Chapter 6
Quando n'essa tarde o Fidalgo da Torre, airoso no seu fato novo de montar, polainas de couro polido, luvas de camurça branca, parou a egua ao portão da _Feitosa_--um velho todo esfarrapado, com longos cabellos cahidos pelos hombros e immensas barbas espalhadas pelo peito, immediatamente se ergueu do banco de pedra onde comia rodellas de chouriço, bebendo d'uma cabaça, para o avisar que o Sr. Sanches Lucena e a Sr.^a D. Anna andavam por fóra, de carruagem. Gonçalo pediu ao velho que puchasse o ferro da sineta. E entregando um cartão ao moço, que entreabrira a rica grade dourada, com um _S_ e um _L_ entrelaçados, sob uma corôa de conde:
--O Sr. Sanches Lucena, bem?
O Sr. Conselheiro, agora, um pouquinho melhor...
--O que? Esteve doente?
--Pois o Sr. Conselheiro, aqui ha tres ou quatro semanas, andou muito agoniado...
--Oh! Sinto muito... Diga ao Sr. Conselheiro que sinto muitissimo!
Chamou o velho que repicára a sineta para o recompensar com um tostão. E, interessado por aquellas barbaças e melenas de mendigo de Melodrama:
--Vocemecê pede esmola por estes sitios?
O homem ergueu para elle os olhos sujos, avermelhados da poeira e do sol, mas risonhos, quasi contentes:
--Tambem me chego pela Torre, meu Fidalgo. E, graças a Deus, lá me fazem muito bem.
--Então quando lá voltar diga ao Bento... Você conhece o Bento?
Se conhecia! E a Snr.^a Rosa...
--Pois diga ao Bento que lhe dê umas calças, homem! Você assim, com essas calças, não anda decente.
O velho riu, n'um riso lento e desdentado, mirando com gosto os sordidos farrapos que lhe trapejavam nas canellas, mais denegridas e seccas que galhos de inverno:
--Rôtinhas, rôtinhas... Mas o Sr. dr. Julio diz que me ficam assim bem. O Sr. dr. Julio, quando lá passo, sempre me tira o retrato na machina. Ainda na semana passada... Até com uns pedaços de grilhões dependurados do pulso, e uma espada erguida na mão... Parece que para mostrar ao Governo.
Gonçalo, rindo, picou a egua. Pensava agora em alongar por Valverde: depois recolheria por Villa-Clara, e tentaria o Gouvêa a partilhar na Torre um cabrito assado no espeto de cerejeira, para que elle na vespera, na Assembléa, convidára o Manoel Duarte e o Titó. Mas ao atravessar a «Cruz das Almas», onde a estrada de Corinde, tão linda, com as suas filas d'alamos, crusa a ladeira de Valverde, parou--notando ao fundo, para o lado de Corinde, como o confuso esbarro d'uma carrada de lenha, e uma carriola d'açougue, e uma mulher de lenço escarlate bracejando sobre a albarda d'um burro, e dous lavradores de enxada ás costas. E, de repente, todo o encalhe se despegou--a mulher trotando no seu burrinho, logo sumida n'uma volta de arvoredo; a carriola solavancando n'um rolo leve de poeira; o carro avançando para a «Cruz das Almas» a chiar tardamente; os cavadores descendo para uma chã atravez das leiras de feno... Na estrada só restou, como desamparado, um homem de jaqueta ao hombro, que se arrastava penosamente, coxeando. Gonçalo trotou, com curiosidade:
--Que foi?... Vocemecê que tem?
O homem, com a perna encolhida, levantou para Gonçalo uma face arrepanhada, quasi desmaiada, que reluzia sob as camarinhas de suor:
--Nosso Senhor lhe dê muito boas tardes, meu Fidalgo! Ora o que hade ser? Desgraças d'esta vida!
