A Lenda da Meia-Noite

Chapter 8

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--Oh! por amor de Deus, continue v. ex.^a como quizer; estou prompto a admirar tudo quanto eu não entender, nem v. ex.^a tambem. Estou esperando.

V

«Nasci, continuou a bolsa, e a minha vista não encontrou nada que a ferisse, nada que lhe repugnasse no quarto onde eu viera á luz. No movel mais insignificante se denunciava a riqueza e bom gosto dos donos da casa. Eu repousava mollemente no collo da minha dona, e os meus membros recem-nascidos sentiram logo o suave contacto da seda. Um alegre raio de sol entrava pela janella, acariciava o meu corpinho verde, e fazia resplandecer as minhas borlas doiradas. As agulhas repousavam ao meu lado, contemplando curiosamente a obra prima que tinham acabado de produzir. A gentil habitante do quarto beijava-me carinhosamente e, beijando-me, murmurava estas palavras que eu conservei de cór:

--«Vae, pobre bolsinha, repousar sobre o coração d'aquelle a quem tanto amo. Conserva a impressão dos meus beijos, e, quando elle te approximar do rosto, oh! anima-te, por um milagre de amor, e sê tu a mensageira d'estes osculos que eu te confio. Dize-lhe, conta-lhe que em segredo trabalhava em te fazer _coquette_, elegante, para seres digna d'elle. Olha, lê bem no fundo do meu coração, para poderes narrar ao meu esposo os thesouros de affecto que em mim se abrigam. Vae, e Deus queira que elle te ache a seu gosto, e te faça um bom acolhimento.

«N'este momento um rapaz, cujo labio superior era levemente assombreado por um bigodinho nascente, entrou, e, dirigindo-se á minha dona, beijou-a com ternura.

--«Que deliciosa bolsinha tu tens no collo!--disse-lhe elle. Foi presente ou compra?

--«Agrada-te?--tornou ella, contemplando-o meigamente.

--«Acho-a lindissima.

--«É tua.

--«Minha?

--«Tua, sim. Não te lembras que dia é hoje? Completas vinte e dois annos. Trabalho ha oito dias a furto para te dar este presente. Sorria-me sósinha, quando pensava na surpreza que te ia causar, quando te désse a bolsa, e, saltando-te ao pescoço, te dissesse alegremente:--Ahi tens um presente da tua querida mulher, é para vêres que pensa sempre em ti.--E então agora não mereço um beijo em paga?

«E a galante senhora, unindo a acção á palavra, tinha-se pendurado no pescoço de seu marido, e contemplava-o com olhos humidos de ternura.

«Elle estreitou-a meigamente, e disse-lhe ao ouvido baixinho, e beijando-lhe os cabellos:

--«Amo te, meu anjo da guarda! Amo-te e sou feliz, feliz com o teu amor.

--«E isso é dito com sinceridade?--perguntou ella, sorrindo, travêssa.

--«Não sou eu quem falla, é o coração.

--«Sim? Sobre esse coração é que eu quero que esta bolsa ande sempre! Advirto-te que tenho dentro d'ella um genio familiar que me obedece, que ha de lêr atravez do teu peito, e que me ha de vir contar os segredos que tu julgares mais reconditos. Acceitas?

--«Que remedio, meu anjo! Venha esse gentil espião, cuja côr me anima já, porque é a côr da esperança. Hei de lhe dar o observatorio mais commodo que o meu casaco lhe podér proporcionar; telescopios não devem ser necessarios a quem possue a vista subtil dos espiritos. Mas por cavilloso o declaro, se elle descobrir no meu coração outra estrella que não seja a tua imagem.

--«Não gósto da comparação; as estrellas são sempre offuscadas umas pelas outras.

--«Mesmo quando essa estrella se chama _Venus_?

--«Viva! O meu maridinho a fazer madrigaes! Queres que eu continue no mesmo tom? Dir-te-hei n'esse caso que a Venus, mais do que a qualquer outra, succede o que acabei de dizer. Á tarde vem a lua offuscal-a, pela manhã o sol.

--«Não, minha querida, não succederá assim comtigo. Sempre viva, sempre pura a tua imagem resplandecerá no meu peito. É isto o que a tua bolsa te ha de dizer constantemente.

--«Querido Eduardo!

--«Querida Camilla!

--«Amo-te!

--«Adoro-te!

