A Lenda da Meia-Noite

Chapter 12

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--A Juliasita e o Alvaro tem sabido que se contam aqui, depois d'elles se deitarem, historias pavorosas, e as criadas vêem-se gregas com elles para os despirem quando chega a hora de os deitarem, porque não é senão dizerem que querem ficar a pé para ouvirem as historias. Prometti-lhes que uma noite d'estas assistiriam á entrevista. Como decididamente já ninguem pensa na meia-noite, como hoje se abriu o exemplo de não se esperar a hora fatidica, não podiamos ámanhã, ao anoitecer, abrir a sessão para os pequenitos assistirem?

--Ora... para quê, Leonor? acudiu a viscondessa, os teus irmãos caem de somno ás primeiras palavras.

--De certo, se se lhes não escolher coisa de que elles gostem. A _Julieta_ de certo a não perceberiam, acudiu Leonor, sorrindo maliciosamente para Henrique.

--Não eram só elles, resmungou Henrique Osorio.

Isaura não ouviu; estava toda embebida n'uma larga conversação com Lucio Valença.

--Ah! eu me encarrego d'elles; pago ámanhã a minha quota, aproveito o precedente de Lucio.

--O quê? o quê? acudiu Lucio, que ouvira pronunciar o seu nome.

--Falla se por aqui no teu precedente, ou no teu predecessor, que é a mesma coisa. Julgavas que o não tinhas?

Leonor desatou a rir, Henrique fez-se ligeiramente córado, Isaura não comprehendeu.

--Invocando, pois, o precedente de Lucio, continuou o doutor, apresentarei ámanhã, em obsequio ao Alvaro e a Julia, uma _lenda da meia-noite_, que não será lenda e que não será á meia-noite, o que dará a Roberto Soares assumpto para um estudo intitulado: _De como degeneram as lendas_.

Dispersou-se a companhia, porque era já tarde, mas Henrique e Leonor tinham aberto uma janella e conversavam animadamente.

Ao passar junto d'elles, Isaura, a quem Lucio dava o braço, não pôde eximir-se a dizer-lhe:

--Veja se se transforma em espectro essa nova Julieta.

--Minha senhora, acudiu Henrique, transformam-se em espectros ou em nada, que é a mesma coisa, as loucas visões que sonha a phantasia enferma. Esses sonhos, quando se desperta, deixam apenas uma impressão pesada e morbida. E quando se acorda é que se percebe que as Julietas nunca foram amadas com o coração, foram sempre um pretexto para as divagações de uma imaginação desnorteada.

--E encontrou a bussola, Henrique? acudiu Lucio, motejador.

--Encontrei, sim, meu amigo.

--Procurou-a por muito tempo?

--Estava ao meu lado. Somos tão loucos que nunca pensamos em reparar se nas pedras do nosso jardim habitualmente não se encontrará alguma que tenha as qualidades maravilhosas do magnete, e deixamo nos attrahir tolamente por umas pedras que brilham, que julgamos diamantes e que são apenas...

--O quê?

--Pedaços de vidro que brilham ao sol; o fulgor era do sol e não d'elles.

Os dois companheiros de serão trocavam já olhares inflammados, e nas suas vozes havia um tom ameaçador. Isaura assistia olympicamente desdenhosa a esse torneio de espirito. Leonor, inquieta e magoada, sentia os olhos marejarem-se-lhe de lagrimas.

--Se não se vão deitar, apago eu mesmo as luzes, exclamou o doutor Macedo intervindo de subito e separando bruscamente os quatro personagens da scena. Olhem que massadores!

E, emquanto o grupo se dispersava, trocando despedidas um pouco frias, o doutor Macedo fechava a janella murmurando:

--_Cherchez la femme_.

* * * * *

Na noite seguinte assistiam dois novos ouvintes á leitura. Eram Alvaro e Julia, os dois filhos mais novos dos viscondes da Fragosa. As creanças estavam radiantes de alegria; emquanto Alvaro, loira creança de seis annos, cravava os grandes olhos azues, com infantil curiosidade, no doutor Macedo, Julia, uma menina de nove annos, toda elegante, e que era o retrato de sua irmã mais velha, ouvia, rindo ás gargalhadas, as historietas de Henrique Osorio que a tinha no collo, e que, prodigalisando-lhe as caricias, esperava assim reconquistar as boas graças de Leonor, que ficára um pouco ferida pela scena da vespera, em que lhe parecêra vêr um resentimento que mostrava que Isaura não fóra de todo esquecida.

