A Lenda da Meia-Noite

Chapter 2

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Por isso a parte feminina da assembléa acolheu a proposta com enthusiasmo: e a mim e aos outros homens, que estavam presentes, não desagradou a idéa de ouvir uma historia terrivel, em _petit comité_, no pino da meia noite, tendo de voltar depois para casa por aquelles caminhos desertos dos arredores de Lisboa; a mim sobretudo, que tinha de passar pelas casas arruinadas de Campolide, sorria a idéa de ir com a imaginação povoada de phantasmas, que poderia distribuir á vontade pelos recantos d'essa paisagem tão magestosa, quando a lua envolve os paredões solitarios na branca mortalha da sua luz, em quanto ao longe se desenha sobranceiro entre os campos verdejantes o perfil grandioso do aqueducto sombrio.

Roberto, devemos dizel-o para honra sua, não se fez rogado, comprimentou silenciosamente a assembléa, e começou pouco mais ou menos n'estes termos:

II

«Cantava-se em Lisboa pela segunda ou terceira vez o _Baile de mascaras_. Era uma noite de delirio no theatro de S. Carlos. Franschini, o cantor sublime, fazia tremer de enthusiasmo a platéa inteira, e a voz portentosa de madame Lotti despenhava sobre o publico palpitante torrentes de melodia e de sentimento. O personagem de Amelia, interpretado como então o foi, deixava de ser um typo creado pela imaginação do poeta para se transformar, animado pelo Prometheo do genio, n'um ente real, cujos sentimentos traduzidos em suspiros de harmonia, iam arrancar os soluços dos peitos dos espectadores.

Era o poema da paixão, com todas as suas peripecias, mas da paixão verdadeira, da paixão que geme e rasga os seios da alma, da paixão que verte lagrimas, de cujas feridas brota o sangue, e não d'essa paixão ficticia, cuja expressão convencional anima só a mascara, que a artista desafivella apenas desce o panno.

Eu, perdido n'um canto da platéa, escutava, como escuto sempre quando vou ao theatro lyrico. N'isso devo confessar-lhes que tenho idéas um pouco originaes. O panno, que sóbe lentamente no principio da opera, descerra para os outros espectadores meia duzia de taboas rodeadas por bastidores de lona, onde uns poucos de artistas vão cantar umas poucas de arias para divertimento do publico. Para mim é como que uma janella encantada que se abre por onde eu me arrojo para os espaços azues do ideal. Os outros analysam com toda a paciencia a instrumentação e o canto, investigam se foram executadas as leis do contraponto, e depois de satisfeitos applaudem compassadamente para não rasgarem as luvas, voltam-se bocejando, e comprimentam a senhora condessa de * * *, ou a senhora baroneza de * * *, cuja chronica escandalosa vão contar immediatamente ao seu visinho da esquerda.

Mas eu não. A minha alma, que illumina o fogo do enthusiasmo, não póde ficar na terra, quando sente passar no espaço o sopro da harmonia, da casta filha do céo. Desapparece o theatro, desapparecem os espectadores, desapparece a ficção. Arrastada no manto de fogo do ideal, a minha alma sente, enleva-se, palpita, geme, pranteia, soluça com Macbeth o grito do remorso, suspira com Desdémona a canção da saudade, gorgeia com Helena o hymno da desposada, escuta com Rosina a meiga serenata, sólta com Lucrecia o rugido da envenenadora, e volta depois á terra, deixando-me ficar pallido, extasiado, porque entrevi em sonhos a deslumbrante claridade de um mundo desconhecido.

Tinha começado o segundo acto, e eu seguia cheia de um vago terror a scena lugubre do principio. As notas da aria de Amelia soavam-me aos ouvidos como dobres de finados, e quando a Lotti soltou aquelle grito de pavor, que vibrava sonoro e plangente pelo theatro, fazendo estremecer os espectadores, eu levantei-me pallido, convulso, e senti correr-me pela raiz dos cabellos o halito de fogo de uma mysteriosa commoção.

O meu visinho olhou para mim espantado; sentei-me, deixei cahir a cabeça entre as mãos, e scismei.

--Ó ideal, dizia eu, quando poderei finalmente sorver a longos tragos o teu nectar precioso na cinzelada taça da phantasia?

