A Intrusa

Part 7

Chapter 73,857 wordsPublic domain

Era uma fortuna cahir o anniversario de Maria num domingo. Sempre era um dia roubado á companhia da outra. O consumidor ciume trazia a baroneza doente, de uma tristeza sem remedio. Os beijos da neta sabiam-lhe a falsidade, os seus abraços, amollecidos, tinham perdido o impeto selvagem dos tempos de que a via ir fugindo tão depressa. Qualquer dia leval-a-iam de todo, sem que nem ella ao menos voltasse a cabeça para tráz, para um ultimo sorriso...

Nem por ser exercitado no amor, o coração deixa de desvairar se o contrariam!

Ás vezes, para o desabafo, a queixa subia-lhe aos labios descorados; mas o marido, inflexivel, acudia logo, com a crua lei do destino:

--Acostuma-te: mais tarde ella terá de acompanhar o marido, como a avó acompanhou o avô, e a mãe acompanhou o pae.

E ella então gemia, desconsolada:

--Até lá, onde estarão os meus ossos! como se a idéa da morte a tranquillizasse.

Se os pensamentos a atormentavam de dia, á noite perseguiam-n'a os sonhos. Alice, sempre a Alice, apresentava-se-lhe sob diversas fórmas, mas sempre com as mãos que nem garras.

A insistencia da idéa penetrava-a de crenças novas. Debateu-se em vão, concentrada no seu canto, com os olhos no retrato da filha, que o tempo ia desvanecendo num descolorido suave. Assim se attenuasse na sua alma a dôr, como aquella sombra no papel! Por que ha de haver coisas eternas na vida transitoria? Já viu alguem reflectir-se uma imagem com fixidez em aguas de grande correnteza? A vida não faz outra coisa senão passar, e a d'ella então immobilisara-se num momento de horror? Uma noite, em sonhos, a filha appareceu-lhe lavada em pranto. Seus olhos, como dois ramos, de myozotis inundados, vinham varados pela tristeza moça do amor. Não houve outra queixa. A mãe comprehendeu-a. Era tempo de agir. Consultaria os espiritos, já que na terra não a ajudava ninguem.

Lembrou-se de uma tal D. Alexandrina, da estação do Rocha. Contavam-se d'ella maravilhas, revelações estupendas!

Preparou-se cedo. Vendo-a sahir do quarto, de chapeu e de capa, o marido espantou-se, tão raramente ella punha os pés na rua.

--Vou á missa pedir a Deus saude e juizo para Gloria. Ella faz annos hoje...

--Sei...

A baroneza não sabia mentir.

Ao mesmo tempo que falava, as faces tingiam-se-lhe de vermelho.

Mas o marido não deu por tal; e ella sahiu.

D. Alexandrina morava num sobradinho estreito, onde a baroneza entrou envergonhada. Fizeram-n'a esperar numa salinha de jantar atravancada por uma mesa coberta por um panno de aniagem, de franjas sujas, e uns caixotes acolchoados, á guiza de divans.

Nas paredes, collados sobre os mandarins do papel desbotado, chromos de folhinhas e uma gravura representando o Marechal Floriano Peixoto. Depois de alguns minutos de espera, entrou D. Alexandrina, uma mulherzinha magra e morena, quasi sem queixo, de olhos redondos.

A baroneza entrou, seguindo-a, para uma alcova, onde ardia uma lamparina em frente a um oratorio. Como na sala de jantar, havia alli profusão de imagens colladas ás paredes; sómente, estas eram apenas de santos. Uma cortina de chita corrida encobria um leito de que se viam sómente os pés. Ao cheiro do oleo da lamparina juntava-se o de manjericão, num copo.

D. Alexandrina retirou um baralho de cartas de uma gaveta, pousou-o sobre a mezinha redonda, junto á qual se sentaram e, pedindo com ura gesto á baroneza que esperasse, voltou-se para o oratorio e rezou baixo, com os olhos e o queixinho a tremer-lhe.

Finda a reza, a cartomante pediu á baroneza que partisse o seu baralho, de grandes cartas, e começou a operação.

--A senhora tem uma inimiga...

A baroneza fez que sim com a cabeça.

--É uma mulher má, que abusa da sua confiança...

--Da minha confiança?!

--Repito o que está nas cartas... A senhora tem a receber uma grande herança...

--Não...