«E foi assim que eu passei das mãos da loira Camilla para as mãos do moreno Eduardo.

VI

«Não tive rasão de queixa. O meu dono trazia-me nas palminhas. Quando saía occupava sempre um logar de honra na algibeira do casaco, e alli ia eu, sentindo pulsar o coração de Eduardo, regalando-me, porque estavamos no inverno, de caminhar bem abafadinha e conchegada, em quanto muitas das minhas irmãs estariam talvez tiritando de frio nas algibeiras rotas dos seus possuidores. Que justo orgulho se apoderava de mim, quando Eduardo, sacando-me negligentemente para fazer alguma compra, me collocava em cima do balcão; como todos olhavam cubiçosamente para as minhas fórmas arredondadas, e que bello effeito que eu produzia com as libras que fulgiam atravez dos intersticios da seda.

«Nunca me ha de esquecer a cara de piedade que fez a bolsa de um empregado publico, a quem o acaso collocára junto de mim. Era uma bolsinha de lã, tão magra, tão magra, tão escorrida que mettia dó. Uns pobres meios tostões escondiam-se envergonhados no fundo, e alvejavam tristemente, aborrecidos da sua solidão. A pobre bolsa olhou para mim com uma certa inveja, e não me dirigiu palavra. O dono da loja cumprimentou-me respeitosamente, e desviou com desdem a minha visinha. Ella não ousou protestar, e pôz-se de parte, esperando que eu me dignasse voltar ao meu alojamento ambulante! E eu ria-me e pavoneava-me toda ufana! Mal sabia que ainda havia de passar pelas mesmas humilhações!

«E o caso é que eu suppunha que todos esses cumprimentos eram devidos á minha gentileza, á formosura da minha côr! E Eduardo julgava egualmente que era a influencia, que a sua pessoa exercia, a causadora das humilhações, do servilismo que o rodeavam! Eduardo attribuia a si o que a mim era devido. Eu attribuia a mim o que era devido ás libras que eu abrigava, e as libras tambem attribuiram a si o que se devia simplesmente á somma de gózos que ellas proporcionam. Todo o homem se adora a si mesmo nos objectos perante os quaes se curva. O «eu» é o idolo constante da humanidade. O egoismo é o seu unico motor.»

E n'este ponto a bolsa philosophica soltou um profundo suspiro.

«Á noite, continuou ella, repousava dentro da gaveta de uma linda secretária de pau rosa, e alli ficava até pela manhã tagarellando com umas cartas de amores, minhas visinhas, que me contavam os mil deliciosos segredinhos que lhes tinham sido confiados; e n'esta doce pratica voavam para mim as lentas horas da noite.

«Comtudo, eu começava a presentir o meu futuro destino. Eduardo era o que vulgarmente se chama uma cabeça de vento. Frequentes vezes, e com as melhores intenções d'este mundo, se esquecia de mim, e me deixava ficar á noite em cima da meza, em vez de me conduzir á minha deliciosa alcova da secretária.

«Uma vez, tendo acabado de fazer umas compras, deixou-me em cima do balcão. Não posso explicar a impressão dolorosa que senti quando o vi desviar-se distrahidamente, e quando reparei, olhando em torno de mim, nos ávidos olhares dos caixeiros. Segui-os tristemente com a vista, e já me ia a despedir d'elle para sempre, quando Eduardo, chegando á porta, mostrou recordar-se de alguma coisa, e, voltando se precipitadamente, correu ao balcão. Deu logo com a vista em mim, que estava toda tremula de alegria, e, beijando-me fervorosamente, escondeu-me no seio.

«Infelizmente nem sempre lhe succederia isso.

VII

«Uma vez (sempre me hei de lembrar d'este dia nefasto) Eduardo, estando a fazer umas contas, tirou me da algibeira e pôz-me em cima da secretária. Depois, a pouco e pouco, foi amontoando os papeis em cima de mim, de fórma que eu já parecia um pobre Encéladosinho de seda, debaixo de um Etna de papelada.

«Quando acabou o que tinha que fazer, Eduardo levantou-se, e, como estivesse tocando a sineta para o jantar, foi para a meza e não se lembrou mais da pobre bolsa.

