Chapter 8
--Entrou agora, Snr. D. Gonçalo! accudiu o escudeiro. E até manda perguntar se V. Ex.^a deseja para o almoço vinho verde de Amarante, de _Vidainhos_.
Sim, com certeza, vinho de _Vidainhos_. Depois sorrindo:
--Oh Padre Sueiro, previna este escudeiro novo que eu não tenho _Dom_. Sou simplesmente Gonçalo, graças a Deus!
O capellão murmurou que todavia, em documentos da Primeira Dynastia, appareciam Ramires com _Dom_. E, como Gonçalo parara deante do reposteiro corrido da sala, logo o bom velho se curvou, com as suas escrupulosas, reverentes ceremonias, para o Fidalgo passar.
--Então, Padre Sueiro, por quem é!
Mas elle, com apegado respeito:
--Depois de V. Ex.^a, meu senhor...
Gonçalo afastou o reposteiro, empurrou docemente o capellão:
--Padre Sueiro, já nos documentos da Primeira Dynastia se estabeleceu que os Santos nunca andam atraz dos Peccadores!
--V. Ex.^a manda, e sempre com que graça!
Depois dos annos de Gracinha, uma tarde, pelas tres horas, Gonçalo, recolhendo com Padre Sueiro d'uma visita á Bibliotheca do Paço do Bispo, sentiu logo da antecamara o vozeirão do Titó, que rolava na sala azul em trovão lento. Franziu vivamente o reposteiro--e sacudiu o punho para o immenso homem que enchia um dos cadeirões dourados, estirando por sobre as flôres do tapete umas botas novas de grossas tachas reluzentes:
--Oh infame!... Então n'outro dia assim me larga, sem escrupulo, depois de eu lhe preparar um cabrito estupendo, assado n'um espeto de cerejeira? E para quê?... Para uma orgia reles, com bolinhos de bacalhau e bichinhas de rabear!
Titó não desmanchou a sua conchegada beatitude:
--Impossibilissimo. De tarde encontrei o João Gouveia no Chafariz. E só então nos lembrámos de que eram os annos da D. Casimira. Dia sagrado!
Aquellas ceias de Villa-Clara, as tresnoutadas «pandegas» com violão, impressionavam sempre Barrôlo, que as appetecia. E com o olho aguçado, do canto da mesa onde esfarelava cuidadosamente pacotes de tabaco dentro de uma terrina do Japão:
--Quem é a D. Casimira? Vocês em Villa-Clara descobrem uns typos... Conta lá!
--Um monstro! declarou Gonçalo. Uma matronaça bojuda como uma pipa, com um pêllo nojento no queixo. Vive ao pé do Cemiterio, n'um cacifro que tresanda a petroleo, onde este senhor e as auctoridades vão jogar o quino, e derriçar com umas serigaitas de cazabeque vermelho e de farripas... Nem se póde decentemente contar deante do Snr. Padre Sueiro!
O capellão, que sem rumor se esbatera n'uma sombra discreta, entre os franjados setins d'uma cortina e um pesado contador da India, moveu os hombros n'um consentimento risonho, como acostumado a todas as fealdades do Peccado. E, com pachorra, o Titó emendava o esboço burlesco do Fidalgo:
--A D. Casimira é gorda, mas muito aceada. Até me pediu para eu lhe comprar hoje, na cidade, uma bacia nova d'assento. A casa não cheira a petroleo e fica por traz do convento de Santa Theresa. As serigaitas são simplesmente as sobrinhas, duas raparigas alegres que gostam de rir e de troçar... E o Snr. Padre Sueiro podia, sem medo...
--Bem, bem! atalhou Gonçalo. Gente deliciosa! Deixemos a D. Casimira, que tem bacia nova para os seus semicupios... Vamos á outra infamia do Sr. Antonio Villalobos!
Mas Barrôlo insistia, curioso:
--Não, não, conta lá, Titó... Noite d'annos, patuscada rija, hein?
