A Lenda da Meia-Noite

Chapter 3

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E as estatuas primorosas dos deuses do paganismo, parecem espreitar complacentes os mysterios da voluptuosidade que se vão abrigar nos caramanchões floridos! E emtanto as acacias que lhes assombreiam os vultos immoveis, inundam com a chuva perfumada das flôres vermelhas as pregas ondeantes da sua roupagem marmorea!

E eu e Julieta caminhavamos silenciosos por entre os alegretes, e a voz do rouxinol da balseira despertava no meu coração um rouxinol desconhecido que me fallava de amor e de ternura.

Inclinei-me para ella e beijei-a! E parecia-me que sentia ao tocar-lhe nos labios as azas brancas do anjo da pureza que davam áquella fronte limpida um resplendor celestial.

Por um sentimento involuntario troquei o meu annel pelo annel de Julieta.

Julguei que Deus santificava o nosso amor, e nos contemplava com indulgencia!

X

Mas quando ergui os olhos, erriçaram-se-me os cabellos de terror, e correu-me pelas veias um calafrio. Fugiu-me a luz dos olhos, e o sangue refluiu ao coração.

Desappareceram os floridos canteiros, emmudeceu o rouxinol suave, sumiram-se as estatuas, fugiram as acacias.

Estendem-se a perder de vista as ruas sombrias de um cemiterio, de um lado e de outro avultam as pedras brancas das sepulturas.

O vento da noite faz ondear os cyprestes funerarios, e o pallido clarão da lua vem beijar melancolico as cruzes tumulares.

O grito sinistro do mocho só de vez em quando perturba a paz dos mortos; por entre a relva dos sepulchros fulgura a lugubre phosphorescencia dos cemiterios.

É tudo silencio em roda, mas ao longe começa a sentir-se um vago rumor, que parece o longiquo ruido de um exercito marchando.

E uma aragem de terror parece esvoaçar por entre os tumulos, dando vida ás loisas e voz ao cyprestal.

Lugubres clarões abraçam as cruzes das campas, e as figuras de pedra que guardam, sentinellas inanimadas, o somno dos finados, agitam-se convulsamente ao sopro de fogo d'aquella procella desconhecida.

A sineta da ermida vibrou no meio do silencio; tres vezes echoou na immensidade aquelle som terrivel.

E eu senti os cabellos erriçarem-se-me, e um suor gelado me inundava a testa.

Então um côro de vozes cavas e profundas entoou lugubremente o _Dies irae_, o hymno da colera de Deus.

E logo uma longa procissão de phantasmas brancos começou a desfilar por diante de mim n'um silencio aterrador.

Depois deram-se as mãos e formaram em torno de mim uma dança de espectros.

E eu sentia os cabellos erriçarem-se-me, e um suor gelado me inundava a testa.

Depois um dos vultos brancos destacou-se do grupo e avançou para mim.

E eu quiz recuar, mas os pés estavam pregados no terreno, e uma força invencivel me domava.

O passo do phantasma não produzia ruido algum, mas eu sentia-o vibrar no fundo do coração.

Vinha envolto no longo manto sepulchral, e ornava-lhe a fronte a grinalda virginal das rosas brancas.

Reconheci as pallidas feições de Julieta, da minha noiva de ha pouco.

--Vae consumar-se o lugubre noivado, disse-me ella sorrindo; vem, meu pallido amante, vem inebriar-te com as mysticas voluptuosidades das sepulturas.

O mocho cantará o nosso epithalamio, e no cruzeiro do cemiterio serão as danças dos finados o nosso baile nupcial.

Olha para a mysteriosa alcova, como nos sorri de dentro da loisa entreaberta a alva mortalha do nosso leito de noivado!

E eu olhei e vi abrir-se a garganta pavorosa de um sepulchro, e senti que a mão de Julieta me arrastava invencivelmente.

Echoavam nas lugubres alamedas as gargalhadas dos finados, o mocho soltava o seu grito funebre, e a lua entornava sobre as campas a sua luz tão pallida.

E eu senti os cabellos erriçarem-se-me de terror, e um suor gelado me inundava a testa.

Não pude resistir, passou-me uma nuvem de sangue por diante dos olhos e cahi desmaiado!

XI

Roberto parou um momento como se se sentisse opprimir pela recordação terrivel d'essa noite.