--Meus meninos, disse o doutor Macedo desenrolando o seu manuscripto, é só cá para nós este conto. A mana, o Henrique e os outros que riam ou durmam, se quizerem. Nós cá é que nos vamos entreter. Este conto é só para nós, e intitula-se...

Lucio Valencia, que estava collocado defronte de uma janella aberta, interrompeu com um espirro o discurso de Macedo.

--_Dominus tecum_, concluiu o doutor.

--Obrigado, disse Lucio.

--Não é obrigado, é o titulo do conto. Mas vejam o que é ser-se litterato. Espirramos, diz-nos alguem _Dominus tecum_; é o que basta, saiu um conto!

Todos desataram a rir, e o doutor, com a sua voz admiravel, com a rara sciencia de recitação que possuia, começou a lêr, no meio de profunda attenção das duas creanças, o seu _Dominus tecum_.

DOMINUS TECUM...

(CONTO PARA CREANÇAS)

I

Agora que a noite começa a desenrolar o seu manto azul, onde essas fadas luminosas, que se chamam estrellas, dançam em torno da sua branca rainha, que percorre o firmamento no seu argenteo carro, umas solitarias e pensativas, como a scismadora Venus, outras formando immensa e jovial choréa como as brancas estrellinhas da via lactea; agora que principia a ouvir-se ao longe o grave som das Trindades, perfume de harmonia que parece exhalar-se das urnas gigantes dos campanarios, vinde, meus meninos, vinde agrupar-vos em torno de mim, e ouvir as historias maravilhosas que eu tenho para vos contar.

Arredae da fronte os loiros anneis dos vossos cabellos, doirados fios que enreda, teimosa, a brisa folgazã, como que para vos desafiar para novos brinquedos, e fitae-me bem com esses olhos azues, transparentes como o lago limpido, puros como o céo ridente, que vos quero povoar os sonhos de imagens luminosas d'esse mundo loução de fadas e duendes!

Ó sonhos infantis! Quem poderá jámais saber quanto esvoaçar de azas brancas, quanto rescender de ignotos perfumes, quanto desabrochar de lindas flôres, quanto lampejar de suavissimos clarões nos revela aquelle innocente sorriso que volteia nos labios da creança adormecida!

Que deliciosos colloquios não haverá entre essa almazinha gentil, que aspira ao céo, e os anjos, que se debruçam meigamente do azulado Empyreo, que a tomam nos braços, que a embalam e lhe sorriem!

E eis o motivo porque sempre despertaes chorando: é porque os anjos vos poisam no berço, vos beijam na fronte; porque vêdes as suas azas candidas transporem n'um vôo o espaço, e cerrarem-se com fragor as doiradas portas do Empyreo.

E só vos aplaca o choro o meigo sorrir das mães; porque, se ha anjos na terra, onde se abrigariam elles se não fosse no brando seio maternal?

Onde encontrariam imagem mais perfeita do seu Paraizo?

Mas entre o céo e a terra ha outro mundo de encantos, onde esvoaçam as fadas travessas, os maliciosos duendes, que são tambem amigos das creancinhas e as vão poisar, ás vezes, no purpureo regaço das rosas, ou nas rendas prateadas do immenso véo do luar.

De dia dormem escondidas no calice das flôres, ou no seio dos lagos, ou nas folhas das arvores; mas, quando soam Trindades, eil-as a esvoaçar no ambiente, e é o bater das suas azas, o chilrear das suas vozes, que produzem esses ineffaveis murmurios que vos encantam e que vos fazem até cair, sem saberdes por quê, n'uma doce melancolia.

São ellas quem ensinam aos rouxinoes esses maviosos gorgeios, esses deliciosos trinados, que toda a natureza escuta embevecida n'um vago extase.

São ellas quem accendem nos pyrilampos, esse phantastico fulgor que vagueia nos prados, e matiza de oiro o fundo verdejante da relva.

São ellas quem desentranham do seio das flôres as nuvens de perfumes, que espalham depois, rindo, na atmosphera.

É o seu bafo a brisa voluptuosa e leve, que faz correr um vago estremecimento pelas corollas gentis das rosas e dos lirios.

Por isso a noite é mais formosa do que o dia; porque o dia pertence aos homens, e durante a noite imperam os espiritos subtis.

