A India Portugueza Conferencia feita em 16 de março de 1908

Chapter 1

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Sociedade de Geographia de Lisboa

A INDIA PORTUGUEZA

CONFERENCIA

FEITA EM 16 DE MARÇO DE 1908

POR

_Hypacio de Brion_

Capitão de Fragata

S. S. G. L.

1908 Typographia da Cooperativa Militar 30--Rua de S. José--42 LISBOA

DO MESMO AUCTOR

DUAS MIL LEGUAS NO HINDUSTÃO

1 vol. Illustrado com muitas photogravuras á venda em todas as livrarias--2$000 rs.

_Sr. presidente, minhas senhoras e meus senhores:_

Agradeço a V. Ex.ª, sr. presidente, as palavras amaveis com que me apresentou a esta assembléa, onde tenho a honra de me apresentar pela primeira vez, palavras inspiradas mais pela amisade do que pela justiça.

E a V.as Ex.as digo que não poderei nem satisfazer o meu desejo nem a vossa espectativa. Estou aqui no cumprimento d'um dever, desempenhando-me d'uma difficil missão, mas entendi que não devia recusar o convite, que tão amavelmente me foi feito, e ainda pela razão de não se tratar d'uma conferencia ou dissertação, para o que eu seria completamente incompetente, mas sim d'uma palestra que servisse como que de prologo á apresentação de algumas projecções photographicas, que de certo vos interessarão muito mais do que o que eu vos possa dizer.

Não exerci na India, cargo algum administrativo e portanto outro, que não eu, vos poderia explanar quaesquer projectos de melhoramentos e planos de boa economia administrativa, tendo observado de perto quaes as necessidades mais urgentes, quaes os serviços a montar ou a remodelar n'essa India de que Diogo do Couto, no seu _Soldado pratico_, já tanto se queixava! Estive ali como commandante da estação naval nos annos de 1897-1898; fazia da India uma idéa completamente differente da que faço hoje, interessou-me a ethnographia, a religião e vida d'aquelles povos tão differentes do que até então tinha visto, percorri uma parte d'esse Estado, que foi gloria da nossa raça, mas bem longe estava eu de que tivesse de vir a publico dizer alguma coisa do que tinha visto em tão rapida visita. Maior campo onde satisfizesse a minha curiosidade offereceu-m'o a India Ingleza e, aproveitando o ensejo, visitei Bombaim e Calcuttá, os dois grandes emporios commerciaes, as duas cidades cosmopolitas, depois, subindo a Darjeling, a 10:000 pés de altitude d'onde me foi dado comtemplar a gigantesca cordilheira do Hymalaia, o espectaculo mais majestoso e empolgante que a natureza nos pode apresentar desci ao Ganges, visitando a India santa nas margens do rio sagrado, Benáres, a cidade dos fakires, Allahabad, a cidade das peregrinações, passei depois á India dos Sultões, que teve por capitaes Agra e Delhi, onde tantas riquezas existiram e onde tão interessantes obras de arte ainda hoje o attestam, e por fim á India das Mil e uma noites em Ahmedabad e Jeipur, onde se encontra o palacio do Vento, a porta das Esmeraldas, a entrada do Paraiso, a porta das Saphiras, tudo como nos contos de fadas, onde os macacos passeiam á solta nas ruas e entram nas casas e em que doirados pavões abundam em liberdade como n'uma aldeia, as gallinhas!

Em tudo que vi não falta materia para interessantes narrativas.

A India foi, é, e ha de ser, ainda por longo tempo, vasto campo de observação onde todos os investigadores e estudiosos encontram largamente em que applicar o seu espirito. É certo, que muito se tem estudado n'essa grande peninsula, que os nossos antepassados tiveram a gloria de abordar, por caminho até então desconhecido, trazendo-a por assim dizer, ao convivio dos povos occidentaes, mas tão vastos são os assumptos interessantes, que ella ainda hoje apresenta, quer na sua ethnographia, quer na sua legislação ou nas suas religiões e seitas, que ainda muito tempo decorrerá, antes que bem interpretados e conhecidos sejam os Védas e os Puranas, ou que se desvendem as secretas cerimonias que se passam no silencio dos templos, desde as danças lascivas e louvores entoados em honra do _Lingam_, até aos assombros do fakirismo!

