Chapter 5
«Raymundo, meu fidalgo, não via senão Zoraida n'este mundo. Um capricho d'ella valia mais do que um mandado de Deus.
Christão tripudiou com a infame sobre a cruz despedaçada do Redemptor; cavalleiro, quebrou a espada de seu pae para que esse espelho de honra não lhe reflectisse constantemente toda a hediondez do seu crime, fidalgo e portuguez, salpicou de lama o brazão de seus maiores, e abandonou a defeza da patria, quando ella reclamava o auxilio de todos os seus filhos. Aqui está o que se póde chamar um amor de perdição!
Uma noite chovia agua se Deus a dava, o vento fazia tremer as casas, e curvava até ao chão os pinheiros agigantados! A trovoada estalava com medonho estampido, os relampagos cingiam a terra com o seu cinto de chammas, e os raios vinham de vez em quando, lascando as rochas, transformar as arvores em archotes colossaes. O temporal era como nunca se tinha visto n'esta terra, nem nunca mais se tornou a vêr, porque todos dizem que a procella d'aquella noite era obra de Satanaz. No Açude principalmente era medonho o aspecto da tormenta. O rio furioso arrojava borbotões de espuma, que se cruzavam com os raios, que vinham lamber as rochas com as suas linguas de fogo. Deus me perdôe, mas o temporal de hoje tem algumas parecenças com a tempestade d'essa noite infernal. Quer-me parecer que tambem hoje anda fazendo das suas o inimigo do genero humano.»
Um calafrio de horror correu pela assembléa. Todos se chegaram mais para o pé do lume, e olharam uns para os outros benzendo-se silenciosamente ao passo que lá fóra gemia o vento com voz soturna na porta carunchosa do lagar.
«N'essa mesma noite Raymundo e Zoraida atravessavam a cavallo o pinheiral que termina no Açude. A reprovada de Deus folgava com noites tempestuosas, e nunca se sentia tão bem como quando os raios lhe illuminavam a estrada, e o trovão respondia magestoso á sua voz blasphema.
--Olha a cruz do nazareno, bradou Zoraida quando chegaram á cruz do precipicio; não vês, Raymundo, como a chuva açoita irreverente o rosto do martyr do Calvario! Porque não transforma elle os raios, que fulminam a cruz abandonada, em cimitarras de fogo que façam rolar a seus pés a cabeça da condemnada, da filha de Mahomet?
E ella ria,--ria com umas gargalhadas estridentes, que vibravam sinistras dominando os ruidos da tempestade, e que, repercutidas pelos echos do abysmo, tinham um não sei quê de infernal. Raymundo estremeceu.
--Não zombes d'esta cruz, respondeu elle com modo sombrio; quando eu era innocente--e suspirou--vinha aqui ajoelhar muita vez. Não zombes d'esta cruz, peço-t'o.
Zoraida fitou por muito tempo n'elle o seu olhar aveludado, fascinante, diabolico e tentador. Era incomprehensivel a magia d'esse olhar, e mais incomprehensivel ainda o dominio que exercia no moço cavalleiro. Dir-se-ia que dois sentimentos oppostos combatiam no coração de Raymundo: de um lado a repugnancia, a rebellião da vontade, do coração, do espirito contra aquelle demonio oppressor; do outro lado uma attracção irresistivel, fatal, que o arrastava a seu pesar, e o prostrava aos pés da musulmana.
Venceu o anjo mau. Raymundo curvou-se sobre o pescoço do cavallo, ebrio de amor ou de desejos fitou um olhar frenetico nos olhos de Zoraida, e quando ella, com um sorriso de escarneo, se approximou da cruz, e cuspiu no rosto do Crucificado!... elle, vencido pelo demonio, imitou-a, rindo com um riso convulso e doloroso, que fazia horror.»
--Jesus!--bradaram os circumstantes.
O vento abriu a porta do lagar, e á luz de um relampago viu-se o campo devastado pelo vendaval e inundado pela chuva; um trovão medonho fez benzer todos, e emmudecer o narrador. Chegaram-se mais ao lume, e olharam uns para os outros. Estavam todos pallidos e tremulos.
