Chapter 10
«Tremulo de alegria, subiu o velho os ingremes degraus de uma escada tortuosa e escura, que conduzia á agua-furtada onde habitava. Quando chegou ao ultimo patamar parou para respirar. O coração batia-lhe com alegria. Pensára tanto em subir aquella escada lentamente, como um homem que leva sobre os seus hombros o peso enorme do infortunio; pensára tanto no soffrimento que o havia de dilacerar quando chegasse com o desespero na alma ao mesmo sitio onde parára ebrio de alegria; pensára tanto no triste espectaculo que se lhe havia de deparar, no desgosto profundo que havia de sentir; pensára tanto em tudo isso, que chegára quasi a costumar-se a essa idéa, e que a felicidade encontra-o armado para a desgraça e desprevenido para a ventura.
«Finalmente entrou.
«Que espectaculo tão novo para mim foi esse que eu divisei! Das trevas, que envolviam a casa, saiam gemidos abafados, soluços horrendos, murmurio dilacerante, reflexo pavoroso do sussurro dos condemnados do inferno accumulados na tenebrosa _géhenne_ que Dante visitou. O meu dono, depois de abrir a porta, ficou um instante parado, e involuntariamente as lagrimas inundaram-lhe as faces, parando nos labios, que sorriam com um sorriso de consolação.
«Quando o meu olhar se costumou ás trevas, pude então vêr no fundo do quarto, e deitadas em cima de uma pobre enxerga, duas creanças de nove para dez annos, pallidas, magras, com os seus corpinhos quasi nús, tremendo de frio n'aquelle recinto humido. Choravam, e choravam de fome! Mais ao fundo, n'um pobre catre, que era ainda assim o unico traste da casa, jazia a filha mais velha, rapariga dos seus vinte e tantos annos, a quem o soffrimento arrancava gemidos. Uma pobre coberta esfarrapada mal a resguardava. E comtudo, a pobre rapariga estava com uma febre violentissima; o delirio apoderára-se d'ella. Murmurava phrases incoherentes, gemia, soluçava. E as trevas, a escuridão atroz a suffocal-a! E lá ao fundo, na sombra, a fulgirem sinistramente as garras do demonio livido da fome!
«Uma toada de musicas alegres entrava pelo quarto. No primeiro andar havia baile. A dois passos do risonho turbilhão das walsas o horrido vendaval do infortunio!
«Ó destino!
«O velho, silencioso, accendeu uma véla. Depois pôz na chaminé a lenha que trouxera, e accendeu o lume. Espalhou-se no quarto um doce calor.
«Os pequenos tinham-se levantado na cama, estupefactos!
«Depois, sempre silencioso, pegou n'um braçado de couves, migou-as, tirou um pão, fel-o em sopas, deitou tudo dentro de um pobre tachinho de barro, e pôl-o ao lume. Os pequenos tinham-se approximado d'elle.
«O velho voltou-se. A sua cabeça, coroada de cãs, inclinou-se meigamente para as loiras cabecinhas que o rodeavam.
«E, vendo-os tremulos, mal se podendo suster em pé, abraçando-lhe os joelhos, as lagrimas saltaram-lhe de novo dos olhos, a voz embargou-se-lhe na garganta, e só pôde dizer:
--«Meus filhos!
--«Pão!--foi a resposta das creanças.
--«Sim, meus filhos, esperem, esperem um instante. Haveis de ceiar, haveis de ceiar, meus pobres pequeninos, e haveis de dormir depois o somno de innocentes, que a fome repelle ha tanto tempo de cima das vossas gentis cabecinhas! Deixae-me, deixae-me ir tratar de vossa irmã, da minha querida filha, que tanto soffre por nossa causa.
«E o velho approximou-se da pobre doente, que olhava para elle com uns olhos desvairados, coou-lhe por entre os dentes um calmante, que comprára n'uma botica, porque o pobre do homem gastára até aos ultimos cinco réis, e comtudo quantas coisas de primeira necessidade tinham ficado ainda por comprar!
«O calmante produziu um bom effeito. Ao delirio succedeu a prostração, e a costureira adormeceu com um somno pacifico e reparador.
«Então o resto da familia agrupou-se em torno da enxerga, meza improvisada, para onde foi trazido em triumpho o tacho das couves. Os pequenos lançaram-se sofregamente á comida, e em poucos minutos desappareceram as couves e as sopas, sem omissão de um talo, sem esquecer uma migalha.
