A Lenda da Meia-Noite

Chapter 6

Chapter 63,843 wordsPublic domain

--É que não resulta bem algum ás almas de dois christãos de estarem assim no mar por estes sitios ao bater da meia-noite.

--Porque?

O barqueiro olhou com inquietação em torno de si, e depois murmurou em voz baixa que mal se ouvia:

--É por causa da _egreja profanada_!

O esbelto moço olhou espantado para elle.

Durante a conversação, o pescador desamarrára o barco, e, lançando mão dos remos, déra-lhe um impulso vigoroso. Jà estavam longe da praia, as ondas vinham bater no costado do bote com um murmurio queixoso, que acompanhava o som compassado do bater dos remos na agua.

O pescador tornou a fitar o céo com inquietação, e, sem responder a uma nova pergunta do seu passageiro, curvando-se para diante, metteu os remos nas ondas, e, entezando depois os musculos vigorosos, fez, erguendo-os de novo, espadanar uma cascata de espuma de cada lado do ligeiro bote.

Este, como um corsel generoso, que ao sentir enterrarem se-lhe nos ilhaes as esporas do cavalleiro, se empina primeiro, depois, sacudindo as crinas, desata em vertiginoso galope, e, saltando de um pulo uma onda, que vinha orgulhosa para elle, deslisou por sobre as aguas com incrivel rapidez.

Ainda o passageiro não tivera tempo de repetir a pergunta, quando vibrou o espaço com as lentas pancadas da meia-noite, que soava lá muito ao longe, no sino de uma egreja situada á beira mar.

Produzia um effeito sinistro aquelle som distante. Cada uma das vibrações vinha, em intervallos eguaes, expirar no ouvido dos dois navegantes, e casar-se melancolicamente ao rugir contínuo das vagas.

O barqueiro deixou cair os remos, e bradou: «Jesus, meu Deus!» O mesmo seu amo não se pôde eximir a um inexplicavel receio.

Ambos silenciosos, o barqueiro com os cabellos em pé, o nosso enamorado com vaga curiosidade, e um tal ou qual terror, contaram as lentas pancadas do bronze sagrado.

Parece que aquellas vibrações não eram produzidas pelo simples sino de uma egreja, mas que fôra o anjo das vinganças do Senhor quem fizera vibrar o bronze, e quem lhe dera aquella voz sobrenatural e pavorosa.

Contaram uma... duas... tres... doze. A ultima vibração assemelhava-se a um gemido terno, ao uivo lamentoso do genio da meia-noite, que, abrindo as suas negras azas, annunciasse aos phantasmas o começo do seu imperio.

O barqueiro, que se levantára, caíu de novo no meio do barco e escondeu o rosto entre as mãos; seu amo soltou uma exclamação de espanto.

Um clarão avermelhado tingira subitamente as ondas, como se um incendio começasse a lavrar no fundo do Oceano. As vagas soltaram um gemido plangente, como creanças açoitadas.

E um concerto horrivel, formado por muitas vozes, erguera-se do fundo dos mares; e essas vozes cantavam os psalmos da penitencia.

Mas as palavras, cheias de uncção, e impregnadas de tristeza das sublimes poesias do rei propheta, tomavam uma accentuação ironica, como se passassem pelos labios requeimados dos anjos malditos.

No meio d'essas vozes roucas fez-se ouvir de repente uma voz suave e argentina de mulher, doce como o gemer da brisa nas solidões do Oceano, feiticeira como a voz das seductoras sereias.

Mas aquella mesma doçura tinha um não sei quê de medonho, e n'essas melodias celestiaes reverberava-se o fogo do inferno.

No meio das notas mais ternas, vibrava subitamente uma outra aspera e dissonante, que produzia o effeito que produziria no meio das harmonias da harpa o som do estalar de uma corda.

E essa voz tinha ao mesmo tempo uma profunda tristeza, uma plangente intonação, uma pungente ironia e um não sei quê d'attraente e seductor que fazia pensar na fatalidade.

Os olhos do moço passageiro encheram-se involuntariamente de lagrimas, e com os braços estendidos, perdido n'um vago extasi, parecia querer voar nas azas da melodia para o antro sub-marinho, onde se aninhava a infeitiçada sereia.

E a voz cantava:

Co'a vossa santa colera, raio que fere e brilha, ao impio que se humilha não fulmineis, Senhor!