«Por infelicidade, na vespera, tinham os donos da casa recebido a visita de uma joven viuva, muito galante, muito _coquette_, e que parecia desejar jungir ao seu carro de triumpho o marido de Camilla, sobre quem não se cansava de experimentar o effeito dos seus olhares cheios de fogo e de estrategia. Eduardo, como podem imaginar, nem reparára em semelhante coisa; porém sua esposa, com a perspicacia de mulher, adivinhára tudo, e sentira o ciume, não digo bem, o despeito apoderar-se d'ella. Não sei a que proposito, Eduardo me fôra buscar, e a joven viuva mostrou desejo de me vêr. Eduardo entregou-me cortezmente nas mãos da baroneza (a viuva era baroneza) e os dedos involuntariamente encontraram os dedos da gentil _coquette_. Um raio de indignação fusilou nos olhos de Camilla, a baroneza sorriu-se, Eduardo ficou impassivel, e eu previ uma proxima tempestade.

«Por isso, e apesar da mão da baroneza ser tão delicada e macia como a da minha creadora, apesar dos elogios que ella me prodigalisou, eu não fiquei satisfeita senão quando me vi livre da sua analyse.

«Mas d'esta vez foi a mão de Camilla quem me recebeu. Rapidos como o relampago, os dedos elegantes, que me tinham lançado ao mundo, adivinharam, antes d'ella a executar, a tenção que a baroneza formára de me entregar ao meu dono, e apressaram-se em preceder a mão solicita de Eduardo.

«Devo confessar que, desde essa visita fatal, o bom humor de Camilla alterára-se sensivelmente, alteração cujas consequencias Eduardo soffria com grande pasmo seu. Não podia comprehender o azedume que sentia em todas as palavras de Camilla, e, muitas vezes, espreitando pelo buraco da fechadura da minha gaveta, o vi de pernas cruzadas, e em attitude meditativa, perguntando a si mesmo quaes seriam os díabos azues que atormentavam sua esposa, e a elle por conseguinte.

«Depois de jantar, os dois esposos vieram tomar café para o sitio onde eu estava; a conversa que se travára entre elles affrouxava a cada instante, porque os esforços que Eduardo fazia para a sustentar eram completamente infructiferos, por causa da sequidão das respostas de Camilla.

«Acabaram de tomar o café, e Camilla foi encostar-se á janella.

--«Está uma tarde tão bonita!--disse Eduardo, não queres aproveitar este lindo dia de inverno para ires vêr os campos, que estão experimentando já os mantos verdejantes com que hão de comparecer na festa annual da primavera?

--Está estragando comigo a sua poesia, respondeu Camilla seccamente, guarde-a para as pessoas que quizer deslumbrar. Isso era bom quando me fazia a côrte.

--«E não sou eu sempre o mesmo, Camilla; deixaste tu um instante só de ser a noiva gentil que eu adorei, que adoro, e que sempre hei de adorar? Não sou eu sempre o namorado solicito dos primeiros tempos? Isso, a que se deu, por convenção, o triste nome de prosa do casamento, teve nunca entrada nos nossos corações?

--Ah! Ah! que differença! O que me dizia então: «Oh! nunca me hei de separar de ti! Hei de estar sempre ao teu lado! Que valor tem o mundo inteiro junto do teu olhar?» E agora sae quando lhe parece, anda por fóra o tempo que quer, demora-se a conversar com os amigos; porque sua mulher, essa não serve senão para estar n'um canto da casa, á espera que o _senhor_ lhe faça a esmola da sua presença. Não é porque eu me importe com isso! Eu, sim! É-me completamente indifferente! Nunca estou melhor do que quando está longe de mim! Olhe, d'isso póde estar certo! Se fallei, foi porque me enraiveceu a sua hypocrisia.

--«Quanto és injusta, Camilla! Pois eu não desdenho tudo, tudo n'este mundo para estar junto de ti; não prefiro a todos os vãos divertimentos, a todos os prazeres a nossa deliciosa intimidade? E, quando os meus negocios me chamam fóra de casa, não me affasto de ti tão penalisado, e não aproveito a primeira occasião de me desembaraçar d'elles para correr alegre, satisfeito, risonho, a abraçar-te, a beijar-te, a testemunhar-te o immenso e inalteravel affecto que te consagro?

--«Negocios! que grandes negocios que tem! Quaes são elles? Talvez ir visitar a baroneza!

«Eduardo levantou-se, olhou fixamente para sua mulher, e disse:

--«A baroneza! A baroneza, porquê?

--«Foi a primeira pessoa que me lembrou, tornou Camilla, fazendo-se ligeiramente córada.

