A Lenda da Meia-Noite

Chapter 4

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--Não me responsabiliso pela verdade do modo de dizer. José Augusto, que tinha o desagradavel sestro de fazer estylo, quando me contou a historia, transfigurou completamente a expressão do narrador da aldeia. Comtudo asseverava-me elle que o estylo do camponez tinha uma certa elevação.

--Siga, siga, acudiu o doutor Macedo. José Augusto é o seu Jedediah Cleishbotham, já vêmos. Era moda no seu tempo, como as epigraphes.

Roberto Soares riu-se e continuou da seguinte maneira:

Ha de haver um par de annos, muito antes do terremoto, e talvez antes que tivessem nascido os paes dos nossos bisavós, governavam os moiros a maior parte da nossa terra abençoada. Segundo eu ouvi contar ao nosso padre prior, que Deus haja, dava-se e recebia-se muita lançada antes que a bandeira de Christo fluctuasse triumphante nas ameias das fortalezas. Cada palmo de terra conquistado aos cães dos sarracenos era regado por muito sangue, e muitos cadaveres dos nossos antepassados adubaram a terra, antes que os seus descendentes podessem fazer em paz a semeadura e a colheita. Era mau tempo aquelle. Mas Deus e Santiago eram por nós, e os esquadrões cerrados dos cavalleiros de Christo levaram sempre de vencida as hostes aguerridas dos perros amaldiçoados.

Como dizia o padre prior, os pergaminhos d'esses fidalgos, que por ahi andam tão orgulhosos da sua inutilidade, foram sellados com o sangue de seus antepassados nos campos de batalha, em que se comprou bem cara a independencia portugueza. Deshonrado seria para todo o sempre o fidalgo portuguez que não envergasse as armas ao sair da infancia, e não luctasse incessante a favor dos opprimidos até cair no campo da batalha amortalhado na sua armadura de ferro. Repousem em paz nas campas os ossos d'esses valentes.

--O João Moedor sempre tem uma cachimonia de truz, resmungou á parte o Manuel dos Reis; onde elle vae buscar tudo isto!

--O que elle é, é um papagaio, murmurou o Zé do Moinho, não faz mais do que repetir tim tim por tim tim o que ouviu ao nosso antigo padre prior.

--N'esse tempo, continuou o João Moedor sem reparar na interrupção, viviam aqui n'este sitio dois fidalgos velhos, que, depois de terem ganho muitas cicatrizes, e creado muitos cabellos brancos no seu luctar incessante contra o poder da Moirama, tinham vindo descançar na paz dos seus castellos das lides gloriosas em que haviam dispendido a sua existencia inteira. Não porque lhes faltassem valor e bons desejos; mas a edade tudo gasta, e os corpos alquebrados dos bons cavalleiros já vergavam ao peso da armadura, e a voz implacavel da velhice advertiu-os que cedessem o logar a novos e mais vigorosos campeões. Penduraram na sala de armas dos seus castellos as valentes espadas, e, sentados ao canto da lareira, esqueciam o peso dos annos com as gratas recordações das suas façanhas d'outr'ora.

Ao mais velho dos dois; Inigo Paes, concedêra o céo um filho; Raymundo se chamava elle. Era a delicia do bom velho rever no esbelto mancebo a risonha imagem da sua mocidade. Vendo-o crescer em annos, em vigor e em destreza, consolava-se o valente cavalleiro, esperando que Raymundo não deshonraria, nas fileiras portuguezas, o nome venerando que elle proprio tinha conquistado. Esperava com anciedade que seu filho completasse os dezoito annos para lhe cingir a espada, afivellar-lhe o arnez, e dizer-lhe, apontando lhe o campo da batalha: «Vae, é esse o caminho da gloria»

E tinha rasão em se gloriar de ter um filho assim. Ninguem meneava com mais garbo e destreza um cavallo fogoso, ninguem manejava com mais vigor o pesado montante, ninguem mostrava mais ardor guerreiro, quando o pae, sentado no salão do castello, contava aos rapazes, anciosos de aventuras, os feitos de armas dos velhos campeadores. E se Raymundo dava esperanças de ser um rude lidador, nem por isso deixava de ser o mais gentil mancebo d'estas cercanias. Alto e elegante, se os seus olhos negros quizessem fallar de amor, não havia dama que se não rendesse, nem coração feminino que escutasse insensivel os seus protestos enamorados. Mais de uma altiva castellã apparecia na varanda do seu solar para vêr o elegante Raymundo correr a cavallo por essas campinas. Mas que importavam ao filho de Inigo Paes todas as castellãs do mundo se tinha o coração já preso, e se Branca, a ingenua Branca, lhe conquistára o affecto, e accendera nos seus olhos a chamma ardente do primeiro amor?