«O velho mal tinha bebido um golo de caldo. Embevecido na contemplação de seus filhos satisfeitos, nem pensára na sua propria fome. De vez em quando levantava ao céo os olhos arrazados de agua, e murmurava palavras incomprehensiveis. É essa a oração que a Deus mais agrada; porque é a effusão sincera, e livre de preceitos, de um coração que trasborda de reconhecimento.
«Quando terminou a ceia frugal, o bom do velho chamou as creanças para junto de si, e fazendo-as ajoelhar, e unindo-lhes as tenras mãosinhas, disse-lhes com voz grave:
--«Meus filhos, agora que por uma esmola divina saciaram a fome, é justo que se não esqueçam d'Aquelle que se amerceou de vós. Vinde, e repeti comigo:
--«Pae do céo, Vós que, apesar da vossa omnipotencia, vos não esqueceis dos vossos filhinhos, que déstes pão a quem tinha fome, e consolações a quem estava afflicto! Vós que, por um milagre da vossa infinita bondade, nos salvastes da morte, e a nosso pae do desespero! Vós que sois todo misericordia, tende compaixão de nossa pobre irmã! E vós, nossa mãe querida, que sois agora uma santa no céo, rogae tambem a Deus que dê saúde a quem é o nosso amparo! Nós vos damos graças, Deus todo-poderoso, e promettemos sempre ser dignos da vossa affeição, e conservarmo-nos no caminho da virtude, para que a alma da nossa mãesinha se não afflija de nos vêr peccadores.»
«E as creancinhas repetiam com a sua voz argentina aquellas singelas palavras, pronunciadas pelo velho, commovido, que estendia as mãos tremulas sobre essas cabeças innocentes, e erguia para o céo os olhos humedecidos.
«Depois beijou-as na fronte com ternura, e mandou-as deitar. Elle apagou a luz e o lume; sentou-se á borda da enxerga, e, encostando a cabeça nas mãos, meditou.
«Porém o dia fôra agitadissimo; a natureza foi mais forte do que elle, e d'ahi a pouco tempo o velho, cerrando a pouco e pouco as palpebras, adormeceu.
«As trevas encheram de novo o quarto. Mas o horror fugira. Á porta, um anjo do Senhor, com um dedo nos labios, velava meigamente sobre o somno da innocencia.
XIII
«Cinco tostões não duram eternamente, e a prova d'isso é que já tinham desapparecido. A miseria, que fugira um instante espavorida, voltava de novo a bater á porta. Que remedio senão abrir-lh'a!
«Não era feliz no mendigar o meu pobre dono. Raras vezes obtinha o dinheiro sufficiente para comprar o necessario. Sua pobre filha melhorára sim, por um prodigio da natureza completamente desajudada da sciencia; mas a sua convalescença, desprotegida d'aquelle conforto, d'aquelles cuidados tão indispensaveis para o restabelecimento da saude, prolongava-se, apesar de todos os esforços que a animosa rapariga fazia para resumir, e que, como é facil de suppôr, só contribuiam para a accrescentar. Queria pegar em trabalho, mas estava tão fraca, tão fraca, que, apenas dava dois ou tres pontos, caía desmaiada sobre a costura, e assim passava os dias em continuados desfallecimentos.
«Seu pae tambem estava completamente impossibilitado de trabalhar. Eu chamei-o velho, porque com effeito os desgostos e as privações essa apparencia lhe haviam dado; mas não o era effectivamente. Ainda não contava cincoenta annos, e já não tinha na cabeça um só cabello preto.
«Despedido da fabrica de oleados em que trabalhava, porque a sua nimia fraqueza o tornava completamente improprio para os rudes trabalhos manuaes da fabrica, vira-se só com tres filhos, sem recursos, sem poder obter, n'um outro emprego mais suave, o pão para si e para elles.
«A sua completa ignorancia tornava-o improprio para qualquer trabalho que não fosse manual.
«Ó ignorancia, negra irmã da livida miseria!
«Como eu ia dizendo, eram poucos ou nenhuns os proventos que o pobre homem tirava da mendicidade. As comidas iam sendo cada vez mais frugaes, e a pobre rapariga, debilitada, enfraquecida, ia-se tornando cada vez mais incapaz de trabalhar.