--Sim... d'aqui a um anno... Mas deve mudar-se da casa em que está, antes que lhe succeda um desastre... A sua inimiga é moça, é bonita e é pertinaz; ella alcançará tudo que deseja, se a senhora não se atravesar no seu caminho... Ella finge amar seu marido, por calculo...

--Meu marido, não... meu genro! rectificou a baroneza, offendida.

--A carta... diz um cavalheiro que a interessa... cuidei que se tratasse de seu esposo. Será de seu genro...

--Póde saber-se quaes são as suas intenções?

--Ser amada por elle e exploral-o.

--Eu já desconfiava!...

--Não se apoquente... ella será desmascarada a tempo... Não é livre... ama um rapaz pobre... com quem se encontra furtivamente... A senhora receberá uma carta...

--Que mais?

--O mais não digo; a senhora poderia ficar impressionada, sem vantagem... Seja prudente... queime a carta que receber... e esteja álerta... não convém intervir já... espere um pretexto, que não se fará esperar muito... a sua inimiga tem recursos...

--Se tem!

--E já conseguiu muita coisa... Recommende a seu genro cuidado, sobretudo com uns papeis lacrados que elle tem encerrados em um cofre!

--Tenciona roubal-o?!

--Por hoje não lhe posso dizer mais nada; concluiu D. Alexandrina, cerrando os olhos.

A baroneza sahiu tonta. Era a primeira vez em sua vida que se abalançava a consultar uma adivinha. Envergonhava-se do seu acto; o marido censural-a-ia... fôra alli buscar um pouco de socego e sahia em maior confusão--aterrada!

Fizera mal até então em não acreditar nas cartomantes: como pudera aquella adivinhar a existencia da inimiga e as suas idéas perigosas? Mas, porque não lhe dera a ponta da meada, por onde ella pudesse desfazer toda a teia? Tinha que esperar uma carta e só depois d'ella lida e desfeita em cinzas teria de entrar em scena! Entretanto, a outra iria tomando inteira posse do coração de Argemiro, que ella queria só cheio do amor e da saudade da filha!

Era por causa d'aquelle coração que a sua doce Maria lhe apparecera banhada em lagrimas! Havia de luctar até restituil-o á morta!

O carro entrava na larga rua das mangueiras da chacara, quando a baroneza viu o Feliciano a pé, sobraçando um grande embrulho. Ella fez parar o carro e chamou o negro.

--Feliciano! Bote esse embrulho aqui e ajude-me a descer. Quero fazer um pouco de exercicio... E voltando-se para o cocheiro: Guarde isso no carro até á minha chegada.

O carro partiu; a baroneza disse:

--Feliciano, quero saber toda a verdade:

Que se passa em casa de minha filha?

O rapaz fingiu-se mais espantado do que estava e balbuciou:

--Nada de mais... não senhora.

--Não é verdade. Estou informada de que D. Alice conversa com o senhor doutor... nega, se és capaz.

--Quem informou a senhora?! perguntou Feliciano, para não dizer que sim nem que não.

--Alguem... Ella tem dias certos para sahir?

--Sae com D. Gloria nas segundas-feiras...

--Que bem me peza! Mas além d'essas vezes?

--Nas quartas-feiras, á noitinha...

--Sózinha?

--Sózinha.

--Precisas acompanhal-a de longe, uma d'essas vezes, e vir dar-me o resultado da tua espionagem... Deus me perdôe! mas é para bom fim!

--Não posso...

--Hein?!

--Nas quartas-feiras o patrão está em casa; é o dia em que os amigos vão jantar e jogar com elle, e sou eu que sirvo...

--O demonio prevê tudo! Ella não recebe visitas?...

--Não senhora...

--Estás comprado por ella! Deu-te bola!

--A mim?! não! que a Feliciano Ermelindo Braga ella não engana... nem enrola! É muito experta mas eu tambem não sou tolo...

--Feliciano, preciso que estejas sempre de olho vivo e vigiando a casa da tua antiga senhora. Lembra-te de como ella era tua amiga e tão condescendente!

--Não me esqueço...

--Se não te esqueces, dize a verdade: Argemiro não fala com essa mulher?

--Á minha vista não, senhora.

--Julgas que se falem?...

A baroneza parou, envergonhada. O negro começou:

--Ante-hontem, mal o patrão sahiu, eu entrei devagarinho na sala de visitas e vi D. Alice espiando, para o vêr, por detráz da cortina... Outra vez, entrei no escriptorio e ella estava encostada no cofre...

