Chapter 7
--A lenda que tive a honra de submetter á apreciação de vv. ex.^{as}, concluiu o doutor, foi escripta pela ex.^{ma} sr.^a D. Leonor de Mattos e Vasconcellos, filha do nosso excellente amigo, visconde da Fragosa.
--Tu, Leonor! exclamou Henrique Osorio estupefacto.
--Tu, filha! disse a viscondessa com os olhos rasos de agua.
--Eu logo vi que tinha sido ella, exclamava o pae todo ufano.
Confusa no meio de todos os comprimentos, com que em todas as familias se festejam as mais insignificantes estreias litterarias do filho mimoso da casa, Leonor nem ousava erguer os olhos para Henrique. Este contemplava-a pasmado, depois mirava a furto Isaura, um pouco fria, um pouco descontente com a ovação da sua _amiga_, e evidentemente de si para si lamentava que não fosse a pallida menina a sonhadora das phantasias da _Egreja profanada_.
Mas tambem, quando tornava a mirar Leonor, e a via modesta, perturbada, evidentemente envergonhada de ser o alvo de todas as attenções, agora mil vezes mais affavel com Isaura do que até ahi, como que pedindo-lhe perdão do seu involuntario triumpho, Henrique não podia deixar de dizer de si para si que havia um abysmo entre a pretenciosa frivolidade de Isaura e a desaffectada simplicidade de Leonor, que bem se via que não dava ao seu conto maior valor do que elle merecia, e que, escrevendo-o, parecia ter querido mostrar apenas que não era estranha ás altas preoccupações do espirito, e que a sua phantasia tambem tinha azas para se arrojar ao mundo do ideal.
E, emquanto a conversação volteiava alegremente em torno do conto de Leonor, emquanto uns narravam os calafrios que tinham sentido, e outros felicitavam o leitor e a auctora, Osorio, encostando a fronte na mão, ficou profundamente pensativo.
Instantes depois, dispersava-se a companhia, e Leonor, passando junto de Henrique para se retirar para o seu quarto, sentia poisar na sua mão, para a demorar, a mão tremente do seu companheiro de infancia.
Ella estremeceu toda, como se se tivesse posto em contacto com uma garrafa de Leyde.
--Sabes, disse-lhe elle, que achei encantador o teu conto?
--Sabes que te não acredito? respondeu ella, rindo, e já senhora de si.
--Oh! eu não faço a critica litteraria do romance. É provavel que tenha innumeros defeitos. Digo-te apenas que me impressionou. Quando o escreveste?
--Hoje!
--Hoje? acudiu elle cravando em Leonor um olhar profundo.
--Sim, tornou ella com o coração a bater-lhe violentamente, córada até á raíz dos cabellos, mas resoluta, quiz-te mostrar que já passou para mim o tempo das bonecas, e que o que me preoccupa o coração e o espirito não são já as puerilidades dos nossos brinquedos de outr'ora, mas os affectos e as paixões da mulher.
Henrique apertou-lhe docemente a mão.
--Foi por minha causa, pois, que espertaste a phantasia, para escreveres essa lenda? Tive eu a ventura suprema de preoccupar devéras o teu espirito intelligente? de fazer pulsar com mais força o teu ingenuo e nobre coração?
--Henrique! murmurou ella.
--És um anjo, Leonor! disse elle em voz baixa.
O doutor Macedo encaminhava-se para onde estavam os dois. Leonor despediu se, e toda palpitante de commoção e... dil-o-hemos... tambem!... de alegria, dirigiu-se para o seu quarto. O doutor Macedo sorriu-se para Henrique, e murmurou maliciosamente:
Si je vous le disais pourtant que je vous aime, Qui sait, brune aux yeux bleus, ce que vous en diriez?
--O que! era esta, doutor? exclamou Henrique.
--Pois quem, meu creançola? É necessario ter a myopia amorosa dos vinte annos para o não perceber ha immenso tempo.
--Que quer você, Macedo! tornou Henrique, Leonor foi minha companheira de infancia. Havia entre nós, em creanças, uma certa desproporção de edades. Entre dois pequenitos uma differença de cinco annos abre um abysmo! Na mocidade é um curtissimo intervallo. Costumei-me a vêr sempre em Leonor uma creança. A mulher feita revelou-se me agora, ao ouvir lêr o conto que ella escrevêra. Então contemplei-a, e li nos seus formosos olhos a bondade da sua alma, e a virgindade do seu affecto. Só agora percebi o tremor da sua voz nas palavras que me dirigia! E eu passava junto d'ella quasi sem a conhecer!