«Admira-se de certo de eu continuar a existir n'uma casa onde reinava tão profunda miseria! Espanta-se de que me não tivessem vendido no dia immediato áquelle em que tinham gasto os cinco tostões. Eu lhe explico esse facto na apparencia incomprehensivel, eu lhe dou a chave d'esse enigma.
«O meu dono considerava-me, para assim dizer, como uma enviada de Deus, e não estava muito longe de imaginar que existisse no meu seio um anjo occulto. Tocar-me era quasi uma irreverencia, vender-me seria de certo uma profanação.
«Candidamente supersticioso, o bom velho tinha lá de si para si que eu, como mensageira que fôra de uma esmola providencial, não podia deixar de fazer a felicidade d'aquelles que me possuiam. Vender-me ser-lhe-hia tão difficil, como aos romanos cederem, em troca dos mais enormes thesouros, o palladio que fazia a republica invencivel. Eu era a égide da casa, emfim.
«Mas um dia o pobre pae de familias voltou mais triste e amargurado do que nunca. O dia correra-lhe como aquelle em que eu o tinha visto pela primeira vez, com a differença que nenhum garoto compassivo, enviado pela Providencia, se fôra esconder na ramaria de uma arvore protectora. O velho entrava, pois, em casa, sombrio, triste, como entraria uns poucos de dias antes, se não fosse eu apparecer-lhe inopinadamente.
«Entrou, sem dizer palavra. Dirigiu-se logo a um armario que havia na parede, onde eu habitava, e, tirando-me para fóra, disse-me, depois de me ter contemplado lugubremente alguns instantes:
--«Vae, pobre bolsinha, que me trouxeste momentos de allivio, e cuja côr suave me aconselha a esperança. A esperança?! não a posso ter já! Ai! a minha sina fatal é mais forte do que a tua benefica influencia! Ramo verde que uma pomba do céo trouxe no bico a esta pobre arca, que vae sem rumo nas aguas de um diluvio de infortunios, enganaste-me involuntariamente! Não parou a tempestade! Nem ha de parar talvez! Vae, não procures luctar mais contra a minha má estrella! Vae, e que a tua mesma partida nos seja ainda bemfazeja! Os anjos de Deus, ou quando descem ao mundo, ou quando voltam ao paraizo, sempre enviam adiante, ou deixam após si, um rasto luminoso!
«E beijando-me com fervor, metteu-me no seio, e saiu.
«Foi triste a sua peregrinação á procura de um comprador que se resolvesse a dar por mim um preço razoavel. Todos, vendo-o assim pobre, mostrando no rosto livido a fome que o impellia a vender-me, offereciam, depois de me terem mirado com desdem, um preço tão baixo, que, fosse qual fosse a extrema necessidade que o meu dono tivesse de dinheiro, entendeu que me não devia deixar ir assim.
«Comtudo, percorriamos lojas e lojas, e nenhum dos donos d'ellas se resolveu a comprar-me. Pois eu não valia tão pouco como isso, e estou convencida que muitas das pessoas, a quem o velho mendigo me apresentava, desejariam ficar comigo. Rebaixavam-me muito, mas, segundo depois vim a saber, isso é trica de negociante para especular com a miseria. Sabem que ainda que a sua primeira proposta repilla o vendedor, este, por fim de contas, sempre volta ou a acceital-a ou a diminuir muito o preço que estabelecera.
«Chamam elles a isso esperteza no negocio. E quem não quer não venha cá, accrescentam, terminando com a phrase pittoresca: «Eu não lhe puz a faca aos peitos.» É regra estabelecida que o vendedor peça um preço exorbitante, e o comprador offereça um preço diminutissimo. Que venha á discussão, mesmo por acaso, o valor real do objecto, isso é raro. Um negocio de compra e venda é um jogo de azar em que dois jogadores trapaceiam. Vêr qual dos dois ha de roubar o outro, _that is the question_. Nunca um só vendedor se lembrou de calcular: «Este objecto custou-me tanto, devo tirar o juro razoavel de tanto, logo vendo-o por tanto, e nem um real de mais, nem um real de menos»; e o comprador de pensar: «Posso gastar tanto, se o objecto valer mais, não compro.» Isso nunca: sem uma discussão preliminar, é sensabor o negocio. Se a invenção da moeda simplificou as relações mercantis, quanto as não simplificaria a invenção d'esta moeda dos corações nobres, que se chama «boa fé!».