E, gemendo, contou a sua historia.--Desde mezes padecia d'uma chaga n'um tornozello, que não seccára, nem com emplastos, nem com pó de murtinhos, nem com benzeduras... E agora andava arriba, na fazenda do Sr. dr. Julio, a concertar um socalco, para ajudar um compadre tambem doente com maleitas--e, zás, desaba um pedregulho, que tópa na ferida, leva a carne, lasca o osso, o deixa n'aquella lastima!... Até rasgára a fralda para ensopar o sangue e amarrar por cima o lenço.
--Mas assim não póde andar, homem! D'onde é vocemecê?
--De Corinde, meu Fidalgo. Manoel Sôlha, do logar da Finta. Até lá, sempre me hei-de arrastar.
--E então, d'essa gente toda, que ahi estava ha bocado, ninguem o poude ajudar?... Uma carriola, dous latagões...
Uma rija guinada, no teimoso esforço de firmar a perna, arrancou um grito ao Sôlha. Mas sorriu, arquejando... Que queria o Fidalgo? Cada um, n'este mundo, tem a sua pressa... Emfim, a rapariga do burro promettêra passar pela Finta, para avisar. E talvez um dos seus rapazes apparecesse na estrada com uma eguasita que elle comprára pela Paschoa--e que, por desgraça, tambem mancava!...
Immediatamente, com um salto leve, o Fidalgo da Torre desmontou:
--Bem! Então, egua por egua, já vocemecê tem aqui esta...
O Sôlha embasbacou para Gonçalo:
--Ora essa! Santo nome de Deus!... Pois eu havia de ir a cavallo, e V. Ex.^a a pé?
Gonçalo ria:
--Homem, com essas discussões de «eu a pé» e «você a cavallo», e «faz favôr» e «não senhor», é que perdemos um tempo precioso. Monte, esteja quieto, e trote para a Finta!
O outro recuava para a valleta da estrada, sacudindo a cabeça, esgazeado, como no espanto de um sacrilegio:
--Isso é que não, meu senhor, isso é que não! Antes eu acabasse aqui á mingoa, com a chaga em bolor!
Gonçalo bateu o pé, com auctoridade:
--Monte, que mando eu! Vocemecê é um lavrador de enxada, eu sou um Doutor formado em Coimbra, sou eu que sei, sou eu que mando!
E o Sôlha, logo submisso ante aquella força deslumbrante do Saber superior, agarrou em silencio a crina da egua, enfiou respeitosamente o estribo, ajudado pelo Fidalgo, que, sem tirar as luvas brancas, lhe amparava o pé entrapado e manchado de sangue.
Depois, quando elle repousou no sellim com um _ah!_ consolado:
--Então que tal?
O homem só murmurava o nome de Nosso Senhor, na gratidão e no assombro d'aquella caridade:
--Mas isto é a volta do mundo... Eu aqui, na egua do Fidalgo! E o Fidalgo, o Sr. Gonçalo Ramires, da Torre, a pé pela estrada!
Gonçalo gracejou. E, para entreter a caminhada, perguntou pela quinta do Dr. Julio, que agora se arrojára a obras e plantações de vinha. Depois, como o Manoel Sôlha conhecia o Pereira Brasileiro (que pensára em arrendar as terras do Dr. Julio), conversaram sobre esse esperto homem, sobre as grandezas da _Cortiga_. Já sem embaraço, direito no sellim, no gosto d'aquella intimidade com o Fidalgo da Torre, o Sôlha esquecia a chaga, a dôr que adormentára. E á estribeira do Sôlha, attento e sorrindo, o Fidalgo estugava o passo na poeira branca.
Assim se avizinhavam da _Bica-Santa_, um dos sitios decantados d'aquellas cercanias formosas. Ahi a estrada, cortada na encosta d'um monte, alarga e fórma um arejado terraço, d'onde se abrange todo o valle de Corinde, tão rico em casaes, em arvoredos, em seáras, em aguas. No pendor do monte, coberto de carvalhos e de fragas musgosas, bróta a fonte nomeada, que já em tempos d'El-Rei D. João V curava males d'entranhas--e que uma devota senhora de Corinde, D. Rosa Miranda Carneiro, mandou encanar desde o alto até a um tanque de marmore, onde agora corre beneficamente, por uma bica de bronze, sob a imagem e patrocinio de Santa Rosa de Lima. De cada lado do tanque se encurvam dous compridos bancos de pedra, que a espalhada ramaria das carvalheiras tolda de sombra e frescura. É um suave retiro onde se apanham violetas, se comem merendas, e senhoras dos arredores se sentam em rancho, nas tardinhas de domingo, escutando os melros, gozando a povoada, luminosa e verdejante largueza do valle.
