A Invenção do Dia Claro

Chapter 2

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Quando eu vinha para casa a multidão ia na outra direcção. Tive de me fazer ainda mais pequeno e escorregadío, para não ir na onda.

Perguntei para onde iam tão unidos, assim, com tanto balanço. Responderam-me: Para deante! para a frente!

Iam para deante! iam para a frente!

Fiquei a pensar na multidão.

O meu anjo da guarda disse-me: Prompto! A multidão já passou, levou um quarto d'hora a passar. A multidão não é senão aquillo que levou um quarto d'hora a passar. Prompto! já está vista! anda d'ahi!

O meu anjo da guarda está sempre dizer-me: De que estás á espera? Vá, anda! Começa já! Começa já a cuidar da tua presença!

Não sei o que o meu anjo da guarda quer que eu advinhe em taes palavras.

Outras vezes, o meu anjo da guarda pede-me para que seja eu o anjo da guarda d'elle.

Mãe!

Hoje acordei todo virado para deante. Assim, como tu o compreendes, Mãe!

Vi as coisas do ar que havia, as coisas que estavam focadas com o ar de hoje. As lembranças já estão inteiras, muito poucos os minutos falsos.

Fiz todas as horas do Sol e as da sombra. Ao chegar a noite estive de accordo com o Sol no que houve desde manhã até ser bastante a luz por hoje. Depois veiu o somno. E o somno chegou a horas. Antes do somno ainda houve uma imagem--um leão a dormir!

Na verdade, não ha somno mais bem ganho do que o de um leão a dormir com restos de sangue ainda no focinho, como os leões de pedra que ha nas escadarias por onde se sobe depois da batalha!

+RETRATO DA ESTRELLA QUE GUIOU O FILHO PRODIGO NA VOLTA Á CASA PATERNA+

Na praia uma menina perguntou-me se eu era rico. Estava de gatas e muito longe, a perguntar-me se eu era rico.

* * * * *

Todas as manhãs ia brincar com os vizinhos para a sombra da egreja. Depois do almoço a sombra era do outro lado.

* * * * *

Quando as meninas corriam no jardim, os cabellos e os vestidos ficavam para traz.

* * * * *

A rapariga das laranjas tinha uma linda voz para vender laranjas. As pessoas ficavam co'as laranjas na mão a ouví-la.

* * * * *

A larangeira ao pé da nóra já me conhecia--punha-se a fingir que era o vento que a fazia mexer.

* * * * *

Acho mais sinceros os dias de chuva. Nos dias em que chove ponho­me a pensar que não sou eu só que vivo arreliado. Depois, o cheiro da terra molhada é que me faz de novo animar.

* * * * *

Ás vezes ponho-me a pensar em coisas que eu nunca vi. Naturalmente só ha muito longe, nas outras terras!

* * * * *

Estou a espera de ser grande para ver se o que eu penso é verdade ou não. Se não fôr, mato-me!

* * * * *

Gósto mais dos bois de barro que dos bois verdadeiros.

* * * * *

O gabão do jardineiro era forrado d'azul!

* * * * *

A rosa encarnada cheira a branco.

* * * * *

Quando vejo o côr-de-rosa parece que se referem a mim.

+CONFIDENCIAS+

Bom-Dia, Mãe!

Bem nos tinham dito!--Espérem! foi o que nos tinham dito. E nós esperámos. Ah! que sempre tive a certeza que havia de chegar «o descerrar do escuro»! (ANTHERO, Sonetos.)

A eternidade e um instante é a mesma coisa.

SANTO AGOSTINHO.

Bom-Dia, Mãe!

Senta-te ao meu lado, que eu vou contar-te a viagem que eu fiz. Dá­me a tua mão para que eu a conte bem!

Dei a volta ao mundo, fiz o itinerario universal. Tudo consta do meu diario intimo onde é memoravel a viagem que eu fiz desde e universo até ao meu peito quotidiano. Vim de muito longe até ficar dentro do meu proprio peito e defendido pelo meu proprio corpo.