A natureza vê passar com indifferença, e até com odio, o homem que se diz seu rei, e cuja realeza é uma verdadeira tyrannia.

Porque o homem decepa as arvores frondosas; colhe as flôres que viçavam alegres, e que vão finar-se em ramalhetes; acorda os echos doridos com o estrondear das suas espingardas; e a toda a parte, onde estabelece o seu dominio, leva comsigo a destruição e a morte.

Nunca viram, meus meninos, arder uma floresta? É horrivel! As arvores contorcem-se na agonia, erguem ao céo os ramos esbrazeados, soltam gritos de desesperação. Não é a vegetação inerte que se reduz ao nada, é a vida que fenece em convulsões.

E quem incendiou a floresta? Quem brandiu o facho assolador entre a folhagem lustrosa? Foi o rei da natureza! Foi o monarcha da creação!

As fadas e os duendes não destroem assim esses mysteriosos sanctuarios, onde se abrigam tantos amores, tantas vidas, tão incessante trabalho de renovação! Tem, pelo contrario, com elles mil desvelos; são ellas quem descerram a pouco e pouco os verdes botões das rosas do matto; são ellas que penetram nos troncos, e fazem girar a vivificante seiva em todos os pontos da arvore caduca; são quem a ajudam depois a desabrolhar em pimpolhos, em flôres e em fructos.

Por isso, quando á noite dançam e folgam nos ares, toda a natureza se compraz em lhes adornar os festejos; as brisas volteiam com as suas urnas cheias de aromas; os rouxinoes descantam as suas arias; a orchestra immensa dos pinhaes, das carvalheiras e dos salgueiraes entrega aos arcos invisiveis do vento as frementes cordas das suas franças, ou deixam que mão ignota doideje vagamente nas teclas das suas frondes! E tudo canta, ri e folga, porque são as fadas que dançam, as fadas aéreas, os travêssos duendes.

E o homem entretanto, encerrado nas suas mesquinhas moradas, respira uma atmosphera corrompida, sente o suor a borbulhar-lhe na fronte depois de dar um giro na sala abafadiça, e cerra cuidadosamente as janellas, para que lhes não chegue nem um murmurio, nem um effluvio, nem um raio de luz.

E a natureza aproveita a ausencia do rei da creação, e canta, e folga, e ri, porque são as fadas que dançam, as fadas risonhas, os duendes maliciosos.

II

Em toda a parte ha fadas, meus meninos; mas, como podem suppôr, não tem o mesmo genio, a mesma indole nos differentes sitios. N'uns pontos persegue-as o infortunio, n'outros sorri-lhes a ventura.

Na nossa terra abençoada, em que temos o céo de veludo, aguas de crystal, sol de oiro vivo; onde nos ares limpidos parecem brotar por encanto musicas suavissimas; onde viçam flôres com profusão; onde as brumas são véo ligeiro que touca as cumiadas dos montes, e não gélido manto que envolve as planicies, folgam as fadas de viver. É este o paiz dos seus sonhos, este e a Hespanha, e a Italia e a Grecia, onde viveram por tanto tempo as nymphas, as naiades e as dryades, que eram as fadas dos pagãos.

Livres no ar, alimentando-se de perfumes que nunca lhes faltam, abastecendo-se nas madre-silvas e nas magnolias, aquentando-se nos ninhos das avesitas, viajando n'um raio da lua, não tendo mais em que cuidar senão em pentear os seus lindos cabellos, em mirar-se e em banhar-se nas aguas transparentes, apenas uma vez por anno, na bemdita noite de S. João, tem de ser oraculos das donzellinhas, que lhes vem perguntar qual o porvir dos seus amores.

Donosa occupação! Sair do asylo da folhagem e entrar na alma ingenua da donzella, é apenas mudar de ninho, e não sei qual será mais suave, mais macio, mais delicioso e mais immaculado.

Estava com passarinhos, com passarinhos vae estar! Pois o que são os amores? E se escutavam deliciosos -----File: 195.png---\rita_marreiros\ArturPires\ichigochi\Manela\luisa\----gorgeios, finas trovas, podiam nunca ser tão mimosos esses cantares como o poema seductor, cujas estrophes resoam n'um coração de vinte annos?