Antes porém de desembocar na _Bica-Santa_, e perto do logar do Serdal, a estrada de Corinde quebra n'uma volta:--e, ahi, de repente, a egua pulou, n'um reparo, que obrigou o Fidalgo da Torre, desconfiado da pericia do Sôlha, a deitar a mão á caimba do freio. Fôra o encontro inesperado d'uma carruagem--uma caleche forrada d'azul, com a parelha coberta de rêdes brancas contra a môsca, e na almofada, têzo, um cocheiro de bigode, farda de golla escarlate e chapéo de tópe amarello. E Gonçalo mantinha ainda a egua pelo freio, como arrieiro serviçal em trilho perigoso--quando avistou, sentado n'um dos bancos de pedra, junto da Bica, com um chale-manta por cima dos joelhos, o velho Sanches Lucena. Ao lado o trintanario, agachado, esfregava com um mólho d'herva a botina que a bella D. Anna lhe estendia, apanhando o vestido de linho crú, apoiando a outra mão, sem luva, na cinta vergada e fina.
A desconcertada apparição do Fidalgo da Torre, puxando pela rédea a sua egua onde se escarranchava regaladamente um cavador em mangas de camisa, alvorotou aquelle repousado e dormente recanto da _Bica_. Sanches Lucena esbugalhava os olhos, esbugalhava os oculos, n'um arremesso de curiosidade que o levantára, com o pescoço esticado, o chale-manta escorregado para a relva. D. Anna recolheu bruscamente a botina, logo empertigada, na gravidade condigna da senhora da _Feitosa_, retomando como uma insignia o cabo d'ouro da luneta d'ouro, suspensa por um cordão d'ouro. E até o trintanario ria pasmadamente para o Sôlha.
Mas já, com o seu desembaraço elegante, Gonçalo, n'um relance, saudára D. Anna, apertava com fervor a mão espantada do Sanches Lucena, e, alegremente se congratulava por aquelle encontro ditoso! Pois vinha justamente da _Feitosa_! E ahi soubera com desgosto, por um moço da quinta decerto exagerado, que o Sr. Conselheiro nas ultimas semanas andára doente... E, então como estava? como estava?--Oh! a physionomia era excellente!
--Pois não é verdade, Sr.^a D. Anna? O aspecto é excellente!
Com um leve requebro da cabeça, um fofo ondear do mólho de plumas brancas sobre o chapéo de palha vermelha, ella volveu n'uma voz rolada, lenta e gorda, que arripiou Gonçalo:
--O Sanches agora, graças a Deus, desfructa melhor saude...
--Um pouco melhor, sim, com effeito, muito agradecido a V. Ex.^a, Sr. Gonçalo Ramires! murmurou o descarnado e corcovado homem, repuxando para os joelhos o chale-manta.
E, com os oculos a luzir, cravados em Gonçalo, na curiosidade que o abrazava, quasi lhe rosára a face afilada, mais amarella que um cirio:
--Mas, com perdão de V. Ex.^a! como é que V. Ex.^a anda por aqui, pela estrada de Corinde, n'este estado, a pé, trazendo á rédea um lavrador de enxada?...
Rindo, sobretudo para D. Anna, cujos olhos formosamente negros, d'uma funda refulgencia liquida, tambem esperavam, serios e reservados, Gonçalo contou o desastre do bom homem, que encontrára no caminho gemendo, arrastando a perna escalavrada...