--Aconteceu exactamente o mesmo que aconteceu agora, continuou o João Moedor com a voz a tremer-lhe um pouco; a luz de um relampago deixou vêr uma loisa aos pés da cruz, e o nome de Branca inscripto sobre a pedra. Um trovão formidavel ribombou sobre a cabeça dos dois amaldiçoados, e a campa estalou como se fosse de vidro. O phantasma de Branca, involto em candidas roupas, e com a fronte cingida de rosas virginaes, ergueu-se da sepultura, fazendo recuar Raymundo horrorisado. Este quiz desviar a vista, e o phantasma seguiu o movimento dos seus olhos; quiz tapar o rosto com as mãos, e as mãos fizeram-se-lhe transparentes, deixando vêr ainda a imagem da donzella serena como uma santa, triste como uma martyr, impassivel como o destino. Quiz enterrar os acicates nos ilhaes do cavallo, e o cavallo esvaiu-se como fumo, adelgaçando-se, e escapando-lhe por entre os joelhos, como um pedaço de neve que o sol derrete nas montanhas. Raymundo deu um grito de horror, e estacou petrificado.
Então voltou os olhos para Zoraida, e ficou aterrado da transformação da sua amante. O rosto, cuja belleza o fascinára, fizera-se negro, mais negro do que o carvão. Scintillavam os olhos como duas brazas, e nos labios volteava-lhe um sorriso de ironia. O braço assetinado que beijára tanto, estendia-se para elle terrivel e ameaçador. Raymundo, por um esforço supremo de vontade, recuou dois passos, mas o braço estendeu-se, estendeu-se, tornou-se desmesurado e apertou-lhe o pescoço, queimando como se fôra uma tenaz ardente.
--Não me foges, bradou ella com voz rouca, vendes-te-me a tua alma, renegado. Segue-me, segue-me. Pertences-me. Vem, que o inferno celebra hoje o nosso noivado. Os raios são os fachos do hymeneu, e Lucifer o sacerdote. Vem, é este o leito nupcial.
E, arrastando-o com uma força irresistivel, precipitou-se com elle no abysmo. Um clarão avermelhado illuminou as aguas da torrente, que exhalaram um cheiro nauseabundo de enxofre.
Mas o phantasma de Branca ficára ajoelhado aos pés da cruz, implorando o perdão do condemnado. No rosto de Christo, suavemente illuminado, resplandecia um vago arraiar precursor da aurora da misericordia.
Apenas Zoraida desappareceu, desfez se o encanto. Serenou a tempestade, e a brisa perfumada da noite veiu timida brincar nas rosas do tumulo de Branca.
Mas ainda hoje, em dias de vendaval, se vêem duas sombras terriveis correndo para o precipicio, uma horrorisada, tremula, arrastada, a outra com uma alegria feroz no semblante. Aos pés da cruz vem então ajoelhar uma sombra com o rosto inundado de lagrimas celestiaes.
É que Raymundo ainda está cumprindo as penas do purgatorio, e Branca, o anjo do Senhor, sem deixar de implorar a misericordia divina para aquelle que tanto a fez soffrer, mas a quem tanto amou!
* * * * *
--Era inevitavel, disse, rindo, Lucio Valença depois de feitos os cumprimentos do estylo, eu estava já prevendo que iamos descambar em plena edade média. O nosso amigo Roberto Soares não póde dispensar-se de consagrar um vivo affecto ás couraças da sua adolescencia, e ás achas d'armas da sua creação. Fez-nos voltar para 1830 o nosso bom amigo.
--E não era epocha tão má como isso a tal de 1830, disse Roberto Soares. Abusava-se do veneno e do punhal e dos solares e das chacaras e dos cavalleiros que voltavam da cruzada, mas, como dizia Musset, um dos romanticos do tempo:
Hugo portait déjà, dans l'âme Notre-Dame, Et commençait à s'occuper D'y grimper.
--Não ha duvida, não ha duvida, acudiu o doutor Macedo, e Lucio é de certo o primeiro a prestar homenagem a essa epocha da potente efflorescencia litteraria; mas, por Deus, tornou elle interrompendo-se com espanto, está já vencida a meia-noite; a sr.^a D. Isaura adormeceu!
Era verdade; Isaura, que não tinha de predilecções litterarias senão o _quantum satis_ para ser senhora da moda, enfastiada já d'estas repetições de historias phantasticas, resistira um momento ao somno que a perseguia, mas, quando se entrára na historia dos amores de Raymundo e Zoraida, fôra a pouco e pouco encostando a cabeça para traz, e adormecera profundamente.