«A antiguidade, que fez Mercurio o deus dos ladrões e dos negociantes, acertava devéras se accrescentasse--e dos consumidores.
«Desculpe estas reflexões um pouco prolixas; mas eu sou o Nestor das bolsas, e desde o celebre ancião homerico, cujas palavras eram doces como favos de mel, e que talvez por isso eram prodigalisadas por tal fórma pelo rei de Pylos, que não sei como os gregos não tomaram uma indigestão de melaço: desde esse vulto epico, todos os Nestores gostam de pregar grandes massadas. Eu não me podia esquivar á regra geral.
«Agora vou continuar.
«O meu dono luctou muito tempo contra a avidez dos compradores, e fez-lhes falhar os calculos. Saía das lojas com o desespero na alma, o rubor da indignação na fronte, e não voltava.
«Assim se passaram duas horas.
«O preço, que lhe offereciam, ia sempre diminuindo: porquê? Porque de cada vez a physionomia do mendigo se tornava mais livida. A anciedade pintava-se-lhe nas feições. Cada ruga de mais, que se lhe cavava na fronte angustiada, traduzia-se immediatamente em cinco réis de menos no preço que lhe offereciam.
«Finalmente, exhausto, prostrado, desfallecido, entrou n'uma ultima loja, e, quando entrou, deixou-se cair em cima de uma cadeira. As pernas recusavam-se a sustental-o mais tempo.
«Na loja estavam o mercador, e um freguez escolhendo não sei o quê. Sei apenas que era um rapaz de uma physionomia sympathica.
«Ambos olharam espantados para o pobre velho, mas o espanto do primeiro era um espanto encolerisado, o do segundo um espanto compadecido.
«O dono da loja receiava para as suas cadeiras o contagio da miseria. Que um cão se estirasse em cima d'ellas, passe; mas um mendigo!
«O meu dono estendeu-me com mão tremula para o logista, e disse com voz que mal se ouviu:
--«Eu desejava vender esta bolsa. Quanto me dá o senhor por ella?
--«Que diz vossê?--tornou o dono da loja com modos irritados. Falle de maneira que se entenda! Julga que tenho ouvidos de tisico? Graças a Deus sempre gozei de boa saude.
--«Desculpe-me, senhor, respondeu o meu dono fazendo um esforço sobre si mesmo para fallar com voz mais intelligivel, é porque estou muito fraco. Desejava saber quanto o senhor me dá por esta bolsa.
--«Ah! até que emfim! Não seria mau que vossê se levantasse, porque este senhor talvez se queira sentar.
--«Deixe estar o pobre homem,--interrompeu o freguez com vehemencia, não vê que mal se póde ter em pé. Coitado!
--«Pois sim, sim!--resmungou o logista, se toda a gente que não póde andar se me viesse pespegar nas cadeiras, estava eu arranjado. Mas vamos lá a vêr a bolsa. Ah! está toda esfarrapada! que trapo! isto não vale cinco réis. Quanto quer vossê por isto!
--«V. s.^a dirá quanto quer dar por ella!
--«Eu! olhe, já lhe digo que não lhe dou mais de quatro vintens. Nem um real. Serve-lhe?
--«Quatro vintens por uma bolsa de seda, senhor!--tornou o meu dono com uma profunda accentuação de amargura na voz.
--«Sim! que ella está muito bonita. E quem me assevera que vossê não roubou isto? Nada, parece-me que nem os quatro vintens lhe dou.
--«Roubar! eu?--bradou o meu bom velho, erguendo-se indignado da cadeira.
--«Sim! sim! Eu já conheço essas capas de santidade. O senhor não póde imaginar, continuou elle, voltando-se para o freguez, quanto esses malandros são finos! Olhe, um dia d'estes...
--«Este homem não tem cara de ladrão, interrompeu bruscamente o desconhecido.
--«Muito obrigado, senhor, muito obrigado!--exclamou o meu dono. Sirvam-me de consolação as suas palavras! Faz-me bem ouvil-as! Partem de um coração nobre.
--«Emfim, tornou o logista um pouco despeitado, se me quer dar a bolsa ahi tem os quatro vintens.