--Ceia pacata, contou o Titó com a seriedade que lhe merecia a festa das suas amigas. A D. Casimira tinha uma bella frangalhada com ervilhas. O João Gouveia trouxe do Gago uma travessa de bôlos de bacalhau que calharam... Depois, fogo de vistas na horta. O Videirinha tocou, as pequenas cantaram... Não se passou mal.
Gonçalo esperava--irresistivelmente interessado pela ceia das Casimiras:
--Acabou, hein?... Agora a outra infamia, mais grave! Então o Snr. Antonio Villalobos é intimo do Sanches Lucena, frequenta todas as semanas a _Feitosa_, toma chá e torradas com a bella D. Anna, e esconde tenebrosamente dos seus amigos estes privilegios gloriosos?...
--Sem contar, gritou o Barrôlo deliciosamente divertido, que lhe passeia á trela os cãesinhos felpudos!
--Sem contar que lhe passeia á trela os cãesinhos felpudos! echoou cavamente Gonçalo. Responda, meu illustre amigo!
O Titó remecheu o vasto corpo dentro do cadeirão, recolheu as botas de tachas luzentes, afagou lentamente a face barbuda, que uma vermelhidão aquecêra. E depois de encarar Gonçalo, intensamente, com um esforço de sagacidade que mais o afogueou:
--Tu já alguma vez, por curiosidade, me perguntaste se eu conhecia o Sanches Lucena? Nunca me perguntaste...
O Fidalgo protestou. Não! Mas constantemente na Assembleia, no Gago, na Torre, elles berravam, em questões de Politica, o nome do Sanches Lucena! Nada mais natural, até mais prudente, do que alludir o Snr. Titó á sua intimidade illustre! Ao menos para evitar que elle, ou os amigos, deante do Snr. Titó que comia as torradas da _Feitosa_, tratassem o Sanches Lucena como um trapo!
O Titó despegou do cadeirão. E afundando as mãos nos bolsos da quinzena d'alpaca, sacudindo desinteressadamente os hombros:
--Cada um tem sobre o Sanches a sua opinião... Eu apenas o conheço ha quatro ou cinco mezes, mas acho que é serio, que sabe as cousas... Agora, lá nas Camaras...
Gonçalo, indignado, bradava que se não discutiam os meritos do Snr. Sanches Lucena--mas os segredos do Snr. Titó Villalobos! E o escudeiro novo, avançando as suissas ruivas por uma fenda do reposteiro, annunciou que o Snr. Administrador de Villa-Clara procurava Suas Ex.^{as}...
Barrôlo largou logo a terrina de tabaco:
--O Snr. João Gouveia! Que entre! Bravo! temos cá toda a rapaziada de Villa-Clara!
E Titó, da janella onde se refugiara, lançou o vozeirão, mais troante, abafando a importuna conversa do Sanches e da _Feitosa_:
--Viemos ambos! Por signal n'uma traquitana infame... Até se nos desferrou uma das pilecas e tivemos de parar na Vendinha. Não se perdeu tempo, que ha agora lá um vinhinho branco que é d'aqui da ponta fina!...
Beliscava a orelha. Aconselhava ruidosamente Barrôlo e Gonçalo a passarem na Vendinha, para provar a pinga celeste.
--Até aqui o Snr. Padre Sueiro lhe atiçava uma caneca valente, apesar do Peccado!
Mas João Gouveia entrou, encalmado, empoeirado, com um vinco vermelho na testa, do chapeu e do calor--e abotoado na sobrecasaca preta, de calças pretas, de luvas pretas. Sem folego, apertou silenciosamente pela sala as mãos amigas que o acolhiam. E desabou sobre o camapé, implorando ao amigo Barrôlo a caridade d'uma bebidinha fresca!
--Estive para entrar no café Monaco. Mas reflecti que n'esta grandiosa casa dos Barrôlos as bebidas são de mais confiança.