--Podéra, pensou de si para si o nosso Henrique Osorio, teimando em vêr em Isaura uma menina toda idealisadora, e capaz de apreciar os mais elevados prazeres do espirito, podéra! Eu mesmo me vi em ancias para resistir ao somno. Quem atura hoje um d'estes soláos cançados e gastos que deliciaram a velha geração, com os seus cavalleiros de armas negras, e os seus diabos disfarçados em mulheres formosas, e os seus fidalgos que venderam a alma a Satanaz como na _Dama Pé de Cabra_, de Alexandre Herculano, ou na _Torre de Caim_, de Rebello da Silva? Isso foi bom no seu tempo, hoje está longe do maravilhoso moderno, e Isaura, com a fina intuição do seu juvenil espirito, não pôde commover-se com esses velhos _trucs_ de magica, resuscitados ingenuamente pelo Roberto Soares para nos entreter á meia-noite.
Emquanto Henrique Osorio fazia de si para si esse monologo, Leonor acordava a sua amiga, que, abrindo sobresaltada os olhos, foi acolhida por um riso jovial de todos os seus companheiros de noitada.
--Venceu-se ou não se venceu? dizia o doutor Macedo. Veja v. ex.^a se hoje lhe produziu a mais leve impressão a meia-noite, e se lhe deram muito cuidado os phantasmas.
--Ah! meu Deus, eu peço-lhes mil desculpas, disse Isaura um pouco envergonhada. É que estou fatigada das noites passadas em claro, porque o peior não é aqui, o peior é depois quando vou para o meu quarto. Custa-me a conciliar o somno, e vem ás vezes pesadelos terriveis perturbar o meu dormir inquieto.
--Minha senhora, exclamou, rindo, o doutor Macedo, nem tudo são rosas no tratamento de uma enfermidade. Pois v. ex.^a não sabe que são muitas vezes amargos os remedios salutares? Então julgava que, para ter uma cura radical, bastava-lhe ouvir aqui lêr contos, n'uma sala confortavel, cheia de luz, a dois passos do seu papá, e apertando a mão da sua amiga? Nada! nós aqui doiramos-lhe a pilula. Se depois lhe sente no seu quarto o amargor, paciencia! Mithridates é de crêr que tambem não achasse aos venenos o gosto da ambrosia. Afinal bebia-os como quem bebe agua. V. ex.^a hontem dormiu mal, hoje ha de dormir melhor, d'aqui a dois dias chega a tornar-se-lhe necessaria uma historia de phantasmas para adormecer profundamente.
--Ah! doutor, eu ao menos peço treguas. O sr. Henrique Osorio, hontem, com a sua alameda transformada em cemiterio, e com essa mulher pallida desenterrada, atacou-me os nervos de tal fórma que fiquei devéras enferma. Cheguei a suppôr que eu mesma era uma defunta.
O proprio Henrique Osorio é que ficou devéras atordoado! Decidídamente Isaura não lhe perdoava a creação do typo de Julieta que elle julgava que tanto devia lisongeal-a. Persistia em acreditar que elle não tivera outro intento senão o de lhe chamar desenterrada.
--Minha senhora, disse elle, eu sinto realmente profundissimos remorsos por ter assim concorrido involuntariamente para a magoar. Creia v. ex.^a que a minha intenção era boa, continuou elle em voz mais baixa; se depuz a seus pés um ramalhete de goivos em vez de um ramalhete de rosas, foi porque as flôres funereas eram as unicas que a nossa regra me permittia que colhesse.
Isaura era _coquette_, e, sentindo n'esta phrase um aroma de galanteio, vibrou a Henrique um olhar fascinador. N'este momento, porém, o doutor Macedo levantou-se, e, depois de ter pedido licença para ir accender um charuto, cantarolou, puxando uma baforada de fumo, com musica desconhecida, esta quadra de Thomaz Ribeiro:
Trazes agoirento goivo prezo em negros passadores! Disse-te acaso o teu noivo que tinhas novos amores?
--O dr. Macedo, murmurou Isaura, voltando-se para Henrique Osorio com uma expressão no olhar muito diversa da que primeiro lh'o illuminára, o dr. Macedo está-me explicando involuntariamente o sentido da sua offerta do ramalhete de goivos. É um epigramma, sr. Osorio?
--Minha senhora, respondeu Henrique desesperado, estou por tal fórma infeliz com v. ex.^a! V. ex.^a interpreta de um modo tão singular todas as minhas palavras, e todas as minhas acções, que desisto de as explicar de um modo satisfatorio.