«Ó virgem dos meus sonhos, ó anjo das azas de ouro, quando poderá a minha alma, abraçando-se comtigo nas regiões celestes, aspirar a plenos pulmões a balsamica aragem da poesia?... O que és tu, ente mysterioso, que assim bafejas o espirito dos grandes poetas, e lhes vaes murmurar, em noites de inspiração, os segredos sublimes que o vulgo profano admira, mas não comprehende?

«Oh! quaes serão as visões d'estes homens portentosos, e nas suas noites de febre, de delirio e de insomnia, em que mysticos amores te enlaças tu com elles, ó ideal sublime, ó ideal inspirador? E emtanto nós, os desherdados, bebemos com um riso alvar a agua insipida e lodosa dos prazeres do mundo, e caminhamos n'esta planicie monotona da vida, olhando com terror para o Sinai chammejante, onde campeiam, cercados da divina aureola, os harmoniosos prophetas, os validos da inspiração!

«Não posso; falta-me o ar no recinto estreito da vida social; a prosa d'este mundo opprime-me o coração. A minha alma está sequiosa de amor, e este apparece-me sempre escoltado pelas conveniencias, trazendo sobre o rosto formoso a mascara ridicula dos interesses materiaes, ou a mascara odiosa do capricho sensual. Amor! amor! mas um amor como o teu, ó casta e pura Amelia, como o teu, ó Julieta, ó noiva gentil de Romeu e da sepultura, quero um d'esses amores sublimes, e, se elle não se encontra na terra, surge dos tumulos, ó pallida virgem por quem eu anhelo, e mostra-me ao menos n'um relampago as mysteriosas alegrias da eternidade!»

N'isto levantei a cabeça, e os meus olhos involuntariamente fixaram-se n'um camarote, que ficava pouco distante do logar que eu occupava na platéa. Uma senhora de belleza maravilhosa estava sósinha n'esse camarote, e encarava-me com uma attenção extraordinaria. Não sei porque gelou-se-me o sangue nas veias, e fiquei extatico a contemplar aquella esplendida formosura.

Raras vezes tenho encontrado um rosto assim! A correcção das linhas, a pureza dos contornos, a magestade do perfil deixavam na sombra os mais perfeitos modelos da antiga estatuaria. Praxíteles quebraria desesperado as estatuas e o cinzel, se lhe fosse dado contemplar as inflexões suaves, a perfeição das fórmas d'aquella viva esculptura.

Se algum defeito se lhe poderia notar, era a rigidez marmorea da physionomia. Via-se que nem tristezas nem alegrias seriam capazes de alterar a regularidade do semblante, que só parecia ter vida nos olhos, que eram lindos a mais não ser, e d'onde emanavam raios magneticos e deslumbrantes, que enlouqueciam quem se atrevesse a encaral-os. Aquelle rosto assemelhava-se a uma urna de marmore, em cima da qual se tivesse collocado uma lampada de luz fascinadora. Era um fragmento de gêlo dourado levemente pelos reflexos de um vulcão, mas essa physionomia tinha um não sei que de mysterioso e sombrio, que me impressionou profundamente.

Olhei para o relogio. Os ponteiros marcavam no mostrador meia-noite em ponto.

No theatro os conjurados cantavam o côro das gargalhadas, e repetiam rindo o estribilho:

Ah! chè baccano-sul caso strano Andrà dimani per la città!

III

Sem poder explicar a mim mesmo a fascinação irresistivel, que me impellia tão imperiosamente á contemplação d'aquelle formoso semblante, nunca mais desviei a vista do camarote. E ella, oh! ella olhava-me com uma meiguice de enlouquecer.

Estava toda vestida de negro, e isso ainda mais contribuia para fazer realçar a alvura da sua tez. Trajava elegantissimamente, mas com uma singeleza, que me encantou, a mim, que procuro quasi sempre o bom gosto na simplicidade.

Só ella occupava o camarote! Sósinha! Quem poderia ser? Tão nova, tão formosa, e só! Oh! meu Deus! seria ella uma d'essas mulheres sem pudor, que arrastam por toda a parte o manto de seda da ignominia, que foram apanhar da lama, onde deixaram em troca o candido véo da innocencia? Impossivel! O seu porte modesto, a simplicidade do seu trajo eram um protesto vivo contra o descaro, e orgulhoso cynismo d'essas Messalinas venaes.