Mas ai! nem sempre é assim. Nos frios paizes do norte, na nevoenta Inglaterra, na verde mas tristonha Irlanda, não encontram as fadas e os duendes as doçuras d'estes ares, os esplendores d'estes céos, a suavidade d'estas brisas. Mal que chega o inverno, gelam-se as aguas, morrem de frio os passarinhos implumes nos pobres ninhos devastados pela procella, a neve mata as flôres, embacia-se o clarão da lua, desmaia a luz e affrouxa o almo calor do sol, não ha perfumes nem galas, e ai de quem intentasse dançar nos ares quando o graniso cae!

Coitados dos pobres duendes! Coitadas das gentís fadas! Elles, que adoram a liberdade, vêem-se obrigados a refugiar-se nos quentes curraes, na cinza do lar, e até na chaminé! Ah! como os seus irmãos dos paizes do sul teriam dó d'elles se os vissem com as azas brancas maculadas de fuligem, a não ser que estejam expostos ao frio e á neve á porta de casa pouco hospedeira, onde não lhes abram sequer uma fisga por onde possam metter os corpinhos enregelados.

Mas os homens são crueis e egoistas, e não concedem um favor sem mirarem a galardão; estão promptos a acolher os pobresinhos dos espiritos, com a condição que estes os hão de servir. E aqui temos os nossos duendes e as nossas fadas, fieis á sua palavra, a ordenhar as vaccas, a guardar as ovelhas, a tratal-as nas doenças, a evitar-lhes o mau-olhado, a proteger os donos da casa, emfim, a fazer o que dez criados não fariam.

Mas, meus meninos, os homens, não contentes com isso, traçam muitas vezes fazer-lhes mal, livrar-se d'elles, descumprir a sua palavra, e isso tudo exacerba-os, e fal-os tambem, ás vezes, maus e vingativos.

Ah! meus meninos, a miseria é a mãe terrivel do mal, tanto nos homens como nos duendes. A miseria, e a escravidão, e a ausencia da luz! Ah! quando virdes um criminoso, não o anathematiseis, mas vêde primeiro em que atmosphera viveu, quaes foram as primeiras idéas que teve, qual o estado da sua intelligencia. E vereis sempre a miseria, o embrutecimento e as trevas.

Por isso, quando fôrdes homens, dedicae-vos á grande obra da regeneração dos vossos similhantes, ao seu esclarecimento e á sua educação moral.

E assim tereis cumprido a vossa missão na terra, assim tereis cumprido o grande preceito da nossa religião «a caridade», preceito que encerra em si todos os outros, raio de luz que, em se espraiando pelo mundo, basta para dissipar as sombras mais cerradas.

Mas voltemos aos nossos duendes, de que já nos iamos afastando tanto.

III

Oiçam pois, meus meninos, esta historia, em que vereis como os duendes se transformam com a miseria e com o mau exemplo dos homens.

Aqui tem eterna juventude, lá chegam a envelhecer e tem uma velhice repugnante; aqui não pensam senão nas suas fadas, lá ousam querer raptar as filhas dos homens.

Ora pois, havia na Irlanda um camponez chamado Patricio, que pedira um favor a um duende, offerecendo-se a recompensal-o; mas, apenas se viu servido, fiado no caracter bom d'esses genios benevolos, não pensou mais em similhante galardão.

O duende, que já era velho e rabugento, e moido de trabalho, enfadou-se com esta falta de palavra, e condemnou o camponez a servil-o sete annos e um dia.

Sentença dada por duende irritado inscreve-se no livro do destino, e lá não é possivel arrancarem-se as folhas, como se fez em Portugal, nem queimar a casa onde o livro está, como se fez em França.

O pobre Patricio, que não quizera dar uma pequena recompensa, viu-se obrigado a servir seu amo sete annos, sem ao menos ter a esperança que teve Jacob, que se viu mettido em eguaes danças, como os meus amiguinhos sabem, mas a quem fôra promettida em premio a formosa Rachel.

E, ainda assim, Jacob não tinha senão que pastorear os rebanhos de Labão, o que, por fim de contas, não é uma occupação desagradavel.

Mas o pobre Patricio, esse estava em peiores circumstancias. Além dos trabalhos habituaes, fazia tambem de escudeiro de seu amo, e tinha de o acompanhar nas suas excursões nocturnas, excursões que eram sempre feitas a cavallo.

Mas a cavallo em quê? Imaginam que iam montados em guapos corceis, como esses em que os seus papás montam, ou em pacatos burrinhos, como esses em que os meus meninos vão tambem dar os seus passeios?

