A Intrusa

Part 14

Chapter 142,316 wordsPublic domain

Ella está doente, levanta-se de noite, não dorme sem o retrato de Maria em baixo do travesseiro... É o seu fanatismo. A sua religião! O amor de mãe desvaira-a... Que soffrimento!

A mim, já me quer mal por eu defender o Argemiro, quando allude á probabilidade de outros amores!

Veja só...

Assumpção não respondeu; olhava machinalmente para o jardim bem relvado, fresco das regas e illuminado pelo fulgor dos ibiscos vermelhos e os cachos rôxos das viuvinhas. Aqui e alli, roseiras de qualidade vergavam as hastes molles ao peso de grandes rosas perfumadas. Em baixo da janella, num heliothropo florido, palpitavam borboletinhas brancas...

O barão interrogou o padre sobre o ultimo facto politico. Assumpção respondeu apenas. Mal entendia d'isso, apezar dos esforços da mãe com o sentido de o interessar pela vida... A ambição pessoal dos homens fazia-lhe mal aos nervos...

Feliciano passou assobiando pela porta do quarto de Alice. Fôra um desafogo á alegria que lhe alvoroçava a alma; mas conteve-se antes de entrar na sala, onde o esperava um olhar de censura do padre.

Pouco lhe importou. Alma de negro não é alma de cão. Senão, veriam d'ahi por deante quem mandaria alli!

Quando Argemiro desceu para o almoço, foi avisado de que a sogra o esperava na sala de visitas. A conversa precisava discreção,--imaginou logo do que se tratava. Ia ser bonita, a historia! Onde se teria mettido a Alice? Vinha-lhe agora uma curiosidade doida de a vêr!

Na sala encontrou os sogros e Assumpção, com um ar de solemnidade que o desorientou.

A baroneza derramava pelo sofá as dobras da sua saia, em frente ao retrato da filha, suspenso sobre um _guéridon_, entre dois grandes jarrões cheios de rosas brancas. Só faltam as velas!... pensou comsigo Argemiro, dando com a vista naquella especie de oratorio.

A sogra, emmagrecida e pallida, chamou-o para seu lado, e antes mesmo de qualquer cumprimento, foi-lhe dizendo:

--Meu filho, de accôrdo com a ultima vontade d'aquella que está alli, despedi hontem a sua governante. Sei que lhe dou um desgosto com isto e lamento-o; mas a minha consciencia impunha-me este acto de salvação para a sua alma e de paz para o espirito amoroso da nossa pobre Maria!

--Eu não a comprehendo... mamãe!

--Argemiro! a minha convivencia nesta casa com essa mulher provou-me que as minhas suspeitas tinham fundamento. Ella ama-o.

Argemiro não conteve um movimento de surpreza:

--É impossivel!

--Antes eu tinha a intuição d'isso; tive depois as provas, toda a certeza. Encontrei-a muitas vezes aqui, olhando para o seu retrato; vejo a ternura com que ella aperta nos braços sua filha, o desvello exaggerado com que trata tudo que diz respeito á sua pessoa e como enrubece ao pronunciar o seu nome. Affirmo-lhe que o ama. Eu nunca me enganei. Certa d'esta verdade, deliberei despedil-a antes da sua chegada, do que não me arrependo, por que era tempo de acabar a comedia, que não podia ser presenceada por minha neta.

--Minha senhora!

--Ah! já não diz minha mãe!... Era ainda... Emfim! peço-lhe desculpa se o offendi.

--Fallemos com calma. Não sei em que lingua hei de dizer, para fazer-me entendido: que nem sequer sei a côr dos olhos d'essa senhora, cujas feições ignoro e cuja voz mal tenho ouvido a distancia! É bonita? é feia? Que me importa! Nunca a vi. Não quero vêl-a. Para mim ella não é uma mulher, é uma alma apenas, que me enche a casa de perfumes, de conforto, de doçura, como nunca tive em minha vida.

--Nem no tempo de Maria?! Era o que faltava ouvir?

--Mas não fallemos do passado, pelo amor de Deus!