Estava verdadeiramente mortificado. Levantou-se comprimentando seccamente a sua interlocutora. Dirigiu-se a uma janella e abriu-a para respirar mais á vontade. As reclamações dos circumstantes obrigaram-n'o a fechal-a de novo. Isto ainda mais o desesperou. Estavam-se fazendo as despedidas. Leonor, ao passar junto d'elle, disse-lhe com um riso malicioso, e em voz baixa:
--É para que tu saibas o que valem os galanteios funebres.
--Olha, sabes que mais, Leonorsinha? tornou Henrique bruscamente, occupa-te das tuas bonecas.
A pobre senhora sentiu a dôr profunda do golpe. Recuou um passo, levou a mão ao coração, e marejaram-lhe nos olhos duas lagrimas.
--Perdão, menina, acudiu Henrique, caindo em si.
--Estás perdoado, respondeu Leonor com voz fraca, mas... mas como tu a amas!
Saiu. Se se demora mais um instante, rebentavam-lhe os soluços mesmo diante de Henrique.
O doutor Macedo, ao passar por diante de Osorio, parou, e disse declamatoriamente:
_Si je vous le disais pourtant que je vous aime, Qui sait, brune aux yeux bleus, ce que vous en diriez?_
--Está fallando por enigmas poeticos, doutor, exclamou Henrique impaciente. Quer fazer concorrencia ao _Diario Illustrado_, ou ao _Jornal da Noite_?
--Não, disse o doutor, quero apenas dizer, com palavras de Alfredo de Musset, que passam muitas vezes duas pessoas ao lado uma da outra, sem saberem os sentimentos que vivem nas suas duas almas, e que, se ousassem exprimil-os, voariam a encontrar-se.
--A solução no proximo numero, não é verdade, doutor? tornou Henrique, impaciente.
--Talvez, redarguiu o doutor.
E saiu, ao passo que Henrique Osorio encolhia os hombros com desdem.
* * * * *
Na seguinte noite, antes de chegar a hora fatidica, o doutor Macedo pediu a palavra.
--Minhas senhoras e meus senhores, disse elle, desenrolando um manuscripto, se não espero o bater da meia-noite, é porque o romance que vou lêr precisa de um prologo, e á meia-noite em ponto o que deve entrar em scena é o elemento phantastico. Seja dito sem envolver nem a mais leve censura aos illustres preopinantes que se afastaram d'esta regra. Não é meu este romance, o seu auctor deseja conservar o incognito...
--São prohibidas as substituições, bradou Lucio, rindo, serviço obrigatorio!
--Mau! Não me interrompam! O auctor é um dos nossos collegas, não direi mesmo se está presente. Faz o seu serviço, mas provisoriamente quer conservar a mascara. Ora diz Gennaro na _Lucrecia Borgia_, pouco mais ou menos, o seguinte: A mascara de uma senhora é tão sagrada como a face de um homem. É assim ou não é, Soares? É assim, romantico?
--Será, mas o que d'ahi deduzo é que o auctor é uma das nossas amaveis companheiras de serão.
--As conjecturas são permittidas, mas vae dar a meia-noite, e eu, conformando-me com os preceitos do regimento, passo a lêr a _Egreja profanada_.
No meio do mais profundo silencio, em que se sentia a avida curiosidade dos ouvintes excitada pelo mysterio em que se envolvia o conto, o doutor, que lia admiravelmente, começou assim:
A EGREJA PROFANADA
I
Corre socegada a noite, mas não brilha a lua no céo a espargir tristezas, escondendo um devaneio, um sonho de poeta em cada uma das pregas da sua candida tunica; scintillam apenas as estrellas no véo escuro do firmamento.
Formosas são as noites estrelladas, mas não teem a suave melancolia das noites de luar; enleva-se-nos o espirito ao contemplar essas myriades d'orbes luminosos; porém os raios da lua teem uma linguagem mysteriosa que nos falla ao coração.
Quando no véo nocturno brilham sem rivaes as estrellas, como que percebemos a magestosa melodia das espheras; mas, quando a lua illumina a terra com a sua doce luz, ouvimos então no espaço vagos canticos de saudade, suspiros de virgem enamorada, canto de pescador que se perde ao longe nas ondas, toada de pegureiro, que vem desfallecida expirar no nosso ouvido, intimas melodias, que nos dizem: «amor e tristeza.»