Mas só! Quem sabe? Talvez a pessoa que a acompanhava, estivesse escondida na sombra do camarote; talvez tivesse saído. Tudo podia ser, mas a suspeita é que não podia manchar nem por momentos a luz serena d'aquelle rosto angelical.

E eu olhava-a deslumbrado; e uma transformação estranha se operava em mim. Parecia-me que as luzes do theatro iam esmorecendo a pouco e pouco até se reduzirem á claridade sinistra das lampadas sepulchraes, o palco e a platéa confundiam-se n'um vasto cemiterio, onde o vento da noite fazia ondular a copa dos cyprestes, por entre cujos ramos passavam os raios da lua, da pallida scismadora, da solitaria amiga das sepulturas.

E ella, ella, a formosa desconhecida, vinha dizer-me com o seu olhar tão triste:

--Queres o meu amor, ó pobre escravo d'um corpo material, ó doido, que aspiras ao infinito sem pensares que tens os pés embaraçados na immunda vasa d'esse oceano de desespero, que se chama a vida? Oh! não queiras conhecer os segredos dos tumulos, porque tu, meu louro poeta, voltavas ao mundo de cabellos brancos, se tocasses um só minuto com os labios na taça inebriante dos amores da eternidade!

--Oh! que me importa a vida, respondia eu na allucinação febril, se em troca d'esses dias de prosa me posso arrojar um instante só aos espaços infinítos das sublimes commoções! A minha alma é como a aguia, que se arroja ás regiões das nuvens, affrontando a tempestade, e cae depois na terra fulminada pelo raio, que altiva foi provocar. Que me importa a mim a morte, a condemnação eterna, se podér sorver nos teus labios voluptuosidades desconhecidas, e lêr nos teus olhos o poema sublime do amor, que eu phantasio?

A visão desapparecia; mas no palco a voz seductora d'Oscar, o elegante pagem, vinha murmurar-me aos ouvidos:

Pieno d'amor Mi balza il cor; Ma pur discreto Serba il segreto.

E no olhar da minha formosa desconhecida lia-se em letras de fogo a mesma confissão inebriante:

Pieno d'amor Mi balza il cor.

IV

Tinha acabado a opera. Levantei-me e saí.

Fiz um esforço sobre mim, não querendo olhar para o camarote fatal. A pessoa que o occupára durante a noite produzira em mim uma impressão tal que cheguei a ter medo... medo da influencia pasmosa que ella ía tomando sobre o meu pobre coração.

Oh! fatalidade! Quando cheguei ao corredor, o primeiro vulto, que passou por diante de mim, foi o vulto elegante e nobre da gentil desconhecida. Ia só!

Tive como que uma vertigem, quando ella, ao passar, me lançou um d'esses olhares que endoidecem o homem de rasão mais fria, que lançam no inferno o mais virtuoso santo do paraizo.

Não tive forças para luctar contra a fascinação irresistivel d'esse olhar. Se elle tinha sobre mim a influencia magnetica do olhar de José Balsamo sobre a pobre Lorenza ideada por Alexandre Dumas! Debalde a pobre italiana se torcia desesperada debaixo d'aquelle jugo oppressor, debalde oppunha toda a força da sua vontade e do seu odio á tenacidade diabolica do terrivel magnetisador, debalde resistia com todo o ardor da sua devoção, com todo o vigor da sua alma virginal áquelle poder incomprehensivel, mas horrendamente verdadeiro; tinha de recuar diante d'esse olhar, como diante d'uma espada chammejante, até caír oppressa e desesperada aos pés de José Balsamo. Então esse corpo quebrado pela resistencia, reclinava-se nos braços da voluptuosidade, e a voz que ia terrivel a bradar: «Odeio-te», terminava supplicante a balbuciar: «Adoro-te».

Ao vêl-a, disse eu commigo mesmo: «Não quero, não quero ceder a esse imperio inexplicavel.» E minutos depois, surprehendia-me a seguil-a apressadamente pelas ruas de Lisboa.

Ha occasiões em que nos vêmos obrigados a acreditar em forças sobrenaturaes que nos attrahem e nos repellem, é quando a nossa vontade se aniquila, e quando as leis da nossa organisação são violentamente revogadas por um despotismo estranho.

