Chapter 13
Era Patricio que, vencendo as suas indecisões, reunira todas as suas forças e coragem, e salvára d'essa fórma a formosa Jenny.
Ao mesmo tempo ouviu-se uma voz que dizia:
--Despeço-te do meu serviço, mas ahi tens o ordenado.
Não era mau, effectivamente; o irlandez esteve tres mezes em lençoes de vinho, e ficou toda a vida com uma dôr nas costellas.
Mas os dois noivos, a quem elle contára o que estivera para lhes succeder, foram-lhe eternamente gratos, ajudaram-n'o muito na sua vida, e, quando envelheceu, levaram-n'o para casa, onde teve sempre uma boa cadeira, onde se sentava a apanhar a sua restea de sol, e onde entretinha os filhos de seus hospedes, contando-lhe as suas viagens aérias, e a historia dos tres espiritos.
V
Cerrou-se a noite de todo, meus meninos, e o sereno esplendor da lua branqueia-vos as rosadas faces; desperta a natureza quando adormece o homem; as flôres entreabrem os seus thuribulos; a fonte desdobra o transparente crystal das suas aguas, e as naiades chorosas entoam os seus lamentos.
Já o somno começa a fazer-vos pender a fronte; brincastes, correstes durante o dia á luz do sol, chega a hora do repouso, depois, quando fôrdes crescidos, gostareis de ficar, como eu fico, a contemplar o estrellado docel do firmamento, e a perguntar ás vozes mysteriosas da natureza qual é o segredo que faz palpitar tantos mundos na abobada estrellada; gostareis de vêr os campos onde o luar se espraia, as infindas maravilhas da creação! mas oh! nunca vereis panoramas como os que vos sorriem agora nos meigos sonhos da infancia.
Ide, pois; esperam-vos os anjos escondidos detraz das cortinas alvas do vosso leitosinho, e, se algum espirito aéreo se vos entre-mostrar tambem, não tenhaes medo, porque os habitantes d'estes ares luminosos são fadas meigas e risonhas, e não duendes malignos.
* * * * *
No dia seguinte áquelle em que o doutor Macedo contára, com grande gaudio das creanças, a lenda do _Dominus tecum_, uma carruagem parava á porta do visconde da Fragosa, e apeiava-se d'ella uma senhora edosa de nobre aspecto e veneranda physionomia, que pedia para fallar ao visconde e á viscondessa da Fragosa.
Era a mãe de Henrique Osorio, que vinha pedir para seu filho a mão de Leonor.
Fez algum reboliço em casa dos viscondes este subito pedido feito para pessoa que sempre vivera em intimas relações com Leonor, e que nunca até ahi mostrára desejos de a requestar.
Fallando-se n'isso no grupo dos hospedes, o doutor Macedo disse:
--É para que saibam que, quando se semeia sempre se colhe alguma coisa, ainda que não seja aquillo que se previu. Das nossas lendas da meia-noite saíu este casamento, o que prova mais uma vez que o casamento e a mortalha no céo se talha.
--Tanto mais que para Henrique Osorio o casamento e a mortalha devem estar intimamente ligados... O homem que ama espectros... O auctor de Julieta!
N'este momento vieram dizer ao conselheiro Madureira que a sua carruagem o esperava. Despediram-se elle e a filha dos viscondes da Fragosa, Isaura deu um beijo frio em Leonor, e cumprimentou seccamente Henrique Osorio.
--Espero tornal-o a vêr no Espinho, disse ella com requintes de amabilidade a Lucio Valença.
--Ah! de certo, minha senhora, respondeu o escriptor.
Quando partiram, Henrique approximou-se de Lucio e disse-lhe:
--Hontem iamo-nos irritando por frivolidades sem nome. Sabe comtudo, Lucio, que sou seu amigo, e que não tenho no que vou dizer-lhe o minimo pensamento reservado. Não se deixe prender nos laços d'aquella formosa mulher, que é uma _coquette_ sem intelligencia e sem alma.
--Meu amigo, tornou Lucio, rindo, eu estou-a vendo hoje pelo prisma que você me legou. Hei de dizer mal d'elle talvez d'aqui a algum tempo. Agora não ha remedio; tenho-o encaixado nos olhos.
Henrique encolheu os hombros.
--Pois meus amigos, disse o doutor Macedo, que vira Leonor entrar a dirigir-se para o seu noivo, tem a _lenda da meia-noite_ uma conclusão inesperada; mas isso foi bom para que tivesse alguma.
--Effectivamente, disse Lucio Valença, o nosso fim, confessamol-o, não se conseguiu. As pessoas nervosas, quando estiverem sósinhas á meia-noite n'um quarto de lugubre aspecto, hão de continuar a tremer de espectros. Affrontal-os em boa companhia não torna aguerrido ninguem.
--Eu não posso dizer coisa alguma; na _lenda da meia-noite_ encontrei eu, disse Henrique, a ventura da minha vida.