Porque as estrellas são desdenhosas rainhas d'outros céos, sóes de outros mundos, que nos enviam, como que por descuido, um signal de sua grandeza, um tenue raio da sua immensa luz, em quanto a lua é a extremosa amante, que prendeu á nossa a sua existencia, a companheira que nos segue incessantemente n'essa viagem sem fim, que emprehendemos pelo espaço.
As estrellas tornam mais profunda a solidão, e mais espessas as trevas. Os bosques, os valles, as montanhas conservam-se envoltos n'um véo sombrio, por mais que os raios dos sóes da noite se esforcem por penetrar na escuridade; as ondas baloiçam com indifferença os seus reflexos, e não fazem caso das palhetas doiradas que avivam aqui e ali a candidez da sua fimbria espumosa.
Mas, quando surge a lua, a natureza anima-se. Desperta a viração nos antros perfumados das florestas, que exhalam vivissimos aromas. As fadas vem pentear as suas loiras tranças no espelho das fontes, cuja crystallina superficie palpita de prazer. Jorram torrentes de prata pela falda dos montes, scintillam diamantes na folhagem das arvores. Erguem se as ondas em vago enleio de voluptuosidade, como seio de virgem que arfa pela vez primeira. Rescende o meigo perfume no thuribulo da violeta. Rescende a saudade no thuribulo do coração.
As estrellas são os anjos de Deus, que entoam lá ao longe, nas profundidades do Empyreo, o hymno ás glorias do Eterno; a lua é o archanjo consolador que presta um ouvido compadecido aos lamentos da humanidade.
As estrellas são os candelabros de oiro, que ardem constantemente diante do throno do Altissimo; a lua é a urna argentea onde se transformam as lagrimas dos que soffrem em perolas, que os anjos entornam no regaço do Omnipotente.
As estrellas são o enlevo do philosopho, a lua é enlevo de poetas.
Porque as estrellas revelam o poder de Jehovah, a lua a caridade do Redemptor.
Mas vae a noite socegada, e a luz dos fachos da abobada celeste scintilla frouxamente na face adormecida do mar. As vagas erguem-se vagarosamente, enroscam-se a pouco e pouco, caminham em longa fileira para as praias, e alastram no areial o seu manto escuro.
Negra, bem negra está a superficie do Oceano; os raios das estrellas, naufragos luminosos, debatem-se com as ondas, que mal conseguem doirar. Do seio d'essas trevas sae um gemido cavernoso. É a voz eterna do liquido leão, é o rugir tranquillo mas terrivel do monarcha da immensidade.
Não param as vibrações nas espumosas cordas da harpa dos abysmos; ora plangente, ora formidavel, o cantico incessante resôa no espaço.
E que diversidade de vozes não ha n'esse concerto immenso! o magestoso ruido das ondas ao assoberbarem-se lá no mar alto, o grito que resulta do embate de dois d'esses colossos que se encontram, o uivo de raiva que soltam quando espadanam nos rochedos da praia, o suspiro amoroso que desprendem ao beijarem o areial, o murmurio palreiro das gottinhas de agua ao despedirem-se a custo das conchas das ribas, o lamento que exhalam ao açoital-as o vento, tudo isto se resume n'um hymno sublime, intraduzivel, como os poetas os sonham, mas não escrevem.
Ó mar! A opulenta imaginação da antiguidade grega povoou de sereias as tuas ondas, poisou no cimo d'estas o velho Glaucus, com as suas barbas limosas, com a sua voz aterradora, poisou no teu leito de espuma ora a rosea concha Acidalia em cujo seio se abrigava a candida Aphrodite, ora a seductora Lamia, ora as horriveis Gréas, e nem assim conseguiu traduzir o indizivel encanto com que nos attraes, e o vago terror que nos incutes, a suavidade da tua voz, e a selvagem energia dos teus hymnos! Ó mar immenso, que lyra infeitiçada te deu o Senhor, de que mysteriosa seducção impregnou as tuas solidões?
Assim perdido nas trevas como é magestoso o Oceano! Nem uma véla se distingue na immensidade solitaria! Ainda n'aquelle isolamento, não descontinúa o fadario das ondas! Vão, vem, atropellam-se, espraiam-se, beijam se, desmaiam, agitam-se, revolvem-se, cantam, suspiram, e, lá ao longe talvez, algum scismador, encostado ao peitoril da sua janella, ao ouvir aquelle ruido ineffavel, pensa na eternidade, e em Deus!