--«Nada! Isso è um tanto inverosimil.

--«Inverosimil, porquê?--tornou Camilla, irritando-se e fazendo-se vermelha de despeito. Talvez imagine que eu tenho ciumes do senhor. Que vaidade tão louca! que presumpção! Que fatuidade! Ora esta! como logo suppôz que eu era ciumenta!

--«Mas, filha...

--«Ciumenta e de quem? Ah! Ah! Ah! é de um ridiculo incrivel! Não querem vêr o formoso Richelieu, que anda semeando paixões por toda a parte! E julga talvez que eu me importo com semelhante coisa! Namore á sua vontade! Faça o que quizer! Esteja certo que nunca me ha de dar cuidado! convença-se... entendeu? Convença-se bem de que nunca tive ciumes do senhor, porque eu nunca o amei. Foi uma predilecção passageira! Foi um capricho de que me arrependo!

--«Parece-me comtudo, tornou Eduardo ferido no seu amor proprio, que a união eterna de duas pessoas não é coisa tão ligeira que se possa decidir levianamente, e, se não sentias por mim o amor immenso que eu te consagrava, mais valia que me despedaçasses o coração, do que me dirigisses agora essas palavras amargas.

--«Então chegou o momento! Sempre fica sabendo que se enganou; quando suppôz que eu tinha ciumes da baroneza.

--«Mas foi coisa em que não fallei, filha, bradou Eduardo um pouco impacientado.

--«Bem o deu a entender! Não o disse, mas pensou-o. E então escolheu bem a pessoa que me poderia tornar zelosa! A baroneza, uma tola presumida, uma _coquette_ insupportavel, que não tem nem belleza, nem espirito, nem graça, nem elegancia, mas que possue em compensação uma vaidade immensa.

--«Pobre baroneza!

--«Defenda-a, ande! então porque a não defende? É o que lhe falta unicamente! Ouse tomar, deante de sua esposa, o partido de uma mulher como é a baroneza.

--«Ih! Jesus! Camilla! Eu não tomo a defeza de pessoa alguma. Mas tu fallas da pobre senhora, como se lhe tivesses um odio mortal.

--«E tenho, bradou Camilla, erguendo-se com os dentes cerrados e os olhos fusilantes, tenho odio a essas mulheres de maneiras affectadas, de olhares languidos, de vistas fascinadoras, deslumbrantes na apparencia, grosseiras na realidade, a quem os homens seguem tolamente, como as borboletas seguem a luz, ainda que essa luz emane de uma candeia afumada. Quando ella hontem quiz vêr a bolsa que eu fizera, tive tentações de a rasgar, para lhe poupar uma profanação. E a proposito, onde a tens tu?

«Eduardo, ao ouvir esta pergunta, que parecia dever servir de transição para uma conversação mais serena, começou-me a procurar alegremente por todas as algibeiras. O acaso fôra-me collocar muito mirrada na extremidade da secretária. No remexer dos papeis eu tinha quasi caido ao chão; felizmente ou infelizmente, um resalto da secretária tinha-me retido, e eu alli ficára suspensa por uma das borlas, estando esta de mais a mais completamente occulta por um fragmento microscopico de papel. Da posição em que eu estava, podia vêr e ouvir tudo, sem que ninguem me podésse divisar.

«Quando Eduardo começou a revolver as algibeiras não pude deixar de me rir. Era tão comico o espanto d'elle, quando, depois de ter esquadrinhado minuciosamente todos os cantos do seu fato, não encontrava coisa alguma, que eu, ignorando ainda quaes seriam as consequencias d'aquella scena, ria-me a fartar.

«Camilla contemplava-o com um sorriso ironico, e batendo o compasso com o pé no sobrado da sala.

--«Talvez lhe esquecesse lá por fóra!--disse ella, accentuando muito as palavras.

--«É impossivel; lembro-me perfeitamente de a ter n'esta algibeira. Já depois de estar em casa eu a vi, e até lhe peguei.

--«Talvez a tivesse confiado a alguem!--tornou Camilla com o mesmo sorriso estereotypado nos labios.

--«A quem?--perguntou Eduardo com a maior ingenuidade.

--«Eu sei! A alguem que a visse, que gostasse d'ella, e que a desejasse conservar por algum tempo.

--«Ora essa! Não pódes suppôr que eu fizesse tal!

