A Intrusa

Part 12

Chapter 123,860 wordsPublic domain

--Eu já tinha pensado nisso, respondeu a menina. Ainda hontem D. Alice me explicou, no jardim lá de casa, a vida d'esses bichinhos. Tudo no mundo tem interesse, não é verdade? Eu tinha raiva das abelhas desde aquelle dia, lembra-se, em que fui picada no pescoço por uma d'este tamanho! Tive uma dôr! Pois agora já até quero bem ás abelhas... O caso é haver quem nos explique as coisas!

--Que te explicou D. Alice a respeito?

--Que as abelhas frequentam as flôres para chupar-lhes o mel, transportando o pollen de umas para as outras e...

--E explicou-te tambem o que era pollen?

--Certamente! com uma flôr na mão. Uma açucena!

--Conta tudo!

--Numa lição só não se póde aprender muito! Assim mesmo eu percebo bem D. Alice, exactamente porque ella não ensina,--conversa. Falou das abelhas... falou das mariposas, disse historias que eu não sabia e de que gostei... Prometteu levar-me á Tijuca para vêr borboletas azues muito grandes, que ha lá... Mas vovó... creio que não me deixará ir só com ella... Se o senhor fosse!

--Irei.

Gloria bateu as palmas com alegria, mas de repente tornou-se séria, olhando para uma roseira completamente coberta de flôres.

--Queres um ramo?

--Não. A ultima vez que fomos ao cemiterio encontrámos uma porção d'aquellas rosas no tumulo da mamãe... Foi o senhor! E vovó pensou que tivesse sido papae!...

--Foi teu pae... levou-as d'aqui,... mas não lhe digas nada, que elle não gosta que se fale nisso! Olha para o mar!

--O seu jardim é muito pequenino!

--Basta para mim... olha este rainunculo...

Emquanto Assumpção fazia Gloria vêr as suas flôres, D. Sophia conversava com Alice. Mandara subir os pequenitos. A moça puzera um nos joelhos e annelava os cabellos do outro carinhosamente.

Que se dizia? Menos do que se adivinhava. A sympathia nascera logo entre ambas. Assumpção pousou por um instante os olhos nellas e desviou-os para além, para o infinito... Tinha sido aquelle o sonho da mãe: uma mulher moça a seu lado, cercada de crianças lindas...

A tarde morria afogada em azul. Já no ceu brilhava a meia lua, e uma neblina prateada vinha da barra, cobrindo o mar.

--É tarde, Gloria...

--Adeus!

Nessa noite, ao chá, D. Sophia disse ao filho:

--Aconselha Argemiro a casar-se com aquella moça. Ella fará a sua felicidade.

E depois, baixo e num suspiro:

--Já que não póde fazer a tua.

XVII

A praia de Botafogo regorgitava: era dia de regatas. Por todo o cáes o povo apinhado olhava para o mar, coalhado de barcas, palpitante de luz. Nas archibancadas, á beira d'agua, as _toilettes_ claras das moças despertavam a idéa de grandes flôres variegadas, desabrochadas ao sol, e, na rua, carros e bonds arrastavam-se cheios, vagarosos, por entre a multidão. Mas a belleza era o mar, cuja superficie apenas enrugada e de um azul violento, toda se paletava de escaminhas de ouro. Andavam pelo terceiro pareo. Baleeiras velozes, bem remadas, demandavam as balisas na ancia da victoria; outras, em repouso, deixavam-se balouçar pela agua, mollemente, emquanto lá no alto as gaivotas espalmavam as azas, tranquillamente.

--Bellos rapazes! observou Adolpho Caldas, olhando com enthusiasmo para a tripulação das baleeiras.

Arlindo Telles accenou com a cabeça que sim, e chupou com mais força e maior satisfação o seu havana.

Caldas continuava a meia voz:

--Contempla áquelles biceps e córa! Homem da cidade, da manhosa politica e das sobrecasacas bem feitas, não te envergonhas dos teus braços deante d'áquelles?...

--Se eu discutisse a murros...

--Quanto mais vigoroso é o braço, mais franca é a lingua!... Digo-te por mim, que as minhas banhas sentem-se humilhadas, offendidas, por áquelles musculos. A nossa raça salva-se. Ainda bem para os paes de familia... Vê o modo energico e bem rythmado por que os remos d'esta baleeira vêm golpeando a agua...