N'este meu seio embebe-se a vossa frecha ardente, e a mão omnipotente me opprime em seu furor.

Da vossa ira o halito seccou-me membro a membro, e ai! se então me lembro do meu longo peccar, de como olvidei, réprobo, santos dictames vossos, oh! sinto até meus ossos um frémito agitar!

O fardo immenso e horrido da minha iniquidade, á voz da Divindade, a fronte me curvou. Da minha carne as ulceras corrompe-as a lembrança da impia atroz folgança, que a Deus me arrebatou.

Era triste, profundamente triste a voz, que assim cantava nos abysmos do Oceano as primeiras palavras do primeiro psalmo da penitencia. Ia enfraquecendo pouco a pouco até desfallecer quasi de todo no ultimo verso, mas então a voz vibrava de novo com aspereza, e era quasi uma gargalhada infernal, de desafio ao Eterno, o grito ironico com que voltava a cantar os seguintes versos:

Co'a vossa santa colera, raio que fere e brilha, ao impio que se humilha não fulmineis, Senhor!

N'este momento rasgaram-se as ondas, como se um novo Moysés lhes tocasse com a varinha magica. Entremostraram-se aos olhos do espantado moço as profundidades do mar. Foi isso rapido como um relampago, mas deu-lhe tempo sufficiente para vêr o interior de uma egreja gothica esplendidamente illuminada com uma immensa profusão de cirios. Uma longa fileira de guerreiros da edade média cercava os altares, mas no meio da nave campeiava, coisa estranha! a meza de uma orgia, e as taças de oiro, cheias de vinho espumoso, ostentavam-se em cima da toalha. Uma mulher formosa como os anjos, mas tendo na fronte pallida não sei que inexprimivel sêllo da maldição divina, ergueu-se, como se fosse sustentada por azas invisiveis, até á superficie dos mares. Cerrou-se de novo o abysmo, e as ondas purpureadas pelo reflexo dos cirios estenderam por cima d'essa mysteriosa egreja o seu liquido docel.

E o vulto feminino, com as vestes alvejantes ondeando por cima das vagas, e roçando a fimbria na orla da espuma, que o clarão vermelho fazia espuma de sangue, com a corôa da orgia ainda na fronte, encaminhou-se lentamente para o sitio onde o barco parára, porque o pescador ainda não ousára nem sequer levantar-se.

O phantasma deslisava por cima das ondas, como se invisivel mão o impellisse; já estava proximo do bote, e os seus olhos negros, onde scintillava uma chamma infernal, exerciam uma incrivel fascinação no nosso heroe. Afinal parou, e os seus braços estenderam-se vagarosamente para elle, a fronte pallida tombou-lhe para o hombro, como lyrio pendido pelo tufão. Ignota languidez suavisou-lhe o fogo do olhar. As tranças negras desprenderam-se-lhe e fluctuaram-lhe nas espaduas. Os labios descerraram-se, e a sua voz doce e melodiosa suspirou, como um triste queixume os versos:

N'este meu seio embebe-se a vossa frecha ardente, e a mão omnipotente me opprime em seu furor.

Cego, louco, fascinado, o juvenil passageiro do bote nem forças teve para resistir á seducção. Inclinou meio corpo para fóra do barco, estendeu as mãos, e ia precipitar-se nas ondas.

--Jesus! bradou o barqueiro.

O phantasma soltou um bramido de desesperação, as ondas rasgaram-se de novo, e quando o moço abriu os olhos, que fechára de deslumbrado pela chamma que faiscára nas pupillas negras da gentil desconhecida, já o vulto feminino desapparecêra.

Mas as ondas continuavam a conservar a sua côr escarlate, e o canto dos psalmos vibrava ainda na immensidade.

III

O terror tirára as forças ao barqueiro, o terror lh'as deu de novo. Lançou mão dos remos, e o bote afastou-se rapidamente d'aquelle terrivel sitio.

--Sabes a historia do que estamos vendo? perguntou o companheiro do pescador, com voz ainda agitada.

--Oh! se sei, senhor, é uma historia terrivel. Mas não é n'este sitio nem a esta hora que eu a hei de contar.

--Conta, tornou o interrogador imperiosamente, já estamos longe do ponto fatal, e a voz dos réprobos vae-se perdendo no horisonte.