--Ainda bem! Você que quer? Orchata? Sangria? Limonada?
--Sangria.
E, limpando o pescoço e a testa, amaldiçoou o indecente calor d'Oliveira:
--Mas ha gente que gosta! Lá o meu chefe, o Snr. Governador Civil, escolhe sempre a hora do calor para passear a cavallo. Ainda hoje... Na repartição até ao meio dia; depois, cavallo á porta; e larga até á estrada de Ramilde, que é uma Africa... Não sei como lhe não fervem os miolos!
--Oh! acudiu Gonçalo, é muito simples. Se elle os não tem!
O administrador saudou gravemente:
--Já cá faltava com a sua ferroadasinha o Snr. Gonçalo Mendes Ramires! Não comecemos, não comecemos... Este seu cunhado, Barrôlo, é bicho indomesticavel! Sempre reponta!
O bom Barrôlo gaguejou, constrangido, que Gonçalinho em Politica não dispensava a piada...
--Pois olhe! declarou o administrador, sacudindo o dedo para Gonçalo. Esse Snr. André Cavalleiro, que não tem miolos, ainda esta manhã na Repartição gabou com immensa sympathia os miolos do Snr. Gonçalo Mendes Ramires!...
E Gonçalo, muito serio:
--Tambem não faltava mais nada! Para esse Governador Civil ser perfeitamente absurdo só lhe restava que me considerasse um asno!
--Perdão! gritou o Administrador, que se erguera, desabotoando logo a sobrecasaca, para commodidade da contenda.
Barrôlo acudio, afflicto, carregando nos hombros do Gouveia--para o socegar e o repôr no camapé:
--Não, meninos, não! Politica, não! E então essa massada do Cavalleiro... Vamos ao que importa. Você janta comnosco, João Gouveia?
--Não, obrigado. Já prometti jantar com o Cavalleiro. Temos lá o Ignacio Vilhena. Vae lêr um artigo que escreveu para o _Boletim de Guimarães_ sobre umas fôrmas de fabricar ossos de martyres, descobertas nas obras do convento de S. Bento. Estou com curiosidade... E a Snr.^a D. Graça, bem? Quem eu não avistava havia mezes era o Snr. Padre Sueiro. Nunca apparece agora pela Torre!... Mas sempre rijo, sempre viçoso. Oh, Snr. Padre Sueiro, qual é o seu segredo para toda essa meninice?
Do seu canto, o capellão sorriu timidamente. O segredo? Poupar a Vida--não a consumindo nem com ambições nem com decepções. Ora para elle, louvado Deus, a vida corria muito simples e muito pequenina. E fóra o seu rheumatismo...
Depois, córando d'acanhamento, atravez das sentenças evangelicas que lhe escapavam:
--Mas mesmo o rheumatismo não é mal perdido. Deus, que o manda, sabe porque o manda... Soffrer edifica. Por que enfim o que nós soffremos nos leva a pensar no que os outros soffrem...
--Pois olhe, volveu com alegre incredulidade o Administrador, eu, quando tenho os meus ataques de garganta, não penso na garganta dos outros! Penso só na minha que me dá bastante cuidado. E agora a vou regalar n'aquella bella sangria...
O escudeiro vergava, com a luzente bandeja de prata, carregada de copos de sangria onde boiavam rodellinhas de limão. E todos se tentaram, todos beberam, até Padre Sueiro, para mostrar ao Snr. Antonio Villalobos que não desdenhava o vinho, dadiva amavel de Deus--pois como ensina Tibulo com verdade, apezar de gentilico, _vinus facit dites animos, mollia corda dat_, enrija a alma e adoça o coração.
João Gouveia, depois d'um suspiro consolado, pousou na bandeja o copo que esvasiára d'um trago e interpellou Gonçalo:
--Vamos a saber! Então n'outro dia que historia phantastica foi essa d'uma festa na Torre, com senhoras, com a D. Anna Lucena?... Eu não acreditei quando o pequeno do Gago me encontrou, me deu o recado. Depois...