--Pouco mais lhes posso dizer, meus senhores, sei apenas que no dia seguinte acordei no meu leito, e que estive sériamente doente. Apenas me restabeleci corri á travessa do Moreira.

Da casa de Julieta nem signaes! Tudo desapparecera.

Julguei que fôra victima de uma allucinação, mas ainda hoje se me representam tanto ao vivo as scenas, a que assisti, que não posso admittir a possibilidade d'essa hypothese.

D'ahi por diante nunca mais tive felicidade! Em pouco tempo gosei e padeci muito. As fibras da minha alma sujeitas a uma fortissima tensão quebraram-se, e hoje vivo n'uma incrivel atonia.

A senhora, com quem minha familia me queria vêr casado, desposou um homem menos imaginoso do que eu, que a estremece, e a quem ella estima. Tem dois filhos, que são a alegria da casa e o enlevo dos paes.

A minha imaginação desregrada deixou-me isolado no mundo.

Roberto calou-se. Todos nós ficamos silenciosos, impressionados por essa lugubre historia. Mas Frederico abraçando sua mulher, e dando-lhe um beijo na testa, disse para Roberto:

--As aspirações da alma têm um limite, que não podem ultrapassar. No céo da felicidade ha espheras inaccessiveis onde a natureza humana desmaia, prostrada pela vertigem. Na familia, meu amigo, resume-se a suprema ventura. É prosaica unicamente para os que a não comprehendem. N'esses amores ideaes chega o homem a pontos, em que para me servir das phrases do sceptico Musset:

Où le vertige prend, où l'air devient le feu, Et l'homme doit mourir où commence le Dieu.

* * * * *

Quando Henrique Osorio acabou de lêr o seu improvisado romance, applaudiram-n'o fervorosamente os seus indulgentes ouvintes. Só Isaura bocejava de um modo notavel.

Henrique mordeu os labios um pouco raivoso, e, inclinando-se para ella, disse-lhe ironicamente:

--A nossa idéa foi soberba, minha senhora; se não cura dos terrores, que sentem as pessoas nervosas, ao menos concilia-lhes o somno que affugenta os phantasmas.

--Ah! não, sr. Henrique Osorio, respondeu Isaura; a sua idéa acho-a cada vez peior. Vejam se é admissivel fallar-se aqui em cemiterios á uma hora da noite. Eu, se estou assim mais tranquilla é porque a Leonor me prometteu que dormia no meu quarto.

--É contra os regulamentos, bradou o doutor Macedo. A sr.^a D. Isaura está illudindo a receita.

--Meu Deus, doutor! exclamou Leonor alegremente. Os regulamentos cumprem-se assim de um modo feroz. Não vê que eu vou passar a noite com uma mulher pallida? Depois de ouvir o romance de Henrique, deve confessar que é necessario ser-se heroina!

--É verdade, exclamou Isaura, o sr. Osorio tratou bem as pallidas! No seu entender mulher pallida só póde ser mulher desenterrada. Muito agradecida.

--Mas, minha senhora... balbuciou Henrique.

--Aquillo são reminiscencias de Lisboa, Isaura, exclamou Leonor, rindo. Quiz-se vingar de alguma pallida que o magoou.

--És maldosa, Leonor, murmurou Henrique ao ouvido da sua amiga de infancia.

--É para te ensinar a fazer declarações mais habeis, disse-lhe Leonor tambem ao ouvido. Isaura levantára-se para ir ter com seu pae.

--Então o meu romance é uma declaração? tornou Henrique.

--O teu romance é uma loucura. Estás engraçado com as tuas idealisações constantes. Queres mulheres sobre-naturaes, entes phantasticos, damas brancas de Avenel! Se achas que é lisongeiro para uma mulher perder a sua realidade para agradar ao homem que diz amal-a, morrer primeiro para ser depois desposada por elle em fórma espectral, como no _Noivado do Sepulchro_, de Soares de Passos...

E a maliciosa rapariga recitou, zombeteando:

E ao som dos pios do cantor funerio, E á luz da lua de sinistro alvor, Junto ao cruzeiro sepulchral mysterio Foi celebrado de infeliz amor!

--Então, menina! exclamou Isaura, lá de longe. Olha que eu não vou sósinha para o quarto.

--Ahi vou, querida, ahi vou!

E Leonor, deitando a Henrique um olhar malicioso, foi ter com a sua amiga.