--Meu amigo, tornou Macedo, isso é uma historia vulgar. Tem a gente ao pé da porta um lago tranquillo, risonho, córado pelo esplendor do sol, nunca se lembra de mergulhar n'essas aguas limpidas para colher a perola que lá brilha no fundo, vae procural-a então ao mar das tempestades, mergulha, e encontra ostras. Boa noite, meu amigo.
E dirigiu-se para o seu quarto. Henrique imitou-o, mas n'essa noite não dormiu. A imagem que fluctuava diante dos seus olhos semi-cerrados, não era, não, a pallida imagem de Isaura.
* * * * *
Devemos dizer que na noite immediata, esqueceu completamente a hora fatidica, e que tendo Lucio Valença pedido a palavra ás dez horas e meia da noite, allegando que era longo o seu romance, que, sendo phantastico, por isso que o personagem principal era um ente inanimado, tinha comtudo uma pequena parte propriamente legendaria, e que portanto podia começar a ser lido antes da meia noite; acolhe-se com applauso esta idéa, e Lucio Valença começou logo depois do chá a leitura do seu volumoso manuscripto. O doutor fizera uma careta ao avaliar o numero de paginas que ia ter que ouvir; Henrique Osorio e Leonor, enlevados nas doçuras de um amor nascente, não tendo olhos senão um para o outro, amaldiçoavam a leitura que os ia privar de algumas horas de doce conversação; Isaura, despeitada, furiosa por ter visto fugir-lhe um dos seus vassallos, e mais furiosa ainda por lhe falharem todos os manejos que empregava para reconquistar o inconstante, que tratára com tão soberbo desdem quando o tivera nos seus ferros, dirigira de pura colera as suas baterias para Lucio Valença, e preparára-se portanto para ouvir o conto com a mais profunda attenção.
O visconde da Fragosa, o conselheiro Madureira e um honrado e silencioso proprietario de Val de Prazeres, que vinha completar a partida do visconde, não abandonaram sem um suspiro o _boston_. Resignaram-se, porém, e Lucio Valença, presentindo vagamente a hostilidade do auditorio, começou com voz não muito firme a leitura do manuscripto, que se intitulava _Memorias de uma bolsa verde_.
MEMORIAS D'UMA BOLSA VERDE
I
Um dia fôra eu assistir, por curiosidade, a um leilão que se fizera em casa de uma rica viuva que fallecêra. Os parentes, apressados em se desfazerem de todos esses moveis, que para elles não tinham valor algum, abriram o leilão apenas se fechou a campa que ia encerrar a pobre finada. O que importavam aos herdeiros esses pobres livros, por exemplo, sobre os quaes se debruçàra tantas vezes a fronte encanecida da viuva, esses mysteriosos confidentes dos seus pezares e das suas saudades, cujas paginas teriam sido regadas com tantas lagrimas, e que tantas vezes teriam repousado sobre os seus joelhos tremulos, quando ella, interrompendo a leitura nocturna, fitasse os olhos humedecidos no sitio onde seu marido se costumava sentar, a lampada a cuja doce luz tinham tantas vezes travado uma d'essas deliciosas conversações intimas, tornadas mais suaves ainda pelo conchego do lar, e pelo prazer de sentir a chuva bater nas vidraças, e o vento gemer de caixilhos das janellas? Que significação tinham essas coisas para os corvos ávidos, que esperam anciosamente que o corpo se transforme em cadaver, para descerem em bandos a saciar a fome impaciente? E quem sabe se, reunidos em volta do leito mortuario, não miravam com os olhos affectadamente compungidos, onde brilhavam algumas lagrimas de convenção, os trastes do quarto, e os proprios lençoes que agitava o estertor da moribunda? Quem sabe se elles não estariam já calculando o valor approximado d'esses objectos? Ai! todo o anjo, que baixa a este mundo, tem um demonio que lhe espia os passos, que o segue cautelosamente sorrindo com um sorrir diabolico, que esconde na sombra projectada pelas azas brancas do habitante do céo as negras azas do habitante do inferno, e que, apenas aquelle acaba de cumprir a sua missão divina, começa a cumprir a sua missão infame, e a desfazer por todos os modos o effeito salutar produzido pela candida apparição.