Durante a viagem encontrei tudo disposto de antemão para que nunca me apartasse dos meus sentidos. E assim aconteceu sempre desde aquelle dia inolvidavel em que reparei que tinha olhos na minha propria cara. Foi precisamente n'esse dia inolvidavel que eu soube que tudo o que ha no universo podia ser visto com os dois olhos que estão na nossa propria cara. Não foi, portanto, sem orgulho que constatei que era precisamente por causa de cada um de nós que havia o universo.

E assim foi que, todas as coisas que a principio me pareciam tão estranhas, começaram logo desde esse dia inolvidavel a dirigirem-se-me e a interrogarem-me, quando ainda hontem era eu que lhes preguntava tudo. Foi-me facil comprehender que o universo era precisamente o resultado de haver quem tivesse olhos na propria cara. Muito maior foi o meu orgulho, portanto, quando tive a certeza de que hoje o universo esperava anciosamente por cada um de nós. Hontem, cada um de nós viajava por todas as partes do universo, com aquelle desejo legitimo de se encontrar, e se a viagem demorou mais do que devia é porque não seria facil acreditar immediatamente que cada um de nós estava, na verdade, em todas as partes do universo. Confesso que não pude supôr logo d'entrada que o papel de que seriamos incumbidos cá na terra fôsse precisamente o mais importante de todos.

Ainda hontem o universo me parecia um gigante colossal capaz de me atropellar sem querer; e emquanto eu procurava a maneira de não ficar espesinhado plo gigante, quem poderia, Mãe, ter-me convencido de que eramos nós-proprios o gigante?

Todas as coisas do universo aonde, por tanto tempo, me procurei, são as mesmas que encontrei dentro do peito no fim da viagem que fiz pelo universo.

+III PARTE+

+O REGRESSO

OU

O HOMEM SENTADO+

AO JOAQUIM GRAÇA

+A FLOR+

--«Je travaille tant que je peux et le mieux que je peux, toute la journée. Je donne toute ma mesure, tous mes moyens. Et après, si ce que j'ai fait n'est pas bon, je n'en suis plus responsable; c'est que je ne peux vraiement pas faire mieux.»

_Henri Matisse._

Pede-se a uma creança. Desenhe uma flor! Da-se-lhe papel e lapis. A creança vae sentar-se no outro canto da sala onde não ha mais ninguem.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas n'uma direcção, outras n'outras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais faceis, outras mais custosas. A creança quiz tanta força em certas linhas que o papel quasi que não resistiu.

Outras eram tão delicadas que apenas o pezo do lapis já era demais.

Depois a creança vem mostrar essas linhas ás pessôas: Uma flôr!

As pessôas não acham parecidas estas linhas com as de uma flôr!

Comtudo, a palavra flôr andou por dentro da creança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, á procura das linhas com que se faz uma flôr, e a creança pôz no papel algumas d'essas linhas, ou todas. Talvez as tivesse pôsto fóra dos seus logares, mas, são aquellas as linhas com que Deus faz uma flôr!

ÁCERCA DA PINTURA DE CÉZANNE E DE MATISSE:

«Elle vous donne la sécurité.»

_Charles Péquin._

_Sécurité_--M. f. (lat. securitas) Confiance, tranquilité d'esprit resultant de l'idée, qu'il n'ya de péril à craindre: l'industrie a besoin de sécurité.

_Petit Larousse._

+A MINHA VEZ+

Tu separeras la terre du feu, le subtil de l'épais--doucement-­avec grande industrie.

HERMES TRIMEGISTA

O desenho das creanças é como o das pessôas que não sabem desenhar--ambos dizem, mas não sabem o que dizem. Não sabem desembaraçar as linhas de uma coisa das linhas das outras coisas que veem ao mesmo tempo dentro da mesma palavra. A prova é que não são capazes de imitar o que da primeira vez lhes escorregou do corpo pela mão para o papel.

Eu-proprio, apenas agora começo a saber recordar o que foram os meus desenhos de ha dez e vinte annos, quando fiz uns traços em pedaços de papeis que guardaram.