Submetto esta reflexão á consideração dos illustres materialistas que me escutam!

V

A desculpa que eu dei a mim mesmo, quando apesar de todos os meus protestos me surprehendi a seguir a senhora de negro, foi a desculpa da curiosidade.

Com effeito, dizia eu commigo, tirando philosophicamente baforadas de fumo do charuto que acabára de accender no momento em que passou por diante de mim a formosa desconhecida; o que ha mais natural? Encontro uma linda mulher em S. Carlos, linda como poucas, e original a mais não poder ser. Vejo-a no camarote sósinha, e torno a vêl-a, saíndo a pé, e ainda só. Não tenho nada que fazer, e por conseguinte sigo-a. É naturalismo.

E a voz da consciencia murmurava-me ao ouvido:

--É o brilho da chamma tentadora, ó doida borboleta, é o olhar fascinador da serpente, ó ave descuidosa.

--Ora adeus, respondia a voz da minha apparente philosophia, prejuizo, superstição, fanatismo, como dizia o tenente Boutraix de um dos romances de Carlos Nodier. Vou offerecer-lhe o meu braço.

A senhora que eu seguia caminhava lentamente a quinze passos adiante de mim, quando muito. Passava ella então defronte da egreja dos Martyres. Puz o chapéu ao lado com modos conquistadores, colloquei o charuto ao canto da bocca, e accelerei o passo.

Apesar d'isso, e apesar da minha bella não alterar por fórma alguma o seu andamento, não diminuia, pelo menos sensivelmente, a distancia que nos separava. O vulto elegante da senhora de negro, ao passar por diante dos candieiros de gaz, revelava-se em toda a sua riqueza de fórmas, em toda a magestade do seu porte airoso. Havia uma suprema distincção no seu modo de andar, mas apesar d'isso havia um não sei quê de mysterioso n'aquelle mover de estatua, lento e inteiriçado, que fazia uma impressão pouco agradavel.

Chegámos assim á rua Nova do Carmo; ella voltou para baixo; eu segui-a.

A distancia conservava-se a mesma. Mas, como ia diminuindo o numero das pessoas que caminhavam para aquelles sitios, saindo, como nós, de S. Carlos, eu tomei uma resolução definitiva, e comecei a dar grandes passadas para apanhar finalmente aquella mulher que me fugia incessantemente como esse caçador das lendas do norte, que foge sempre, sem perder um palmo de terreno, mas sem poder tambem desapparecer, á sua matilha infernal.

Nem assim pude diminuir a distancia que me separava d'esse vulto extraordinario.

E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio, sem que a bulha dos seus passos acordasse um só echo nas ruas solitarias.

Chegámos ao Rocio. Eu começava a estar suado. Despi, sem affrouxar o passo, o paletot que me incommodava, e pul-o aos hombros.

Depois dei a andar com dobrada rapidez.

A senhora de negro caminhou pelo Rocio na direcção do Passeio.

Chegámos ao largo de Camões.

Nem uma pollegada diminuira a distancia que mediava entre nós.

E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio, sem que a bulha dos seus passos acordasse um só echo nas ruas solitarias.

Eu apertava as mãos na cabeça, porque sentia uma torrente de fogo a inundar-me o cerebro, e a rasão a abandonar-me.

A noite era sombria, e no estado em que estava pareceu-me sinistro devéras o aspecto d'essa massa do Passeio Publico, envolto n'um manto de trevas.

A quinze passos adiante de mim caminhava sempre elegante e distincto o vulto negro da minha gentil desconhecida.

Perdi a cabeça e deitei a correr, litteralmente a correr, atraz d'ella. A bulha da corrida produzia um som lugubre, e fazia-me estremecer de vez em quando. O suor escorria-me em fio pela cara abaixo.

Saimos da rua Oriental do Passeio, entrámos na calçada do Salitre, chegámos á esquina da travessa do Moreira, e eu não conquistára um palmo de terreno.

E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio, sem que a bulha dos seus passos acordasse um só echo nas ruas solitarias.

Quando ali chegámos, a desconhecida entrou resolutamente na travessa, e eu parei. Sentia o coração palpitar-me com violencia, e... tive medo, confesso o.

Era tão extraordinario o que me estava succedendo, que este sentimento, devem confessal-o, era um pouco desculpavel.