--Como não, se a elle está você preso por um juramento?! Nega ter jurado á minha filha, na hora da morte, fidelidade eterna?!

--Não deixei ainda de cumprir tal promessa; mas não teria escrupulo em fazel-o se as condições da minha vida o exigissem. Esse juramento foi sincero, mas mesmo sem sinceridade eu o faria naquelle transe, para adoçar o passamento de minha mulher...

--Quer você dizer com isso que romperá tal juramento...?!

--Sem escrupulo, já disse.

--A religião prohibe-o que o faça!

--Eu não sou religioso.

--Ah! vêem?! elle tambem a ama! Minha pobre filha! Minha pobre filha!

A baroneza estava tremula, ameaçadora. Crescera de estatura, passavam-lhe pelos olhos fulgores de mocidade e de odio.

--Se a religião não lhe impõe o cumprimento do dever, appello ao menos para a sua honra.

Não a terá tambem?!

--A minha honra obriga-me antes a defender essa pobre moça calumniada, do que a manter um voto que já produziu o seu effeito e de que nesta hora me liberto.

A baroneza recuara espavorida, com olhos de assombro. O marido sumia-se, encolhendo-se todo para dentro de si mesmo. A velha voltou-se afflicta para Assumpção, como a pedir soccorro. Seria possivel que elle, padre, testemunha de tudo, não viesse em seu auxilio?!

Elle comprehendeu-a e encheu-se de dó, ao mesmo tempo que dizia:

--Argemiro tem razão; a sua honra obriga-o a defender essa moça, muito mais digna de consideração que de desconfiança.

Foi ainda influenciada por paixões terrenas que sua filha exigiu do marido essa promessa. Desprendida do mundo, a sua alma tornou-se toda tolerancia e doçura, e seria offendel-a imaginar que os sacrificios d'aquelles a quem amou lhe sejam caros...

--Sacrificios!

--Ao contrario; no ceu, só será completo o seu goso se na terra vir felizes aquelles que a choraram. Creia, minha amiga, a pessoa que a senhora condemna com tamanha injustiça é de uma perfeição moral difficil de attingir.

Eu respondo por ella como se fôra minha irmã.

--Detesto-a!

--Ha de estimal-a um dia.

--Nunca!

--Bastará que eu lhe conte isto:

A baroneza abandonava-se, com desanimo, sentindo-se muito só. Os outros esperavam, voltados para Assumpção. Elle começou:

--Esta moça, que toda a gente recebeu com certa malignidade, de que eu não fui isento, exerce o encargo de governante d'esta casa para manter uma velha paralytica e um velho cego, verdadeiros cacos humanos, que ella visita todas as quarta-feiras piedosamente e de quem é o amparo. Filha unica de um advogado brasileiro, Constantino Galba e neta materna do General Vitalino Ortiz, logo que perdeu a mãe, foi mandada a educar num dos melhores collegios da França, onde viveu até que, por morte do pae, ficando quasi reduzida á miseria, voltou ao Brasil.

Aqui, por toda familia viu-se entre dois criados, uma velha que já fôra ama do pae, e o marido, antigo camarada do avô. Bens, só tinha uma casinhola velha em que se accommodou com o casal dos derradeiros amigos. Encararam os tres a vida com animo. O homem trabalhava ainda e viveram quasi sete annos dos recursos d'esse trabalho e de outros, incertos, de D. Alice: costuras... pinturas... bordados... Afinal lá chegou um dia em que o velho teve de sahir de scena. Cegou. Trabalhara demais. Com o desgosto e outras fadigas da edade, fica-lhe a mulher paralytica; e eis a nossa D. Alice entre esses dois seres de redobrado peso. Redobrou tambem ella de actividade nos trabalhos manuaes... propoz-se a dar lições... mas não lhe appareciam discipulos; os trabalhos, mal remunerados, não matavam a fome aos seus velhos...