Escuto estes desenhos como a um homem, do campo que diz, sem querer, coisas mais importantes do que o que está a contar, e que põe tudo á mostra sem dar por isso. Atravez d'estes desenhos sigo grafologicamente o meu instincto á espera da minha vontade,--a minha querida ignorancia a aquecer ao sol e a transformar-se na minha vez cá na terra.

+FIM DA TERCEIRA PARTE+

+UMA FRASE QUE SOBEJOU+

Quando copiei pela ultima vez a Invenção do Dia Claro, sobejou uma frase que não me recordo a que alturas pertence. A frase é esta:

Ha systemas para todas as coisas que nos ajudam a saber amar, só não ha systemas para saber amar!

NOTA--Seguem-se as démarches para a Invenção. Foi-nos completamente impossivel incluir na presente edição as démarches. No entanto, reproduzimos como specimen a mais antiga de todas para que o leitor se convença do seu interesse quotidiano e imediato. N'esta, como em todas as outras démarches para a Invenção é flagrante a maneira como se representa a fortuna que nos rodeia todos os dias.

+A VERDADE+

Je ne crois que les histoires dont les témoins se feraient égorger!

PENSÉES, PASCAL.

Eu tinha chegado tarde á escola. O mestre quiz, por força, saber porquê. E eu tive que dizer: Mestre! quando sahi de casa tomei um carro para vir mais depressa mas, por infelicidade, deante do carro cahiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo.

O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade!

E eu tive de dizer: Mestre! quando sahi de casa... minha mãe tinha um irmão no extrangeiro e, por infelicidade, morreu hontem de repente e nós ficámos de luto carregado.

O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! diga a verdade!!

E eu tive de dizer: Mestre! quando sahi de casa ... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no extrangeiro ha tantos annos, sem escrever. Ora isto ainda é peor do que se elle tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de lucto carregado ou não.

Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? diga a verdade, já lh'o disse!

Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me passou pela cabeça que acreditei que o mestre queria effectivamente que lhe dissesse a verdade. E, creança como eu era, puz todo o pezo do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração á solta confessei a verdade: Mestre! antes de chegar á Escola ha uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de côr­de-rosa! Mestre! a boneca estava vestida de côr-de-rosa! A boneca tinha a pelle de céra. Como as meninas! A boneca tinha os olhos de vidro. Como as meninas! A boneca tinha as tranças cahidas. Como as meninas! A boneca tinha os dedos finos. Como as meninas! Mestre! A boneca tinha os dedos finos...

JOSÉ DE ALMADA-NEGREIROS

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O MOINHO 1 ACTO

23, 2.^O ANDAR 3 ACTOS

ANTES DE COMEÇAR 1 ACTO

OS OUTROS 3 ACTOS

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O MENDES--A ENGOMADEIRA--HERCULES DA SILVA

A SCENA DO ODIO

SALTIMBANCOS--MIMA FATÁXA--LA FEMME ÉLECTRIQUE

O QUADRADO AZUL

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DÉMARCHES PARA A INVENÇÃO DO DIA CLARO

DA ARTE DE ATRAVESSAR A MULTIDÃO, COM APONTAMENTOS SOBRE O QUE EU QUIZ DIZER.

POBREZA VOLUNTARIA

DADOS ARBITRARIOS PARA A FUTFURA ARISTOCRACIA

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AS TREZ IDADES DE CADA UM

--«AS TREZ IDADES DE CADA UM» É O OVO DE COLOMBO!

_Dr. F. Alves de Azevedo._

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O MENINO D'OLHOS DE GIGANTE

FEITO COM A PRETENÇÃO DE POEMA UNIVERSAL.

COM UMA POSIÇÃO GEOGRAFICA PORTUGUEZA NA FORMA POETICA DA TONTERIA POPULAR.

ACABADA D'IMPRIMIR AOS TRINTA DIAS DO MEZ DE NOVEMBRO DE MIL NOVECENTOS E VINTE E UM, NAS OFICINAS DA SOCIEDADE NACIONAL DE TIPOGRAFIA, RUA DO SECULO, 59, FICANDO DEPOSITARIA «PORTUGAL E BRAZIL», RUA --GARRETT, 58, 60, LISBOA.--