--No cofre! É bom verificar sempre se o teu patrão se esquece de fechar o cofre...

--Não era com o sentido no cofre, não, senhora; ella tinha tirado da parede o retrato de D. Maria e estava olhando de perto para elle!...

--Que sacrilegio! com o retrato de minha filha nas mãos!

--Já por duas ou tres vezes eu pilhei-a assim... parece que ella tem inveja... ou ciume...

--Por que não contou isso ao seu patrão?

--Deus me livre! Seu doutor parece que está enfeitiçado... não admitte que a gente diga nada. Tambem, ella pôde fazer o que quizer! Desde que aquella senhora entrou lá em casa, não fui mais senhor de arrumar uma camisa do patrão nas gavetas, nem de mecher nos seus papeis. Eu tenho de levar o taboleiro da roupa, para perto da commoda e é ella quem ageita tudo. Outro dia pareceu-me, não affirmo, vêl-a pôr um raminho verde em baixo das camisas de meia... A senhora sabe que ha certas artes de feitiçaria que só o diabo as entende... ella depois fecha tudo á chave... Quem poderá livrar o patrão?

--O anjo custodio de minha filha! Feliciano, consta-me que ella ama um moço pobre e que o encontra de vez em quando. Falla verdade... elle não vae lá nunca?

--Pobres vão lá... ás vezes até tenho vontade de enxotar aquella canalha toda... mas o patrão deu licença...

--Impostora! Que dinheiro ella ganha para poder fazer tanta caridade!

--Não, senhora, são os restos... ella tem lá uns devotos para a ceia...

--A despensa está bem sortida!

--A senhora não falle nisso ao patrão, porque elle disse outro dia ao padre Assumpção, á minha vista, que nunca em sua vida teve casa tão bem administrada como agora!

--Nunca, em sua vida?!

--Depois que D. Maria falleceu...

--Ah...

--Agora me lembro que foi lá um dia um moço procurar a D. Alice!

--E...

--Foi numa segunda-feira; ella tinha sahido com D. Gloria.

--Então não a viu?

--Não, senhora.

--Mas ao menos não lhe perguntaste o nome?

--Não quiz dizer...

--Era fino... bonito? Ha de ser o tal!

Estavam a curta distancia da casa quando Gloria sahiu correndo:

--Vovó! Por que não me levou! Venha depressa! Vovô não quer-me deixar abrir o embrulho que veio no carro e eu sei que é para mim! Adeus, Feliciano. Como está D. Alice?

--Em vez de perguntar por teu pae, perguntas ela... criada! Anda; vamos vêr o teu presente!

--Papae virá logo... mas a D. Alice...

--Basta! não quero que me tornes a fallar nessa creatura... ouviste?

--Eu gosto d'ella... É bem boa!

--Para o fogo.

--Eu gosto d'ella muito!

--Mas D. Gloria lá em casa trata a D. Alice com seccura... Observou o negro.

--É mentira! Você é um mentiroso! protestou a menina, com raiva.

--Gloria!

--Que é, vovó?

A baroneza não podia mais. Entrou e fechou-se no seu quarto. Arrependia-se já d'aquellas acções que praticara. Deus a livrasse de condemnar uma innocente, mas lhe désse forças para punir uma culpada. O que a affligia eram os meios de que lançara mão para conhecer a verdade. A espionagem do negro... a intervenção da cartomante... oh! como isso lhe repugnava agora, bem a sós com a sua consciencia! Valera a pena viver toda uma vida pura e nobre, para na velhice fazer aquelles desatinos?

O retrato da filha, suspenso á cabeceira da cama, absolvia-a d'aquella culpa, sorrindo-lhe docemente d'entre a onda pallida dos cabellos soltos.

A baroneza sentia nojo pelas armas que ia preparando para o combate. Repugnava-lhe ter de servir-se da adivinha e do Feliciano. Receava acreditar demasiadamente na primeira; temia fazer-se echo dos despeitos do segundo... e todavia acceitava as indicações da cartomante, espantada de lhe ter ouvido referencias tão verdadeiras... e déra o passo repugnante de induzir o criado á espionagem!

--No dia em que eu receber a carta, revelarei tudo a meu marido, decidia ella; e se nada receber... não tornarei a voltar á D. Alexandrina... Que poderá aquella fraca creatura contra as disposições do destino? Velha tonta que eu sou!