--De sorte que lhe offereci a minha egua... E até, se V. Ex.^a me permitte, minha senhora, é necessario que eu combine com elle o resto da jornada...
Rapidamente, voltou ao Sôlha, que, de novo acanhado ante os senhores da _Feitosa_, com o chapeu na mão, encolhido sobre o sellim, como attenuando a sua grandeza, logo se desestribou para desmontar. Mas já Gonçalo lhe ordenava que trotasse para a Finta--e lhe mandasse a egua por um dos seus rapazes, alli á Bica-Santa, onde elle se demorava com o Snr. Conselheiro. E quando o Sôlha largou, saudando desabaladamente, torcido, como impellido a seu pezar pelos acenos risonhos com que o Fidalgo o despedia, o assombro do Sanches Lucena recomeçou:
--Ora uma cousa d'estas! Eu tudo esperaria, tudo, menos o Sr. Gonçalo Mendes Ramires a trazer á rédea, pela estrada de Corinde, um cavador d'enxada! É a repetição do Bom Samaritano... Mas para melhor!
Gonçalo gracejou, sentado no banco, junto de Sanches Lucena.--Oh! o Bom Samaritano não merecera uma pagina tão amavel no Evangelho sómente por offerecer o burro a um Levita doente: decerto mostrára virtudes mais bellas...--E sorrindo para D. Anna, que, do outro lado de Sanches Lucena, espalhava a luneta, com lentidão magestosa, pelas arvores e pela Fonte que tão bem conhecia:
--Ha dous annos, minha senhora, que eu não tenho a honra...
Mas Sanches Lucena despediu um grito:
--Oh! Sr. Gonçalo Ramires! V. Ex.^a traz sangue na mão!
O Fidalgo reparou, espantado. Sobre a luva de camurça branca resaltavam duas manchas arroxeadas:
--Não é sangue meu! foi naturalmente quando o Sôlha montou, e eu lhe segurei o pé escalavrado...
Arrancou a luva, que arremessou para as hervas bravas, por traz do banco de pedra. E continuando o sorriso:
--Com effeito, não tenho a honra de encontrar a V. Ex.^a, minha senhora, desde o baile do barão das Marges, em Oliveira, o famoso baile de Entrudo... Ha mais de dois annos, era eu estudante. E ainda me recordo que V. Ex.^a estava vestida esplendidamente de Catharina da Russia...
E, emquanto a envolvia no sorrir dos olhos finos e meigos, pensava:--«Formosa creatura! mas ordinaria! e que voz!...» D. Anna tambem se recordava do baile dos Marges:
--O cavalheiro, porém, está equivocado. Eu não fui de Russa, fui de Imperatriz...
--Sim, d'Imperatriz da Russia, de Grande Catharina... E com um gosto! com um luxo!
Sanches Lucena voltou vagarosamente para Gonçalo os oculos d'ouro, apontou um dedo alongado e livido:
--Pois tambem eu me lembro que sua mana, e minha senhora, a Sr.^a D. Graça, trazia um trage de lavradeira de Vianna... Foi uma luzidissima festa; nem admira; o nosso Marges é sempre primoroso... E desde essa noite não tornei a encontrar a mana de V. Ex.^a em intimidade. Apenas de longe, na missa...
De resto pouco residia agora em Oliveira, apesar de conservar a casa montada, creadagem e cocheira--porque, ou culpa do ar ou culpa da agua, não se dava bem na Cidade.
Gonçalo acalorou mais o seu interesse:
--Mas então, realmente, V. Ex.^a o que tem tido?
Sanches Lucena sorriu, com amargura. Os medicos, em Lisboa, não se entendiam. Uns attribuiam ao estomago--outros attribuiam ao coração. Portanto, aqui ou alli, viscera essencial atacada. E soffria crises--más crises... Emfim, com a graça de Deus, e regimen, e leite, e descanço, ainda esperava arrastar uns annos.
--Oh! com certeza! exclamou Gonçalo alegremente. E V. Ex.^a não pensa que a estada em Lisboa, e as Camaras, e a Politica, a terrivel Politica, o fatiguem, o agitem?...