Após o anjo do amor vem o demonio do ciume, após o anjo da caridade o demonio da ingratidão, após o anjo da morte o demonio da cubiça.
Morre uma creatura boa, pura, santa; vem um anjo de Deus cerrar-lhe os olhos, e levar para os céos, no regaço da sua tunica transparente, o espirito immaculado que se desprendeu do invólucro terreno. No rosto do cadaver, sereno e tranquillo, fica como que um reflexo do clarão que derramaram sobre elle as azas luminosas do Senhor. Nada mais proprio para inspirar respeito do que essa morte socegada, tão socegada como a de um passarinho que esconde sob a aza a gentil cabecinha. Uma suave compuncção se apodera do animo de todos os circumstantes. Ninguem ousa perturbar o magestoso silencio da camara funeraria; todos temem profanar a augusta santidade d'aquella scena. Mas o demonio da cubiça lá estava espreitando á porta com o seu olhar de tigre. Assim que o anjo bateu as azas, entrou pé ante pé, debruçou-se sobre todas as frontes pendidas, bafejou-as com o halito repugnante, e logo todos se ergueram apressadamente, e trataram de fazer desapparecer o cadaver, de annunciar o leilão, de preparar tudo para se reduzir a dinheiro, e para se fazerem as partilhas. «É preciso tratar da vida», dizem elles. Regateiam-se as despezas do enterro, e, para se resarcirem d'ellas, não conservam um unico objecto, por mais desprezivel que seja o seu valor. Ahi tem pouco mais ou menos a scena horrenda que precede um acto tão natural como é um leilão.
Por isso eu sempre resinto uma impressão desagradavel, quando me vou confundir com a multidão de compradores que penetram, com tão pouco respeito, n'esses quartos outr'ora tão socegados, agora tão ruidosos.
No dia em que assisti ao leilão em que fallo, occorreram-me estas idéas que acabo de expender.
Já se tinha vendido a maior parte da mobilia. Os sophás, as mezas, as cadeiras, os livros, tudo se dispersára já. O pregoeiro continuava a fazer apparecer os differentes lotes, e, com o ouvido á escuta, repetia machinalmente os lanços dos circumstantes com uma rapidez, e com uma segurança taes, voltando a cabeça ora para um lado, ora para outro, que pareceria ser antes machina do que homem, se não fossem as chalaças com que entremeiava o seu pregão monotonamente saltitante (se assim me posso exprimir). Eu estava encostado a uma porta, e contemplava com certa tristeza aquelle grupo, em que figuravam os rostos indifferentes dos compradores, as physionomias ávidas dos herdeiros, e a cara maliciosamente alvar do pregoeiro, pago para alegrar a assembléa com os ditos joviaes que tinha fabricado, e que provavelmente já lhe teriam servido para dezenas e dezenas de leilões d'aquella especie.
Finalmente appareceu um objecto, cuja _exhibição_ (perdôem o anglicismo) foi acompanhada com um commentario burlesco do pregoeiro, e acolhida por uma gargalhada da assembléa.
Era uma bolsa de seda verde com borlas de oiro. Mas que bolsa, senhores! Era necessaria toda a cortezia do pregoeiro para conservar esse nome a um objecto que já não tinha fórma! Era uma bolsa de cabellos brancos! Rota, esburacada, sem côr definida e em cujas borlas o oiro brilhava... pela sua ausencia! O pregoeiro passeiou-a triumphantemente por diante de todos, e todos se riam, e todos zombavam, e todos faziam uma observação que redobrava as gargalhadas.
Finalmente o pregoeiro passou por diante de mim, e mostrou-m'a. Foi então que eu a pude vêr bem.
Se a podessem vêr como eu a vi, haviam de se compadecer d'ella. No meio da alegria geral, que a rodeiava, ella só parecia chorar, e conservar uma triste recordação d'aquella de quem todos se esqueciam! Se a podessem vêr como eu a vi, baloiçando-se tristemente na mão grosseira d'aquelle homem que a estortegava, apertando os seus frageis membrosinhos de seda! E a pobre bolsa parecia olhar com uma tristeza profunda para todos aquelles rostos crueis, em que a zombaria se pintava, e de cada um dos rasgões que tinha aberto no seu corpinho, d'antes tão gentil, a mão destruidora do tempo, parecia sair um gemido.