O barqueiro hesitou um instante, depois principiou em voz tão baixa que mal se percebia, e sem deixar de impellir vigorosamente o bote, a seguinte narração:

«Havia aqui d'antes, ha um bom par de annos, e junto d'aquelle castello, cujas ruinas ainda póde divisar penduradas como ninho de aguias em cima das fragas, uma egreja que fôra mandada construir por um devoto fidalgo d'aquelle solar, fidalgo que morreu em cheiro de santidade. A igreja era tida em conta de milagrosa, e alli concorriam immensos fieis attrahidos pela fama do templo, e pelas virtudes do capellão, homem de vida austera, affectuoso para com os humildes e nada servil com os grandes, a quem dizia as verdades por mais amargas que fossem, quando entendia que assim o exigiam os deveres do seu ministerio.

«Vivia então no castello um fidalgo devasso, filho do fundador da egreja, o qual, se lhe herdára as riquezas, não lhe herdára as virtudes, porque os thesouros da terra na terra ficam, mas os thesouros do céo esses voltam com o seu possuidor para o seio do Omnipotente.

«Tinha esse fidalgo uma irmã. Linda era ella. Gentil a mais não poder ser. Dizem que o rosto é o espelho da alma, e se assim fosse, ninguem possuia mais formosa indole nem mais candido espirito do que a irmã de Guilherme, a filha do virtuoso Pelayo. Mas não era assim. A natureza esmerára-se tanto em lhe aprimorar a belleza physica, que se esquecêra de certo de cuidar com egual desvelo na formosura moral. É assim que dizem que Satanaz tem uma belleza seductora, e que seria um guapo archanjo, se o pé caprino não revelasse a quem se deixa fascinar pela etherea gentileza do anjo maldito, que está a contas com o pae da mentira. Infelizmente Ignez não tinha esse signal que a distinguisse dos anjos de que parecia irmã, e, se algum cauteloso enamorado, para tranquillidade de consciencia, lançasse uma vista de olhos para o pésinho encantador da formosa filha de Pelayo, não fazia mais do que completar a fascinação, e, em vez da agua benta, com que tencionava aspergil-o, era natural que o cobrisse de beijos, tão airoso era elle e tão pequenino, tão pequenino que parecia que a natureza, ao esquecer-se de lhe formar a alma, se esquecêra tambem de lhe formar o pé.

«Quando ella passeava a cavallo por essas ferteis varzeas, montada elegantemente n'um lindo cavallo preto, todos se ficavam enlevados a contemplal-a, e não havia donzella nem rico homem que não sacrificasse de boa vontade a vida para fazer brotar um raio d'amor na pupilla negra da gentil Ignez. Mas ninguem o conseguia, e o marmore d'aquelle rosto adorado nunca se purpureára com o rubor da paixão. Engano-me. Paixão sentia ella, vehemente, incestuosa, horrenda, e que lhe devia incendiar o rosto não no vivo escarlate do pejo de donzella enamorada, mas sim no rubor da vergonha e do remorso. A réproba amava seu irmão!

«E não imagine que ella occultasse essa paixão criminosa. Pelo contrario gloriava-se d'ella impudentemente. E o espectaculo, que davam aquelles dois impios, era um escandalo contínuo para os bons christãos dos arredores.

«Não se faz idéa das orgias freneticas e loucas, a que no castello se entregavam aquelles dois abandonados de Deus. Quem passasse á meia-noite pelo caminho que serpeia na montanha, e onde estava situado o solar defrontando com a egreja, havia de parar cheio de religioso terror ao vêr de um lado o immenso clarão das luzes incendiando as vidraças da sala da orgia, ouvindo os cantares ebrios, os risos descompassados, as blasphemias, as musicas voluptuosas, e dando com a vista do outro lado na casa do Senhor, muda, deserta, sepultada em trevas, como um terrivel archanjo que contemplasse com olhar sevéro os folgares dos malditos, e que esperasse silencioso que soasse a hora da punição.

«O mar batia de continuo nos rochedos, e aquelle ruido incessante, se o ouvissem nas salas, havia de lhes soar lugubremente como a voz justamente irritada do Deus vingador.

«A egreja e o mar! Diante do templo erigido pela piedade dos homens, diante do templo immenso em que mais se revela a imagem da Providencia, como poderia haver quem esquecesse por tal fórma os preceitos da lei divina?