Não, pelo contrario, Sanches Lucena passava toleravelmente em Lisboa. Melhor mesmo que na _Feitosa_! Depois, gostava d'aquella distracção das Camaras. E como conservava amigos na Capital, uma roda escolhida, uma roda fina...
--Um d'esses nossos excellentes amigos, V. Ex.^a decerto conhece. Elle é parente de V. Ex.^a... O D. João da Pedrosa.
Gonçalo, alheio ao homem, mesmo ao nome, murmurou polidamente:
--Sim, o D. João, decerto...
E Sanches Lucena, passando pelas suissas brancas a mão magrissima, quasi transparente, onde reluzia um enorme annel d'armas de saphira:
--E não sómente o D. João... Outro dos nossos amigos é egualmente parente de V. Ex.^a, e chegado. Muitas vezes temos fallado de V. Ex.^a, e da sua casa. Que elle pertence tambem á primeira nobreza... É o Arronches Manrique.
--Cavalheiro muito dado, muito divertido! accrescentou D. Anna, com uma convicção que lhe alteou o peito, a que o corpete justo marcava a força viçosa e a perfeição.
A Gonçalo tambem nunca chegára esse nome sonóro. Mas não hesitou:
--Sim, perfeitamente, o Manrique... De resto, eu tenho tantos parentes em Lisboa, e vou tão pouco a Lisboa!... E V. Ex.^a, Sr.^a D. Anna...
Mas o Sanches Lucena insistia, deliciado n'aquella conversa de parentescos fidalgos:
--V. Ex.^a, naturalmente, tem em Lisboa toda a sua parentella historica. Assim eu creio que V. Ex.^a é primo do Duque de Lourençal... O Duarte Lourençal! Elle não usa o titulo, por Miguelismo, ou antes por habito: mas emfim é o legitimo Duque de Lourençal. É quem representa a casa de Lourençal.
Gonçalo, sorrindo attentamente, desabotoára o fraque, procurava a sua velha charuteira de couro.
--Sim, com effeito, o Duarte... Somos primos. Diz elle que somos primos. E eu acredito. Entendo tão pouco d'arvores de costado!... De facto as casas em Portugal andam muito cruzadas; todos somos parentes, não só pelo lado d'Adão, mas pelos Godos... E V. Ex.^a, Sr.^a D. Anna, prefere a estada em Lisboa?
Mas, reparando que escolhera um charuto, distrahidamente o trincára:
--Oh! perdão minha senhora... Ia fumar sem saber se V. Ex.^a...
Ella saudou, descendo as longas pestanas:
--O cavalheiro póde fumar; o Sanches não fuma, mas eu até aprecio o cheiro.
Gonçalo agradeceu, enjoado com aquella voz redonda e gorda, aquelles horrendos «_cavalheiro, o cavalheiro_!...» Mas pensava:--«que linda pelle! que bella creatura!...» E Sanches Lucena, inexoravel, estendera o dedo agudo:
--Pois eu conheço muito, não o Sr. D. Duarte Lourençal, não tenho essa subida honra por ora, mas seu irmão, o Sr. D. Philippe. Cavalheiro estimabilissimo, como V. Ex.^a decerto sabe... E depois, que talento... Que talento, no cornetim!
--Ah!
--O quê! V. Ex.^a não ouviu seu primo, o Sr. D. Philippe Lourençal, tocar cornetim?
E até a bella D. Anna se animou, com um sorriso languido dos beiços cheios, mais vermelhos que cerejas maduras sobre o fresco rebrilho dos dentes pequeninos:
--Oh! tóca ricamente! O Sanches gosta muito de musica; eu tambem... Mas, como V. Ex.^a comprehende, qui na aldéa, com a falta de recursos...
Gonçalo, arremessando o phosphoro, exclamára logo, n'um sincero interesse:
--Então, queria que V. Ex.^a ouvisse um amigo meu, que é verdadeiramente sublime no violão, o Videirinha!...