--Então, sr. Roberto Soares, disse o doutor Macedo emquanto pegava no castiçal para se dirigir para o seu quarto, porque, n'essa noite de temporal, nem os visinhos tinham podido recolher a suas casas; então, sr. Roberto Soares, a sua composição caminha? Olhe que é ámanhã a sua vez.

--Que lhe hei de eu fazer? Cá me vou apressando, tanto quanto posso. Metti-me em boa, não ha duvida. Já não estou para estas folias. O viver da provincia enferruja. Ámanhã os rapazes vão rir-se de mim.

--Veremos isso! redarguiu Henrique Osorio, sorrindo amigavelmente. Eu preparo uma pateada.

Roberto Soares affastou-se, rindo, e o doutor Macedo, accendendo um charuto, disse para Henrique Osorio:

--Sabe o que lhe digo, Henrique? Você é uma creança. Anda todo enlevado na pallidez e nos terrores nervosos de Isaura, que é uma tola com bonitos olhos, e não repara que ha por estas serranias uma rapariga, uma perola, que se fina por você.

--Por mim?! Quem me faz essa honra? exclamou Henrique, fazendo se córado.

--Quem tem olhos para vêr, veja; quem tem ouvidos para ouvir, oiça; e quem tem somno para dormir, durma; respondeu gravemente o doutor Macedo. Boas noites.

E partiu, deixando ficar Henrique pasmado. Este demorou-se por alguns instantes a ouvir o temporal que rugia com violencia, e a contemplar com tristeza o sitio onde estivera sentada Isaura. Depois, soltando um suspiro, saíu da sala.

* * * * *

Devo dizer que no dia seguinte as impressões foram muito menos profundas que na vespera. A noite estava mais socegada; caçára-se pela manhã. Estivera bonito o dia, cortado apenas por alguns chuveiros. Comtudo, quando deu a meia-noite, correu um frémito por todos os ouvintes. Estabeleceu-se um profundo silencio, mas a figura amavel de Roberto Soares não era para inspirar terrores legendarios, e foi no meio de uma attenção tranquilla, até um pouco risonha, que o jornalista aposentado começou a sua leitura.

A VISÃO DO PRECIPICIO

I

O meu romance annuncia-se de um modo terrivel. Começa por uma tempestade. Estou obrigado moralmente a apresentar alçapões, subterraneos, e donzellas perseguidas. Se não invento por ahi uns quatro assassinios, estou perdido no conceito de certos leitores!

Tenham paciencia os amadores das _Nodoas de sangue_ e dos _Amantes infelizes ou as victimas de uma paixão_, mas d'esta vez hão de contentar-se com um romance bem morigerado, cujos heroes, todos elles pessoas honestas, não hão de incommodar, em quanto durar o enredo, nem as partes de policia, nem os regedores de parochia, nem os jovens advogados, nem as columnas dos jornaes destinadas pelos noticiaristas aos acontecimentos tragicos do paiz.

Feita esta declaração, vou introduzir os meus leitores... n'um lagar de azeite, por uma noite tempestuosa de dezembro, quando o vendaval açoita rijamente os pinheiraes frementes, e os relampagos illuminam com pallido fulgor as campinas inundadas pelas chuvas copiosas de uma noite de invernia.

Recresce o temporal. As levadas de agua, engrossadas com as chuvas, resvalam pelos penedos, despenham se, espadanam, fazem scintillar á luz do raio doidejantes borbotões de espuma, e arrastam na carreira vertiginosa as arvores desarreigadas pela força irresistivel do furacão! N'estas noites, o aspecto ridente dos campos, que a primavera orna com todas as galas da vegetação, transforma-se completamente. Parece-nos impossivel que o regato, que havia pouco se espreguiçava voluptuosamente sobre as campinas esmaltadas, seja agora a torrente impetuosa que arranca, n'um accesso de furor, as arvores que se miravam descuidosas na sua limpida corrente.

A mim agrada-me o quadro medonho das furias da invernia! Contemplo com delicias a physionomia terrivelmente phantastica das planicies e dos bosques, onde paira, batendo as azas chammejantes, o sinistro archanjo da tempestade!

São estes os episodios grandiosos do poema da natureza! São estas as paginas sublimes do livro da creação!