Comtudo bem junto da praia, a pouca distancia de uma casa cuja fachada branca mira silenciosa a eterna agitação do Oceano, que envia ás vezes, de enamorado, uma das suas ondas a beijar-lhe os pés, baloiça-se indolentemente uma barca, onde dorme um pescador, cujo somno é acalentado por esse murmurio suave.
As ondas embalam tão docemente o bote, como carinhosa mãe póde embalar o berço do recem-nascido.
A uma das janellas que se rasgam na fachada branca da casa da praia, encosta-se um vulto de mulher. Em baixo está um outro vulto varonil e elegante. Ouve-se, por entre o concerto das vagas, o mysterioso segredar de duas vozes.
Leandro e Hero, Rosina e Almaviva, Julieta e Romeu!
O bramir do mar abafa o manso ruido das vozes. Mas o rugido do Oceano, e o flebil sussurrar dos namorados chegam, em murmurio egual, ao throno do Omnipotente: porque são duas notas do hymno immenso do Universo, que se resume n'uma palavra «Amor.»
II
Tudo n'este mundo acaba, inclusivamente as doces palestras enamoradas. Mais infeliz do que a desditosa heroina de Shakespeare, a donzella da casa da praia não pôde esperar que o grito matinal da cotovia saudasse o alvorecer. Ainda a noite não chegára ao meio do seu giro, e já era forçosa a separação.
Trocaram-se suaves promessas, mil vezes se affastou o nosso Romeu da fachada branca, mil vezes voltou a ella, como se as ondas, que lhe vinham quasi banhar os pés, o arrastassem comsigo nas incessantes ondulações do fluxo e do refluxo.
Afinal a palavra «Adeus» escoou-se, como um timido murmurio, pelos labios dos dois namorados; o elegante moço affastou-se rapidamente, e, dando um pulo bem calculado, foi cair em pé dentro do barco, que as ondas baloiçavam.
Ao choque inesperado acordou em sobresalto o barqueiro. Ergueu-se á pressa, e, depois de reconhecer seu amo, fitou os olhos com certa inquietação no céo estrellado, chronometro infallivel dos homens do mar.
--Ah! senhor, disse elle com a voz entrecortada, que tanto se demorou! É forçoso apressarmo-nos, e não sei ainda se chegaremos a tempo á praia.
--Que medo tens tu, homem? perguntou o que embarcára, sentando-se commodamente na pôpa do bote. Está o mar de leite, e nem a mais ligeira brisa lhe agita as ondas, nem uma nuvem ameaçadora assoma no horisonte! As tempestades repousam, amigo!
--Não temo a procella, tornou o barqueiro, abanando a cabeça; eu e o vendaval somos conhecidos velhos, e não me assusta a tormenta em noite escura, nem receio ser engulido pelas ondas! Assim como assim um homem ha de morrer uma vez, e vale mais adormecer livremente envolto n'esta mortalha de espuma, do que ser cozido n'um lençol branco, e mettido em uma cova, onde o nosso pobre corpo nem uma vez só se poderá regalar com o cheiro da marezia! Mas ainda que a temesse, não é n'uma noite d'estas que um velho marujo receia a tempestade. V. s.^a tem rasão: o mar está de leite, e o barco ha de deslisar tão commodamente por sobre as suas aguas como uma carruagem por cima da poeira da estrada real.
--Então o que te assusta, meu velho?
--Está quasi a dar meia-noite, senhor.
--Percebo! Receias que o fuso da tua companheira não corra tão ligeiramente nas suas mãos enrugadas, de farta que esteja de te esperar. Socega, homem! Irei eu mesmo acalmar as rabugices da Catharina, e prometter-lhe uma estriga de linho para os serões do inverno. Verás que a velhita ha de ficar tão contente, que nem pensará em ralhar comtigo por causa da desusada demorada.
--Não esteja com cuidado na Catharina, senhor, que ella bem sabe que me não demoro por culpa minha. Oh! se sabe. Antes de ser velha desdentada já foi moça e louçã, e ha de se lembrar de como nós esqueciamos as horas, que passavam, ella sentada á porta da choupana a concertar as rêdes de seu pae, eu assentado no areial a fallar-lhe fallas de namoro, que lhe punham o rosto mais vermelho do que uma rosa de maio. Ainda não é isso, meu amo.
--Então o que é, finalmente? perguntou o seu interlocutor, já um tanto enfadado.