Sanches Lucena estranhou o nome, a sua vulgaridade. E o Fidalgo, singelamente:
--É um rapaz muito meu amigo, de Villa-Clara... O José Videira, ajudante da Pharmacia...
Os oculos de Sanches Lucena cresceram de puro espanto:
--Ajudante da Pharmacia e amigo do Sr. Gonçalo Mendes Ramires!
Sim, desde estudante, dos exames do Lyceu. Até o Videirinha passava as ferias na Torre, com a mãe, antiga costureira da casa. Tão bom rapaz, tão simples... E na realidade, no violão, um genio!
--Agora tem elle uma cantiga admiravel que chamou o _Fado dos Ramires_. A musica é com effeito um fado de Coimbra, um fado conhecido. Mas os versos são d'elle, umas quadras engraçadas sobre cousas da minha Casa, lendas, patranhas... Pois ficou sublime! Ainda ha dias na Torre, comigo e com o Titó...
E a este nome, familiar e menineiro, Sanches Lucena mostrou outro reparo:
--O Titó?
O Fidalgo ria:
--É uma velha alcunha d'amizade que nós damos ao Antonio Villalobos.
Então Sanches Lucena atirou ambos os braços, como se alguem muito querido apparecesse na estrada:
--O Antonio Villalobos! Mas esse é um dos nossos fieis e bons amigos! Cavalheiro estimabilissimo! Quasi todas as semanas nos faz o favor de apparecer pela _Feitosa_...
E agora era o Fidalgo que pasmava ante essa intimidade a que nunca o Titó alludira, quando no Gago, na Torre, na Assembléa, se berrava, politicando, o nome do Sanches Lucena!
--Ah V. Ex.^a conhece...
Mas D. Anna, que se erguera bruscamente do banco, e, debruçada, recolhia a luva e a sombrinha--lembrou ao marido o estriar lento da tarde, a neblina subindo sempre áquella hora do valle aquecido:
--Sabes que nunca te faz bem... E tambem não faz bem á parelha, assim parada, ha tanto tempo.
Immediatamente Sanches Lucena, receioso, puxára da algibeira um espesso lenço de sêda branca para abafar o pescoço. E, receioso tambem pela parelha, logo se arrancou pesadamente do banco de pedra, com um aceno cançado ao trintanario para apanhar o chale, avisar o cocheiro. Mas ainda atravessou, vergado e arrimado á bengala, para o parapeito que resguarda a estrada sobre o despenhado pendor do monte, dominando o valle. E confessava a Gonçalo que aquelle era, nos arredores da _Feitosa_, o seu passeio preferido. Não só pela belleza do sitio, já cantado pelo «nosso mavioso Cunha Torres»;--mas porque do terraço da Bica, sem esforço, sentado no banco, avistava n'uma largueza terras suas:
--Olhe V. Ex.^a... Para além d'aquelle souto, até á chã e ao comoro onde está a casota amarella e por traz o pinhal, tudo é meu... O pinhal ainda é meu... Acolá, do renque d'álamos para deante, depois do lameiro, é tambem meu... Alli, do lado da ermida, pertence ao Monte-Agra... Mas, mais para lá, passado o azinhal, pelo monte acima, é tudo meu!
O livido dedo, o braço escanifrado na manga de casimira preta, cresciam por sobre o valle.--Além os pastos... Adeante os centeios... Depois o bravio...--Tudo d'elle! E, por traz da magra figura alquebrada, de chapéo enterrado na nuca, o abafo de seda subido até ás pallidas orelhas quasi despegadas, D. Anna, esvelta, clara e sã como um marmore, com um sorriso esquecido nos labios gulosos, o formoso peito mais cheio, acompanhava a enumeração copiosa, affincava a luneta sobre os pastos, e os pinhaes, e os centeios, sentindo já--tudo d'ella!
--E agora acolá, detraz do olival, concluiu Sanches Lucena com respeito, é sitio seu, Sr. Gonçalo Mendes Ramires...
--Meu?...