Que profunda impressão me causou o seu aspecto!
Talvez os meus leitores chegando a este ponto, se riam de mim. Pois não tem rasão! Eu acredito que os objectos inanimados, que nos rodeiam, recebem de nós como que um reflexo de sensibilidade. Quando morre uma pessoa n'uma casa, não vêem como tudo toma um aspecto luctuoso? A sala, em que tantas vezes estivemos sós em quanto essa pessoa vivia, tinha por acaso o silencio lugubre que lhe notamos apenas ella deixa de existir? Os livros, cuja leitura desperta em nós o enthusiasmo, serão simplesmente mudos reproductores dos pensamentos do escriptor, e não conservarão como que o vestigio do talento, que por intermedio d'elles se manifestou? E qual será o motivo d'essa inexplicavel affeição que nós consagramos a certos moveis queridos? do pesar que sentimos ao vêrmo-nos obrigados a abandonal-os?
Quando alta noite acordam, e, sem poderem conciliar o somno, ficam deitados de olhos abertos a contemplar as trevas, e a escutar o silencio, não sentem de repente um indizivel murmurio, e umas inexplicaveis luzes encherem o quarto e rasgarem a escuridão? Como explicam isso? Eu creio firmemente que esse ruido, que se não ouve quando não estamos n'essas circumstancias, é o que produzem as mysteriosas conversações dos espiritos invisiveis que existem escondidos em cada um d'esses moveis, e que alta noite se reunem, para segredarem uns com os outros, e que esse tenue fulgor é resultado do scintillar das pequeninas azas d'esses sylphos subtis.
Quer me acreditem, quer não, o que eu lhes posso assegurar é que a tal pobre e velha bolsa verde, quando viu a minha physionomia séria no meio de tantos rostos zombeteiros, lançou-me um olhar supplicante a pedir-me que a livrasse d'aquella triste posição.
E o caso é que a comprei, com grande espanto de todos os circumstantes, que principiaram por olhar para mim com uns olhos muito abertos, e que concluiram por sorrirem uns para os outros, dando a entender que me julgavam doido. O pregoeiro entregou-me a bolsa, e recebeu o dinheiro, tendo cuidado de interpôr, como se fosse por acaso, uma cadeira entre nós ambos, com receio que me d'ésse alguma furia.
Escuso de dizer que ninguem me disputou o lanço. Nem mesmo esses agentes, que tem, em giria de leilão, o nome expressivo de _picadores_, ou, por abuso de metaphora, de _toireiros_, ousaram erguer a voz para m'a fazerem pagar mais caro.
A surpreza emprestára-lhes um bocadinho de consciencia.
Pois o que é certo é que eu comprei a bolsa, e saí com ella muito ancho, sem me importar com as largas alas que me abriam as pessoas presentes, imitando a prudencia do que m'a vendêra.
E, como eu passo a mostrar-lhes, não tive motivo de me arrepender.
II
Era uma noite de maio. Eu estava sentado á meza do trabalho. Um caderno de papel, ainda virgem de letras, estendia-se diante de mim aterrador na sua alvura, que me advertia mudamente da obrigação que eu tinha contrahido de a fazer desapparecer debaixo de uma alluvião d'esses monstrosinhos negros, que se chamam letras, que, amontoando-se umas em cima das outras, formam as palavras, essas mysteriosas colmeias, dentro das quaes se agita o candido enxame das idéas. O tinteiro, boquiaberto, não cessava de me mostrar o oceanosinho sombrio que tumultuava dentro de seus vitreos muros. A penna, debruçando se sobre esse mar tenebroso, contemplava-o com indifferença, preparando-se para o sulcar atrevidamente, quando eu julgasse opportuno começar a navegação.
Uma janella aberta oppunha aos meus designios um obstaculo insuperavel.
Uma janella aberta?--diz o leitor; porque a não fechava?
O leitor de certo se não recorda de eu lhe ter dito que estavamos em maio.
