta operação, e depois, dirigindo-se a mim, levantou me do chão, e foi-me levando socegadamente pelos campos fóra.

«É tempo agora de descrever o meu novo dono. Era um rapazito dos seus quatorze annos, de rosto alegre e queimado, com uns olhos negros muito vivos e rasgados, uma bocca grande, que parecia estar sempre preparada para as gargalhadas. Todo o seu fato consistia n'umas calças rotas, n'uma camisa muito suja, e n'uma jaqueta tão arremendada, que era um verdadeiro mosaico, porque creio que tinha todas as côres do espectro solar, e todas as combinações que com ellas se podem fazer. Um bonet, que estava rodeado por uma densa armadura de sebo, occupava o alto da cabeça; porque julgo não haver exemplo de ter sido collocado na posição habitual, e a testa do garoto, se lhe dissessem que este possuia um bonet, estou que ficaria summamente espantada.

«E lá ia elle por ahi fóra, baloiçando o corpo a compasso de uma cantiga, devida ao seu genio musical, distrahindo-se no caminho a apanhar borboletas, a atirar pedras aos cães, fugindo depois a bom fugir quando estes o perseguiam ladrando, trepando acima das arvores da estrada a espreitar se já haveria ninhos entre os seus ramos, cobertos de novas folhas, e saltando os muros dos pomares, para se ir empoleirar nas larangeiras, trincando as laranjas verdes ou maduras, que se lhe deparavam.

«Devo confessar que a minha situação durante estas excursões, motivadas pelos entretenimentos do meu dono, não eram das mais invejaveis, e que bastantes vezes amarguei o gosto que sentira, respirando o ar dos campos. Com effeito o gaiato attendia mais aos seus prazeres do que ás minhas commodidades, e nem posso descrever os sustos que curtí, quando os cães corriam atraz de nós, e que eu via os seus dentes agudos, que seriam capazes de me despedaçar n'um segundo; a triste impressão que eu sentia, vendo as borboletas tão gentis, tão galantinhas, nas garras do seu caçador cruel; as dôres que me faziam os esgalhos das arvores, rasgando me sem piedade, em quanto elle subia descuidoso, indifferente, affastando a ramaría, para vêr se, n'alguma verdejante alcôva, não teria ido a carinhosa mãe dos passarinhos depôr o berço gentil, que as auras embalariam.

«Sobre tudo o que me atormentava era o costume que elle tinha de saltar os muros dos pomares para se ir sentar nas larangeiras, a fartar-se d'esses pomos que a antiguidade chamou aureos por serem vermelhos, e que o seu Camões asseverou terem

_A côr que tinha Daphne nos cabellos_;

o que é pouco lisongeiro para a belleza d'essa nympha, que vinha a ser hyper-ruiva, se acreditarmos as asserções do cantor dos _Lusiadas_.

N'este ponto tornei eu a interromper a bolsa tão prodiga em reflexões.

--O espanto, em que me colloca a sua erudição, impede-me de reprehender energicamente o tom com que falla n'essa gloria nacional. Mas diga-me, quem a fez tão instruida?

--Não antecipemos os acontecimentos, como diria o visconde d'Arlincourt, respondeu-me a bolsa.

--O quê? Pois tambem leu ou ouviu os romances do visconde d'Arlincourt?

--Então! meu amigo, tornou-me a narradora, suspirando, nem tudo são rosas na instrucção.

--Bem, continue.

«Como já disse, esse costume do meu dono incommodava-me sobremaneira; porque a escalada tinha para mim todos os seus inconvenientes, e muitos mais, sem ter nenhuma das suas vantagens. Em primeiro logar a subida pelo muro era summamente incommoda; porque o bom do meu amigo, tendo todas as algibeiras rotas, e, por conseguinte, não me podendo confiar a nenhum d'esses toneis das Danaides, de que as suas calças e a sua jaqueta estavam tão amplamente providas, levava-me na mão, apertava-me sem cerimonia de encontro ao muro, e esmagava-me, torturando ao mesmo tempo uma pobre meia corôa que eu tinha dentro de mim, e que eu sentia, de afflicta, resmungar no meu seio.