Fallar-vos da India em geral, é remontar a epocas de nós afastadas de milhares de annos, é ir quasi ao berço da humanidade e da civilisação, é embrenharmo-nos no labyrintho d'um phantastico pantheismo, é encontrarmo-nos em presença do principio que divide estes povos em castas, perfeitamente separadas, cavando entre ellas profundos abysmos impossiveis de transpôr, ao mesmo tempo que teriamos de admirar a sã moral do Budhismo, os extraordinarios exageros do Jaisnismo e as phantasticas e dantescas descripções do Ramáyana ou do Mahábaratha.

Fallar-vos da nossa India, é rememorar dois seculos da historia patria, é invocar Affonso de Albuquerque, D. Francisco d'Almeida, Duarte Pacheco e tantos outros, os vultos mais grandiosos, d'esse aureo tempo em que este pequeno povo occidental, abriu com as quilhas das suas naus os mares que se estendem até ao extremo oriente, e em que a nossa bandeira, tremulou em mais paizes e dominou mais povos, do que os que foram avassalados pelas aguias de Augusto!

É, trazer-vos uma série não interrompida de feitos de armas, qual d'elles mais valoroso, desde a heroica defeza de Cochim por Duarte Pacheco até ao cerco de Diu, em que a coragem de D. João de Castro, conseguiu conservar esse florão da corôa portugueza, e que ainda hoje mais nos parecem phantasticos e sobrenaturaes, do que realidades! E quem não se assombrará correndo a costa de Canará e do Deccan, desde Calicut até Bombaim, ao ver essa linha de grossas muralhas de longe em longe, cortadas por baluartes e torres, todas feitas pelas mãos d'esses homens, que assim empregavam o tempo entre dois combates?

Já vêdes, pois, meus senhores, que bem verdade vos fallava, quando classificava de difficil esta missão, que mais difficil ainda se torna quando, para contrastar com a abundancia e elevação do assumpto, se me depara a escassez e pequenez dos meus recursos. Tentarei comtudo desempenhar-me d'elle, procurando não abusar da paciencia de vv. ex.as.

[Ilustração: Arco dos Vice Reis (Velha Gôa)]

Foi no fim do seculo 15, que as caravellas portuguezas, pela primeira vez singraram nos mares de além Cabo da Boa Esperança. Em maio de 1510, Affonso de Albuquerque conquistava Gôa, que, por falta de lealdade e obediencia dos capitães, que tinha sob as suas ordens, foi obrigado a abandonar. Em novembro do mesmo anno realisava a segunda conquista, assentando definitivamente o seu poder, e cravando ali a primeira estaca, á qual devia prender a rede, que se estenderia de Ormuz a Malacca, que essa fulgurante intelligencia tinha sonhado, para suster todo o commercio do Oriente, arrancando-o ás mãos de mouros, de genovezes, e de venezianos, obrigando-o a vir a Portugal, e transformando Lisboa no grande deposito das especiarias e riquezas d'esses paizes, que a muitos se affiguravam encantados!

É desde essa epoca, que, pode dizer-se, foi firmada de uma maneira immorredoura a nossa soberania na India. E se bem comprehendido tivesse sido o plano d'aquelle grande civilisador e legislador, se n'aquelles que lhe succederam, houvesse a illuminar-lhes a intelligencia, um raio só, que fosse d'aquelle sol, talvez a conquista de toda a peninsula tivesse sido feita sem derramamento de sangue, fixando-se pelo crusamento das raças, pelos laços de sangue, e pelo respeito dos costumes e das leis. Mas não foi assim. A intransigencia fanatica de muitos, que foram chamados a governar aquelles povos, a cubiça e a ambição de se apossarem das riquezas dos naturaes, a preoccupação constante de augmentarem o seu cabedal, abandonando os interesses da nação, foram as causas que pouco a pouco, mas de uma maneira fatal, derruiram os alicerces do nosso poder, tornando-nos execrados em vez de estimados, ou pelo menos respeitados. Não tinha sido essa a politica do grande Affonso, por isso os indios muito tempo depois da sua morte, iam ao tumulo, implorar-lhe a justiça que os vivos lhes negavam! É com essa mesma politica iniciada ha 400 annos, que a pratica Inglaterra consegue apenas com 60:000 homens dominar 180 milhões de habitantes.

Pelo espaço de seculo e meio, esse novo caminho ensinado por Vasco da Gama foi seguido por numerosas armadas que, além das conquistas que faziam, não poucas vezes assignalavam com as quilhas os baixios das costas da Africa, da India e do mar Vermelho, levando no seu bojo os aventureiros que, por seu turno, em vez de trazerem as riquezas que buscavam, deixavam a vida nas mãos dos negros, quando depois de naufragarem eram obrigados a percorrerem em longas jornadas, paizes desconhecidos e povos selvagens, em busca de alguma feitoria ou fortaleza em que se abrigassem. Os chronistas, bem commoventes descripções nos deixaram de taes naufragios! Assim, foram colhidos muitos elementos para as cartas e roteiros!

Atravez de muitas vicissitudes e difficuldades, repetidamente atacada mas sempre valorosamente defendida, Gôa conservou-se a capital da India. Pela extensão d'essa cidade, pela sua população, que chega a computar-se em mais de 150:000 almas, pelo seu grande commercio e pelos majestosos edificios cujas ruinas chegaram até nós, pode bem avaliar-se o que foi a nossa obra de civilisação e de colonisação.

Não é só o Brazil, meus senhores, que attesta as nossas faculdades de povo colonisador, implantando a nossa lingua, os nossos costumes e o nosso commercio n'esse vastissimo paiz, a India tambem foi uma grande obra da nossa raça, e se d'ella nos restam apenas pequenos retalhos perdidos nas costas do Canará e do Guserate, nem por isso a devemos admirar menos.

Só um grande povo, dotado de qualidades excepcionaes de caracter, só uma grande perseverança e uma grande coragem. podiam ter fundado entre povos inimigos uma tão vasta cidade, cujas ruinas, que logo terei occasião de vos mostrar, em projecções photographicas, nos causam verdadeiro assombro.

Em 1610, isto é, a pouco mais de um seculo da data em que Vasco da Gama foi recebido pelo Samorim de Calicut, a cidade de Gôa, na ilha de Tissuary (que quer dizer trinta aldeas) estendendo-se pela margem esquerda do Mandovy, estava no seu apogeo.--Largas ruas ladeadas pelos mais majestosos edificios, abriam-se em espaçosas praças, ao fundo das quaes se levantavam grandiosos templos que podiam rivalisar com os melhores da metropole. Por ellas transitava a grande multidão, composta de individuos de todas as raças e em extraordinaria promiscuidade podiam vêr-se os habitos dos frades, as armaduras dos guerreiros, as capas dos fidalgos e os pelotes do povo. O turbante musulmano alvejava proximo da escura mitra do Parsi. O negro cafre passava preste, junto do bronzeado malaio ou do amarello chinez. Toda essa gente labutava na vida afanosa do commercio entrando e sahindo dos innumeros bazares e mercados.

[Ilustração: Ruinas do convento de S. Paulo (Velha Gôa)]

Por vezes cortavam os ares os repiques dos sinos da Sé, e alguma procissão ia rompendo por entre as ondas de povo, que pressuroso se accumulava pelas ruas de transito ou os sons de tambores e pifanos da guarda avançada, davam signal da approximação do vice-rei, que se dirigia á Ribeira, para assistir á partida de alguma expedição. Pela praia naus encalhadas, concertavam e breavam os fundos e em torno d'ellas dezenas de artifices trabalhavam. No rio ostentavam-se vaidosas, de verga alta, e engalanadas, aquellas que deviam partir para o Reino e as tranquillas aguas do Mandovi eram cortadas em todas as direcções por dezenas de tones, galeotas e pangaios, que lhe iam despejando nos fundos porões o producto de tanto trabalho.

Este ridente quadro, teria mais tarde de ser illuminado pelos sinistros clarões dos autos de fé! Do palacio dos vice-reis, grande construcção, que se erguia sobre um pequeno outeiro proximo do rio, descia a rua Direita, de 800 metros de extensão, onde se encontravam os mais ricos estabelecimentos de ourives, lapidarios, mercadores e artifices. Era essa a arteria principal, chamada tambem a rua dos Leilões. Ao fundo via-se a egreja da Santa Misericordia dedicada a Nossa Senhora da Serra, sobre cujo portico estava a estatua de Affonso de Albuquerque, de pedra dourada, que foi transferida para Pangim, onde ainda existe, debaixo de um pavilhão, no meio da praça das Sete Janellas; monumento começado pelo governador conde das Antas e terminado por José Ferreira Pestana. Ao lado direito levantava-se a casa da Santa Inquisição, um dos maiores edificios da cidade, que se defrontava com a Casa da Camara, separadas por um vasto terreno, onde os cavalleiros iam quebrar lanças e onde o povo se entretinha assistindo aos combates de gallos. Percorrendo uma rua para o lado esquerdo encontrava-se a Sé, com o seu cemiterio, que levou mais de 50 annos a concluir, a seguir vinha o palacio do arcebispo, do outro lado, o convento dos franciscanos, cheio de riquezas e preciosidades, onde grandes quadros representavam a vida do santo apostolo. Descendo mais deparava-se com o Hospital Real, notavel pelo tratamento, commodidades e até luxo, que n'elle encontravam os doentes, em média de 400 habitualmente, mas que subiam a 2:000 quando as armadas chegavam do reino. Os leitos tinham cobertas de seda e contavam-se por centenas os servidores. Proximo a este hospital existia a capella de Santa Catharina, levantada no mesmo sitio, onde a cidade foi entrada pelo grande Affonso, com a lapide commemorativa do facto, lapide que chegou aos nossos dias, onde se lê: «_Aqui n'este logar estava a porta, por que entrou o governador Affonso de Albuquerque e tomou esta cidade aos mouros, em dia de Santa Catharina, anno de 1510, em cujo louvor e memoria o governador Jorge Cabral mandou fazer esta casa no anno de 1550, á custa de Sua Alteza._»

D'essa capella no dia da festa da santa, que podia considerar-se como festa nacional, sahia a mais imponente procissão, onde comparecia todo o clero, fidalgos e gente grada da cidade, acompanhada de musicas e folias, danças e cavalhadas.

Para não cançar mais a attenção de V.s Ex.as direi que n'esse tempo Gôa possuia os conventos de S. Francisco, Santo Agostinho, S. Caetano, S. João de Deus, S. Filippe Nery, S. Domingos, Reformados de S. Francisco e Carmelitas, a Sé, doze egrejas grandes, fóra outras de menor importancia e capellas, tres hospitaes, sendo o de S. Lazaro para leprosos, um para mulheres e o hospital Real de que fallei, um arsenal, a casa da moeda, a fundição de canhões, quatro prisões, que eram os Carceres da Inquisição, o Aljube, do arcebispo, o Tronco (prisão civil), e a prisão da Ribeira ou Sala das Bragas onde se recolhiam os condemnados ás galés, muitos palacios, boas casas, ruas largas, aceiadas e empedradas. Por toda a parte grandeza e luxo, e tudo foi pouco a pouco desapparecendo e os famosos edificios cahiram, como cahiu o poder que os tinha levantado. As intrigas, as guerras, as rivalidades e a grande falta de criterio administrativo, causaram e apressaram essa queda, e bem podemos dizer como disse o grande poeta Thomaz Ribeiro:

Eis a cidade morta, e solitaria, Gôa, Seis templos alvejando entre um palmar enorme Eis o Mandovy-Tejo, a oriental Lisboa, Onde em jazigo regio immensa gloria dorme!

A Europa, porém, tinha acordado, nações audazes e invejosas levantavam-se, querendo tambem a sua parte na partilha do mundo.

A Hollanda, a Inglaterra e a França armavam os seus navios e os povos cançados do jugo, que os vencedores não tinham sabido suavisar, revoltaram-se. A guerra alastrou-se por toda a parte.

A fé, o fanatismo e o ideal religioso, tinham em grande parte guiado os nossos primeiros navegadores, levavam sempre alçada a cruz, e se se apossavam das terras, derramando, por vezes, ondas de sangue, ainda tinham perante o espirito da epoca, aquelles sentimentos por desculpa, mas agora os que se levantavam não tinham o mesmo fim, não eram impulsionados pelas mesmas forças, o seu desejo era apossarem-se do nosso patrimonio. Combater para enriquecer.

Durante os 60 annos, que decorreram de 1580 a 1640, em que Portugal esteve debaixo do jugo castelhano, muitas fortalezas, feitorias e praças se perderam, embora a coragem dos portuguezes nunca tivesse sido desmentida.

Pelos fins do seculo XVI, principios do seculo XVII, innumeras naus hollandezas atacavam os galeões e naus portuguezas, que vinham esperar, pelas alturas do Cabo da Boa Esperança, da ilha de Santa Helena e dos Açores. Rijos combates se travaram, verdadeiras heroicidades se praticaram, hoje quasi de todo desconhecidas. Permittam-me comtudo V.s Ex.as que rememore um desses combates, em que a altivez fidalga do soldado, se allia á coragem e á honra.

Em 1601 saiu de Gôa o galeão _S. Thiago_, commandado por Antonio de Mello e Castro, trazendo 300 soldados e marinheiros, trinta fidalgos e pessoas nobres. Tão carregado vinha, que para melhor governar, a poucos dias de viagem teve de alijar parte da carga ao mar. Dobraram o Cabo a 26 de fevereiro de 1602 e a 14 de março, chegavam á vista de Santa Helena, onde encontraram ancoradas tres naus hollandezas. Aconselharam o commandante a não entrar, mas considerando este, quanto o galeão era mau de vella e o animo, que aos seus inimigos daria a retirada, resolveu demandar o ancoradouro. O commandante hollandez com receio que os portuguezes encalhassem o galeão e o queimassem, como mais de uma vez tinham feito, destacou uma lancha para lhes ir fallar, astucia para os entreter, emquanto duas das naus levantavam ferro e vinham fundear mais a barlavento. Antonio de Mello, percebendo o intento, mandou fazer-lhes um tiro, a que elles responderam com toda a artilharia, começando o combate a tiro de arcabuz, que durou todo o dia. Durante a noite, deitaram os nossos os mortos ao mar, trataram dos feridos, reformaram o apparelho e julgando Antonio de Mello que os hollandezes, dentro da bahia, teriam sempre grande vantagem, resolveu ir para o mar largo, pois se este estivesse agitado, obrigaria os hollandezes a fecharem a primeira bateria, que era a mais importante. Rendido o quarto de prima, levantou ferro, os hollandezes receiando que os abordasse, alaram as naus á terra e tomando-lhe barlavento, evitaram-n'o. Antonio de Mello fez-se ao mar e as tres naus foram-lhe na esteira, travando-se novo combate que durou até á noite. Na manhã seguinte o valente portuguez desafiou os inimigos á abordagem, mas estes preferiram continuar o combate a distancia, fazendo-lhe grande damno. A este tempo já o galeão não tinha governo, a mastreação desarvorada, sem panno, sem cabos e as bombas entupidas com a pimenta que tinha corrida para a arcada da bomba. Os soldados e marinheiros pediram ao commandante para se render, salvando-lhe as vidas, mas Antonio de Mello conseguiu dissuadil-os e serenar-lhes os animos, voltando todos aos seus postos. Em breve, porém, correu a voz que o galeão ia ao fundo, e de novo vieram pedir ao commandante para que se entregasse. Quando assim fallavam chegou o mestre Simão Peres, que ouvindo o commandante responder: _Pois ajudae-o a ir_, disse: _Logo vossa mercê quer morrer? Pois se quer, tambem, eu morrerei com elle!_ A isto volveram os marinheiros dizendo: _Se vossas mercês querem morrer nós queremos salvar as vidas. Já que não aproveita pelejar nem ha remedio de defeza._ E logo, desobedecendo ás ordens, içaram a bandeira branca. O commandante hollandez veiu a bordo e, entrando na camara onde estava Antonio de Mello, disse-lhe: _Que lhe daria em nome da republica toda a fazenda que fosse sua e lhe entregasse os papeis e pedraria que levasse._ A isto respondeu Antonio de Mello: _Esse partido fazei vós com os que entregaram o galeão e vos chamaram e deixaram entrar, que eu não hei mister de mercês vossas, nem da vossa republica, que tenho rei para m'as fazer, nem eu tenho para vos entregar nada, pois não me dou por vencido senão quando abordardes e me renderes pelas armas!_ Voltou colerico o hollandez para bordo do seu navio, e entretanto Antonio de Mello deitava ao mar todos os livros, papeis e pedraria. E como lhe censurassem o que fazia, pelo perigo que corria, respondeu: _Que perecesse embora a vida e não perecesse um ponto da sua obrigação, nem permittisse Deus que os inimigos soubessem os segredos de El-Rei!_ O combate continuou. Por fim o galeão foi para o fundo e os portuguezes recolhidos a bordo de uma das naus foram abandonados na ilha quasi deserta de Fernando Noronha. Os que sobreviveram á fome e aos trabalhos chegaram a Lisboa em 1603! Eis como se combatia n'esse tempo e eram d'estes os exemplos que esses valentes marinheiros e altivos soldados nos deixaram!

Os inglezes não menor mal nos faziam, ora no mar, ora em terra, onde comtudo grandes perdas soffreram. Francisco de Mello bate-se valentemente com tres naus inglezas á vista do Fayal. André Furtado de Mendonça vence a expedição que os inglezes e hollandezes enviaram ás Molucas; Salvador Ribeiro de Sousa conquista o reino de Pegu; Alvaro de Moraes desbarata em Colombo tres naus hollandezas, e como estes dezenas de factos eguaes e centenas de heroes! Emfim por toda a parte a guerra, de que os portuguezes, por esforços sobrehumanos, saíam quasi sempre vencedores, mas esses esforços eram por assim dizer isolados, faltava-lhes a unidade do mando, a traça d'um plano a seguir, a boa administração e o senso pratico.

[Ilustração: Capella de Santa Catharina (Velha Gôa)]

No decorrer do seculo XVII, libertado Portugal do jugo castelhano, revivem as nossas qualidades guerreiras. O Brazil, a Africa e a India são ainda theatro de novos combates e de novas victorias, entramos pouco a pouco na posse do que era nosso, mas muito estava perdido sem remedio!

Accentua-se gradualmente a queda do nosso prestigio e vão-se perdendo e abandonando successivamente Malaca, Colombo, Cochim, Tana, Baçaim e tantas outras.

No ultimo quartel do seculo XVII ainda um clarão illumina essa India já tão obscurecida, e o conde da Ega augmenta o seu territorio com a conquista de Pondá, Zubulim e Salsete, chamadas as Novas Conquistas. Mas alvorece o seculo XIX e toda a Europa arde em guerra.

Napoleão domina e vence os seus mais fortes e encarniçados inimigos. As aguias triumphadoras passeiam de Moscow a Lisboa. Portugal lá vae arrastado na torrente, seguindo a sorte d'aquelles a quem se ligou. A côrte foge para o Brazil, é Junot que governa. Como vae longe o tempo em que os povos da Europa e do Oriente procuravam a nossa alliança! Agora, somos nós, que para salvarmos Gôa, essa perola tão querida do grande Affonso, vamos pedir á Inglaterra, que mande alguns dos seus soldados guarnecer as fortalezas, que a tanto poder tinham resistido! De facto ali se alojaram, e só a muito custo de lá sairam em 1813. Em 150 annos tinhamos feito tão grande obra, que foram precisos, quasi, outros 150, para que outros a destruissem, mas por muitos seculos ainda, as lapides e os padrões, d'ella conservarão memoria nas suas lettras de pedra!

Gôa, a grande, desappareceu e hoje os terrenos por onde ella se dilatava, são palmares fechados, onde muito difficilmente se podem assignalar alguns logares, tendo para pontos de referencia apenas algumas paredes derrocadas!