--De V. Ex.^a, quero dizer, ligado á casa de V. Ex.^a. Pois não reconhece?... Além, por traz do moinho, passa a estrada de Santa Maria de Craquêde. São os tumulos dos seus antepassados... Passeio que eu tambem ás vezes faço, e com gosto. Ainda ha um mez visitamos detidamente as ruinas. E acredite que fiquei impressionado! Aquelle bocado de claustro tão antigo, os grandes esquifes de pedra, a espada chumbada á abobada por cima do tumulo do meio... É de commover! E achei muito bonito, muito filial, da parte de V. Ex.^a, o ter sempre aquela lampada de bronze accêsa de noite e de dia...
Gonçalo engrolou um murmurio risonho--porque não se recordava da espada, nunca recommendára a lampada. Mas Sanches Lucena, agora, supplicava um precioso favor ao snr. Gonçalo Mendes Ramires. E era que S. Ex.^a lhe concedesse a honra de o conduzir na carruagem á Torre... Alvoroçadamente Gonçalo recusou. Nem podia! combinára com o homem da perna dorida esperar alli, na Bica, pela sua egoa.
--Mas fica aqui o meu trintanario, que leva a egoa de V. Ex.^a á Torre.
--Não, não, se V. Ex.^a me permitte, eu espero... Depois metto pelo atalho da Crassa, porque tenho ás oito horas na Torre, á minha espera para jantar, o Titó.
D. Anna, do meio da estrada, apressou logo o marido sacudidamente, com a ameaça renovada da friagem, do relento... Mas, junto da caleche, Sanches Lucena ainda emperrou para affirmar a Gonçalo, com a descarnada mão sobre o encovado peito, que aquella tarde lhe ficava celebre...
--Porque vi uma cousa que poucas vezes se terá visto: o maior fidalgo de Portugal, a pé pela estrada de Corinde, levando á rédea no seu proprio cavallo um cavador de enxada!
Ajudado por Gonçalo, trepou emfim pesadamente ao estribo. D. Anna já se enterrára nas almofadas, alçando entre as mãos, como uma insignia, o cabo rebrilhante da luneta d'ouro. O trintanario tambem se entezou, cruzou os braços: e a caleche apparatosa, com as manchas brancas das rêdes dos cavallos, mergulhou no silencio e na penumbra da estrada, sob a espalhada ramaria das faias.
«Que massada!» exclamou Gonçalo. E não se consolava de tarde tão linda assim desperdiçada... Intoleravel, esse Sanches Lucena, com o Snr. D. Fulano e o Snr. D. Sicrano, e a sua gula de «róda fina», e «tudo d'elle» por collina e valle! A mulher, explendida péça de carne, como filha de carniceiro,--mas sem migalha de graça ou alma. E que voz, Jesus, que voz! Gente pedante e sabuja...--E agora só desejava recuperar a sua egoa, galopar para a Torre, e desabafar com o Titó, familiar da _Feitosa_! o seu ásco por toda aquella Sancharia.
A egoa não tardou, a tróte largo, montada pelo filho do Sôlha, que, ao avistar o Fidalgo, saltou á estrada, de chapeu na mão, encouchado e encarnado, balbuciando que o pae chegára bem, pedia a Nosso Senhor lhe pagasse a caridade...
--Bem, bem! Recados a teu pae. Que estimo as melhoras. Lá mandarei saber.
N'um pulo montára--galopava pelo facil atalho da Crassa. Mas, deante do portão da Torre, encontrou um moço do Gago, com um bilhete do Titó, annunciando que não podia jantar na Torre porque partia n'essa semana para Oliveira!
--Que disparate! Para Oliveira tambem eu parto; mas janto hoje! Até combinavamos, o levava na carruagem... Elle que ficou a fazer, o Snr. D. Antonio?
O rapaz coçou pensativamente a cabeça:
--O Snr. D. Antonio passou lá por casa para eu trazer o bilhete ao Fidalgo... Depois, creio que tem festa, porque entrou defronte no tio Cosme fogueteiro, a comprar bichas de rabear...