Branca era filha do companheiro de armas de Inigo Paes; grande desconsolação tivera elle, vendo-se viuvo em edade avançada, sem ter um filho a quem podesse transmittir a sua herança de gloria. Muitas vezes, ao vêr a filha a doidejar na varzea, como gentil borboleta esvoaçando por entre flôres, se lhe enrugava a fronte, e duas lagrimas de tristeza deslisavam pelas faces crestadas do velho soldado. Mas a sombra ligeira, que lhe annuviava o gesto, dissipava-se promptamente com as caricias affaveis da gentil donzella. Quem poderia resistir á influencia d'aquelle anjo de candura, loiro e rosado, como as imagens seductoras dos cherubins que cercam a Virgem Nossa Senhora na pintura do altar-mór da freguezia!

Branca e Raymundo conheciam-se e amavam-se desde creanças. Juntos tinham crescido, juntos tinham doidejado n'estas campinas, e, sem que nunca a palavra _amor_ fosse pronunciada, tinham apesar d'isso consagrado um ao outro um affecto que a edade fôra desenvolvendo. E era um par galante a mais não poder ser. Quando Branca, fatigada de correr atraz de uma borboleta, vinha, com as faces vermelhas como duas rosas, os olhos a brilharem de alegria infantil e as loiras tranças fluctuando em ondas doiradas sobre os seus hombros de neve, refugiar-se nos braços de Raymundo, e encostar o rosto encantador nas faces levemente morenas do gentil fidalguinho, todos os que os viam paravam extasiados, e faziam votos pela felicidade d'aquelles anjos de innocencia e de candura.

Chegou finalmente o dia em que Raymundo completava dezoito annos, e em que, para não desmentir as gloriosas tradições da sua raça, devia cingir a espada, e ir aos campos de batalha pagar á patria e á santa religião dos nossos paes o tributo de sangue, que devia ser pago por todos os que se prezavam de christãos fieis, e portuguezes leaes.

No dia fixado para a partida de Raymundo, encontraram-se os dois namorados no sitio do Açude. É um sitio medonho, como v. s.^a ha de saber; um pinhal sombrio, que vae terminar á beira de um precipicio, no fundo do qual o rio faz mugir, espadanando nos rochedos as suas aguas turvas e espumantes. Mas n'esse dia o sol estava brilhante, e dava a esse quadro medonho o mais ridente aspecto. Os pinheiros, illuminados pelos raios de um sol de agosto, pareciam frechas doiradas que mão occulta arrojava ao céo limpido e azul de um bonito dia de verão. Cada gotinha de agua parecia um espelho que reflectia a imagem brilhante do sol de Portugal, e o rio scintillante e espumoso parecia arrastar na corrente palhetas de oiro e prata. Gorgeiavam os passaros na floresta, e tudo dizia contentamento, quando os corações de Branca e Raymundo sómente sentiam tristeza e desesperação.

Branca vinha triste, triste como a rôla namorada que vê fugir para longes terras o escolhido do seu coração, e pallida como a açucena batida pelo vendaval. Mas que bem que lhe ficava aquella pallidez, e como a alvura da face realçava a côr negra das roupas que vestira em signal de luto e de saudade! O brilho dos olhos, empanado pelo pranto que tinha derramado, parecia ainda mais suave e meigo, e os loiros cabellos, caindo-lhe ao desdem sobre o pescoço deslumbrante de brancura, faziam-n'a assimilhar á imagem da Virgem que está pendurada na sala do presbyterio, e que o senhor padre prior dizia ser copiada de um quadro pintado por um italiano chamado Raphael.

Chegou, e ajoelhou aos pés de um crucifixo, que então existia n'aquelle sitio; porque n'esses tempos de fé viva, a imagem do Crucificado apparecia em toda a parte para acolher em seu seio misericordioso as orações dos fieis. O sol tinha surgido havia pouco do Oriente, e a oração da candida virgem, pura como a rosa que abre o seio ao primeiro alvor da madrugada, foi, perfume singelo, de fé e de innocencia, conduzida pela brisa aos pés do throno do Senhor.