--«E porque não? Os homens julgam que tudo lhes é permittido.

«Mas Eduardo não a ouvia. Tinha-se recordado das contas que fizera, e tinha corrido a revolver os papeis que estavam em cima da secretária. Eu, que via a má figura que o negocio ia tomando, não desgostei de que elle tomasse aquella resolução.

«Comtudo, debalde Eduardo deitou ao meio do chão toda a papelada com uma impaciencia febril, debalde tentou, depois de os ter reunidos, separal-os um a um. Eu não apparecia; preza na minha esquininha, sem poder revelar por fórma alguma onde estava, assisti, espectadora muda mas não indifferente, áquella caçada férvida, em que tanto interesse tinham em se encontrar a caça como o caçador, mas que apesar d'isso ficava sem resultado. Vi os papeis, impellidos pela mão de Eduardo, revolutearem nos ares em torno de mim, senti a sua mão impaciente pousar em cima das minhas borlas, sem saber que estava a meia pollegada de distancia da extremidade dos seus dedos o objecto que tanto procurava. E elle bafejava-me com o halito e não tinha um presentimento que o advertisse, desviava com a mão tremula os papeis que me encobriam, e de nenhum d'elles saia uma voz mysteriosa que lhe dissesse: «Para conseguires esse thesouro, que tu pagarias agora com dez annos da tua vida, basta-te abaixar a cabeça, e estender a mão.»

«Finalmente Eduardo, pallido, com a fronte inundada de suor, deixou-se cair prostrado em cima de uma cadeira, e dirigindo-se a sua mulher, disse com voz sumida:

--«Creio que a perdi.

«Camilla não se pôde conter. As lagrimas, tanto tempo retidas, rebentaram finalmente, e inundaram-lhe as faces.

--«Era isso que eu esperava havia muito tempo, bradou ella com voz entrecortada. Eis a resposta com que não só pagam a minha dedicação, mas tambem com que pretendem illudir a minha boa fé. Anda! trabalha com amor, com alegria, despende n'essa pobre bolsinha thesouros de affecto, sorri só ao pensares que essa obra das tuas mãos vae ser a constante companheira d'aquelle em que tu só pensas, por quem tu só vives, cuja apparição te enche de prazer, cuja ausencia te faz ficar immensamente triste. Ai! quanto te illudes, pobre louca, esse teu mimo ha de ser desprezado, porque tu tens esse titulo malfadado de esposa, e o amor conjugal é uma coisa altamente ridicula. Acceitam com desdem o teu presente, e vão depressa offerecel-o á primeira namoradeira que prender, nas suas rêdes vulgares, a ave fugida do ninho da familia, ninho cuja prisão lhe é insupportavel. Devia ser esta a minha sorte. Ninguem se exime a ella.

--«Ih! Jesus! Ih! Jesus!--dizia o pobre Eduardo com as mãos na cabeça; mas, filha... eu sou um estouvado... a bolsa ha de estar por ahi... Da nefanda traição de que me accusas é que sou completamente incapaz.

--«Traição!--tornava Camilla procurando, sem o conseguir, conter o pranto; póde-me trahir á sua vontade que me é completamente indifferente. Engana-se se julga que eu dê o menor apreço á sua fidelidade.

--«Mas n'esse caso porquê?

--«Cale-se! Diga-me: zombaram bastante de mim? Riram-se das minhas creancices? Quantas caricias lhe valeu esse sacrificio tão pouco custoso?

--«Isto é demais! Juro-te...

--«Cale-se. Quanto mais jura mais mente. Tambem me jurou amor eterno, e...

«E a pobre senhora desatou a soluçar, e caiu sentada n'uma cadeira. Eduardo, com as lagrimas nos olhos, ajoelhou aos pés d'ella, e exclamou com voz commovida:

--«Camilla, não chores que me despedaças o coração. Sou um grande criminoso, mas não mereço castigo tão cruel. Bem sabes que o amor que te consagro é immenso, é exclusivo, e que, desde que te conheço, nunca mais ergui os olhos para outra mulher. Camilla...

«Mas esta levantou-se enxugando as lagrimas, e disse-lhe com modo friamente desdenhoso:

--«Aproveite a inspiração para algum arrufo que tiver com a baroneza.

«E saiu da sala, deixando ficar o pobre Eduardo com um joelho no chão, as mãos erguidas, a bocca aberta, espantado, aterrado, paralysado, petrificado, estupefacto!