--«Que remedio, senhor! A necessidade é má conselheira! ahi tem a bolsa! Sempre meus filhos não morrerão hoje de fome!
--«Não, interrompeu ainda o generoso rapaz, agarrando no braço do mendigo, não consentirei que se pratique um roubo assím na minha presença. Sou eu quem lhe compra a bolsa. Ahi tem dez tostões, é tudo quanto tenho comigo. Creio que a bolsa não valerá muito mais.
«E, pondo na mão do mendigo duas meias corôas, saiu levando-me comsigo, deixando o logista estupefacto, e sendo acompanhado pelas bençãos do velho.
XIV
«Quando cheguei ao alojamento do meu novo dono, percebi que a minha posição não melhorára consideravelmente. A mobilia da casa não era muito mais numerosa, do que a da miseravel agua-furtada, d'onde eu saíra n'esse mesmo dia. Uma estante de pinho, vergando ao peso dos livros, e uma meza cuja superficie desapparecia debaixo de uma triplice camada de papeis, ahi tem quaes eram os moveis principaes d'aquella casa.
«O resto da mobilia, se o meu amigo quizer absolutamente uma descripção á Balzac, compunha-se de um leito de ferro, e de duas cadeiras de pinho, uma das quaes se distinguia pela ausencia de um pé, o que lhe dava as prerogativas de tripode, e a outra primava na singular docilidade com que se domava a todo o corpo que se lhe pozesse em cima; porque se prostrava immediatamente no chão em signal de obediencia. Confesso que, quando o meu generoso possuidor atirou comigo para a tal cadeira nimiamente flexivel, receei que apesar da minha leveza, obrigasse o pobre movel a dar provas da sua habilidade gymnastica.
«O meu proprietario, assim que entrou, despiu o casaco e atirou com elle irreflectidamente para cima da cadeira cortez, onde eu, por minha desgraça, estava tambem collocada. Receber o casaco, fazer um _plié_ com toda a habilidade de um mestre de dança, e ir parar ao chão arrastando-me na quéda, foi uma e a mesma coisa para a cadeira. O meu dono nem reparou em tal, e, dirigindo-se logo para a outra, sentou-se á meza, pegou n'uma penna, molhou-a no tinteiro, e começou a escrever com uma rapidez incrivel.
«Eu entretanto não estava lá muito á vontade. Litteralmente esmagada debaixo do casaco, tinha, para cumulo de desventuras, mesmo encostado a mim um grosso caderno de papel, que saía de uma das algibeiras, e que me pregava no chão, comprimindo-me atrozmente. Eu ficára embirrando com papeis, desde o momento em que, por causa d'elles, fôra expulsa irrevogavelmente da casa dos meus primeiros donos, e ai! sem esperança de para lá voltar.
«Mas, ainda que eu não tivesse essa justificadissima prevenção contra a papelada, bastava a attitude aggressiva, que este caderno tomára para comigo, para eu ficar odiando mortalmente a sua raça. Debalde eu gritava, ralhava, resmungava, fazia esforços inauditos para me desembaraçar do peso que me opprimia, tudo era inutil. O caderno era inflexivel, e o casaco ainda mais. Não tive remedio senão resignar-me.
«Vendo-me socegada, o caderno de papel começou a entabolar umas taes ou quaes relações comigo. Percebendo que, por fim de contas, a melhor resolução, que eu podia tomar, era corresponder á amabilidade com que me tratavam, troquei algumas palavras com elle, primeiro n'um tom bastante sêcco, e a pouco e pouco mais agradavelmente. Emfim, d'ahi a cinco minutos estavamos os melhores amigos d'este mundo.
«Foi então que elle me disse que o seu dono era litterato, como quem diz, não tinha officio nem beneficio. Andava sempre abundantemente provido de idéas e de dividas. As idéas eram sublimes, as dividas eram pasmosas. Nem por umas nem por outras havia quem désse dez réis. Tinha por costume confiar ao papel os seus pensamentos; mas por mais empenhos que o papel almasso mettesse com o papel de imprensa, nunca tinha conseguido que este se encarregasse de repartir com elle as honras da confidencia. Não porque o litterato não tivesse talento; pelo contrario, asseverava o papel que tinha muito; mas infelizmente, como ainda não se descobrira o meio de se começar a escrever pela segunda obra, e os editores queriam unicamente imprimir os seus escriptos se elle já fosse conhecido, o homem estava sériamente ameaçado de nunca os vêr em lettra redonda.