Mas d'entre as cortinas da janella, onde acabava a sangria, Titó novamente rebombou, interpellando tambem o Fidalgo:
--Oh sô Gonçalo! E o que me contou ha pouco o Barrôlo?... Que andavas com idéas de abalar para a Africa?
Ao espanto de João Gouveia quasi se misturou terror. Para a Africa?... O quê? Com um emprego para a Africa?...
--Não! plantar côcos! plantar cacau! plantar café! exclamava o Barrôlo, com divertidas palmadas na côxa.
Pois Titó approvava a idéa! Tambem elle, se arranjasse um capital, dez ou quinze contos, tentava a Africa, a traficar com o preto... E tambem se fôsse mais pequeno, mais secco. Que homens do seu corpanzil, necessitando muita comezaina e muita vinhaça, não aguentam a Africa, rebentam!
--O Gonçalo sim! É chupado, é rijo; não carrega na agua-ardente; está na conta para Africanista... E sempre te digo! Carreira bem mais decente que essa outra por que tens mania, de deputado! Para que? Para palmilhar na Arcada, para bajular Conselheiros.
Barrôlo concordou, com alarido. Tambem não comprehendia a teima de Gonçalo em ser deputado! Que massada! Eram logo as intrigas, e as desandas nos jornaes, e os enxovalhos. E sobretudo aturar os eleitores.
--Eu, nem que me nomeassem depois Governador Civil, com um titulo e uma gran-cruz a tiracollo, como o Freixomil!
Gonçalo escutára, n'um silencio risonho e superior, enrolando laboriosamente um cigarro com o tabaco do Barrôlo:
--Vocês não comprehendem... Vocês não conhecem a organisação de Portugal. Perguntem ahi ao Gouveia... Portugal é uma fazenda, uma bella fazenda, possuida por uma parceria. Como vocês sabem ha parcerias commerciaes e parcerias ruraes. Esta de Lisboa é uma _parceria politica_, que governa a herdade chamada Portugal... Nós os Portuguezes pertencemos todos a duas classes: uns cinco a seis milhões que trabalham na fazenda, ou vivem n'ella a olhar, como o Barrôlo, e que pagam; e uns trinta sujeitos em cima, em Lisboa, que formam a _parceria_, que recebem e que governam. Ora eu, por gosto, por necessidade, por habito de familia, desejo mandar na fazenda. Mas, para entrar na _parceria politica_, o cidadão portuguez precisa uma habilitação--ser deputado. Exactamente como, quando pretende entrar na Magistratura, necessita uma habilitação--ser bacharel. Por isso procuro começar como deputado para acabar como parceiro e governar... Não é verdade, João Gouveia?
O Administrador voltára á bandeja das sangrias, de que saboreava outro copo, agora lentamente, aos goles:
--Sim, com effeito, essa é a carreira... Candidato, Deputado, Politico, Conselheiro, Ministro, Mandarim. É a carreira... E melhor que a d'Africa. Por fim na Arcada, em Lisboa, tambem cresce cacau e ha mais sombra!
Barrôlo no emtanto abraçára o hombro possante do Titó, com quem mergulhou no vão da janella, n'uma confraternidade d'ideias, gracejando:
--Pois eu, sem ser dos taes _parceiros_, tambem mando nos bocados de Portugal que mais me interessam por que me pertencem!... E sempre queria vêr que esse S. Fulgencio, ou o Braz Victorino, ou lá os politicos do Terreiro do Paço, se mettessem a dispôr nas minhas terras, na _Ribeirinha_ ou na _Murtosa_... Era a tiro!