Era uma quinta solitaria nos arredores de Santarem; a casa dos morgados campeiava orgulhosa e insulada no meio dos campos cultivados, e lá mais ao longe alvejavam as modestas casinhas do logarejo que se debruçava curiosamente sobre as aguas do riacho, mirando n'esse espelho crystallino o seu humilde aspecto, e contemplando depois, á socapa as pompas quasi feudaes do solar dos descendentes d'algum valentão das Indias.

Como os gloriosos representantes d'essa familia aristocratica, deixando a quinta só, estão comendo em Lisboa os seus rendimentos, escusamos de lhes bater á porta, e, se vos parece, vamos immediatamente ao lagar de azeite, que não fica muito longe.

A entrada é franca, e a vista da fornalha, sobre a qual está collocada a caldeira, e onde arde um mólho de lenha, produzindo um bom fogo, claro e crepitante, tenta devéras o pobre homem, que, todo ensopado, contempla o lume da fogueira, tão consolador e attrahente em noites de frio e chuva.

Entrámos em boa occasião; o lagar está em plena actividade. Os clarões indecisos da lareira illuminam um quadro pittoresco e original. Aqui o _engenho de agua_ gira produzindo um som monotono, que, no meio dos rugidos da tempestade, similha o resmungar de velha feiticeira por entre os córos dos archanjos rebeldes em noite de congresso infernal, e, girando sem cessar, tritura conscienciosamente a azeitona submettida á sua implacavel pressão. Além as _varas_, subindo e descendo com toda a regularidade, obrigam a azeitona, já triturada e estendida nas _ceiras_, a distillar o seu oleo precioso. Mas não se resumem n'estes os trabalhos do lagar. Quem reconhecerá o azeite n'esse liquido negro que vae acolher-se silenciosamente na enorme vasilha de barro, a que nos lagares se dá o nome de _tarefa_? Trata-se de o purificar; vamos ás abluções. O liquido negro é assaltado repentinamente por um diluvio de agua a ferver, proveniente da caldeira, que opéra a decomposição com toda a rapidez. Pelo _inferno_, communicação subterranea que conduz a um vallo distante, escoa-se a agua negra, que vae terminar ao longe a sua existencia ignorada, e o azeite, livre finalmente da macula original, apparece em toda a sua limpidez, em todo o seu brilho, em todo o seu esplendor.

No centro da casa terrea, o sr. Manuel dos Reis, mestre-lagareiro, chefe das operações, e supremo dictador n'esta solemne occasião, vigia attentamente as multiplicadas operações do lagar, em quanto o sr. João Moedor (assim chamado por causa das importantes funcções que ali exercia), contempla satisfeito o andamento do _engenho de agua_, confiado aos seus cuidados.

Os adjunctos d'estes dois chefes, sentados á roda da fogueira, alguns camponezes de fóra, que tinham vindo para o «cavaco», e que a tempestade tinha accommettido, os quaes em pé encostados ao cajado ficavam no segundo plano, e dois rapazes de Lisboa a quem a cortezia aldeã tinha concedido o logar de honra, eram as restantes figuras d'este quadro.

Os dois lisbonenses merecem uma descripção especial.

Chamava-se o primeiro José Augusto de Albuquerque. Alto e elegante, pallido, d'esta pallidez ardente, que é quasi sempre symptoma de uma imaginação exaltada, revelava no fulgor desusado dos olhos, scintillantes como dois diamantes negros, o ardor d'aquella organisação sympathica, que devia ser ou a de um grande poeta, ou a de um grande doido, se estas duas idéas não são synonymas, segundo a opinião de muita gente. As olheiras fortemente accentuadas, e que pareciam crestadas pela ardente irradiação das pupillas, acabavam de dar a esta physionomia um cunho original, romantico emfim, _tranchons le mont_, porque devo confessar que o meu heroe tem todas as apparencias de um typo de romance, apesar de ser tão verdadeiro como... o orçamento portuguez.