Telles soprou a baforada do seu charuto aromatico, e respondeu:

--Prefiro olhar para o pavilhão e as archibancadas... Se os rapazes são fortes, as mulheres são bonitas, e eu guardo para ellas, em todos os tempos e logares, a minha predilecção. Hum! isto hoje está _chic_... Se as galerias da Camara tivessem esta sociedade... eu falaria todos os dias!...

--Vês que as mulheres dão mais apreço ao musculo que ao verbo... Empresta-me o binoculo. Dança-se nas barcas...

--D. Maria Helena está no pavilhão... tambem lá estão as Tavares... a Chiquita Maia... A Pedrosa e a filha. Precisamos cumprimental-as.

--Depois... Deixa-me beber saude pelos olhos. Faze outro tanto, que precisamos ambos de lavar a alma...

--Chegou agora a Joanninha Mendes...

--E _ella_? indagou Adolpho sem desassestar o binoculo da barca, onde se dançava.

--Ainda a não vi... mas ha de vir!

--Lá passam os vermelhos a deanteira!

--Não... por emquanto ainda são os azues...

--Os demonios têm força... Agora!

--Bravo!

--Viva!

--Bravo! gritaram muitas vozes a um tempo, numa explosão de enthusiasmo. Ao lado d'elles um moço gordo berrava, agitando o chapeu. Telles sacudiu a cinza do charuto da lapella da sua sobrecasaca avelã, onde sorria a graça de uma orchidea lilaz, e voltou-se todo para o pavilhão.

Sinhá debruçava-se no pavilhão do jury, com as faces afogueadas e o olhar chamejante. A seu lado, a mãe lambiscava _bonbons_ e as Moreiras, do Cattete, sacudiam os lenços com frenesi:

--É o Boqueirão!

--É o Flamengo!

--Não...

--É!

--Bravo!

--Bravo!

Os nomes dos clubs andavam no ar, como as gaivotas. Afinal, um d'elles ganhou o pareo. Rompeu a musica e a baleeira victoriosa veio receber as saudações, que rebentavam em palmas por todo o cáes, como uma onda. Ao passar pelo pavilhão, Sinhá, toda debruçada, vermelha como uma rosa, atirou-lhe o seu ramo de violetas. Aparou-o no ar um rapaz loiro, batido de sol, de rija musculatura e olhos brilhantes. Trocaram um sorriso luminoso.

--A mocidade!... a mocidade! É isto... um aroma que atravessa o espaço... um relampago que illumina a vida, para deixar saudades... Este sim! commentava Caldas comsigo, lembrando-se do Argemiro; e concluiu: Agora a Sinhá escolheu bem... isto é, não escolheu, achou. Aquillo é amor! E dirigindo-se ao Telles:--Vamos agora cumprimentar as senhoras, com escala pelo «buffet». Estou com sede.

O deputado acariciava o queixo nú com a mão gorducha, em que rutilava um rubi. Seus olhos vivos, de pestanas curtas, furavam por entre cabeças e hombros, á busca de alguem.

Á roda commentavam o pareo. Havia descontentes; moças indignadas, outras quasi chorosas, rapazes amuados. Tinham perdido. Mas outros e outras gesticulavam com alegria por aquelle triumpho, que dava mais uma medalha ao club da sua sympathia.

Falava-se alto nas archibancadas. Os sons da banda de marinheiros no _Toureiro da Carmen_, não permittiam segredos.

Em toda a linha do cáes os guarda-sóes de côres differentes, lembravam uma vegetação movediça de cogumelos fantasticos, desde os pequeninos, das crianças que assistiam á festa sentadas no paredão, com o olhar estúpido para o quadro polichromo, até aos grandes, protectores de velhos prudentes e amigos da sombra.

Corria uma aragem forte. Agitavam-se no ar os galhardetes vistosos e as bambinellas do pavilhão central, como a acenar a toda gente que fosse para alli, gosar aquelle quadro de luz!

O deputado impacientava-se. Adolpho parecia grudado ao «buffet», comendo sandwiches e bebericando cerveja, no meio de um grupo de remadores muito adulados pela admiração dos outros. Trocavam-se brindes apressados; e na alegria, até um velhote pallido e encartolado trauteava a _Carmen_, acompanhando as sonoridades da banda.

O intervallo acabava-se. Ouviu-se o estampido do signal de partida.

Voltaram-se para o mar.

--Lá vem _ella_! Exclamou Telles a meia voz, sobresaltado.

--Um ibisco! observou Adolpho, olhando para uma lancha que se approximava do cáes.