Quando se levantou viu Raymundo em pé diante d'ella, de cabeça descoberta, pallido e mal podendo conter as lagrimas que lhe bailavam nos olhos.

--Raymundo, disse ella desatando a chorar, e escondendo a cabeça no peito do mancebo, não me deixes!

--Não posso, Branca, tornou elle, apertando-a ao peito com anciedade; o que pensariam de mim o rei, os ricos homens e os villões, se preso nos teus braços me esquecesse do que devo a mim, ao rei e a Deus? Era um nome deshonrado o nome de teu esposo, Branca, e não m'o podias acceitar. A espada de meu pae, que outr'ora brilhou ao sol das batalhas com deslumbrante fulgor, não póde jazer inerte a um canto do meu solar, em quanto as achas de armas dos meus compatriotas escrevem nas paginas de pedra, das fortalezas moiriscas, a historia sanguinolenta da ressurreição dos godos. Bem vês, Branca, é um penoso dever; mas devo cumpril-o.

--E o nosso amor, Raymundo!--balbuciou a donzella, afogada em lagrimas.

--Oh! cala-te, Branca, não vês que me despedaças o coração? Queres que eu perca o animo, queres que o puro azul dos teus olhos me faça esquecer que existe outro céo, outra ventura que não seja o teu amor, outro dever que não seja o adorar-te? Não, Branca, não ordenes a minha deshonra; a tua imagem seductora será a estrella que me ha de guiar no caminho da gloria. Quaes serão as façanhas para mim impossiveis, pensando que o teu sorriso será a recompensa do meu valor, e que será a tua mãosinha branca e mimosa que me ha de limpar na fronte o suor dos combates e das luctas sanguinolentas?

--Mas quem sabe, Raymundo, tornou Branca, erguendo para elle os olhos radiantes, ainda humedecidos das lagrimas que derramára; quem sabe se n'esses paizes longiquos não encontrarás alguma formosa dama cujos encantos te farão depressa olvidar a imagem da triste Branca, que dizes ter gravada no coração? Oh! meu Deus, que horrivel idéa! Se tu me esquecesses...

--Que fazias, Branca?

--Morria!--tornou ella com resolução.

Raymundo apertou-lhe a mão e levou-a ao pé do crucifixo. Alli, erguendo os olhos para o rosto divino do Christo crucificado, bradou com voz solemne e altiva:

--Juro diante de Deus que morreu pregado na cruz para remir os homens do peccado original, juro guardar-te sempre fé inteira e immutavel, como te juraria se um sacerdote nos abençoasse ao pé do altar. És minha esposa diante de Christo. Cáia sobre mim a vingança do céo se atraiçoar o meu juramento.

--Oh! obrigada, Raymundo, obrigada, clamou a donzella, lançando-se com immenso ardor nos braços do mancebo e derramando copiosas lagrimas; tambem eu juro amar-te sempre, meu Raymundo, amar-te com inalteravel constancia, não viver senão com a tua imagem, não pensar senão em ti, meu unico amor. E agora parte, accrescentou ella, erguendo-se com inesperada resolução, vae conquistar um nome glorioso; a benção de Deus vae comtigo, porque os nossos anjos da guarda, abraçados e de joelhos ao pé do throno do Senhor, rogarão a Deus que proteja os esposos, cuja união foi abençoada pelo Crucificado, saudada pelos canticos da alvorada, perfumada pelos thuribulos das flôres, illuminada pelos raios do sol nascente!

Raymundo apertou-a ao peito com enthusiasmo; deu-lhe na fronte, com timidez, um beijo, e montando n'um cavallo que o esperava a pouca distancia, seguro por um pagem, partiu, dizendo com ardor:

--Adeus, minha gentil esposa!

--Adeus, meu adorado esposo!

Estas palavras pronunciára-as ella, caindo ajoelhada aos pés da cruz. O perfume das flôres, o canto dos passarinhos, o rumorejar das folhas, a luz pura e serena do sol, tudo parecia abençoar o seu amor. Unicamente no momento da despedida, uma nuvem ligeira passou por diante do astro do dia e offuscou-lhe um pouco o brilho.