Foi por essa occasião que appareceu no _Jornal do Commercio_ um annuncio offerecendo um bom ordenado a uma senhora para governar a casa de um viuvo. Ella não hesitou. Os seus velhos teriam pão, ella um pouco mais de descanso... A filha do advogado, a neta do general, sujeitou-se a esse emprego para matar a fome aos seus criados.

A baroneza olhava para Assumpção, interrogativamente. Seria verdade tudo aquillo?...

Elle continuava:

--A pobreza apura os dotes naturaes da creatura; ella trouxe para aqui a experiencia do sacrificio... Ouçam agora: quando leva dinheiro para casa, o velho, zeloso, apalpa-lhe o pescoço, os pulsos, os dedos, a vêr se ella tem joias... A velha acha tudo pouco! Elle préga-lhe moral... desconfia... a outra queixa-se de necessidades... Ella socega a um, promette á outra e volta para os sarcasmos d'esta situação e para as pirracinhas do Feliciano. Senhora baroneza! Isto que eu lhe digo é a verdade. Eu vi.

A baroneza nem pestanejava. Sumira-se-lhe a côr dos beiços. Estava livida.

Argemiro curvou-se todo para o amigo:

--Viste?

--Vi! Um dia fui chamado a levar soccorros espirituaes a um doente. Era a paralytica. Foi junto á sua cadeira de rodas, que o marido me contou toda a historia de D. Alice. Conheciam-me de nome e preferiram-me a outro padre qualquer, exactamente para me fallarem d'ella, e pediram-me que a protegesse! O velho tinha medo; conhecia as tentações do mundo e a fraqueza das mulheres... queria ouvir da minha bocca palavras que o socegassem. Soceguei-o. No dia seguinte voltei, a saber da paralytica; tinha melhorado. Estava eu lá, quando, percebendo os passos de D. Alice, os velhos supplicaram-me que me occultasse. Ella ficaria vexada se me visse alli; occultei-me. Foi do meu esconderijo que assisti á scena de humilhações a que me referi. Não tinham bastado as minhas affirmações; o cego apalpou nervosamente os dedos, os pulsos, as orelhas da moça, á procura da joia compromettedora... A paralytica pediu-lhe goloseimas. Enjoara tudo. Morria de fraqueza...

Agora, senhora baroneza, creio que não preciso dizer mais nada...

O barão levantou-se:

--Luiza, não te parece que devemos pedir perdão a essa senhora?

Mas a mulher não respondeu. Parecia petrificada no seu logar, com os olhos fitos no retrato mudo da filha.

XXI

Chegára a hora da prestação de contas. Argemiro escrevia á secretária, quando Alice entrou na sala. Como da primeira vez que se fallaram, ella ficava contra a claridade, encolhida no seu vestido de lã barata, escura, e com o véo descido até ao queixo.

Estava prompta para sahir; esperava ordens...

Argemiro remexeu nos papeis. Abriu um caderninho encarnado, que a moça reconheceu de longe. Era o caderninho dos assentamentos do mez, que ella lhe mandára sommado e com saldo.

Sem saber porque, Argemiro sentia-se embaraçado, e foi com certa timidez que convidou a moça a sentar-se.

--Estou bem...

--Não; sente-se.

--Obrigada...

Ella parecia querer ficar em pé, prompta para fugir!

Elle gaguejou:

--Então...

Evidentemente não sabia como principiar.

De repente:

--Os seus cadernos estão numa ordem admiravel. Realmente eu nunca imaginei que uma senhora entendesse tanto de contas... é um guarda-livros! Comtudo... parece-me encontrar aqui um pequeno engano...

Alice approximou-se, com um arrepiozinho de susto.

Elle, indicando-lhe uma cadeira, a seu lado:

--Tenha a bondade de sommar...

Offereceu-lhe a penna, que ella mesma molhou no tinteiro.

Estavam sós. A casa em silencio.

Alice sentou-se, com afflicta curiosidade, e levantando o véo baixou os olhos para o caderno, recomeçando a sommar as parcellas indicadas. Entretanto, elle contemplava-a pela primeira vez. Era mais bonita do que pensava: tinha a pelle suave, os olhos pestanudos e o cabello escuro e abundante...