«Finalmente levantou-se, dirigiu-se de novo á secretária, e procurou entre os papeis. Com o revolver caíram alguns, e eu caí d'envolta com elles; o acaso fez-me ainda ficar tão mirrada entre duas folhas, que, quando Eduardo veiu procurar ao chão, escapei com grande desespero meu ás suas pesquizas. Um tal accesso de desespero se apoderou do meu dono, que, pegando n'um grande mólho de papeis, no meio dos quaes ia eu, sem elle o saber, amachucou-o, e depois enraivecido, atirou-o pela janella fóra. O vento desfez o mólho, e n'este instante ouvi dois gritos, um de Eduardo, outro de Camilla, que estava n'uma outra janella por traz dos vidros.

«O vento forte que soprava, tinha-me separado dos papeis, meus involuntarios carcereiros, eu caía magestosamente isolada, á vista dos dois conjuges, sobre as pedras da rua.

VIII

«Nunca vim a saber o que se passára na casa, d'onde fôra tão bruscamente e tão involuntariamente expulsa! Apenas eu caíra no chão, um gaiato de pé descalço, que passava por acaso, abaixou-se, apanhou-me, e largou a correr, apertando-me nas mãos, com uma tal velocidade, que, por mais ligeiro que fosse Eduardo em me vir apanhar, logo percebi que não havia esperança alguma de que o conseguisse.

«A corrida era desenfreada. Apertada na mão callosa do garoto, eu, habituada ao fino contacto das mãos aristocraticas, que até ahi me tinham manuseado, sentia dôres atrozes, e uma profunda humilhação. Eu, a favorita dos opulentos, tratada assim tão irreverenciosamente por um rapaz pertencente á escoria da sociedade! Ao meu passado de gavetas de secretárias, de sophás, de divans, de tapetes, ia succeder um futuro de palheiro, de calças esfarrapadas, de degraus humidos de escadarias. As feridas abertas na minha pelle, tão cuidadosamente curadas e cicatrisadas pela minha senhora, iam agora ser abandonadas, e talvez alargadas pelos dedos travêssos do rapaz da rua. Tudo isto ia eu pensando, em quanto o meu roubador corria a bom correr, primeiramente pelas ruas da cidade, e depois já pelo campo.

«Ninguem se tinha importado com elle. Um rapaz descalço á desfilada, não é um caso tão grave, e tão raro, que os encarregados da policia descessem da sua dignidade, para inquirirem o que motivára a carreira despedida em que elle ia.

«Chegou ao pé de uma fonte, e, pensando provavelmente que já estava fóra do alcance dos seus perseguidores, entendeu que podia descançar. Por conseguinte estirou-se em cima da relva, e tirando da algibeira um lenço muito esfarrapado, começou a limpar o suor que lhe escorria pelas faces.

«Estavamos já nos primeiros dias da primavera, e os campos revestiam-se de um manto verdejante, que os malmequeres e as boninas esmaltavam. A agua da fonte corria com um doce murmurio, e myriades de insectos com as azinhas doiradas pelo sol, esvoaçavam zumbindo pelo prado. O sôpro, mysteriosamente vivificador da primavera, percorria a creação.

«O meu novo possuidor deitara-se, como já disse, em cima da relva, e collocára-me ao seu lado. Para mim tudo quanto me rodeava era completamente novo. Eu nunca tinha saído da cidade, e o aspecto dos campos enchia-me de prazer. Parecia-me que respirava um outro ambiente, que via um céo mais largo, mais azul! Um enchame de novas sensações se agitava dentro de mim.

«Assim estava eu boqui-aberta, olhando para tudo com uma alegre curiosidade. As feveras da herva que se agitavam em torno, mettiam as suas cabecinhas tambem curiosas pelos intersticios da seda, afim de observarem que monstro desconhecido eu era. As boninas _coquettes_ como todas as flôres, mostravam-me com desvanecimento a sua formosura, para verem se d'ellas me enamorava. Era a tentação que todas as formosas sentem, de fascinar os estrangeiros. Os dois proverbios: «Ninguem é propheta na sua terra» «Santos de casa não fazem milagres», são, n'este caso, da mais escrupulosa exactidão. As abelhas, que vem de fóra, extrahem mais depressa a essencia das flôres, do que as que pertencem á colmeia do jardim.