Ai! Branca, timida Branca, nos momentos de felicidade uma ligeira nuvem é indicio temeroso de tempestade!

II

«Passaram-se mezes e mezes--continuou o João; veiu o outono desfolhar as arvores, e estender sobre a terra o seu manto de tristezas; depois o inverno gelado agrupou as familias ao canto da lareira; voltou a primavera sacudindo sobre os campos o seu regaço cheio de flôres e verduras, voltaram as longas tardes do estio, e o sol ardente de agosto veiu de novo doirar os pinheiros que ensombravam a cruz do precipicio; e nem a triste Branca recebia noticias do seu noivo, nem Inigo Paes a podia consolar com outras novas, que não fossem as que, logo pouco depois da partida de Raymundo, tinham sido trazidas por um fidalgo que voltava das terras do Algarve.

Contava elle que vira n'uma renhida escaramuça o filho de Inigo Paes estreiar-se no arduo mister do lidador d'aquellas eras. A estreia fôra digna do nome honrado de seu pae. Contava o fidalgo que o tinha visto arrojar-se aos moiros com valor sobrehumano, e abrir com a acha de armas um largo e sanguinolento sulco nas fileiras mahometanas. Quando, no fim da escaramuça, Raymundo Paes passou de viseira levantada junto dos prisioneiros, estes, vendo o rosto delicado, o buço que lhe assombreava levemente o labio superior, e a belleza quasi feminil do mancebo, não queriam acreditar que fosse o mesmo que praticára prodigios de valor, e ante o qual as cimitarras moiriscas voavam em lascas, decepadas pelo montante que parecia manejado pelo braço de robusto montanhez.

Estas noticias encheram de orgulho o coração paternal do velho guerreiro. A Branca não succedia o mesmo. As façanhas que enthusiasmavam Inigo Paes, faziam receiar á gentil donzella que Raymundo, arrastado pelo seu ardor juvenil, fosse encontrar a morte no gume afiado de um alfange mahometano.

Assim correram os mezes, e as rosas do rosto de Branca desbotavam, desbotavam até se trocarem nos lyrios que a desesperança ia fazendo brotar nas faces da donzella.

E Raymundo? Valente cavalleiro, não ha proezas que absolvam um perjuro, nem as indulgencias, concedidas pelo santo padre aos defensores da fé, são sufficientes para arredar de cima da cabeça do sacrilego o raio fulminado pela mão do Omnipotente.

Raymundo Paes, Raymundo Paes, que demonio fatal te arrojou aos pés da cruz, e te dictou o terrivel juramento, que havias de esquecer tão cedo? Ai! cavalleiro, ainda o vento do outono não desfolhou a verde grinalda que enramava a cruz do precipicio, e já o vento da inconstancia fez murchar o candido affecto que floria em teu peito, e que juráras conservar tão puro e tão sem mancha, como era pura e immaculada a imagem d'aquella que t'o inspirou.

Ai! Branca, timida rôla, que, escondida na espessura, a sós com as tuas tristezas, pranteias a ausencia do ingrato que te esqueceu, mal sabes tu que, em quanto fitas o olhar melancholico na lua pallida como o anjo da saudade, e pareces perguntar-lhe mudamente se o teu olhar se cruza no espaço com o olhar saudoso do teu gentil campeão, elle, o perfido, o perjuro, o sacrilego, esquece nos braços de outra o teu amor de virgem, o teu modesto encanto, as tuas graças infantís.

Durante os primeiros tempos, as meigas recordações do seu amor de creança arderam dentro d'elle tão vivas e tão serenas, como arde viva e serena a lampada do altar no recinto sagrado da egreja christã; se uma tentação má lhe surgia no animo, e lhe mostrava á luz de um relampago infernal mundos desconhecidos de prazer vertiginoso, era logo repellida pelo saudoso mancebo, que conservava o coração perfumado de innocencia, como sanctuario florido, onde o christão abriga devotamente a imagem da Mãe do Salvador............................................................ ........................................................................... ...........................................................................