Á hora do jantar, quando a avó de Gloria appareceu na sala, notou toda a gente que ella estava pallida, com olheiras pizadas e um sorriso forçado que não conseguia levantar-lhe os cantos da bocca fatigada. A carne pallida e flacida do pescoço descahia-lhe sobre as rendas da gravata segura por um broche de esmalte representando a cabeça loira de Maria, cópia do seu ultimo retrato, e em que o doce perfil da moça parecia já velado por uma sombra de infinita tristeza. Os cabellos brancos, presos á nuca por um pente de tartaruga, illuminavam de reflexos de prata a sua fronte amargurada, em que o pensamento parecia perder-se no labyrinto das rugas.

Argemiro correu a abraçal-a e sentiu-a fria ao beijo com que correspondeu ao seu. Accudiram logo todos a rodeal-a de cumprimentos.

Adolpho Caldas fôra arrebanhado na rua, pedia desculpa para o seu _veston_ de trabalho, pondo nas mãos bondosas da velha um ramo de violetas, que ella prendeu junto ao broche da filha.

Dr. Telles beijou-lhe os dedos curtos, de unhas sem brilho; e o padre Assumpção, lendo-lhe no rosto uma agonia extranha, fixou-lhe penetrantemente os olhos, que se turbaram, como a agua clara de uma lagôa a que uma pedra revolve o fundo.

Gloria avançou radiante, com os braços cheios de pacotes de bonbons, de livros bonitos e de rosas. Tambem a D. Alice lhe mandara um presente pelo padre Assumpção! Era um vazinho para flôres, de crystal branco, mimosamente lavrado.

Gloria entregou-o á avô, gabando-lhe a delicadeza; mas, no instante em que declarou o nome de Alice, os dedos da velha abriram-se tremulos, e o lindo vaso fez-se pedaços no soalho.

Argemiro e o padre Assumpção trocaram um olhar rapido. Gloria exclamou, num grito lamentoso:

--O meu vazinho! Ah! vovó!

--Perdôa, filha... eu te darei outro egual, perfeitamente egual... não sei o que tenho nas mãos. Que sensaboria!

--Realmente, censurou o barão, sem comprehender; não sei como se pode deixar çahir assim um objecto d'esses!... Foi pena, porque era um bonito veneziano...

Gloria olhava para os destroços, com os olhos marejados e começava outra lamentação quando o pae a chamou para o terraço e a aconselhou a se mostrar resignada e alegre. Empurrou-a para a sala.

Caldas foi ter com elles, e, rindo-lhe na cara:

--Han! que te dizia eu, meu velho?! Eis-te em pleno romance, já no capitulo dos zelos! Para quem está de fóra, o caso é bonito; chega mesmo a ser interessante... _Ça marche_!

--Cala-te, abelhudo. Foi uma injustiça. Se os meus olhos a não tivessem visto, não acreditaria nella. Tão delicada é quem a praticou que chego mesmo a suppôr não ter havido proposito no desastre!

--Olha que a ingenuidade faz mal ao appetite, a acreditar no exemplo das ingenuas... Vamos nós á sopa, que cheira melhor que a tua intriga...

--Vamos.

--O Assumpção fez-se livido. Reparaste-lhe para o rosto? Não reparaste: tu estavas contemplando a tua alma! Não ha nada como ser espectador... Vi tudo e cresceu-me a admiração por tua sogra... foi transparente! Se amas a outra terás de luctar com esta. _Sapristi_! Quando as mães...

--Estás doido! Eu lá amo a outra! Eu nem a vejo! Dou-te a minha palavra de honra, que nem a conheço!

Caldas contemplava-o espantadissimo, repetindo:

--Sério? Sério?!

--Já te dei a minha palavra de honra! Que mais queres?

--Não quero mais nada, filho, estou enthusiasmado! Basta-me o espanto, que é dos maiores que tenho tido em minha vida. É adoravel.

Gloria, já risonha, veio puxal-os para a mesa, que o avô enfeitara toda de margaridas brancas. Dr. Telles discutia politica com o barão. A baroneza, affastando-se do padre, com quem conversava, designou o logar a cada um dos convivas e sentou-se á cabeceira.