«Pois havia! e á noite, quando na mysteriosa soledade da nave, se erguiam os mortos do seu leito de pedra para se ajoelharem diante do altar, quando o vasto Oceano desprendia dos seus labios de espuma o hymno religioso com que celebra a omnipotencia de Deus, accendiam-se as luzes no salão do castello, sentavam-se á meza da orgia Guilherme e Ignez e alguns cortezãos das suas devassidões, porque os seus eguaes todos se haviam desviado d'aquella Gomorrha amaldiçoada, sobre a qual cedo ou tarde cairia o fogo do céo; e a irmã do castellão, no fim do banquete, cingia a fronte com uma grinalda de rosas, empunhava a harpa, e cantava canções bacchicas com essa voz melodiosa, pura e vibrante, que os anjos lhe invejavam, para descantar os seus hymnos de louvor ao Eterno.

«Um dia o velho capellão, que fôra o primeiro padre que dissera missa na egreja cujo fundador fôra o pae dos dois devassos, dirigiu-se ao castello, tencionando chamar para o redil da egreja aquellas duas ovelhas desgarradas por atalhos de maldição.

«Nada conseguiu senão excitar o odio de Ignez, que ouviu furiosa as reprehensões do padre, e que foi immediatamente queixar-se a Guilherme da insolencia do sacerdote, e pedir-lhe, como premio de amor, a cabeça do digno homem, como outr'ora Herodias pedia a Antipas a cabeça de S. João Baptista.

«Não ousou conceder-lh'a Guilherme. Conservava ainda, no meio dos seus vicios, um respeito supersticioso por seu pae, e não ousava tocar na pessoa inviolavel d'aquelle a quem Pelayo confiára o templo que fundára.

«Não insistiu Ignez; mas projectos de vingança atroz calaram immediatamente n'aquelle espirito pervertido.

«Uma noite, noite de Natal, a chuva caía em torrentes, açoitando egualmente as vidraças do castello, illuminadas com o clarão do festim, e os vidros de côr da egreja atravez dos quaes coava a religiosa luz dos tocheiros accesos para se celebrar a tocante solemnidade da missa da meia-noite.

«O mar rugia de encontro aos rochedos, e soltava ora gemidos pavorosos, ora lamentosos queixumes.

«O vendaval corria infrene por sobre as ondas.

«De mais folias ainda do que de costume era testemunha o salão do castello. Os gritos dos ebrios ouviam-se cá fóra distinctamente, e faziam com que todos os que se dirigiam á missa se persignassem com horror.

«Sentada n'uma cadeira de espaldar, junto de seu irmão, Ignez, com os cabellos em desordem, soltos pelas espaduas núas, com a lascivia no olhar e na attitude, desferia a harpa de oiro e descantava as mais alegres canções.

«O vento e o mar soltavam cá fóra os seus tristes e lugubres lamentos.

«De repente soou meia-noite na torre da egreja. Os repiques da sineta annunciaram immediatamente que ia principiar a missa.

«Cessaram os risos e os cantares no castello de Guilherme. Só Ignez com o seu diabolico sorriso a pairar-lhe nos roseos labíos, exclamou:

«--De que vos temeis, nobres cavalleiros? Tão desgeitosa estou já no dedilhar da harpa, que lhe prefiram o agudo cantar da sineta? Tão enfraquecida está a minha voz, que cessem de a escutar para ouvirem o bronze de um campanario?

«N'este mesmo instante um raio fuzilou no espaço, inundando a sala com a sua luz phosphoríca, e o vendaval, redobrando de força, fez em estilhas uma das vidraças.

«Todos sentiram um convulso tremor percorrer-lhes as veias, e o proprio Guilherme limpou o suor frio que lhe escorria na testa. Ignez continuou:

«--Receiaes a tormenta? Quereis um conselho? Deixemos esta sala que o vento vae tornar inhabitavel, e que a chuva vae inundar, e vamos procurar um abrigo na egreja. Alli, sim, que é sala commoda. Utilisemol-a. Um ultimo copo de vinho, meus senhores, e façamos a transferencia.

«Todos obedeceram ás ordens da formosa Ignez. Beberam um copo de vinho, e ergueram-se bradando resolutamente: «Para a egreja.»