O ibisco era a madame Senra, toda de escarlate, com os bandós doirados rebrilhando sob as papoilas do chapeu. Ella agitava a sombrinha vermelha, rindo-se para o Telles, que se precipitou alvoroçado e inconveniente para a receber no desembarque, sem attenção aos bigodes retorcidos do Senra e á escolta de moças que a acompanhavam.

Caldas imaginou:

«O patife do Telles vae passar uma hora feliz, uma hora ligeira, d'essas que suspendem a vida! Porque será que as mulheres bonitas dão geralmente preferencia aos banaes? Esta é linda. Uma flôr!... Sempre que a vejo sinto os meus pensamentos transformarem-se em abelhas... ella mesma deve sentir-se como que nimbada por um adejo de azas... volupia dos olhos, tentados pela sua graça... Não se me dava!... Que lhe dirá o idiota do Telles? Sua Excellencia alcançará alli o que não alcança na Camara: chegar ao fim?... Pois é bem boa esta cerveja, e vou tomar mais um copo... Talvez chegue... sim... ella não é rigida... uma flôr»!

A Pedrosa vira-o agora. Cumprimentava-o de longe. Que maçada! era preciso ir dizer adeuzinho á Pedrosa!

«O amor faz falta, continuava a meditar Adolpho; desinteressa a gente de tudo... É um abandono, uma estupidez!»

Acotevelando o povo, elle sahiu do «buffet» e entrou no pavilhão central, ao mesmo tempo que uma cesta de flôres e uma bandeija de _bonbons_.

--Entrei num momento sympathico... concluiu elle para si. E foi cumprimentar as senhoras. Lá fóra renovava-se a scena:

--Bravo!

--Viva Icarahy!

--Viva... Vasco da Gama!

--Viva... a!

Voavam as flamulas e os galhardetes; outra baleeira veio passear o seu triumpho, beirando o cáes, onde a multidão estrondeava em palmas.

Na lindeza do ceu, de um azul carregado e limpido, resaltavam as côres maravilhosamente. Os perfis dos morros, rochosos uns, verdejantes outros, destacavam-se em todas as suas linhas, com surprehendentes minucias. Nas archibancadas as linhas das mulheres eram como orlas de flôres de matiz viçoso que as ondas tivessem deposto na terra maravilhada.

--O _sport_ é a alma do Rio, affirmava a Pedrosa a uma amiga, no momento da approximação de Adolpho. Veja que enthusiasmo!

Decididamente, elle veio substituir os bailes... hoje dança-se pouco.

O remo e o _foot-ball_ roubam os pares ás moças... não é verdade, dr. Caldas?

--Protestando contra o titulo, confirmo, como não podia deixar de confirmar...

--Protesta por modestia?...

--Por consciencia...

--Outros o usam com menos justiça... eu teimarei em chamal-o doutor... Porque não nos tem apparecido?

Elle desculpou-se, e, como se tivessem aconchegado mais as pessoas do grupo, deixou-se ficar, envolvido nos perfumes dos vestidos bonitos que o cercavam. Sinhá, sempre voltada para o mar, não perdia de vista uma baleeira onde um rapaz loiro se condecorára com um ramo de violetas... A mãe fallava, fallava sempre, semeando sentenças, no seu palavreado animado e imperativo.

O marido não a acompanhara. Lá tinha tempo para se divertir!

Os altos negocios do Estado suffocavam-n'o; vivia numa rêde de conferencias, projectos e estudos de responsabilidade. Se todos tivessem a sua sinceridade!

--Faziam-lhe justiça... observaram.

--Qual! os sacrificios eram de tal ordem, que não transpareciam completamente cá fóra... Um verdadeiro escravo das suas idéas, o marido! A politica é despotica... o que lhe valia era não ter ciumes... De resto, concluia ella, para dizer algo em ar de sentença: no amor, quando o ciume entra pela porta, a confiança salta pela janella! _Em todo o sentido_,--e sublinhava com o olhar a phrase--nunca deixára de confiar no marido.

Cultivava a illusão, se é que era illusão, como quem cultiva uma plantinha rara, de flôres miraculosas. E assegurava:--Está nisso o segredo da felicidade feminina!

As moças nem a ouviam, inclinadas sobre os peitoris, á espera!

Era agora o pareo do Campeonato. Crescia o enthusiasmo. Quem ganharia a taça de ouro?

Soou o tiro, signal da partida.

Arfavam as bambinellas de renda do pavilhão e as tiras garrulas das bandeirolas ao sopro salitrado da aragem. Um rosario de marrequinhas desfiou-se no ar com o susto. Nas archibancadas os leques e as fitas multicores agitavam-se numa palpitação violenta.