Fechar uma janella quando a fada da primavera percorre as urnas das flôres, colhe todos os aromas que encontra, e vae espalhal-os prodigamente no regaço das brisas, que doidejam depois na atmosphera, alegres como as creanças folgazãs que correm na campina com as suas arregaçadas de flôres! Fechar uma janella! E porque não fecha o leitor os ouvidos quando está escutando uma melodia de Bellini, e os olhos quando está vendo um quadro de Raphael?
Eu, com um charuto na bocca, docemente recostado na minha cadeira, aspirava os perfumes do ambiente, sem me importar com as provocações do papel, com as agitações da tinta, e com as suggestões da penna. Devo até dizer, para ser completamente veridico, que me deliciava em desprezar tudo isso.
_Fi donc!_ Um escriptor!
Eu queria vêl-os no meu logar! Uma larangeira a enviar-me perfumes perfidos, e, quando me via prestes a estender a mão para a penna, a baloiçar-se sem piedade, e a remetter-me directamente nas azas da viração uma taça inebriante, cheia a trasbordar dos seus effluvios! E um rouxinol, um travesso rouxinol, muito escondido n'uma alcovasinha de folhas, que o demonico da laranjeira lhe tinha arranjado de proposito para acabar de me tentar, a desentranhar-se em melodias que era um enlêvo escutal as! Sem fallar n'umas roseiras, que a pretexto de serem _dilletanti_, e de serem impellidas pela aragem, prepassavam por diante da minha janella para ouvirem mais de perto aquelle Tamberlik plumoso! Não mettendo em linha de conta a lua, que se ria no céo a bandeiras despregadas, escancarando com os frouxos de riso umas nuvens teimosas, que por força queriam esconder-lhe as perolas que ella com as gargalhadas mostrava á natureza, e que tinha a innocente vaidade de contemplar espelhadas nas fontes! Vão lá, com tudo isto, debruçar-se sobre um caderno de papel e escrever!
Escrever; mas escrever o quê? Um romance de amores?! Um poema?! Romances e poemas tinha eu na imaginação, sublimes, portentososos, admiraveis, como todos os tem, e como ainda ninguem os escreveu.
Se elles se desprendem, capitulo a capitulo, estrophe a estrophe, e vão fluctuar na atmosphera de envolta com os perfumes da rosa, com os canticos do rouxinol, e com os raios da lua!
E, apesar d'isso, não deixam que outros, que se possam entornar sobre o papel, nos occupem ao mesmo tempo a imaginação.
Assim estava eu, torturando o espirito para obter uma idéa, e encontrando n'elle mundos de poesia, não digo bem, um chaos de poesia, cujo _fiat lux_ eu nunca poderia descobrir.
De vez em quando revestia-me de animo, e tentava levantar-me para ir fechar a janella! Mas a larangeira baloiçava-se e deixava cair uma chuva de perfumes, o rouxinol redobrava de gorgeios encantadores, os ramos da roseira prendiam-se, ao perpassar, no parapeito da janella, e deixavam ficar as suas rosas de cem folhas, purpureas e embalsamadas, a mirarem curiosamente o meu quarto; a lua desprendia indolentemente dos hombros o seu manto de luz, arrastava-o no firmamento, e eu caía desanimado na cadeira.
De repente senti aos meus ouvidos uma voz ligeira como um murmurio, que me fallava n'uma linguagem desconhecida, mas que eu, por uma intuição inexplicavel, comprehendi immediatamente.
Voltei-me, e com grande pasmo, vi a bolsa verde em cima da meza.
Era ella quem me fallava.
--Amigo, dizia-me a velha bolsa, tu valeste-me n'uma grande afflicção, e é justo que tenhas a recompensa. Queres escrever? A tua imaginação preguiçosa, enervada pelos effluvios d'esta noite de primavera, recusa-se a dictar-te o que deves lançar no papel? Eu substituirei a tua imaginação. Pega na penna, e escreve o seguinte no alto d'essa pagina branca: «_Memorias d'uma bolsa verde_.»
Eu, estupefacto, obedeci machinalmente, e ahi vão vêr os meus leitores o que a pobre bolsa velha me dictou. Desculpem os erros do auctor. Não ha nada que se pareça menos com um litterato do que uma bolsa. A rasão é muito simples. A bolsa tem muitas vezes dinheiro, e um escriptor... Vamos ao assumpto.
III
«Gira, gira, agulha ligeira, impellida por mão tão delicada. Cinge a fragil seda em suave abraço, enlaça os tenues fios uns aos outros, e prepara esse corpinho gentil, a quem ha de o amor dar vida.