A mão esguia, branca, movia-se sobre o papel, num leve tremor nervoso.

Argemiro pensava:

«Fui um estupido; eu deveria ter apressado este instante. Ella é deliciosa! E aspirava num deleite o aroma que vinha d'ella, aquelle cheiro de cidrilha, de malva, ou flôr de fructa e que constituia já uma das suas necessidades.

Alice córava intensamente. Não atinava com o erro!

--Não acho... confessou por fim.

--Entretanto, elle não é pequeno...

Alice levantou com espanto os olhos para Argemiro; elle fixou-os com ternura. Estremeceram ambos.

Ella tornou a baixar a vista para o caderno. Letras e cifras dançavam estonteadoramente. Argemiro percebeu-lhe a commoção. Bem dissera a sogra! E com alegria:

--Quer que lhe aponte o engano?

--Se faz favor...

--Está aqui!

Argemiro apontou para a verba que representava o ordenado da moça, apressando-se em continuar:

--A senhora reduziu esta quantia...

--Foi o que nós combinámos!...

--Combinámos o dobro.

--Affirmo-lhe que não.

--Devo-lhe muito...

--Não me deve nada.

--Tel-a-ei offendido?

--Não...

Estava elle outra vez encalhado. Nem para traz nem para deante, sem saber que dizer, todo olhos para o rosto, que já desapparecia sob o véozinho bordado.

--D. Alice!

A moça respondeu com um olhar timido.

Elle calou-se. Parecia-lhe impossivel aquella estupidez!

--Então a senhora vae-se mesmo embora...

--É preciso.

--Se Gloria lhe pedisse para ficar... Ella é tão sua amiga...

--Nem assim...

Argemiro levantou-se e disse com voz grave e resoluta:

--Tem razão. O seu logar não é aqui, agora que a vi e a conheço. Só lhe peço uma coisa: que me consinta ir amanhã á sua casa, em companhia de minha filha... pedir-lhe perdão...

Alice esboçou um gesto de protesto. Receava chorar se fallasse.

Elle approximou-se e ficaram ambos calados, adivinhando-se atravéz do silencio, até que Maria da Gloria gritou da porta:

--D. Alice! o Feliciano já levou a sua mala!

Dois mezes depois, numa linda manhã, os barões assistiram ao casamento de Argemiro e de Alice, feito por Assumpção, testemunhado por Adolpho Caldas, Telles e D. Sophia.

A ceremonia foi simples e sem lagrimas. A baroneza conteve-se. Muito pallida, d'entre as sedas negras do vestido, ella adquirira pelo esforço energico da vontade, uma rigidez de estatua. Nem um musculo das faces lhe tremia. Com as mãos pousadas nos hombros da neta, ella parecia olhar para tudo como do alto de uma torre, imperturbavelmente.

Á tarde Assumpção foi visital-a. Tinham voltado á chacara do suburbio. Gloria correu a recebel-o no portão. Estava decidido que ella viveria alli uns mezes, para consolar a avó. Achava agora tudo tão bonito! O avô lá andava no horto, verificando o estado das suas plantas, alegre como um patinho n'agua! Ella estava por alli á cata de mangas maduras...

Assumpção acariciou-lhe a cabeça e entrou sózinho na saleta da baroneza. Ella alli estava no seu cantinho costumado, febril, com o corpo alquebrado, descahido, os olhos avermelhados entre as palpebras empapuçadas. Vendo-o, chamou-o a si; e segurando-lhe as mãos, numa queixa soluçada:

--Minha filha tornou a morrer hoje, Assumpção; agora está só commigo, e eu já vou perdendo as forças para chorar...

--Não a chorará sózinha... murmurou elle quasi em segredo, córando.

Ella voltou-se, e contemplou-o num mixto de esperança e de assombro.

--Você?...

Elle olhou silenciosamente para a batina, como para explicar tudo.

Transfigurada, num movimento inconsciente, alegre, ella apertou-o nos braços e exclamou:

--Meu filho!

FIM