--Acceita este raminho de violetas, Sinhá? Disse Caldas com malicia.

O seu cahiu ao mar...

--Acceito, com a condição de poder dar a este o mesmo destino que dei ao outro...

Para tomar as flôres da mão de Adolpho, Sinhá voltou-se e relanceou depois o olhar em torno do pavilhão.

--Olhe quem está alli!... disse ella á mãe, baixinho, apontando com os olhos um certo ponto do cáes.

A mãe seguiu-lhe a direcção e tambem Adolpho, que lhe não perdera os movimentos.

Padre Assumpção estava de pé, e unida á sua murcha batina preta, Gloria esticava o pescoço para vêr bem o mar.

A Pedrosa trocou um olhar com a filha e voltou as costas ao padre. Sinhá demorou-se um pouco a contemplar com sympathia o perfil incorrecto de Gloria e o seu vestidinho de fustão branco sem laços. Depois, voltou-se para a bahia: calara-se a musica, e as baleeiras cortavam a agua céleres, vigiadas pelas barcas e por escaleres admiravelmente tripulados.

«A mãe não se esqueceu... mas a filha é já indifferente ao Argemiro... Amores novos...»

E já as lanchas guinchavam atordoadoramente, quando Adolpho metteu os hombros por entre a multidão.

XVIII

A pouco e pouco, autorizada pela ausencia do genro, a baroneza tomara posse da casa.

O marido intervinha ás vezes, aconselhando que deixasse á outra todas as determinações, ao que ella respondia--se valêra a pena ter sahido da chacara para se pôr á tutela da inimiga!

--Não, meu velho, tem paciencia, eu estou de sentinella á ultima vontade de minha filha. Elle jurou: terá de cumprir o juramento. Esta mulher é mais perigosa do que eu pensei, porque é tambem hypocrita e sabe conquistar pelo geito toda a gente. Menos a mim! Gloria pertence-lhe. Já me tem feito chorar, a filha da minha filha, por quem tanto me desvelei sempre! Até parece que já lhe vou perdendo o amor...

Não percebes o calculo?

--Não percebo nada. A rapariga trata como pode de ganhar a sua vida. O que tu fazes, filha, não é digno de ti. Inventaste uma paixão, onde talvez não exista nem sympathia, e vives a debater-te deante de fantasmas. A moça é fina; não é do estofo commum das governantes, isso é certo... Mas sabes lá, tu que tens vivido sem necessidades, a que sacrificios obriga a pobreza?

--Não faltam officios!

--Mas sobejam concorrentes... Eu sei o que vae por ahi! Olha: vou apontar-te um exemplo: o Dr. Theobaldo Ribas. Lembras-te? Um engenheiro distinto! Está com um emprego secundario numa companhia de empreitadas; a familia habita numa casinhola de porta e janella na Cidade Nova e póde-se adivinhar o que se passa lá dentro, entre oito crianças fracas e o casal sem recursos... Eu, francamente, não sei mesmo como esta pobre moça ainda te atura. Pelas desfeitas que lhe tens feito, se fosse outra...

--Ter-se-ia ido embora. É o que eu digo. Não tem brio. Mas o meu partido está tomado: custe o que custar e seja como fôr, hei de pol-a fóra d'aqui.

--Não faças isso!

--Ora essa! por que não?

--Não estás em tua casa!

--Estou na casa de minha filha.

--Para o que te deu! Tua filha só existe na tua imaginação. Capacita-te d'isso, pelo amor de Deus! É um caso de obstinação incomprehensivel, em ti, que foste sempre tão criteriosa. Acalma-te... e voltemos para a nossa chacara. Eu estou farto de cidade até aqui! E apontava para a calva.

--Voltaremos... deixa estar... eu tambem já não posso mais... A minha vida é um inferno... Todos esquecem, todos gosam, só eu vivo acorrentada ao passado, e revendo a todos os instantes a scena horrivel da morte de Maria! Está aqui tudo, tudo, estampado em meus olhos, enterrado no meu peito. A minha vida parou naquella hora! Não vejo, não ouço, não sei de mais nada. Os annos e os mezes têm corrido para mim ignorados. A minha existencia é a existencia da minha filha. O coração d'ella ficou dentro do meu. É o que eu sinto! Hei de defendel-o até ao ultimo extremo! Ás vezes, tambem eu acredito na loucura... Ao principio, emquanto Gloria era só minha, sentia até certa suavidade em conviver assim com a minha morta... Nota que já não digo: a nossa! mas agora, agora que a inimiga, a intrusa, me rouba tambem o amor da minha neta, sinto dentro de mim um clamor de choro que não posso suffocar, por mais que me esforce! Sou uma abandonada.

--Gloria adora-te, como sempre...

--Foge-me... esquiva-se... acha a minha companhia monotona... A _outra_ conta-lhe historias, mostra-lhe gravuras, saracoteia-se com ella pelas ruas, até já a surprendi pulando na corda com a menina, como se fossem duas collegas, da mesma edade! As crianças gostam de alegria. É natural que a minha Gloria a prefira a mim! Tenho ciumes d'ella, sim, tenho muitos ciumes... E inda queres que a poupe e que me deixe roubar sem um protesto. Nunca!

--Consulta um medico... a tua excitação é doentia...

--Já me tardava! Um medico, e agua de flôr de laranjeira! A _outra_ tambem te conquistou, a ti. Se te mandar dançar sobre a sepultura de Maria... tu dançarás?

--Talvez!

--Ainda o confessas!

--Mas, filha, que queres que eu faça?! Tenho pena de ti, mas não te posso dar razão. Quizeste vir, vim. Consumme-se o sacrificio. Faze o que entenderes, comtanto que voltemos depressa para a chacara. Consente, porém, que eu lamente a _outra_, como tu lhe chamas, e que a ache digna de maiores considerações. Agora deixa-me prevenir-te de que o Argemiro se cançou do desterro e volta ámanhã.

--Escreveu-te?

--Telegraphou a D. Alice, pedindo-lhe que mandasse o Feliciano esperal-o á Central.

--Ora, vê tu! telegraphou á _outra_, em vez de o fazer a ti, como era natural. Queres mais claro?!

--Eu sou hospede. É ella quem põe e dispõe aqui.

--É a dona da casa!

--Tal qual.

--E achas isso toleravel?

--Perfeitamente. É paga para isso.

--Elle deve chegar?...

--Ámanhã, ás oito da manhã.

--São?...

--Tres horas da tarde.

--Tão pouco tempo!

--Achas pouco?! repara que ha um mez e dois dias que elle partiu; e para quem conhece os hábitos do Argemiro, faz espantar tamanha demora...

--Fugiu de nós...

--Já pensei nisso...

--E eu que o amava como filho!

--E ainda lhe queres muito bem.

--Não...

--Lembras-te de ser sogra, quando já não o és...

--Sou.

--Em vida de Maria o teu genro era para ti um deus!

--Porque fazia a sua felicidade. Mas agora trahiu-a... Vamos lá para baixo. Onde estará Gloria mettida! Ámanhã... elle volta ámanhã... e eu tenho sido tão cobarde... não sei o que me dá, quando vejo aquella mulher! Delambida. E em baixo d'aquella pelle macia ella tem uma alma de ferro. É dura.

--O Argemiro não ha de gostar quando souber que nunca a admittimos á nossa mesa...

--Ella ia á d'elle, porventura?

--É differente.

--Ora...

--Tambem não lhe agradará a confiança exaggerada que dás ao Feliciano...

--É cria de casa...

--É um velhaco.

--Tambem te desagrada?

--Completamente.

--Pobre rapaz... Prouvera a Deus que a _outra_ fosse tão sincera...

O barão limitou-se a sorrir, com escarneo e tristeza.

Desceram.

A baroneza gritou:

--Feliciano! onde está minha neta?

--No quarto de D. Alice...

--Vá chamal-a.

E depois, como para si: a casa não é tão pequenina assim; o diabinho da menina mette-se naquelle quarto maldito... para que?!

O barão desceu ao jardim, calado, sem disfarçar o seu aborrecimento e um certo pavor. Começava a scena...

Feliciano batia com os nós dos dedos na porta da governante.

--D. Gloria?

--Que é? respondeu ella de dentro.

--Sua avó está chamando a senhora...

--Diga a vovó que já vou. Estou desenhando!

A baroneza exasperava-se, passeando na sala de jantar. E como a menina não apparecesse logo, ella gritou:

--Feliciano!

--Senhora?...

--Então?

O negro sorriu malevolamente:

--Estão conversando...

--Bata outra vez! Diga que venha já! Desaforo!

Feliciano voltou a bater, maciamente, sem impaciencia.

--D. Gloria?

--Já vou! Diga a vovó que espere só um bocadinho...

Era demais! aquillo precisava ter um fim. Até a neta lhe desobedecia! Sim, senhores! A obra da outra estava completa! A não ser o negro, todos conspiravam contra ella. Até o marido... até a filha da sua filha!

Pela porta aberta da saleta ella via na parede fronteira o retrato da filha, muito desbotado, esvaindo-se, cercado por uma moldura de ébano.

«Emquanto eu viver, meu amor, será lembrada a tua ultima vontade... não me esqueci; eu vivo só para a tua memorial...» Pensou ella. E depois, por entre dentes:

--Parece que ella está fazendo de proposito... mas commigo não se brinca!

Feliciano rondava a scena, disfarçadamente, polindo com um trapo de camurça os trastes já polidos. Fôra por manha que entreabrira a porta da sala, quasi sempre fechada, bem em frente ao retrato da morta e, sem parecer olhar, elle vigiava todos os movimentos da baroneza. Ella tremia de raiva por não vêr chegar a menina.

--Ora já se viu uma coisa assim! Querem maior provocação! E apontando para o relogio: ha mais de cinco minutos! Isto não póde continuar... Está bonito!

E imperativamente, furiosamente:

--Feliciano?!

--Senhora?

Apezar da sua mascara de seriedade, percebia-se, que o negro estava por dentro contentissimo.

--Diga a D. Gloria, uma vez por todas, que venha já ou que eu vou buscal-a pelas orelhas!

Feliciano quiz prolongar aquelle desespero e arrastou os movimentos, calculando o tempo para maior accumulação de odio; mas a baroneza, impaciente, passou-lhe á dianteira e caminhou pelo corredor para o quarto da governante.

--É agora! pensou o negro, encostando-se a um humbral, para vêr.

Gloria, já de pé, punha em ordem a sua pasta de desenhos, e Alice cosia perto da janella, quando a baroneza, empurrando com força a porta do quarto, apenas encostada, entrou, livida de raiva, no aposento.

--Vovó!

Alice levantou-se, perplexa.

--Já, lá para dentro! não ouviu? Ha que tempos a mandei chamar e a senhora é assim que obedece ás minhas ordens?! Quem manda aqui? Sou eu, ou é aquella mulher? Diga!

--Vovó... eu...

--Nem uma desculpa! Não quero ouvir mais nada! Tudo é mentira! Já; lá para dentro! e não me torne a pôr os pés neste quarto.

--Vovó...

--Cale a bocca! ande!... ande!

E, pela primeira vez em sua vida, a baroneza empurrou com as mãos fechadas, brutalmente, o corpo da neta.

--Saia d'aqui! já disse! Rode depressa, antes que eu perca a cabeça! Fuja! que está-me ficando perdida pelas más companhias!

E, sem interromper o tom de furia, com os olhos vermelhos, a papada tremula, voltou-se para Alice:

--Quanto á senhora, não é precisa para nada aqui. Se fosse outra teria comprehendido que já é demais. Eu sou sufficiente para tomar conta da casa de minha filha. Veja quanto se lhe deve e retire-se hoje mesmo.

Alice, com os olhos engrandecidos pelo espanto e pela lividez nervosa das faces, respondeu, forçando a calma:

--Não conheço a senhora sua filha.

--É demais!

--Considero a casa como do seu genro e só elle poderá dispensar os meus serviços.

--Isso é um atrevimento!

--É uma resposta.

--Bem me diziam que a senhora não era apenas uma criada, mas tambem a amante de Argemiro!

--Enganaram-na. Nem uma, nem outra coisa.

--Se fosse outra, eu não precisaria dizer tanto, para que já estivesse lá fóra! Capacito-me de que realmente a sua companhia é prejudicial á minha neta e não hesito em pôl-a na rua. Saia!

Alice não respondeu, fixando os olhos no rosto transtornado da baroneza. E depois, com raiva subjugada:

--E se eu não quizer?...

--Sahirá á força. De mais a mais, é cynica!

--Sou honesta. Estou de guarda a um logar que me confiaram e que deffenderei até á morte. Seu genro chega ámanhã. Partirei depois d'elle ter entrado nesta casa. Antes, não! não, não e não!

--Ah, a amaldiçoada! Imagina talvez que Argemiro a prefira a mim! Exclamou a baroneza com uma gargalhada insultuosa.

Alice mordeu os beiços para não responder: todo o corpo lhe tremia, como num accesso de febre.

Gloria corrêra para o quintal. E era como se a casa se desmoronasse sobre a sua cabeça. Que razão teria a avó para querer tanto mal á D. Alice? Que iria succeder?! A quem gritar por socorro?