Pois não; as coudelarias do nosso duende tinham outra casta de cavalgaduras; eram immensas porque abrangiam toda a natureza, e porque, a fallarmos verdade, os cavallos não occupavam muito espaço. Chegavam, por exemplo, ao meio de um campo, viam duas feveras de palha, o duende pegava n'uma, dava outra a Patricio, e dizia-lhe: «Monta».

Montar era facil de dizer, mas de fazer? Parece-me, realmente, que o mais perito mestre de equitação se havia de vêr seriamente embaraçado.

Patricio arrancava os cabellos, amaldiçoava a sua avareza, que o levára áquelle misero estado; mas como arrancando os cabellos ficava calvo, e não transformava a palhinha nem em burro nem em corcel, não tinha remedio senão montar, e lá ia elle por esses ares fóra atraz de seu amo, que cavalgava tão ufano como se montasse no celebre Bucefalo de Alexandre, em que os meus meninos talvez já ouvissem fallar.

De que elle tinha medo principalmente era que os seus visinhos o vissem n'aquella figura, mas d'isso não havia perigo; o duende, sendo invisivel para olhos profanos, tornava-o invisivel tambem a elle.

Outras vezes não eram feveras de palha, mas juncos e cannas os corceis escolhidos; o bom do Patricio quiz vêr se conseguia que seu amo acceitasse dois paus de vassoura, que sempre seriam, emfim, cavalgaduras mais commodas; mas, apenas elle abriu a bocca, o duende respondeu-lhe com tanta dignidade que isso era bom para as bruxas, que o pobre irlandez não ousou insistir, e tratou de vêr se aprendia as regras da picaria aeria, e de escolher a posição mais commoda que podesse na tal fevera de palha que o transportava pelos ares.

Ora um dia, ou antes uma noite, o duende chamou Patricio e disse-lhe com modo benevolo:

--Meu amigo, determinei casar. Estou a fazer mil annos, e parece-me que é tempo de tomar estado e familia. Escolhi para minha noiva a formosa Jenny, e vamos esta noite buscal-a.

Patricio bem desejaria responder que os olhos azues, as tranças loiras, a rosea bocca e as faces nevadas da formosa Jenny não deviam ser para um velhote como elle, e que um noivo de mil annos, a querer tomar estado, devia escolher uma centenaria, e não uma rapariga na flôr dos seus vinte annos, e que, além d'isso, rasão de todas a mais forte, Jenny casára n'esse mesmo dia, e n'esse instante devia-se estar celebrando a boda em casa do noivo. Mas Patricio bem sabía que o duende não gostava de reflexões, e portanto, sem tugir nem mugir, montou a cavallo n'uma folha de couve, que era o corcel de gala, e seguiu seu amo pelos ares fóra.

IV

Tudo era festa e riso em casa de Jenny. Brindes sem conta soavam a cada instante, as violas desprendiam os seus alegres epithalamios, e a meza, servida á farta, ostentava-se com a alvissima toalha no meio da casa.

A noiva era realmente galante a mais não poder ser. Nos olhos tão azues e tão meigos parecia que se refugiára a côr do céo, expellida do firmamento pelas nuvens, e com a côr do céo a doçura dos anjos.

Os cabellos tinham o colorido das espigas de trigo; na bocca pequenina esvoaçava um sorriso de amor, como borboleta em rosa. As faces eram tão brancas, tão brancas, que desmaiaria junto d'ellas a neve das montanhas de Erin; mas n'esse momento incendia-as o prazer e tingiam-se de reflexos roseos, como a nivea toalha dos pincaros, quando o sol a illumina ao descair no occaso.

O noivo era um rapaz esbelto e varonilmente formoso. O olhar ardente com que, para assim dizermos, enlaçava Jenny, mostrava o immenso amor que lhe tinha; a meiguice dos raios de luz, que emanavam dos olhos da gentil irlandeza, revelava que a voz d'esse amor encontrára um echo no coração da formosa que o duende cubiçava para noiva.

Os convivas agrupavam-se em torno da meza, e no logar de honra, campeava o gordo padre prior, que fazia frente a um magnifico prato de cabeça de porco, flanqueada de feijões, que lhe levava os olhos, como a formosa physionomia de Jenny enlevava o enamorado esposo.