«O ministro de Deus subira n'esse instante ao altar revestido dos seus sagrados paramentos. Tornavam-n'o respeitavel o seu caracter augusto de immaculado sacrificador, e ainda mais o seu diadema de cabellos brancos, e a invisivel aureola de virtudes que lhe circumdavam a fronte.

«A multidão ajoelhada sentia como que o espirito de Deus baixar ao templo, evocado pelo santo sacerdote. O orgão começava a gemer os seus doces cantares. A tempestade parecia respeitar aquelle sacro asylo, suspirando plangente nas frestas ogivaes, e não rugindo pavorosa, como quando sacudia as suas negras azas em torno do castello.

«Tudo era socego e serenidade n'aquella divina estancia.

«Subito irrompeu pelo portal da egreja a turba dos ebrios, em descompostos cantares. Ficou gelada de terror a devota multidão. Perturbado quando erguia a Deus o immaculado espirito, o sacerdote voltou-se e deu com os olhos na bella Ignez, que vinha na frente encostando-se com insolente descaro ao braço de seu irmão.

«Inflammado em santa colera, o velho ministro do Senhor desceu os degraus do altar, e, dirigindo-se aos recem-chegados, bradou com voz sonora, em que vibrava o echo das iras de Deus:

«--Parae, não profaneis o templo, e não obrigueis a fulminar-vos o raio de excommunhão, que vos está impendente.

«Era venerando o vulto apostolico do santo varão. O povo caíu de joelhos, e a tempestade suspendeu os seus bramidos, como que respeitosa e tremula.

«Ouviam os elementos desvairados a voz do ministro do Omnipotente. Só ficavam cerrados os ouvidos dos impios.

«Era porque chegára a hora fatal, e a taça das iniquidades trasbordára emfim.

«Ignez sorriu-se meigamente para seu irmão. Que doce, que angelico sorriso! Quem diria que esse sorriso, que rescendia amores, era apenas um incitamento ao assassino?

«Pois foi. Guilherme allucinado arrancou do punhal, e feriu o velho sacerdote.

«O sangue espadanou da ferida, e salpicou, tingindo de escarlate o candido vestido de Ignez.

«A multidão fugira horrorisada, os criados, impios como seus amos, haviam trazido n'esse instante a meza da orgia.

«Mas assim que baqueou o sacerdote, a tempestade, suspensa por um momento, soltou-se com novo furor. Rugiu o vento nas frestas da egreja, fuzilaram os raios, bramiu, quebrando-se nos rochedos, o Oceano enfurecido, e os tumulos de pedra da egreja estalaram como se fossem de vidro.

«E do tumulo de mais primoroso lavor, surgiu, envolto na mortalha, o espectro de Pelayo, o fundador da egreja. Ondeiavam-lhe ainda as barbas nevadas sobre o funebre escapulario, e das orbitas cavadas, coisa horrivel! brotavam lagrimas ardentes.

«Ergueu-se, ergueu-se; já não tocava com os pés no chão marmoreo da egreja. O vento engolphando-se pelo portal do templo, agitava-lhe as pregas da mortalha. Com as mãos unidas, em attitude de oração, o velho finado, subindo lentamente nos ares, parecia um d'esses prophetas que o Senhor Deus arrebatava para as alturas do Empyrio.

«Quando chegou ao tecto, o tecto abriu-se como por encanto e o venerando finado continuou a sua magestosa ascensão na atmosphera que se esclarecia em torno d'elle, como se aquelle cadaver irradiasse luz.

«Os impios haviam ficado immoveis e attonitos de terror. Mas, apenas o velho Pelayo se sumiu ao longe na região das nuvens, resoou em toda a egreja um terrivel estampido. O orgão vibrou, sem que mão humana o tocasse, e o tremendo _Dies irae_ jorrou em torrentes de severa melodia pela nave do templo. Vacillaram os columnelos, nos frisos e laçarias gemeu o vento em canticos sinistros, e, como se o vendaval a tivesse arrancado pela base, aquella mole immensa levantou-se do chão, oscillou nos ares como impellida por invisivel fundibulario, e arrojou-se ao Oceano, levando no seu seio os profanadores, que soltaram um ultimo rugido de desespero.

«Abriu-se o mar para tragar a preza enorme que se lhe offerecia, depois a liquida superficie uniu-se de novo, e essa mortalha immensa, cujas pregas são as ondas, desenrolou-se para encobrir esse cadaver de pedra.