Encostado á vidraça, Titó coçava a barba, impressionado:
--Pois sim, Barrôlo! Mas você na _Ribeirinha_ e na _Murtosa_ tem de pagar as contribuições que elles mandarem. E n'esses concelhos tem d'aguentar as auctoridades que elles nomearem. E goza para lá d'estradas se elles lh'as fizerem. E vende o carro de pão e a pipa de vinho com mais ou menos proveito, segundo as leis que elles votarem... E assim tudo. O Gonçalo não deixa de acertar. É o diabo! Quem manda é quem lucra... Olhe! o maroto do meu senhorio em Villa-Clara, agora para o S. Miguel, augmenta a renda da casa em que eu moro, um cochicho que ninguem quer, por que mataram lá o carrasco, que ainda lá apparece... E o Cavalleiro, esse, como _parceiro_, vive de graça n'este bello palacio de S. Domingos, com cocheira, com jardim, com horta...
Barrôlo atirou um _chut_, de mão espalmada, abafando o vozeirão do Titó, com medo que as regalias do Cavalleiro, assim proclamadas, renovassem as furias de Gonçalo. Mas o Fidalgo não percebera, attento ao João Gouveia, que, enterrado no camapé depois da sangria, novamente contava o seu assombro, ao encontrar no chafariz, em Villa-Clara, o rapasola do Gago com o recado da grande festa na Torre:
--E cheguei a desconfiar que realmente você désse festa, quando bateram as nove, depois as nove e meia, e o Titó sem chegar para a ceia da D. Casimira!... Bem, pensei, tambem recebeu recado e abalou para a Torre! Por fim, apenas elle appareceu, de carapuço e de jaqueta, percebi que fôra troça do Snr. D. Gonçalo...
Então o Fidalgo pasmou com uma inesperada, estranha suspeita:
--De carapuço e jaqueta? O Titó andava n'essa noite de carapuço e de jaqueta?...
Mas bruscamente Barrôlo, da funda janella, lançou para dentro, para a sala, um brado de pavor:
--Oh! rapazes! Santo Deus! Ahi veem as Louzadas!
João Gouveia saltou do camapé, como n'um perigo, reabotoando arrebatadamente a sobrecasaca; Gonçalo, atarantado, esbarrou com o Titó e o Barrôlo que recuavam, no terror de serem apercebidos atravez dos vidros largos; até Padre Sueiro, prudente, abandonou o seu recanto onde corria os oculos pela _Gazeta do Porto_. E todos, d'entre a fenda das cortinas, como soldados na fresta de uma cidadella, espreitavam o Largo, que o sol das quatro horas dourava por sobre os telhados musgosos da Cordoaria. Do lado da rua das Pêgas, as duas Louzadas, muito esgalgadas, muito sacudidas, ambas com manteletes curtos de seda preta e vidrilhos, ambas com guardasoes de xadresinbo desbotado, avançavam, estirando pelo largo empedrado duas sombras agudas.
As duas manas Louzadas! Seccas, escuras e garrulas como cigarras, desde longos annos, em Oliveira, eram ellas as esquadrinhadoras de todas as vidas, as espalhadoras de todas as maledicencias, as tecedeiras de todas as intrigas. E na desditosa Cidade não existia nodoa, pécha, bule rachado, coração dorido, algibeira arrasada, janella entreaberta, poeira a um canto, vulto a uma esquina, chapeu estreado na missa, bolo encommendado nas Mathildes, que os seus quatro olhinhos furantes d'azeviche sujo não descortinassem--e que a sua solta lingoa, entre os dentes ralos, não commentasse com malicia estridente! D'ellas surdiam todas as cartas anonymas que infestavam o Districto: as pessoas devotas consideravam como penitencias essas visitas em que ellas durante horas galravam, abanando os braços escanifrados: e sempre por onde ellas passassem ficava latejando um sulco de desconfiança e receio. Mas quem ousaria rechaçar as duas manas Louzadas? Eram filhas do decrepito e venerando General Louzada; eram parentas do Bispo; eram poderosas na poderosa confraria do Senhor dos Passos da Penha. E depois d'uma castidade tão rigida, tão antiga e tão resequida, e por ellas tão espaventosamente alardeada--que o Marcolino do Independente as alcunhára de _Duas Mil Virgens_.
--Não veem para cá! trovejou o Titó, com immenso allivio.
Com effeito no meio do Largo, rente á grade que circumda o antigo Relogio-de-Sol, as duas manas paradas, erguiam o bico escuro, farejando e espiando a Egrejinha de S. Matheus onde o sino lançára um repique de baptisado.
--Oh, c'os diabos, que é para cá!
As Louzadas, decididas, investiam contra o portão dos Cunhaes! Então foi um panico! As gordas pernas do Barrôlo, fugindo, abalaram, quasi derrubaram sobre os contadores, os potes bojudos da India. Gonçalo bradava que se escondessem no pomar. Desconcertado, o Gouveia rebuscava com desespero o seu chapeu côco. Só o Titó, que as abominava e a quem ellas chamavam o _Polyphemo_, retirou com serenidade, abrigando o Padre Sueiro sob o seu braço forte. E já o bando espavorido se arremessára sobre o reposteiro--quando Gracinha appareceu, com um fresco vestido de sedinha côr de morango, sorrindo, pasmada, para o tropel que rolava:
--Que foi? Que foi?...
Um clamor abafado envolveu a dôce senhora ameaçada:
--As Louzadas!
--Oh!
Fugidiamente o Titó e João Gouveia apertaram a mão que ella lhes abandonou, esmorecida. A sineta do portão tilintára, temerosa! E a fila acavallada, onde Padre Sueiro rebolava a reboque, enfiou para a livraria que o Barrôlo aferrolhou, gritando ainda a Gracinha, com uma inspiração:
--Esconde as sangrias!
Pobre Gracinha! Atarantada, sem tempo de chamar o escudeiro, carregou ella para uma banqueta do corredor, n'um esforço desesperado, a pesada salva--com que as Louzadas, se a descortinassem, edificariam por sobre a cidade, e mais alta que a Torre de S. Matheus, uma historia pavorosa de «vinhaça e bebedeira». Depois, offegando, relanceou no espelho o penteado. E direita como n'uma arena, com a temeridade simples e risonha dos antigos Ramires, esperou a arremettida das manas terriveis.
* * * * *
No outro domingo, depois do almoço, Gonçalo acompanhou a irmã a casa da tia Arminda Villegas, que na vespera, ao tomar (como costumava todos os sabbados) o seu banho aos pés, se escaldára e recolhera á cama, apavorada, reclamando uma junta dos cinco cirurgiões d'Oliveira. Depois acabou o charuto sob as acacias do Terreiro da Louça, pensando na sua Novella abandonada na Torre durante essas semanas, e no lance famoso do Capitulo II que o tentava e que o assustava--o encontro de Lourenço Ramires com Lopo de Bayão, _o Bastardo_, no valle fatal de Cantapedra. E recolhia aos Cunhaes (porque promettera ao Barrôlo uma trotada a cavallo, até ao Pinhal de Estevinha, para aproveitar a doçura do domingo ennevoado) quando, na rua das Vellas, avistou o tabellião Guedes, que sahia da confeitaria das Mathildes com um grosso embrulho de pasteis. Ligeiramente, o Fidalgo atravessou logo a rua--emquanto o Guedes, da borda do passeio, pesado e barrigudo, na ponta dos botins miudinhos gaspeados de verniz, descobria, n'uma cortezia immensa, a calva, emplumada ao meio pelo famoso tufo de cabello grisalho que lhe valera a alcunha de «Guedes Pôpa»:
--Por quem é, meu caro Guedes, ponha o chapeu! Como está? Sempre féro e moço. Ainda bem!... Fallou com o meu Padre Sueiro? O Pereira da Riosa, por fim, só vem á cidade na quarta feira...
Sim! Sim! O Snr. Padre Sueiro passára pelo cartorio, para avisar--e elle apresentava os parabens a S. Ex.^a pelo seu novo rendeiro...
--Homem muito competente, o Pereira! Já ha vinte annos que o conheço... E olhe V. Ex.^a a propriedade do Conde de Monte-Agra! Ainda me lembro d'ella, um chavascal; hoje que primor! Só a vinha que elle tem plantado! Homem muito competente... E V. Ex.^a com demora?
--Dois ou tres dias... Não se atura este calor de Oliveira. Hoje, felizmente, refrescou. E que ha de novo? Como vae a politica? O amigo Guedes sempre bom Regenerador, leal e ardente, hein?
Subitamente o Tabellião, com o seu embrulho de doces conchegado ao collete de seda preta, agitou o braço gordo e curto, n'uma indignação que lhe esbraseou de sangue o pescoço, as orelhas cabelludas, a face rapada, toda a testa até ás abas do chapeu branco orlado de fumo negro:
--E quem o não ha-de ser, Snr. Gonçalo Mendes Ramires? Quem o não ha-de ser?... Pois este ultimo escandalo!
Os risonhos olhos de Gonçalo logo se alargaram, serios:
--Que escandalo?
O Tabellião recuou. Pois S. Ex.^a não sabia da ultima prepotencia do Governador Civil, do Snr. André Cavalleiro?
--O quê, caro amigo?...
O Guedes cresceu todo sobre o bico dos botins pequeninos, e bojou, e inchou, para exclamar:
--A transferencia do Noronha!... A transferencia do desgraçado Noronha!
Mas uma senhora, tambem obesa, de buço carregado, toda a estalar em ricas e rugidoras sêdas de missa, arrastando severamente pela mão um menino que rabujava, parou, fitou o Guedes--porque o digno homem com o seu ventre, o seu embrulho, a sua indignação, atravancava a entrada das Mathildes. Apressadamente, o Fidalgo levantou, para ella entrar, o fecho da porta envidraçada. Depois, n'um alvoroço:
--O amigo Guedes naturalmente vae para casa. É o meu caminho. Andamos e conversamos... Ora essa! Mas o Noronha... Que Noronha?
--O Ricardo Noronha... V. Ex.^a conhece. O pagador das Obras-Publicas!
--Ah! sim, sim... Então transferido? Transferido arbitrariamente?
Na rua das Brocas por onde desciam, no silencio, a solidão das lojas cerradas, a colera do Guedes resoou, mais solta:
--Infamemente, Snr. Gonçalo Mendes Ramires, infamissimamente! E para Almodovar, para os confins do Alemtejo!... Para uma terra sem recursos, sem distracções, sem familias!...
Parára, com os doces contra o coração, os olhinhos esbugalhados para o Fidalgo, coriscando. O Noronha! Um empregado trabalhador, honradissimo! E sem Politica, absolutamente sem Politica. Nem dos Historicos, nem dos Regeneradores. Só da familia, das tres irmãs que sustentava, tres flôres... E homem estimadissimo na cidade, cheio de prendas! Um talento immenso para a musica!... Ah! o Snr. Gonçalo Ramires não sabia? Pois compunha ao piano cousas lindas! Depois precioso para reuniões, para annos. Era elle quem organisava sempre em Oliveira as representações de curiosos...
--Porque, como ensaiador, creia V. Ex.^a que não ha outro, mesmo na capital... Não ha outro! E, zás, de repente, para Almodovar, para o Inferno, com as irmãs, com os tarecos! Só o piano!... Veja V. Ex.^a só o transporte do piano!
Gonçalo resplandecia:
--É um bello escandalo. Ora que felicidade esta de o ter encontrado, meu caro Guedes!... E não se sabe o motivo?
De novo caminhavam demoradamente pelo passeio estreito. E o tabellião encolhia os hombros, com amargura. O motivo! Publicamente, como sempre n'estas prepotencias, o motivo era a conveniencia do Serviço...
--Mas todos os amigos do Noronha, por toda a cidade, conhecem o verdadeiro motivo... O intimo, o secreto, o medonho!
--Então?