O companheiro de José Augusto formava com elle um perfeito contraste. Se as centelhas de intelligencia, que se escapavam dos olhos negros de José Augusto, revelavam uma organisação em que o espirito predominava, em que _l'âme_ dominava _la bête_, para me servir da classificação de Xavier de Maistre, a luz fria e sem expressão, que brilhava nos olhos azues do seu companheiro, dava a conhecer a beatifica indifferença do adorador da materia. N'um a estatua delicada e quasi feminil denunciava a fina constituição de uma natureza naturalmente aristocratica; no outro a obesidade das fórmas dava idéa do Sancho Pança de Cervantes, ainda que a alta estatura mostrasse que esta nova edição do governador da Barataria era feita n'outro formato. N'aquelle os movimentos altivos da cabeça, o modo enthusiastico com que atirava para traz as ondas lustrosas da sua negra cabelleira, indicavam bem as aspirações elevadas de um coração a trasbordar de poesia e de generosidade; n'este os gestos pacatos, e as suissas loiras que flanqueavam serenamente uma cara de lua cheia, mostravam o genio bonacheirão do homem que não pensa senão no modo de conservar sempre, em bom estado, a sua economia animal, satisfazendo as reclamações incessantes de um estomago insaciavel.

O primeiro era, como disse, José Augusto de Albuquerque, rapaz com alguns vintens, que viajava para se divertir. O segundo era o sr. John Williams, inglez ingenuo e bem morigerado, que aguentava uma boa dóse de garrafas de vinho sem vacillar, que bebia exactamente o que ganhava n'um escriptorio de negociante, e que, apaixonado por viagens, como todo o bom inglez deve ser, tinha pedido licença de um mez para acompanhar o seu amigo José Augusto n'uma excursão á Extremadura.

No momento em que entrámos, reinava um profundo silencio. Lá fóra os rios, que a chuva fazia ferver em cachão, resaltavam sobre os rochedos com um estampido formidavel; as rajadas da ventania, batendo com furor de encontro á porta, faziam-n'a ranger, e abriam-n'a de vez em quando, arrojando torrentes de chuva para dentro do lagar. A voz da procella ora se assimilhava aos rugidos blasphemos do anjo das trevas, ora, plangente e soturna, imitava os gemidos das almas penadas, que vagueiam na terra pedindo aos vivos orações. O trovão, ribombando no espaço, dominava, de vez em quando, com a sua voz magestosa, o pavoroso ruido da tempestade.

Havia harmonias sublimes n'aquella desharmonia apparente; era selvatica mas grandiosa a immensa orchestra do temporal.

--Santa Barbara nos acuda, murmurou devotamente o sr. Manuel dos Reis, tirando o seu barrete azul, já bastante azeitado, no momento em que um trovão formidavel fazia benzer todos os circumstantes--S. Jeronymo te afaste, ruim trovoada, de todo o povoado onde haja almas christãs.

--Amen, resmungou em côro a companha aldeã.

--E temos a chuva pegada, que não ha que esperar senão uma noite de agua. O vento puxa por ella que é um regalo, tornou o mestre-lagareiro, quando o terror produzido pelo trovão se dissipou um pouco mais. Ah! meu fidalgo, v. s.^a querer metter-se a caminho por uma noite d'estas é mesmo tentar a Deus!

--Deixal-o, tornou o interpellado, que era o nosso amigo José Augusto de Albuquerque, sabe você, sr. Manuel dos Reis, que eu gósto de noites assim? Que diabo! quando atravesso a galope a clareira de um bosque inundado pela chuva, e que vejo, á luz do relampago, as arvores nuas de folhas estenderem-me os braços descarnados, e formarem em torno de mim, guiadas pelo furacão, danças phantasticas e extravagantes, imagino vêr as danças da meia-noite, travadas pelos espectros nos cruzeiros dos cemiterios, e, lembrando-me dos contos lindissimos que a minha ama me contava quando eu era pequeno, chego a acreditar na sua realidade, e acho prazer n'aquillo. Então que quer?

--Arreda!--bradou o João Moedor, coçando a cabeça e fazendo ao mesmo tempo um gesto de susto, sempre v. ex.^a diz coisas que fazem arripiar os cabellos á gente. Gostar v. s.^a de vêr dançar as aventesmas as suas danças malditas, como o meu compadre viu com os seus proprios olhos na noite de S. Bartholomeu, em que anda o diabo solto, como vocemecê ha de saber. Safa! Era capaz de seguir o phantasma do Açude até ao seu esconderijo infernal.

--O phantasma do Açude! O que é isso, o que é isso, ó sr. João?--perguntou José Augusto com a maior curiosidade.