O duende e o seu criado entraram sem ninguem dar por elles, e foram sentar-se commodamente n'uma das traves do tecto. Os cavallos haviam ficado no telhado fóra do alcance das outras cavalgaduras, que seriam muito capazes de as devorar, sem respeitarem por fórma alguma a confraternidade que as pobres folhas de couve allegariam.

Empoleirado alli assim, Patricio estava talvez um tanto incommodado, principalmente porque lhe chegava o cheiro dos bons manjares que ufanos campeavam em cima da meza, e o seu estomago segredava-lhe que seria muito melhor fartal-o a elle do que fartar os olhos com as saborosas iguarias.

Mas o bom irlandez bem sabia que o seu duende nunca lhe consentiria mostrar-se, e, portanto, consolava-se pensando que talvez a ceia das bodas do seu amo fosse ainda melhor do que essa que o estava namorando.

Depois relanceou os olhos para a noiva, e em seguida para o seu companheiro da trave, e pensou que era realmente uma barbaridade ligar assim tão donosa primavera a tão encarquilhado inverno.

N'isto a noiva espirrou.

Um espirro não é coisa que envergonhe ninguem, mas o espirro de Jenny fez tanta bulha, que a pobre menina corou muito, sentindo que todas as vistas se haviam voltado para ella.

Excepto, ainda assim, as do padre prior; o anafado sacerdote empunhava o garfo e a faca, e com os olhos cravados na cabeça de porco, a nada mais dava attenção.

Era natural, meus meninos, que dissessem á formosa Jenny o consagrado _Dominus tecum_; ninguem, effectivamente, queria faltar a esse dever; mas a cortezia ordenava que se deixasse o padre prior tomar a iniciativa, e, por conseguinte, todos esperaram.

O padre prior tomava n'esse instante a iniciativa, mas era de se deitar á cabeça de porco; cravou o garfo destramente, vibrou com certeza rara a faca a um bom tassalho, e transportou-o do prato geral para o seu prato particular.

Terminada essa difficil operação, o padre prior poisou as armas triumphantes ao lado do prato, travou gravemente da colhér, e, em tres ou quatro viagens, fez mudar de gasalhado, e erigiu, em enorme acervo, uma respeitavel quantidade de feijões.

Ninguem ousou advertil-o do seu esquecimento, e, depois d'esse pequeno incidente, a festa continuou com o mesmo estrondo e enthusiasmo.

A bulha dos queixos do padre prior superava o tumultuoso acompanhamento.

Mas o duende é que dava pulos de contente na trave, e dizia a Patricio:

--Se ella dá mais dois espirros e ninguem lhe diz _Dominus tecum_, é minha; foi isso o que Satanaz me prometteu.

O pobre Patricio enfiou; decididamente, o nosso irlandez tinha boa alma: se não fosse a tal avareza...

Emfim, ninguem póde ser perfeito.

D'ahi a instantes Jenny espirrou de novo, mas a pobre menina ficára tão envergonhada da primeira vez, que o segundo espirro comprimiu-o por tal fórma, que ninguem o ouviu, nem mesmo o seu noivo, que se via obrigado n'esse instante a escutar uma enorme dissertação de seu sogro sobre o cultivo da batata.

O padre prior comia.

Por conseguinte, ainda d'essa vez passou o espirro sem o competente _Dominus tecum_.

O duende pulava, dava cabriolas, fazia bulha tal, em fim, que por mais de uma vez um ou outro conviva olhou para o tecto, mas, não vendo coisa alguma, julgou que seriam ratos e continuou a divertir-se.

Patricio scismava; era realmente uma dôr d'alma vêr tão gentil menina cair em poder d'aquelle espirito malicioso; pensava que talvez a podesse salvar, mas lembrava-se das iras de seu amo, que podiam cair sobre elle, e abanava a cabeça deixando-se ficar mudo e quêdo.

Finalmente, soou o terceiro espirro da menina, ainda mais comprimido que os dois primeiros.

Mas ao mesmo tempo retumbou no tecto um formidavel _Dominus tecum_, que fez tintinar os vidros e tremer os convidados.

E logo um corpo humano veiu, aos rebolões pelo espaço, baquear em cima da meza, entornando o prato do padre prior, que soltou um grito de desespero, e apanhou na batina o naco de cabeça de porco, antes que um mastim faminto, que andava rondando os pés das cadeiras, désse com tão boa fatia.