«Em compensação, um editor Mecenas, um protector das lettras com loja de livros n'uma escada, offerecera-lhe o honroso logar de traductor dos romances de Paulo de Kock, e de outros notaveis escriptores francezes, com o pingue ordenado de tres mil réis por mez. Este homem era tido pelos seus collegas como um perdulario.
«Outro editor, ainda mais estroina ou mais inexperiente, concebêra a atrevida idéa de tentar fortuna imprimindo as obras do pobre diabo. Pedira-as para as vêr, pedido que ia dando com o escriptor em doido... de alegria, e mostrou-as a um entendedor seu amigo. Este folheou os differentes cadernos por espaço de cinco minutos, e devolveu-os ao livreiro, asseverando que o rapaz tinha uma lettra tão boa, que não podia chegar a ser um grande escriptor, o que fez com que o bom do emprezario de litteratura devolvesse os cadernos a quem os escrevêra, offerecendo-lhe ao mesmo tempo um logar de caixeiro.
«O litterato atirára com os cadernos á cara do editor, depois com os livros que achou á mão, e já baloiçava a cadeira gymnastica para lhe fazer tomar o caminho que haviam tomado os livros e os papeis, quando o bom do editor descia os ultimos degraus da escada, e sacudia o pó das suas sandalias á porta de casa tão pouco hospitaleira.
O que o caderno meu visinho me affirmou (e devo dizer de passagem, que fôra elle um dos projectís de que o seu dono se servira, um dos navios encarregados de operarem um reconhecimento nas costas editoraes), o que elle me affirmou foi que, se o nosso homem não sacudisse tão depressa o pó das suas sandalias, o escriptor vinha-lhe a sacudir mas era o pó da sobrecasaca.
«Aqui está em resumo o que me narrou o meu officioso visinho.
«Não tentarei descrever a vida que eu passei durante dois ou tres mezes em casa d'esse seu collega. Póde imaginar qual era; repouso completo, enercia absoluta. Collocada na estante, alli passei todo o tempo, sempre socegada, sempre vasia, conversando muito com os lívros meus visinhos, que me ensinaram tudo quanto eu sei, e me fizeram adquirir a erudição que tanto o admirou, e vendo o meu dono passeiar no quarto, sempre agitado, e sempre procurando alguma coisa, ou uma rima, ou um lenço de assoar, ou um editor.
«Rimas encontrava elle quasi sempre, lenços de assoar algumas vezes, editores nunca!
«A traça fôra o editor unico d'aquelles papeis.
«Um dia foi elle tambem procurado por uns sujeitos, que lhe apresentaram um papel sellado, e que lhe disseram serem elles os encarregados pelo sr. Bartholomeu Nunes, de proceder a uma penhora por causa de não sei quantos mil réis que elle devia ao dito senhor.
«O meu dono não fez a minima objecção, pegou no chapeu e saiu, dizendo:
--«Escolham o que quizerem.
«Coisa que elles não o obrigaram a repetir. Percorreram minuciosamente todos os cantos e recantos. Nada lhes escapou. Tudo inventariaram, tudo levaram. Eu, já se vê, não escapei ao desastre; lá fui envolvida com os livros, e sabe quem eu vi tambem no frete?
«A celebrada cadeira das mesuras. Até isso lhes servira!
XV
«O meu dono (quinto, segundo vê; eu se não fosse tão modesta dizia-lhe que pozesse no titulo, em vez de _Memorias de uma bolsa verde_, a _Odysseêa de uma bolsa verde_), o meu novo dono era um usurario amador. Magro, com umas pernas que se cançavam antes de chegar aos pés, a tez biliosa, o nariz adunco e cavalgado por uns oculos, era perfeitamente o typo que Shakspeare (que foi meu visinho) attribue á sexta edade do homem, na celebre comedia intitulada: _As you like it_, titulo que o leitor póde traduzir _como quizer_. Observando rigorosamente as regras da economia, não comprando senão o que lhe era restrictamente necessario, e assim mesmo inventando para seu uso proprio um _necessario_ especial, as riquezas que obtinha, moeda de cobre a moeda de cobre, serviam-lhe unicamente para as ter enterradas n'uma burra collocada no seu quarto.