--Historias da vida, meu fidalgo, retrocou o sr. Manuel dos Reis, é este diabo do João Moedor que não sabe fazer outra coisa senão contar contos da carochinha. Bom estavas tu, meu rapaz, para mestre-lagareiro! Andas com a cabeça a rasão de juros a pensar lá n'essas _maniversias_, deixavas ir o azeite pelo _inferno_ abaixo, e nunca eras capaz de pôr o _espicho_ a tempo e a horas. Sempre estás um massador!

--E é verdade, sôr Manuel dos Reis. Este João Moedor não faz senão moer a paciencia á gente, tornou um camponez que estava ao pé da porta, encostado com toda a denguice ao seu varapau.

Todos se riram do _calembourg_ aldeão, e o sr. João Moedor esteve algum tempo sem poder fallar no meio dos motejos e das risadas da turba campesina. Finalmente:

--Leva rumor!--bradou elle. Com que então, sô Zé do Moinho, acha você que eu môo a paciencia á gente, hein! Você não acredita n'estas coisas, apesar de eu ter visto muita vez sua tia andar por cima da folha, e correr por cima das latadas para ir ter com seu compadre _Berzabum_! E ainda não estou muito certo se não é você, sô cara de não sei que diga, que anda a horas mortas a cumprir o seu fado, feito burro, por esse mundo de Christo, como fazia seu avô que foi lobis-homem, segundo diz a gente antiga cá da terra.

A victoria ficou d'esta vez ao novo campeador. Os motejos dirigiram-se todos para o sr. Zé do Moinho, que quiz replicar enfurecido, mas que se viu obrigado a metter a viola no sacco, e a ficar de cabeça baixa a um canto. O triumphador havia pouco era agora humilhado. _Sic transit gloria mundi_!

--Conte lá a historia, ó sr. João, que aqui tem você um ouvinte que não é capaz de duvidar da veracidade das suas palavras--tornou José Augusto com a curiosidade a revelar-se-lhe nas feições.

--Tem v. s.^a muita rasão, meu fidalgo, retrocou o João Moedor com modos de triumpho, e com perdão de vocemecê, sôr Manuel dos Reis, sempre lhe direi que a historia do phantasma do Açude não é conto da carochinha. Em noites assim de temporal, quando o rio engrossado pela cheia, ceifa os pinheiros mais taludos como eu ceifaria uma espiga de trigo no tempo da monda, não é cá o rapaz que se atreve a passar ao pé do Açude, sem se benzer quatro vezes, e sem fechar os olhos para não vêr a melancolica D. Branca. E não é só a mim que isso acontece; o mais pimpão do sitio tremia, como varas verdes, se se visse obrigado a passar a estas horas por aquelle sitio amaldiçoado, a não ser o _Come-bichos_, que vendeu a alma ao diabo. Deus me perdôe se minto; mas o maldito tem mesmo cara de condemnado. E conheço eu alguns que se fazem muito valentes quando estão bem acompanhados, e que não eram capazes de passar sósinhos por ao pé do Açude, nem que lhes dessem todos os thesouros encantados do imperador da Moirama.

Esta ultima allusão ia evidentemente com sobre-escripto para o Zé do Moinho; a resposta d'este (se por acaso elle tencionava responder), foi abafada pelas acclamações dos restantes, que applaudiram o orador, bradando em côro:

--Tem rasão! É uma heresia duvidar d'estas coisas! O João fallou bem. Tem uma linguinha de oiro, este moedor!

O distincto orador comprimentou modestamente os seus amigos politicos pela ovação que fizeram ao seu estiradissimo discurso, e que impacientou apenas o Zé do Moinho, que era da opposição, José Augusto de Albuquerque, que estava desejoso de conhecer a lenda, e o leitor, que talvez nem esteja para a ouvir.

--Vamos á historia, vamos á historia, bradou José Augusto, todos lhe prestamos attenção, e acreditamos em tudo quanto você disser, como os mahometanos na missão do seu propheta.

Ninguem comprehendeu a comparação: por conseguinte todos ficaram fazendo uma elevadissima idéa da erudição de José Augusto. João Moedor piscou os olhos, e bradou com enthusiasmo:

--Fallou que nem um livro. Pois então já que tanto aperta, lá vae a historia.

Todos se chegaram uns para os outros, e João Moedor começou no meio de um silencio solemne a sua narração.

Chegado a este ponto, Roberto Soares interrompeu-se, e, levantando os oculos, disse para os seus ouvintes: