A India Portugueza Conferencia feita em 16 de março de 1908

Chapter 3

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Mas o mal está feito e não haverá coragem para o remediar! Apezar d'isso não posso deixar de dizer, que me parece isto demasiado apego a antigas regalias, mas visto que as temos, julgo que d'ellas poderiamos tirar melhor proveito, tomando-as como base de novas negociações com a Santa Sé, para regularisarmos por exemplo a nossa Egreja africana, estabelecendo-lhe uma acção mais definida, uma jurisdicção mais completa, o que alliado a uma sabia e bem orientada propaganda, nos daria maiores e melhores resultados, quer debaixo do ponto de vista da civilisação, quer debaixo do ponto de vista politico e patriotico, servindo de grande auxiliar á fixação da nossa soberania. Não seria assim aquella verba, embora na mesma orientação evangelica, mais proveitosamente gasta? Creio que sim, como tambem creio que Roma se daria por satisfeita.

[Ilustração: Rua de Malacca (Pangim)]

A outra é a administração militar. Não se explica realmente, nem será facil encontrar a razão porque o Estado da India tem necessidade d'uma organisação militar, que absorve 410 contos ou sejam quasi 50% da sua receita, tendo de accrescentar ainda a esta verba mais 100 contos em media, que a metropole paga em passagens e ainda outra importantissima, proveniente dos adeantamentos para fardamento. Vejamos como esta apparece. O serviço obrigatorio nas colonias é de dois annos, no fim dos quaes as forças teem de ser rendidas. Cada vez que é mandada uma expedição, fardam-se e equipam-se convenientemente os soldados que a compõem, sendo tudo pago pela metropole, por operações de thesouraria, debaixo da rubrica de _adeantamentos_, por isso que os soldados deverão descontar no pret as respectivas importancias. Acontece, porém, que no decorrer dos dois annos, veem vindo para o reino muitas praças doentes, que teem baixa e aquellas que regressam no fim do tempo, em geral, não tem concluido o pagamento do que lhe foi adeantado. D'esta fórma não entra nos cofres do estado a quantia que de lá saiu, perdendo o thesouro a differença que sobe a contos de réis. Eis os resultados que dá a actual organisação militar das colonias. Não concordo com ella, em geral, mas muito menos com a parte relativa á India Portugueza, pois a julgo prejudicial não só para a colonia financeiramente, como acabo de mostrar, mas até para a propria força militar.

Pois que? nós que tanto elogiamos o que no estrangeiro se faz, nós que tanto imitamos o que outros organisam, tendo ali ao pé da porta uma nação que tão sabiamente administra um enorme paiz, em tudo parecido com o pequeno retalho que nos pertence, não encontraremos n'essa administração e na sua organisação em geral, coisa alguma que nos sirva? De certo que encontramos.

É, pois, da mais absoluta necessidade, transformar aquella organisação, alliviando o orçamento de tão pesada verba, remodelando e desenvolvendo a guarda fiscal, não militar, embora disciplinada e a policia rural, tão proveitosa e util, aproveitando as aptidões dos elementos indigenas, que as teem e muito apreciaveis como vi por todo o Industão, em vez de transportar para um clima deprimente soldados europeus, que se anniquillam e desmoralisam na vida enervante e sedentaria dos quarteis! Guardadas as devidas proporções, sustentando nós uma força militar de 3:000 e tantos homens e 191 officiaes para uma população de 586:000 habitantes, a Inglaterra teria de sustentar um exercito de 900:000 homens, em vez de 200:000, entrando n'este numero a força indigena em numero de 130:000 homens aproximadamente.

E perguntarão V.s Ex.as, mas o clima tambem não é enervante e deprimente para elles? É. Mas os quarteis são estabelecidos em bairros separados, nos pontos mais saudaveis, e podem considerar-se verdadeiros sanatorios, onde o soldado tem todas as commodidades, vivendo com a sua familia, fazendo todos os exercicios de _sport_ e perfeitamente separado do elemento indigena, que é inquestionavelmente uma das maiores causas de desmoralisação. Das economias que proviriam de uma orientação, como a que deixo apontada, creio que conseguiriamos sem difficuldade, o sufficiente para amortisação e juro do capital necessario para dotar a India de uma boa rede de canaes de irrigação.

Continuando, como é de crer, o accrescimo que até hoje se tem manifestado, no trafego do porto de Mormugão, é evidente que deverão ser augmentados os caes acostaveis e o quebra-mar. A vida não pára, o commercio progride, e ainda ha pouco vimos no _Times of India_ que Bombaim vae augmentar os seus caes, n'uma extensão de duas milhas e meia. Sabemos que tambem se tem pensado n'isto e que é ainda devido ás boas diligencias do coronel Machado, que a West India encetou n'esse sentido algumas obras em Mormugão, mas não é bastante. É preciso que o governo da metropole se convença, que tudo seja facilitar, prestar auxilio, e mostrar boa vontade á companhia Mormugão Railway, reverte, pode dizer-se, em nosso exclusivo proveito, visto os seus obrigatarios terem o juro garantido e nada mais exigirem.

Portanto, repetimos, a unica maneira de tirarmos directa ou indirectamente, algum proveito dos enormes sacrificios a que aquelle contracto nos obriga e cujas consequencias ainda podem vir a ser mais desastrosas do que já foram, por isso que o artigo 28.º reconhece á companhia o direito de, passado um primeiro periodo de trinta annos, que termina em 1910, entregar ao governo a linha, telegrapho e outras obras executadas pela importancia realmente dispendida, isto é, 1.500:000 libras approximadamente, é desenvolver a navegação, facilitando e garantindo as commodidades que o commercio maritimo deseja e exige.

[Ilustração: Monumento a Affonso d'Albuquerque na Praça das Sete Janellas (Pangim)]

São estas, julgamos nós, as questões mais importantes e de maior alcance economico, a tratar na moderna administração da India, que seriam resolvidas com relativa facilidade aproveitando melhor as suas condições naturaes, os seus habitantes, e os 977 contos da sua receita cobrados em geral sem difficuldades, pois basta dizer que o anno passado não se processou a falta de pagamento de uma decima!

Antes de terminar, dir-vos-hei muito rapidamente alguma coisa dos costumes e religião dos povos da India em geral, o que, com pequenas modificações, se applica á nossa India, cujas raças teem intima affinidade com as que se encontram em toda a peninsula.

Os indigenas dividem-se em quatro castas fundamentaes, duas nobres e duas plebeias. As nobres são Brahmanes e Charodós, as plebeias os Vaixás e os Sudras. A estas castas são attribuidos os quatro serviços, sacerdotal, militar, industrial e servil. Além d'estas castas ha os parias, ou farazes, que são producto illegitimo do commercio entre castas diversas, e estão abaixo de toda a classificação.

Os brahmanes nasceram da cabeça de Brahma, e por isso são destinados á sciencia e ao ensino, os Charodós vieram dos braços, são os que governam e commandam, os Vaixás do ventre, são os que trabalham no commercio e na agricultura, os Sudras dos pés e fazem todos os serviços mais ordinarios. Além dos indus, encontram-se os Parsis, os Mulsumanos, os Africanos e os descendentes, que são brancos nascidos na India, de paes europeus e que durante muitos annos occuparam quasi todos os cargos na administração e no militarismo.

O principio das castas é rigorosamente mantido, o filho segue invariavelmente a vida do pae, ninguem tem o direito de sair da esphera de acção que lhe é marcada pelo nascimento, ligação entre castas differentes não pode admittir-se e tão arreigada está esta idéa, que mesmo entre indigenas christãos, e que o são ha mais de duas ou tres gerações, quando querem contrair matrimonio nunca deixam de procurar noiva em familia, que tenha origem egual á sua. Atravez os seculos as leis de Manú conservam a sua influencia. Mysterios de atavismo.

Os sacerdotes e os gentios de castas superiores depois de comerem pintam na testa varios symbolos indicativos da seita a que pertencem: Os sectarios de Vichnu usam tres traços verticaes, os de Siva tres traços horisontaes. Estes traços são feitos com cinza de bosta de boi secca, com lodo do Ganges, com açafrão ou com tinta vermelha extraída do Cucomb.

Antes de comer tomam sempre banho, conservando durante algum tempo um bochecho de agua na bocca: depois sentam-se no chão, e servem-se sobre folhas de bananeira. O terreno, que serve de mesa é primeiro barrado com bosta de boi. Antes de começarem a comer percorrem, com a mão as bordas da folha que lhe serve de prato e tomando cinco bocadinhos de alimento, por duas vezes, offerecem-os aos Deuses e aos cinco sentidos. Em seguida comem no mais absoluto silencio. Fui hospede durante alguns dias de um importante personagem gentio, que me tratou admiravelmente, mas naturalmente obriguei-o a tomar maior numero de banhos, porque a minha presença era sufficiente para se julgar poluido, não podendo comer, resar, etc., sem proceder a previas abluções.

Quando um europeu visita um indu, a primeira cousa que este faz é offerecer-lhe a areca e cal, envoltas n'uma folha de bétle, para lhe desejar a boa vinda. São em geral muito hospitaleiros, attenciosos e intelligentes. Nas festas que são muitas, o que mais os extasia é o _nautch_ ou dança das bailadeiras, servas do templo ou _devassadis_, e diga-se de passagem que taes espectaculos bem longe estão do que a maior parte dos europeus imaginam. As bailadeiras são em geral magras e pouco attrahentes, nem mesmo as encontrei melhores em Benáres.

Apresentam-se vestidas com muitas saias de gase ricamente bordadas a ouro, calças apertadas no tornozello, onde atam uma fita com guisos. A dança consiste n'um rodopio mais ou menos prolongado nas pontas dos pés, batendo o compasso com os guisos, erguendo e torcendo os braços e as mãos, cantando com voz dolente, nasal, e por vezes regularmente desafinada. A musica é composta da _mordanga_, especie de tambor, tocado com os dedos, e o _serungui_ do feitio de uma rebeca. Eis tudo.

A mulher indiana está bem longe de disfructar a millesima parte da liberdade que tem a mulher europeia, e não será ali que facilmente entrarão as modernas idéas do feminismo.

[Ilustração: Egreja de Pangim]

A indiana não tem nem gosa dos mais pequenos direitos. Vive sempre na mais absoluta dependencia primeiro, do pae, depois do marido e dos filhos masculinos. As leis de Manú determinam que a mulher nunca póde conduzir-se pelo seu proprio criterio. Os casamentos contractam-se na infancia, mas só se effectuam na idade appropriada. Caso o futuro marido morra antes de ter effectuado o casamento, a noiva fica viuva para todos os effeitos e não póde tornar a casar. Antigamente as viuvas faziam o sacrificio á deusa Satty, deitando-se na fogueira, que consumia o cadaver do marido. Hoje, devido aos esforços do governo inglez, póde considerar-se abolida esta pratica, calculando-se que existem mais de 20 milhões de viuvas que não existiriam se ainda lhes fosse permittido o sacrificio.

A vida que a viuva actualmente passa é infelicissima. Apóz a morte do marido quebra os braceletes, renuncia ao mundo, rapa o cabello, não póde usar o mais pequeno ornamento, não come senão uma vez por dia e vive no mais completo isolamento, mesmo entre a sua familia. Os indus acreditam que não podem entrar no céo se não deixarem na terra um filho que lhe recite as orações á hora morte, por isso a esterilidade é humilhante. O nascimento de um filho varão dá logar a grandes festas. O pae offerece ao seu Deus, côco e assucar, esparge a casa com bosta de boi diluida em agua para afugentar os maus espiritos. Todos os que habitam a casa esfregam a cabeça com oleo de côco, lavam-se e purificam-se. Em algumas localidades faz-se ao sexto dia, a festa á deusa Satty, pondo-se ao pé da mãe uma porção de arroz, dez ou doze litros, rodeada de côcos e uma candeia accesa. Durante toda a noite tangem as _gumatas_ e outros instrumentos, não sendo permittido ás pessoas da casa dormirem. Na casa em que se fizer esta cerimonia todas as mães que tiverem filhos, que ainda não tenham attingido a epoca de dentição teem de sair com elles com receio que o diabo Xatam não se introdusa no corpo da creança cuja bocca desprovida de dentes não pode evitar-lhe a entrada. Ao decimo primeiro dia todas as pessoas se purificam com agua benta Panchá Gaviá, de Panchá _cinco_, e _Gaviá_, _vacca_, quer dizer as cinco excreções e secreções de vacca, a saber: o leite, a manteiga, o sôro, a bosta e a urina.

[Ilustração: Tumulo de S. Francisco Xavier, riquissimo trabalho em prata no Bom Jesus (Velha Gôa)]

Se acontece a mulher morrer antes do decimo dia, então fazem-se coisas extraordinarias.

Quebram-lhe as articulações dos braços e das pernas, cravam-lhe na cabeça um prego e o corpo sae por um buraco que se abre na parede e logo se fecha. Isto tudo se faz para que a morta não possa voltar para traz e não saiba entrar em casa, visto imaginarem que o espirito só pode entrar por onde sahio o corpo. É uso entre os gentios a incineração, por isso não ha mausoleus, limitando-se a plantar no logar da queima a arvore Tussoly, pela qual tem grande veneração. Tambem é muito venerada a Veddo ou Ficus Religiosa, porque os seus ramos esconderam a deus Chrisna, quando menino, aos olhos dos seus perseguidores. Os brahmanes, reconhecidos por este serviço, introduziram as praticas de dar algumas voltas em roda da arvore, collocar-lhe flôres ao pé do tronco e espargil-a com agua.

Se se contam por centenas as cerimonias religiosas d'estes povos é por milhares que se podem contar os seus deuses ou objectos a que prestam veneração. Para o indu, tudo que existe no mundo material ou immaterial é uma manifestação da divindade e tem uma parte da emanação divina. Creio bem que não há no mundo povo mais arreigado ás suas crenças. Em Benares, a Roma indu, ha mais de 4:000 templos e sanctuarios e o seu poder sagrado é tão grande, que o avistar as flechas dos seus templos é sufficiente para purificar o maior peccador, mesmo que o seu peccado tenha sido comer carne de vacca! A mais pequena descripção ou noticia que eu tentasse dar-vos sobre o pantheismo indu levar-me-hia muito longe e para não vos fatigar direi apenas duas palavras. A base do brahmanismo puro é o culto ás origens da vida, ao poder creador, ás forças da natureza em todas as suas manifestações. Pelo seculo V, antes da nossa era, appareceu Çakia Mouni prégando a sua admiravel doutrina, que tomou o nome de Budhismo, porque elle mesmo foi chamado Budha, que quer dizer _sabio_. D'esta doutrina nasceu o Jaisnismo e por toda a parte appareceram outras seitas, cujas differenças são tão subtis, que se tornam completamente incomprehensiveis para nós.

Budha foi absorvido no brahmanismo e das alterações que lhe foram successivamente introduzindo, resultou o neo-brahmanismo. A trimurty ou trindade indu, compõe-se de Brahma, que cria, Vichnu, que conserva, e Siva, que destroe. Os livros sagrados são Riga-Veda, Jaiur-Veda, Sama-Veda, e Atarva-Veda. A alma soffre varias transmigrações antes de entrar no Calás, o paraiso de Siva. Vichnu tem apparecido no mundo nove vezes debaixo de encarnações differentes ou avatares, de Peixe, de Tartaruga, de Javali, meio homem meio leão, brahmane anão, Purisseramo, Rama, Crisna e Budha, vae agora para a decima, chamada Calunguy, em que apparecerá em forma humana, com tres braços, montado n'um cavallo branco alado. Esta apparição terá logar no fim do periodo que vamos atravessando, isto é, d'aqui por uns 430 e tantos mil annos. Como se vê indus são prodigos nos seus calculos. A terra tem de atravessar quatro periodos. O primeiro chamado Critayuga, durou um milhão 728:000 annos, o segundo Tritayuga, um milhão 2:960, o terceiro Duapar 864:000. No fim do quarto, tudo se desfará e voltará ao chaos de onde saiu. Quem sabe se elles terão razão?

Como vêdes, meus senhores, pouco interesse vos poderá ter merecido esta desataviada exposição, e por isso mais vos agradeço a vossa benevola attenção. Para concluir passarei a mostra-vos algumas projecções photographicas.