XI

A casa do dr. Pedrosa era uma das mais antigas da rua do Senador Vergueiro. Á sua fachada, de velho estylo portuguez, a vaidade do dono mandara addicionar uma cimalha, que encobria as telhas aldeãs com os seus floreados medalhões de estuque e dois torreões lateraes, ligados ao corpo central por passadiços envidraçados, de caixilhos miudos. Dentro de um vasto jardim, fechado por gradil prateado, essa residencia ficava meio encoberta da rua por dois misericordiosos tamarineiros, altos e frondosissimos.

Num dos torreões fazia o senhor ministro o seu gabinete de trabalho. O outro, todo esteirado e guarnecido de kakimonos, era chamado em casa o «pavilhão japonez», e destinado a Sinhá, que ahi recebia as amigas e pintava as suas timidas aquarellas.

Era noite de recepção e a Pedrosa embarafustou pelo quarto da filha.

--Estás prompta?

--Sim, mamãe.

--Que! de azul?! Não! muda de vestido. Branco, branco! Trouxe-te os meus brincos de perolas. Toda de branco, só com estas duas perolas nas orelhas, ficarás melhor. Como uma noiva...

O olhar da mãe acariciava a filha, que sorriu com tristeza.

A Pedrosa tornou a sahir, recommendando pressa; ella ia para a sala esperar os amigos; antes de abrir a porta puxou a filha a si e beijou-a com ternura.

A moça começou passivamente a desenlaçar o seu vestido azul, pensando no ar mysterioso com que a mãe a attrahira naquelle beijo.

Sem poder obedecer ás ordens maternas, que lhe haviam imposto pressa, ella, mal enfiou o seu vestido branco, deixou-se cahir sentada na beira do leito e alli ficou um largo espaço de tempo, com os olhos fixos no vacuo e os dedos embaraçados nas fitas desatadas do cinto.

Tinha pensado muito desde aquelle passeio ao Corcovado e começava a comprehender o seu papel... A mãe offferecia-a ao Argemiro... era por causa d'elle que lhe puzera nas orelhas aquellas perolas, que pareciam queimal-a... Porque? Porque elle era rico e occupava na sociedade um logar brilhante... Amava-a elle? não!... amava-o ella? talvez...

Na verdade, a imagem de Argemiro nunca se lhe apresentara senão levada pela mão da mãe... lembrava-se mesmo de que a primeira vez que o vira achara-o velho e triste... depois, a pouco e pouco, habituara-se a imaginar-se noiva d'aquelle homem sério, que todo o mundo dizia votado inteiramente á sua viuvez... e agora eil-a enciumada de uma mulher de cuja existencia até ás vesperas nem suspeitara e que occupava já o logar que a mãe lhe destinava a ella!

A figura de Alice desenhava-se inteira deante dos olhos pasmados da moça. Revia-lhe o rosto de um moreno pallido, de feições irregulares; o talhe esbelto do corpo, as mãos longas, o vestido cinzento, alegrado por uma gravatinha azul...

Que idéa faria d'ella o Argemiro? Um leve rubor subiu-lhe ás faces e ella escondeu o rosto entre as mãos geladas.

A criada veio apressal-a. Sinhá levantou-se resolutamente e concluiu a sua _toilette_ sem hesitação.

Quando entrou na sala, a mãe, entre um grupo de amigas, conversava com um homem gordo, de longos bigodes côr de vinhatico. Apresentou-a; era o encarregado de negocios de Inglaterra no Rio de Janeiro!

Sinhá cumprimentou-o, admirada da habilidade da mãe; ella conseguira o seu desejo!

Alli estava na sua sala o homem por quem ella subira inutilmente ao Corcovado. Bem o dissera ella: realizo todos os meus emprehendimentos!

Attendendo ás visitas que rodeavam a mãe, Sinhá prestava attenção, a vêr se distinguia a voz de Argemiro entre as vozes dos homens que palestravam no gabinete do pae.

Ahi, entre os livros de direito e de economia politica, arrumados em estantes de canella ou espalhados sobre a secretária e a mesa, conversavam animadamente Adolpho Caldas, Argemiro, dr. Sebrão, o Conselheiro Isaias e o dono da casa.

--Fallem-me de tudo! exclamava o Pedrosa supplice, menos da politica! Vocês não imaginam! não lhes direi que estou farto d'ella até aos cabellos, por que sou careca; mas ultrapassa a minha força atural-a até nos cavacos entre camaradas.

Conselheiro Isaias, lembrando-se lá comsigo do empenho de Pedrosa para alcançar a pasta, commentou do canto onde acolhera o seu corpinho murcho:

--Percebe-se o sacrificio...