Era por uma noite sombria, calada e mysteriosa, noite propria como nenhuma outra para emboscadas e ardis de guerra. N'essa noite, n'um alcaçar moirisco, situado em terras do Algarve, dormiam socegados os perros descridos, confiados na vigilancia das atalaias, e certos que os rudes batalhadores de Christo, vencidos do cansaço, concederiam involuntariamente treguas aos filhos de Mafoma. Os almogavares, voltando das suas excursões, não tinham trazido novas de movimento algum no exercito christão. Dormiam as almenaras no cimo das montanhas, e a atalaia, vigiando no alto da torre, não estremecêra vendo uma pluma de fogo accender-se de repente, e, ondulando nos ares, dar signal da apparição dos nazarenos. Quão enganados estavam, e essa serpente de ferro, que se enrosca ás muralhas da fortaleza, vae acordal-os inesperadamente do seu somno voluptuoso!

De repente o grito de S. Thiago é ávante! echôa nas barbacans do alcaçar, e as sentinellas, caindo apunhaladas sem terem tempo de soltar um grito, pagam com a vida a sua indolencia descuidosa.

Que scena de confusão no meio das trevas! Os gemidos dos moribundos, os gritos das mulheres, as blasphemias dos guerreiros surprehendidos cruzam-se com os gritos de victoria dos cavalleiros portuguezes. Apenas de quando em quando um ou outro arabe mais destemido arranca da cimitarra, e faz brotar centelhas instantaneas, cruzando-a com o pesado montante christão. Não tem quartel os vencidos; os vencedores sequiosos de sangue transformam n'aquelle momento o valor do guerreiro na ferocidade do assassino. Eras de barbaridade! Já vão longe, felizmente.

Raymundo vae entre elles. Embriagado pela carnificina, descarregava ás mãos ambas a acha de armas sobre os que pretendiam fugir á sorte de seus irmãos. De repente um vulto feminino roja-se-lhe aos pés, suspende-lhe o braço já levantado para descarregar o golpe, e com uma voz melodiosa como o sussurrar da brisa nos ramos do salgueiro, murmura em portuguez: Perdão!

A lua, que até ahi se conservára escondida entre nuvens, desembaraçou-se afinal do seu manto sombrio, e veiu acariciar com os raios da luz serena as faces tostadas da arabe gentil.

Nunca Raymundo vira um rosto tão diabolicamente tentador! Eram uns labios onde se viam arfar promessas voluptuosas de beijos delirantes. Eram uns olhos negros, onde brilhavam as chammas do desejo, as labaredas infernaes da tentação! Eram as tranças negras fluctuando sobre o collo nú, que a brisa beijava com delirio, roubando-lhes perfumes inebriantes, que vinham enlouquecer o ingenuo amador da casta Branca. E elle sentiu a febre do desejo a vir escaldar-lhe o sangue, sentiu uma ignota anciedade vir opprimir-lhe o peito. Era o terrivel despertar dos sentidos n'um rapaz de dezoito annos. Eram as tentações da voluptuosidade, eram as commoções do prazer sensual, era um demonio desconhecido que lhe vinha murmurar ao ouvido os vagos encantos de mysteriosos amores.

Raymundo sentiu o perigo, e quiz afastar-se d'elle. Repelliu-a, e, invocando a imagem de Branca, quiz fugir da tentação fatal; mas a moira, enroscando-se a elle, como a serpente se enrosca ao corpo do homem fascinado pelo poder invencivel do seu olhar, murmurou:

--Não me deixes, nazareno. Os teus olhos são negros como noite sem estrellas; mas são transparentes como o espelho das aguas. Porque havias tu de ser cruel como a hyena do deserto, se és bello e magestoso como o leão das selvas? Olha, sou tão nova! Ainda a amendoeira não floriu vinte vezes, desde que minha mãe me apertou pela primeira vez ao seio palpitante. Salva-me, salva-me e serei a tua escrava. Servir-te-hei de joelhos como a meu senhor e amo, cingir-te-hei a armadura, adivinharei os teus caprichos, e adorar-te-hei como adoro o propheta de Medina. Ouves? Filho dos christãos, salva-me, salva-me!

--Deixa-me, tentação do demonio, bradava Raymundo com voz balbuciante; deixa-me, anjo das trevas; deixa-me, enviada de Satanaz.

--Não, tornou a amaldiçoada, approximando os labios vermelhos como a flôr de romanzeira dos labios de Raymundo. Sou bella, e amo-te! Sou tua, e tu és todo meu, porque te vejo torcer desesperado nos braços de fogo do prazer. Amas-me, e eu... sou tua.

--Amo-te, amo-te, bradou Raymundo, caindo oppresso aos pés da musulmana.