--E ainda que outra coisa não se alcançasse, logrou-se passarem-se algumas noites agradavelmente.
--Assim seja! concluiu o doutor Macedo.
Possam dizer o mesmo os leitores d'este despretencioso livro.
FIM
Collecção ANTONIO MARIA PEREIRA
VULGARISAÇÃO DOS MELHORES LIVROS DAS LITTERATURAS PORTUGUEZA E ESTRANGEIRAS
Romances, Contos, Viagens, Historia, etc., etc.
Volumes publicados
1--Tristezas á beira-mar, por Pinheiro Chagas.
2--Contos ao luar, por Julio Cesar Machado.
3--Carmen, trad. de M. Level.
4--A Feira de Paris, por Iriel.
5--O direito dos filhos, por George Ohnet.
6--John Bull e a sua ilha, trad. de P. Chagas.
7--Esgotado.
8--A lenda da meia noite, por M. Pinheiro Chagas.
9--A joia do vice-rei, por P. Chagas.
10--Vinte annos de vida litteraria, por A. Pimentel.
11--Honra d'artista, trad. de P. Chagas.
12--Esgotado.
13 e 14--A aventura d'um polaco, trad. de Maria A. Vaz de Carvalho.
15--Os contos do Tio Joaquim, por R. Paganino.
16--Esgotado.
17--Noites de Cintra, por Alberto Pimentel.
18 e 19--Esgotado.
20 e 21--A irmã da caridade, por Emilio Castellar, trad. de L. Q. Chaves.
22--Migalhas de historia portugueza, por P. Chagas.
23--Esgotado.
24--Contos, por Affonso Botelho.
25--Esgotado.
26--Esgotado.
27--O naufragio de Vicente Sodré, por Pinheiro Chagas.
28--Vida airada, por Alfredo Mesquita.
29--O bacharel Ramires, por Candido de Figueiredo.
30 e 31--Esgotado.
32--As netas do Padre Eterno, por A. Pimentel.
33--Contos, por Pedro Ivo.
34--O correio de Lyão, por Pierre Zaccone.
35--Vida de Lisboa, por Alberto Pimentel.
36--Historias de frades, por Lino d'Assumpção.
37--Obras primas, por Chateaubriand.
38--O exilado, por Mauricia C. de Figueiredo.
39--Poema da Mocidade, por Pinheiro Chagas.
40 e 41--A vida em Lisboa, por Julio Cesar Machado.
42 e 43--Espelho de portuguêses, por Alberto Pimentel.
44--A fada d'Auteuil, trad. de Pinheiro Chagas.
45--A volta do Chiado, por E. de Barros Lobo.
46--Séca e Méca, por Lino d'Assumpção.
47--Ninho de guincho, por Alberto Pimentel.
48--Vasco, por A. Lobo d'Avila.
49--Leituras ao serão, por A. X. Rodrigues Cordeiro.
50--Luz coada por ferros, por D. Anna A. Placido.
51--Esgotado.
52--Relampagos, por Armando Ribeiro.
53--Historias rusticas, por Virgilio Varzea.
54--Figuras humanas, por Alberto Pimentel.
55--Dolorosa, por Francisco Acebal, trad. de Caïel.
56--Memorias de um fura-vidas, por A. de Mesquita.
57--Dramas da côrte, por Alberto de Castro.
58--Os mosqueteiros d'Africa, por Mendes Leal.
59--A divorciada, por José Augusto Vieira.
60--Phototypias do Minho, por J. Augusto Vieira.
61--Insulares, por Moniz de Bettencourt.
62 e 63--Historia da civilisação na Europa, trad. do Marquez de Sousa Holstein.
64--Triplice alliança, de Raul de Azevedo.
65--Retalhos de verdade, por Caïel.
66--A pasta d'um jornalista, pelo Visconde de S. Boaventura.
67--Os argonautas, por Virgilio Varzea.
68--Fitas de animatographo, por Alberto Pimentel.
69 e 70--Poesias do Abbade de Jazente, annotadas por Julio de Castilho.
71--Aspectos e sensações, de Raul d'Azevedo.
72--Contos e narrativas, por P. W. de Brito Aranha.
73--Quadros e letras, historias e romancetes, por Sanches de Frias.
74--Individualidades, por Henrique das Neves.
75--Alfacinhas, por Alfredo de Mesquita.
76--Patria amada, pelo Visconde de S. Boaventura.
77--Historias e romancêtes, por Sanches de Frias.
78--Esbocetos individuaes, por Henrique das Neves.
79--Recordações da mocidade, por Adolpho Loureiro.
80--Sorrisos, novellas e chronicas, por A. Campos.
81--Lucta de sentimentos, por Maria O'Neill.
82--Do Rocio ao Chiado, por P. de Vasconcellos.
83--A dança do destino, por Luthgarda de Caires.
84--Um drama de ciume, por Maria O'Neill.
85 e 86--Resumo da origem de todos os cultos, por C. F. Dupuís.