«O amor, sim. Não vês a loira cabecinha do anjo de meigo sorriso, debruçando-se por cima do hombro da tua formosa dona, a contemplar curiosamente os teus rapidos movimentos?
«Gira, gira, os instantes são preciosos, e póde subitamente chegar quem transtorne a surpreza tão cuidadosamente preparada! Gira, gira sem cessar, agulha, agulha subtil.
«Que suave serenidade transparece no limpido olhar d'aquella cuja mão febril te dirige! Quando um sorriso anima a graciosa physionomia, contempla-se com enlêvo o céo azul que lhe ri nos olhos, e as perolas, que os labios entre-mostram! A quem fôr perspicaz tambem esse sorriso mostra a alma, que é mais celestial do que o olhar, mais candida do que as perolas da boquinha.
«Mas a esse limpido firmamento doira-o agora o sol de um affecto suave, cujo brilho não é offuscado por nenhuma nuvem. Os seus raios aquecem-lhe o coração, e alegram-lhe ao mesmo tempo todos os horisontes da vida.
«Porque vem misturar-se, comtudo, uma inquietação febril com o sentimento de felicidade que lhe anima as feições? Oh! não receieis nada! Essa mesma inquietação é um prazer. Teme não ter completo o presente que desejava offerecer a seu marido, que fazia annos n'esse dia.
«E por isso a agulha girava, girava com impetuosidade, e os fios de seda agrupavam-se com uma ligeireza inconcebivel!
«Está a concluir-se a tarefa. A agulha approxima-se do sitio marcado. Um mate, um mate risonho lá surge no horisonte. Apressa-te, agulha, faze prodigios de celeridade. Emfim!
«Dera-se o mate. As doiradas borlas pregaram-se instantaneamente. Eil-o, o gentil producto de oito dias de trabalho! A formosa senhora contempla-o com ternura. O amor sacode o regaço cheio de perolas, e em cada ponto faz pullular mil pensamentos apaixonados.
«O ente, que nascera, era nem mais nem menos do que esta humilde bolsa verde que lhe está dictando essas linhas, senhor mandrião.
IV
Quando cheguei a este ponto interrompi eu a bolsa.
--Minha senhora, observei com a respeitosa cortezia que um escriptor consagra ao narrador officioso que lhe conta uma historia, v. ex.^a tem fallado até agora n'uma linguagem que me tem penetrado de admiração, porque me parece biblica, e o emprego d'esse estylo é muito para apreciar n'uma bolsa que não foi contemporanea de Isaias. Mas se v. ex.^a antes de nascer falla n'esse tom, receio muito que, se continuar na ascensão, quando chegar á velhice, já os leitores, ainda que se mettam no balão de Nadar, não serão capazes de a seguir com a vista n'essas espheras inaccessiveis. Pedia, portanto, a v. ex.^a o favor de baixar o vôo á terra, algumas vezes, afim de que os nossos leitores percebam alguma coisa do que se fôr passando, sacrificando por conseguinte o diploma de socia da academia... do amphiguri, que, segundo me parece, está em caminho d'obter. Desculpe-me esta ligeira observação.
A bolsa olhou para mim com modos um tanto severos, e respondeu:
--Admiro-me bastante de tu te queixares. Sabe que nem cheguei a dar-te uma ligeira amostra do estylo pomposo que eu deveria empregar, e que te poupei o prologo obrigado que precede lá entre vós outros, os homens, a magra biographia d'aquelles, a quem nomeaes grandes, com a mesma convicção com que os antigos romanos faziam a apotheose dos Tiberios e dos Caligulas. Já vês que a rajada vae começar, e que se me excitas mais, bailam-te no meu discurso gregos, assyrios, indios e hebreus. Mas voltemos ao que importa. Em logar de te queixares, devias-me agradecer o eu não ter dito uma palavra só ácerca do estado da Europa na epocha do meu nascimento, nem de ter fallado nos grandes homens que se agitavam no mundo, em quanto a minha gentil creadora unia uns aos outros os fios que me haviam de formar. Podia fazer-te gastar com estes preambulos dez paginas, pelo menos. Não o fiz, e tu accusas-me! Para te castigar não devia dizer nem mais uma palavra.