Comtudo venci a timidez passageira, e entrei resolutamente n'essa rua tão deserta.

Quando a minha desconhecida chegou ao pé de uma casa isolada no meio da travessa, parou, voltou-se para mim, e bradou com uma voz melodiosissima:

--Ámanhã á meia-noite, debaixo d'esta janella.

Eu estaquei attonito de surpreza.

VI

Descrever-lhes a lucta que se travou no meu espirito, quando voltando para casa me fui sentar á mesa de trabalho, e comecei a reflectir fria e pausadamente na aventura nocturna, seria contar-lhes a historia longa e fastidiosa do combate da rasão com as minhas tendencias para o sobrenatural.

Dir-lhes-hei, resumindo, que sem attender a outra coisa que não fosse a seducção inexplicavel, que me attraía para esse ente incomprehensivel, fui no dia seguinte á meia-noite ao _rendez-vous_ aprazado.

Soava não sei em que relogio a ultima badalada da meia-noite, quando se abriu a janella, e appareceu ante os meus olhos deslumbrados o formoso rosto da gentil desconhecida.

Balbuciei phrases sem sentido, mas a lingua pegou-se-me ao céo da bocca, e não pude dizer uma palavra que se entendesse.

--Porque me seguiu hontem? perguntou ella com uma voz melodiosa e triste, como o gemer da brisa nos cyprestes.

--Porque a amo.

--Sabe quem eu sou?

--Que me importa! Quem vae perguntar ao anjo que nos afaga em sonho o nome com que o distinguem nas phalanges celestiaes?

--E ama-me?

--Mais do que a vida!

--Só?!

Que poder incrivel tinha aquella mulher sobre mim? Não sei; sei que lhe respondi com o olhar inflammado:

--Mais do que Deus!

--Não estranha o mysterio em que me envolvo?

--Não sei. Este amor é uma paixão fatal. Virgem ou devassa, candida ou profanada, anjo ou demonio, amo-a cegamente, sem me importar com o passado nem com o futuro, desejando só ter o presente meu, só meu. Este amor é para mim um vinho que embriaga, e se no fundo da taça encontrar veneno, que importa? morrerei abençoando as horas da embriaguez. Isto é uma loucura, bem sei, mas se podesse conhecer a atonia moral em que o meu espirito tem existido! Se soubesse como eu anhelo por estas commoções extraordinarias, que devoram n'um minuto a existencia de um homem! Já vê quão pouco exigente eu sou; não me negue um raio d'essa aureola d'amor que lhe circunda a fronte. Essa luz tenuissima transformal-a-hei em chamma esplendida, que ha de illuminar as trevas do meu viver prosaico.

--Acceito o seu amor, se essas palavras não o exagaram. Não queira penetrar no mysterio que me envolve. Quando fôr necessario, eu mesma o rasgarei, e confie em mim, ha de encontrar-me digna do seu amor. Entretanto creia e espere. Adeus.

--Já?

--Não me posso demorar nem um minuto.

--Oh! mas diga-me uma palavra consoladora. Este amor immenso não encontrou echo no seu coração?

--Amo-o.

--Mas com um amor semelhante ao meu, inebriante, immenso?

--Immenso... como a eternidade.

E fechou a janella, deixando-me ficar extatico e cada vez mais espantado da estranheza dos seus modos.

VII

Assim continuou todas as noites aquelle amor excentrico. Todas as noites eu tomava a firme resolução de não tornar lá, e sempre as badaladas da meia-noite me surprehendiam na travessa do Moreira, por baixo da janella fatal.

No tempo em que me succedeu esta aventura, tratavam meus paes do meu casamento com uma menina rica, que não desgostava de mim, e por quem eu, não sentindo amor, não sentia tambem antipathia.

Era ella uma menina capaz de inspirar uma affeição fraternal, mas nunca uma paixão a um espirito arrebatado como este meu.

Era bonita, mas um typo vulgar, horrivelmente vulgar. A pobre menina não tinha culpa d'isso. Demais a mais era o que se podia chamar um acerto: dote soffrivel, excellentes qualidades de mulher e de dona de casa.

Creio que juntava a isso tudo o fazer marmelada perfeitamente. Não sendo muito guloso, não era eu o mais proprio para poder apreciar dignamente esta prenda, que a distinguia.