«Depois, quando, á força de trabalhos e de arranhões, chegavamos ao cimo do muro, novos desastres nos esperavam. Garrafas partidas formavam uma especie de negra palissada, dispostas d'aquella maneira para enterrar os seus dentes agudissimos nos aventureiros que intentassem a conquista. Mas o meu dono, que era, segundo parece, já pratico n'aquelles assedios, tinha tomado as suas precauções, e foi então que eu vi que não era só a questão das algibeiras que o inhibia de me resguardar, mas sim tambem uma questão de defeza propria. Eu, malfadada, servia-lhe de escudo! Eu era, para assim dizer, o _césto_, á sombra do qual o garoto jogava o murro com as paredes. N'uma das mãos ia eu, na outra o lenço de assoar muito embrulhado. A mão que eu protegia, era ainda assim a que estava resguardada melhor; porque o tal lenço, para fallarmos verdade, parecia a moldura de um quadro ausente; um immenso rasgão formado por uma multidão de rasgõesinhos que se tinham annexado, occupava o centro-rodeado em toda a extensão por uma pobre tira. Creio que a historia d'essa transformação se póde explicar geographicamente. Imagine que o lenço ao principio se assimilhava com aquelle territorio da America do Norte, onde existe o lago Ontario, cercado de muitos outros. Supponha que um grande cataclysmo rasgava os terrenos que separam esses lagos, e que as aguas trasbordando, e unindo-se, formavam um verdadeiro mar no genero do mar Caspio. Ahi tem o que succedeu com os rasgões do lenço do garoto.

--V. ex.^a permitte-me, interrompi eu, que a proponha para socia do Instituto Geographico de Paris?

--Muito obrigada! Não estou agora decente para entrar n'uma academia.

--Pelo contrario, minha senhora, tornei eu, as bolsas vasias devem ser da mesma fôrma que as cabeças, as que mais depressa sejam admittidas n'essas sociedades sábias. Póde continuar.

«Não findavam aqui os meus soffrimentos. Experimentava alguns rasgões, mas consolava-me com o pensamento de que o meu sacrificio era util ás mãos do meu dono, por quem eu professava uma secreta e inexplicavel sympathia. É verdade que o demonico do rapaz parecia não se affligir muito com as arranhadellas que recebia. A mão esquerda, confiada á protecção nominal do lenço de assoar, chegava toda em sangue, e isso, em vez de lhe diminuir a alegria, parecia augmentar-lh'a e dar melhor sabor ás laranjas com que se fartava.

«Ahi se empoleirava elle, por conseguinte, sentando-se no ponto de união de dois ramos, toucado de folhas, baloiçando os pés no ar, e enviando as mãos em toda a direcção, a fazerem uma atrevida _razzia_ aos taes pomos de oiro do antigo jardim das Hesperides. E quer as laranjas estivessem ainda verdes, e por conseguinte amarellas (n'esse caso tem rasão Camões e a antiguidade), quer estivessem já em pleno sazonar, e por conseguinte trajassem a purpura que merecem, como rainhas que são de todas as fructas, o meu bom gaiato apanhava-as sempre com uma imparcialidade digna de especial menção, e, ministro justiceiro dos negocios do seu estomago, escolhia para funccionarios todos os fructos, sem distincção de côres.

«Era um bello espectaculo o d'esse rapazito rôto, esfarrapado, mais feliz no seu throno de cortiça do que os reis no seu throno de oiro, comendo as laranjas do proximo com mais satisfação, de certo, do que a que sente o czar da Russia ao devorar o producto dos roubos de que é victima a infeliz Polonia.

«Mas por fim de contas vinha a ser eu quem soffria as más consequencias dos prazeres do meu senhor. Para poder comer á sua vontade, o meu amigo largava-me e pendurava-me no primeiro ramo que lhe ficava á mão. O vento baloiçava o ramo; ás vezes um gatinho, que andava passeiando por cima dos muros, vendo-me ondular na extremidade, saltava e principiava a brincar comigo. A isto reunia-se o susto de me vêr n'uma altura para mim desmesurada. Era necessario que os latidos de um cão de guarda viessem inquietar o meu dono, para que elle se lembrasse de me tirar da minha incommoda posição, afim de operar a sua retirada.

Já vê, por conseguinte, que a minha existencia aventurosa, se tinha as suas vantagens, tinha tambem os seus inconvenientes.

IX

«O meu possuidor reconhecera, desde o primeiro momento, que eu não estava vasia, mas ainda se não dera ao trabalho de verificar a quanto montava a sua nova riqueza. Finalmente, depois de estar saciado de laranjas, cançado de trepar ás arvores, entendeu que era já tempo de attender aos negocios do thesouro. Sentou-se por conseguinte n'uma pedra da estrada, abriu-me com toda a gravidade, e tirou de dentro triumphalmente a moeda de cinco tostões.

--«Olá! um _caiado_!--bradou elle com alegria, e para demonstrar melhor o seu regosijo entoou a aria da _Saloia_, e atirou comigo ao ar a uma distancia immensa, com grande desespero meu, porque vim assustadissima, aos trambolhões pelo espaço, cair na mão aberta do garoto.

«Este não ficou em contemplação diante do seu thesouro; metteu o outra vez no sitio em que estava, levantou-se, e continuou o seu caminho, cantando com uma voz de Stentor, atirando comigo ao ar, e tomando, para me receber, attitudes de tambor-mór.

«A estrada, que se ia approximando da cidade, ia sendo tambem mais frequentada. Os caminhantes multiplicavam-se, e as casas começavam a apparecer. Nem por isso o gaiato deixou de cantar a _Saloia_ a plenos pulmões, com grande escandalo das velhas sentadas nos degraus das portas, que acompanhavam cada estrophe da aria popular com um desafinadissimo côro de imprecações.

--«Valdevinos!--Bregeiro!--Gaiato sem emenda!--D'onde vens tu, maroto?--Ah! boa sova!--Fosse eu tua mãe que te havia de moer o corpo com pancadas!--Só se perdiam as que caissem no chão!--D'onde vens tu, desavergonhado, vens de roubar laranjas?--Tu vaes direitinho para o inferno!--_Berzabum_ te valha, démo pequeno!--O descarado vem a cantar para quebrar a cabeça ás almas christãs!--Quem te puzesse uma farda ás costas!

«E outras amabilidades de egual jaez, a que elle só respondia, grave e serenamente, com esta invariavel apostrophe:

--«Eh! bruxas!

«Quiz o acaso que passasse ao nosso lado um sujeito gordo, com umas barbas de phariseu, uns olhos esgazeados e orlados de vermelho, uma d'estas physionomias baixamente orgulhosas, onde se lê ao mesmo tempo o servilismo para com os poderosos, o desabrimento para com os humildes. Desbarretava-se até ao chão quando passava alguma carruagem, onde ia pessoa conhecida d'elle, e correspondia ligeiramente á saudação dos pobres trabalhadores, que levantavam o chapéo, com aquelle ar gravemente cortez dos homens do campo, para lhe dizerem:

--«Guarde-o Deus, senhor Domingos Gil.

«Para o meu gaiato, vel-o, e conceber a idéa de lhe fazer alguma, foi acto simultaneo. Com um sorriso malicioso nos labios enrolou-me na mão muito bem enrolada, de sorte que só ficasse de fóra o sitio onde estavam os cinco tostões, e approximando-se, pé ante pé, do empavezado passeiante, ergueu a mão, vibrou-me com toda a força, e fez-me desabar, indo a meia corôa de esquina, na copa do chapéo do gorducho.

«A _gebada_ foi magistral; o chapéo enterrou-se até aos olhos; e em quanto o dono d'elle, espumante de raiva, procurava desembaraçar a cara d'aquelle inesperado invólucro, o rapaz pôz-se fóra do seu alcance, e, já lá muito ao longe, ouviu as exclamações furiosas da sua victima, que ameaçava prendel-o, matal-o, enforcal-o, esquartejal-o.

«O homem ficára desesperado. Pois não tinha rasão; o seu chapéo, como sempre, tinha-se curvado ao dinheiro.

X

«Livre de perigo, o meu dono, reflectindo no caso, houve por bem rir-se ás gargalhadas do que praticára. Com effeito merecia a pena. Eu, apesar de ter padecido, não desgostei da correcção.

«Depois de se rir á vontade, entendeu o auctor da _gebada_ que não poderia ser completa a sua satisfação se não visse a cara do paciente depois do castigo. Reflectiu como poderia conseguir vêl-o sem ser visto, e como afim de reflectir melhor, quando olhava para o céo a procurar inspiração, deu com a vista n'uma arvore que se erguia mesmo ao seu lado. Vêl-a, e trepar a ella, foi uma e a mesma coisa. O mirante era optimo, bem arejado, completamente resguardado da curiosidade dos profanos, proporcionando ao seu habitador provisorio um delicioso panorama para se entreter emquanto não passasse aquelle a quem esperava. Attendendo, pois, ao merecimento e mais partes que concorriam na pessoa da dita arvore, estabelecemo nos n'ella sem cerimonia, eu n'uma caminha de folhas, elle encostado a uma especie de janella verdejante, d'onde via optimamente tudo quanto se passava na rua.

«Assim, todo escondido, de joelhos, com a sua physionomia curiosa e maliciosa á espreita por entre os ramos, parecia um macaquinho agil, que espera occasião propicia para apanhar um fructo que lhe fica distante.

«Por baixo de nós um pobre velho, pallido, magro, macilento, mostrando no rosto a timidez envergonhada d'aquelles que um soffrer verdadeiro obriga a pedir esmola, estendia o chapéo a quem passava. Lagrimas silenciosas lhe deslisavam nas faces encovadas: o sêllo da desventura estava gravado na sua fronte livida. Os cabellos brancos, que o vento agitava, cingiam aquelle infortunio de uma aureola de magestade. Era augusta aquella miseria!

«Comtudo, nenhum dos que passavam deixava cair uma pobre moeda de cobre n'aquelle chapéo supplicante, que se lhes estendia. Uns seguiam desdenhosos o seu caminho, sem responderem sequer com um gesto á muda rogativa do mendigo! Outros, um pouco mais humanos, faziam distrahidamente um gesto negativo, levando ao mesmo tempo a mão ao chapéo. Outros, mais caritativos ainda, murmuravam «Tenha paciencia» ou «Não levo troco», e todos diziam, lá de si para si, a phrase conhecida: «Este maroto provavelmente tem mais dinheiro do que eu. Desavergonhado! Abusarem assim da caridade publica! Os que mendigam não são os que precisam; nas aguas-furtadas é que se aninha a verdadeira pobreza.»

«Ah! miseraveis! que fingís pensar que é um officio divertido o expôr-se um velho, alquebrado de forças, ao sol, ao vento, á chuva, ás humilhações, ao desprezo, para fazer uma pobre colheita de dez ou doze moedas de cinco réis, e ás vezes de nenhuma! E a chuva a inundar os membros mal resguardados do pobre pae de familias! E o sol a abrazal-o! E a imagem dos seus filhinhos, lividos e esfomeados, a despertar-se-lhe na imaginação, e a redobrar-lhe as amarguras!

«Porque vós não sabeis, ou antes fingís não saber, vós que julgaes que esse homem vem pedir esmola para se ir embebedar na taverna proxima, não sabeis que ha n'algum canto obscuro e doentio da cidade uma familia de espectros, que espera anciosamente a volta d'aquelle a quem despedis com as mãos vasias! Não sabeis, vós que accusaes de falta de resignação, de falta de animo, o pedinte que vos exora com as lagrimas nos olhos, não sabeis que lhe foi necessario mil vezes mais valor para se embrulhar na pobre capinha, sair furtivamente do misero alojamento, e ir collocar-se, espectro da miseria, ás portas da opulencia, do que lhe seria preciso para se despenhar da janella da sua agua-furtada e despedaçar a cabeça nas lages da rua!

«Continuemos.

«Todos passavam, como já disse, e ninguem dava sequer ao pobre velho a esmola de um olhar de compaixão. O meu gaiato mirava-o de vez em quando.

«Passou finalmente o sr. Domingos Gil. O pobre velho estendeu-lhe o chapéo, murmurando mansinho:

--«Uma esmola por amor de Deus. Meus filhos morrem de fome.

«O sr. Domingos Gil vinha, como facilmente imaginará, de muito mau humor. Trazia a _gebada_, para assim dizer, atravessada na garganta. As sobrancelhas franzidas, o olhar fusilante, a cara fula de raiva, denunciavam o rancor que o consumia. O chapéo, ainda um pouco amolgado, tambem mostrava resentir uma nobre indignação.

«A voz do mendigo como que abriu no sr. Gil uma valvula de segurança, por onde póde sair uma porção de colera, que, mais tempo contida, o faria rebentar. Evitou-se d'esta fórma uma grave perda para a humanidade.

«O sr. Gil desabafou, bradando, ao passo que desviava bruscamente o chapéo do pobre velho:

--«Sucia de mandriões! Estão estes marotos á esquina de todas as ruas, para nos roubarem o dinheiro que nos custa a ganhar com o suor do nosso rosto! Vossê não tem vergonha de pedir esmola? Vá trabalhar, ou metta-se no hospital se está doente, ou vá para o asylo! Está o governo a pagar um bom par de contos de réis alli em Santo Antonio dos Capuchos, e pessoas ricas a deixarem quantias avultadas, que bem tolo é quem cae em tal, não ha de ser nunca o meu dinheiro que elles hão de apanhar; mas está alli aquelle estabelecimento prompto a receber todo o fiel patife que não tem eira nem beira, para que? Para andarem estes velhacos a incommodar-nos. Fosse eu da camara municipal! Rêde para os cães, rêde para os mendigos. Vá para o demonio! Não lhe dou nem cinco réis! Canalha!

«E o digno homem continuou magestosamente o seu caminho.

«Uma lagrima caíu das palpebras abrazadas do velho! Fez um gesto de resignação, e deixou pender a cabeça sobre o peito.

«E a noite estendia já sobre a terra o seu manto negro. A noite com o seu duplo cortejo de alegrias, de festas, de prazeres, de suspiros enamorados, e de tristezas, de crimes, de horrores, de soluços da miseria! A noite, fada mysteriosa, e negra feiticeira! A noite que se deixa illuminar pelo lustre dos salões, e pela candeia das aguas-furtadas, mas felizmente tambem e em toda a parte pelo fulgor das estrellas, que é o olhar de Deus.

«E o velho scismava tristemente. Não tivera resultado o sacrificio! Nem um pedaço de pão podia levar aos filhos esfaimados! Tristeza! A brisa soprava asperamente, e elle não a sentia! As lanternas das carruagens que passavam pareciam olhar para elle ironicamente, mas as estrellas, essas miravam-no tristemente.

«E o velho scismava! A pobre agua-furtada, onde vivia, representava-se-lhe na imaginação! Via a filha doente, ella que á força de trabalho sustentava os irmãos, os pobres innocentes, que pediam de comer! E elle, o triste velho, ia-lhes apparecer sombrio, para lhes dizer: «Morrei, não tenho que vos dar!»

«Então pareceu-me vêr na fronte do garoto surgir uma estranha aurora! Immovel na arvore, contemplava o pobre velho, e a sua physionomia maliciosa tornava-se pensativa! Eu tinha-o ouvido durante o caminho fazer mil projectos para o emprego dos cinco tostões, comprar bolos, ir ao theatro, alugar um burro, mil extravancias que elle acariciava com o amor de creança! N'aquelle momento não trocaria os cinco tostões por um imperio!

«Depois de contemplar por um instante o velho, estendeu a mão para mim, tirou-me do ramo, e deixou-me cair no chapéo do mendigo.

«E depois de ter gozado por um instante da estupefacção do pobre homem, deixou-se escorregar da arvore, e escapou-se sorrateiramente.

«O garoto desapparecera; mas quem olhasse bem podia vêr alvejarem vagamente, na escuridão nocturna, as azas luminosas do anjo da caridade.

XI

«Quando me achei no chapéo, e depois na mão do pobre velho, a primeira sensação foi a da alegria, a do desvanecimento. Parecia-me que eu tambem participára da boa acção do rapaz, e que me competia uma parte dos agradecimentos que lhe eram devidos. O que estava longe de esperar, é que seria eu quem os receberia a todos.

«Com effeito o pobre velho, depois de olhar muito tempo em torno de si, depois de mirar bem a arvore, cujos ramos se estendiam sobre a sua cabeça, concluiu por attribuir ingenuamente a um milagre da Providencia o beneficio que recebêra; e, depois de ter reflectido bastante tempo, convenceu-se devéras de que a bolsa lhe caira do céo, e tão arreigada conservou esta convicção, que ninguem seria capaz de lh'a arrancar. Veneravel candidez de crenças! Não se importou com e pensamento de que não valia a pena fazer um milagro para dar cinco tostões, e que, ainda que o céo estivesse inclinado a economias, não era natural que a Providencia tomasse a precaução de collocar a sua esmola dentro de uma bolsa de seda verde.

«A tudo isso responderia elle que a menos que a bolsa não se formasse no ar, e caisse por si mesma, ou que existissem actualmente arvores com esse fructo, esse dinheiro não podia vir senão do céo. E vinha com effeito.

«Por conseguinte o bom do velho, passando do immenso desalento á immensa alegria, ajoelhou, beijou-me fervorosamente, depois levantou-se, e correu com uma lizeireza de rapaz a fazer as compras necessarias á sua pobre familia.

«Foi então que eu me pude convencer de que não eram a mim que se dirigiam, no tempo da minha prosperidade, os comprimentos que tanto me enchiam de orgulho, mas sim e unicamente á opulencia que eu representava. Foi essa uma desillusão fatal, e que me causou uma tristeza pungente! Ah! meu amigo, bastará esse dia para eu conhecer o egoismo dos homens. Desde o instante em que eu saíra da casa em que nascêra, no curto espaço de duas ou tres horas, que de agargas lições, que de tristes ensinamentos!

«Nas casas em que entrava com o meu pobre possuidor, ninguem olhava para mim, assim como ninguem olhava para elle. N'uma loja de capellista onde o velhinho foi comprar agulhas, o instrumento de trabalho de sua filha, a fragil armasinha com que ella combatia intrepidamente o demonio da miseria, estavam umas senhoras arrastando sedas, e resplendendo em joias. Estavam comprando não sei o quê, mas fosse qual fosse a compra, ellas demoravam-se immenso, porque desejavam escolher á vontade, e obrigavam a dona da loja, que satisfazia as suas exigencias com toda a complacencia, a revolver todas as caixas, a mexer em todas as gavetas, a abrir todos os armarios.

«O bom do meu velhinho, impaciente como estava, para levar de comer á sua pobre familia, depois de esperar um pedaço, não pôde deixar de dizer, collocando-me timidamente em cima do balcão:

--«Se a sr.^a Ignacia me podesse aviar n'um instantinho...

«A capellista, interiormente enfurecida pelas maçadas que lhe estavam dando as suas opulentas freguezas, voltou-se, e empurrando-me bruscamente, tão bruscamente que caí no meio do chão, bradou com uma voz desesperada:

--«Espere, não tenha pressa, guarde o seu dinheiro. Não vê que estou a servir estas senhoras?

«O meu pobre dono calou-se, e apanhou-me sem murmurar sequer. O que havia elle de fazer? A capellista fiava lhe os utensilios necessarios a sua filha, em occasiões de apuro, e até ás vezes, porque no fundo a tia Ignacia tinha um bom coração, lhe emprestava os seus vintens.

«Eu é que não admitti circumstancia attenuante possivel para o ultrage que recebêra. N'essa manhã mesma eu fôra tratada tão amavelmente n'uma loja de capellista com estanco, onde Eduardo entrára a comprar charutos, que não percebia qual fosse o motivo da subita differença.

«Já vê que as lições ainda não tinham aproveitado.

«N'esse ponto foi que eu principiei a avaliar as amarguras da minha nova posição. Felizmente, a scena que se lhe seguiu veiu adoçal-as um pouco.

XII