«Desde então todas as noites, ao bater da meia-noite, accendem-se os cyrios na egreja sepultada, e, no fundo do mar, os réprobos entoam os psalmos da penitencia.

«A voz de Ignez sobreleva a todas, e exerce ainda, do fundo do Oceano, a sua irresistivel seducção.

«Ás vezes ergue-se o phantasma da formosa até ao cimo das ondas, e arrasta para os abysmos os incautos que cedem ao magico poder dos seus feitiços.

«Proteja-nos o Senhor contra estas tentações. Eis-nos chegados á praia. ........................................................................... ........................................................................... ........................................................................... ...........................................................................

O barqueiro amarrou o bote, e saltou em terra. O moço passageiro ficou largo tempo a contemplar o Oceano.

As ondas conservavam ainda ao longe o seu reflexo escarlate, e a voz dos precitos, enfraquecida pela distancia, vinha expirar na praia em melancolica toada.

Aos primeiros clarões da aurora tudo se dissipou; apagou-se a pouco e pouco a luz vermelha, ao passo que se ia aclarando mais o horisonte, e que as ondas se iam branqueando com o tenue fulgor do alvorecer.

O canto dos malditos foi tambem esmorecendo a pouco e pouco, até que a ultima nota vibrou solitaria no espaço; e esse silencio singular que precede o romper do dia foi apenas quebrado pelo hymno eterno do marulhar das ondas.[1]

* * * * *

Houve um momento de silencio, quando o doutor Macedo acabou a leitura do romance. N'aquelle grupo havia de certo n'esse instante um coração que esse silencio fazia bater com desusada violencia. Afinal Lucio Valença quebrou o encanto, dizendo:

--Decididamente, caro doutor, o nosso desconhecido collega deu um golpe de mestre, escolhendo o para leitor de uma lenda. A sua voz deu-me arripios, as suas inflexões resuscitaram a meia-noite. Co'a breca! houve um momento, em que me não atrevi a olhar para a janella, com medo de vêr encostado aos vidros o espectro fascinador de Ignez.

--Ah! de certo, disse ou antes balbuciou Leonor, nem assim se póde avaliar o merito da lenda. O doutor é como um d'estes actores, que transformam sempre em magnificos papeis as mais insignificantes banalidades.

O doutor sorriu-se para ella maliciosamente, mas ao mesmo tempo um concerto de elogios protestava contra a phrase dubia de Leonor. O mais ardente no applauso era Henrique Osorio.

--Bem! chegou o momento solemne! disse Macedo, o publico chama pelo auctor, e eu, como no theatro francez e hespanhol, depois dos tres cumprimentos do estylo, vou arrojar o nome do poeta á platéa enthusiasmada. Se me dispensam dos cumprimentos, substituo-os por uns certos effeitos oratorios.

--Vá! vá! diga, doutor! bradaram todos em côro.

--Um! exclamou o doutor Macedo, batendo as palmas; o auctor é uma senhora linda, elegante e espirituosa.

--Isso é abusar, doutor! bradaram os circumstantes indignados.

--Dois! tornou Macedo. Acha-se presente a referida senhora.

--Estrangulamol-o? propoz Lucio Valença.

--Um voto de censura na acta! bradou o visconde da Fragosa, sempre parlamentar.

--Dependuramol-o da janella até elle dizer o nome! exclamou Henrique Osorio.

--Já o tinha dito, se vocês me não interrompessem, exclamou placidamente o doutor Macedo emquanto a viscondessa da Fragosa, Leonor e Isaura riam a bom rir da alegre scena.

--Então falla, _ventre-saint-gris_! bradou Roberto Soares.

--_Ventre-saint-gris_ não é da edade média, sr. Roberto Soares, disse o doutor Macedo que já erguera as mãos para bater as palmas pela terceira vez, e que tirou tranquillamente um charuto da algibeira.

--Uma corda! bradou Henrique Osorio.

--E um algoz de boa vontade! exclamou Lucio Valença.

--Á ordem! acudiu logo o visconde da Fragosa.

Então, o doutor Macedo, com o charuto ainda não acceso nos dentes, bateu as palmas, e disse:

--Tres!

Estabeleceu-se um profundo silencio.