Caldas levantou-se com estrondo, disfarçando a malicia do outro, e foi ao lampeão reaccender o charuto, emquanto Pedrosa continuava:

--É muito grande, e só mesmo a patria poderia exigir tanto de mim. A acção de governar vae-se tornando cada vez mais difficil e mais perigosa nesta terra... Nós temos maus auxiliares e o povo tem má fé... A opposição agora serve-se de todos os meios para impedir-nos os passos, usando das armas mais perfidas, que são as do ridiculo e as da calumnia...

--Essa senhora é velha como Socrates... não faça caso... disse o conselheiro.

--Não faço caso, mas no fundo, francamente, desgosta-me. Trabalho sem interrupção e a final...

--Não faz nada! disse o conselheiro rindo.

--Não seja perverso, amigo! ou declare-se já contra mim! Quem sabe se é você o auctor d'aquelles versinhos que andam por ahi carpindo a minha falta de eloquencia e de desinteresse, que julgam as qualidades primordiaes para um homem de Estado!

--E são...

--Nego. Um politico, do que precisa, sobretudo, é de tenacidade, sangue-frio, patriotismo, sinceridade e um grande dominio sobre as suas paixões... além das qualidades superiores, que lhe são indispensaveis, de intelligencia e de illustração...

--É por isso que o seu collega Marcondes está fazendo tão bonita figura!... Disse ainda o conselheiro, com um fundo suspiro. Riram-se todos, que bem conheciam os dotes fraquissimos do Marcondes.

Pedrosa continuou, com um sorrizinho magnanimo:

--Elle é bem intencionado, e trabalha!

Ha dias em que nem tenho tempo de beijar minha filha... O homem publico é um galé, principalmente neste nosso paiz, em que os mais puros devotamentos são sempre interpretados ás avessas!

--Muito bem! Apoiado! exclamou o conselheiro, levantando-se.

--Eu sei que você é um homem corajoso, desde aquella celebre caçada que fizemos juntos em Theresopolis... lembra-se? perguntou, sorrindo, o dr. Sebrão ao Pedrosa.

--E com bastantes saudades!

--Quem tem edade e competencia para arcar com o peso de uma pasta é alli o amigo Argemiro... disse o conselheiro Isaias.

Argemiro protestou; era um homem sem maleabilidade; não podia servir bem á politica. Ao mesmo tempo o dr. Sebrão, voltado para Adolpho Caldas, começou a descrever a caçada feita com o Pedrosa e outro amigo nas florestas da serra.

--Tinham-nos fallado em javalis. Uma madrugada partimos da Varzea, montados nuns velhos cavallos de aluguel, nós e mais um velhote de Theresopolis, que se inculcara como excellente guia. Levavamos boas armas, bom farnel para o almoço, estando combinado voltarmos a jantar com a familia. Trotámos para o alto, o velhote na frente, nós muito esperançosos, atrás. Chegados a um certo ponto amarrámos os animaes e mettemo-nos a pé pelo matto. Imaginem que entrar nas florestas da serra é como entrar na treva. Alli, para se ser bom caçador é preciso ter affeito a vista á escuridão do hervaçal e ter creado sobre a epiderme uma segunda pelle, ou melhormente uma especie de couro, onde os espinhos se quebrem sem lograr ferir. Cada vez que os nossos pés se afundavam no colchão de folhas mortas, a idéa de ser mordido pelas cobras juntava-se ao prazer de conseguir matar algum porco do matto. O guia assegurava ter encontrado signaes: galhos quebrados, rastro de animaes em fuga. Seguimol-o com fé. Era prudente almoçar cedo. Comemos á beira do Paquequer, entre touceiras cheirosas de lirios côr de marfim. As aguas convidavam. Quiz banhar-me, mas o Pedrosa ponderou que a fresquidão da lympha applacaria o meu humor sanguinario, que antes deveria ser exacerbado por um golfinho de paraty... Tropeçando em troncos, enrodilhando-nos em cipós, alagando-nos até ao queixo em vallas, passámos o dia inteiro á espera da porcada glorificadora! Mas os diabos dos porcos, zombando dos caçadores sem cães, deram-nos ao desprezo. Escureceu. Quer dizer: o negrume ainda se fez mais negro. O guia, desnorteado, levava-nos para um lado, para outro, sem achar sahida...