Ai! Branca, timida Branca, chora o teu amor profanado! N'esse momento fatal o anjo da guarda do teu amante velou com as mãos o rosto celestial, que as lagrimas inundavam, e foi, suspenso n'um raio da lua, prostrar-se aos pés do throno do Omnipotente!

Entrado na senda da perdição, não havia poder humano que salvasse Raymundo da condemnação eterna. Tinha vendido a sua alma por um beijo de fogo, e trocára o paraizo pelo inferno da voluptuosidade. Profanado o terrivel juramento, o que havia de sagrado para Raymundo? O que importava a honra de cavalleiro a quem prostituira a santa crença de seus paes? Apagára-se a candida estrella que o guiava nas trevas da existencia, e a luz, que o fascinava, scintillava nos olhos negros de Zoraida, a gentil amaldiçoada. Se tinha reflexos infernaes, tinha tambem o esplendor prestigioso da tentação sensual.

Desde essa noite ninguem mais soube d'elle. Diziam que renegára, e que, enlaçado nos braços da musulmana, fechára os olhos á luz do christianismo, e se arrojára ao abysmo infernal, onde ha o fogo eterno e o eterno ranger de dentes.

Foram estas as noticias que Branca recebêra, no dia em que fazia um anno que Raymundo a deixára. Não disse palavra ao receber a nova fatal. Saiu e caminhou pallida, hirta e vagarosa como estatua adormecida n'um tumulo, que, obedecendo a feitiço desconhecido, se erguesse do seu leito de pedra, e se dirigisse muda para o sitio aonde a chamava a attracção mysteriosa.

Os aldeãos, que a encontravam, paravam para a saudar. Mas ella nem os ouvia, nem parecia vêl-os. Costumados á amabilidade da fidalguinha, ficavam os coitados boquiabertos, ao vêrem a desusada distracção. Mas, se lhe reparavam nas feições demudadas, vendo a pallidez de marmore, os labios brancos e entre-abertos, os olhos fixos e esgazeados, benziam-se devotamente, e murmuravam que era mau olhado que tinham dado á menina do castello.

Assim caminhou até chegar ao sitio do Açude. Ajoelhou junto da cruz, e um aldeão, que a seguia de longe, viu-a rezar muito tempo, e abraçar os pés do Crucificado. Depois, chegou á beira do precipicio, e sem hesitação, sem fraqueza, despenhou-se no abysmo. O corpo gentil ennovelou-se nos ares, e foi despedaçar-se nas pedras da cascata, espirrando ondas de sangue que tingiram de purpura o manto de espuma que envolvia as rochas. As aguas do rio abriram-se para tragar o cadaver, e depois continuaram indolentes a correr, e a murmurar o seu eterno cantico, como se não se tivesse escripto alli o epilogo de um drama desventurado.

O aldeão, que vira de longe a scena fatal, sem poder obstar ao seu inesperado desenlace, fugiu dando um grito de horror, e foi contar ao castello o que presenceára. Quem perdeu alguma vez, de modo tão terrivel, um ente estremecido, avalie a dôr do triste pae de Branca. Eu não a sei narrar. Sente-a o coração, mas os labios recusam-se a exprimil-a. Veiu depois gente do castello, e tiraram do fundo do precipicio o cadaver horrivelmente desfigurado da gentil donzella. Enterraram os restos d'aquella pobre martyr aos pés do Crucificado, que ouvira a sua ultima prece, e a quem pedira talvez perdão do crime que ia commetter. Plantaram ao pé da cruz roseiras e madresilvas, cujo perfume suavissimo ia levar ao longe a ultima recordação da que tivera na terra a corôa da innocencia, e tinha agora nos céos a palma do martyrio.»

--Pobre rapariguinha, interrompeu o mestre lagareiro com mostras de penalisado, dar cabo de si por causa d'aquelle patife!

--Então que quer vossemecê, _sô_ Manoel dos Reis, coisas que acontecem, tornou o narrador, ninguem póde fugir á boa ou má sina, que Deus lhe deu. Era aquella a sorte de Branca, havia de cumpril-a.

--Vamos á historia, vamos á historia, bradou José Augusto, com enthusiasmo! Que fez Raymundo? O que aconteceu a Zoraida? Quero saber quem é por fim de contas o phantasma do Açude.