87--Vencido, romance por F. A. M. de Faria e Maia.
88--Elogio da loucura, critica de costumes, por Erasmo.
OUTRAS OBRAS
*Azevedo (Domingos de)*
Diccionario (Grande) contemporaneo francez-portuguez e v. v. 2.^a edição, muito correcta e extremamente augmentada.
Grammatica da lingua franceza.
Grammatica Nacional, para aprender portuguez sem mestre.
Lições praticas de conversação franceza.
Ollendorff aperfeiçoado para aprender francez sem mestre, (2 vol.).
*Carvalho (D. Maria Amalia Vaz de)*
Ao correr do tempo.
Arte de viver na sociedade.
Aventura de um polaco, (2 volumes).
Cerebros e corações.
Chronicas de Valentina.
Coisas d'agora.
Contos e phantasias.
Em Portugal e no estrangeiro.
Figuras de hoje e de hontem.
Heroismo do clero.
Impressões de historia.
No meu cantinho.
Nossas filhas.
Pelo mundo fóra.
Raphael, trad. de Lamartine, (ed. de luxo).
*Pinto (Silva)*
(Collecção d'algibeira)
A queimar cartuchos.
A torto e a direito.
Ao correr do pello.
Entre nós.
Frente a frente.
Moral de João Braz.
Mundo (O) furta-côres.
Na Procella.
Na travessia.
N'este valle de lagrimas.
No colyseu.
No mar morto.
Para o fim.
Philosophia de João Braz.
Por este mundo.
Riso amarello.
Rompendo o fogo.
Velha historia.
*Queiroz (Dr. Teixeira de)*
Amores... amores...
Arvoredos.
Cantadeira (A).
Caridade (A) em Lisboa (2 vols.).
Cartas d'amor.
D. Agostinho.
Morte de D. Agostinho.
Noivos (Os) (2 vol.).
Nossa (A) gente.
Sallustio Nogueira (2 vol.).
Amor Divino.
Famoso Galrão.
Ao sol e á chuva.
Grande (A) Chimera.
Notas:
[1] Não é da auctora a idéa inicial d'esta lenda. Encontrou-a de certo n'um magnifico livro do conde de Résie, intitulado «_Historia e tratado das sciencias occultas_.»
O livro em que fallo é um optimo archivo de todas as tradições européas. Ha alli thesouros de poesia! Traduzo litteralmente o periodo, que me suggeriu a idéa d'este conto. É o seguinte:
«Nas costas do Baltico estava outr'ora situada uma egreja, que alguns impios profanaram um dia, e que com elles se sepultou no mar. Quando está socegada a noite, ouvem-se ainda esses desgraçados cantar soluçando os psalmos da penitencia; e vêem-se brilhar atravez das ondas tranquillas os cyrios que accendem no altar, junto do qual estão condemnados a chorar até ao fim do mundo.»
E nada mais.
Como vêem, estava tudo por fazer. Mas a idéa era extremamente poetica e prestava-se a um grande desenvolvimento. Pena foi que a não deparassem escriptores como o auctor das _Lendas e Narrativas_, ou como esse poeta da prosa portugueza, que soube dar tão esplendido colorido á _Lenda do castello de Santa-Olaia_. Emfim o conto ahi está, bom ou mau; e com esta nota fica em repouso a minha consciencia litteraria.
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+---------+--------------------+--------------------+ | | Original | Correcção | +---------+--------------------+--------------------+ |#pág. 8| principalmenie | principalmente | |#pág. 25| espirto | espirito | |#pág. 35| exagaram | exageram | |#pág. 47| vermolhos | vermelhos | |#pág. 61| escodendo | escondendo | |#pág. 62| dos lagrimas | das lagrimas | |#pág. 96| uma visto de olhos | uma vista de olhos | |#pág. 105| janalla | janella | |#pág. 114| parececia | pareceria | |#pág. 129| mudo | mundo | |#pág. 131| irritando-sé | irritando-se | |#pág. 136| desdonhoso | desdenhoso | |#pág. 140| quandos | quando | |#pág. 141| dascuidoso | descuidoso | |#pág. 153| e pensamento | o pensamento | |#pág. 154| collocanme-me | collocando-me | |#pág. 167| prevencão | prevenção | |#pág. 169| diffrentes | differentes | |#pág. 181| bellezaa | belleza | |#pág. 184| mobiiia | mobilia | |#pág. 187| associacão | associação | |#pág. 188| á rir | a rir | |#pág. 190| intulula-se | intitula-se | |#pág. 191| attencão | attenção | |#pág. 197| Iaglaterra | Inglaterra | |#pág. 203| continou | continuou | +---------+--------------------+--------------------+
A indicação da primeira secção da lenda "_Memorias d'uma bolsa verde_" foi adicionada, uma vez que existia referência a uma segunda secção.
Todos os _n_ e _u_ trocados, encontrados no texto, foram rectificados.
Os hífens "supostamente" em falta não foram adicionados.