Nunca mais appareci em casa d'ella, desde a noite de S. Carlos. Um dia passei occasionalmente por lá, e vi-a com os olhos vermelhos de chorar. Comprimentei-a, ella correspondeu me tristemente, e retirou-se da janella.

--Ora adeus, disse eu comigo mesmo, foi deitar assucar nos marmelos. Talvez ali esteja um coração! accrescentei eu no monologo mental. Não creio, continuei, o coração desarranja as cassarolas, e incommoda-a no varrer da casa.

Foram estas idéas falsas que me perderam, meus senhores; idéas d'um espirito extravagante que procurou sempre em regiões inaccessiveis a felicidade, que nunca pude encontrar, e que talvez caminhasse ao meu lado sem eu dar por isso.

O meu espirito talvez fosse como o Rouvière de uma comedia de Feuillet, que, depois de ter percorrido o mundo em todos os sentidos, fica espantado de encontrar a felicidade sentada ao canto da lareira de uma familia burgueza n'uma aldeola do seu paiz natal.

VIII

Chamava-se Julieta a heroina do meu romance de amor. Até o nome era de fazer enlouquecer um enthusiasta como eu.

Essa aureola de poesia e de encanto com que Shakespeare circumdou a fronte da pallida italiana, parecia atravez das edades vir doirar com um reflexo luminoso a fronte gentil da Julieta, que eu adorava.

Foi a unica informação a seu respeito que d'ella obtive. Tudo o mais ficava para mim envolvido n'um mysterio que eu não tentava penetrar.

Uma noite a nossa conversação foi tomando a pouco e pouco um caracter mais ardente e languido. Palavras de amor entrecortadas, suspiros involuntarios vindo interromper o dialogo, longos silencios durante os quaes eu sentia o palpitar apressado do meu coração, em quanto via a imagem seductora de Julieta desenhar-se na janella illuminada caprichosamente pelo fulgor da lua, tudo isto despertava em mim uma voluptuosidade deliciosa, mas que me magoava.

Uma vez, em quanto ella ficava perdida n'essa vaga contemplação da lua e da noite perfumada, eu involuntariamente approximei-me da parede da casa, e ajudando-me com as grades da janella do pavimento das lojas, pude trepar até ao parapeito da janella, e de repente, sem que ella parecesse reparar na ousadia do meu procedimento, imprimi-lhe nos labios um beijo de fogo.

Os labios d'ella estavam frios como os de uma estatua.

Olhou para mim com olhar meigo e recuou.

Entrei no quarto e cahi-lhe aos pés, balbuciando:

--Julieta, amo-te!

E cobri-lhe as mãos de beijos devoradores.

Ella olhava para mim com uma expressão indefinivel. Não podia dizer se era ternura, se ardor, se frieza, o que esse olhar continha; sei sómente que quanto mais ella me encarava, mais eu me sentia enlouquecer.

--Vem, meu amante, murmurou Julieta passando-me o braço á roda do pescoço, e arrastando-me com meiguice para uma porta entre-aberta, vem! sobre o lilaz florido do meu jardim embalsamado descanta o rouxinol as suas trovas de amores! é tudo mysterio n'esta hora encantadora! Vem!

Abriu-se a porta e nós entramos n'um jardim esplendido.

IX

Era na hora mysteriosa em que das urnas das flôres se expandem na atmosphera thesouros de aroma e de languidez, e em que o homem absorto julga escutar vagamente na esplendida immensidade a longiqua harmonia das espheras.

Na hora em que o rouxinol espalha sobre a terra as perolas do seu canto, e em que a natureza escuta embevecida o hymno mavioso do seu interprete sublime.

Porque n'essa hora dormem as paixões terrenas, e o mundo parece envolver-se por momentos no manto da sua virgindade, afim que Deus possa reconhecer a sua feitura, desfigurada pelo agitar convulso do verme pretencioso que se chama o homem.

E o Omnipotente immovel no throno da sua grandeza, revê-se silencioso no espelho da Creação.

Oh! como a lua desenrola graciosamente o seu manto luminoso sobre as alamedas desertas do esplendido jardim! Como os seus raios se baloiçam mollemente no berço fluctuante da folhagem! Como se miram descuidosos no crystal das fontes!